Episódio 3 - A Reunião
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Aline Ribeiro
Cláudio Lembo
Iracema Vaciavel
Lincoln Gakia
Márcio Cristino
Nagashi Furukawa
- Reunião com MarcolaAtaques do PCC em São Paulo · Proposta de encontro com Marcola · Iracema Vaciavel · ONG Nova Ordem · Governo de São Paulo · Cláudio Lembo · Nagashi Furukawa · Marco Antônio Desgualdo · Eliseu Eclair · Saulo de Castro Abreu · Antônio Ruiz Lopes · Ailton Brandão · José Luiz Ramos Cavalcante · Luiz Henrique Fernandes (LH) · Márcio Cristino · Lincoln Gakia · Rui Ferraz Fontes · Alexandre Calado · Guilherme Portanova · Enio Tato · Alexandre de Moraes · Geraldo Alckmin · Alexandre Saiasso · Julinho Carambola
- Revelações sobre o acordoJornal Folha de São Paulo · Jornal Estado de São Paulo · Processo judicial sobre sequestro · Depoimento do delegado Cavalcante · Investigação do Ministério Público · CPI na Lespe
- Continuidade da pressão do PCCEleições de 2006 · Fim do RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) · Novos atentados em agosto de 2006
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Conheça a trilha. Pensar fora da curva é o melhor caminho. Saiba mais sobre a trilha em trilhab3.com.br Depois de um dia inteiro de ataques, o terror corria solto nas ruas e nos presídios. O fogo contra fogo entre a polícia e o crime não tinha funcionado, e o número de vítimas só aumentava. Foi então que uma completa desconhecida apresentou uma ideia que era, no mínimo, ousada. Na real, uma temeridade.
ela propôs um encontro de autoridades do governo paulista com o chefe máximo do PCC, o Marcola, para tentar convencer a facção de parar os ataques. A Polícia Civil foi procurada por uma pessoa que tinha condições de transmitir àquelas pessoas que estavam cometendo os atentados aqui fora uma notícia que poderia levar ao fim dos atentados e das rebeliões.
Sem um plano melhor para acabar com tudo aquilo, as autoridades toparam o inimaginável, sentar na mesa com a liderança do PCC. Só que o PCC armou uma espécie de arapuca para o governo de São Paulo, que caiu direitinho.
Esse é o terceiro episódio do podcast PCC, o Salve Geral, uma produção da Rádio CBN e do Jornal O Globo. Eu sou Aline Ribeiro, repórter especial do Jornal O Globo. No primeiro episódio, a gente falou sobre os atentados e os bastidores daqueles dias em que parecia que São Paulo ia explodir. No segundo, a gente contou as histórias das vítimas dos dois lados desta guerra.
E agora, nesse terceiro, a gente vai reconstituir, cena a cena, como aqueles ataques que aterrorizaram a maior cidade do país pararam tão de repente quanto começaram. Episódio 3. A reunião. Falar em acordo é uma humilhação àqueles que morreram. Falar em acordo é admitir que nós não temos dignidade, que nós respeitamos os que morreram, combateram.
A ideia do PCC para aquele ano de 2006 era promover os ataques pouco antes das eleições, que iam acontecer em outubro. Era uma forma de pressionar o governo a relaxar as regras das cadeias. Mas com a transferência massiva de lideranças para presídios de segurança máxima, o crime foi pego desprevenido. E aí a cúpula do PCC decidiu antecipar os planos. Colocar os ataques na rua ainda em maio. Mas eles não estavam preparados.
Mas o que eu quero dizer é que na mente das pessoas, e é isso que eu fico às vezes espantado, ficou a ideia de que aquilo era uma articulação precisa, planejada, organizada. Que eles falaram que teve alguém que chegou aqui e falou assim, não, nós vamos atacar aqui, aqui, aqui, aqui, aqui você vai de noite, aqui você vai de noite. Não teve isso.
Este planejamento não aconteceu. Era tipo, bicha uns lençóis e vai lá. Vai lá. É, entendeu? O procurador de justiça Márcio Cristino, que você está ouvindo aí, era promotor de justiça do Ministério Público lá em 2006. Ele é uma das autoridades que acompanharam bem de perto aqueles dias e funcionou como uma espécie de consultor desse podcast. O Márcio conta que logo no segundo dia dos atentados, o PCC já estava perdendo o fôlego.
O pessoal na rua que ia fazer os ataques já estava com menos munição, com menos soldado e com menos condição emocional para continuar a guerra. Mas tinha um problema. Eles não podiam decidir parar com tudo. Não por conta própria. Eles precisavam de um aval da chefia. Só que os líderes, naquele momento, já estavam isolados, com pouquíssima comunicação dentro das cadeias. E a galera da rua ficou perdida, sem saber se era para parar ou se era para continuar. Foi quando eles tiveram uma grande ideia.
fazer uma reunião.
A tensão dominava a manhã do sábado, 13 de maio de 2006. Começamos com informações já em São Paulo, já que uma série de ataques a delegacias e bases policiais deixou um total de 21 mortos em São Paulo. 14 policiais e 6 criminosos que participaram da ação. E também várias rebeliões no estado de São Paulo. Teremos mais informações antes de alguns instantes aí no Show da Notícia, Marconel. Tô com medo!
Porque eu não tinha visto uma cena dessa ali. Tem um corpo de um ser humano ali. Era por volta de duas e meia da manhã, quando começou a baralha dos tiros, né? Eu me acordei assustado, juntamente com a minha família. Foi um susto. A população aqui da região está temendo mais ataques desse.
O governo, assim como o crime, também foi pego de surpresa e ainda estava tentando descobrir como é que reagia tudo aquilo. Naquele momento, já se contavam 33 agentes públicos mortos no Estado e outros 51 civis. Foi nessa hora que uma advogada chamada Iracema Vaciavel, até então uma total desconhecida para as autoridades, procurou alguns delegados da Polícia Civil. Isso era umas três da tarde. Ela chegou com uma proposta que era tudo o que eles queriam ouvir. Disse que tinha uma solução para acabar com os ataques.
A conversa vinha com uma aparência de solução para a crise, mas, na verdade, tinha muita coisa por trás disso. Os integrantes do PCC na rua procuraram a Iracema porque eles precisavam se comunicar com o Marcola. Eles queriam usar a Iracema para enganar o governo, entrar no presídio e descobrir se era ou não era para continuar os ataques. Mas, para o governo, a Iracema contou uma outra história. Ela falou que tinha como fazer as rebeliões cessarem porque os presos estavam achando que o Marcola tinha sido assassinado pela polícia.
Então ela precisava de uma prova de vida do Marcola. Qual era a ideia? Dar um telefone celular para o Marcola falar com outros presos, em outras unidades prisionais ou na rua. E o Marcola se recusou a falar no telefone. Esse é o Lincoln Gakia, promotor de justiça do GAECO, o grupo do Ministério Público de São Paulo que combate o crime organizado.
Ele é o atual inimigo número um do PCC e um dos personagens desse podcast. Qual era a ideia? Dar um telefone celular para o Marcola falar com outros presos, em outras unidades prisionais ou na rua. E quem que era a Siracema? Como é que ela tinha esses contatos todos no crime e na polícia?
Em 2006, a Iracema era advogada criminalista. Mas antes de ser advogada, ela tinha sido delegada de polícia. E por isso transitava bem, tanto em delegacias quanto em presídios. A Iracema fazia parte de uma ONG, a Nova Ordem, contratada com frequência por criminosos do PCC.
A ONG se vendia como uma entidade que atuava para ressocializar os presos. Mas, na prática, ela funcionava quase como um braço jurídico do crime organizado e ainda lavava dinheiro para a facção. Muitos membros da ONG, inclusive, foram investigados por vários crimes.
Um deles foi o sequestro do repórter da Globo, Guilherme Portanova, e do cinegrafista Alexandre Calado, em agosto de 2006. Boa tarde, Nonato. A ONG, que atuava em presídios paulistas, chamada Nova Ordem, servia de instrumento para apoio logístico e lavagem de dinheiro para a facção criminosa que atua em São Paulo, responsável por uma série de ataques no Estado e também a história por trás do sequestro dos dois funcionários da TV Globo.
De acordo com o delegado do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado, Rui Ferraz Fontes, a ONG Nova Ordem encabeçou uma campanha pela causa defendida pela facção criminosa em maio do ano passado, procurando espaço na mídia para divulgação. Como não encontrou, teria apoiado o sequestro dos funcionários da Globo.
Ainda de acordo com o delegado Rui Ferraz Fontes, por meio de escutas telefônicas e investigações, a polícia pôde comprovar que a nova ordem trabalhava diretamente para a organização criminosa, fornecendo equipamentos como colchões para os chefes do bando.
A Iracema era uma das cabeças da ONG. Foi até diretora jurídica. Na prática, acho que dá para dizer que ela era uma espécie de representante legal do PCC. Pouco tempo depois dos ataques, ela própria se enroscou com a justiça. A advogada Iracema Vassiavel, presa também ontem por porte ilegal de arma, é acusada de formação de quadrilha e apontada como articuladora da organização criminosa.
Hoje a Eracema está com 82 anos. A gente entrou em contato com ela para tentar uma entrevista. E ela gostou da ideia até. Foi receptiva. A gente ficou meses falando com um parente, tentando mandar mensagem. E ela até cogitou falar com a gente. Mas depois ela desistiu. Bom, de toda forma, ela é a personagem dessa história.
Mesmo sem a Iracema, a gente conseguiu reconstituir como é que aquela ideia foi subindo até chegar ao governador de São Paulo, o Cláudio Lembo. Uma fonte em especial ajudou muito. Era uma das pessoas que participaram diretamente das decisões. Mas ela, infelizmente, só falou com a gente em off.
A proposta deixou os policiais transtornados. Não fazia nem 24 horas que os ataques tinham começado. Como é que eles poderiam cogitar que o Estado cederia, que ia legitimar o PCC dessa forma? Mas mesmo achando aquilo um absurdo, os delegados tinham que reportar essa ideia para cima, para os chefes. No caso, o delegado-geral da Polícia Civil, o Marco Antônio Desgualdo.
O Desgualdo também jogou a ideia ainda mais para cima. Umas quatro e meia da tarde, ele telefonou para o comandante-geral da PM, o coronel Eliseu Eclair. O Desgualdo explicou a proposta da Iracema e disse que se os termos fossem seguidos à risca, não ia ter problema aceitar.
Mas o coronel ficou desconfiado. E a primeira pergunta que ele fez foi a que qualquer pessoa faria. E o que ela quer em troca disso? A resposta foi difícil de acreditar. O Desvaldo falou que a advogada só queria ver se o Marcola estava bem. Que a família queria entender se ele não tinha sido esculachado.
A família é a gira que o PCC usa para nomear quem faz parte da facção. E o esculachado é o termo dos criminosos para agredido ou coisa pior. O coronel ficou surpreso com o que tinha acabado de ouvir e contou para o resto do pessoal que estava na sala. Entre eles, estava o Nagashi Furukawa, secretário da administração penitenciária. Eles conversaram sobre a proposta e sobre a iracema. Não conseguiam confiar nela, muito menos na ONG Nova Ordem.
Mesmo assim, depois de muito debate, chegaram a um consenso. Dava para fazer a reunião. O raciocínio foi. Se a advogada não estava pedindo nada de legal, se ela só queria garantir que o Marcola não estava machucado, por que não fazer? Ainda mais com as ruas que estavam pegando fogo.
O Nagashi Furukawa ligou para o secretário de segurança, o Saulo de Castro Abreu, para saber a opinião dele. O Saulo achou estranha a ideia, disse que ia ficar esquisito para o governo aceitar uma coisa daquelas e que só ia topar se tivesse uma autorização judicial. Mas o Nagashi retrucou. Ele disse que a justiça não tinha nada a ver com aquilo e bancou a decisão de deixar a advogada encontrar o Marcola.
Sobrou para ele, para o Nagashi, a missão ingrata de fazer a ideia subir ainda mais e falar com o chefe, o governador do estado, sobre o plano. Na manhã do domingo, ele telefonou para o governador Claudio Lembo. O Lembo resistiu. Achava que ia ser difícil explicar para a opinião pública essa ideia. Mas o Nagashi usou um argumento definitivo. Diz que não se tratava de um acordo, mas de uma rendição incondicional.
Esse é um termo militar usado para dizer que o lado perdedor cede sem nenhuma garantia e aceita todas as imposições de quem está no controle. Autorizei, disse, vamos mandar. Vamos mandar para a gente poder, inclusive, ter consciência de o que está pensando essa pessoa. Esse é o governador Cláudio Lembo. Ele topou, mas com uma condição, de que tudo fosse feito de forma transparente, sem esconder nada de ninguém.
Não foi bem assim que aconteceu. Domingo, 14 de maio, dia das mães. Um avião da polícia militar saiu da zona norte de São Paulo em direção ao presídio de segurança máxima de Presidente Bernardes, a uns 500 quilômetros da capital paulista.
Dentro do avião, ia a advogada Iracema Vaciavel e algumas autoridades. Ela não tinha cargo oficial, mas era a pessoa mais importante daquele voo. A comitiva era composta ainda por três representantes escolhidos pelo Estado. O corregedor Antônio Ruiz Lopes, da administração penitenciária, o coronel da PM Ailton Brandão, comandante da região, e o delegado José Luiz Ramos Cavalcante, da Polícia Civil.
A missão do delegado era fiscalizar o encontro, garantir que nada ia acontecer com a Eracema, conferir se os presos estavam bem e, o mais importante, não deixar ninguém interferir na conversa com o Marcola. Não era para ninguém falar nada, só a advogada. Justamente para não dar nenhuma brecha para que aquilo parecesse uma negociação. O diretor do presídio de lá fala para ele, não venha, não venha, porque vocês vão dar força para o Marcola. Não venha.
Aí os caras viram e falaram assim, não, nós vamos. Queria estar de lá, vocês vão fazer merda. Não, nós vamos. E eles foram. O grupo chegou ao presídio de segurança máxima de presidente Bernardes. E foi levado para uma sala da cadeia. Os agentes penitenciários foram buscar o Marcola. Fazia só um dia que ele tinha sido mandado para lá.
As paredes daqueles presídios eram todas revestidas de concreto, com chapas de aço para impedir os presos de cavar túneis e fugir. O sinal para celular era bloqueado em toda a penitenciária. Por isso, a sala onde os visitantes foram colocados precisou ser preparada para permitir ligações de celular, segundo depoimentos de testemunhas que a gente acessou. Quando o Marcola chegou, com as mãos algemadas, já estava todo mundo esperando.
De um lado da mesa sentaram a advogada, o corregidor Antônio Ruiz, o delegado Cavalcante e o comandante Euton Brandão, um do lado do outro. De frente para eles, o Marcola. O Marcola foi quem começou a conversa, como se fosse o anfitrião. Perguntou quem era aquele pessoal e, depois de todas as apresentações, ele continuou falando, como quem domina a situação.
Uma das perguntas que ele fez foi para o corregedor da SAP, a administração das cadeias. O Marcola quis saber por que ele foi mandado para o presídio de Bernardes e por que ele estava no regime disciplinar diferenciado, o RDD, que é a trancadura da cadeia. O corregedor não respondeu de cara, porque o combinado era não falar nada. Mas para não azedar o clima logo no começo da conversa, ele saiu da sala e telefonou para o chefe dele, o secretário Nagashi. E a resposta foi, diga que fui eu, Nagashi, que mandei.
que é por força de uma ordem legal. Não era exatamente a resposta que o Marcola estava esperando. E já ficou aquele climão. Até que a advogada Eracema finalmente abriu o jogo. O Marcola tinha que falar no telefone com os outros presos. Dizer que ele e os outros que foram para Bernardes estavam bem, sem esculacho. Mas o Marcola desdenhou da ideia. Chamou Eracema de inocente porque todo mundo sabia, ou deveria saber, que ele não fala no telefone, para evitar produzir provas contra ele mesmo.
E o Marcola continuou. Disse que não tinha como pedir para pararem os ataques porque ele não tinha nada a ver com aquilo, nem com as rebeliões. Então ele não podia mandar parar uma coisa que ele não tinha nem começado. O Marcola sempre tentou se livrar do manto do líder de PCC, dizer que penduravam esse título nele, mas que ele nunca foi líder de nada.
O Marcólota lamentou a morte de todo mundo, mas não cedeu e ainda deu uma provocada. Disse que para o Estado, a morte de inocentes importava menos. A cada brecha que ele tinha, aproveitava para debochar de novo do governo. Mas a Iracema ia contornando e sempre voltava para o assunto principal. Era só ligar e falar que estava tudo bem. Nada além disso.
De tanto insistir, acabou funcionando. Só que como o Marcola não fala o telefone, ele mandou chamar outro preso, o Luiz Henrique Fernandes, que era conhecido como LH. O subordinado chegou, Marcola explicou a situação toda, a proposta que estava na mesa, e ficou todo mundo na expectativa de uma ordem. Mas ele não falou mais nada. Ele não deu uma ordem direta para os ataques pararem. O Marcola só contou a proposta da Iracema, que era pegar no telefone e dizer que estava tudo bem.
E disse que o próprio LH é quem ia decidir se queria ou não ligar. Só que o LH, que era o porta-voz do Marcola, sabia muito bem que aquilo ali era uma ordem, não era um pedido. O número do telefone que ia receber aquela ligação já estava gravado no aparelho da Irassema.
Para o Macola, aquilo era uma espécie de cartão de visitas codificado. Significava que a Iracema tinha mesmo o contato de alguém na rua que podia parar com tudo aquilo. O LH só precisou apertar o botão de discar. A ligação caiu várias vezes, até que ele conseguiu falar.
o telefonema durou entre 2 e 3 minutos. E o LH teve a mesma sutileza do chefe. Ele não falou para os ataques pararem de forma explícita e direta. Ele sugeriu para os criminosos do outro lado da linha que se quisessem parar, estava tudo bem, podiam parar. E foi o suficiente para todo mundo entender o recado. A polícia até captou algumas escutas telefônicas de criminosos repassando essas ordens do PCC para parar tudo.
era um comando para os presos pararem as rebeliões nas cadeias, que eles chamavam de faculdades. Deixamos todos cientes que as faculdades que se encontram em nossas mãos estarão se normalizando a partir das 9 horas da manhã, desde que nossos irmãos já se encontrem em banho de sol em Wenceslau.
Na madrugada de segunda para terça, os ataques coordenados praticamente não existiam mais. E as rebeliões nos presídios acabaram todas de uma vez. O coronel acredita que os ataques agora vão diminuir. Hoje ocorreram apenas dois casos de ônibus incendiados.
As Secretarias Estadual e Municipal de Educação de São Paulo informam que as escolas da Ríde Pública de Ensino vão funcionar normalmente nesta terça-feira. O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, disse que a situação está sob controle. A gente ficou meses negociando uma entrevista com quem participou daquele encontro com o Marcola. Além da Aracema, a gente tentou contato com os três integrantes do governo que estavam lá e com praticamente todos os superiores deles.
Nem ela, nem ninguém, quis falar sobre esse assunto. Um deles, inclusive, lembrou a gente gentilmente que já processou quem disse que houve acordo com o PCC. Quando o governador Cláudio Lembo concordou com o plano do encontro, ele tinha dito que queria que tudo fosse feito com transparência. Mas não foi exatamente assim. O encontro aconteceu no domingo. E o governo, claro, não disse nenhuma palavra a respeito.
Mas na edição de segunda-feira, 15 de maio de 2006, o Jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre uma possível negociação entre o governo e o PCC. Gestão Lembo faz negociação com o PCC. Membros do governo paulista começaram ontem a negociar com líderes da facção. Assessores do governo negam essa negociação. O governador Cláudio Lembo disse que não negocia com criminosos. Ali começou um burburinho barulhento que se espalhou por São Paulo.
Na terça-feira, 16 de maio, o jornal Estado de São Paulo entrou na história. A reportagem avançou nas informações sobre a reunião em Presidente Bernardes. E pela primeira vez, trouxe à tona o termo que marcou para sempre o governo paulista. Cravou no título a palavra acordo. Governo faz acordo com Marcola. O primeiro comando da capital determinou o fim das rebeliões e a suspensão dos atentados no Estado.
Não era só uma conversa nem uma negociação, muito menos uma rendição. Era um acordo. Ou seja, por definição, para o PCC parar os ataques, o governo tinha que ter dado alguma coisa em troca. O governo virou alvo de questionamento. E negou.
Governadora de São Paulo, Cláudio Lembo, negou veementemente que tenha havido qualquer tipo de acordo com facções criminosas para acabar com rebeliões e até mesmo ataques a policiais nas ruas, conforme o que aconteceu de sexta-feira para cá. De acordo com o governador, o que houve foi um trabalho firme de combate ao crime organizado. Para Cláudio Lembo, falar em acordo é humilhar os policiais que morreram durante os combates.
Eu tenho que agradecer aos heróis da Polícia Militar de São Paulo, aqueles que caíram e aqueles que lutaram. Esses, sim, devem ser homenageados. Falar em acordo é uma humilhação àqueles que morreram. Falar em acordo é admitir que nós não temos dignidade, que nós respeitamos os que morreram combatendo. Eu não aceito essa hipótese de estar sendo levantada. Ela é contrária, a São Paulo é contrária à dignidade dos paulistas.
A própria Iracema deu uma entrevista naquele dia 16 de maio e foi na mesma linha do governo, num tom bem afinado. A advogada Iracema Vaciavel, que representa a nova ordem, negou ter sido firmado qualquer acordo para pôr fim aos ataques e rebeliões do PCC. Segundo Iracema, foi uma demonstração de boa vontade do governo de São Paulo. As negativas não serviram para muita coisa. O boato de um acordo já tinha se espalhado pelo Brasil todo.
Para muita gente, o governo ficou de joelhos para o Macola. E tinha mais coisa, que depois foi sendo descoberta. Pelas regras dos presídios, os presos transferidos não podiam receber visita tão cedo. Precisavam respeitar o prazo de 30 dias.
Então, para fazer a reunião, que aconteceu só um dia depois que o Marcola foi transferido, o Estado teve que passar por cima das próprias regras. Para sustentar aquela decisão, o governador Cláudio Lembo disse que era um direito do Marcola ter acesso à advogada dele naquele momento de crise. Acontece que a Iracema não era advogada do Marcola. Ela defendeu outros membros do PCC, conhecia gente da facção, mas nunca trabalhou para o Marcola.
Ou seja, passou de novo por cima das regras. E, por fim, é bom lembrar aqui que o bloqueador de celular dos presídios foi desligado para permitir aquela chamada telefônica. A gente até pode pensar que o caráter de exceção daquele momento dava margem para soluções menos convencionais. Mas a opinião pública não enxergou aquilo com bons olhos.
E essa crise, inclusive, causou uma baixa no secretariado da gestão Lembo. O Nagashi Furukawa, poucos dias depois, saiu da Secretaria da Administração Penitenciária. A gente contou no primeiro episódio que ele e o secretário de Segurança, o Saulo de Castro Abreu, não se davam.
Pois é, logo depois que o Nagashi deixou o cargo, o Saulo falou em uma entrevista para o jornal Folha de São Paulo que o desafeto dele saiu às pressas da SAP porque despirocou. O Saulo acabou tendo que se explicar pela falta de decoro para deputados na Assembleia Legislativa de São Paulo. Quem questiona o secretário nessa sessão de junho de 2006 é o então deputado estadual Enio Tato, que era da oposição. Eu queria pedir para o secretário que o senhor explicasse para a gente.
Qual o significado da palavra despirocou? Nossa Senhora se colocou que o secretário Nagashi tinha despirocado. Com a palavra do secretário. Não tem adicionário, eu procurei, mas não tem essa palavra.
Não, é só a questão vernacular. Primeiro, projetos dele. Segundo, no Pagas Aulete tem, no Hawaes tem, depende do escolar. Pode pegar que tem sim, deputado. A palavra existe. Aliás, é usada por vários autores nacionais. Os façores usam muito isso. Como se dizia, o Tremão, que algumas crônicas usa. O Carlos Gilmão de Andrade, o senhor Sainte foi o único poeta e escritor brasileiro que nem revisão de texto passava.
Então fique tranquilo que a palavra existe no vernáculo, mas também se fosse uma construção, ela teria cabimento. Se tem uma tal, mais ou menos isso, como o senhor fez, inventar história. Não existe nenhuma gravação dessa reunião entre a advogada do PCC, o Marcola e as autoridades paulistas. E o governo também nunca deu detalhes do encontro. A reunião vazou logo no dia seguinte, como os jornais da época mostraram.
Mas os nomes de todo mundo que participou e o que cada um disse ali ficaram em segredo por quase uma década. Foi em 2015, remexendo uns arquivos que estavam esquecidos no tempo, que um repórter fez essa história reviver. Sou o Alexandre Saiasso, tenho 25 anos de carreira. Enfim, parece roteiro de filme.
O Alexandre era repórter no Estadão quando fez a matéria que revelou detalhes inéditos da reunião. Hoje ele trabalha numa filiada da TV Globo em Manaus. Eu estava conversando com um procurador de justiça. No meio da conversa ele solta esse depoimento do delegado, onde ele confirma que houve acordo entre o governo e o PCC. Eu falei, que depoimento? Não estou sabendo de nada. Não, não, teve um depoimento. Aí ele explica.
Não teve um depoimento do delegado José Cavalcante, né? Onde ele dá todos os detalhes do que foi essa reunião aí com o Marcola, né? O Cavalcante foi o representante da Polícia Civil na reunião com o Marcola. O papo é que ele tinha dado um depoimento sobre a reunião, mas ninguém tinha registro disso. Eu falei, poxa vida, mas esse depoimento tá onde, né?
Daí ele, poxa, está num processo de associação criminosa que apurava a participação de advogados, o envolvimento de advogados com o PCC. Esse depoimento foi dado em fevereiro de 2007, quase um ano depois dos ataques. Só que o repórter quase não tinha nenhuma informação sobre aquilo. E aí ele começou a apurar. E aí ele deu o nome de um dos investigados.
Era tudo que eu tinha, né? Então, a partir desses dados, eu fiz uma pesquisa junto ao Tribunal de Justiça. Descobri que esse processo tinha sido arquivado, né? E ele estava no arquivo morto do TJ. E para acessar esse arquivo morto, né? Para entrar nesse prédio, né? Onde estão esses processos.
só sendo um advogado. Então eu pedi um apoio de um advogado para que ele entrasse comigo nesse local. Ele prontamente aceitou, eu entrei lá como estagiário dele e a partir daí nós tivemos o acesso. Mas só que a pesquisa não foi fácil, porque nós descobrimos lá que além desse processo, havia vários apensos.
E esse depoimento estava em um dos apensos. Salvo engano, eram sete apensos, com 400 páginas cada um. E aí só fomos encontrar esse depoimento dez dias depois. Como é que foi voltar para a redação com esse material? Você se lembra? Os meus editores acompanharam essa saga toda, desde a primeira conversa com esse procurador até a fase de me passar por estagiário. Então estava todo mundo na expectativa.
E quando eu cheguei na redação, realmente foi uma... Enfim, os olhos dos meus editores brilharam também. O Alexandre também contou como é que o jornal tomou a decisão de bancar a palavra acordo, mesmo que um acordo não tivesse tão explícito assim. A gente tinha consciência de que tinha um material jornalístico muito bom em termos de informação, qualidade. A gente tinha noção de que pela primeira vez a gente poderia dar detalhes desse acordo, mas dando voz.
as pessoas que estavam falando sobre ele, porque esse processo já estava arquivado, nunca esteve em segredo de justiça, então ele poderia ser veiculado na íntegra, esse depoimento. Nós preparamos um esquema, digamos assim, de matéria especial. Esse depoimento foi lido pelos meus editores e também pela direção do Estadão.
Para todos nós, não havia dúvidas de que a palavra acordo era a mais precisa. A matéria, escrita pelo Alexandre Rizaiasso em julho de 2015, caiu como uma bomba. Logo nas primeiras horas da manhã, a gente acompanhou a repercussão toda, o setor político.
repercutiu bastante. Eu lembro que o governador, na época, ele acabou convocando uma coletiva para tentar justificar aquilo que foi publicado. Eu lembro também que o Jornal Nacional fez uma matéria de mais de cinco minutos, só com a nossa matéria. O jornal Estado de São Paulo publicou hoje uma reportagem em que afirma que o Comando da Segurança Pública de São Paulo, em 2006, fechou um acordo com o crime organizado.
O Alexandre de Moraes, hoje ministro do Supremo, era naquela época o secretário de Segurança de São Paulo. Nós não fazemos nenhum acordo com bandido, não fazemos nenhum acordo com criminosos, sejam eles de facções criminosas, sejam eles de não.
facções criminosas. Então não há nenhum acordo, não houve nenhum acordo e não haverá enquanto for o governador Geraldo Alckmin e eu for secretário da Seguridade. O Alckmin, que em 2006 tinha deixado o governo para disputar a presidência, era de novo governador. E também sobrou para ele.
Mas não foi só o governo dele que saiu se defendendo. A imprensa foi atrás do pessoal envolvido na história lá de 2006. Inclusive a própria advogada, Iracema Vaciavel. A advogada diz que o então governo do Estado, comandado por Cláudio Lembo, não fez acordo com Marcola. Não, acordo não houve em momento algum. Momento nenhum, nenhum.
Então, a única coisa, ele diz, quem começou isto é que tem que parar. Nós só fomos lá com a missão de saber se os detentos estavam bem. Depois da matéria do Estadão de 2015, alguns deputados da Lespe tentaram criar uma CPI para investigar a reunião. A oposição, basicamente PT e PSOL, estava tentando apoio dos outros deputados, mas não conseguiu passar por cima da base do Alckmin, que era muito mais gente.
O impasse sobre o tal acordo foi até parar na justiça. O delegado Cavalcante, que deu o depoimento, processou o jornal Estado de São Paulo e o repórter que escreveu a matéria, o Alexandre. O delegado alegou que o conteúdo da matéria não era verdadeiro, que distorceu o depoimento dele, e que aquela matéria teria prejudicado a honra dele.
Ele também pediu uma indenização por danos morais. Queria que o jornal publicasse uma nova reportagem se retratando e que depois disso não falasse mais sobre esse assunto. O delegado ganhou o processo, só que parcialmente. A justiça condenou o jornal e o repórter a pagarem uma indenização de R$ 25 mil, mas negou o pedido da publicação de uma nova reportagem. Eu perguntei sobre esse processo para o Alexandre. Eu não recebi com muita surpresa, nem eu e nem os meus colegas.
O que nós mostramos na reportagem foi exatamente o Estado sentando na mesma mesa com os chefes do PCC, que estavam comandando o maior ataque já visto na história.
A gente também foi atrás do depoimento do delegado Cavalcante. E o depoimento estava muito bem guardado, quase escondido, naquele mesmo processo que já está lá arquivado pelo Tribunal de Justiça que o Alexandre acessou. A gente esperou 30 dias úteis para o tribunal desarquivar o negócio todo. Eram mais de 13 pastas, 4.500 páginas de documento. Um mar de papel para ler e fotografar. Quando a gente viu o tamanho daquilo, bateu um desespero.
A gente precisou voltar ao fórum algumas vezes para dar conta de tudo. E apesar de todo aquele esforço, não tinha nada além do que o Alexandre contou para a gente. Mas uma outra coisa chamou a atenção. Aquele processo não era sobre o encontro com Marcola. Era sobre o sequestro feito pelo PCC, do repórter da Globo Guilherme Portanova e do cinegrafista Alexandre Calado, em agosto de 2006, três meses depois dos ataques.
Aquele processo não tinha quase mais nada sobre o tal encontro de 2006. A gente descobriu, na verdade, que o Estado nunca investigou de verdade o que aconteceu naquela sala em Presidente Bernardes. Sabe para quem o depoimento do delegado Cavalcante foi dado? Foi justamente para o delegado Rui Ferraz Fontes, que já apareceu aqui nesse podcast.
O Rui era o delegado de São Paulo que investigava o PCC na época dos atentados. Ele foi assassinado em setembro de 2025 pelo PCC. E três semanas antes, ele tinha dado sua última entrevista. Pra gente. Eu perguntei pro Rui sobre o depoimento. E ele me disse que ele próprio abriu uma investigação. Admitiu que não deu em nada, como ele já imaginava.
Ficou no inquérito, na fase do inquérito. Ficou no inquérito, eu arquivo. O inquérito era do senhor. O inquérito era meu, mas foi instaurado a pedido, por requisição, acho que do Ministério Público. Eu não lembro por que isso foi instaurado. Eu sei que foi a pedido de alguém, eu não queria instaurar um inquérito desse. Falar da própria polícia, não ia fazer isso nunca, porque eu sabia que isso não ia levar em lugar nenhum.
Era um negócio que não ia... Mas teve uma requisição, uma ordem superior para essa finalidade. Tá. Existem algumas coisas que eu fiz contra a minha vontade, essa foi uma delas, que eu prefiro colocar no escaninho da memória bem fundo lá para não achar. Eu não lembro.
Então eu questionei se ele tinha guardado uma cópia daqueles documentos. Você tem esse documento? Nenhum. Nenhum. Por causa da minha separação. Como assim? Eu tinha um arquivo muito grande, tinha uma casa na serra, morava lá com uma ex-mulher.
E esses arquivos estavam lá, eu separei dela, destruiu tudo, vendeu a casa. Ficou nada. Nossa, caem muitas lágrimas. A gente achava que a Sintor era o guardião da história. Estava lá, estava lá. Toda essa documentação estava lá.
Não dava pra acreditar naquela resposta. Parecia piada. Rolou até aquele segundo de silêncio, sabe? Pra ele falar que era brincadeira e falar onde estavam os documentos. Mas ele não tava brincando. E lá fui eu atrás da ex-mulher dele pra entender direito essa história. A gente não vai falar o nome dela aqui porque ela não é uma pessoa pública e foi um papo em off. Mas ela contou que era tudo mentira. E não ficou nada feliz de ouvir a versão do ex-marido.
Ela contou que queimou, sim, alguns documentos, mas só umas coisas velhas, uma papelada que ela disse que não servia para nada, não aqueles arquivos de maio de 2006. E engatou uns palavrões para o Rui que eu não vou reproduzir aqui. Eu procurei também outra fonte que tinha investigado o caso do sequestro da equipe da Globo. Eu queria entender por que o Ministério Público não se aprofundou na investigação do encontro, mesmo depois desse depoimento do delegado Cavalcante.
E aí eu finalmente entendi por que o Estado nunca investigou o encontro entre a advogada do PCC e as autoridades do governo paulista.
A fonte me respondeu que se a iracema fosse denunciada como quadrilheira por causa da reunião, ou algo parecido, todo mundo que participou ou que mandou o encontro acontecer teria que ser denunciado também. Ou seja, se a investigação continuasse, na avaliação dessa fonte, ia sobrar para os três que foram na reunião. E, em última instância, chegaria também aos secretários Nagashi, ao Saulo e ao próprio governador Cláudio Lembo. Essa fonte que falou comigo entrou no caso no começo da investigação.
Depois de um tempo, foi mandada de volta para o seu cargo anterior. Um jeito velado de dizer para ela esquecer o assunto. Mas e aí? O governo negociou ou não negociou com o crime? Teve ou não teve acordo?
A gente falou com mais de 20 fontes em on e em off para esse podcast. Nenhuma delas conseguiu dizer, com certeza, que o Estado deu algo em troca para o PCC. E a maioria delas ficou em cima do muro sobre o termo acordo. Na minha cabeça, eu não faria isso. Porque a minha vida foi diferente disso. Eu não negociava com ninguém. Eu colocava na cadeia e pronto. Esse é o delegado Rui, de novo. O senhor acha que ele não foi? Eu acho que o objetivo foi esse. O que eles foram fazer lá, não sei.
Eu não quero dar uma olhada, eu não lembro. Eu não é que eu fui contra, eu não tinha opinião para dar. Eu jamais participaria de um negócio desse. Jamais participaria de um negócio desse. É claro que seria gravíssimo o governo fechar um acordo com criminosos. Mas tem uma discussão anterior a essa que é tão importante quanto. Para além da questão semântica de ser ou de não ser um acordo, o fato de o governo ter mandado seus representantes até o chefe do PCC já é muito controverso.
O promotor de justiça Lincoln Gakia considera que se reunir com o crime já foi bastante errado. Falando agora sobre a reunião da Iracema com o presidente Bernardes. O senhor já disse isso publicamente até. O senhor acredita que foi um erro enviar? Com certeza foi um erro. Veja bem, ali o Estado já estava à deriva, já estava escura.
E aí eu acho que houve um grande erro, que foi o governo do Estado ter aceitado levar essa advogada do PCC até o presidente Bernardes. O Lincoln considerou aquilo um atestado de fraqueza. Uma mostra de que o Estado precisou recorrer ao crime para resolver um problema que o Estado deveria ter condições de resolver, que era acabar com aqueles atentados. E de qualquer maneira foi um equívoco, você mandar uma advogada do PCC.
num avião do governo, com autoridades do governo, para ir negociar com o líder, é o fim da picada. Depois de recontar toda essa história, fica um pouco a impressão de que a grande discussão, se teve ou se não teve acordo, se teve ou se não teve contrapartida, é mais política do que factual. O fato é que o governo sentou com o crime. E foi só depois disso que os atentados pararam. Negociação, reunião, acordo, rendição, pode chamar do que quiser.
Mas o caos só parou depois que o líder do PCC, em uma sala com autoridades do governo, de dentro de um presídio de segurança máxima, mandou fazer uma ligação. O encontro com o chefe do crime foi a solução para acabar com os atentados. Mas deixou um desconforto que reverbera até hoje. O Estado precisou negociar a paz com o crime organizado.
Claro que ela sempre estará à vista, mas nesse momento nós estamos controlando efetivamente a situação.
Esse controle da situação, essa esperança, não duraram muito tempo. É verdade que o PCC parou de matar agentes públicos, de forma coordenada e em massa depois do encontro com o Marcola, e que reduziu a quase zero os atentados a ônibus e prédios públicos. Mas quando foi chegando perto das eleições, lá para agosto, a facção ainda fez alguns atentados. Era uma forma de continuar pressionando pelo fim do RDD, a trancadura dos presídios.
A gente encontrou um depoimento inédito de um integrante do PCC, que estava solto naquele momento, e recebeu a ordem para fazer um ataque em agosto de 2006. Pode relatar. Eu tenho para dizer para a senhora que em agosto de 2006, receber alguns salvos da parte do Marcola, enfim, do Julinho Carambola, os caras que se encontravam na pedaça de vacina, pode ser tomado algum tipo de atitude. O Julinho Carambola era o braço direito do Marcola.
Nessa época eu estava com umas pendências com o crime organizado, porque eu tinha tomado uma punição de 90 dias. O salve o senhor recebeu como? Por telefone? Foi por escrito? Foi o telefone, algumas a mensagem.
Esse depoimento foi dado para a justiça anos depois. O integrante do PCC foi ouvido como testemunha protegida, para ajudar na acusação. A voz feminina é da juíza do caso. A testemunha conta que não topou cumprir a missão dada pelo PCC, mesmo estando com dívida com o crime. Em conclusão, não conclui nada, sai fora, senhor. O senhor não chegou a participar de nenhuma ação? Não, senhora. O que estava sendo proposto?
Proposto em cima de ações que naquele mesmo ano teve os ataques, em maio. E logo em agosto os caras iam dar um repique que fala na linguagem do crime, correto só? Os caras me incluíam nesse tabuleiro com os caras da zona sua, falei, não, pode ir para que eu vou. Logo em seguida eu analisei direitinho, falei, não, melhor eu viver porque eu morrer. Tá, mas eles estavam o que? Propondo fazer o que? Incendiar? Incendiar, o que que era? Comecei com a opinião pública, com o Ministério Público, enfim.
Caporãe nunca tinha que chegar no Congresso. Da mesma forma, chegou em 2006, muita opressão, aquela conversa trupe. Esse repique, como disse o integrante do PCC, não era só um jeito de protestar contra as condições do sistema prisional. Foi também uma resposta à matança feita por policiais e homens encapuzados em maio. Mortes gerando mais mortes. Uma guerra sem fim.
No próximo episódio, a gente vai revelar uma informação inédita sobre como o chefe máximo do PCC, o Marcola, chegou ao poder. E contar como é que a vida e a trajetória dele se entrelaçam com as dos homens que mais combateram o PCC, o ex-delegado-geral Rui Ferraz Fontes e o promotor de justiça Lincoln Gakia. Até lá!
O podcast PCC, o Salve Geral, é uma produção da Rádio CBN e do jornal O Globo. Eu, Aline Ribeiro, fiz a narração, a reportagem, a pesquisa e o roteiro. A coordenação, o roteiro, a edição e a pesquisa ficaram com Gabriel de Campos. A Ellen Menezes participou da produção, da edição, da pesquisa e da distribuição. Produção e pesquisa, Suelito Oviana. A Mariana Romano fez a edição de história, montagem e sonorização.
A leitura das reportagens foi do Leandro Gouveia, jornalista da CBN. A captação de áudio foi feita por Débora Gonçalves, Juliano Fonseca, Priscila Gubiotti e Altair Cunha. A direção de arte é do Alessandro Alvim. Gerência digital, Tiago Barbosa. Direção, Pedro Dias Leite.
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