Episódio 1 - Os Ataques
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- PCC CV TerrorismoMaio de 2006 · Primeiro Comando da Capital · Paralisação da cidade · Ônibus incendiados · Delegacias e batalhões atacados · Toque de recolher velado · Reação à transferência de líderes
- Protestos no Irã11 de maio de 2006 · Ameaças a servidores penitenciários · Gravação de Julinho Carambola · Ordem de ataque por Nextel · Ataques a delegacias e policiais
- Histórico de expansão do Comando Vermelho e PCCRebeliões de 2001 · Transferência de presos · Crescimento do poder financeiro · Mudança de liderança em 2002 · Marco Williams Herbas Camacho (Marcola) · Rui Ferraz Fontes
- Atuação da quadrilha e confronto com a políciaInterrogatório de Marcola · Godofredo Bittencourt · Rui Fontes · Proposta de Marcola · Pedido de McDonald's
- Vazamento de InformaçõesCPI do Tráfico de Armas · Depoimento reservado de delegados · Venda de CD com gravação · Arthur Vinícius Pilastre Silva · Advogados do PCC
- Questões DisciplinaresCriação em 2001 · Geraldo Alckmin · Punição para crimes graves · Isolamento e restrições
- Conflito interno na direitaReunião de cúpula da segurança · Desacordo entre Nagashi e Saulo · Recusa de acordo com Marcola · Decisão de confronto
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No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas. O Brasil nunca tinha assistido a nada parecido com o Maio de 2006. As forças de segurança estão em alerta máximo no estado de São Paulo. Atentado aqui em Cubatão, na delegacia sede, tem polícia ferida.
Eu tinha saído para comprar cigarro numa banca da Avenida Paulista. E quando eu cheguei lá, eu dei de cara com a cavalaria da PM, que eu nunca tinha visto. Também me chamou a atenção que tinha um helicóptero sobrevoando a região. Milhares de policiais nas ruas. Não recuamos, não negociamos. Terão a resposta à altura. As ruas estavam vazias. As poucas pessoas com que eu cruzei na rua naquele dia pareciam com medo. Parecia um feriado prolongado e ninguém tinha me contado, sabe?
O comércio realmente fechado, a maior parte das lojas que na região central da cidade de São Paulo estão com as grates abaixadas, as portas fechadas. E eu só fui descobrir o que estava acontecendo quando eu cheguei em casa e liguei a televisão. Prédios e carros da polícia metralhados. Pessoas ligadas à segurança pública mortas. Milhares de presos rebelados.
Os executores, segundo a polícia, são chamados de Bin Ladens. Boatos sobre novos atentados fizeram com que vários estabelecimentos fossem fechados mais cedo. Imagina nós somos civis sem ter nenhuma defesa, simplesmente Deus por nós. Este é o podcast PCC, o Salve Geral. Uma produção da Rádio CBN e do Jornal O Globo.
Eu sou Aline Ribeiro, eu sou repórter especial no Jornal Globo em São Paulo e cubro segurança pública há mais de 15 anos. Nessa série, a gente vai voltar ao ano que foi um marco para a segurança pública no Brasil. São Paulo, a maior cidade do país, ficou paralisada pelo medo.
o PCC desafiou pela primeira vez abertamente o poder público e mostrou um poderio que só cresceu até hoje. A gente vai te contar bastidores inéditos daqueles dias de pânico, entender como tudo começou e tentar explicar um mistério que dura até hoje. Como é que aquilo parou de uma hora para outra? Além de discutir, claro, o impacto disso tudo na situação da segurança no Brasil nos dias de hoje.
Muita gente, mas muita gente mesmo, não quis falar sobre o assunto, mesmo tantos anos depois. E olha que a gente é bem insistente. Outros até toparam conversar, mas com uma condição, que fosse em off. No jargão jornalístico, quer dizer que a pessoa topa falar, contar histórias, mas sem aparecer. Mas as histórias estão todas aí. Nesse primeiro episódio, os ataques.
Quem acompanha o noticiário policial sabe como é. A ação da polícia sempre tem a reação do crime.
Maio de 2006 é fundamental porque, a partir dali, quase todas as decisões da segurança pública no Brasil levaram em conta essa sombra dos atentados. O PCC mostrou força e desafiou os governos a repensar o combate ao crime organizado. Não é que o poder público tenha recuado diante do crime, mas teve que rever a sua atuação com mais estratégia, mais poder de fogo e mais cautela. Não era para menos.
São Paulo ficou em silêncio. O comércio e as escolas foram fechados. Serviços essenciais, como bancos, transporte público, pararam de funcionar. Um toque de recolher velado por parte do crime fez o medo tomar conta e a população se fechou em casa. Enquanto isso, os criminosos barbarizavam. Agentes de segurança foram mortos, delegacias e batalhões foram alvejados, ônibus foram queimados.
Como resposta, a polícia reagiu na mesma toada. Matou centenas de pessoas, entre suspeitos, inocentes e desavisados. Só que para contar essa história direitinho, a gente vai voltar um pouco no tempo, para fevereiro de 2001, quando muita gente da área da segurança nem sequer admitia que o PCC existia. No dia 18 de fevereiro daquele ano, um domingo de dia de visita, o PCC organizou rebeliões em 29 presídios espalhadas por 19 cidades do estado de São Paulo.
Tiros e bombas. Pânico na Penitenciária 1 de presidente Wenceslau. Era uma represália a transferência dos principais chefes do grupo.
Todos os pavilhões estão rebelados. A detenção é controlada pelos presos. São 8 mil detentos. A rebelião começou na hora da visita. As rebeliões nos presídios do Estado de São Paulo teriam começado por causa da transferência de 5 presos na última sexta-feira. Os criminosos fizeram mais de 5 mil reféns entre familiares de detentos e agentes penitenciários.
A maior suspeita é que a ordem para o início das 17 rebeliões do Estado tenha saído da casa de detenção. E tudo orquestrado pelo celular, a revolução tecnológica que elevou o PCC a outro patamar. Até aquelas rebeliões de 2001, os governos insistiam em não admitir a existência de uma facção nascida nos presídios de São Paulo, com nome, estatuto, hierarquia e liderança. E mesmo um tempo depois, essa postura do Estado continuou.
Isso é uma ficção, é uma valela. Não existe nenhum dado, nenhum fato. Só há um documento apócrifo referente a essa organização criminosa. A organização criminosa não faz estatuto e não manda para as autoridades. Sempre que tiver alguma coisa importante que a gente não tenha em áudio, o texto vai ser lido. A voz vai ser do jornalista aqui da CBN, Leandro Gouveia. Agora a gente vai ler um trecho de uma notícia da Folha de São Paulo, de 28 de novembro de 2002.
Em tom de comemoração e ironia, a polícia anunciou ontem que o PCC, facção responsável pela mega-rebelião em presídios em 2001, é hoje uma organização falida e desmantelada. O diretor do DEIC, Godofredo Bittencourt, afirmou. Se o PCC tinha uma boca cheia de dentes, agora tem um dentinho ali e outro lá. Não morde mais ninguém. Mas o fato é que os presos precisaram de só 30 minutos para virar o sistema e se mostrar para o mundo.
Uma foto emblemática eternizou as rebeliões. Os presos estão em cima do telhado da cadeia, erguendo um lençol com a sigla PCC, estampada em preto, e o lema da facção. Paz, justiça e liberdade. Como castigo pelos motins, alguns líderes foram transferidos para outros estados.
Podia até parecer uma boa ideia, mas era, na verdade, a semente do PCC começando a se espalhar para o resto do país. E aí o PCC, que nasceu com o discurso de lutar por melhores condições no sistema prisional, começou a crescer e a mudar. Em 2002, uma mudança em particular foi fundamental, a da liderança do grupo, e que fez mudar tudo na rua também. O Marcola nem tinha protagonismo dentro da organização, da facção, como tem hoje.
Esse que você ouviu agora é o Rui Ferraz Fontes. Foi o Rui, por exemplo, quem descobriu a estrutura e a hierarquia da organização pouco tempo depois que ela surgiu. Naquela época, início dos anos 2000, ele trabalhava no DEIC, uma unidade especializada da Polícia Civil que ficou responsável pelas apurações sobre a facção. Foi a partir das investigações dele, inclusive, que a justiça condenou o Marco Williams Erbas Camacho, o Marcola. Você com certeza já ouviu falar do Marcola.
A gente vai deixar para se aprofundar na trajetória do número 1 do PCC mais para frente. E a gente vai trazer uma história baseada num depoimento inédito. Mas, por enquanto, o importante é entender que, com a nova administração e um poder financeiro cada vez maior, o PCC passou também a exercer seu poder fora das cadeias. Em 2022, o Rui se aposentou da polícia e assumiu a Secretaria de Administração da Prefeitura de Praia Grande.
Na noite de 16 de setembro do ano passado, ele foi brutalmente assassinado por criminosos do PCC, com tiros de fuzil, enquanto saía do trabalho. Três semanas antes do assassinato, o Rui tinha dado uma última entrevista. Pra gente.
O PCC tinha um formato de uma hierarquia piramidal. Como é que os líderes do PCC ganhavam dinheiro? Eles ganham dinheiro roubando alguma coisa e mandavam dinheiro para o Cezinha, para o Jaleão, para os líderes de uma forma geral. Normalmente eram as mulheres que entregavam esse dinheiro ou montavam dinheiro para distribuir. Não tinha uma planilha financeira clara. Isso começa a surgir depois de 2004.
Com a nova administração e um poder financeiro cada vez maior, o PCC passou também a exercer seu poder fora das cadeias.
Presos do PCC receberam 26 TVs de 14 polegadas para assistir aos jogos da Copa do Mundo da Alemanha. O PCC, com mais poder de barganha, começou a fazer esse tipo de exigência e a travar um cabo de guerra com a Secretaria da Administração Penitenciária, a SAP, que gerencia os presídios. Ela também é responsável por fazer cumprir a pena dos detentos, além de trocar o preso de lugar no sistema prisional quando achar necessário.
O chefe da SAP naquele tempo era o Nagashi Furukawa. Em 2006, não era proibido ter TV nos presídios, mas a chegada de 26 aparelhos numa penitenciária de uma só vez e sem nota fiscal para ver a Copa do Mundo mostrou como a situação das lideranças estava confortável. O Estado de São Paulo, 3 de abril de 2010.
A encomenda chegou em 1º de fevereiro de 2006, via Sedex, numa Kombi dos Correios. Os comprovantes de postagens estavam em nome de 18 mulheres, entre cônjuges e mães de detentos da P1. Não foram apresentadas notas fiscais.
Eles escalaram um conflito com a administração da secretaria. Eles estavam testando o poder deles dentro do presídio. Eles foram dando um passo à frente para ver se eles conseguiam regalias. Copa, eles foram lá e compraram 20 televisões. Mas a televisão foi um dos episódios. Eram diversos. Depois teve o episódio de uniforme também. Eles estavam testando o poder deles dentro do presídio.
A SAP estava planejando trocar a cor dos uniformes de bege para amarelo, que é mais fácil de enxergar no caso dos presos fugirem. Os presos reclamaram, porque o Estado só dava um uniforme por detento e ficava por conta da família comprar ou fazer mais peças. Aí os presos argumentaram que era difícil encontrar tecido na cor amarela. E o governo mais uma vez cedeu. Mas além de TV, cor de uniforme, o que pegava mesmo era outra coisa.
Os presos não queriam de jeito nenhum ir para o RDD. O regime disciplinar diferenciado. O RDD pode ser chamado de trancadura do sistema prisional. É uma ferramenta que o Estado tem para apertar a punição. Geralmente ele é aplicado para presos que cometem crimes graves dentro da cadeia e também que é integrante de facção, principalmente os líderes. Quem vai para o RDD fica enclausurado na famosa solitária. Só tem direito a duas horas de sol por dia sem contato nenhum com o resto dos detentos.
As visitas também ficam restritas. Só pode receber a cada 15 dias. Sem toque. E toda a comunicação é monitorada. Um pesadelo. Um preso pode ficar até dois anos no RDD com a possibilidade de renovação. Esse regime foi criado em 2001, justamente como uma resposta do Estado para aquela mega-rebelião. O governador que assinou a criação do RDD foi o hoje vice-presidente, Geraldo Alckmin.
Na época, olha que curioso, ele era do PSDB, que era o maior rival do PT. A segurança pública era uma das principais pautas do Alckmin, sempre foi. O Alckmin tem até uma frase famosa de 2009, depois de uma operação que matou nove criminosos. Quem não reagiu, está vivo.
Entre 2001 e 2005, a média de rebeliões era de mais ou menos 10 por ano. Mas em 2006, a SAP já tinha contado 40 rebeliões só de janeiro a abril. Essa escalada alarmou a secretaria, que viu aquela situação como uma bomba relógio. E que tinha data para explodir.
As forças de segurança têm um serviço de inteligência nos presídios. E a principal fonte desse serviço são os presos que topam colaborar. Em 2006, o serviço de inteligência detectou que o PCC estava planejando outra mega-rebelião, para meados de agosto. Isso seria dois meses antes da eleição presidencial. Era uma forma dos presos, mais uma vez, mostrarem sua força para o Estado. Mas também atrapalhar a candidatura do Geraldo Alckmin, que ia deixar o governo de São Paulo para disputar a presidência.
E aí, para ficar claro, não dá para dizer que os presos faziam campanha para outro candidato, o Lula, ou para o PT. O lance é que os líderes do PCC nunca perdoaram o Alckmin pela criação do RDD. Eles entendiam que se o Alckmin fosse eleito presidente, ele poderia espalhar a trancadura para todo o resto do país.
Os diretores da administração penitenciária, a SAP, sabendo da intenção do PCC de fazer uma nova rebelião, fizeram um plano para tentar diminuir a articulação do grupo. O Nagashi Furukawa era o então chefe da SAP. Cinco coordenadores da secretaria estavam com ele nessa. O plano era o seguinte. Eles levantariam os nomes de possíveis líderes da facção e iam transferir todo mundo para a presidente Wenceslau.
Ela tinha sido destruída em 2005, depois de um outro motim. Pois é, mais um. E estava sendo reformada justamente para concentrar membros do crime organizado. E aqui tem um detalhe importante. Os presos odiavam Venceslau. Além do calorão que faz na região, a cidade fica a umas oito horas, mais ou menos, de carro da capital. É um verdadeiro perrengue para os familiares fazerem a visita tão longe. A transferência já incomodava os presos. Mas ser transferido para Venceslau era ainda pior.
Lá, eles iam ficar isolados de outros presos, na esperança de que a rebelião perdesse força longe dos líderes. Os diretores, num levantamento sigiloso, chegaram a 765 nomes. Isso porque entraram nessa conta alguns presos que dividiam cela com os líderes, para que eles não continuassem praticando os crimes no lugar dos transferidos.
Os diretores dos presídios aproveitaram a oportunidade para se livrar de alguns presos problemáticos, aqueles caras que tinham mau comportamento ou que cometiam crimes dentro da cadeia, mesmo que não tivessem vínculo com a facção. Só que enquanto a administração penitenciária se mexia, o outro lado não estava parado. À medida que a SAP investigava os planos do PCC, o PCC também descobria os planos da SAP.
Quarta-feira, 10 de maio de 2006. Declaro aberta a 18ª reunião da Comissão Parlamentar de Quérito, destinada a investigar as organizações criminosas do tráfico de armas.
A CPI do tráfico de armas estava em andamento no Congresso Nacional. Ela foi criada em 2005 para investigar a entrada de armas clandestinas no país. Só que os parlamentares perceberam o óbvio, que quase todo esse arsenal passava pelo crime organizado ou ficava com ele. Então, conforme os trabalhos avançavam, a CPI passou a investigar as próprias facções.
os deputados ouviram o delegado Rui Fontes e o chefe dele naquela época, o Godofredo Bittencourt, que era o diretor do DEIC. Eles eram os dois principais investigadores do PCC na Polícia de São Paulo e tinham informações ultra sensíveis sobre o combate à facção. O depoimento deles, então, foi reservado, sem transmissão, sem gente de fora e com alguns poucos deputados.
E eles pediram para falar numa audiência reservada, desculpem a observação, como se tivesse alguma coisa reservada no Congresso ou na Câmara. Essa voz é a do principal adversário do PCC no Brasil hoje, o promotor Lincoln Gaquia, que há 20 anos está no combate à facção, atual inimigo número 1 do Marcola e um dos nossos principais personagens desse podcast.
pedir para guardar sigilo para a política é algo bastante delicado. Na sessão da CPI, os delegados contaram que o PCC planejava uma mega rebelião na véspera das eleições e que para tentar evitar esse motim, os presos iam ser transferidos. Como eu disse, a sessão foi reservada. Muitas pessoas ficaram de fora, inclusive duas que tinham muito interesse em estar ali. Dois advogados que trabalhavam para o PCC. O Estado de São Paulo, 18 de maio de 2006.
Um CD com a íntegra do depoimento do diretor do DEIC, Godofredo Bittencourt, em sessão secreta na Câmara, foi vendido por R$ 200 ao PCC por um funcionário encarregado da gravação. O depoimento foi dado à CPI do Tráfico de Armas na quarta-feira à tarde e, na noite do mesmo dia, chegou ao preso Marcos Williams Herbas Camacho, o Marcola.
A cópia da gravação foi comprada pelos advogados Sérgio Wesley da Cunha e Maria Cristina de Souza Rachado, do PCC, do funcionário Arthur Vinícius Pilastre Silva, que confessou a venda à Polícia Federal. É isso mesmo. Por R$ 200, uns R$ 600 em dinheiro de hoje, a advogada do PCC comprou do técnico de som da Câmara um CD com a gravação da reunião sigilosa.
Tem quem acredite que esse CD foi a chave para os presos começarem as rebeliões e os ataques. Mas a maior parte entende que o CD foi só o estopim de algo que já vinha sendo costurado. Os presos também têm seus informantes e fazem a informação correr por celular ou pelas visitas de familiares e advogados. O fato é que a facção descobriu a ideia do governo de fazer a transferência. Naquela sessão, no Congresso, os delegados Rui Godofredo só não sabiam a data exata das emoções.
Isso estava sendo decidido naquele mesmo dia, a mais de mil quilômetros dali, em outra reunião em São Paulo. Na época, o Cláudio Lembo era o governador do estado de São Paulo. Ele ficou no poder por alguns meses, quando o Alckmin se afastou para concorrer à presidência. O Lembo morreu em março do ano passado e era descrito pelos seus subordinados como um líder fraco.
Naquele dia, o governador se reuniu com o secretário Nagashi e outros integrantes da segurança pública. O assunto da reunião convenceu o Lembo da necessidade urgente de fazer a transferência em massa dos presos. Na reunião, tinha gente da administração penitenciária, da Secretaria de Segurança Pública e das polícias. Mas uma ausência na reunião, em especial, é muito importante registrar aqui. A do chefe da segurança pública, o secretário Saulo de Castro Abreu.
uma reunião importantíssima da pasta que ele cuidava, e ao invés de ir, ele mandou um subordinado dele.
Isso porque ele e o Nagashi não se bicavam. Eles tinham perfis completamente opostos. O Saulo, um promotor de carreira mais linha dura, e o Nagashi, considerado um juiz mais humanista. Onde um estava, o outro não pisava. Eles evitavam ao máximo se encontrar. Essa rixa entre o secretariado foi bastante exposta pela imprensa na época. Mas a gente nunca teve muitos detalhes de como isso atrapalhou a condução da maior crise já vivida no Estado.
A gente foi atrás do Nagashi e do Saulo para ouvir a versão deles sobre essas brigas. O Saulo nem quis conversar. Ele disse que já falou várias vezes sobre isso e a imprensa sempre preferiu uma versão, nas palavras dele, panfletária. O Nagashi aceitou receber a gente. A conversa foi no escritório de advocacia dele, no interior de São Paulo. Quando eu cheguei lá, eu achei interessante que ele guarda as memórias daquele tempo. Na parede, ele tem enquadrada a chave da masmorra do Carandiru.
O Nagashi até me recebeu bem, foi aberto, mas não topou gravar a entrevista. A justificativa que ele me deu é que ele já tinha falado muito sobre isso em um livro digital publicado em 2015 no site J. Eu até falei disso com o Dr. Lincoln Gakia, que naquela época tinha bastante proximidade com o Nagashi.
Não é crível que você vá acompanhar uma organização como é o PCC se você não tiver o apoio da inteligência da SAP. Porque só o que você tem de informação na rua não é suficiente. Você tem que juntar esse quebra-cabeça. O governo de São Paulo bancou a transferência dos presos e estava até esperando uma reação dentro das cadeias. Mas não estava esperando uma reação fora delas.
Antes de decidir a data da transferência, o Nagashi já tinha deixado os coordenadores da SAP de sobreaviso. Quando chegasse o dia exato, ele ia ligar para cada um deles e dar um único comando. É hoje. Quinta-feira, 11 de maio de 2006.
Em menos de 24 horas, a polícia militar criou uma força-tarefa para buscar e transferir os presos daquela lista para a presidente Wenceslau, a tal unidade reformada. A remoção começou na quinta e foi até umas duas horas da manhã da sexta-feira. Enquanto os presos eram tirados das celas, eles faziam questão de ameaçar os servidores. Prometiam matar sem piedade. Eles diziam que não iam poupar nem os familiares dos policiais. E eles trataram de cumprir logo a promessa.
A cúpula do PCC chegou em Presidente Wenceslau de madrugada e poucas horas depois decidiu dar a ordem que as rebeliões nos presídios e os ataques nas ruas começassem. Tem uma conversa que foi gravada por um agente penitenciário dentro do presídio que mostra o que estava para acontecer naqueles dias. O agente começou a conversar com um dos chefes da facção, o Julinho Carambola. A gravação foi feita na véspera dos ataques.
O agente estava assustado, tentando confirmar se o PCC ia mesmo começar os atentados. O Julinho confirmou que ia ter ataque e disse mais, que o PCC ia acabar com o estado de São Paulo. E aproveitou também para ameaçar o servidor. Ele inclusive lembrou a gente de que o crime tinha acesso aos dados deles todos, que sabia até onde eles moravam.
E o Marcola falou que a hora que soltar vai colocar no chão. Não, mas do jeito que tá, tá? É pra pôr no chão mesmo, não é só aqui. É o sistema inteiro e a rua, cara. Mas bicho, e... Não vai adiantar, Júlio? Não vai adiantar, Júlio? Até semana e viante, o que você vai ver na rua, você não vai acreditar, cara. Por causa disso daqui de hoje. Você não vai acreditar o que você vai ver na rua. É pra acabar o estado de São Paulo.
Nessa gravação, da véspera dos ataques, eles já estavam com o plano todo montado. O PCC tinha decidido tacar o terror em São Paulo. Inclusive, a gente teve acesso a um áudio inédito de um processo judicial onde um agente penitenciário que foi ameaçado detalha como as ameaças aconteceram. Não dá para saber se o agente é o mesmo da conversa com o Julinho, porque ele prestou depoimento à justiça na condição de testemunha protegida, ou seja, sem aparecer.
Em 2006 eu trabalhava no sistema penitenciário, na penitenciária 2 de Veslau. No dia 12 de maio eu estava precisando de serviço, entregando alimentação para os presos por volta de 11 ou meio dia. Todos os presos, genericamente falando, quase todos, praticamente todos.
Ameaçavam gente que falavam que se a gente fosse soltar eles para o banho de sol, eles iam nos matar, iam derrubar a cadeia, quer dizer, iam fazer uma rebelião. Alguns deles também falaram que a gente não ia acreditar no que a gente ia ver no noticiário à noite daquele dia, que São Paulo ia acabar. Falaram que era para a gente, depois das 8 horas, assistir os noticiários nas televisões, que São Paulo ia desaparecer do mapa, que São Paulo ia ter uma série de ataques. E eles iam plantar o terror que já tinham dado ordem para isso acontecer.
Eu vou falar para o senhor no nome dos réus, se o senhor puder, por nome, me lembrar se algum desses réus foi o que falou isso para o senhor, eu agradeço. O senhor Marcos William Zair Bascamar, do Marcola? Sim, sim. Ele fez meaças, inclusive afirmando que ele era o líder do PCC.
O governo, que já estava sabendo de tudo, determinou que os líderes mais importantes fossem separados do resto e levados até São Paulo. Lá, eles seriam interrogados sobre esses ataques que estavam prestes a acontecer. Entre os líderes estava o cabeça do grupo, o Marcola.
E aqui tem um ponto importante. Essa transferência dos mais de 700 presos até hoje é debatida. Tem gente que contesta a decisão e diz que foi um erro. Mas a maioria das pessoas que conversaram com a gente entende que a decisão fazia sentido. Poderia facilitar o monitoramento deles. Também poderia realmente dificultar o diálogo entre as lideranças e o resto da facção.
Mas o que mesmo os defensores ponderam é que a forma como tudo foi feito poderia ter sido mais bem executada. O Lincoln Gakia é um que reforça essas críticas. Todo presídio tinha celular. Só que quando foi determinada a remoção, quase todas as interceptações caíram. Em 2006, ele era promotor criminal em São Paulo e tinha montado um esquema de escuta telefônica de suspeitos.
Claro, tudo com autorização judicial. E ele fazia tudo isso sozinho. Os principais alvos dele eram os caras do PCC. Porque houve uma blitz em cada unidade prisional para remoção da cela inteira. Não era só um preso ou dois que eram tirados. A gente também havia já detectado que eles vão escolhendo, a liderança vai escolhendo os presos que podem habitar na mesma cela que eles.
tem que ser preso de confiança, porque escutavam as conversas, etc. Às vezes, até quando a gente isolava um líder, o preso que estava na cela sumia. A mesma função no mesmo telefone, às vezes. Então, a ideia era levar a cela toda. E isso aconteceu. Então, quando levou a cela toda com esses principais telefones...
O monitoramento que o estado de São Paulo tinha praticamente foi a zero. Mas do senhor também? Os meus caíram com exceção de alguns grampos que não caíram porque os alvos não foram identificados pela direção. Por algum motivo eles não identificaram que aqueles integrantes eram líderes e tinham uma função relevante dentro da facção. E eles conseguiram esconder os telefones e os telefones permaneceram falando. Eu cheguei a gravar a ordens de ataque, inclusive.
o senhor, então, ouviu que teria ataques antes deles acontecerem? É, ouviram o dia, praticamente. O que não deu certo foi não ter feito adequadamente uma análise de risco. Não se calculou que esses criminosos poderiam determinar algum tipo de retaliação, como de fato ocorreu, e mais, monitorar os presos e os demais integrantes de liberdade que não foram removidos. Sexta-feira, 12 de maio.
Era mais ou menos meio-dia quando o micro-ônibus da Polícia Civil chegou ao DEIC. O Marcola e os outros líderes desceram com os pés e as mãos algemados, cercados por uma escolta robusta, e caminharam em linha até o prédio onde estavam os delegados Godofredo Bittencourt e Rui Fontes.
As cúpulas da polícia civil e do crime ficaram frente a frente. A intenção dos delegados, Rui Godofredo, era interrogar os caras, tentar entender os planos contra o Estado, mas também tentar convencer os presos a desistir de alguma forma. O Marcola estava na transferência quando foi mandado com o DENC. Ele estava na sala, estava com todos os policiais na sala. A única pessoa que ele conhecia lá dentro, pessoalmente, era eu. Não conhecia outras pessoas. O Rui deu alguns detalhes sobre esse encontro e o tom da conversa.
Aí ele começou a conversar com todo mundo. Ele é um cara carismático. Ele faz brincadeira. Ele cria um ambiente de um relacionamento confortável. E ele foi conversando com todo mundo. Brincava aqui, brincava lá.
Quando a gente começou essa entrevista com o Dr. Rui, ele estava muito tenso. Ele falava tão baixo que a gente precisou até aproximar o microfone. Mas quando chegou nessa parte da conversa, ele já estava tão solto que ele começou a dar detalhes inéditos sobre essa reunião, que eu mesma, que cobrou isso há muito tempo, nunca tinha ouvido com esse nível de detalhes. Ele foi olhando para todo mundo, olhando, olhando. Quando ele ia passar por mim...
baixou a cabeça. E eu olhando ele. Depois de umas duas horas de conversa ali, que a gente já percebeu que isso não ia ter resultado nenhum, aquilo que tinham proposto, né? Porque não fomos nós que propusemos isso. Aí ele parou uma hora, olhou para mim e falou assim, não tenho nada contra ninguém nessa ação.
Mas contra o senhor eu tenho. Pô, eu não tenho nada contra você. Pessoalmente, não. Se eu puder te meter cadê, eu vou te meter cadê. Se tiver pronto. É, não é isso. É que surpreendeu minha mulher. Eu tinha prendido em 2005 a mulher dele por lavagem de dinheiro. Ele falou isso. Eu cheguei pra ele e falei assim, meu irmão, você é muito covarde, cara. Você botou sua mulher no crime, rapaz. Aí ele falou, é, não tem conversa. Eu falei, você sabe que comigo não tem. Pegou, abaixou a cabeça e não falou mais nada.
Ele contou aqui uma coisa muito curiosa. Como é que eles fizeram naquele momento, para ficar um pouco mais leve aquele clima da reunião, como é que eles tentaram ganhar a confiança daquele que era o principal inimigo do Estado? O que aconteceu nessa reunião? O que o senhor pode contar? O que aconteceu é que nós começamos a conversar com eles. Falaram, olha o que vocês vão fazer. No passado isso já não deu certo. Isso já ficou ruim para caramba.
Isso vai ficar ruim para vocês. Vai acontecer morte. Vai morrer gente do lado de cá. Vai morrer gente do lado de lá também.
Então não adianta vocês fazerem isso e tal, e tentando falar para eles, para os três ali, emitir uma ordem para evitar os ataques, mas a noite mesmo já começou. Ele tentava ganhar a nossa confiança e nós, a confiança dele ali naquele momento.
Foi nessa reunião que pediram o McDonald's para ele? Pedido. Ele que pediu. Para os três, né? Para quebrar o gelo. Para quebrar o gelo, obviamente. É uma forma de você estabelecer uma relação emocional com a pessoa. Para ver se ela atende o que você está pedindo. Isso é tudo. Faz parte do jogo, né? E eles deram o que vocês estavam pedindo? Nada. Falaram que não, que eles não eram responsáveis por isso, que eles não mandaram nada, que os presos é que estavam revoltados lá, eles é que estavam decidindo.
Nunca admitiram isso e rolou, rolou solto. No começo o plano era que o McCullough e os comparsas dele ficassem uns 20 dias no DEIC.
Mas a tensão exigia soluções imediatas, porque os criminosos não estavam dando nenhuma pista de que iam recuar. É a minha tropa contra a sua. Vamos ver quem pode mais, teria dito Marcola para o Godofredo e para o Rui. E depois ele falou outra frase que também ficou famosa. O Marcola disse para o delegado que o PCC podia entrar nas delegacias e matar os policiais, se eles quisessem. Mas que o Estado tinha o dever de proteger os presos e não podia fazer o mesmo.
Enquanto eles estavam lá no meio daquela negociação, umas duas e meia da tarde chegou a notícia. Os primeiros motins estouraram nas cidades de Iaras e Avaré. Duas horas depois, outra notícia ainda pior. Numa escuta telefônica, um delegado federal captou uma das ordens do PCC.
Parece que alguns presos conseguiram ainda levar celulares consigo. Então houve, inclusive, na época, decretos de matar funcionários, matar secretário, enfim. Começaram a soltar salves que eram para matar os policiais. Para quem não tem familiaridade com esse tema, os salves são as ordens da facção. Salve geral. Passem ser aos sendói militares, civis, diretores, agentes penitenciários, políticos do PSDB, menos do PT. Os irmãos que se omitirem pagarão com a própria vida.
Políticos todos, menos do PT. Teve essa observação, mas aí eu deixo bem claro que era na época, porque o PT era oposição ao PSDB em São Paulo, e eles, de certa maneira, achavam que seriam protegidos pela oposição.
Os ataques chegaram nas ruas pouco depois das oito da noite daquela sexta-feira. Uma investigação conduzida pelo próprio Rui narrava como as ordens eram transmitidas para a rua. De um sobrado de fachada de mármore na Lapa, onde funcionava a célula oeste do PCC, uma integrante da facção dava as ordens por Nextel. A conversa interceptada está num processo de mais de nove mil páginas a que tivemos acesso.
Salve geral, a partir das 9 horas da noite vão estar nas ruas da capital em conjunto com a CR. Quem tiver passagem na rua, a ordem é assassinar. Pedimos a todos que tenham cautela e inteligência e não se expor ao perigo. Observação, os atentados devem ser somente com fogo e bomba e atingir os comércios e comitês das pessoas que já sabemos quem são. Observação, fichar os muros contra a opressão do governo Alckmin e pedir apoio dos quatro cantos do Estado.
A cúpula da segurança pública e vários subordinados foram convocados às pressas para uma reunião no QG da Polícia Militar, em São Paulo. Não tinha espaço para picuinha. Naquele dia, os desafetos Nagashi e Saulo, o secretário de Segurança, não tinham como fugir, e os dois estavam presentes. Depois de ter passado a sexta-feira inteira com a cúpula do PCC, o Godofredo, diretor do DEIC, também compareceu, assim como o comandante da Polícia Militar e o delegado-geral da Polícia Civil.
Já era noite de sexta-feira. Um grupo de quase 30 pessoas estava na sala. Eles estavam perdidos, esterrecidos, contabilizando os primeiros agentes mortos. O Saulo foi o primeiro a falar. Ele disse que o Marcola teria feito lá no DEIC uma proposta para o Godofredo.
Os atentados acabariam se os presos que estavam em Menceslau pudessem receber visitas, sem qualquer restrição, no dia das mães, que era já o domingo seguinte, e se eles também fossem autorizados a receber advogados já na segunda-feira. Mas o Nagash estava irredutível. As regras do Regimento Interno da SAP diziam que o preso que foi transferido só podia receber advogado 10 dias depois, e as visitas só 30 dias depois da transferência.
Por mais ou menos uma hora, o Saúl e o Godofredo argumentaram que os termos do Marcola tinham que ser aceitos. O raciocínio era, um passo atrás para dar vários à frente. Mas o Nagashi não quis saber. Disse que todos ali conheciam os riscos quando aceitaram a transferência dos presos, e não tinha como voltar atrás. Não tinha também garantia nenhuma de que se eles recuassem, os ataques iam parar. Seria um erro confiar no crime e ia desmoralizar o Estado.
Uns presentes na reunião sugeriam então que eles acatassem parte do pedido, que eles deixassem que as mães dos presos visitassem no domingo sem outras visitas. Mas o Nagashi não topou e ainda deu um ultimato. Se eles continuassem dando sugestões como aquela, descabidas, ele ia sair da secretaria na segunda-feira mesmo. Ia fazer mais. No minuto seguinte, ele disse que iria para a imprensa para contar que o Estado estava de joelhos para o Marcola.
Depois que o Nagashi falou tudo isso, ficou aquele clima horroroso. O Saulo pegou os homens de confiança dele e saiu da sala para ter uma conversa privada. Voltaram pouco tempo depois. Numa fala rápida e definitiva, o secretário de segurança anunciou Avoco essa decisão para mim. Não haverá acordo. Vamos para cima deles. Liberem as armas de grosso calibre e vamos enfrentá-los. Naquela sexta-feira, 12 de maio, começou o terror que paralisou a maior cidade do país.
O Estado de São Paulo, 13 de maio de 2006.
Sexta-feira, por volta das 8 horas da noite, começam atentados simultâneos na Grande São Paulo. Os primeiros alvos são o 55º Distrito Policial, no Parque São Rafael, Zona Leste de São Paulo, e um policial civil em Guaianazes. Em 19 ações registradas até meia-noite, morreram quatro policiais civis e um militar, além de um agente carcerário em São Paulo, e dois guardas civis de Jandira, na região metropolitana.
Motorista desta lotação foi executado na frente dos passageiros. Ele era policial militar e ajudava o pai quando não estava de serviço. As rebeliões estouraram do litoral ao interior. Em Ribeirão Preto, um carcereiro é assassinado com 16 tiros. Dentro deste carro, a namorada de um policial também não escapa da covardia das quadrilhas. O casal é atingido por vários tiros e o carro só para depois de bater num poste. Era duas voltas e um carro.
A moto passou por uma rua paralela da parte de cima e o carro pela parte de baixo jogando fogo cruzado contra a guarnição. Em Praia Grande, a casa de um policial rodoviário foi metralhada. Por sorte, ele não estava. A mulher dele tinha acabado de amamentar o filho no quarto atingido pelos tiros. A única reação que eu tive não foi nem me jogar no chão, nem nada. Eu abracei e só falei, meu Deus, é tiro.
Nas ruas, quem executava as ordens eram os homens com dívida com a facção, aqueles que deviam mensalidade paga na época para o caixa do grupo ou usuários de drogas em débito com os traficantes. Eram chamados de binladens ou homens-bomba. Esses caras não tinham opção. Eles sabiam do alto risco de não acatar a ordem da cúpula e por isso saíam à caça dos agentes de segurança. Até bombeiro, que no imaginário da população costuma ser o herói das forças de segurança.
Os agentes foram pegos no susto e tentaram revidar de alguma forma. Naquela sexta-feira, dez agentes de segurança foram mortos e três ficaram feridos. Entre civis, doze mortos e três feridos. Sábado, 13 de maio. Os ataques da madrugada seguiram pela manhã. Em Guarulhos, um policial foi morto no meio da rua.
Um outro foi assassinado na zona sul da capital. E mais um foi metralhado num ponto de ônibus em Sapopemba, na zona leste. Toda a polícia de São Paulo está mobilizada para reagir em duas frentes, conter os ataques às bases policiais que acontecem desde sexta-feira e reprimir as rebeliões que estão em andamento no interior do estado.
O plano de resposta do Estado começou a chegar lá na ponta. Policiais de férias, folga, licença, todo mundo foi convocado. No DEIC, em São Paulo, a conversa entre os delegados e os líderes do PSC não deu em nada. Na manhã do sábado, eles foram transferidos de novo, mas dessa vez para o presidente Bernardes, presídio de segurança máxima. Enquanto isso, o governador Cláudio Lembo era informado do que estava sendo decidido pela cúpula da segurança. E a população via nos jornais as primeiras notícias.
O Estado de São Paulo, 14 de maio de 2006.
Criminosos mataram o bombeiro João Alberto da Costa na madrugada de sábado, dia 13, na Alameda Barão de Piracicaba, na região central, onde funciona o segundo grupamento de bombeiros de São Paulo. A gente não merece, a população não merece isso. A gente que salva a vida. Tem uma coisa dessa, é triste pra gente. Pela primeira vez na história de ataques promovidos por facções criminosas, os bandidos atiram contra um quartel do corpo de bombeiros. Eles serem atacados da maneira que foi? Uma coisa...
Brutal, entendeu? Brutal. O quartel está em luto, os bombeiros estão em luto, entendeu? O pânico começou a se espalhar. Todo mundo se jogou no chão na hora. Muito medo. Não tem noção. Pensei que ia morrer. Se eles estão procurando uma autoridade, uma polícia, né? Que são competentes, que poderiam nos defender. Imagina, nós somos civis, né? Sem ter nenhuma defesa, simplesmente Deus por nós, né? Cadê a segurança, Fê?
A gente fica apavorada mesmo, porque se estão matando policiais, vão tirar a gente, né? Visei para o meu marido, falei, cuidado com as crianças, não deixa ele na rua. O próprio Estado recomendou que seus funcionários evacuassem os prédios e voltassem para casa. Desocupar, fechou, as repartições públicas foram fechadas. Doutor Lincoln Gaquia tem uma história curiosa sobre isso. Porque eu estava fazendo pedidos de interceptação e eu fui abandonado no fórum em Venceslau. Minha escolta foi embora levando o juiz.
O juiz foi embora também, e ficou só eu no fórum. Na hora que eu saio, eu falei, cadê a escolta? E eu precisava fazer os pedidos de interceptação, porque os ataques estavam ocorrendo. O governo de São Paulo foi forçado a vir a público para dar uma satisfação à população. O Estado de São Paulo, 14 de maio de 2006.
Uma reação previsível. Foi assim que o governo chamou a guerra movida pelo PCC contra o Estado. O governador Cláudio Lembo disse que São Paulo não se curvará a má vida e que está firmemente ao lado da legalidade e do Estado. A população pode ficar tranquila e confiar nas suas polícias, afirmou Lembo.
Aquele sábado foi o dia dos ataques de maio com o maior número de agentes mortos. Mas a promessa de revide da polícia começou a se materializar, principalmente nas periferias, como era esperado. Naquele sábado, 23 agentes mortos e 8 feridos. 39 civis mortos e 18 feridos. Mais de 227 agentes penitenciários estão em poder dos encarcerados. Até agora, o caso mais grave foi registrado em Jabot Cabal.
O diretor da cadeia de Jabuticabal, Adelson Taroco, teve o corpo queimado durante ataque de presos rebelados. Os presos arremessaram um colchão em chamas contra o diretor quando ele negociava o fim do motim, que envolveu 90 detentos. Domingo, 14 de maio, Dia das Mães. A celebração deu lugar às dezenas de velórios que se espalharam pelo Estado. Luto coletivo.
Paulo José da Silva vai ser enterrado como herói da polícia civil. Dona Maria do Socorro, mãe dele, se apoia agora no único lugar onde pode sentir algum descanso. E diante da morte do filho, a mãe lamenta o tamanho da sua dor.
Ai, pai, porque ele é o meu pedido. Quando o caixão desceu ao mausoléu, os gritos do filho, o menino de cinco anos que chama pelo pai.
O dia das mães é sagrado no sistema penitenciário. Por mais cruel que tenha sido o crime, por maior que seja a pena, é a mãe quem nunca abandona o filho. E eles retribuem com a mesma devoção. Mas naquele dia foi diferente. Mesmo diante das suas santidades, os presos detonaram as rebeliões. Muitas das mães, sem saber o que estava acontecendo, foram fazer a visita.
Outras, mesmo sabendo, tentaram a sorte. Talvez não tivessem dimensão do tamanho daquilo. Em todo o estado, quase 25 mil presos estavam amontinados. As mães, que carregavam um monte de sacola de comida, roupa e outros itens, foram proibidas de entrar nos presídios. Elas tiveram que esperar o ano seguinte para comemorar a data especial. Os jumbos, preparados com capricho, ficaram em sacolinhas, no chão imundo, sem serventia.
O governo estava pressionado pela imprensa, pela população e pelos próprios policiais, que estavam se sentindo desprotegidos e forçados a ir para a guerra. Policiais civis entrevistados dizem que não houve alerta da Secretaria de Segurança Pública sobre os revídeos do PCC. Um deles até reclamou que este teria sido o maior problema do confronto. A gente é o último a saber.
A Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar do Estado de São Paulo protocolou ontem uma representação criminal contra o secretário Saulo de Castro Abreu Filho, da Segurança Pública, e Nagashi Furukawa, da Administração Penitenciária. A entidade quer que o Ministério Público investigue a responsabilidade dos secretários nos ataques do PCC. O governo e a cúpula da segurança, num tom orquestrado, mais uma vez vieram a público tentar colocar panos quentes.
O policial não se acovarda. O policial vai enfrentar. É o Estado. O marginal não se negocia. Bandido é bandido, Estado é Estado. Mas o fim de semana sangrento terminou sem respostas para a população, cada dia mais assustada. Só que a partir daquele domingo, uma coisa começou a mudar. Enquanto a execução dos agentes começava a diminuir, crescia rapidamente a matança dos civis. O Dia das Mães terminou com oito agentes mortos e um ferido.
107 civis mortos e 28 feridos. Segunda-feira, 15 de maio. A cidade do barulho, dos congestionamentos, das multidões, se cala. Fica deserta, trancada dentro de casa. A falta de segurança fez o expediente terminar mais cedo hoje. Uma cidade fantasma. No primeiro dia útil, desde que começaram os ataques, o vazio silencioso tomou São Paulo.
Folha de São Paulo, 15 de maio de 2006. Cerca de 5 milhões e meio de pessoas ficaram sem transporte porque empresas, motoristas e cobradores temiam sair às ruas. Real, nós estamos sobrevoando a capital paulista e os ataques que começaram na madrugada de sábado deixaram a população sem transporte. É que muitos ônibus foram incendiados e algumas garagens decidiram que os coletivos não sairiam nesta manhã.
Esse dia ficou cristalizado na memória de cada um que vivenciou o horror. A cada esquina, praticamente, a polícia tinha uma barricada. As blitz paravam milhares de veículos, principalmente as motos, que são mais rápidas e eram preferidas dos criminosos. O transporte público travou, com centenas de ônibus incendiados. Muita gente que se aventurou pela manhã encerrou o expediente antes da hora e correu para casa. As escolas dispensaram os alunos.
A população estava apavorada, e não só pela ação dos criminosos, mas também pelo descontrole do Estado. Apesar da escalada de terror, a tradicional disputa política prevaleceu, e o governador recusou a ajuda do presidente.
E vamos agora falar ao vivo com o governador de São Paulo, Cláudio Lembo. Governador, uma boa noite para o senhor. A polícia chegou a ter informações com antecedência sobre as rebeliões. Eu pergunto, o que é que deu errado para São Paulo enfrentar essa tragédia de assassinatos, de terror nas ruas? Não, eu creio que nada deu errado. Nós tivemos informações, sim, agimos com muita firmeza, com muita dureza. E isso criou uma revolta que nós esperávamos efetivamente para o Dia das Mães.
Governador, quando o senhor diz que nada saiu errado, em que categoria o senhor encaixaria então as mortes que aconteceram em São Paulo? Um drama, um grande drama. Não, não, um grande drama. O que nós não esperávamos era esta violência do crime organizado. Foi excessiva. Aí sim, nós podemos dizer que houve aqui e ali situações difíceis.
A ouvidoria das polícias foi atolada por reclamações de moradores das periferias. Os relatos eram de que inocentes estavam sendo mortos por homens armados até os dentes, encapuzados para esconderem o rosto. Uma das vítimas foi Ana Paula Santos, grávida de 20 anos, que foi assassinada um dia antes do parto. Ela ia ganhar no dia seguinte, ela estava enorme. Ela entrou na frente dele para eles não atirarem. O meu genro falou, pelo amor de Deus, não faz isso, larga ela.
Ela está grávida. Ele apertou o gatilho e soltou. Falou que estava. Naquela segunda-feira, cinco agentes foram mortos e nenhum ferido. 84 civis foram mortos, 21 feridos. O Estado de São Paulo, 16 de maio de 2006.
O governador Cláudio Lembo recomendou que a população volte à vida normal hoje. O governo de São Paulo atribuiu o pânico a uma onda de boatos. Os ataques a ônibus diminuíram, mas não pararam. Depois dos ataques à polícia, chegou a vez de agências bancárias, agências dos Correios e de uma estação do metrô se tornarem alvos dos criminosos. É mais um dia de caos em São Paulo. O quinto dia seguido.
Os atentados, quase que de repente, começaram a parar. Mas o estrago em vidas perdidas já tinha sido feito. Foram 369 mortes até aquele momento, entre agentes do Estado e civis. Afinal, quem eram aquelas vítimas? Como é que as suas famílias vivem hoje? Esse é o assunto do nosso segundo episódio. Até lá!
O podcast PCC, o Salve Geral, é uma produção da Rádio CBN e do jornal O Globo. Eu, Aline Ribeiro, fiz a narração, a reportagem, a pesquisa e o roteiro. A coordenação, o roteiro, a edição e a pesquisa ficaram com o Gabriel de Campos.
A Ellen Menezes participou da produção, da edição, da pesquisa e da distribuição. Produção e pesquisa, Suelito Oviana. A Mariana Romano fez a edição de história, montagem e sonorização. A leitura das reportagens foi do Leandro Gouveia, jornalista da CBN. A captação de áudio foi feita por Débora Gonçalves, Juliano Fonseca, Priscila Gubiotti e Altair Cunha. A direção de arte é do Alessandro Alvim.
Gerência Digital, Tiago Barbosa. Direção, Pedro Dias Leite. Música
Tchau, tchau.
Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte. O Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho que, de fato, somos gigante. Chega de se ver pequenininho. Bora botar o Brasil no telão. Ouviu? E mais. Em qualquer compra a partir de R$199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia até a nossa estreia.
O que é isso?
PCC - O Salve Geral