As respostas de Deus no silêncio da alma
- A cruz da espera e o silêncio de DeusA resposta vaga do Papa · Sofrimento que purifica · Caminhar na obscuridade da fé · Jesus dormindo no barco · O brinquedinho de Jesus
- Aprendizagem do abandono em DeusAceitar a liberdade de Deus · Amor próprio vs. abandono verdadeiro · Entrega em vez de sentir muito · Valor do tempo na formação espiritual · Crescimento espiritual lento
- Proteção e Nutrição dos SonhosDeus purifica nossos sonhos · Querer Deus por Ele mesmo · Preparação do coração · Confiança humilde e perseverante
- Expectativas sobre AnittaAmor apoiado em consolações · Purificação do olhar da alma · Vaidade das grandezas humanas · Superficialidade de aparências brilhantes · Fragilidade das coisas criadas
- A beleza criada e o desejo do céuContemplação da beleza · Desapego como amor livre · Absolutizar a criatura · Desejo do céu
- Papel dos Sacerdotes e do Sumo SacerdoteIdealização infantil vs. amor maduro · Amor a pessoas reais · Vocação de Teresinha · Oração pelos sacerdotes
Olá meus queridos ouvintes, sejam bem-vindos novamente ao nosso canal Diálogos da Montanha. Hoje seguiremos em nosso mergulho em Santa Teresinha, em nossas reflexões sobre a história de uma alma. Especificamente hoje, meditaremos sobre o capítulo 6º, que tem muito a nos dizer.
Existe um momento muito particular na vida espiritual em que Deus começa a retirar da nossa frente certas idealizações. Não porque queira nos tornar frios, pessimistas ou desconfiados, mas porque deseja conduzir a alma por um amor mais verdadeiro.
Até certo ponto da caminhada, nós amamos a Deus, ainda muito apoiados em consolações, em imagens belas, em sentimentos, em sensações, em seguranças humanas. Mas chega o momento em que o Senhor começa a purificar o olhar da alma.
E o capítulo 6 da história de uma alma é profundamente a respeito disso. Uma grande purificação do olhar.
Teresinha inicia esse capítulo falando da viagem a Roma. Exteriormente, é uma peregrinação magnífica. Igrejas, basílicas, obras de arte, cidades históricas, o encontro com o Papa. Tudo parece extraordinário. Mas, interiormente...
Deus está realizando nela outra peregrinação, muito mais profunda. Enquanto seus olhos contemplam o esplendor do mundo, da arte e da igreja, sua alma começa lentamente a atravessar um despojamento. Ela mesma diz que essa viagem lhe ensinou muito mais do que muitos anos de estudo.
E isso é muito significativo, porque há coisas que não aprendemos lendo, mas sendo conduzidos por Deus através das experiências concretas da vida. São João da Cruz dizia que Deus conduz a alma por caminhos que ela não conhece. A pessoa imagina que está indo em busca de uma coisa, mas Deus está realizando outra.
Terezinha pensa que vai a Roma para resolver sua entrada no Carmelo. Mas Deus, Deus quer fazer algo mais profundo. Quer libertá-la de certas seguranças humanas para que sua confiança se apoie somente nele. Logo no início, ela fala da vaidade das grandezas humanas.
aquela nobreza toda que compunha a Romaria, os títulos, os nomes importantes. Tudo isso, visto de perto, perde o brilho. É impressionante como Terezinha percebe, meus irmãos, rapidamente a superficialidade de certas coisas que, vistas de longe, pareciam fascinantes.
Isso é muito humano. Quantas vezes imaginamos que determinada posição, determinado reconhecimento, determinada realidade possui uma consistência quase absoluta. Até que nos aproximamos e percebemos que existe muito vazio escondido sob aparências brilhantes.
Santa Teresa de Jesus dizia algo semelhante. Em vários momentos do livro da vida, ela fala da pobreza das honras humanas. Não de maneira amarga. Ela simplesmente percebe que aquilo não sustenta o coração.
Num poema conhecido dela, ela diz que tudo passa, tudo passa. E São João da Cruz vai ainda mais longe, quando afirma que toda beleza criada é insuficiente para o desejo infinito da alma.
O problema não está nas coisas criadas, mas no fato de esperarmos dela aquilo que só Deus pode dar. Terezinha começa a perceber isso concretamente. A viagem lhe mostra a beleza da criação, da arte, das cidades, mas também a fragilidade de tudo isso.
E aqui aparece uma característica muito bonita na espiritualidade de Santa Teresinha. Ela não despreza a beleza do mundo. Pelo contrário, ela contempla profundamente as montanhas da Suíça, os lagos, as igrejas, as obras de arte. O coração dela se dilata diante da beleza.
Mas a beleza criada não a aprisiona, ela a atravessa. Tudo se torna a transparência de Deus. Dizia São João da Cruz que a criação é como um rastro da passagem de Deus. As criaturas possuem vestígios do Criador, mas não são o Criador.
Por isso, a alma não deve se deter nelas, mas deixar-se conduzir através delas. E é exatamente isso que acontece com Terezinha.
Diante das montanhas, dos lagos, dos céus imensos, ela não cai num sentimentalismo vazio. Aquela contemplação desperta nela o desejo do céu. O coração dela vai sendo arrancado das pequenas satisfações para desejar algo muito, muito maior. Talvez seja interessante nós pararmos um pouco aqui.
Porque muita gente imagina que desapego significa insensibilidade. Não significa. Os santos não amavam menos as coisas belas. Eles amavam de maneira mais livre. O problema, meus irmãos, não é amar as criaturas. O problema é tentar fazer delas um absoluto.
E o que significa isso? O que significa absolutizar uma criatura? E quando eu falo criatura aqui, eu se refiro a toda a nossa relação com a vida. A criatura pode ser...
Gostar de viajar pode ser os meus filhos, pode ser os meus pais, pode ser o meu trabalho, pode ser a minha vontade de passar em um concurso, pode ser tantas coisas.
Claro, uma coisa é você estar com as criaturas, você desejar vivenciar, você desejar ter metas. Isso não é problema algum. O problema é quando aquilo se torna tão importante que ela rouba o lugar de Deus.
Não há nada mais importante na sua vida do que ter, do que possuir aquilo que você deseja tanto. Mas, sobre esse assunto, em algum momento retornaremos. Passemos para frente. Terezinha começa então a experimentar outra purificação muito delicada, a dos sacerdotes.
Ela mesma confessa que antes os via puros como cristal. E a viagem a Roma lhe mostra algo muito doloroso. Os padres também são frágeis. Também são homens pobres. Também necessitam de oração. Isso não destrói sua fé.
Isso amadurece a sua visão da igreja. Aqui há algo muito profundo espiritualmente que vale a pena ressaltar. Uma alma infantil idealiza. Já uma alma amadurecida aprende a amar.
mesmo vendo a fragilidade do outro. É muito fácil amar imagens perfeitas. Difícil é amar pessoas reais.
Talvez um dos grandes sofrimentos espirituais da nossa época seja justamente esse. Muita gente perde a fé porque descobriu que homens da igreja são pecadores. Mas no fundo, isso revela que a confiança estava excessivamente apoiada nos homens. Terezinha sofre essa desilusão sem cair no escândalo.
Pelo contrário, ela descobre sua vocação ainda mais profundamente. Ela compreende por que o Carmelo existe. E isso é belíssimo. Até então, rezar pelos pecadores a entusiasmava. Mas rezar pelos padres lhe parecia estranho.
Agora ela entende. Os sacerdotes carregam um tesouro infinito em vasos frágeis. E justamente por isso precisam desesperadamente de oração. Meus queridos irmãos, agora um apelo direto a cada um que me ouve.
Rezemos pelos nossos sacerdotes, pelos nossos bispos, pelos nossos religiosos, pelo nosso clero. Lembre-se sempre do seu paroco, do seu sacerdote mais próximo. Aqueles que levam a palavra de Deus, que são os pastores do rebanho.
Mas, voltemos. Nessa questão, existe uma proximidade muito profunda com Santa Teresa de Jesus, que eu acho que vale a pena falar. Toda reforma carmelitana, ela nasceu num contexto de crise da igreja.
Teresa de Jesus sofre pela divisão da cristandade, pelos pecados dentro da igreja, pela tibieza espiritual. E qual é a sua resposta? Não foi revolta, não foi agressividade, não foi superioridade moral, foi entrega, foi oração, foi oferecer a própria vida.
Terezinha entra exatamente nessa corrente espiritual do Carmelo. Ela torna-se apóstola dos apóstolos. Sustentar invisivelmente aqueles que sustentam as almas. E depois vem Roma. E aqui o capítulo muda.
Ditam, porque Roma era o grande objetivo exterior da viagem. E Teresinha chega cheia de esperança. Ela acredita que ali encontrará a solução da sua entrada no carneto. Há uma expectativa enorme no coração dela. Mas Deus prepara uma cruz.
E talvez uma das coisas mais dolorosas da vida espiritual seja quando fazemos tudo o que parecia certo. E mesmo assim, Deus permanece silencioso. Terezinha vai até o Papa. Ela rompe a sua timidez. Ela insiste. Ela suplica. Ela coloca ali toda a sua esperança.
E recebe uma resposta aparentemente vaga. Entrareis se Deus quiser. Humanamente, aquilo parece insuficiente. Ela sai chorando, interiormente esmagada. Mas reparem uma coisa muito importante. Ela sofre, mas permanece em paz no fundo da alma.
Isso é muito diferente do desespero. Existe um sofrimento que destrói a alma, porque ela perdeu Deus. E existe um sofrimento que purifica, porque Deus permanece escondido dentro dele. São João da Cruz fala muito disso.
Há momentos em que Deus parece ausente, justamente porque está operando mais profundamente. A alma já não consegue apoiar-se em sinais claros, em consolações ou respostas imediates. Ela precisa aprender a caminhar na obscuridade da fé.
E Teresinha começa aqui uma aprendizagem muito importante. Deus não é obrigado a nos consolar para nos conduzir. Ela mesma diz que Jesus parecia dormir. Que imagem forte, meus irmãos, que imagem forte. Isso recorda imediatamente o Evangelho da Tempestade.
Cristo dormindo no barco enquanto os discípulos se desesperam. Exteriormente, silêncio. Interiormente, abandono. Mas esse silêncio não significa ausência. E aqui aparece um dos símbolos mais belos desse capítulo. O brinquedinho de Jesus.
Terezinha diz que queria ser o brinquedo do menino Jesus. Não um brinquedo caro, delicado, que ninguém toca. Mas uma bolinha simples que ele pudesse lançar, apertar, apertar contra o coração e deixar num canto qualquer.
Isso nos fala de uma beleza espiritual espetacular. Porque ela começa a aceitar não apenas as consolações de Deus, mas também a sua liberdade. A liberdade de Deus. Enquanto amamos a Deus, somente quando Ele nos consola,
Ainda existe muito amor próprio escondido. O verdadeiro abandono começa quando aceitamos permanecer nas mãos dele, mesmo sem compreender o que ele está fazendo. Santa Teresa de Jesus dizia que o amor verdadeiro não consiste em sentir muito, mas em entregar-se muito.
E Teresinha começa justamente a atravessar essa passagem. O desejo de ser consolada para o desejo de pertencer inteiramente.
Por isso o capítulo inteiro possui esse movimento estranho entre beleza e dor. Há igrejas magníficas, paisagens extraordinárias, lugares santos, mas interiormente a alma vai sendo conduzida ao desapego. E então chegamos talvez ao coração oculto desse capítulo, a aprendizagem do abandono.
Ela volta da viagem sem ter conseguido o que queria. O Carmelo continua fechado para ela. A espera continua. O silêncio continua. Mas algo mudou dentro dela.
Antes, ela precisava que tudo acontecesse no tempo dela. Agora, começa a aprender a permanecer nas mãos de Deus, sem controlar os caminhos. Ah, isso não aconteceu sem sofrimento. Ela chora, ela sente o peso da demora. Ela experimenta a aridez, mas sua alma vai se tornando mais livre.
Existe uma frase muito discreta no final do capítulo, mas profundamente importante. Ela diz que aqueles meses de espera lhe ensinaram o valor do tempo. Isso parece pequeno, mas não é. Porque a alma imatura quer possuir imediatamente aquilo que deseja.
Já a alma amadurecida aprende a deixar Deus agir lentamente. E aqui talvez esteja uma palavra muito necessária para nós, para a nossa vida moderna.
Nós vivemos tentando resolver tudo rapidamente. Queremos respostas imediatas, consolações imediatas, soluções imediatas. Mas Deus, Deus trabalha devagar, meus queridos. O crescimento espiritual é lento.
A purificação do coração é lenta. O desapego é lento. E muitas vezes aquilo que chamamos de atraso é justamente o lugar onde Deus está nos formando. No fim desse capítulo, Teresinha ainda não entrou no carmelo. Exteriormente, pouca coisa mudou, mas interiormente, muito.
O olhar dela amadureceu. A confiança dela foi purificada. Seu amor tornou-se menos apoiado em certezas humanas. E talvez seja exatamente isso que Deus faz conosco também. Ele não destrói nossos sonhos. Ele os purifica. Porque uma coisa é querer Deus pelos dons.
Outra coisa é querer Deus por ele mesmo. E toda vida espiritual consiste nessa passagem. Foi assim para Terezinha e é assim em nossas vidas também. Isso fala muito, muito profundo, a respeito da nossa própria vida espiritual. Porque no fim das contas, Terezinha não volta de Roma com aquilo que ela queria.
Não há um triunfo imediato, não há portas escancaradas, não há aquela sensação de agora tudo finalmente se resolveu. Pelo contrário, ela volta com o coração ferido, atravessando o silêncio, demora e incompreensão.
E é exatamente aí que começa uma maturidade espiritual. Enquanto Deus nos conduz através de consolações, ainda é relativamente fácil caminhar. Difícil é continuar avançando quando Ele parece dormir.
Difícil é continuar confiando quando não entendemos os caminhos Difícil é permanecer abandonado quando tudo em nós gostaria de tomar o controle da situação E no entanto, é nesse ponto que Terezinha começa a se tornar verdadeiramente Terezinha Terezinha
Não a santa das imagens delicadas, não a santa sentimentalizada e adocicada que às vezes vemos por aí retratada. Mas essa alma concreta, profundamente humana, que sofre, chora, sente o peso da espera e mesmo assim continua escolhendo confiar.
João da Cruz diz que a fé é justamente um escuro para o entendimento. Deus nem sempre ilumina o caminho inteiro. Às vezes, Ele apenas pede o próximo passo. E Teresa de Jesus insistia que o importante não é sentir-se forte, mas determinar-se a não voltar atrás. É isso que vemos aqui.
Terezinha já não está sendo conduzida apenas pelas doçuras da infância espiritual. Deus começa a introduzi-la numa relação mais nua, mais profunda, mais livre. Uma relação onde o amor aprende a permanecer, mesmo sem recompensa imediata.
E esse é um dos maiores ensinamentos desse capítulo para nós. Há momentos em que a vida parece avançar. Há momentos em que tudo parece florescer. Mas existem também épocas...
em que Deus permite portas fechadas, longas esperas, respostas incompletas, silêncios que não entendemos. E nesses momentos, somos tentados a pensar que Ele nos abandonou. Mas não. O Cristo silencioso continua presente no barco.
O menino Jesus, que parecia dormir, continua segurando a pequena bolinha nas mãos. Talvez hoje você esteja vivendo exatamente isso, meu irmão, minha irmã. Uma espera que não entende. Uma oração aparentemente sem resposta. Um caminho que parece travado.
Talvez você tenha feito tudo o que podia e ainda assim Deus permaneça silencioso. Teresinha nos mostra que esse silêncio não significa ausência. Às vezes, Deus está justamente aprofundando a alma através da demora. Porque existem graças que só nascem quando nossas falsas seguranças começam a cair.
Existem formas de amor que só aparecem quando já não conseguimos nos apoiar em resultados imediatos. E existe uma intimidade com Deus que só amadurece quando aprendemos a permanecer com Ele até mesmo na noite.
No fundo, Roma não foi o fracasso de Teresinha, foi uma preparação. Deus estava esvaziando suas seguranças humanas para fazê-la entrar no Carmelo, não apenas exteriormente, mas interiormente. E talvez toda verdadeira vocação passe por isso, meus irmãos. Antes de nos entregar aquilo que pedimos,
Deus frequentemente prepara dentro de nós o coração capaz de receber. Que Santa Teresinha nos ensine essa confiança humilde, perseverante e desarmada. Essa confiança que continua caminhando mesmo quando não entende. Essa confiança que não exige ver tudo para continuar amando.
E que como ela, nós aprendamos pouco a pouco a dizer, Jesus, fazei de mim o que quiseres. Que Deus te abençoe, meu querido ouvinte, meu querido irmão, minha querida irmã. Nos encontramos em nosso próximo episódio.