Episódio 5 - PCC 3.0
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Aline Ribeiro
Igor da Silva Alves
José Reinaldo Guimarães Carneiro
Lincoln Gacchia
Rodrigo Perinardi
Ronaldo Sayegh
- Trafico Internacional de DrogasPorto de Santos · Rotas de drogas · Métodos de ocultação de drogas · Parceria com máfia italiana · Cocaína
- Lavagem de DinheiroEmpresas de fachada · Fintechs · Setor de combustíveis · Operação Carbono Oculto · Faria Lima · Antônio Vinícius Gritsbach · 2GO · Bets
- Corrupção Governo LulaCooptação de agentes públicos · PMs da Rota · Transwolf · Marcos Roberto de Almeida (Tuta) · Núcleo político do PCC · ForteBank
- Histórico de expansão do Comando Vermelho e PCCPCC 3.0 · Primeiro Comando da Capital · Atentados de 2006 · Expansão para além dos presídios · Negócio bilionário
- Continuidade da pressão do PCCSintonia de redes sociais · Sintonia de compliance · Inteligência artificial em comunicados
- Reclassificação de crimeYin Yang · Comando Vermelho · Thiago Zéias da Silva · Bonde dos Treze
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Comunicado geral. Um forte e leal abraço a todos na geral. Deixamos todos cientes que já se esgotou a paciência do primeiro comando da capital com relação a roubos nas quebradas e desrespeito com os moradores desses bairros periféricos.
Isso é um salve, o comunicado do crime para espalhar um recado, o nome desse podcast. Esse salve que você ouviu aí foi feito por inteligência artificial. E não foi a gente aqui que sonorizou e colocou uma voz falando, não. Ele chegou pra mim desse jeito: animado e com texto, narração e musiquinha de fundo.
Sendo assim, a partir desta data fica determinado que roubos em quebradas será punido e ficará a critério da disciplina a cobrança juntamente com os donos das próprias quebradas. Esperamos ter sido bem claros.
O salve costumava sair das cadeias por bilhete, escrito com caneta e papel mesmo. E era repassado por mensagem de texto no celular, pra geral. Mas os tempos mudaram. Esse salve termina com uma ilustração do Yin Yang, o símbolo milenar chinês que foi capturado pelo PCC para ser a marca do grupo.
E a partir de agora vamos cobrar e ponto. As PCC.
A Polícia Civil de São Paulo identificou recentemente um novo organograma do PCC. Com setores inéditos. E um deles, provavelmente, foi o responsável por esse salve com iá. Eu conversei sobre isso com o delegado Ronaldo Sayegh. Ele é diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais, o DEIC, da Polícia Civil de São Paulo. E ele explicou pra gente essa estrutura.
Não é novidade que o PCC internamente se organiza por meio de sintonias. São grupos com tarefas específicas. Como ter a sintonia final, sintonia final do sistema, restrita, dos gravatas, do progresso, enfim, todas aquelas subdivisões internas.
A sintonia final de que o Dr. Saeg fala é o comando máximo do grupo. A dos gravatas é a dos advogados. A restrita é dos responsáveis pela execução de autoridades. E por aí vai. Agora, com os novos tempos, são duas as novas sintonias: a de redes sociais, para cuidar de tudo que circula na internet, e a de compliance, que faz uma espécie de auditoria do que está sendo falado nas redes.
São documentos de inteligência que constataram e perceberam uma ação no sentido de internet, rede social e compliance, muito ligada uma à outra. Porque de uma, por um lado, divulga conteúdos ideológicos até da facção, controla até grupos de WhatsApp para poder passar as mensagens entre os seus membros. E o compliance é como se fosse o grupo que fiscaliza, que controla isso, para ver se— é um tipo de moderador, é uma coisa meio, sei lá, que você tá falando meio absurda, mas é, vai moderar o crime para ver se não vai se expor demais, que não vai expor informações que revelam informações sensíveis da facção.
20 anos depois dos atentados de 2006, o PCC não precisa mais de um salve para parar a cidade. Hoje, a facção é uma espécie de sócio invisível da sua rotina, transformando o pãozinho da padaria e o imposto que você paga. Este é o podcast PCC: O Salve Geral, uma produção da Rádio CBN e do Jornal Globo. Eu sou Aline Ribeiro, repórter especial do Globo em São Paulo. E a partir de agora eu vou contar como o PCC se transformou desde os atentados de maio de 2006.
Uma facção que nasceu nas cadeias e hoje comanda um negócio bilionário: o tráfico internacional de drogas e armas. Um grupo que já enterrou dinheiro para esconder os lucros e atualmente opera até da Faria Lima, o centro financeiro do país. Nesse último episódio: O PCC 3.0. A gente foi até o Porto de Santos. Por lá, passam uns 500 navios por ano e uns 300 mil containers. De cada 3 dólares que o Brasil exporta, 1 dólar sai de Santos.
Isso em negócios dentro da lei. Mas o Porto de Santos também virou um ponto essencial para o crime. A Baixada Santista é super estratégica para o PCC. A região tem uma geografia bem específica, com um monte de morro e mangue. Até parece um pouco o Rio de Janeiro. Ao redor do canal dá para ver várias favelas no horizonte. Essas comunidades ficam muito perto de onde os navios atracam. Da beira do canal até elas dá uns 700 metros de distância.
Esse é um meio que eles utilizam para fazer transporte de De drogas, usando as caixas de mar e outros pontos do navio para transportar. Quem está explicando como os criminosos escondem a droga nos navios para exportar é um mergulhador experiente, que pediu para não ser identificado. Ele mora na região de Santos e tem medo de ser reconhecido. Caixa de mar é um local onde o navio puxa água para alimentar o sistema dele, resfriar motor, Sistema de combate a incêndio e outros sistemas dele.
Fica na parte mais funda do navio, as caixas de mar. Ele contou que os criminosos colocam a droga num compartimento do navio que fica a uns 15 metros de profundidade. Não é muito fundo. Eu mesma já mergulhei até perto disso em Fernando de Noronha, depois de fazer um cursinho mequetrefe de uma manhã. O problema não é a profundidade. O perigo é tentar colocar a droga no compartimento, na caixa de mar do navio. Mergulhar ali não é uma questão de fôlego, mas uma operação potencialmente suicida.
A dificuldade de quem coloca a droga aí seria que o navio tá com as caixas de mar ligadas. E com isso ele pode ser sugado pela caixa e morrer ali durante a operação. Esse é o maior perigo que tem. Todos os dias, centenas de embarcações passam pelo canal do Porto de Santos. Desde os barquinhos pequenos de madeira até navios mercantes gigantescos. Pelo porto passa tudo quanto é tipo de coisa: soja, açúcar, milho, café, suco e, de uns tempos pra cá, cocaína pura e armamento pesado.
O tráfico internacional é um negócio arriscado, só que ele é sofisticado e muito, muito lucrativo. É hoje a principal fonte de renda do PCC. Que tem uma receita de R$12 bilhões ao ano. Se o PCC fosse uma empresa, ela estaria entre as 300 maiores do país, com seus sólidos 33 anos de mercado. E uma grande parte disso passa pelo Porto de Santos. E é por isso que a gente foi até lá.
Essas facções, o tráfico internacional de drogas se tornou tão poderoso a ponto de ter um poder bélico compatível com o de exércitos, entendeu? Então daí veio efetivamente a ideia de se empregar as Forças Armadas não só no Brasil, no mundo todo.
Esse é o capitão de fragata Igor da Silva Alves, comandante do Grupamento de Patrulha Naval do Sul e Sudeste. Ele chefia o grupo que protege os litorais de São Paulo e do Paraná. O capitão recebeu a equipe do podcast no Porto de Santos numa manhã de abril de 2026 e levou a gente para acompanhar uma saída do Barracuda, que é o barco da Marinha que patrulha o porto. O Barracuda fica lotado de militares, prontos para abordar qualquer barco suspeito que chegue perto do canal.
E essa periferia, carente de Estado, é fundamental para o tráfico. O PCC alicia os caissaras para guardarem a droga até o esquema ficar pronto e a mercadoria embarcar.
É o porto mais importante do Hemisfério Sul e o volume de navios aqui dificulta uma inspeção mais minuciosa. Em um porto que você tem 2, 3 manobras por dia, a chance daquela carga ser perdida E quando a gente intercepta uma carga, é um prejuízo muito grande para o tráfico de drogas. Esses portos com atividades menores, eles não costumam ser utilizados exatamente por causa disso. É muito mais fácil você utilizar um navio no meio de centenas que são movimentados diariamente para poder efetivamente esconder.
A rota é importante também. Os navios, muitos navios saem daqui em direção à Europa, Oriente Médio, e esses locais efetivamente têm muita demanda por tráfico de drogas.
Os dados mais recentes do Ministério Público mostram que 80% da receita do PCC vem da cocaína exportada. E tem um fator decisivo para esse sucesso: ter aliados no destino final da droga. O PCC hoje tem mais de 40 mil membros só no Brasil. E uns 2 mil espalhados por 28 países. E com essa quantidade de integrantes e toda organização montada pra traficar, o PCC construiu uma marca forte. Uma facção com fama de hordeira, que investe no lucro, não no terror.
E isso chamou a atenção dos grupos criminosos europeus. Os caras já estavam de olho no Porto de Santos pra enviar cocaína da América do Sul. E a parceria com o PCC foi o elo que faltava. Hoje, a facção paulista tem negócios principalmente com a 'ndrangheta da Calábria, na Itália. O PCC vende a cocaína para os europeus e eles revendem para os consumidores finais.
A globalização, né? A globalização vem tanto para o lado bom quanto para o lado obscuro também, na parte da criminalidade.
No Porto de Santos, depois de falar com o pessoal da Marinha, a gente conversou também com o delegado Rodrigo Perinardi. Ele é o chefe da Polícia Federal na cidade.
A gente pega notícias aí que PCC mesmo atuando com máfia italiana, principalmente, fazendo aquela divisão de tarefas para poder facilitar a atuação. Não quer dizer que eles deram a mão aí, vão sair como conjunto. Não, é meramente comercial isso daí.
O Brasil não é um país produtor de cocaína, mas uma rota de passagem fundamental para o crime. A droga é produzida nos países andinos, no Peru, na Bolívia e na Colômbia. E tem pelo menos dois caminhos principais para chegar ao Brasil. Um deles é pelas fronteiras do norte do país. Para tentar aumentar os lucros, o PCC se instalou na selva amazônica para comprar cocaína direto dos produtores. Eliminar, literalmente, se for necessário, os intermediários.
A droga, comprada no meio da floresta, é enviada para fora do país pelos portos do Norte ou do Nordeste. Mas há uma facção rival, O Comando Vermelho, quem domina essa rota. E para fazer frente a eles, o PCC virou aliado até de piratas do Amazonas. O outro jeito da droga chegar no Brasil é pelo sudeste do país, pela chamada Rota Caipira. A droga sai dos países andinos e passa pelo Paraguai, que funciona como um entreposto. Aí entra no Brasil pelo interior de São Paulo, até chegar ao Porto de Santos.
E é durante esses trajetos que a droga vai subindo de preço. Porque conforme a carga se afasta do centro de produção, a operação fica cada vez mais arriscada. Pra travessia dar certo, você imagina a quantidade de propina que o crime tem que ir pagando durante o caminho. Tudo isso é custo. Quanto maior o trajeto, então, maior o risco. E quanto maior o risco, maior o valor da venda. Só pra você ter uma ideia: quando a droga é vendida lá no país de origem, onde é produzida, o quilo custa entre uns R$5.000 e R$10.000.
Na Europa, fica perto de R$200 mil. E na Oceania, pode custar uns R$750 mil. Mas para tudo isso dar certo, a operação na ponta da linha não pode falhar. O PCC precisa de todo tipo de artimanha para esconder a droga nos navios que saem dos portos. O capitão da Marinha explicou bem isso para a gente.
A gente identifica 4 possibilidades de emprego no navio para o tráfico de drogas. O primeiro O próprio tripulante do navio pega a droga, leva para o compartimento dele, que ele habita, compartimento habitável dele, o camarote dele, e faz esse transporte. O segundo é tentar de alguma maneira colocar a droga dentro da carga do navio. Vou tentar, milhares de containers, soja, diversas cargas aqui, e é possível que essas cargas possam conter a droga escondida ali, uma vez que o agente daquele terminal foi aliciado ou foi até mesmo cooptado, pressionado pede a sua família ameaçado, né, para poder cooperar com o tráfico de drogas.
O terceiro é o içamento, né, um navio ainda no fundeadouro, a embarcação atraca ali, a droga ela é içada com ajuda da tripulação e ela é escondida dentro do navio, sem mesmo o navio ter efetivamente atracado aqui. E o quarto é, que é esse, né, talvez seja a nossa maior área de atuação aqui do grupamento, Que é a tentativa de colocar a droga embaixo do navio, nas caixas de mar do navio.
As forças de segurança estão sempre correndo atrás do crime. Quando a polícia aperta o cerco, os traficantes mudam a forma de embarcar a droga. Até uns 10 anos atrás, o jeito mais comum era esconder a droga nos containers, no meio da mercadoria do navio. E geralmente quem esconde a droga é um estivador que foi aliciado pelo crime organizado. E na grande maioria das vezes, esses caras fazem isso sem que as empresas donas da carga saibam de nada.
A gente sabe, já teve investigações aqui, prisões flagrantes de determinado funcionário, determinado X, Y, Z, ser cooptado. Às vezes o funcionário ganha lá R$2.000, R$3.000, oferecem R$10.000, R$20.000, R$30.000 para ele entrar ali com quantidade X de entorpecente para poder facilitar. Ah, depois que passou no scanner, ele joga ali. Pode, tem, já aconteceu, acontece. Entendeu? Infelizmente aí o crime, ele tá, ele tem uma ramificação muito grande.
Então é muito fácil, né, corromper essas pessoas aí, principalmente se a pessoa às vezes ou tá passando por uma necessidade, ou mesmo ela tem algum desvio, ou já entrou lá com essa finalidade específica, né? Já teve situação aqui no próprio vídeo, quando se identificava, o pessoal parecia o Bob Esponja ali, todo quadradão, né? Era tablete de droga dentro da roupa.
Em 2016, a Receita Federal começou a escanear 100% dos contêineres com destino à Europa. Os criminosos então abriram uma nova rota, pela África. E aí a Receita Federal foi lá e começou a fiscalizar também esse caminho. E o crime se atualizou de novo. Recentemente, descobriu o potencial dos mergulhadores, o método que a gente contou no começo do episódio.
Inclusive, na operação que teve o ano passado aqui na Câncer Emergente, daqui de Santos, durante o trabalho investigativo, é, identificou-se que alguns mergulhadores, eles foram levados para a Europa para poder tirar droga. Então eles colocaram a droga aqui, tiveram tudo pago, foram para Europa para poder tirar droga, porque eles já sabiam onde a droga estava, porque é um trabalho meticuloso e perigoso, principalmente.
O crime também tem usado muito barco pesqueiro. Mesmo sendo pequenos, eles se arriscam oceano afora. Mas a tripulação nem sempre é qualificada e acaba correndo muitos riscos. Eu escrevi sobre um caso em que os criminosos cooptaram marinheiros literalmente de primeira viagem, sem nenhuma experiência. No barco tinha motorista, garçom, motoboy, mecânico e só um pescador. A responsa era grande. O grupo tava levando mais de 4 toneladas e meia de cocaína.
Uma carga avaliada em R$800 milhões. Eles foram interceptados pela Marinha Francesa na costa africana depois de viajarem uns 15 dias em alto mar. E aí aconteceu uma coisa ainda mais inusitada. A Marinha Francesa não prendeu os caras. Ela deu comida para eles e disse que eles poderiam voltar para o Brasil. E quando chegou aqui, não tinha ninguém esperando. Eles não foram presos.
A criatividade deles não tem fim. O que dá para ir levantar fora por outros pontos, eles vão se utilizar. Porque é rentável, e quanto mais eles diminuírem a chance de ser pego, maior a rentabilidade deles. Eu brinco, falo que a criminalidade é como se fosse água. Estanco num lado, ele vai tentar arranjar uma outra válvula de escape. Então fechei num canto, ele arranjou um outro canto, ele vai escoar por lá.
Nos últimos anos, a apreensão de drogas no Porto de Santos caiu drasticamente. Em 2019, teve um pico de apreensão pela PF: 27 toneladas. Em 2025, caiu para 7 toneladas. Uma redução de quase 80%. Por outro lado, o mundo nunca consumiu tanta cocaína. O último relatório da ONU sobre drogas e crime mostrou que a produção e o uso de droga bateram recorde. E se a produção e o uso estão crescendo e as apreensões no porto de Santos caindo, quer dizer que a droga está escapando do radar da polícia.
O delegado da PF diz que ainda não é possível saber exatamente o porquê. Se o crime mudou a rota ou se mudou o jeito de enviar a droga. Ou então, as duas coisas.
Não tem um ponto que a gente pode chegar e falar: "Não, migrou daqui de Santos e foi para Chiboquinha da Serra". Não dá para falar. Isso daí, porque a gente tem percebido que houve mesmo essa pulverização aí, que fica mais difícil a própria atuação nossa.
Falando assim, parece que o PCC já nasceu com esse propósito, organização e estratégia toda. Mas não. O PCC foi criado no começo dos anos 90, num presídio no interior de São Paulo, para lutar por melhores condições para os presos. Coisa básica mesmo, tipo papel higiênico e colchão. Imagina um bando de gente fechada, apinhada em celas minúsculas e sem nem ter onde dormir direito. É combustível suficiente para uma explosão. E tinha mais.
Um ano antes da criação do PCC, o Brasil já tinha vivenciado a maior chacina em presídios da história: o Massacre do Carandiru, que deixou 111 mortos. A primeira geração de líderes do PCC se aproveitou dessa insatisfação coletiva para unir os presos. E prometeu para eles direitos básicos que o Estado não conseguia garantir. Mas como é que uma facção que nasceu para lutar por colchão e papel higiênico alcançou esse nível de sofisticação?
A resposta passa pela omissão histórica do Estado, na opinião do promotor Lincoln Gacchia, o principal investigador do PCC atualmente.
E eles eram líderes natos, né? E face aí a alguns problemas como massacre do Carandiru, reclamações recorrentes levaram aí a criação do PCC. Disso eu não tenho dúvida, né, porque qualquer organização criminosa normalmente só é criada face à ausência do Estado, né, e isso aconteceu.
O Estado não só criou um terreno fértil para o PCC nascer, também permitiu que a facção crescesse. Isso porque por quase uma década o governo paulista negou a existência da facção.
Por quê? Porque o Estado de fato negligenciou no que tange ao reconhecimento do PCC como uma facção criminosa importante. Pelo menos na primeira década houve, e a imprensa noticiou isso bastante, alguns secretários que diziam que o PCC não existia, que era uma criação da imprensa. Outros importantes policiais, diretores de departamento, Numa das operações que tinham acabado com o PCC, tinham quebrado todos os dentes do PCC, que não existiria mais.
O promotor de justiça José Reinaldo Guimarães Carneiro também lembra bem desse tempo.
E as estruturas da polícia, que são vinculadas ao governo, não podiam sequer chamar a facção Primeiro Comando da Capital pelo nome. Havia uma resistência enorme, gigantesca.
Ele era do GAECO, do Ministério Público de São Paulo que combate o crime organizado, e conversou com a gente sobre esse comecinho do PCC. O Carneiro avalia que a negação foi o primeiro grande erro político do Estado.
Não era interessante para os governos estaduais o reconhecimento da existência de uma facção de presídio. Isso parecia para eles, segundo a gente entendia, como um sinal de falência da atuação do governo dentro do sistema penitenciário.
É impossível combater uma coisa que você nem admite que existe. Essa recusa da realidade impactou muito as investigações e dificultou que os membros da facção fossem punidos. Os próprios promotores tinham dificuldade de convencer a justiça de que os caras faziam parte de uma organização criminosa.
Em 2005, quando a gente fazia uma investigação, precisava levar responsabilização criminal. Dos integrantes da facção, o próprio Poder Judiciário completamente refratário à nossa tentativa. Eu cheguei a receber manifestações, decisões, com argumento que não havia prova documental da existência da facção. Prova documental da existência de facção? Só se eu juntasse o comprovante da junta comercial.
Outro problema era a falta de uma legislação eficiente para enquadrar os crimes do grupo, como por exemplo a lavagem de dinheiro.
O Brasil, ele sempre foi muito, muito resistente, muito conservador à necessidade de criação de mecanismos legais de enfrentamento a facções. Então, se eu levar em consideração que o Primeiro Comando nasceu em 93, até 1998 não havia lei de crime de lavagem de capitais, a conduta não era criminalizada no Brasil. Então ninguém poderia responder por isso. 1998, parece que tô falando de ontem. Enquanto a Europa, os Estados Unidos da América estavam absolutamente céleres no reconhecimento de criminalizar o comportamento da lavagem para viabilizar o controle do ingresso do capital obtido por meio criminoso na economia formal, o Brasil não tinha crime.
Em 2001, depois de uma mega rebelião nos presídios paulistas, não teve mais como jogar a sujeira para debaixo do tapete. O PCC tomou quase 30 presídios e se mostrou para o mundo. Como represália àquela baderna, o governo transferiu algumas lideranças importantes do PCC para outros estados e espalhou os caras por alguns lugares do Brasil. Era a semente da expansão do PCC. Mas o PCC não cresceu só por causa da negligência do Estado, claro.
A organização mudou completamente depois da ascensão do Marcola ao poder. A troca de comando transformou a mentalidade da facção e a maneira como as decisões mais importantes passariam a ser tomadas. Se antes a vocação do PCC era apavorar o poder público e a população com atentados, Depois do Marcola, passou a ser o Lucro.
E a diferencial do Marcola é que ele trouxe com ele os criminosos que eram alguns comparsas e outros que eram da sua estrita confiança. Foi aí que ele montou o que eles denominaram depois de sintonia final geral do PCC. Ele meio que democratizou o comando do PCC, mesmo ele sendo o líder máximo. Ele tinha direito a um voto e todas as decisões eram colegiadas, eram votos, como uma decisão do Supremo, por exemplo. A maioria vencia.
Eu mesmo, como eu fazia pessoalmente as minhas interceptações, eu várias vezes ouvi decisões tomadas numa conferência dentro da Penitenciária 2 em que se resolvia algum assunto importante E que eram votados.
Além dessa estrutura bem definida, o PCC criou um código de conduta para tentar garantir a paz nas ruas. E, principalmente, a prosperidade dos negócios. O cumprimento dessas regras é fiscalizado por um mecanismo de justiça paralela do PCC: o Tribunal do Crime. A facção julga, condena e pune quem contraria as normas dela, como se tivesse um poder judiciário próprio mesmo. O objetivo é simples: não criar problema para manter a polícia longe do território e assim continuar o tráfico livremente.
Lembra do salve do começo do episódio proibindo de roubar na quebrada? É por aí. O tribunal do crime é um método com resultados bastante cruéis. Funciona assim: se um morador de uma área controlada pela facção comete um deslize, o chefe do PCC é acionado. A mancada pode ser desde uma briga conjugal até uma dívida com a facção. O integrante do PCC faz às vezes de um juiz e chama o sujeito para uma espécie de audiência, o debate.
Questiona tudo o que aconteceu. Quem está sendo julgado, ou seja, o réu no juridiquês, tem direito de levar até testemunhas para falar na defesa dele, como se fosse um advogado. Os crimes mais graves, como a caguetagem, só podem ser julgados pelas lideranças mais altas. Em geral isoladas nos presídios. E aí a decisão leva mais tempo para chegar, porque a comunicação com quem está preso é mais demorada. Quanto mais grave o crime, maior a pena, que pode chegar até a sentença de morte.
Com Marcola na liderança e o esquema mais organizado, o tráfico internacional foi inaugurado em meados de 2010. Na época, o faturamento do PCC era entre R$10 e R$12 milhões. R$1 milhão, um baita dinheiro, mas quase troco de pinga perto do que é hoje. O promotor Lincoln Gacchia lembrou como o PCC fazia para esconder as pilhas de dinheiro que ganhava com tráfico.
Quando eu investigava em que eles tinham essa arrecadação aí de R$10, R$12 milhões, eles enterravam dinheiro em casas que eles chamam de casas-cofre. Literalmente enterravam. Eu mesmo, nós já fizemos apreensão em que eles compram uma casa, fazem um compartimento lá, tipo de um cofre, colocam um piso e colocam lá 10 milhões, 5 milhões e iam guardando, porque não podia guardar no banco, né? E tinham medo de ser roubados, então eles tinham isso aí como um depósito.
A arrecadação do PCC cresceu absurdamente com os lucros desse mercado internacional. Coisa de 3 dígitos a mais quando a gente compara com o tempo em que enterrava dinheiro. E aí não existia mais terreno que desse conta de tanta grana. Não dava mais pra estocar as cédulas. O próximo passo seria lavar o dinheiro. Começou com a participação de doleiros, mandando os valores pra países da América do Sul. Aí eles começaram a criar empresas de fachada e usavam laranjas pra dissimular a origem ilícita.
Mas conforme o tráfico internacional deslanchava, a lavagem avançava pra mais setores da economia. Esse esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital em lojas de brinquedos localizadas em shopping centers de São Paulo.
Operação combatendo o PCC e agora levantando informações de lavagem de dinheiro pelo crime organizado até em motéis em São Paulo. Tem pelo menos 60 motéis que fariam parte dessa lista.
—e o esquema envolvia franquia de cosméticos, além de empreendimentos imobiliários.
A Prefeitura de São Paulo rompeu o contrato com a UP Bus e a Transwolf, empresas de ônibus investigadas pelo Ministério Público por esse elo com o PCC.
—Lavar dinheiro do crime organizado por meio de postos de combustíveis. Posto de combustível, motel, loja de ursinho de pelúcia, franquia de cosméticos, padaria, concessionária de carros, empresas de ônibus. Se você abastece o carro ou come um pãozinho na chapa na padaria da esquina, tem uma chance de estar ajudando o crime a lavar dinheiro. Sem saber, claro. Mais recentemente, o PCC inovou. Passou a usar fintechs, fundos de investimentos e gestoras para esconder os lucros do tráfico. O delegado Ronaldo Sayegh, do DEIC, explica o momento atual.
Por muito tempo, o PCC usava motéis e usava postos de gasolina para ocultar os seus valores. Ou seja, eles compravam um posto de gasolina, um motel, e a gente Seria essa primeira fase da lavagem: colocação, colocação no mercado. Para que o dinheiro seja finalmente lavado, ele precisa passar por uma ocultação, por uma integração. É nisso que o PCC tem evoluído, é nisso que entra as fintechs, os bancos digitais, na ocultação, que é a segunda etapa da lavagem, para depois, por meio de outras movimentações financeiras, depósitos fragmentados, outras empresas de fachada, circulando esse dinheiro, chegue ao final por meio da integração, por meio da integração, que é a última etapa da lavagem de dinheiro, o dinheiro aparentemente limpo.
Em vez de só usar empresas de fachada, aquelas criadas com a finalidade de lavar o dinheiro, o PCC agora usa empresas de verdade, com sede, funcionário, lucro e atividade normal.
Imagina que exista uma padaria, uma locadora de veículos, e uma imobiliária funcionando licitamente. Esse é o mercado formal. Mas o PCC fala: olha, eu quero circular um pouco do meu dinheiro sujo dentro das suas empresas, e o que eu circular de dinheiro sujo, lá na frente eu te dou 20% de comissão. Então veja, não é mais um negócio que o PCC tá utilizando, que ele compra, que ele adquire. Ele usa o mercado formal para poder usar essas empresas legalmente construídas para lavar o dinheiro.
O assunto é a Operação Carbono Oculto. As investigações da Carbono Oculto apontaram irregularidades em várias etapas da produção e distribuição de combustíveis no país.
Lavando o dinheiro de forma muito sofisticada, porque tem um braço todo ali no setor de combustíveis muito infiltrado e um braço grande no mercado financeiro operando por meio de fintechs. Era um esquema que dificultava também o rastreamento dos valores, né, já que as empresas usavam uma espécie de conta-bolsão em que todo o dinheiro ia para lá sem nenhum tipo de identificação. Uma parte da Avenida Faria Lima foi tomada por viaturas da polícia em 28 de agosto de 2025.
O centro financeiro do país no alvo da maior operação contra o crime organizado da história brasileira: a Carbono Oculto. Uma força-tarefa que mirou os fluxos de dinheiro do PCC. Segundo o Ministério Público e a Receita Federal, o PCC controlava parte do setor de combustíveis. De 2020 a 2024, mil estabelecimentos ligados à facção movimentaram R$52 bilhões. O núcleo financeiro do esquema usava fintechs, com contas que não dava para rastrear, e fundos de investimento documentos que acabavam blindando o patrimônio de quem estava envolvido no esquema, tanto de pessoas físicas quanto de empresas.
E algumas dessas empresas sim são sediadas na Faria Lima para dar a impressão de licitude. Então quem ia imaginar que fintechs ou empresas, bancos digitais, na Faria Lima estariam sendo empregadas pelo PCC para lavagem de dinheiro?
A superintendente da Receita Federal em São Paulo, Márcia Meng, Arrisca que as fintechs foram a porta de entrada dessa lavagem mais sofisticada. A Receita, inclusive, ganhou um protagonismo enorme na investigação desses crimes recentemente. Me atreveria a chutar que as fintechs foram a porta de entrada, porque enquanto o dinheiro era moeda, eles acabavam tendo que envolver várias pessoas, virava um conluio. Para eles poderem fazer a coisa dar certo, tinha que ser um conluio.
E num conluio você sempre tem o risco de alguém lá ser pressionado e abrir a boca. Do jeito que ficou agora, o próprio criminoso pode abrir uma fintech porque eles têm dinheiro. O importante é a gente entender que o crime organizado tem dinheiro infinito. Para dar conta dessa lavanderia toda, o PCC tem até uma figura nova nesse ecossistema criminoso: o operador financeiro.
Então a gente tem aí operadores financeiros, como foi o caso do Antônio Vinícius Gritsbach, que operava lavando dinheiro para o PCC não só em imóveis, mas em bitcoins. Em fundos de investimento, etc. O promotor Lincoln conta essa história: esse novo tipo de associado do PCC, que não é um integrante, mas que viu uma oportunidade de ganhar dinheiro e de ampliar o sistema de lavagem de dinheiro do PCC, aumentou. São contadores, algumas vezes advogados, especialistas na área, e o que eu chamo de gente do mercado, que são os operadores financeiros.
Antônio Vinícius Gritsba, um dos principais operadores financeiros do PCC. Ele era um corretor de imóveis que virou milionário depois de fazer negócios com a facção. Mas de aliado, ele virou inimigo. Primeiro, foi acusado pelos criminosos de desviar R$200 milhões do esquema. Depois, de mandar matar dois membros do PCC que se diziam donos do dinheiro. Para tentar salvar a própria vida, ele decidiu delatar a facção. Uma atitude intolerável para o crime.
A gente falou bastante disso no episódio 4. O Gritsbach terminou assassinado em novembro de 2024. PCC executou dentro do Aeroporto Internacional de São Paulo um acusado de ser o mandante de mortes de integrantes da facção criminosa. O empresário Antônio Vinícius Lopes Gritsbach, de 38 anos, também havia feito uma delação delação premiada ao Ministério Público de São Paulo, foram feitos diversos disparos de arma de fogo no Terminal 2 do aeroporto de Guarulhos.
Com 10 tiros de fuzil em plena sexta-feira, um dia lotado de voos, e à luz do dia para todo mundo ver. Um recado claro do crime. O caso do Gritsba mostra como o PCC vem atuando. O depoimento que você vai ouvir a seguir faz parte do acordo de delação premiada que ele fechou com o Ministério Público. Ele prestou depoimento pouco antes de morrer e detalhou como é que funcionava a lavagem do PCC por fintechs. As fintechs eram usadas para movimentar o dinheiro das compras de imóveis de luxo.
Como os valores não podiam ser pagos em espécie, a fintech intermediava as transações.
Doutor, a partir do momento que foram comercializadas as unidades, você precisava ter o valor de escritura contabilmente. Contabilmente como alguma parte pago em conta. E havia essa dificuldade para quem lida com dinheiro espécie. E aí eles transacionavam através dessa fintech, ToGoBank, 2GoBank. Eles conseguem transacionar, pegar o dinheiro espécie, bancarizar o quanto eles quiserem. A partir do momento que está bancarizado, eles direcionam para as contas que eles podem ter o controle delas e abrir e fechar. Em qualquer nome, em qualquer CNPJ, eles que têm o controle.
A fintech que ele citou é a 2GO, fundada em julho de 2020 por um policial. Esse policial era do DEIC, o órgão da Polícia Civil paulista que atua diretamente contra o crime organizado. Em 3 anos, a 2GO atraiu 20 mil correntistas e movimentou R$4 bilhões. Uma única empresa chegou a abrir 180 contas nessa fintech. Mas uma operação da Polícia Federal desmascarou essa história de sucesso. A PF descobriu que uma boa parte dos clientes buscava a Tugol para fazer movimentações anônimas, transações que são difíceis de rastrear.
Para a PF, uma parte desse valor suspeito irriga diretamente os cofres do PCC. Qual que é a próxima bola da vez da lavagem agora? Bets.
Bets. Não tem nem dúvida. Só as bets. Já está acontecendo. Já está acontecendo.
Eu falei mais cedo duas razões que trouxeram o PCC até aqui: a conivência do Estado, que atrasou a vida de quem investigava a facção, e a organização do PCC inaugurada com a era Marcola, que fez o grupo entrar no mercado bilionário do tráfico internacional. Mas tem uma terceira causa que é tão importante quanto as outras: a cooptação de agentes públicos. Não tem a menor chance de um grupo criminoso ganhar a estatura do PCC sem a colaboração de quem está dentro do sistema.
A corrupção não pode ser algo tolerado nunca. Então o primeiro passo é de fato tentar punir, tentar retirar esses policiais ou agentes públicos.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afastou os policiais militares que faziam a escolta particular de Antônio Vinícius Lopes Gritsba. A conduta da equipe vai ser, já tá sendo investigada pela polícia. Os 4 Os 4 PMs que faziam a segurança afirmaram que o carro que buscaria Gritsba no aeroporto quebrou no caminho. Por causa disso, apenas um deles foi fazer a proteção do assassinado usando outro veículo.
Investigação da Corregedoria da Polícia Militar sobre os PMs que faziam escolta para os diretores da Transolfe, a empresa de ônibus acusada de ser ligada ao PCC.
Os chefes da empresa eram escoltados por policiais da Rota.
E mais, faziam serviços domésticos e emitiam notas frias para receber o dinheiro por terceiros.
Uma investigação recente da Corregedoria da Polícia Militar mostra bem essas relações entre o crime e os agentes públicos cooptados. PMs da tropa de elite da corporação, a Rota, estavam fazendo escolta particular para diretores da Transwolf, que é uma empresa investigada por lavar dinheiro para o PCC e favorecer o crime. A Transwolf era responsável por boa parte do transporte público paulistano, dona de um tanto de ônibus que circulavam pela capital diariamente, levando milhares de passageiros todos os dias.
A empresa foi alvo da Operação Fim da Linha em 2024 e depois teve o contrato com o governo cancelado. A Corregedoria concluiu que os PMs da rota foram essenciais para a empresa conseguir lavar dinheiro. Além de atender demandas domésticas pessoais de diretores da empresa, como buscar babá do filho e levar criança para escola. E não foi só isso. Segundo a Corregedoria, os PMs vazaram informações para o PCC que ajudaram o Tuta a escapar das autoridades.
O Tuta é o apelido do Marcos Roberto de Almeida, na época o número 1 da facção fora do sistema carcerário. Tinha uma operação que estava em curso para prender o cara. Mas ele foi avisado antes e fugiu. O Tuta também teria pagado aos policiais R$5 milhões para conseguir uma gravação ilegal de uma reunião ultra secreta que rolou na Rota. Uma reunião que teve a presença até do promotor de justiça Lincoln Gacchia. Mais recentemente, essa treta sobrou até mesmo para o ex-comandante-geral da PM, o coronel José Augusto Coutinho.
Eu gostaria de registrar "Minhas palavras de agradecimento à Polícia Militar do Estado de São Paulo por mais de 34 anos felizes e trabalhados em prol da comunidade." Segundo o depoimento do próprio Lincoln Gacchia para os investigadores, ele avisou pessoalmente ao Coutinho sobre esses vazamentos todos e o ex-comandante da PM não teria feito absolutamente nada. O Coutinho foi afastado da PM e nega todas as acusações. Mesmo assim, é a primeira vez na história da polícia paulista que o nome do PCC e de um comandante geral aparecem juntos numa manchete de jornal.
Se em 2006 o PCC paralisou São Paulo metralhando delegacias, hoje a facção opera de um jeito mais silencioso. O salve barulhento de duas décadas atrás deu lugar à infiltração estratégica nos poderes do Estado. A saída das periferias rumo aos gabinetes. Para capturar o sistema por dentro. Para garantir que a máquina pública trabalhe a favor do crime. Uma investigação recente da Polícia Civil de Mogi das Cruzes revelou um núcleo político do PCC.
Os investigadores descobriram que a facção pretendia lançar candidatos para pelo menos 5 prefeituras do estado. Mogi das Cruzes e Santo André, na região metropolitana de São Paulo; Campinas e Ribeirão Preto, no interior; e Santos, na Baixada Santista. Um ex-vereador de Santo André, o Thiago Rocha de Paula, do PSD, é apontado como o articulador político do PCC para infiltrar o crime organizado em prefeituras do estado de São Paulo.
Outras 3 pessoas foram presas durante essa ação da Polícia Civil, que investiga o esquema e que mira inclusive financiamento de campanhas. A outra frente do esquema cuidava da grana. Um dos investigados foi acusado de ter criado o banco digital ForteBank. Pois é, de novo a fintech. O ForteBank realizava movimentações financeiras ilegais que podem chegar a R$8 bilhões. A fintech foi usada pela quadrilha para operar serviços financeiros de prefeituras, como por exemplo emitir boletos e gerir receitas municipais.
Além de limpar dinheiro vindo do crime no meio do fluxo financeiro público. O delegado Fabrício Intelisano, da Delegacia de Entorpecentes de Mogi das Cruzes, foi quem conduziu essa investigação. De uma maneira bem resumida, até simplória, é o PCC recebendo o imposto, o IPTU da tua casa, recebendo lá a multa de trânsito que você toma na tua cidade. Eles vão fazer o gerenciamento desse recurso e vão ganhar para isso, né, porque o município vai pagar uma contrapartida, né.
Ninguém faz isso de graça, né, ninguém presta serviço de graça. Eles iam fazer a lavagem desse dinheiro e misturar o dinheiro deles com o dinheiro do município. Essa mesma operação descobriu um fato meio surreal, que materializa essa infiltração do PCC nas instituições de alguma maneira. Thiago Rocha de Paula, além da ligação dele direta com o PCC, desse ex-suplente de vereador de Santo André, ele teria viabilizado que outro suspeito utilizasse o heliponto do Palácio dos Bandeirantes para ir a um jogo de futebol no Estádio do Morumbi, que fica ao lado ali praticamente do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado de São Paulo.
Isso ocorreu em 2022. A gente não conseguiu localizar a defesa do Thiago. Em nota, o PSD informou que o Thiago está afastado das atividades partidárias de Santo André e que não chegou a disputar as últimas eleições. É a mesma coisa que eu, delegado de polícia, ter um bandido estacionando um carro na garagem da minha casa.
É mais ou menos por aí, né?
Vou falar o quê, que eu não conheço a pessoa, que eu não sei, né, como é que parou ali naquele local? Então é isso que é preocupante, que isso aí vai mostrando que eles estão cada vez atingindo os escalões mais altos da administração pública. Lavagem de dinheiro estruturada, atuação transnacional, corrupção de agentes públicos, infiltração nos poderes do Estado e na economia formal. Para o promotor Lincoln Gacchia, todas essas características fazem do PCC uma máfia.
O que a gente percebe de maneira muito clara, o que aconteceu na Itália está acontecendo no Brasil. Por isso que eu classifico o PCC como uma máfia.
A situação é tão complexa que a segurança pública vai pautar as eleições presidenciais desse ano. Há 5 meses do pleito, o governo federal lançou um pacote especificamente sobre o combate ao crime organizado, um aceno claro ao eleitor que está preocupado com o tema. 41% dos brasileiros dizem notar a presença do crime organizado no bairro onde vivem. É o que mostrou uma pesquisa recente do Datafolha. Encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O percentual corresponde a 68 milhões de pessoas. E essa presença se dá de várias formas, das mais brandas, como o crime exigiu o básico de não roubar na quebrada, até as mais ostensivas, como ordenar que uma família se mude de casa ou até matar alguém. O Brasil tem dezenas de facções. E esses grupos travam guerras entre si. De uns anos para cá, um simples gesto pode custar a vida. As facções se apropriaram de símbolos e gestuais para marcar território, reconhecer aliados e identificar inimigos.
Os integrantes do PCC, por exemplo, postam foto com 3 dedos da mão levantados, usam roupas com o símbolo Yin Yang e o emoji do número 3. 3. Já os membros do Comando Vermelho tiram fotos fazendo o V com os dedos, que até então era só um símbolo de paz e amor, ou o V da vitória, e adotaram o emoji da bandeirinha vermelha. Acontece que um monte de desavisado tem usado esses códigos sem fazer parte de facção nenhuma e morrido por isso.
Uma pessoa alegre, alegre, bem atencioso, todo mundo gostava dele. Ah, não tem como ninguém gostar dele. Uma pessoa maravilhosa era ele. Essa é a Rosa Villasboas da Silva, de 42 anos, dona de casa do Recife, mãe de 4 filhos. E o filho mais velho dela é um desses inocentes que tiveram a vida abreviada pelas facções. O jovem Thiago Zéias da Silva, de 18 anos, morreu por causa de um gesto: o V da vitória. A Rosa conta que o Thiago sempre gostou de futebol.
Tinha só 1 ano quando ganhou a primeira bola profissional. Com 2 anos, as perninhas ainda curtas, ele já surpreendia a família e os amigos pela habilidade de fazer embaixadinhas. O Thiago não tinha um sonho, ele tinha um projeto, como conta a mãe: ser jogador de futebol. E ele foi. Em 2024, depois de trabalhar em outros times, ele recebeu uma proposta para jogar no Santa Cruz, um time do Acre. Entre a oferta e a mudança para Rio Branco foi tudo muito rápido.
No aeroporto, quando ele foi se despedir, ele disse que estava fazendo aquilo pela família, para mudar a vida da mãe e dos irmãos. A estadia na capital do Acre durou só 2 semanas. O que aconteceu exatamente? Eu também não sei. É uma pergunta que fica no ar. Disseram que foi por causa de uma foto. A foto que ele tirou no alojamento. Uma foto fazendo o V, né? Um V. O Thiago foi com um conhecido a uma festa num bairro de Rio Branco que é reduto de uma facção local, o Bonde dos Treze, que na época era aliada do PCC.
Integrantes do Bonde ouviram dizer que tinha chegado na festa gente do grupo criminoso rival, o Comando Vermelho. Os criminosos do Bonde invadiram a casa armados e renderam os meninos. Levaram o Thiago e mais um para uma rua próxima e começaram o interrogatório. Vasculharam os celulares dos jovens em busca de símbolos que ligassem os garotos ao Comando Vermelho. E encontraram no aparelho a tal foto do Thiago fazendo o V da vitória com a mão.
Os caras mandaram mensagem com a foto para o chefão do grupo, que ordenou a execução do Thiago. Segundo o Ministério Público do Acre, o Thiago foi morto por criminosos do bonde dos 13. Mas o Thiago nunca foi envolvido com nada, de acordo com o próprio Ministério Público. Não tinha nenhum antecedente criminal. Era um desavisado. Durante o julgamento dos assassinos, um deles disse que se arrependeu do crime. Ele não sabia que o Thiago era inocente.
Até agora, 4 criminosos foram condenados pelo assassinato e outros 3 ainda aguardam julgamento. Eu sei de uma coisa. E ele não volta mais, né? A dor é uma coisa que a gente tenta esquecer, mas não consegue. Eu sei que faz 2 anos, vai fazer 2 anos e 2 meses, mas é como se fosse, como se tivesse acontecido ontem. O que que acontece? Sabe quando a gente ignora um problema em vez de enfrentar logo de cara? Mesmo na sombra, e talvez exatamente por estar na sombra, certas coisas podem crescer sem controle.
Medos crescem, esquemas de corrupção crescem, facções crescem. O Estado achou que ignorar o PCC seria suficiente para não legitimar a facção como uma força. Mas o próprio Estado acabou por validar a organização. Até dá pra entender o primeiro impulso de não querer atribuir ao crime esse poder todo. Mas a realidade é que uma facção organizada conseguiu parar uma cidade inteira. E hoje é uma máfia global presente em quase 30 países.
O crime avançou nas brechas. E o Estado deixou, e continua deixando, várias frestas abertas. Foi assim que uma rebelião de detentos se tornou uma das operações criminosas criminosas mais bem estruturadas do mundo. Agora o Estado corre atrás para combater algo que nas sombras cresceu de maneira que a gente sequer consegue compreender. Entrou no tecido da sociedade. Espero que esse podcast tenha ajudado a tirar o assunto das sombras para a gente pensar juntos sobre o futuro.
Eu sou Aline Ribeiro e foi um prazer estar com vocês nessa jornada. Até a próxima! O podcast PCC, o Salve Geral, é uma produção da Rádio CBN e do jornal O Globo. Eu, Aline Ribeiro, fiz a narração, a reportagem, a pesquisa e o roteiro. A coordenação, o roteiro, a edição e a pesquisa ficaram com Gabriel de Campos. A Helen Menezes participou da produção, da edição da pesquisa e da distribuição. Produção e pesquisa: Sueliton Viana.
A Mariana Romano fez a edição de história, montagem e sonorização. A leitura das reportagens foi do Leandro Gouveia, jornalista da CBN. A captação de áudio foi feita por Débora Gonçalves, Juliano Fonseca, Priscila Gubiotti e Altair Cunha. A direção de arte é do Alessandro Alvim. Gerência digital: Thiago Barbosa. Giresão, Pedro Dias Leite. Hey there, it's Wayfair here, where delivery and setup are as easy as a few taps on your phone.
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