Episódio 4 - Os protagonistas
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Aline Ribeiro
Bruno Ferullo
Lincoln Gakiya
Márcio Sérgio Cristino
Marcos Willians Herbas Camacho
Roberto Porto
Ruy Ferraz Fontes
- Monitoramento do PCC pelos EUAOrigens e início no crime · Primeiras prisões e fugas · A traição e colaboração com a polícia · Rivalidade com Geleião e Cezinha · Marcos Willians Herbas Camacho · PCC
- CV e PCC como ameaças à segurançaLincoln Gakiya · Ruy Ferraz Fontes · Ações e investigações contra o PCC · Ameaças e assassinatos de autoridades · PCC
- PCC CV TerrorismoInvestigação e monitoramento do PCC · Ameaças de morte e escolta · Operação Etos · Transferência de Marcola para sistema federal · Lincoln Gakiya
- Possível saída de líderes políticosEntrega de informações à polícia · Interceptação telefônica · Assassinato de Ana Olivato · Ana Maria Olivar · Geleião · Cezinha
- Experiências de vida e superaçãoIsolamento social e familiar · Restrições de segurança 24 horas · Impacto na vida pessoal e profissional · Lincoln Gakiya
- Bolsa de Valores· EconomiaOrdem de atentado transmitida por mulheres de líderes · Interceptação e prisão das mulheres · Apreensão de explosivos · Geleião · Petronilha
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Como alguém se torna um líder? Como que o chefe máximo do PCC, o Marcola, conseguiu desbancar as antigas lideranças que eram tão fortes e tão temidas? Eu fiz essa pergunta para muita gente durante a última década e só tive a resposta no dia 25 de agosto de 2025. Foi quando eu conversei com o delegado Rui Ferraz Fontes, investigador responsável pelas principais condenações do Makola. Eu lembro bem da data, porque algumas semanas depois daquela conversa na Praia Grande, no litoral de São Paulo, o Rui foi assassinado pelo PCC.
Aquela foi a última entrevista dele antes de morrer. E naquela entrevista ele deu os detalhes de uma história que eu nunca tinha escutado. Ele contou como é que o Marcola traiu os comparsas para chegar ao poder e virar o chefão do PCC. No universo dos bandidos, a caguetagem é um dos crimes mais graves que se pode cometer. Eu já entrevistei um cagueta, em 2016. Eu estava fazendo uma reportagem sobre cemitérios clandestinos do PCC, que é onde são enterrados os inimigos da facção.
Sem despedida e sem piedade. E sem nunca aparecer o corpo. Pra sempre. Meu telefone tocou, já era tarde da noite. Era um delegado da Zona Sul de São Paulo me chamando pra ir correndo pra uma delegacia. A PM tinha estourado um cativeiro do PCC. E lá eles encontraram um cara que tinha sido sequestrado e tava sendo torturado. Era um cagueta, um informante da polícia que tava sendo punido pela facção. Quando eu cheguei na delegacia, eu fiquei muito impressionada com o que vi.
A vítima resgatada tava meio fora do ar depois de noites sem dormir. Quase não conseguia conectar as ideias. O homem tava sendo torturado tinha 2 dias. Tinha hematoma nos 2 olhos, um galo no rosto, boa parte do corpo esfolada e o joelho inchado. Ainda assim, era um cara de sorte. Se a polícia não tivesse chegado, ele com certeza ia ser executado. Este é o podcast PCC, o Salve Geral, uma produção da Rádio CBN e do jornal O Globo.
Eu sou Aline Ribeiro, repórter especial do Globo em São Paulo, e cubro segurança pública e direitos humanos há 15 anos. A partir de agora, eu vou contar como é que começou a era Marcola. E como todo vilão tem um antagonista, não dá pra contar a história do Marcola sem contar também um pouco das vidas de quem combateu ele ao longo dos anos. Lá atrás, o próprio Rui Ferraz Fontes. E hoje, o promotor de justiça Lincoln Gacchia. Nesse quarto episódio, a gente fala sobre os protagonistas, os homens que simbolizam essa guerra entre o PCC e as forças de segurança.
Marcola, Playboy, Narigudo, chefe máximo do PCC. Pena, Mais de 300 anos de prisão. Total de cadeia até agora, 2026: 39 anos. A gente não tem a pretensão aqui de fazer uma biografia do Marcola. A nossa proposta nesse episódio é traçar a trajetória dele até o topo do crime. Explicar como é que ele profissionalizou o esquema. E como ele fez do PCC a maior e mais impiedosa facção do Brasil. O Marcola nasceu em Osasco, mas cresceu em São Paulo, no bairro do Glicério.
Ele foi criado por uma tia, mas passava a maior parte do tempo na rua. Ele começou cedo no crime, praticando pequenos furtos. E o melhor amigo dele naquela época era o Cezinha, justamente aquele que seria um dos fundadores do PCC. Os dois cresceram juntos, tanto na vida quanto no crime.
Marcola significa Marco que cheira a cola, porque ele fumava muita cola e tal.
Esse é o procurador de justiça Márcio Sérgio Cristino, que atuava como promotor do Ministério Público de São Paulo. Você já ouviu a voz dele aqui.
Mas eles eram trombadinho, eles se conhecem desde criança.
Quando eram adolescentes, o Marcola e o Cezinha viraram assaltantes de banco e faziam o papel mais violento da gangue: ficar na contenção para trocar tiro com a polícia se fosse necessário. Por causa do roubo a banco, Marcola foi preso pela primeira vez em 1986. Ficou 12 anos no sistema, ganhou direito ao semiaberto e fugiu. Da segunda vez, ele foi preso por mero acaso, depois de roubar 11 milhões de uma empresa de transporte de valores e fugir para o Paraguai. O Márcio conta como aconteceu a última prisão do Marcola, em junho de 1999.
A maior pena que ele tem foi por causa disso, da Transpev. Foi muito louca a história.
Um carro importado, que era meio raro naquela época, estava passando pela Marginal. Investigadores do DEIC estavam por ali também, por coincidência, e o carro chamou a atenção deles. Isso porque eles sabiam que o sócio do Marcola tinha um carro daquele. O carrão encostou perto de um telefone público. E os policiais abordaram os caras.
E os caras tinham ido— olha só, eles tinham ido no mentiroso para grampear um telefone de onde o Marcola estaria. Aí estavam voltando para São Paulo, eles olharam um carro na Marginal, falaram assim: "Pô, olha esse carro, é aquele carro que o Marcola tava ganhando, um Stratos roxo, não sei o quê, não sei o quê, não sei o quê. Olha a placa do carro, não parece que a placa do carro tá mesmo remarcada? É, vamos fazer o seguinte, vamos parar o carro, vai ver o que acontece." Só que antes deles pararem o carro, o carro mesmo para, um cara desce e vai até um telefone, um orelhão, Aí os policiais descem e aí: "Cidadão, como é que é?" "Não, esse carro é não sei de quem, eu fui para meu sítio no Paraguai, tô voltando, não sei o quê, não sei o quê, não sei o quê." O outro que tá no telefone vê a polícia, ó, sai correndo.
Os investigadores nunca tinham visto Marcola, mas sabiam as características físicas dele.
Aí o investigador olhou com o dedo e falou: "Eu sei quem você é, você é o Marcola, você é o Marcola, a casa caiu para você, você tá preso, você tá preso, não sei o quê." Prenderam ele na marginal Tietê-Gusttavus.
Aí depois o Tira-Evero falou para mim assim: "É, doutor, eu prendi ele com o dedo, porque naquela hora nem armado eu tava." O Marcola foi levado para a casa de custódia de Taubaté, que era para onde o pessoal mais barra pesada era mandado. Lá também estavam o Cezinha e o Geleião. Até 2002, a facção tinha dois líderes principais. Um era o José Márcio Felício, conhecido como Geleião, e o outro era o César Augusto Roriz, o Cezinha.
Dois caras respeitadíssimos no mundo do crime. Eles faziam parte do grupo que fundou o PCC em 1993.
A grande sacada do Zé Márcio foi o seguinte: "Não, quem pisa lá fora, pisa lá fora. Quem chega aqui vai ter que dançar nossa música.
É aqui nós que vamos mandar." O Márcio é uma das pessoas que mais acompanharam a trajetória do PCC desde os anos 90. Ele lançou um livro sobre a história da facção, O Laços de Sangue. Ali ele conta com detalhe como é que eram os líderes, o Cezinho e o Geleião, e por que eles eram tão respeitados pelos presos.
O Zé Márcio Felício, ele tinha características físicas muito próprias. Tinha quase 2 metros de altura, ele era muito forte, era um cara que fazia mil flexões por dia, mas ele também era muito carismático.
Falava bem.
O Cezinha do mesmo jeito, só que o Cezinha era mais baixinho, extremamente "tompudo", o termo que se fala, um cara bem forte. E eles fizeram uma amizade muito grande no presídio. O Zé Márcio foi preso aos 18 anos.
O Márcio explica como o PCC convencia os presos a entrarem para a facção.
"nós vamos tomar conta disso aqui, nós que vamos mandar nisso aqui". Isso se espalhou que nem fogo, porque aquelas quadrilhas que vinham de fora e tiranizavam, elas perderam vez. "Tromba nenhuma, aqui é PCC, aqui somos nós, ninguém vai mexer com ninguém aqui". E isso eles trouxeram pra eles.
O Marcola, na época, era um zé ninguém no PCC. Ele já era conhecido nas cadeias porque foi assaltante de banco, que dava um certo prestígio ali no mundo do crime. Mas ele não tinha participado da criação do PCC e nem fazia parte do quadro de lideranças. O Marcola é descrito por muita gente como carismático, bom de lábia, mas não como um bom orador, capaz de convencer as pessoas com um discurso. O Marcola é mais o cara do raciocínio, das ideias, um estrategista.
Extremamente habilidoso, calculista, inteligente e sedutor. Você conversa com ele, conversei muitas vezes, Dá vontade de acreditar nele, entendeu?
O Marcola usou essas habilidades para dar um golpe de mestre e chegar à liderança do PCC, segundo contou para a gente o ex-delegado-geral Rui Ferraz Fontes na última entrevista dele. Como é que o Marcola consegue desbancar dois líderes que tinham esse peso dentro do PCC?
Então, são duas questões. Uma delas, a culpa foi nossa. Não é bem culpa, né? É um encadeamento da história que leva a isso.
O Rui investigou o PCC por quase 3 décadas. Boa parte do que se sabe sobre a facção hoje é graças a ele. A estrutura dos caras, como é que eles se organizavam, a função de cada um no grupo. O Rui chegou ao cargo de delegado-geral da Polícia Civil em 2019 e se aposentou em 2022. Depois, ele virou secretário de administração na Praia Grande. O Rui me recebeu no gabinete dele, na prefeitura mesmo. O jornalista da CBN, Gabriel de Campos, um dos editores desse podcast, estava junto comigo.
Meu nome é Rui Ferraz Fontes, eu era o delegado titular da Delegacia de Roubo a Bancos, que desde 2002 foi encarregada de fazer investigações relacionadas com o crime organizado. Usado e com, especificamente, com relação ao PCC.
É curioso pensar que essa entrevista com o Rui quase não aconteceu. Pra nossa surpresa, ele contou uma coisa bombástica, mas por uma questão de segurança, ele pediu off absoluto, ou seja, disse que a gente não poderia contar aquilo pra ninguém. Só que o impensável aconteceu. No dia 15 de setembro, exatamente 3 semanas depois da entrevista, O Rui foi assassinado com tiros de fuzil quando tava saindo do trabalho. Um assassinato que pareceu coisa de cinema e ganhou todas as manchetes dos jornais.
Rui Ferraz Fontes foi executado a tiros de fuzil ao ser alvo de uma emboscada no início da noite de ontem em Praia Grande, cidade do litoral do estado. Rui Ferraz Fontes atuava no município como secretário municipal de administração. Ele foi um dos primeiros delegados a investigar a cúpula do PCC e foi decisivo para o indiciamento de líderes da facção por formação de quadrilha no início dos anos 2000.
Foi uma emboscada do próprio PCC, segundo as investigações. Depois disso, a gente discutiu bastante e entendeu que garantir a segurança dele, infelizmente, já não fazia mais sentido. E que a informação que ele tinha dado naquele dia era muito relevante para ficar guardada. Que tem o interesse público jornalístico em revelar como é que se deu a ascensão do chefe da maior facção criminosa do país.
Desmanchou a liderança, ele assumiu no lugar.
A ex-esposa do Marcola, ela era bem conhecida.
Ana Maria Olivar.
E ela era bem respeitada entre os presos, né?
Era bem respeitada entre os presos. E tem uma situação que aconteceu lá atrás que gerou, talvez tenha gerado a morte dela. O Cezinha e o Geleão estavam mandando fazer muito ataque, matando gente na rua, etc. e tal. Quem trouxe o telefone, só que eu não gostaria que isso viesse a público porque envolve diretamente a minha pessoa, né? Quem trouxe o... Vocês vão usar o direto?
Vocês vão?
Então off.
Foi aí que o Rui finalmente contou como aconteceu a queda dos antigos líderes.
Quem trouxe o telefone que o Cezinha utilizava dentro do Bangu 1 foi Ana Maria, ela que entregou.
A Ana Maria, ex-mulher do Marcola, que deu para a polícia o número do telefone usado pelo líder do PCC.
Ela que entregou. Aí eu fiz um pedido, interceptei o telefone e fui morar lá no Rio. Fiquei 3, 4 meses no Rio ouvindo eles, como é que funcionava, como é que funcionavam as ordens, como é que elas passavam para os presos que eram intermediários. Então foi aí que deu para entender o que era o PCC. Foi a partir dessa interceptação. Isso revelou, assim, deu uma ideia mais geral do que era o PCC. Mas foi ela que trouxe o telefone.
E eu acho que eles ficaram sabendo isso. Por isso que eles tinham ódio mortal da— O Cezinha tinha ódio mortal da Olivato.
O Rui disse que se mudou para o Rio de Janeiro, onde o Cezinha estava preso, para ouvir os telefonemas grampeados. Os caras falavam tudo em ligação. O investigador instalava uma espécie de escuta telefônica num aparelho e gravava as conversas com um gravador. Tudo com autorização da Justiça. Mas tinha um detalhe: a polícia precisava saber o número que os criminosos estavam usando. Isso era um segredo muito bem guardado. E quem contou isso para a equipe do Rui, segundo ele mesmo disse para a gente, foi a ex-mulher e advogada do Marcola, a Ana Olivato.
Por uma limitação tecnológica, para a escuta funcionar, os investigadores tinham que estar fisicamente perto da linha grampeada. O Rui e a equipe dele então se hospedaram por meses em um quarto de hotelzinho barato no centro do Rio. Uma espelunca. Tinham uns 8 ou 9 telefones grampeados com os gravadores a tiracolo espalhados por cima dos móveis do quarto. Era uma operação de sigilo máximo. Quando eles saíam pra comer, eles recolhiam tudo.
Pegavam o material e colocavam dentro de uma mala pra continuar gravando. E sair pra comer era praticamente a única coisa que eles faziam fora do quarto. Eles ficavam o dia inteiro trancados ouvindo os presos. No meio de um monte de conversas sem importância, de preso namorando pelo telefone com as mulheres, falando sobre a vida, eles conseguiram também ouvir os caras planejando os crimes. Pro Rui, foi o próprio Marcola que passou os números de telefone pra polícia grampear.
Na avaliação do ex-delegado-geral, a Ana Olivato e o Marcola atuaram, na prática, como colaboradores das forças de segurança. Ela era colaboradora de vocês, então?
Foi, naquele período foi.
Entendi. Então por isso que falam que o Marcola em algum momento ajudou a polícia.
Então a conversa que tem é que ele mandou ela fazer isso. Você entendeu?
Ele mandou ela fazer isso pra eles...
Pra tirarem eles do caminho e assumir.
Dedurar os líderes do PCC foi uma forma de tirar os caras do caminho. E abrir o posto para uma nova liderança. Se eles fossem transferidos, eles ficariam isolados e sem ter como chefiar a facção. É importante a gente falar aqui do peso dessa acusação do Rui. Não é a primeira vez que o Marcola é acusado de traição e colaboração com a polícia. Em 2017, quando lançou o livro Laços de Sangue, o procurador Márcio Cristino fez essa mesma afirmação.
Era um dos principais promotores que atuaram no combate ao PCC. Chamando o Marcola de informante. Mas o livro não explicava como tinha acontecido na prática essa possível traição. Não dava nome de policial envolvido ou datas mais precisas para uma reconstituição dos fatos. Agora dá até para entender por quê. O Márcio e o Rui trabalhavam juntos, eram uma dupla, além de amigos. Se o Márcio desse detalhes de como os telefones foram parar nas mãos da polícia, colocaria o amigo em risco.
Mesmo sem as provas concretas, a repercussão do livro foi rápida. O PCC espalhou um "salve", como é chamado o comunicado dos criminosos, defendendo Marcola e chamando Márcio de caluniador.
Comunicado geral, data 13/11/17. A todos, primeiramente, nossos sinceros cumprimentos a todos os irmãos e companheiros de todo o Brasil em geral. Deixamos todos cientes que na semana passada foi divulgada uma publicação de um lançamento de um livro chamado "Laços de Sangue". Esse livro está vindo com uma das maiores calúnias contra o Marcola, aonde vem citando que para o mesmo alcançar a liderança do PCC, ele forneceu dados de centrais telefônicas e de números das duas maiores coisas que são os Geleião e o Cezinha.
Deixamos bem claro para todos que isso não passa de mais uma investida escrota, medíocre e caluniosa desses malditos.
O Rui participou de tudo, recebeu em mãos os contatos telefônicos de várias lideranças, Em troca, ele prometeu que nunca iria contar sobre o envolvimento nesse episódio da Ana Olivato, para resguardar mesmo a vida dela.
Agora eu tô falando, eu recebi essa informação, então não é que eu ouvi dizer. Eu pedi a interceptação telefônica, eu fui morar no Rio de Janeiro e esclareci, ou esclareci não, acabou revelando como era A organização, primeira vez, mês de abril ou maio de 2002.
O Marcola, segundo o Rui, usou a polícia para derrubar os líderes antigos. Só que o esforço da polícia para preservar a vida da Ana Olivato não serviu para nada. Ela acabou assassinada pouco tempo depois. Os antigos líderes, o Geleião e o Cezinha, já estavam perdendo apoio internamente no PCC. Eles tinham planos muito violentos, megalomaníacos, mas que acabavam botando em risco os integrantes da facção que tinham que executar.
Com as descobertas feitas com a ajuda dos grampos, o Geleião e o Cezinha foram para o isolamento no sistema penitenciário. Perderam de vez o contato com o restante dos presos e ficou um vácuo de poder. Eu perguntei sobre isso para o Dr. Lincoln Gacchia, promotor de justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo. De São Paulo, o outro personagem desse episódio do nosso podcast.
Ele é hoje o inimigo número 1 do PCC. Eu falei para o Lincoln tudo que acabei de contar para vocês, toda a saga do Rui indo para o Rio de Janeiro, as gravações.
Evidentemente eu não vi essas gravações, se é que tem essas gravações, mas se o Rui confirmou, né, tá no livro do colega do Márcio Cristina, acredito que deve ter ocorrido. Então eu até digo que nesse sentido Marcola era uma espécie de cagueta. Que é o termo que eles usam no presídio. Então esse fato que está no livro do Márcio Cristino seria um fato que se comprovado poderia também, assim como aconteceu com o Geleião e com o Cezinha, poderia levar também à decretação do Marcola.
A gente entrou em contato com a defesa do Marcola e o advogado dele, o Bruno Ferullo, mandou uma nota. Ele disse que a acusação do Rui não corresponde à realidade e não tem respaldo em elementos concretos. Falou ainda que o Rui, ao longo da sua carreira, construiu "interpretações e conclusões que não se confirmaram ao longo do tempo". Por fim, afirmou que o ex-delegado-geral nutria "especial interesse" pelo Marcola. O Marcola foi preso em 1999 e nunca mais saiu da prisão.
O Marcola não entrou no PCC de imediato. Ele ficou só como um dos protegidos dos caras, até pelo respeito que tinha como ladrão de banco. Ele só foi aderir mais tarde. A investigação que levou o Marcola pra prisão, enquanto ele desfilava com um carro importado, foi feita pela equipe do delegado Rui. Se de um lado o Marcola crescia na carreira do crime, do outro o Rui despontava como um dos principais investigadores do PCC. O Rui descobriu que o PCC passou a usar uma tecnologia revolucionária: as centrais telefônicas.
As centrais fizeram o PCC mudar de patamar. Teve uma mega rebelião em 2001, que foi o momento em que o PCC se mostrou para o país todo. Em questão de minutos, a facção virou de cabeça para baixo quase 30 cadeias em São Paulo. E tudo isso graças a essas centrais telefônicas e aos celulares. Porque era por essas centrais clandestinas que eles conectavam os celulares nas cadeias.
As centrais telefônicas, na época, havia um serviço de disponibilização utilizado pelas operadoras, que era transferência de chamada. Então eles instituíam linhas fixas em diversos pontos do estado de São Paulo, e essa linha fixa era como se fosse de uma telefonista. O preso ligava querendo falar ou com alguém da organização ou com outra pessoa do crime dentro da cadeia, ligava para ela e ela transferia para o celular dentro da cadeia.
O Rui foi decretado de morte pelo PCC mais de uma vez. Ele pediu para a gente não mencionar no podcast que ele era o secretário de administração da prefeitura, mesmo sendo um cargo de conhecimento público.
Vai voltar em mim, ele sabe que sou eu. Eu não quero, eu não tenho, eu tenho proteção de quê? Eu moro sozinho aqui, eu vivo sozinho na Praia Grande, que é o meio deles. É, para mim é muito difícil. Se eu fosse um policial da ativa, eu tava pouco me importando, que eu teria estrutura para me proteger. Tudo a mim.
Em 2002, os líderes do PCC estavam isolados no presídio mais rigoroso que tinha, o de Presidente Bernardes, no interior de São Paulo. O Marcola se aproveitou disso para ir cavando espaço. Já tinha um caminho se abrindo, mas não completamente naquela época. Faltava tirar do jogo o Cezinho Geleião de uma vez. E teve um episódio que contribuiu demais para que isso acontecesse: o plano de fazer um atentado contra a Bolsa de Valores de São Paulo, às vésperas das eleições de 2002.
A intenção era causar um impacto no coração econômico da cidade, gerar uma repercussão mundial. A comunicação no presídio de Presidente Bernardes estava bastante restrita. Então os líderes precisaram contar com as primeiras damas, as mulheres deles. Elas ficaram encarregadas de passar a ordem pra fora. A Petronilha, mulher do Geleião, transmitiu o recado por telefone. Disse que o Geleião queria uma festa por dia. Queria uma festa no cofre, na caixa.
Festa era um código pra atentado. Uma festa por dia, um atentado por dia. Um deles na bolsa de valores. Só que tinha um problema: os telefones de todo mundo estavam grampeados.
Quando eles organizam tudo isso, a gente foi lá e prendeu todas as mulheres. Aí falou: "Não, agora você vai entregar o explosivo, senão vai explodir isso." Os explosivos foram abandonados num Gol, no quilômetro 91 da rodovia Anhanguera.
O desembargador Roberto Porto, que também conversou com a gente para esse podcast, era promotor de justiça do Ministério Público de São Paulo. E junto com o Rui, enfrentava o crime organizado.
Eu lembro que o Doutor Rui desceu de helicóptero, parou o tráfego de carros e o esquadrão antibombas abriu o porta-malas do carro e foi apreendida a bomba que ia ser destinada para a Bolsa de Valores.
E conseguiram conter o...
Conseguiram conter.
Foi uma derrota atrás da outra para o PCC. O atentado deu errado, as primeiras damas foram presas. O Geleião era capaz das maiores atrocidades, um assassino sanguinário. Mas com a Petronilha, não. Ele era completamente apaixonado por ela. E quando ela foi presa, ele tomou uma atitude extrema: virar delator do PCC.
Marcola já começava a falar contra ele. Aí ele, para livrar a cara da Petronilha, ele veio com ódio do Marcola e deu todo mundo, e deu Marcola, deu todo mundo. Ele foi um delator, o Angelão. Essa delação obviamente ficou conhecida dos presos, ele perdeu a liderança. Nesse meio do caminho, por causa de uma briga entre as mulheres, matam a mulher do, a ex-mulher do Marcola, a Ana Maria, né? "Quem matou?" O Ceará, que era irmão da Aurinete, que é mulher do Cezinha.
Aí colocou a Cezinha na berlinda também, aí desmanchou a liderança. Desmanchou a liderança, ele assumiu no lugar.
E foi com a derrocada do ex-amigo Cezinha que o Marcola finalmente assumiu a liderança máxima da organização. O cunhado do Cezinha, O líder do PCC matou a Ana Olivato, a ex-mulher do Marcola. Aquela que entregou os números do telefone pro Rui. Porque já desconfiavam que ela andava colaborando com a polícia. Mas matar a advogada não adiantou nada pro Cezinha. Ele foi tirado da liderança pelo cara que tinha sido seu grande parceiro na vida do crime.
Ficou no ostracismo. E alguns anos depois foi assassinado na cadeia por gente do PCC. Já o Geleião morreu muito tempo depois, em 2021, de COVID. A partir daí, o Rui não deu mais paz para ele. Na polícia, costumam dizer que o Rui fez um passeio pelo Código Penal. Indiciou o Marcola por tudo quanto é crime. Só que mesmo assim tinha uma dificuldade: juntar provas que mostrassem que o Marcola era o novo líder. O Makola sempre negou esse cargo.
Desde 2002, negou até que faz parte da facção. Ele também não fala no telefone. Até porque, né, ele sabe bem que a polícia pode estar escutando tudo. Então, ele tem sempre um porta-voz para falar no lugar dele. Os investigadores estavam sempre ansiosos por uma prova. A chance deles era que algum criminoso grampeado falasse que o Makola é líder por telefone. E finalmente aconteceu. O mesmo mecanismo que ajudou Marcola a tomar o poder, o grampo, se virou contra ele.
A gente conseguiu acessar um depoimento inédito do Rui para a Justiça, em que ele detalha essa interceptação telefônica. Essa gravação mudou os rumos das investigações contra o Marcola.
Havia uma conversa que ela manteve com o preso, logo no fim dos trabalhos, um preso que estava preso no Rio de Janeiro. Ela manteve uma conversa mais ou menos umas 7 horas contando como é que a casa funcionava. E aí ela vai relatando o nome de todas as pessoas, quem é que funcionava, o que fazia, como é que a casa funcionava. E a Carla tratou esse assunto.
A Carla, citada pelo Rui no depoimento, era namorada de um preso que tava interceptado pelo delegado.
E a Carla tratou esse assunto comigo aqui. Eu lembro que ela chegou a falar sobre isso.
Então ela é Ele perguntou como seria a organização.
Qual a função dela e a função do Rui.
E que organização que era essa, Doutor?
É PCC.
Esse depoimento do Rui foi dado num processo sobre os atentados de 2006, especificamente sobre como funcionava a célula oeste do PCC, de onde partiam as ordens dos ataques. A voz feminina que quem fala com Rui é da juíza que conduz o interrogatório. A segunda mulher que você vai ouvir agora é a promotora do caso. Ela quer entender se a interceptação telefônica que ajudou o Rui dizia que o Marcola é o líder. Então, especificamente ao senhor Marcos Camacho, o senhor teve acesso então a essa conversa da senhora Carla em que ela narrava, ela disse expressamente nessa conversa, o senhor consegue se recordar se Ela atribuía a ele e a outras pessoas a liderança da organização.
Sim, eu vou tentar reproduzir o que eu me recordo. Eu me recordo que o preso do Rio de Janeiro, que era ligado à facção no Rio de Janeiro, questionava em determinado momento por que que se tocava fogo em ônibus, por que que faziam aquilo e atingiam a comunidade, a população mais pobre. E ela respondeu que isso é uma ordem de cima, que seria do Marcola, que seria da organização. E explicou que era para retaliar porque o Estado estaria pressionando eles em alguma coisa. É o que eu me lembro de detalhes da conversa. Isso tá na conversa dela lá.
Na era Marcola, o PCC entrou a fundo no tráfico de drogas. O foco não era mais o terror, era o lucro.
Era assim, os caras pertenciam PCC não tinha uma arrecadação certa. Aí o preso, ah, ele ganhou um dinheiro roubando alguma coisa, ele mandava um dinheiro pro Cezinha, pro Jaraian, pros líderes de uma forma geral, né, conforme o nível de relacionamento. Não tinha assim uma planilha financeira clara de recolhimento de dinheiro e de pagamentos, etc. Isso começa a surgir depois de 2004.
Apesar de negar, o Marcola sempre age como um líder. Não se sente intimidado nem mesmo na frente de um juiz, que tem o poder enorme de piorar a vida dele. Um depoimento inédito dado para a Justiça em 29 de setembro de 2016 mostra um pouco dessa autoconfiança. O depoimento é daquele mesmo processo sobre os atentados de 2006, em que o Rui também foi ouvido. A voz feminina é da juíza. Além dela, você vai ouvir o Marcola e outras duas vozes masculinas, A do advogado que faz a defesa do Marcola e a do promotor da acusação.
A juíza tenta colocar ordem no tribunal. Enquanto isso, o advogado interrompe o tempo todo para não deixar o Marcola falar. Mas o cliente faz questão de contrariar o advogado publicamente e mostrar quem manda ali.
O senhor é ou já foi em algum momento um líder?
Doutores, por gentileza. Responde se ele quiser. Então, se ele não quiser, ele vai ficar em silêncio. A pergunta, ela pode ser feita.
Então, o senhor orienta o seu cliente, doutor.
As perguntas estão sendo feitas, ele responde se quiser, tá? É uma faculdade dele, doutor.
Só entendeu a pergunta, seu Marco?
Eu não sou líder de nada, embora meu advogado me oriente a não responder, mas eu respondo sim. Não sou líder de nada.
O Marcola diz que não é o líder, mas ele bota a banca o tempo todo e partiu para cima do Rui quando ele teve chance. Ele tentou colar no Rui a fama de corrupto, que é tão grave na polícia quanto ser cagueta no mundo do crime. Quando prestou um depoimento para deputados na CPI das Armas, O Marcola disse que já tinha pagado propina pro Rui. Mas ele não deu muitos detalhes. É importante dizer que o Rui nunca respondeu a nenhum processo por corrupção.
O Marcola já era líder do PCC e o Rui já tinha despontado como investigador da facção quando o Lincoln entrou nessa história. Em 2004, Lincoln já morava em Presidente Prudente. Prudente, a uns 500 quilômetros de São Paulo. Prudente é uma cidade relativamente pequena, de 200 mil habitantes, mas tem uma particularidade: fica perto da cidade de Presidente Bernardes, onde fica o presídio de segurança máxima que durante muito tempo abrigou os líderes do PCC.
O promotor que atua na região acaba, de certa maneira, responsável pelos processos desses presos também. E o Lincoln era esse promotor. Ele decidiu criar uma espécie de gaeco particular no interior de São Paulo. O GAECO é o braço do Ministério Público que cuida do crime organizado. Ele não era do GAECO, mas montou um esquema próprio de monitoramento telefônico para investigar o PCC. Um esquema solitário e rudimentar, mas que logo chamou a atenção dos criminosos.
Eu não falei aqui, mas enfim, eu tive uma ordem num dos processos para me matar em 2005, que era um integrante do PCC que eu mandei para o RDD, né, para o Regime Disciplinar Diferenciado.
Naquela época, os investigadores viviam sob a sombra do assassinato do José Antônio Machado Dias, o Machadinho, um juiz que morava e atuava em Presidente Prudente, a mesma cidade do Lincoln. Ele era considerado um dos maiores inimigos do PCC naquela altura e foi emboscado e assassinado pela facção em 2003. O PCC já tinha mostrado que poderia muito bem cometer esse tipo de atentado. Para ameaça virar uma sentença de morte não precisava de muito.
E ele teria dado uma ordem, gritado inclusive, uma ordem para outro preso para que essa ordem fosse passada através de visita para rua, que era para mim matar. E um funcionário, um policial penal, ouviu aquilo, passou para o diretor, e então eles não me localizaram. E também, na verdade, eu tava de licença porque meu filho havia acabado de nascer na véspera, e eu tava Eu recebi a notícia, eu tava na farmácia comprando fralda, inclusive.
Você ficou assustado?
Muito, né? Porque até então você não sabe. Se a gente falar até alguém para te matar, você não sabe se tá na esquina, em que nível que tá isso.
A partir dali, ele decidiu investigar mais a fundo o PCC, justamente para se proteger e também para proteger os colegas do Ministério Público e das polícias. Pode até parecer um contrassenso, mas mas fazia sentido. Era um jeito de estar sempre um passo à frente dos criminosos. Se os criminosos planejassem alguma coisa, o Lincoln podia agir de imediato, pra nunca mais ser pego desprevenido como aquele dia na farmácia. Ele até ficou um tempo fora de serviço por causa da ameaça.
E quando voltou, viu que ninguém tinha investigado o caso. E aí ele entendeu que ia ter que comprar essa briga quase sozinho. Mas comprar essa briga não mudou só a vida do Lincoln. O custo foi altíssimo também para a família dele.
A partir de hoje o senhor vai ter uma escolta. E a mãe fazia até novena, né, rezava, acendia vela, enfim.
O Lincoln teve a chance de mudar de setor dentro do Ministério Público, largar as investigações sobre o PCC, mas ele entendeu que não tinha mais como voltar atrás. Por que o senhor continuou?
Olha, eu continuei porque eu acho que eu não tenho direito de parar.
Parar mais.
Em decorrência de uma situação que era para salvar minha vida, muitas vidas foram salvas. Eu poderia enumerar várias. Aliás, a própria vida do Rui, né? Eu salvei o Rui já de um assassinato na porta do 69 DP. Foi uma interceptação minha, eu mandei a rota lá e prenderam dois integrantes do PCC que iriam assassinar.
Depois que entrou pro gaeco de verdade, a inimizade com o PCC escalou. Em 2013, o Lincoln ofereceu uma denúncia gigantesca contra a facção, resultado de mais de 3 anos de investigação.
Essa semana, uma investigação do Ministério Público de São Paulo revelou a estrutura e o dia a dia da maior organização criminosa do Brasil.
Foram 3 anos analisando escutas telefônicas, documentos, documentos, depoimentos de testemunhas, e os promotores descobriram que o grupo que age dentro e fora dos presídios paulistas não tá só em São Paulo, já se espalhou para todos os estados do Brasil.
Centenas de integrantes importantes presos em operação de ação controlada minha.
O Lincoln dobrou a aposta contra o PCC. De novo virou alvo da facção.
Então aquilo gerou uma uma insatisfação muito grande, uma outra ordem para me matar, 2013.
Aquela mega denúncia mostrou aspectos até então inéditos sobre o PCC. Pela primeira vez, trouxe indícios de que o PCC tinha se espalhado por várias regiões do Brasil. Não tava mais restrito a São Paulo e estados próximos. Também conseguiu dar uma dimensão mais concreta sobre os negócios do PCC, principalmente por tráfico de drogas. Mas na prática, dá para dizer que o risco corrido pelo Lincoln foi um pouco em vão. A denúncia não foi aceita pela justiça, nunca virou um processo.
Em 2025, 12 anos depois de oferecida, a denúncia prescreveu. Ninguém foi condenado por ela.
Acabou dando prescrição, mas isso é quando a gente ofereceu a denúncia, até imaginou que daria prescrição, R$175 e o crime era de quadrilha ou bando, cuja pena máxima é 6 anos.
Em 2016, o Lincoln desencadeou uma operação que foi outro golpe no PCC e principalmente no Marcola.
Polícia Civil do Estado de São Paulo deflagrou hoje a quarta fase da Operação Etos.
Os investigadores miram no que eles chamam de Pombos Correios, de uma facção criminosa que atua dentro e fora dos presídios de São Paulo.
Na prática, até agora, foram presos 37 suspeitos que tinham envolvimento com integrantes de facções criminosas, que estão no sistema penitenciário do estado, incluindo aí a Penitenciária 2.
É, o Marcola já tava, eu acho que naquela época, 23, 24 anos preso. E aí ele toma uma condenação por um crime que ele determinou quando estava preso, interrompe o lapso de 30 anos, começa a contar do zero de novo. Eu fui de novo pro topo da lista. E aí, pra acabar de piorar a minha situação, foi em 2018 pra 2019.
Em 2018, o Marcola tava preso em Presidente Wenceslau, uma prisão de segurança máxima controlada pelo Estado de São Paulo. Mas o Ministério Público entendia que um cara do nível do Marcola precisava de mais, ir pro sistema federal, considerado ainda mais seguro. Isso porque os investigadores já tinham desmantelado tinham selado dois planos para resgatar o Marcola. E aí apareceu outra ordem, em setembro.
Uma delas era de helicóptero, enfim, né? A gente conseguiu frustrar aquele plano, mas esse último plano era um plano, vamos dizer assim, bastante audacioso, seria num dia de visita.
Assim que descobriu o plano, o Lincoln procurou o governo de São Paulo para tentar explicar a importância de transferir os sistema federal.
A gente não tinha muita outra opção senão remover esses presos da Penitenciária 2 de Venceslau, principalmente o Marcola. Concordaram que a única opção era fazer a remoção. Apenas me disseram que teriam que conversar com o governador em exercício, Márcio França, já que o Alckmin também novamente havia se licenciado para disputar a presidência da República.
O Lincoln contou pra gente que o Márcio França tinha topado fazer a transferência. Mas que era para esperar as eleições de 2018 passarem. E por que o Estado deu para trás?
Deu para trás com medo de 2006.
Enquanto esperava, Benceslau virou cenário de guerra. Eu inclusive fui para lá nessa época, para fazer a cobertura desse plano de resgate do Marcola. A cidade estava tomada de polícia por todo lado. A população estava apavorada, com medo de sobrar para todo mundo. As eleições passaram e nada da transferência ser autorizada.
Falei: "Márcio, mas precisa ser feito." Ele falou: "Não, eu não concordo, porque vai ter um banho de sangue, vai ser Novo Maio de 2006 se a gente fizer isso, todo mundo aqui vai ficar marcado pro resto da vida por isso." A gente entrou em contato com Márcio França e ele não quis se manifestar. Aí o que aconteceu? Ninguém me deu retorno. Eu costumo dizer assim: ninguém me mandou um WhatsApp, uma mensagem, um e-mail, nada, nenhum telefonema.
Então eu resolvi fazer, que eu percebi que na verdade eles não queriam fazer a remoção.
Você fez sem autorização do governo do estado de São Paulo?
É, eu não precisava da autorização, né?
Mas era de bom tom ali que fosse?
É claro, até para mim salvaguardar, né, a minha segurança. Mas eu tive que fazer sozinho esse pedido, resolvi fazer sozinho esse pedido.
Ao todo, 22 líderes do PCC foram para o sistema federal. Num ato coordenado, o governo federal endureceu ainda mais as regras nas prisões federais. Prisionais federais. As visitas de familiares passaram a ser permitidas somente no parlatório, sem contato físico, tipo aqueles vidros de filme que fica o preso de um lado e o advogado ou a família do outro. Aí começou também a Peregrinação do Marcola. Ele ficou pingando entre presídios de Porto Velho e Brasília, foi e voltou de um para o outro até 2023, quando parou de vez na capital. Pro Lincoln, aquela transferência 2009 foi a sentença definitiva de morte dele.
O que eles não esperavam era uma remoção contra a ordem e a vontade do governador, do secretário de segurança, secretário de administração e do procurador-geral.
Mais recentemente, Lincoln cutucou de novo Marcola. Dessa vez, ele não enroscou o líder do PCC só com a justiça, mas também com o próprio crime. Veio a público um áudio do Marcola falando com um policial penal. O Marcola reclama do tratamento que recebia no sistema federal, que ele era um cara perigoso, mas não, nas palavras dele, psicopata como Soriano. Roberto Soriano, vulgo Tirissa, é um comparsa da velha guarda da cúpula da facção. Sem o Marcola saber, o policial penal gravou essa conversa.
"Não é uma tragédia impensável. Aqui não.
Eu tenho eles já assinados, mas..." Com a ajuda do áudio, o Soriano foi condenado como mandante da morte de um policial penal e de uma psicóloga que trabalhava nos presídios. E quem vazou o áudio do Marcola, que tornou pública essa declaração tão polêmica? O Lincoln. De novo, a fama de cagueta rondava o Marcola. O áudio deixou Soriano transtornado e outros líderes da velha guarda ficaram do lado dele contra o Marcola.
E o Soriano, quando ouve o Marcola dizer, falar dele, ele ficou absolutamente psicopata, que teria sido ele o mandante mesmo. Quer dizer, aquilo é uma espécie de caguetagem no mundo do crime. Ficou muito ruim para o Marcola. O Soriano saiu revoltadíssimo, ele tomou lá uma pena, acho que 30 anos de reclusão. Milhões, né, se eu não me engano. E falou assim: se fosse eu, por muito menos do que isso, tivesse falado, Marcola estaria morto.
Além de chamar essa atitude de caguetagem, o Lincoln também acha que esse episódio deixa claro que o Marcola tá perdendo força na facção. Por que que o senhor acha que o Marcola tá enfraquecido? Teve alguma ordem dele que foi questionada?
Então, o que acontece, por exemplo, né, aí houve esse racha. Então, quando houve o racha, já o Abel Pacheco de Andrade, o Andinho, O Daniel, Vinícius Canores, que eram líderes do PCC junto com Marcola, ficaram do lado do Soriano. E os mais jovens é que ficaram do lado do Marcola. E veja, ninguém, comparsas ou mesmo familiares da parte do Roberto Soriano, foram atingidos. Então, se o Marcola tivesse com toda essa força no mundo do crime É, já que foram decretados, né, o Soriano, Abel, o Andinho como traidores, ninguém foi morto.
O áudio foi parar em processos, foi tocado em audiências do Soriano e do Abel Pacheco, o Vida Louca citado pelo Lincoln. Esses criminosos usaram as audiências na justiça para mandar recado para o Marcola. Para o Lincoln, pode ser questão de tempo até a liderança do crime mudar. O senhor acha que essa troca de comando pode acontecer em breve assim? Em breve, próximos 5 anos?
Eu acredito que sim. Eu não digo breve, mas a médio prazo isso deve acontecer.
Em 2026, o Marcola enfrenta um racha interno no PCC. Um racha inédito desde que assumiu a facção em 2002. E pode ver o trono dele desmoronar. O delegado Rui Fontes foi assassinado pelo PCC. Já o promotor Lincoln Gacchia segue o seu calvário. A profissão praticamente acabou com a vida dele e da família fora de casa. O preço, o custo pessoal disso é muito alto, né? Eu vi uma entrevista, acho que uma matéria do Washington Post, que fala que O senhor e sua família não vão à praia desde 2018.
A gente não tem férias desde 2018, né?
O que mais vocês deixaram de fazer?
A vida social, deixar de ir no shopping, deixar de ir ao cinema. Os amigos sumiram, né? Ninguém me convida para nada mais, eu também não convido ninguém. Então assim, a gente vive praticamente isolado. Eu vivo dentro do meu condomínio lá, só eu e minha família. Então é muito difícil. Eu vou no restaurante É uma cidade pequena, assim, você vai num restaurante, tem toda essa estrutura de policiais que me acompanham, às vezes as pessoas assustam.
E saem?
Já houve caso da pessoa levantar da mesa do meu lado e sair correndo. Já houve caso da esposa discutir com alguém, que a pessoa começa a falar: "Para que tu isso?
Que absurdo, gastando dinheiro público, né, almoçando no shopping ou jantando no shopping." No dia em que a gente entrevistou o Lincoln Gacchia aqui na redação da CBN, Quem chegou primeiro não foi o promotor. Foi a enorme escolta dele, que vistoriou o prédio inteiro antes do Lincoln entrar. A escolta do Lincoln rivaliza com a de presidentes em número de policiais.
Qualquer lugar que eu vou, vão policiais do reservado avançado fazer uma identificação, verificar se tem segurança, se não tem.
Uma hora depois, o Lincoln chegou para nossa entrevista. Rodeado por mais seguranças. Para quem está de fora, é difícil ignorar todo esse aparato. Mas o Lincoln vive cercado por esse pequeno batalhão 24 horas por dia. Uma rotina que já dura 20 anos. Até pouco tempo, servidores públicos não tinham direito a escolta depois de aposentados. Depois do assassinato do Rui, algumas leis mudaram este quadro. Mas para a escolta de fato funcionar, Ainda depende da boa vontade dos governos.
Não é o fato de eu ter direito à escolta que essa escolta vai ser mantida, porque o Estado pode também paulatinamente enfraquecer essa escolta, dizer que não tem risco mais, que eu não preciso mais desse número de policiais me acompanhando. Então tudo isso é possível.
No fim de 2026, o Lincoln Gacchia completa tempo para se aposentar. A capacidade do governo de proteger o promotor vai ser um teste crucial para o Brasil. No último episódio desse podcast, a gente vai contar o que aconteceu com o PCC depois dos atentados de 2006. Em 20 anos, a facção se transformou. O PCC, que no passado enterrava os lucros do crime, sofisticou a operação financeira. E agora atua direto da Faria Lima. O tráfico local se tornou internacional.
Como o PCC se fortaleceu tanto a ponto de estar hoje em quase 30 países? Você vai saber no próximo episódio. Até lá! O Salve Geral é uma produção da Rádio CBN e do Jornal O Globo. Eu, Aline Ribeiro, fiz a narração, a reportagem, a pesquisa e o roteiro. A coordenação, o roteiro, a edição e a pesquisa ficaram com Gabriel de Campos. A Ellen Menezes participou da produção, da edição, da pesquisa e da distribuição. Produção e pesquisa: Sueliton Viana.
A Mariana Romano fez a edição Direção de história, montagem e sonorização. A leitura das reportagens foi do Leandro Gouveia, jornalista da CBN. A captação de áudio foi feita por Débora Gonçalves, Juliano Fonseca, Priscila Gubiotti e Altair Cunha. A direção de arte é do Alessandro Alvim. Gerência digital: Thiago Barbosa. Direção: Pedro Dias Leite. [MUSIC]