Episódios de História com Prof. Vítor Soares

OS HORRORES DA DITADURA NO BANCO DOS RÉUS (NA ARGENTINA)

03 de março de 202612min
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Argentina 1985 é um filme poderoso ao retratar o julgamento histórico dos militares responsáveis pelos crimes da ditadura argentina, mostrando como a Justiça pode funcionar mesmo após anos de violência de Estado. A obra expõe o impacto político e social de responsabilizar torturadores e assassinos, criando um contraste direto com o caso brasileiro, onde os militares da ditadura nunca foram julgados criminalmente, em grande parte por causa da Lei da Anistia. Enquanto a Argentina enfrentou seu passado e transformou memória em justiça, o Brasil optou pelo esquecimento institucional, limitando-se a iniciativas como a Comissão Nacional da Verdade, que revelou crimes mas não puniu responsáveis. Esse paralelo faz de Argentina 1985 não apenas uma resenha de filme, mas um convite à reflexão sobre democracia, impunidade e os riscos de normalizar violações de direitos humanos, tema central para quem busca entender o passado político da América Latina e seus efeitos no presente.Meu nome é Vitor Soares, eu sou professor de História, e seja bem-vindo ao canal!Apoie o canal através do LIVEPIXhttps://livepix.gg/profvitorsoares🔴 Me siga nas redes sociais: @profvitorsoares🟢Ouça meu podcast História em Meia Hora!https://open.spotify.com/show/6uscSyqp0q7Cb0uoEujgL8🔴Compre meu primeiro livro-jogo de história do Brasil "O Porão":https://amzn.to/4a4HCO8🟢 Compre o meu livro "História em Meia Hora - Grandes Civilizações"!https://www.loja.literatour.com.br/produto/pre-venda-livro-historia-em-meia-hora-grandes-civilizacoesversao-capa-dura/Compre nossas camisas, moletons e muito mais coisas com temática História na blablalojinha! https://tinyurl.com/CAMISALAMPIAOLinks citados no vídeohttps://www.primevideo.com/detail/500---Os-Beb%C3%AAs-Roubados-Pela-Ditadura-Argentina/0JJQRB1DVFUV342QVZB9N7U7KARoteiro: Prof. Vítor SoaresProdução: Matheus Herédia (@matheus_heredia)

Assuntos10
  • Impunidade no Brasil vs justiça na ArgentinaLei da Anistia brasileira · Ausência de julgamentos de torturadores · Morte de algozes sem punição · Comissão Nacional da Verdade · Comparação institucional
  • Segurança OperacionalProcessos em 1985 · Condenação de ditadores · Promotores e tribunal · Responsabilização criminal · Contraste com Brasil
  • Memória e NarrativasTrauma como formador de identidade · Importância do reconhecimento público · Narrativa nacional · Cicatrizes históricas · Fechamento psicológico
  • Cinema e SériesDireção de Santiago Mitre · Lançamento em 2022 · Baseado em fatos reais · Abordagem sobre memória · Qualidade cinematográfica
  • Forcas Armadas BrasilContexto de Guerra Fria · Paranoia anticomunista · Apoio dos Estados Unidos · Múltiplos países afetados · Período de 1960-1980
  • Tortura e ViolenciaEscola das Américas · Manuais de tortura · Treinamento de militares · Ironia da defesa da liberdade · Responsabilidade americana
  • Ditadura ArgentinaEstudantes · Professores · Trabalhadores comuns · Jornalistas · Inocentes e suspeitos
  • Áudios do Supremo Tribunal militar brasileiroReconhecimento de tortura · Mulheres grávidas · Crimes documentados · Década de 1970 · Prova de violações
  • ComunismoJustificativa militar para golpe · Salvar da ordem subversiva · Medo de comunismo · Contradição com vítimas civis · Fragilidade do argumento
  • Trauma e ComportamentoConexão entre vítimas · Unidade coletiva · Veteranos de guerra · Experiência comum · Quebra de isolamento
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As pessoas se voltam contra elas mesmas quando elas se desconectam. Por algum motivo, aquela pessoa não faz mais parte do seu bando. Um pensamento bem tribal mesmo. Mas às vezes as pessoas também se unem. E uma das coisas que mais unem as pessoas é justamente uma grande tragédia. E tem tudo a ver com o que eu falei no começo, porque quando uma grande tragédia acontece, aquelas pessoas que viveram essa tragédia compartilham algo muito pessoal. Elas compartilham um trauma.

de terem vivenciado algo muito forte juntos, faz com que até os mais afastados se vejam uns nos outros. Um exemplo clássico é um veterano de alguma guerra. É muito comum que essas pessoas não compartilhem com as outras pessoas sobre o que elas vivenciaram no campo de batalha, nas trincheiras, onde for. Pelo menos até que elas vejam um outro veterano. De alguma forma, instantaneamente elas se conectam e às vezes conseguem até se abrir um pouco mais. Basicamente, um sabe

que o outro viveu naquele momento. Só que essa lógica não acontece todas as vezes. A América Latina, durante o século passado, passou por uma tragédia em conjunto. As ditaduras militares. Calma, eu sei que o papo é meio louco, mas eu juro que nesse vídeo eu vou conectar os assuntos. Meu nome é Vitor Soares, sou professor de história. Seja muito bem-vindo a mais um vídeo. Bem, você já viu no título desse episódio, o Natambi, que eu vou falar do filme Argentina 1985.

E esse filme me dá motivos pra ter inveja dos nossos irmãos, não só pela qualidade do filme

em si, que também é excelente, mas principalmente pelo evento histórico retratado nele. Pra quem não conhece esse filme, basicamente ele narra um momento histórico de 1985 na Argentina, quando o país se uniu pra julgar os seus ditadores. O filme foi lançado em 2022 e foi dirigido por Santiago Mitre, e é totalmente baseado em fatos reais. O filme acompanha alguns promotores que foram responsáveis por levar ao tribunal alguns líderes da ditadura militar argentina.

Você vai perceber que tanto o momento histórico, quanto o filme que retrata esse momento, eles não são tanto sobre justiça. É mais sobre memória, sobre tempo, é mais sobre identidade. A Argentina viveu ditaduras em várias décadas diferentes. Aqui no Brasil, a gente viveu 21 anos, de 64 até 1985. E a ditadura argentina, por outro lado, teve vários momentos. Ela começava, acabava, vinha um novo governo, o novo governo tomava outro golpe militar,

e outro novo governo, enfim. E por mais que as ditaduras latino-americanas tenham as suas especificidades, uma coisa elas têm em comum. Elas aconteceram no mesmo período, no mesmo contexto, décadas 60, 70, 80. E foram vários países da América Latina, Paraguai, Bolívia, Chile, Uruguai, Argentina, Brasil e muitos outros. Milhões de latino-americanos viveram sob um regime que matava, que sequestrava e que torturava os próprios cidadãos.

Se você tiver estômago, pesquisa sobre os bebês roubados da ditadura argentina. Mas seria muita coincidência que todos os países da América Latina tivessem ditaduras no mesmo momento. É evidente que alguma coisa em conjunto aconteceu com esses países.

E a gente sabe o que é. Era a Guerra Fria. Era a paranoia anticomunista que, com o apoio dos Estados Unidos, fez com que muitos militares latino-americanos tomassem o poder. Como eu falei, na Argentina, os ditadores foram julgados, diferentemente da maioria dos países latino-americanos, inclusive o Brasil. E o grande ponto desse vídeo eu quero trazer agora. Quero falar de tempo. Uma coisa que muita gente não entende é que o tempo passa, o relógio não para.

Argentina, os torturadores ainda estavam vivos, as vítimas ainda estavam vivas, a memória estava muito viva. A ditadura aqui no Brasil acabou em 1985, oficialmente, justamente a data do filme, né? A gente já perdeu mais de 40 anos de memória e também de vítimas e de torturadores. Alguns torturadores da ditadura brasileira morreram deitados na cama, rodeados de familiares, sem nunca terem pagado publicamente pelo que fizeram. Outros países latino-americanos

A Europa moderna tem um fato curioso para sua construção de identidade nacional. O trauma do nazismo ajudou a moldar a sua identidade política, a sua relação com direitos humanos e a sua própria memória histórica. Uma das grandes fundadoras da identidade nacional soviética é a chamada Grande Guerra Patriótica,

é a guerra contra a Alemanha nazista. Depois que acabou a Segunda Guerra Mundial, houve os julgamentos de Nuremberg. E eles foram muito importantes para colocar publicamente todas as provas indiscutíveis dos horrores que o nazismo cometeu. E é algo parecido com isso que aconteceu na Argentina em 1985. Esses julgamentos, o de Nuremberg e o julgamento das juntas na Argentina, são importantes para colocar pingos nos is, para não ter espaço para discussões mais dúbias.

uma mãe que compartilhava a ideologia dos militares, apoiava o que os militares fizeram. Mas no momento que o julgamento mostra uma mulher que foi torturada enquanto estava grávida e mostra a mulher narrando o que ela passou, a opinião dessa mãe muda completamente. Muita gente questionava se o nazismo realmente fez tudo isso de ruim, que nem as pessoas diziam. Mas os julgamentos de Nuremberg ajudaram bastante a acabar com esse disse-me-disse. Dando um pouquinho de contexto, em 24 de março de 1976,

Os militares tomaram o poder na Argentina. O argumento deles era o de sempre. Era salvar a Argentina do terrorismo. Restaurar a ordem contra os comunistas subversivos. Esse argumento foi usado diversas vezes por muitas ditaduras diferentes. Era uma guerra. Se não fosse a gente tomando o poder, os comunistas iam tomar o poder. Mas será que torturando mulheres grávidas e crianças, você estava de fato combatendo o comunismo? O julgamento das juntas foi mostrando que a maioria das vítimas do regime

A maioria era trabalhador comum, jornalista, professor e estudante. Eu sei que para algumas pessoas isso é óbvio, mas para muita gente não é. A ditadura não perseguiu apenas combatentes. Ela torturou suspeito, ela torturou inocente. O objetivo não era apenas eliminar inimigos, era criar medo na sociedade toda. E o medo foi criado. Muita gente nunca falou sobre o que viveu durante a ditadura. E isso acaba fazendo com que a gente não saiba todos os horrores que a ditadura cometeu.

inclusive a brasileira. Recentemente, o historiador Carlos Fico conseguiu alguns áudios do Supremo Tribunal Militar, na década de 70. Nesses áudios, que eu vou pedir para o Matheus colocar aqui no vídeo, inclusive, alguns militares reconhecem que houve tortura a mulheres grávidas. Boca aí, por favor, Matheus.

após sofrer cartilhos físicos no Código de Dória. Em síntese, os relatos são estes. José Roberto Monteiro, folha 419, que tem uma única declaração a fazer com pesar, no sentido de deixar claro, perante este conselho, que aqui negou muitas de suas afirmativas feitas durante a fala de Ciara, que naquela ocasião fora torturado, o mesmo corrido com sua mulher, a qual, inclusive, sofreu um aborto no próprio Código de Dória, em virtude de choques elétricos do seu aparelho genital. Fato ocorrido no dia 8 de abril de 1974.

O que veio acontecer dia 7 de abril na dependência da URB.

Esse áudio destrói uma das narrativas mais comuns sobre a ditadura, que é da violência ter sido dirigida apenas a combatentes armados.

Inocentes, mulheres grávidas, bebês, foram torturados porque os Estados Unidos tinham medo do comunismo. É isso? A resposta é simples e é horrorosa. Na verdade, os próprios métodos de tortura foram ensinados pela CIA, na Escola das Américas. Os manuais Kubark é o nome desses manuais de tortura que foram usados para ensinar os militares latino-americanos a torturar para conseguir informações.

Unidos porque eles queriam defender o mundo livre. Não tem ironia maior do que isso. Em nome da liberdade, militares torturavam, matavam e sequestravam os seus próprios cidadãos. E novamente, o tempo não para. Em 2015, o Carlos Alberto Brilhante Ustra, um torturador conhecido, faleceu sem nunca ter sido condenado. E isso não é sobre vingança. Isso aqui é sobre memória coletiva que o Brasil vai construir. É sobre justiça, sobre reconhecimento. É sobre estabelecer oficialmente

aquilo foi um crime, que aquilo é errado. Recentemente houve julgamentos do Jair Bolsonaro por conta da forma que ele lidou com a pandemia. E eu tenho certeza que isso vai deixar claro para qualquer governo que as suas ações não estão acima da lei. Que um crime cometido por alguém em posição de poder ainda é um crime. E que essa pessoa vai pagar. Independentemente da sua posição política, o significado histórico dessa prisão é afirmar que líderes também podem ser responsabilizados. E é uma pena imaginar que a gente não teve,

vai ter um julgamento como esse só que pra ditadura, pelos crimes cometidos pela ditadura. Talvez a gente nunca tenha o nosso Argentina 1985. Talvez a gente nunca tenha um momento em que o Estado olhe pro que aconteceu durante a ditadura militar e oficialmente diga que é um crime. Argentina 1985 é um filme diferente. Ele é um filme que deixa muito claro o que a Argentina quis naquele ano. A Argentina não quis

Ela escolheu dizer oficialmente que aquilo foi um crime. E vai ser essa história que a Argentina vai contar para o mundo inteiro pelo resto da sua existência. Todo país conta uma história sobre si mesmo. Alguns países contam histórias sobre as suas vitórias, sobre os seus heróis. Mas os países mais maduros contam histórias sobre os seus próprios crimes. Porque, diferentemente do que algumas pessoas podem pensar, encarar o seu passado não enfraquece uma nação. Na verdade, não falece.

Não é apenas um filme. É um registro cinematográfico. De um momento raro na história humana. Um registro de um momento. Em que um país decidiu reconhecer o que fez. Porque só depois que a Argentina reconheceu. Que ela pôde dizer. Nunca mais. Esse vídeo é um pouco diferente. Espero que você tenha gostado. Se você aprendeu alguma coisa comigo. Considere se inscrever aqui no canal. Curtir o vídeo. Raipar o vídeo. Compartilhar. Se você estiver assistindo no Spotify.

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sobre história, ouça o meu podcast História em Meia Hora. Inclusive tem um episódio sobre ditadura argentina. E a gente se vê no próximo vídeo. Valeu.