Episódio 2 - Inocentes e Inocentes
Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices
Aline Ribeiro
Ellen Menezes
Márcio Cristino
Maria Sônia Lins
- Morte do policial Isaías Lopes Viana Jr.Isaías Lopes Viana Jr. · Família de policiais mortos · Esclerose Múltipla · Bico (segundo trabalho) · Execução no restaurante
- Polêmica Neymar e Robinho Jr. no SantosWagner Lins dos Santos · Toque de recolher · Execução policial · Diego (primo)
- Investigação das mortes de maio de 2006Polícia do Estado de São Paulo · Estudo da Universidade Federal de São Paulo · Folha de São Paulo · Márcio Cristino (promotor) · Perda de dados do COPOM · Execução sumária
- Ataques PolíticosGeraldo Alckmin · Cláudio Lembo · Corrida presidencial · Governo do Estado de São Paulo
- Crimes de Maio de 2006 e PCCLaboratório da Análise da Violência da UERJ · Inácio Cano (sociólogo) · Perfil das vítimas · Disparos a queimar roupa
- Mês de MaioMães de Maio · Violência do Estado · Indenização
Dia cheio, treino feito, check. Agora é desligar do mundo maratonando uma seriezinha. E com o que eu economizei com garrafas retornáveis, ainda consigo, por exemplo, pagar mais assinaturas de streaming. É só levar as garrafas de tampa verde ao mercadinho, escolher Coca-Cola, Phantom, Sprite e pagar só pelo líquido. Massa, né? Economize mais com as retornáveis de Coca-Cola.
Já faz 20 anos que o Wagner morreu assassinado na Baixada Santista. Mas a cabeleireira Sônia ainda fala do filho no presente. Porque depois que a gente perde o filho, você já perde tudo. O Wagner é uma das vítimas do Estado durante os crimes de maio de 2006. Pessoas assassinadas por policiais que queriam vingar a morte de colegas pelo PCC. Uma matança de inocentes sem precedentes na história paulista.
O Jean quase não tem memórias do pai. Era muito pequeno quando o policial militar Isaías foi assassinado pelo PCC. Ficava lá, sentava no sofá e essa memória é muito importante para mim porque hoje eu me vejo fazendo isso. Estivei em casa, no dia de folga, sento no sofá, com meu filho brincando, lavo uma cervejinha, escuto uma saminha. Na hora que eu estou fazendo isso, já vem toda aquela essência do meu pai, eu já começo a lembrar dele.
Este é o podcast PCC, o Salve Geral, uma produção da Rádio CBN e do jornal O Globo. Eu sou Aline Ribeiro, repórter especial do Globo em São Paulo, e trabalho há 15 anos na cobertura da segurança pública e dos direitos humanos.
Neste segundo episódio, a gente vai falar das vítimas dos atentados que pararam São Paulo. Como ficaram, tanto tempo depois, as famílias dos civis assassinados por policiais do Estado de São Paulo e as famílias dos policiais mortos pelo crime. Eu já entrevistei muita gente que perdeu familiar de forma violenta. E me impressionou muito, desde quando a gente começou a fazer esse podcast, como essas famílias de 2006 sentem como se os parentes delas ainda estivessem aqui.
Um luto duradouro. As duas partes resistiram bastante em falar com a gente, tanto a família do civil assassinado quanto a do policial. Foram meses de negociação para explicar o projeto, para ganhar confiança e convencer as duas famílias a relembrar os dias mais difíceis da vida delas. As duas famílias, com toda razão, ainda são muito desconfiadas. Elas sentem medo de sofrer alguma retaliação por falar desse assunto.
Mas a gente conseguiu gravar com as famílias do jovem Wagner Lins dos Santos e com a do policial Isaías Lopes Viana Jr. Pela história deles, a gente quer contar um pouco a história das dezenas de policiais militares e das centenas de civis, inocentes ou nem tanto, que foram executados naqueles dias terríveis de 20 anos atrás.
Este é o episódio 2, Inocentes e Inocentes. A Maria Sônia Lins recebeu a gente na casa dela no dia 27 de outubro de 2025. Ela tem 67 anos e mora em São Vicente, na Baixada Santista. A outra voz que aparece na conversa é a da Ellen Menezes, produtora da CBN. A casa da Sônia fica em uma rua bem tranquila, típica de bairro do interior.
Bom dia. Tudo bem? Sra. Dona Maria Sônia? Eu. Eu sou a Aline, prazer. Eu sou a Ellen, que a gente conversou.
A Sônia trabalhou por quase 30 anos como cabeleireira. E o salão dela ficava ali mesmo. A Sônia recebeu a gente e já tinha separado um monte de fotografia antiga. Estavam até desbotadas pelo tempo. Em várias fotos, o Wagner, o filho dela, aparecia ainda adolescente. Tem até aquela clássica dos anos 90, vestido com roupa de cowboy, posando para a câmera num fundo colorido. Eles tinham um olho azul, né? Bem azul. Ele tem um olho azul, bem azul.
Ele tem olhos azuis. Não é sempre que ela fala assim, mas escapou algumas vezes ao longo da conversa. Ainda hoje, a Sônia se recusa a aceitar que uma vingança policial levou o caçula dela para sempre. É triste isso. É triste dizer assim, meu filho levou tiro de fuzil. Olha, você tem um filho com um sacrifício, você põe na escola, você ensina, você alimenta, você dá roupa, você dá o carroçado.
Faz festinha de aniversário e depois você vê o seu filho fuzilado? Não, minha filha, fácil não. Não é fácil. O Wagner é o terceiro filho da Sônia. E como é que ele era, dona Maria? À medida que ele foi crescendo? Ele era mulher. Nunca me deu trabalho? Nunca me deu trabalho. Ele me deu um trabalho na escola, assim. Quando ele estava na escola, no jardim, ele cismou que não queria mais ir para a escola.
Ai, eu não vou mais, não quero, não quero, não quero. Aí eu fiquei pensando, alguém mexeu com ele, alguém brigou com ele. Como ele era o mais alto da turma, a professora sempre colocava o menino lá no fundo da sala. O Wagner ficava indignado que tinha que sentar no fundão. Achava que era o lugar dos alunos bagunceiros. Por que você não quer ir na escola? Aí ele falou assim, eu chego dentro da classe, a professora me coloca no último.
Eu sou o último, eu não quero, eu não vou mais. Aí eu falei assim, mas tem mais alguma coisa?
Você brigou com um amiguinho? Ele, não. Você? Ele, não. Tá. Cheguei lá, conversei com ela. Olha, tá acontecendo isso. Ela falou, ah, vem a cá, meu amor, não sei o quê. Daquele jeitinho dela, né? Ela tem um jeito muito carinhoso com ele. Com todas as crianças, né? Eu acredito. E aí, falou assim, agora você não vai ficar mais atrás. Você vai ficar comigo, aqui na frente.
Em 15 de maio de 2006, o Wagner tinha 22 anos. Aquele 15 de maio ficou marcado como o dia em que São Paulo parou. Para Sônia, o dia em que o filho dela foi assassinado. O Wagner trabalhava com o pizzaiolo. No dia anterior, o domingo, 14 de maio, era dia das mães. A pizzaria estava cheia e ele ficou trabalhando até de madrugada.
Ele não conseguiu visitar a Sônia para comemorar a data. Deixou para ir na segunda. A Sônia fez uma lasanha para receber o filho, mesmo sem saber que era exatamente o que ele estava com vontade de comer. Coisa de mãe mesmo. Eles almoçaram e falaram da vida. Depois, a Sônia fez as unhas do Wagner, um hábito que os dois criaram quando ele conseguiu o trabalho na pizzaria.
A unha tinha que ficar bem rentinha, como ela gosta de dizer, para ele poder sovar a massa da pizza com tranquilidade. Aí ele veio, eu fiz a unha dele e as nossas conversas. E aí a gente escutou esse toque de recolhente. Era uma hora. O almoço estava num clima tranquilo. Ele não precisava trabalhar naquela segunda, porque tinha esticado no domingo. Até que eles ouviram uma notícia na televisão. Um toque de recolher estava rolando na Baixada Santista.
O toque de recolher é uma ordem velada para que ninguém fique na rua depois de um determinado horário. A Sônia já tinha ouvido falar sobre aquilo nos morros do Rio e na periferia de São Paulo. Mas nunca ali onde eles moravam. E já ficou preocupada. Aí eu falei, meu filho, vai para casa. E eu não saia de casa. Não saia de casa em nome de Jesus e não saia de casa. Aí ele falou, tá bom, dona Maria. Porque ele me falava, ele era bem assim comigo, né? Tá bom, dona Maria. E...
Nesse dia ele saiu daquele bicicleta e eu fiquei olhando, sabe? Eu fiz a imagem dele até hoje, na bicicleta, saindo assim. O Wagner foi para casa e garantiu para a mãe que não ia mais sair. No meio da tarde, quando deu umas três horas, ele telefonou para a Sônia. Queria saber do sobrinho, que era o xodó dele. Queria saber se ela já tinha buscado a criança na creche.
Umas duas horas depois, ligou de novo. Perguntou se estava todo mundo em casa, se estava todo mundo bem. O Wagner já não estava com a mesma calma de quando ouvia a notícia na TV. Ele também estava preocupado. Ele contou que as ruas estavam esquisitas, que no caminho da casa da mãe para dele, viu tudo fechado, quase ninguém na rua. E pediu para a mãe não sair sozinha. Aí quando deu três horas, ele ligou para mim e falou Mãe, está tudo fechado. Eu digo, não saia de casa.
Eu recomendo ele demais, porque ele não saiu de casa na filia de ativa. Eu não sei se o coração de mãe sente ou se você... Sei lá, é uma coisa que acontece que a gente fica assim. Depois a gente vai se lembrando, né? Aquele telefonema no meio da tarde foi a última conversa que eles tiveram. De noite, o Wagner ignorou o próprio conselho e resolveu sair. Foi jantar na casa da irmã, junto com o primo dele, o Diego.
E ele foi jantar na casa da minha filha. Minha filha disse que mãe, eu pedi tanto para ele não sair, tanto para ele não sair, mas o primo queria jogar videogame. E só tinha videogame na época na casa do primo. A Sônia estava se sentindo estranha naquela noite, como quem estava tendo uma espécie de premonição. Ai, gente, me deu um negócio assim. E antes de receber essa notícia, eu senti assim, uma coisa me puxando.
Aí eu fui pra frente e voltei. E fui de novo. Só que era uma força que saía de mim. Não era eu que me levantava. Eu deitada, eu senti essa força que saía. Se saía, eu voltava. Saía de novo, voltei. Eu falei, pô, tô morrendo, porque o meu espírito tá saindo do meu corpo. E aí, quando o telefone tocou, ela falou assim, as meninas levaram o tiro. Aí eu falei assim, e como que tá o Wagner? Como é que tá o Diego? Como é que tá o Wagner? Como é que tá o Diego? Ela falou, saiu o Diego? Sabe?
Quando tu fica assim, quer saber só notícia boa? Tiro, mas, sei lá. De repente foi, não foi fatal. Aí ela falou assim, ó, o Diego tá bem. Aí ele levou um tiro na perna, mas o Vávio levou um tiro no abdômen. Ela falou assim pra mim. Então ele tá no hospital. Então ainda tem aquele risquinho de esperança que eu, eu como mãe, meu coração de mãe, não tinha mais.
Eu tinha certeza que tinha acontecido alguma coisa a mais. Mas eu não tenho a certeza, né? A Sônia ficou sem chão. Ela correu transtornada até o hospital para onde levaram o filho dela. Quando chegou, perguntou na recepção. Mas o nome dele não aparecia como paciente. Ela insistiu duas, três, quatro vezes. O atendente só repetia que era a médica quem ia conversar com ela. Ela precisava esperar.
Olha, foi a hora mais difícil da minha vida, foi quando ela... Ela não fala assim, ela não fala morreu, ela não fala... Ela fala assim, olha, a gente fez tudo por dia. Mas não teve jeito, né? Sabe, passando aquela coisa assim, suavizando. Foi o suficiente para a mãe entender. Olha, eu dei um grito.
Eu dei um brilho, acho que eu não vou dar nunca mais esse grito. Eu dei um perro naquele hospital. A Sônia insistiu que queria ver o corpo do filho, mas não deixaram. E ela só viu o garoto no velório, no dia seguinte. A Sônia já suspeitava que a morte do filho tinha a ver com o toque de recolher que tinha visto na TV. Mas ela só soube dos detalhes do que aconteceu depois pelo relato do primo que estava com o Wagner.
O Diego contou que os dois estavam de bicicleta a caminho da casa dele, passando por uma comunidade, quando ouviram os tiros. Policiais tinham acabado de atirar em dois jovens ali perto, que estavam numa padaria. O Wagner e o Diego ficaram assustados e pedalaram mais rápido para tentar ir embora. Eles tinham que cruzar uma ponte para chegar na casa do primo. Mas quando entraram nela, deram de cara com a dupla de PMs.
Eles estavam de moto, os dois encapuzados, com os rostos encobertos por uma touca e vestindo roupa toda preta. A moto dos policiais não tinha placa. Aqueles que iriam avançar para passar na ponte rápido, eles pegaram ele na ponte. Aí empurraram ele até o comecinho da ponte e atirou o meu filho a queimar roupa. E o seu sobrinho levou um tiro? Um tiro na pele.
Ele caiu, ele disse, já caí morto. Ele falou, eu já caí morto. Quando ela atirou, ele não viu nem onde tinha atirado em mim, eu já caí morto, já fiquei lá parado, nem mexi, nem respirava. Meu sobrinho falou. Aí meu sobrinho ficou só, ele falou, né, que meu filho, eles saíram, eles atiraram e saíram. Em menos de cinco minutos, meu sobrinho disse que chegou a alvoância para pegar eles.
Está muito frio. Foram essas as palavras finais do Wagner antes dele morrer. Ele até foi levado para o hospital com outros três baleados, o primo e os outros dois da padaria. Mas o Wagner não resistiu. Eles atiraram e saíram. Em menos de cinco minutos, meu sobrinho disse que chegou ao lance. Para pegar eles. Como assim? Quando você morre uma pessoa, você não tem que fazer a perícia? Você não tem que ir lá? Você não tem que investigar?
505 civis foram mortos pela Polícia do Estado de São Paulo em maio de 2006. Outros 97 ficaram feridos. A maior parte das mortes aconteceu logo nos primeiros dias. A versão oficial era que todos os mortos eram suspeitos, como se a polícia estivesse agindo em legítima defesa e que os criminosos estivessem morrendo em confronto com os policiais. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo tentou entender como que os crimes foram tratados pela mídia.
A primeira reportagem que contestou a versão oficial foi feita pelo jornal Folha de São Paulo, no dia 16 de maio. Familiares de jovens mortos suspeitam que policiais da Paisana, mascarados por Toucaninja, estejam executando inocentes sem passagem pela polícia. Em dois casos, testemunhas disseram que os assassinos saíram de um carro policial.
A morte do estudante Ricardo Vendranelli, de 16 anos, é emblemática. Alvejado no início da madrugada de ontem no Parque Santo Antônio, na zona sul de São Paulo, o garoto era entregador de pizza e estudava em uma escola estadual do bairro. Não tinha passagens pela FEBEM e, segundo a família e os vizinhos, não usava drogas.
Wesley Eduardo Barbosa, com 18 anos recém-completados, foi assassinado em um campo de futebol no Capão Redondo, também na Zona Sul. Ele voltava para casa com quatro amigos quando, segundo testemunhas, dois homens saíram de uma blazer da Força Tática da PM, vestidos com toucas ninja e capas pretas. Conforme o número de mortes crescia, começou a ficar complicado acreditar na versão da polícia, de que era tudo morte em confronto.
A imprensa e os órgãos de controle policial passaram a pressionar o Estado. Queriam a lista dos nomes das vítimas. Queriam entender como elas tinham morrido.
O procurador Márcio Cristino, na época, era promotor de justiça do GCEP, um grupo do Ministério Público de São Paulo que fiscaliza a atuação da polícia. O Márcio investiga o PCC desde o começo dos anos 90. Ele tem um livro bem importante sobre a estrutura da facção, o Laços de Sangue, e foi uma espécie de consultor desse podcast.
Ele começou a se perguntar se a polícia estava escolhendo quem matar, se estava caçando alvos específicos, procurando os caras com a ficha criminal suja, ex-presidiário. O policial que trabalha na rua só tem um jeito de conseguir essa informação. Quando aborda alguém, pede o documento. E a partir dos dados do documento, checa a ficha do cara no centro de operações da polícia militar, o COPOM.
O Márcio conta que conseguiu uma autorização judicial para buscar todos os acessos feitos pela polícia no Copom naqueles dias. O raciocínio era, se os nomes dos mortos tivessem sido consultados e se essas pessoas tivessem a ficha criminal suja, ficaria claro que a polícia estava mesmo caçando. E olha que resposta surpreendente que ele teve. O que nós fizemos? Pegamos o mandato, fomos lá buscar os dados, não sei o que lá.
O computador do cupom PIFO. Todos os dados foram perdidos. Isso nunca aconteceu na história da polícia militar. Só aconteceu lá. Queimou o cupom. O computador do cupom queimou. Coincidência. Justamente. Eu não tinha nenhum backup disso. Não tinha nenhum backup disso. Ou seja, vocês até hoje não sabem se essas pessoas foram consultadas. Aí nós pedimos para o fabricante ir lá olhar. O cara que fabricou o sistema. O cara falou assim. Queimou.
Tem como saber. Quem não come essa... Mas se não colocar tomada, não sei onde... Você está me dizendo que por não colocar tomada no computador, no copom... É. É claro que nada, nem a maior ficha criminal do mundo, justificaria matar essas pessoas. Nunca é demais lembrar que o Brasil não tem pena de morte.
Se a polícia cruzasse com um suspeito na rua, deveria levar para a cadeia, não para o caixão. Mas o Ministério Público queria ter essa resposta por uma razão simples. Se descobrisse que a polícia estava escolhendo quem matar, cairia por terra o argumento do confronto policial. Ficaria flagrante que a polícia tinha um método, e talvez até uma ordem superior para revidar as mortes dos agentes públicos assassinados.
No ano seguinte à morte do Wagner, em 2007, a Sônia conheceu um grupo de mães e parentes de vítimas de violência do Estado. O movimento ficou conhecido como Mães de Maio, por causa das mortes que ocorreram depois dos ataques de maio de 2006.
Recentemente, elas até criaram um memorial para homenagear as vítimas da violência do Estado na Baixada Santista. Mas teve pouco avanço prático até hoje. O primeiro policial responsabilizado pelas mortes foi condenado em 2014. A grande maioria dos crimes segue sem nenhuma resposta. Até hoje, a Sônia não sabe os nomes dos PMs que mataram o filho dela. A investigação foi arquivada e desarquivada, mas não deu em nada.
A Sônia também não recebeu nenhum centavo do Estado de indenização. E a senhora nunca recebeu indenização do Estado? Nada, nada. Nenhum centavo. Nenhum tostão redondo, assim, nada. Absolutamente nada, nem do trabalho dele. O que seria para a senhora fazer justiça? Ai, pegar todos esses caras aqui que mataram eles.
que é difícil. Isso seria uma grande justiça. Sabe? Prender todos eles, tirar eles, mas isso não acontece, né? Até hoje a senhora não sabe então quem são? Não. Quando uma morte trágica como essa acontece, é comum que as pessoas que ficaram tentem buscar explicações, ou até se culpem pelo que aconteceu.
A irmã do Wagner até hoje acha que ela poderia ter evitado a morte dele se tivesse um videogame em casa. Na cabeça dela, isso evitaria que o Wagner tivesse saído para ir na casa do primo jogar. A Sônia fica matutando para tentar entender por que o filho saiu naquele dia. Tenta se convencer, em voz alta, de que tinha uma justificativa que fazia sentido. Isso é da casa da minha filha. Porque a minha filha falou, não vai. Ele falou, olha, porque é assim. Ela não devia nada para ninguém.
Ele não fumava um cigarro, gente. Ele nunca fumou. Ele não bebia. Sabe? Ele não tinha vício nenhum. Vício nenhum. Então, assim, ele se sentia livre. Né? Uma pessoa que não temia nada. Nunca teve passado. Nada. Nada. Nada. Nada. Com nada. Com nada. Ele não sabia nem o que era uma delegacia. Entendeu? Então, assim, era um menino, tipo assim, inocente.
A gente checou e o Wagner realmente não devia nada para a justiça. Não respondia processo, não tinha nenhum BO no nome dele. Quando ele morreu, o Wagner estava noivo. Ia se casar no mês seguinte. O pai dele morreu de câncer em 2016. Morreu deprimido, sem ânimo nem mesmo para tomar banho. A saúde da Sônia também nunca mais foi a mesma.
Antes de ser assassinado, o Wagner tinha prometido para a mãe que ia fazer uma torta holandesa, o doce favorito dela. Até hoje a Sônia se sente culpada por não ter comprado os ingredientes para o filho fazer a torta. Sempre deixava para depois. E ele queria fazer, mãe, compra o material, mãe, compra o material que a gente faz de mãe. E acabou não dando tempo, né? Porque às vezes a gente tem que fazer a coisa hoje, e amanhã você nem sabe o que vai acontecer.
Anos depois daquela tragédia, um estudo do Laboratório da Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro tentou entender melhor as mortes de maio de 2006. Todo o cenário e os resultados que a gente analisou apontavam para a possibilidade de operações de vingança por parte da polícia paulista depois de ter sido alvo dos ataques do PCC.
E, bom, houve então violência das duas partes, mas o número de mortes de um lado foi muito menor do que do outro, né? Eu queria que o senhor explicasse um pouco essa dinâmica pontual. Os mortos da polícia não acontecem predominantemente nos mesmos dias que os mortos civis. Então, provavelmente, parte ou uma parte desses mortos não aconteceram a tentativa da polícia de se defender dos ataques, né? Que, obviamente, era necessário.
Mas aconteceu um momento posterior em que os ataques contra policiais eram menores e, entretanto, o número de civis mortos cresceu muito. Esse que você ouviu agora é o Inácio Cano, sociólogo espanhol radicado no Brasil, professor da universidade. Ele é um dos coordenadores do Laboratório de Análise da Violência da Universidade e foi quem tocou esse estudo. A pesquisa mostrou que o perfil das vítimas de mais de 2006 era muito parecido com o perfil da vítima de homicídio no Brasil.
Homem, jovem, com pouca escolaridade e baixa renda. O estudo também concluiu que só 6% das pessoas assassinadas tinham antecedentes criminais, a tal ficha suja. A polícia estava matando aleatoriamente. A grande maioria dos mortos, ao que tudo indica, era gente inocente. As mortes não aconteceram enquanto a polícia estava tentando prender suspeitos procurados, com mandado judicial.
O estudo analisou os laudos da necrópsia dos mortos. E descobriu que a polícia disparou uma média de quase cinco tiros por vítima. Um número muito alto de tiros, que sugere execução sumária. A presença de disparos a queimar roupa.
com queimaduras, esfumaçamento, tatuagem, esses são os indicadores mais claros de que houve execução nesse cenário. É muito difícil. Há alguns casos excepcionais, mas quando a polícia entra em confronto, normalmente não entra em confronto a curta distância, até para ser protegente. Então, nós encontramos naquela pesquisa vários casos de disparos a queimar roupa que não se justificariam numa operação, digamos, legítima, com um confronto armado legítimo. Encontramos vários casos desse tipo.
Parte das mortes foi atribuída a grupos de extermínio, com participação de policiais. As vítimas não tiveram direito de julgamento, não tiveram direito de defesa. Este é um dos lados da história dessa guerra. Em maio de 2006, também morreram 59 agentes de segurança. Mas as famílias daqueles PMs, policiais civis e bombeiros, não tiveram um Mães de Maio. Não se reuniram em um movimento coordenado.
A maioria não teve nem rede de apoio. Muitas delas se recolheram. Evitaram se expor ao longo desses 20 anos. Se esconderam tanto que a gente passou meses tentando encontrar. E só uma família topou falar com a gente. A gente chegou na casa do Giancarlo no dia 28 de outubro de 2025.
Ele é o filho mais novo do policial Isaías Lopes Viana Jr. O Jean tinha sete anos quando o pai foi assassinado pelo PCC. A nossa ideia era conversar com ele, com a irmã, Jennifer, e com a mãe, Maria Luísa, mulher do Isaías. Mas só o Jean estava lá quando a gente chegou, com a mulher dele e o filho pequeno, de um ano.
Apesar de ter sido muito simpático ao receber a gente, dava para notar uma certa hesitação, um nervosismo do Jean. Enquanto a irmã e a mãe não chegavam, ele ficou conversando comigo e com a Ellen. Quer dizer, não era bem uma conversa. O Jean perguntava e a gente respondia. Ele estava tentando quebrar o gelo, mas principalmente entender o que a gente queria com tudo aquilo. Começou a misturar perguntas sobre a entrevista com dúvidas sobre a gente.
Que saber onde a gente morava, como era o nosso trabalho e outras coisas assim. Música
Foi quase uma hora de conversa até a Jennifer e a Maria Luísa chegarem. Quando vocês acham que a gente pode conversar para não pegar muito som? Porque como é um podcast, a gente precisa... A Jennifer tem 32 anos. Tinha 12 quando o pai morreu, em 2006. A Maria Luísa, mãe da Jennifer e do Jean, chegou com uma sacola com algumas fotos do marido Isaías e da família.
Elas pareciam mais confortáveis com a entrevista, sem o mesmo jeito ressabiado do Jean. A primeira a falar foi a Maria Luísa. Meu nome é Maria Luísa Gonçalo Reis, eu tenho 52 anos. Eu convivi maritalmente e fui esposa do Isaías Lopes Viana Júnior. Soldado, vítima dos atentados de 2006.
Ela fez questão de explicar por que a família tinha tanto receio de falar. E mais que isso, por que topou falar com a gente? Então, primeiro eu queria deixar bem claro que nós só aceitamos que a proposta de vocês é diferente. Sim, tá.
Porque pra gente, na época, foi muito tortuoso. A gente, além de estar vivendo luto, a gente ainda tem a perseguição de muitos hipóteses. Eu falei assim, olha, a proposta dela é diferente. Entendeu? Não vai ficar aquela coisa, mas antes de vocês terem que reviver uma coisa que a gente tenta trabalhar pra que não seja dolorido. Então a proposta é muito diferente. Tá, porque...
Eu não queria que meu marido fosse lembrar como um número, mais uma vítima, né? Porque ele tem um nome, Isaías Lopes Viana Júnior, Isaías com S, Isaías Lopes Viana Júnior.
O Isaías era policial desde os 18 anos e foi até 12 de maio de 2006. Ele já estava na corporação quando conheceu a Maria Luísa num bar. Foi uma espécie de encontro de almas. Os dois tinham sido traídos nos namoros anteriores e os dois estavam naquele bar meio a contra gosto, por insistência dos amigos.
A Maria Luísa diz que não acredita em coincidências. Para ela, o encontro estava marcado para acontecer. Mas no meio da nossa conversa, nós descobrimos que nós tínhamos muita coisa igual, muita história igual. E eu também estava ali por insistência das minhas amigas. E também pela mesma história. Estava dois anos sem entrar em lugar nenhum por conta de uma traição. E nós ficamos naquele dia...
E nunca mais a gente se desgrudou. Nunca mais. Assim, quando nós nos conhecemos, nós conversamos bastante. E na hora do abraço, do nosso primeiro abraço, ele teve receio, ele me recuou. Porque se eu fosse abraçar ele, eu ia sentir o contra. Porque ele estava armado e ele teve medo. E quando ele me contou da profissão, ele também receou que eu não aceitasse namorar com ele.
Foi até muito engraçado, né? Eu falei pra ele, de dois a um, ou você é bandido ou você é policial. Porque você sentiu o ar? Não, porque ele falou pra mim, não, eu tenho que te falar que eu estou armada. A Maria Luísa ia costurando cada detalhe de como conheceu o marido. Mas em alguns momentos, os detalhes não vinham. Ela tentava buscar na memória, mas não vinha. Esse esquecimento é um sintoma, uma sequela que a tragédia de 20 anos atrás deixou.
Isso foi no final de novembro. Aí ele havia me dito que faria aniversário dia 1º de dezembro. De que ano era isso? 92. 91, 92.
Seguindo desculpa, tá? Imagina. Não, mas é por causa do trauma mesmo. Inclusive o psiquiatra falou que eu... Porque eu fiquei com perda parcial de memória, né? Então tem coisas que por mais que eu puxe, não venho. Mas foi. Em 90 e...
E um para 92, né? Em dezembro de 92. Depois de falar do trauma e da perda de memória, a Maria Luísa deu um salto no tempo na nossa história. Do começo dos anos 90, quando conheceu o marido, ela pulou para 2004. Naquele ano, eles já tinham a Jennifer e o Jean. Os dois eram pequenos ainda. E o casal fazia planos. Então, nosso desejo era ter mais dois filhos e ter a nossa casa própria, né?
Mas naquele ano de 2004, os planos foram interrompidos. O Isaías recebeu uma notícia que mudou a vida da família inteira. Quase dois anos antes, meu esposo tinha sido diagnosticado com esclerose múltipla. A esclerose múltipla é uma doença que, com o tempo, prejudica a visão, a cognição e, principalmente, a coordenação motora. O diagnóstico foi um choque. Ele não queria aceitar isso, porque ele sempre foi muito ativo. Então, ele não queria aceitar que em algum momento ele poderia...
e se tornar uma pessoa totalmente independente de outro. E ele falava, Nenã, Deus não vai me deixar ficar assim. E toda vez ela mesma fala. Ele falava, Deus não vai me deixar ficar desse jeito.
Não vou. O Isaías sabia que conforme a doença fosse avançando, ele não ia mais conseguir trabalhar do mesmo jeito. E foi isso que o comando do batalhão da PM também entendeu. O Isaías foi tirado das funções na rua, onde tinha ficado por mais de 20 anos, e realocado para um trabalho interno. Foi um período muito... Ele sofreu demais psicologicamente.
Então ele foi, não podia mais ficar, ele era motorista da tática, entendeu? A tática é a força tática, uma das equipes mais atuantes da polícia que está sempre na rua, em ação. E de repente ele se vê no administrativo, para ele já mexeu muito com o psicológico dele. O Isaías não conseguia mais enxergar o futuro que tinha planejado com a esposa.
A nossa conversa era o quê? Vamos viver enquanto você tem que fazer as coisas enquanto você tem, enquanto você pode. Então é aquele negócio, vamos viver o nosso hoje, ou amanhã. A gente planeja, mas a gente vai conquistando, a gente vai fazendo até chegar. E assim foi.
E foi. A Maria Luísa virou o alicerce emocional deles. Blindou os filhos e, aos poucos, reergueu o marido. Fomos conhecer nossa casinha, era lá no Ipoá, próximo do centro. Fomos conhecer a casa, o pai dele, os irmãos dele foram conhecer a casa. As minhas crianças teriam um quintalzinho.
Dois anos se passaram depois do diagnóstico. Era 2006. O abalo emocional da descoberta da doença já não era mais o mesmo. E os planos estavam de volta. O Isaías ia continuar o trabalho na polícia até se aposentar. Apesar de ser proibido pela PM, é comum um policial militar ter um segundo trabalho, o bico. O Isaías mesmo tinha vários colegas na mesma situação.
No caso dele, de dia trabalhava na polícia militar e de noite era a segurança de um restaurante num bairro nobre de São Paulo. Tirava R$ 60,00 por noite. A vida da família voltou aos trilhos. E no dia que ele iria assinar a documentação e pegar a chave, tinha uma documentação errada. Isso era numa cesta.
E então ficou decidido que ele voltaria na segunda. A sexta-feira que ela diz era sexta, dia 12 de maio de 2006. O dia em que o Isaías ia pegar a chave da Casa Nova. O dia do aniversário de 33 anos da Maria Luísa. O dia em que começaram os ataques do PCC. Só que, infelizmente, nesse dia foi o dia da fatalidade, da partida do meu esposo.
Olha, eu vou te falar que foi o dia mais difícil da minha vida, porque nós estaríamos indo fazer essa realização. Depois eu soube que era o que ele queria me dar de presente, seria a chave da casa, e por fim não deu certo. Isso é o que? Uma sexta-feira? Uma sexta-feira.
Eu não queria que ele fosse trabalhar. Ele falou para mim que não tinha conseguido ninguém para cumprir. E se ele tivesse conseguido alguém, ele ficaria em casa. E como ele já ia dar uma pausa no bico, a Maria Luísa pediu para ele já pedir uma folga logo naquela sexta-feira, porque era o aniversário dela. Mas não rolou.
Naquela sexta-feira, 12 de maio, às oito começaram os primeiros ataques do PCC no estado de São Paulo. Eu fui dormir, a gente tinha um horário que a gente conversava, né? Quando ele ia para o Bico, ele saía para jantar, tinha 11 horas. Então era sagrado, 11h30 a gente conversava por telefone. Essa conversa não existiu. Tentei falar, ligar, não consegui. Não houve a ligação de ir lá para cá.
A Maria Luísa tentou dormir, mas não tinha como. Ela despertou no meio da madrugada e tentou ligar de novo para o marido. Ninguém atendeu. Aí ela ligou para o batalhão da PM onde ele trabalhava. No centro não existe um lugar para você estacionar, né? Eu liguei. Eu liguei, o rapaz foi, falou que ia verificar, depois ele retornou e falou, não, o carro dele está aqui, senhor. Aí isso me aliviou.
Aí eu fui pedir, você pode verificar se ele está dormindo dentro do carro? Porque eu sabia que isso já aconteceu em meses anteriores, quando tinha alguma coisa para resolver lá na cidade, ele fazia isso. Então, para mim, era normal já, porque ele já havia feito antes. E ele falou assim, não, só que ele já falou de uma forma que já não me trouxe confiança.
Ah não, ele deve estar por aqui, já mudou o jeito de falar, né? Mas eu já tinha ligado pra minha cunhada, entendeu? Eu já tava com o meu coração na mão, porque eu só ia aquietar enquanto eu não ouvisse a voz dele, ele não ia aquietar ou ver ele entrando dentro de casa.
A Maria Luísa não conseguia ignorar a intuição dela. No fundo, ela sabia que tinha algo errado. Mas ela tentou se acalmar, se convencer de que estava tudo bem. O Isaías já tinha voltado atrasado para casa outras vezes. Podia só ter tido um problema com o celular e por isso não estava atendendo. O carro dele estava no batalhão, como sempre. Se falou que o carro dele está lá, então ele está por perto. Ele pode estar resolvendo alguma coisa, então eles vão aguardar.
Só que às 10h30 da manhã de sábado, o Isaías ainda não tinha chegado. A Maria Luísa começou a fazer o café da manhã porque já estava perto da hora das crianças acordarem. Depois foi varrer a casa. Foi quando ela recebeu a notícia. Na hora que eu escutei um movimento no meu portão, logo depois a minha mãe chegou na porta e me dava notícia. Isso já era 10h30 da manhã. Primeiro que eu não queria semelhar. Eu falava para minha mãe, que eu mandei minha mãe para a boca.
Mandei minha mãe calar a boca. Falei que era mentira, entendeu? Falei, não, é mentira, ele tá vindo. E ela foi e falou, não, filho, eu sei o que não. A Maria Luísa só foi saber exatamente o que aconteceu quando conversou com outros funcionários do restaurante.
O Isaías estava na hora do jantar e ia comer com os manobristas e alguns garçons. Foi quando quatro homens chegaram a pé. Eles estavam encapuzados e armados. Renderam Isaías e os outros. Eles entraram e fizeram uma fileira. Já foram rendendo todos eles. Fizeram uma fileira. E pegou o primeiro, começou a bater nele, queria documento, falou que sabia que ele tinha polícia e que queria o polícia.
Os criminosos sabiam que ali trabalhava um policial e estavam atrás dele. O Isaías estava desarmado e mesmo de licença da PM, ele tinha um documento que mostrava que ele era da polícia. E quando foi para o segundo, o rapaz falou que foi para buscar a arma para dar a coronhada no segundo. O meu esposo deu o passo para frente e falou, deixa eles em paz. Se você quer polícia, a polícia só é. Deixa eles em paz, deixa eles ir embora.
E dali os meninos falaram que pegaram ele e levaram para o estacionamento do lado, que era uma farmácia, e executaram o meu estacionamento da farmácia. E eles me contando, porque ele se entregou para poupar a gente.
Ele não precisava ter feito isso. Eu falei, mas ele deve ter pensado muito rápido. E ele deve ter chegado na conclusão de que seria pior se eles descobrissem buscando a identidade dele. A dor da Maria Luís aumentava cada detalhe novo que ela descobria. Naquela sexta-feira, não era para o Isaías estar naquele lugar do restaurante. Era para ele ficar na rua de trás, fazendo a segurança do estacionamento do lugar.
O espaço não tem acesso ao público. Só os manobristas entravam lá. Mas um outro segurança, que também era PM, pediu para trocar de lugar com Isaías. E ele falou lá, eu estou passando mal, estou com piriri, troca de lugar comigo. E o meu esposo foi e trocou. Lá, como a gente não tem acesso a clientes e tudo, lá é mais confortável para eu ficar. Minha esposa sem pau.
Entendeu? Depois de tudo que aconteceu, esse rapaz, que era para estar na parte da frente, passou mal, para continuar com o meu esposo. Então ele se sentia muito mal, muito culpado, porque ele achava que era para ele ter ido e não o meu esposo. Então ele achava que ele deveria ter morrido no lugar do meu esposo. Como é que você deu a notícia para as crianças? Olha, na verdade eu acho que foi a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida.
Como é que eu vou falar? Eu não consegui imaginar a vida deles sem o pai. E como você dá notícia para uma pessoa que está perdendo, o é o mais forte dela, é o anicerce. Eles endeusavam o pai deles, eram o super-herói deles. Entendeu? E eu acho que foi o mais difícil, a coisa mais difícil que eu já fiz em toda a minha vida, e eu carrego isso até hoje.
Toda vez que eu olho para os meus filhos, é isso que eu vejo. Esse dia, essa dor, essa perda. E que ele é uma pessoa insubstituível. E que eu, como mãe, eu jamais ia conseguir substituir o pai. Jamais. Entendeu? E como eu olhar para minha filha, acordar minha filha com essa notícia. E quando eu fui contar para minha filha... Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana Ana
Ela estava dormindo, ela não aceitava, assim, sabe? É como se fosse um pesadelo, sabe? Não, eu sonhei com isso, não é verdade isso. Ela não aceitava o meu filho. E ele ficava repetindo o tempo todo. Eu não vou mais ver meu pai, eu não tenho meu pai. Sabe? Eu vou ser olhador de uma pessoa.
que você não consegue, mas de repente você vê que você não conseguiu, você não consegue, você não vai conseguir proteger ela disso. É algo que infelizmente vai ter que acontecer.
Enquanto a gente falava com a Maria Luísa, o Jean e a Jennifer ficaram na sala com as crianças. Eles quiseram fazer a gravação juntos. A Jennifer começou. Ela tinha 12 anos quando o pai foi assassinado. Eu sou a Jennifer. Atualmente estou trabalhando como recepcionista em uma academia.
Até os cinco anos, a Jennifer foi a única filha do casal. Ela sempre foi a xodózinha do pai. É ela quem tem mais memórias dele. Ele trabalhava um dia sim, um dia não, mas os dias que ele estava em casa, era atenção totalmente pra gente.
Ele até cantava uma música pra mim, assim, que era um samba que falava assim, ô coisinha tão bonitinha do pai. Então era a nossa música, era o nosso momento. E até hoje, assim, faz muita... Eu não sou completa, mas sem ele. A Jennifer contou que vê bastante do Isaías no filho dela. Mas, ironicamente, uma característica em especial chama a atenção. E meu filho, hoje em dia, ele tem muita vontade de ser ou policial ou bombeiro.
A gente tem um pouquinho de receio da questão do policial por conta da história, mas a gente vê que ele deu bastante coisa do meu pai também. O Jean é o caçula. Hoje, ele tem 27 anos e trabalha para uma empresa de telefonia, como auxiliar de manutenção. Ele era pequeno quando o Isaías foi assassinado pelo PCC e quase não tem memórias dos dias que passou com o pai. E realmente, eu tenho poucas memórias do meu pai.
Conheço mais meu pai através de histórias, relatos. Porém, essas poucas memórias que eu tenho dele são intensas demais para mim. Porque meu pai sempre foi isso, para todos. A presença dele sempre foi intensa, justamente por ele ser cativante. Então eu tenho essas memórias, essas lembranças do meu pai que eu vou levar para a minha vida inteira.
E as paixões, tanto pelo samba, a cervejinha, a família e principalmente futebol. O Jean e a Jennifer confirmam o que a mãe disse na conversa com a gente, que para eles o pai era uma espécie de ídolo. Ele sempre vai ser uma inspiração interna para mim, assim como minha mãe. Então é isso, acho que minha dor total é essa.
A falta da presença dele hoje, de eu olhar para o meu filho, que eu queria muito que meu filho e meu sobrinho conhecessem esse cara, porque o velhinho era incrível demais. Tanto que hoje, na hora que eu vi separar as fotos, eu sei que começa a ver as fotos quando ele estava, a alegria de todo mundo.
E agora as fotos hoje em dia já não é mais a mesma coisa. Tem uma música do Claudio Buchecha, né? Todas as músicas do Claudio Buchecha tocam. Tio Junior gostava dessa. Grupo Revelação. Todo mundo comenta o nome do meu pai.
Em novembro de 2006, o governo de São Paulo aprovou o pagamento de indenizações, inclusive para os agentes que estavam de folga na época dos ataques. Mas alguns pagamentos se arrastaram e outros foram até parar na justiça. Para muitas famílias, foi só mais uma dor de cabeça. Para todas elas, não tem dinheiro que pague a falta das pessoas que foram mortas.
Mas eu vou ser muito sincera com você, que eu falo para os meus filhos. Por mim, um dinheiro desse que vem, você não consegue fazer nada. Você não consegue fazer. Ele parece que não rende. Por quê? Porque vende uma fatalidade, vende uma perda. E na minha mente, eu queria muito que fosse diferente, sabe? Mas esse dinheiro todo que o governo está gastando com as famílias agora... Agora...
Isso poderia ter sido evitado. Ele poderia não estar tendo esse gás se ele tivesse sido e dado essa atenção antes.
A matança desenfreada de 2006, tanto de um lado quanto do outro, foi um escândalo. E respingou até na corrida presidencial, que tinha o ex-governador Geraldo Alckmin como um dos candidatos. O Alckmin tinha se afastado do governo de São Paulo no final de março para disputar a eleição presidencial. O vice dele, o Cláudio Lembo, ficou na cadeira de governador. Mas mesmo não sendo mais o governador, ele ficou marcado para muita gente no meio daquele caos de 2006.
Primeiro, porque foi o secretariado do próprio Alckmin que teve que lidar com toda aquela bagunça. Segundo, porque o PCC se fortaleceu muito durante a gestão do Alckmin. As duas famílias com quem a gente falou, mesmo em lados tão opostos da história, até hoje culpam o Alckmin pelos atentados.
Mesmo que o governador fosse o Lembo. O Alckmin foi cobrado aqui no Brasil e até lá fora. Tem uma entrevista que mostra bem isso. Logo depois de maio, um canal australiano de TV perguntou para o Alckmin sobre a reação dos grupos de extermínio aos ataques do PCC. Irritado com a pergunta, o Alckmin, que é sempre tão calmo, interrompeu a entrevista e saiu.
Esse é um assunto do governo do estado de São Paulo. Era bom ouvir as autoridades do governo do estado. Obrigado. Tchau, tchau. Bye, bye. Eu, se eu soubesse que era isso, eu não tinha dado a entrevista.
É um assunto que o governo está em São Paulo. Não, mas eles estão ouvindo. Na verdade, Dateline informou o Sr. Elkman do assunto da entrevista. Tchau, tchau. Obrigada. Alguém precisa responder para isso.
Os ataques do PCC de maio de 2006 só pararam depois que o governo de São Paulo tomou uma decisão nada convencional. Uma decisão que naquele momento resolveu o problema, mas que desagradou muito a opinião pública. Mas esse é um assunto para o nosso próximo episódio. O podcast PCC, o Salve Geral, é uma produção da Rádio CBN e do jornal O Globo. Eu, Aline Ribeiro, fiz a narração, a reportagem, a pesquisa e o roteiro.
A coordenação, o roteiro, a edição e a pesquisa ficaram com Gabriel de Campos. A Ellen Menezes participou da produção, da edição, da pesquisa e da distribuição. Produção e pesquisa, Sueliton Viana. A Mariana Romano fez a edição de história, montagem e sonorização. A leitura das reportagens foi do Leandro Gouveia, jornalista da CBN.
A captação de áudio foi feita por Débora Gonçalves, Juliano Fonseca, Priscila Gubiotti e Altair Cunha. A direção de arte é do Alessandro Alvim. Gerência digital, Tiago Barbosa. Direção, Pedro Dias Leite.
Tem podcast que te inspira a conhecer lugares novos, a ir mais longe. É como o Dili EX5 EMI. Conheça o super híbrido Plugin com até 1.300 km de autonomia combinada, com conforto de primeira classe. E na cidade você roda no modo 100% elétrico. Com esse SUV, cada caminho leva você mais longe. Dili EX5 EMI. Sua grande jornada começa agora. Saiba mais em dilibrasil.com.br. No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas.