E 59 - A arte da presença no Japão
Neste episódio, exploro conceitos como wabi-sabi, ma, shinrin-yoku e ikigai - e a forma como cada um deles ressoa com a vida que tentamos construir aqui, no ritmo do Alentejo.
Porque há muitas maneiras de dizer: viver com vagar. E algumas vêm do outro lado do mundo para nos confirmar que estamos no caminho certo
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Amélia Pereira Coutinho
- A Arte da TanoariaFilosofia slow living · Sabedoria ancestral japonesa · Intenção e relação com a natureza
- Wabi-SabiBeleza na imperfeição · Beleza na impermanência · Apreciação de elementos naturais
- Ma (Vazio)Espaço para contemplação · Apreciação de pausas · Diferença cultural no preenchimento do vazio
- Shinrin-Yoku (Banho de Floresta)Imersão sensorial na natureza · Benefícios para a saúde física e mental · Longevidade e qualidade de vida
- Identidade Nikkei no JapãoPropósito diário · Significado no trabalho · Prática diária
- Importância da faltaPrática de 10-15 minutos de inatividade · Reflexão sobre a experiência do vazio
Olá, bem-vindo a Tudo com Vagar. Eu sou a Amélia e neste episódio vamos falar sobre a arte de praticar a presença. Recentemente fiz uma viagem ao Japão e descobri que a filosofia do slow living não é uma tendência ocidental, é algo que a sabedoria ancestral japonesa já pratica há muito tempo, ao longo de vários séculos.
E por isso, neste episódio, escolhi falar-te de alguns conceitos japoneses que nos indicam exatamente formas de ter presença, intenção, sabedoria e inclusive conjugar tudo isto com a natureza. Algo que procuramos fazer aqui no Monte das Lages, no Alentejo, ao seu ritmo também, e que não precisamos de trazer do outro lado do mundo uma sabedoria que já existe aqui também há muitos anos.
Porque há muitas formas de dizer viver com vagar e algumas vêm do outro lado do mundo, mas apenas servem para nos certificarmos que estamos no caminho certo. Venha daí e vamos falar sobre a arte da presença no Japão.
Olá, bem-vindos ao Tudo com Vagar. Eu sou a Amélia Pereira Coutinho e à sexta-feira convido-te a abrandar, a respirar fundo e a mergulhar num mundo onde o tempo corre devagar ao ritmo da natureza. Juntem-te a mim nesta viagem pelo Alentejo, onde cada momento é uma celebração da simplicidade e do prazer de viver sem pressa. Tens Vagar para me ouvir?
Há viagens que nós fazemos pelos olhos, mas há outras viagens que nós fazemos pela alma e quando voltamos para casa elas vêm connosco e ficam cá dentro a tentar reorganizar a forma como nós vemos as coisas. A minha viagem ao Japão foi uma dessas.
Foi com muita curiosidade e também com muita antecipação que preparei com todo o carinho esta viagem para tentar perceber a cultura japonesa, a forma de eles viverem, a forma como vivem o slow living, como têm tudo tão bem tratado, tão bem arranjado e também achar que ia haver algo muito diferente.
E efetivamente vi algo diferente na arquitetura, na postura, na forma como expressam ou não expressam os seus sentimentos, mas houve algo que era muito familiar, que me era muito familiar, que é algo também que eu vivo no dia a dia aqui no Alentejo.
e que os japoneses sabem pôr isso de uma forma tão bonita e com os conceitos tão simpáticos que eu resolvi trazer-vos hoje quatro desses conceitos para também explicar um pouco da sabedoria ancestral que têm e que se aplica tanto àquilo que nós vivemos aqui no Alentejo, ao tudo com vagar, a este podcast tão específico para quem vive com mais presença, com mais intenção e quem acima de tudo também gosta muito da natureza e gosta muito de apreciar o que a natureza nos dá.
Porque, de certa forma, aquilo que eu encontrei foi uma cultura totalmente diferente. Não só pela língua, que é algo completamente estranho para nós e são sons que não entendemos absolutamente nada, como pela arquitetura maravilhosa que têm, a beleza da natureza e dos jardins sempre tão bem tratados e, no fundo, algo que nos traz uma paz, uma calma.
e uma vontade de querer estar, de querer ficar, de querer absorver tudo aquilo que se vive ali, toda aquela vibe, digamos assim, que se vive em todo o espaço do Japão, seja zonas mais antigas, zonas mais culturais, sejam zonas mais de trabalho, industriais, enfim, tudo aquilo que eu vi lá foi algo que me fez sentir que efetivamente...
Aqui em Portugal e no nosso Alentejo também podemos praticar alguns dos conceitos japoneses que ao longo dos anos estão enraizados na sua cultura, mas que também nós vamos a pouco e pouco enraizando na nossa. O Japão tem muitos nomes para o slow living e eu trouxe alguns no bolso, espero conseguir solutrá-los e gostava hoje de os partilhar consigo aqui neste episódio.
O primeiro conceito é o Abissabi. O Abissabi não tem uma tradução exata, mas na verdade aquilo que quer dizer é que quer na imperfeição, quer na impermanência, existe beleza. E portanto, num edifício antigo em que existe uma racha, num tori de madeira, que são aqueles pórticos que eles têm lá, que têm algumas rachaduras em monumentos e templos antigos.
Todas essas imperfeições são apreciadas, são amadas, são acarinhadas, muitas vezes nem sequer são restauradas, quer dizer, são mantidas, obviamente, mas nem são restauradas para manter a ancestralidade, tudo aquilo que traz de história atrás de si e que, na verdade, é uma beleza infinita e que, apesar de não ser perfeito, é algo que transmite uma serenidade, uma calma e uma vontade de estar ali a ver aquilo tudo com imensa atenção.
E por isso é muito frequente vermos o musgo que cresce entre as pedras do templo ou as pedras dos cemitérios que eles têm, como eu vi, por exemplo, em Koyasan, é ver os lagos com algumas folhas que caem, porque...
É bonito ver a desfolhagem, é uma das épocas mais bonitas do Japão. Eu tive a sorte e o privilégio de poder aproveitar a zona das cerejeiras em flor e também algumas delas já a desfolhar, mas que continuam lindíssimas e fazem uma paisagem maravilhosa. E, portanto, tudo isto é beleza. Na imperfeição, naquilo que não permanece, naquilo que cai, naquilo que...
se renova, existe beleza e é algo que eles cultivam bastante e, portanto, desde pequeninos, que são ensinados a apreciar tudo aquilo que os rodeia, a parte da natureza essencialmente. Por isso têm tantos espaços verdes, tantos jardins, tantos tipos de árvores diferentes, com folhagens com cores maravilhosas, tantas flores e tudo isso faz com que eles consigam apreciar o dia-a-dia.
o que os rodeia, aquilo que têm de uma forma diferente. E portanto, o Habi-Sabi foi um dos conceitos japoneses que eu aprendi e que trouxe comigo e que gostava aqui de partilhar convosco. O segundo conceito é o conceito de Mã. Escreve-se Mã como Mã e significa o vazio.
Porque na verdade eles sentem que há necessidade de criar vazio. E o vazio é o espaço. É o espaço que damos para ouvir a respiração, é o espaço para meditar, é o espaço para olhar para dentro, é o espaço para contemplar. E portanto, má é um conceito que é bastante desenvolvido, que se pratica muito nos templos, obviamente que eles também têm uma altura.
em que fazem cânticos, em que estão a desenhar os sutras, com aquelas letras deles e aquelas canetas tive a oportunidade de fazer, é algo fantástico, mas é na verdade cultivar diariamente um espaço de vazio em que pura e simplesmente estamos.
Porque este vazio, que pode ser por muitos pequeninos, curtos espaços de tempo, é algo que deve ser apreciado. Como, por exemplo, o vazio que às vezes há entre duas notas de música. Ou o vazio, a pausa que há numa conversa porque estamos a deixar que as palavras pusem, que entrem a intervisar as palavras que ouvimos do nosso interlocutor antes de responder. É o espaço que existe entre as pedras e o musgo que começou a nascer entre elas.
Portanto, este vazio, este espaço é algo que não deve ser preenchido, deve ser, antes disso, apreciado e trabalhado no sentido de aproveitar e conseguir perceber que nesse vazio e nesse espaço há uma beleza, há uma calma, há uma serenidade, há uma forma de viver diferente e que nos torna mais conscientes, com mais intenção e também com mais propósito de vida.
E nós ocidentais temos muito a mania de preencher o vazio porque sentimos que há desconforto nele. E no Japão isso não se sente. É muito frequente eles sentirem esse espaço, esse vazio, dar aquele tempo para absorver as coisas, para as interiorizar, para as apreciar devidamente. E isso é muito bonito de se ver, é algo que é difícil de aprender, que eles têm desde pequeninos, desde muito pequenos.
que são enraizados na sua cultura e que é ensinado às crianças na disciplina de cidadania, que é a disciplina que eles aprendem primeiro antes de aprender a ler. É interessantíssimo porque é um país com imensas regras e, portanto, as crianças, desde muito pequeninas, desde antes da pré-primária,
têm aulas de cidadania, aulas de regras, aulas de saber estar, de saber aproveitar, ver a beleza em tudo, antes de aprenderem a ler. E é algo que vem desde pequeninos e que está muito enraizado e que praticam diariamente. Depois, o outro conceito japonês que aprendi e que gostava de trazer aqui.
é o Shinrin-yoku, que literalmente significa o bem de floresta. O bem de floresta é quando estamos rodeados de natureza e a trazemos cotidianamente para o nosso dia. E quando falamos desta natureza, não é uma caminhada, não é um objetivo físico, não é ir fazer um piquenique, é pura e simplesmente ter uma imersão sensorial na natureza, caminhar devagar, respirar fundo, ouvir, sentir,
ver, cheirar e tocar a natureza, sem fazer mais nada. Os japoneses estudaram esta prática dos banhos de floresta com um rigor incansável. E aquilo que eles descobriram é que estes banhos de floresta, no sentido de irmos para o meio da natureza, fazer uma experiência sensorial, como explicava há pouco, não só diminuem o cortisol, portanto o stress, diminuem a pressão arterial,
libertam a mente e desanoviam o ambiente e portanto as pessoas sentem-se bem, talvez por essa razão o Japão seja um dos países com maior longevidade e longevidade com qualidade, portanto as pessoas vivem até muito tarde e com qualidade, porque todos estes conceitos do slow living, todos estes conceitos da presença, do estar, do conseguir focar, de agradecer, de emergir na natureza, são algo que ajudam a longevidade.
seja maior, por um lado, mas com qualidade, portanto, hoje em dia vem até mais tarde com qualidade. E tem muita graça porque as pessoas anciãs, as pessoas mais velhas, são veneradas pelos mais novos. Ao contrário, talvez, da nossa cultura ocidental, em que muitas vezes, infelizmente, as pessoas mais velhas são abandonadas ou negligenciadas, aqui é exatamente o contrário.
são acarinhadas, são tidas como pessoas muito importantes, porque têm uma sabedoria dentro delas e conhecimentos para transmitir totalmente diferentes de outros conhecimentos que se possam aprender nos livros ou nas faculdades. E, portanto, há sempre membros da família responsáveis pelos mais velhos e eles são tratados, acarinhados e quase venerados, no sentido de que são as pessoas mais sábias da família. E, portanto, estes banhos de floresta...
são algo que é muito praticado, não é necessariamente, não é preciso ser necessariamente numa floresta, basta ser num jardim, num espaço verde, às vezes até em casa num recanto que se cria com uns bonsais e umas plantas bonitas, é não só benéfico para a cabeça, como também é uma terapia medicinal e eles encaram-no como tal. E por isso há tantos espaços verdes, há tantos jardins, há tantas árvores seculares. Nós chegámos a ver árvores com 900 anos, com mil anos.
têm uns troncos com um diâmetro perfeitamente descomunal, mas que são lindíssimas e que estão lá e que são bem tratadas. Têm sobrevivido também às intempéries e aos terramotos. O Japão, aos tefões, é um país que está muito sujeito a este tipo de clima e de efeitos atmosféricos, mas elas estão lá.
e realmente às vezes e sobretudo à volta dos templos, há árvores que são, eu diria mesmo milenares, com troncos absolutamente fantásticos, que só de estar ali a olhar para aquilo é algo que nos traz uma paz interior, uma satisfação, um agrado, uma coisa fantástica.
E o Shinrin-yoku não precisa ter uma floresta inteira à sua volta, é sobretudo ter a intenção, viver a experiência sensorial, estar a olhar para uma folha, ver um dente de leão a saírem aquelas coisinhas se superarmos, vermos um sapo que dá um salto no lago, nos nanúfares.
É, no fundo, esta intenção, esta presença, esta experiência sensorial que traz paz, clareza mental e, sobretudo, longevidade. E, por último, o último conceito que vos trago hoje, porque também não quero estar a maçá com muitos mais, é talvez o mais conhecido e a palavra que mais tenho ouvido, que é o Ikigai. O Ikigai é a razão de ser. Porquê é que eu acordo todos os dias de manhã?
E não é necessariamente uma grande missão, o Ikigai não existe para se mudar o mundo. O Ikigai pode ser uma pessoa a cultivar o seu jardim, a podar o seu bonsai que está na janela, a preparar o cerimonial do chá que é algo extremamente importante para eles. Isto é no fundo um propósito, uma razão, uma missão.
que não é algo que vem transformar o mundo inteiro, mas é algo que tem significado e que para eles é fundamental saberem que acordam de manhã com um propósito. Aqui há uns anos, poucos, houve um filme japonês que ganhou até um prémio, não sei se foi um Oscar, que se chamava Limpa e era sobre exatamente um senhor que limpava retretes e para ele...
Aquele trabalho era a coisa mais importante da vida dele, que ele fazia com todo o carinho, com todo o empenho, com toda a dedicação, com todo o brilho, com todo o orgulho de estar a fazer aquele trabalho. Muita gente não quer fazer da melhor forma possível, com a maior intenção. E acordava todos os dias de manhã, o seu ekigai era para ir limpar as retretes das casas de banho.
E o que me tocou também muito nesta viagem ao Japão é que o Ikigai não é um destino, é uma prática. É algo que nós podemos treinar e praticar todos os dias. Porquê que eu acordei hoje? Qual é que é o meu propósito? Com que intenção é que eu vou fazer isto? Quem é que eu vou ajudar hoje?
O que é que o meu trabalho vai ajudar a produzir? Como é que eu posso ser melhor naquilo que faço? Este conceito de Ikigai, de propósito de vida, a razão do ser, é algo que quando interiorizado é fundamental para nos desenvolvermos não só como pessoas, para desenvolvermos a nossa cabeça, a nossa clareza mental, a nossa saúde mental e também para podermos ter uma missão, uma missão de vida.
que não precisa de ser grandiosa, mas que é a nossa, é aquela que nós acarinhamos e é aquela pela qual todos os dias nós vos levantamos de manhã. Hoje deixo-vos um desafio semanal muito simples, que é criar um espaço de vazio, um espaço que pode ser 10 ou 15 minutos de vazio, uma,
em que não vai fazer absolutamente nada. Nem ouvir música, nem ouvir podcasts, nem ler, nem escrever, nem ver ecrãs. Simplesmente estar naquele vazio e deixar pousar. Deixar pousar o vazio e no fim desse vazio.
Escrever uma frase daquilo que lhe veio à cabeça e tentar perceber como é que o vazio o faz sentir. Se o faz sentir desconfortável, se o faz sentir confortável, se precisa de mais tempo, se lhe vem muita coisa à cabeça, se não vem nada. O que é que esse vazio significou para si nesse dia e o que é que o fez sentir? Tome nota no seu caderninho e depois, ao final da semana...
Veja como ao longo da semana esse vazio foi ganhando profundidade, foi ganhando espaço também e foi aumentando sistematicamente sem ser de propósito.
O Japão é um país que está muito longe de nós, não só geograficamente, como na língua, como na estética, como na cultura. Mas o que eu vi lá e que confirmou aquilo que eu já sentia é que existem muitas formas de dizer devagar e todas elas apontam para o mesmo. Para dentro, para o presente, para a beleza do que já existe, seja imperfeita ou seja impermanente. Portanto, é isso que faz com que todos os dias acordemos com um propósito.
Que consigamos criar vazio para podermos estar, que consigamos ter o banho de floresta sensorial para se sentir e para no fundo pôr um propósito e intenção em tudo aquilo que fazemos.
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E assim nos despedimos com vagar e coração. Obrigada por estares desse lado. Até à próxima sexta-feira, para mais um momento de pausa e inspiração. Entretanto, vive devagar e conta-me como foi. Até breve!