Episódios de Tudo com vagar

E 58 - A Insónia sabe o que evita de dia

01 de maio de 20269min
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São três da manhã. Está acordada, o tecto está no sítio certo, e os pensamentos definitivamente não.
Já tentou o truque das respirações, o chá de camomila, o telefone virado para baixo. Nada. E se a insónia não fosse o problema mas a única altura do dia em que o eu interior consegue, finalmente, falar?
A insónia assusta. Mas talvez não seja uma falha do corpo, talvez seja um recado da alma, a única voz suficientemente teimosa para nos fazer parar quando ignoramos tudo o resto.
Neste episódio, exploramos o que se esconde por trás das noites sem sono: as perguntas que adiamos, os pensamentos que não tiveram espaço durante o dia, e o que acontece quando finalmente nos sentamos com eles.
Uma conversa sobre silêncio, sobre o que o escuro revela e sobre porque é que pensar com vagar pode ser o único remédio que realmente funciona.
No Monte das Lages, a noite alentejana ensina exactamente isso: há coisas que só se ouvem quando o mundo se cala.
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Participantes neste episódio1
A

Amélia Pereira Coutinho

Host
Assuntos4
  • Lidar com a insóniaNão lutar contra a insónia · Criar curiosidade sobre a mensagem do corpo · Tratar a causa, não o sintoma · Arranjar pequenas bolsas de tempo durante o dia · Usar caderno e caneta para registar pensamentos
  • Caso clínico: insônia e diagnóstico rápidoPensamentos adiados durante o dia · Recado da alma · Pânico do pânico · Corpo em estado de alerta
  • Viver com vagar e saúdeVida mais lenta e calma · Produtividade e saúde · Relaxamento e tempo para pensar
  • O silêncio da noite alentejanaHora entre a meia-noite e as três da manhã · Silêncio total e absoluto · Perceber o que está dentro da nossa cabeça
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Olá, bem-vindo ao Tudo com Vagar. Eu sou a Amélia e neste episódio vamos falar de insónia. A insónia que assusta, que não deixa que o corpo descanse, que não deixa que a nossa mente pare de pensar em várias coisas. E muitas vezes o que acontece é porque durante o dia nós não lhe demos tempo para ela reconhecer esses problemas e essas preocupações e é durante a noite que nos vem a solar. Venha daí e vamos falar um pouco sobre a insónia e como podemos, de alguma forma, tentar resolvê-la.

Olá, bem-vindos ao Tudo com Vagar. Eu sou a Amélia Pereira Coutinho e à sexta-feira convido-te a abrandar, a respirar fundo e a mergulhar num mundo onde o tempo corre devagar ao ritmo da natureza. Juntem-te a mim nesta viagem pelo Alentejo, onde cada momento é uma celebração da simplicidade e do prazer de viver sem pressa. Tens Vagar para me ouvir?

Há uma hora no Alentejo que não se explica muito bem. É aquela hora entre a meia-noite e as três da manhã, em que o céu fica mais escuro, as estrelas brilham, mas parece que estão paradas. Há um silêncio total e absoluto. Os pássaros já não estão a estilarrear, os cães também já estão a dormir. E, portanto, é um silêncio que deixa ficar um vazio enorme e que nos ajuda, por vezes, também a tentar perceber o que é que está dentro da nossa cabeça e porque é que esses pensamentos nos poluam aqui dentro e não nos deixam descansar efetivamente.

Com certeza que reconhece esta imagem. Está a meio da noite na cama e não consegue adormecer. Olha para o relógio, um erro clássico, e pensa, já só tenho x horas para dormir e amanhã tem que ir trabalhar. E volta-se para um lado e volta-se para o outro. Põe a perna fora do lençol para ficar mais fresca. Não consegue adormecer.

e mais uma voltinha e a cabeça a funcionar, a funcionar, a funcionar. Muitas vezes costumo dizer que o meu problema, quando tenho insónias, porque eu também as tenho, é o meu intelecto, é o intelecto que não para, que não deixa de fazer listas, que não deixa de ver as preocupações daquilo que eu não tive tempo de fazer durante o dia e que à noite me vem assolar a memória e me fazem com que eu não tenha sono.

Nessas alturas, a cabeça é completamente teimosa e não quer parar. E depois instala-se em nós o pânico. E esse pânico vai se transformar numa coisa, algo cada vez maior, que é o pânico do pânico. E faz com que nós não tenhamos uma noite de sono relaxante e descansativa para que possamos enfrentar um novo dia de trabalho. E gostava de vos falar um pouco sobre isso e sobre os padrões que temos que aprender a reconhecer e como podemos, de alguma forma, tentar resolvê-los.

Há uma crueldade particular na insónia, que é quanto mais tentamos adormecer, menos conseguimos. Depois começamos a preocupar-nos com as preocupações e começamos a entrar em pânico. E esse pânico ainda nos traz mais pânico e quanto mais nós tentamos dormir, mais o sono foge. E isso traz-nos também muita ansiedade e essa ansiedade não nos deixa voltar a adormecer.

Isto acontece porque o nosso organismo interpreta isto como algo de urgência, uma ameaça. E quando estamos ameaçados, o corpo fica em estado de alerta. E ao estar em estado de alerta, não há a mínima possibilidade de voltarmos a adormecer. E por isso, quanto mais estamos neste estado de alerta, pior é. E portanto, temos que combater essa insónia.

Claro que isso é muito difícil de dizer e ainda mais de fazer, mas não devemos lutar contra ela, porque nessa luta nós vamos sempre perder. O que nós devemos fazer é tomar consciência e no fundo também criar aqui alguma curiosidade, que é o que é que o meu corpo me está a querer dizer para não me deixar dormir e descansar. Tentar perceber qual é que é a mensagem subliminar que está por trás, para podermos tentar resolver.

A insónia normalmente não é uma doença, é um sintoma e é um sintoma que tem uma causa. O que acontece é que nós muitas vezes tratamos o sintoma porque esse é fácil de se tratar, com melatonina, com comprimidos para dormir, com chás calmantes, com banho quente, com meditação.

Mas não tratamos a causa. E o que acontece é que nós, durante o dia, estamos sempre muito ocupados, temos muitas tarefas, muitos compromissos, reservas para viver dos hóspedes, redes sociais para alimentar, e-mails para responder, cartas para fazer, enfim, temos uma série de coisas para fazer e, portanto, não damos tempo para pensar, para ter algum vagar, para que aquelas perguntas mais de fundo, de estratégia, o que é que eu valorizo, o que é que é importante para mim, estou a viver de acordo com os meus valores.

Qual é a estratégia melhor para conseguir trazer mais hóspedes para aqui, para o mundo das lares? Enfim, todas estas perguntas acabam por não terem resposta durante o dia e depois ficam no nosso subconsciente e é à noite que elas nos veem, à hora mais inconveniente de todas, pular na nossa cabeça e mantermos acordados e sem sono.

E aquilo que nós podemos fazer para combater isso é tratar a causa. E tratamos a causa arranjando ao longo do dia pequenas bolsas de tempo, 10 às 15 minutos, para podermos efetivamente deixar que esses pensamentos cheguem até nós e tomarmos nota deles.

Às três da manhã, quando o sono não vem e a insónia já se instalou, nós não devemos lutar contra ela. Aquilo que nós devemos fazer é tentar, na verdade, dar-lhe aquilo que ela nos está a pedir, satisfazer a mensagem que ela nos está a trazer. E isso não se resolve com o telemóvel, com ecrãs, com a Netflix, com séries. Resolve-se com um caderno e com uma caneta.

aquilo que deve fazer é pegar nos pensamentos que estão a vir à sua cabeça, naquelas mensagens subliminares que lhe estão a chegar e tomar nota num caderno. Isto porque não vai resolver nada nessa altura, nem é isso que se pretende, não vai encontrar soluções, mas pelo menos tira-as da sua mente, do seu subconsciente, e ficam ali registadas. E um dia mais tarde pode sempre voltar a elas, pode sempre ver o que é que escreveu e tentar ver qual é que será a melhor forma de lhes dar uma solução.

Por isso, é importante que ao longo do dia consiga arranjar umas bolsas de tempo para que possa pensar nos problemas e registá-los, para não ter que o fazer a meio da noite. E, portanto, reconhecer as preocupações, reconhecer os problemas que lhe estão a assolar a cabeça, reconhecer as listas de tarefas que tem para fazer e vá tomando nota. E depois, mais tarde, logo chega a elas, logo vê o que é que pode ajustar, o que é que é preciso fazer, o que é que pode resolver imediatamente, o que é que tem que deixar para depois. Mas, ao ter isso escrito no seu caderno, na sua lista...

passando os pensamentos da cabeça para o papel, vai com certeza absoluta, depois à noite, conseguir que eles não venham assombrar-lhe a sua cabeça e acordá-lo sem o deixar adormecer. Uma das razões de viver com o vagar, ter uma vida mais lenta, mais calma, mais produtiva até,

não é só uma questão de trend ou de ser mais bonito, mais estético, é também uma questão de saúde, porque efetivamente não dormir é algo que as pessoas não conseguem ter durante muito tempo, não é sustentável e portanto é importante que consigamos dormir e para isso temos que tirar as preocupações da nossa cabeça para que depois, durante a noite, elas não nos venham a assombrar.

Uma das coisas que eu costumo receber como feedback aqui dos hóspedes é que eles dormem aqui lindamente, que têm sempre umas ótimas noites de sono. Isso não tem a ver com os nossos colchões maravilhosos, com os nossos edredons, com os nossos lençóis. Pode também ter, obviamente, mas tem a ver com o facto de estarem aqui, estarem mais relaxados, terem tempo para pensar, terem tempo para...

trazer aquelas coisas que andam cá para trás e que muitas vezes não temos tempo para pensar nelas e isso depois ajuda-os a ter uma melhor noite de sono. E é recorrente, todos eles me dizem que aqui dormem lindamente, que tiveram das melhores noites de sempre. Por isso deixo-lhe um desafio semanal muito simples. Reservo durante o dia uma bolsa de minutos que até pode pôr na agenda, apesar de eu estar a dizer para não usar o telemóvel, faça isso na agenda do telemóvel, só com um lembrete da hora, de preferência à mesma hora do dia.

para que deixar que esses pensamentos venham e vá tomando nota deles. Não pense em mais nada, não pense noutras coisas, não pense no que é que tem para resolver. Está ali só aquele momento a dedicar-se, a esvaziar a cabeça e a pôr isso no papel, para que depois à noite esses problemas não lhe venham a sombrar à noite e tirar a hipótese de uma noite retemperadora. Nesse momento não resolva nada, nem tente trazer soluções, ponha-o só no papel para depois mais tarde poder resolver.

E vai ver que ao longo do tempo vai conseguindo ir desmistificando, ou seja, cortar o elefante aos pedaços e ir resolvendo as pequenas situações que depois à noite já não lhe vão assombrar a sua noite de sono. Porque a noite não é inimigo, o silêncio não é inimigo e a insónia também não é nossa inimiga.

O que é nosso inimigo é o nosso intelecto, é a nossa cabeça, são as preocupações que estão por trás delas, são as mensagens subliminares. Se aprendermos a tratá-las, e obviamente não for um caso de patologia grave em que necessita de uma medicação, vai ver que estes pequenos momentos durante o dia o vão ajudar a que durante a noite tenha uma noite mais descansada.

Se gostou deste episódio e tem amigos que também não conseguem dormir, partilhe com eles. Siga-me no Spotify ou no Youtube, deixe um like, um comentário ou o seu feedback, que para mim é extremamente importante. Eu estou consigo todas as sextas-feiras. Desejo-lhe uma excelente semana, com noites bem dormidas e até à próxima sexta-feira.

E assim nos despedimos com vagar e coração. Obrigada por estares desse lado. Até à próxima sexta-feira, para mais um momento de pausa e inspiração. Entretanto, vive devagar e conta-me como foi. Até breve!

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Monte das Lages

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