Episódios de Segundas Feministas

A Lei 14.986/2024 e os embates de gênero nas políticas educacionais

27 de abril de 202645min
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Segundas Feministas

Ficha Técnica:

Episódio #229 - A Lei 14.986/2024 e os embates de gênero nas políticas educacionais

Convidada: Erineusa Maria da Silva (UFES)

Direção Geral: Marilene Quintino (PUC-SP) e Marcela Boni (Unicamp)

Direção executiva : Marilene Quintino (PUC-SP) e Marcela Boni (Unicamp)

Locução: Indiara Launa (SEEDUC/PE e UFRPE)

Supervisão de produção e Edição de áudio: Lerrannya Lasmar (UFOP), Larissa de Almeida (UFPR) e Anna Beatriz Haag (UFSC), Olívia Siqueira (UERJ)

Pesquisa e Roteiro: Indiara Launa (SEEDUC/PE e UFRPE) e Marcela Boni (Unicamp)

Pesquisa de conteúdo: Indiara Launa (SEEDUC/PE e UFRPE)

Pesquisa gráfica e Arte: Ingryd Damásio (UNIMONTES)

Social Media: Maria Clara M. Cavalcanti (UERJ)

Trilha sonora: Ekena, Todxs Putxs (2017).

Realização e apoio: GT GÊNERO ANPUH – seção Rio de Janeiro e seção São Paulo; GT GÊNERO ANPUH Brasil e ANPUH Brasil.

País/Ano: Brasil, Ano VI, 2026.

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Participantes neste episódio2
I

Indiara Launa

HostProfessora
E

Erineusa Maria da Silva

ConvidadoProfessora
Assuntos3
  • Lei 14.986/2024impacto na educação básica · história das mulheres · políticas públicas de gênero · ideologia de gênero
  • Desafios na implementação da leiprecarização do trabalho docente · cultura patriarcal · formação docente
  • Experiências exitosas em educaçãoprojetos de extensão · Cuidadores que Dançam · Ballroom Now Fest
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Começa agora o Segundo das Feministas, um projeto do grupo de trabalho gênero Dampo Brasil. Você já ouviu falar na Lei 14.936? Sabe o que ela mudou na LDB a Lei de Decísimos e Bases de Educação Nacional e como impacta a forma de ensinar a história? A Lei nº 14.936, sancionada em 25 de setembro de 2024 pelo presidente Lula,

Inclui a obrigatoriedade da história das mulheres na educação básica, avançando as experiências, contribuições e conquistas das mulheres, não só na turma de história, mas em todo o currículo escolar. Além disso, a lei instituiu a turma de valorização das mulheres que fizeram história, que acontece nas escolas brasileiras no mês de março.

Mas como elas têm sido aplicadas na prática, prática de experiências das melhores salas de aula? E como elas têm impactado a formação de professores e professoras nas universidades? A nova temporada das Segundas Feministas chega para refletir justamente essas questões. Ao longo de seis episódios, receberemos convidadas e convidados que pesquisam e atuam nos campos de história das mulheres, das relações de gênero e da educação básica, para debater os impactos da Lei 14.1986.

ensino de história, e desafios para sua reimplementação e as possibilidades de construção de educação inclusiva e comprometida com a transformação social, a equidade e os direitos humanos. Em um contexto de ataques e censuras à história e ao gênero, o Segundo das Feministas reafirma o compromisso com o debate crítico e interseccional das relações de gênero em sala de aula. Eu sou Indiara Launa, mestre em Educação e Cultura e Identidades pela Universidade Federal Rural de Pernambuco pela Fundação Joaquim Nabuco.

e atuo como professora de Sociologia na rede pública do estado de Pernambuco. Hoje eu estou com a Inês Maria da Silva, que reflete conosco sobre a nova lei no cenário das políticas públicas de gênero no âmbito educacional e compartilha algumas experiências exitosas na escola.

A Erin Neuza é doutora e mestre em educação pelo programa de pós-graduação em educação da Universidade Federal do Espírito Santo, possui graduação em licenciatura em educação física também pela Universidade Federal do Espírito Santo e graduação em direito pelo Centro Universitário Vila Velha.

Atualmente é professor na Universidade Federal do Espírito Santo, no curso de licenciatura em Educação Física e no programa de mestrado profissional em Educação Física em Rede Nacional, PROEF. Coordena o Núcleo Interinstitucional de Pesquisa em Gênero e Sexualidades, no PEGES, onde desenvolve projetos de extensão, Cuidadores que Dançam e Ballroom na UFES, e é membro da pesquisadora do NEP.

núcleo de estudos em políticas educacionais, por exemplo, de educação. Tenho experiência na área de educação e educação física, com ênfase nos seguintes temas. Trabalho e formação docente, política educacional, práticas corporais e estudos de gênero.

Erineuza, é uma alegria imensa te receber aqui no Segundas para refletir sobre o ensino das relações de gênero e sexualidade a partir do campo das políticas educacionais. Um campo que a gente já tem discutido um pouco, mas vai ser incrível, vai ser ótimo ter você aqui falando com mais propriedade desse campo de políticas públicas.

E para começar, conta para a gente quem é a Arineusa para além do LAT, que eu acabei de ler. A mulher, professora, pesquisadora, feminista. E como que você se encontrou com os estudantes de gênero a partir da educação física? Então, Indiara, boa noite. Inicialmente, eu gostaria de cumprimentar a todas as pessoas que nos ouvem. E dizer a você que o movimento estudantil faz a gente...

refletir, eu acho, sobre coisas que normalmente na sociedade não são... A gente sofre apagamentos, silenciamentos, então a gente acaba não...

tendo muito acesso a alguns debates. E foi no movimento estudantil que eu me encontrei com a discussão de gênero ainda lá na década de 80, no final da década de 80. E logo em seguida eu entrei para... Eu me formei em 90 e já dava aula, porque naquela época, no terceiro período, a gente já dava aula com carteira assinada.

Então, eu logo em seguida entrei para o sindicato da minha categoria de professores, o SindiUPS, aqui do Espírito Santo. E lá a gente, a CNTE, que é a nossa Confederação Nacional, já indicava de a gente criar coordenações de gênero para fazer esse debate no sindicato. Então, nós criamos essa coordenação, na época, no SindiUPS.

E também, na época, eu era afiliada ao PT, o Partido dos Trabalhadores, e isso também me estimulou nesse debate. E desde então, minha dissertação de mestrado foi no campo da discussão de gênero, de pensar sobre a feminização do magistério, e continuei nesse...

nessa discussão aí por muitos anos, e o feminismo, obviamente, também nos leva a uma luta que é para além do campo acadêmico, e até então eu venho fazendo essa articulação entre a academia e o movimento social de mulheres. É isso, acho que é um pouco sobre isso.

Fala um pouquinho mais de você, a primeira parte da pergunta, né? Quem você é para além do Lattes? Ah, então, para além do Lattes, eu sou uma mãe de Caio e de Lara, dois filhos, viúva, fiquei viúva no meu primeiro casamento, casada e agora, né? Com o meu atual marido há 26 anos. Sou a quarta filha de uma família...

que morou no interior boa parte do tempo, a primeira mulher e filha a cursar uma universidade, a única da minha família nuclear, né? A fazer o mestrado e o doutorado. Acho que é isso. Muito interessante ouvir essa trajetória, como que ela vai se vincular com o próprio trabalho docente, né? E a atuação no sindicato.

E aí, Arineuza, na sua pesquisa de doutorado intitulada Os Movimentos das Professoras da Educação Básica no Espírito Santo em face às políticas públicas de gênero para a educação, você buscou compreender as ações de professoras, o núcleo de trabalho nas redes municipais e estadual do Espírito Santo, em relação às políticas de gênero, em especial no contexto de disputas em relação à chamada ideologia de gênero, né?

Fala mais dessa pesquisa para quem nos escuta. O que você tem entendido por política pública de gênero? Que movimentações realizadas pelas professoras sobre a temática você mapeou? E quais agentes, percepções e embates sobre a tal ideologia de gênero ainda impõem desafios no cenário da educação, para os movimentos de gênero e sexualidade na educação básica? Então, a minha pesquisa de doutorado, que foi organizada como um livro,

foi realizada com professores e professoras da Educação Básica do Espírito Santo, que passaram pelo curso de Gênero e Diversidade na escola, o GDE, que foi oferecido pela CKD. Ainda quando a CKD não tinha sido esvaziada no governo lá de 2010, já é um final de...

governo Lula entrando para o governo de Dilma Rousseff. E nela nós buscamos justamente entender como é que esses educadores e educadoras se movimentavam diante das políticas públicas e das pressões sociais em relação à discussão de gênero e sexualidade nas escolas. Eu lembro que em 2014 nós tivemos o Plano Nacional de Educação e nesse plano tudo que relativa ao termo gênero no plano foi retirado.

A gente conseguiu garantir na discussão sobre a pluralidade cultural, a diversidade, mantivemos esses termos ali no plano nacional, mas gênero mesmo foi cortado. Então, nosso interesse era muito de ver como é que estava essa discussão nas escolas.

Na nossa tese de doutorado, nós tomamos como princípio teórico, metodológico, a sociologia da ação de Bourdieu e também outros autores do campo da política educacional, como Miller e Surel, Stefan Baal. E para esses autores e autoras, os sujeitos, no nosso caso, as professoras e os professores, eu até chamo de professoras, porque a maioria...

imensa maioria da pesquisa eram professoras, de como esses sujeitos não são meros receptores de políticas. Na verdade, essas pessoas são atores, atrizes, que vão influenciando e também, obviamente, são influenciados por todo esse processo.

E ao fazer essas ações, ao realizarem essas ações, também conseguem realizar o que eu chamo de vazamentos, de deslocamentos nas políticas por meio das suas ações. Então, em nossa pesquisa, nós chegamos à conclusão, mapeamos, na verdade, três tipos principais de ações realizadas por eles e por elas.

Uma ação que a gente chama de otimista articulada, que são aquelas ações das professoras que acreditam verdadeiramente na mudança e buscam o trabalho coletivo, se articulam com colegas, se articulam os movimentos sociais, as comunidades, para buscar desnaturalizar essas hierarquias de gênero.

E um exemplo marcante é a criação de comissões de gênero e sexualidade, coletivos estudantis, como no nosso caso aqui no IFES, daqui de Linhares e de São Mateus, o ICACHEO ou o ColorIFES, que fortalece o debate democrático nessas escolas.

Também, além da otimista articulada, nós vimos também ações que a gente chamou de silenciosa individual. E essas ações, silenciosas individuais, elas ocorrem quando as professoras, muitas vezes, para evitar conflitos diretos, né?

ou por falta de apoio da gestão, preferem agir sozinhas. A gente chama assim, comendo pelas beiradas, ela vai introduzindo a temática de forma diluída na sua disciplina, como na história, como às vezes na biologia, que tem ali um gancho, elas vão fazendo esses debates e vão criando o que eu chamo na minha tese de pequenos vazamentos no currículo tradicional, entende?

Há outra ação que a gente chama de pessimista impotente, que é aquela que reflete verdadeiramente o desgaste diante das barreiras institucionais e sociais, e a professora se sente, então, impotente, na verdade, na realização das ações.

Às vezes até realizam algumas ações, mas ações de muito pouco alcance. Então, foram essas as três. E você nos pergunta sobre os desafios e embates com relação à ideologia de gênero também.

O cenário atual é de grande disputa, mas você imagina lá quando eu fiz a minha pesquisa, que era justamente os anos de 2016, 2017, e o desafio mais latente que eu percebi é a ascensão realmente de forças sociais conservadoras, que especialmente a partir de 2014, mas já se articulavam lá em 1995,

se organizaram, então, a partir de 2014 em especial, contra a chamada ideologia de gênero e impediram, como eu falei, que o termo gênero figurasse de forma literal no Plano Nacional de Educação. E esse termo é usado como uma estratégia, a ideologia de gênero, coloco sempre entre aspas, porque eu digo que é uma falácia, né?

mas utilizaram esse termo como estratégia de ataque para afirmar que existe aí uma conspiração para perverter crianças, o que gera aí certamente um clima de medo e de vigilância nos professores.

Então, eu chamo de principais agentes e desafios os agentes de resistência ao debate de gênero nas escolas, que são essas lideranças religiosas, e aí são católicas e neopentecostais, também parlamentares que pressionaram pela retirada dos termos gênero e sexualidade dos planos de educação, tanto nacional quanto estadual e municipal.

E esses parlamentares, notadamente, geralmente, estão vinculados a essas lideranças religiosas, muitas vezes são elas as lideranças religiosas, aqui no Espírito Santo nós tivemos a participação muito forte também, além desses parlamentares.

do bispo D. Luiz Mancilha, na época, que seguindo uma cartilha do Papa Bento XVI, ele ocupou as mídias do Estado falando contra a possibilidade de discussão de gênero nas escolas. Também vemos como um agente, um desafio.

as percepções de tensão na escola por parte de professores e professoras, nós tivemos inclusive aqui em Diara vereadores que invadiam escolas para apontar dedo para professoras, enfim. Então a maioria das professoras, na época 66%, certo?

das professoras que nos responderam, relatou sofrer tensão com famílias e colegas por conta da intolerância e por conta desse viés religioso.

Também não podemos deixar de falar da precarização do trabalho docente, nós temos um excesso de contratos temporários aqui no Estado. Nós hoje acabamos de ter uma pesquisa indicando até cerca de 70% dos professores com um contrato temporário. Então, esses professores não têm a, eu diria,

a estabilidade do trabalho para poder dizer, olha, eu vou enfrentar esse assunto, porque qualquer coisa ele pode ser mandado embora, então ele não tem essa estabilidade, e isso faz muita diferença. E também eu acho que a falta de tempo para planejamento coletivo dificulta muito a continuidade de projetos pedagógicos.

profundo sobre esse tempo. Porque o DT, que a gente chama aqui, que é o contrato temporário, ele está o tempo inteiro, todo ano, de dois em dois anos, pelo menos, ele não está mais em determinada escola, ou muda de escola. Então, isso faz com que o planejamento coletivo seja dificultado.

E, fundamentalmente, também a gente precisa falar de uma cultura patriarcal. Nós ainda enfrentamos uma cultura patriarcal muito forte, que naturaliza os privilégios sociais e o controle sobre as mulheres, o que nos exige um esforço constante para... Justamente esse trabalho que o Nupé diz faz, um esforço de desnaturalizar essas assimetrias em sala de aula e...

Há compreensão disso, inclusive, junto às professoras, em formações. Mas eu entendo que, apesar desses embates, Indiara, a nossa pesquisa mostrou que é o agir das professoras, que esse agir das professoras seja de forma articulada.

otimista articulada ou silenciosa, indica, sim, o movimento pedagógico de gênero, e esse movimento continua vivo, resistindo às tentativas de silenciamento. Nós temos agora uma outra colega, uma outra professora, realizando uma pesquisa também, buscando ouvir professores, e daqui a pouquinho nós vamos ter novos indicativos, porque a minha pesquisa finalizou lá em 2018, né?

Mas a gente continua nas escolas e tem percebido o movimento, esse movimento continua, mas é bom termos novas pesquisas para a gente avaliar isso. Muito bom, e é muito importante quando você tem essas questões que dizem sobre o trabalho do docente, como um gargalo para a implementação de políticas públicas.

E aí essa relação entre o estudo de gênero e a educação é central aqui no Segundo das Feministas. E ao longo dessa temporada, a gente tem falado bastante sobre a história das mulheres, a história das relações de gênero, as experiências de atravessamento docentes em torno da lei 14.1936, a partir do campo de ensino da história como um podcast de história.

E agora, dando um foco maior para justamente o trabalho, a formação docente e a política educacional, campos em que você é especialista, já tem trazido um pouco nessa conversa, e com certeza tem mais para contribuir no debate, como você avalia a implementação dessa nova legislação, a Lei 14.926?

Que impactos você observa nesse primeiro ano e quais gargalos ainda permanecem enquanto política educacional, deslocando temporalmente, né? De 2018, que é o ano da sua tese, para 2024, que é quando essa lei é implementada, sancionada. Então, a lei 14.986, né? Que alterou a LDB a partir de 2024 para incluir o feminicídio, a violência contra a mulher.

como temas transversais, olha a importância disso, como tema transversal nos currículos da educação básica, eu acho que toca em um ponto nevrágico que eu discuti na minha tese e em alguns artigos que eu venho trabalhando sobre isso também, que é a necessidade de políticas públicas que deem suporte e legitimidade ao agir das professoras e dos professores na escola.

em especial com um tema tão indisputa. Nós realizamos um livro agora recentemente justamente com esse título, Gênero em Disputa na Educação. Então, eu vejo que alguns pontos são importantes para a gente destacar.

nesse primeiro ano de implementação. Um que eu estou falando aqui, que é sobre a legitimidade, que eu acho que essa legislação acaba oferecendo uma blindagem institucional para as professoras e para os professores.

Como eu apontei na pesquisa, muitas docentes sofrem tensões e perseguições por tratarem de gênero, e muitas vezes sobre a pecha da ideologia de gênero. Então, ter uma lei federal que obriga o tratamento desses temas na escola, retira a ação do campo da escolha individual ou ideológica de determinado professor ou professora, e coloca no campo do dever legal, do direito humano. Então, isso fortalece o que eu chamei da ação otimista articulada.

porque, para mim, ela permite que os coletivos de professores e professoras planejem essas ações com respaldo jurídico, isso é fundamental. Então, acho que foi um acerto desse governo fazer essa mudança na LDB para trazer essa...

essa possibilidade de discussão. E também eu vejo o impacto na formação docente, eu acho que a lei por si só, ela acaba sendo uma letra morta, se não vier acompanhada de formação. Então, em minha investigação, fica evidente que cursos como Gênero e Diversidade na Escola, a gente chama de GDE,

foram um divisor de águas para os professores se sentirem mais seguros. Eu notei na minha pesquisa que os professores e as professores que realizaram esse curso na época estavam muito mais naquele grupo dos otimistas, articulistas, que eram os professores que mais realizavam ações. Então, é muito interessante isso, porque o curso realmente impacta na ação dos professores. E eu observo que, neste primeiro ano dessa...

dessa legislação agora atual, da 14.896, o impacto positivo ocorre entre as redes de ensino e entender que não basta mudar o texto no currículo, mas sim de oferecer espaços de autoformação e reflexão. Aí, sobre, eu diria, numa perspectiva de Bourdieu, sobre o hábito de gênero das próprias docentes, porque também nós, docentes, precisamos...

mudar algumas percepções que a gente tem sobre essa questão de gênero. E uma outra coisa que eu acho que é um gargalo e um desafio estrutural, eu acho que apesar do avanço legal, esses gargalos que eu mapeei no Espírito Santo continuam sendo barreiras para políticas educacionais.

como a precarização em relação ao tempo, por exemplo, o maior inimigo para mim dessa lei é a falta de tempo para planejamento coletivo. Sem horário de estudo remunerado, o tema acaba sendo restrito a ações isoladas, notadamente no mês de março, o que esvazia para mim o potencial transformador dessa lei.

E existe também ainda, enraizado nas escolas, um hábito de gênero. Então, a lei tenta romper isso por decreto, mas a mudança real vai exigir que a gente enfrente essa cultura patriarcal. Das nossas condutas mesmo na escola, dos próprios professores, da gestão, enfim, isso tudo precisa ser tensionado. E a intensificação do trabalho docente...

a sobrecarga de trabalho desses professores, impede muitas vezes que eles possam fazer esses debates no dia a dia da escola. Então, em resumo, a meu ver, a lei é uma ferramenta de luta valiosa para produzir esses vazamentos, que eu digo lá na minha tese, vazamentos lá no sistema conservador. Mas, no entanto, para que ela seja...

de fato, implementada e não seja apenas um rito burocrático, a gente precisa garantir que essas professoras tenham condições objetivas de trabalho, tempo, carreira, formação contínua, para transformar aquela ideia da lei, do dever ser, desse dever ser da lei, em uma prática de liberdade na sala de aula. Eu acho que seria isso.

Então, a implementação da lei, ela caminha junto com a valorização da carreira docente, né? E conformação que é um ponto que a gente tem batido muito, não só nesse episódio, mas com a Karuna, a Janaína, a gente conversou sobre isso também. E agora falando de experiências exitosas, atualmente você tem realizado, junto ao NUPES, o grupo que você coordena, e das escolas para rodas de conversa sobre gênero.

Fala para quem nos escuta sobre essas experiências, se a legislação tem embasado as oficinas ou a aderência às escolas, qual é o público-alvo dessas rodas de conversa e que mitologias e abordagens têm sido utilizadas por vocês e pelas suas companheiras e companheiras do grupo. Então, acho que com certeza essa é uma dimensão fundamental do nosso trabalho no NUPES, né?

Ele é um núcleo interinstitucional, então nós temos lá desde psicólogos, agentes de saúde, professores, professoras.

Enfim, diversas pessoas de diversos campos, isso é bastante interessante. E uma das nossas ações é essa de fazer formações junto aos professores, né? Diferente, assim, de uma lógica mais, eu diria, vou chamar de impositiva, né?

Mas nossas idas às escolas acontecem sempre a partir de uma demanda das próprias instituições. Então, a gente não chega com uma formação pronta e tal. Na verdade, a gente responde a um chamado. Às vezes, a gente, evidentemente, articula algumas idas em algumas escolas, com alguns professores conhecidos que nos demandam, mas no final a gente depende realmente de um convite.

E às vezes a gente faz formação e convida os professores para estarem, mas essa ir das escolas é normalmente para uma demanda, né? E as demandas estão sempre muito vinculadas ao que está aí na atenção.

E a nossa demanda maior até determinado tempo era muito para discutir essa coisa da ideologia de gênero nas escolas. Nos últimos anos, o tema que mais nos foi sugerido foi esse, e gerou rodas de conversa.

mais intensa. Então, isso não é por acaso, como eu discuti na minha pesquisa ofensiva conservadora em torno dessa temática, colocou a escola em estado de alerta, e muitas vezes até de paralisia, não podemos dizer que não, mas as escolas nos procuram.

porque esses conflitos vão aparecer lá no pátio, no uso do banheiro, no pátio, na educação física, por exemplo, nas atividades, nas práticas corporais, no uso do banheiro, no tratamento pelo nome social ou não, nos profissionais que se sentem lá desassistidos, ou muitas vezes até impedidos pelo debate por um pastor que está lá muito próximo à escola, por mães e pais que...

porventura recebem alguma atividade que foi feita na escola e tomam ciência disso em casa e vão lá na escola questionar. Então, a gente é muito impelido a ir à escola por isso. E agora, com a Lei 14.986, e também, acho que por um clamor social crescente que a gente tem visto...

nas mídias sobre feminicídios, nós estamos observando, eu diria, talvez até uma transição das pautas de discussão. A pauta que era muito ideologia de gênero, agora está indo para a pauta de violência contra a mulher. E esse começa a ser, eu acredito, o novo motor das nossas demandas, junto às escolas. E aqui entra uma questão...

para a gente pensar, será que a ausência, até uma hipótese que a gente tem levantado no grupo, no núcleo, será que a ausência de formações amplas e contínuas sobre gênero nas escolas não é um fator também que contribuiu para o aumento das violências que a gente tem visto? Porque a gente teve aí um represamento de debates.

uma discussão e até uma abertura para um ódio maior, para as pessoas se colocarem nas mídias sociais com ódio maior. Quando você tem um presidente que fala da possibilidade de estuprar alguém, quando você tem isso, você abre aí uma porta muito grande para poder você, de repente...

possibilitar o aumento desse ódio, o aumento do ódio e o aumento da violência. Então sempre que nós mulheres, e a gente vê isso como algo bastante interessante, porque sempre que nós mulheres avançamos na conquista de direitos e na ocupação de espaço de poder, o sistema patriarcal se articula com uma força reativa para impedir esse avanço. E a violência é, infelizmente, uma ferramenta que a gente chama de controle desse sistema.

seja violência física, psicológica. Tem um livro da autora Naomi Wolf, onde ela discute o mito da beleza como uma dessas violências, uma dessas forças reativas para impedir o debate. E se a escola não debate as raízes das hierarquias de gênero, ela acaba, obviamente, reproduzindo o silêncio que autoriza essa violência.

Então, acho que isso é algo bem marcante, eu acho, nesse momento. Em relação ao público-alvo que você me pergunta e as metodologias, o nosso público-alvo principal são professores e professoras, mas nós também dialogamos com as equipes de gestão. A SEDU, recentemente, a Secretaria de Educação, nos chamou para fazer um debate.

E esse debate gerou uma formação com professores e professoras da rede estadual, e a partir dessa formação, esses professores realizaram práticas nas escolas, e essas práticas foram, então...

escritas, foram produzidas escritas a partir dessas experiências, e isso gerou um livro que se chamou Escolas Plurais, o enfrentamento às violências.

contra mulheres. Então, esse é um livro que está, ele está disponível. Quem tiver interesse pode buscar na rede, na Secretaria de Educação, daqui do Espírito Santo. Ele traz metodologias, é bem interessante.

E a gente, além... Essa é uma das ações, né? Mas nas escolas a gente trabalha muito mais com rodas de conversa, com oficinas, com casos geradores, com abordagem mais dialógica e crítica do que palestras expositivas, né? A gente acredita muito nisso. E...

Essa nova legislação, eu acho que ela tem servido muito como um escudo e um convite nas nossas oficinas. Ela nos dá um embasamento jurídico para dizer, olha, gente, debater relações de gênero e violência contra a mulher não é uma escolha ideológica do nosso grupo de pesquisa, é uma determinação da lei, e acho que isso diminui muito a resistência de alguns setores mais conservadores.

para a gente poder ir até as escolas e discutir as desigualdades históricas de poder. Então, é um trabalho de formiguinha, de produzir esses vazamentos, que eu mencionei na minha tese, mas é o que mantém a escola como um espaço democrático e de proteção à vida das mulheres.

Eri Neuza, eu estou encantada com essa experiência que você acabou de narrar, para esse trabalho de formiguinha, pelas brechas. É um exemplo de formação que devia seguir em todos os estados do país. Realmente muito feliz de estar ouvindo isso e podendo compartilhar essa experiência. E aí falando em experiências, você também tem coordenado dois projetos de extensão, vinculados ao NUPED, o Cuidadores que Dançam.

voltado para cuidadores que dançam para familiares de pessoas com deficiência, em sua maioria mulheres, e o Ballroom Now Fest, com foco em pessoas transvestigêneres. Fala mais sobre esses dois projetos tão instigantes, confesso que eu estou bem curiosa por saber mais sobre eles, e pensando sempre o pilar da pesquisa, extensão e ensino, como essas ações podem contribuir nesse âmbito de formação docente e no diálogo entre o ensino superior e a educação básica.

Então, eu tenho muito amor por esses dois projetos, porque um vai diretamente atacar uma categoria que a gente tem trabalhado ainda muito pouco, que é a categoria do cuidado. O cuidado ainda é uma categoria...

que é atinente, ela é literalmente trabalhada por mulheres, ela é realizada, o cuidado é realizado ainda em todos os setores, sejam na saúde, seja na educação, a gente vê mulheres na família ou fora, na educação, a gente vê que são mulheres que realizam.

A mulher que leva o seu pai e a sua mãe ao médico, é a mulher que, em casa, acaba cuidando da sua família. E, no caso das mães, que a gente chama de pessoas de maternidade atípica, não necessariamente mulheres. A gente pode ter, por exemplo, um homem trans que resolveu gestar e que está nesse papel também. Mas, enfim.

No geral, são mulheres cis que estão conosco lá e que realizam esse trabalho.

que é um trabalho que, além do cuidado comum que as mulheres que não são mães atípicas realizam, elas realizam esse trabalho diuturnamente, porque uma criança ou um jovem adulto com deficiência são pessoas que exigem da gente muito, exigem muito da gente. Então, trabalhar com essas mulheres tem, primeiro, nos ensinado muito a olhar, mas também tem nos ajudado a perceber os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros são os livros

que o momento delas estarem ali, muitas vezes, é o único momento que elas têm para si, para o cuidado de si. Então, a gente trabalha muito com essa categoria também do cuidado de si. E é um projeto que a gente atende a partir de um tripé, que é, elas são recebidas no nosso projeto.

os filhos delas, simultaneamente, no momento que elas estão sendo atendidas por nós, os jovens e adultos ou crianças estão sendo atendidas por outro projeto, por outros dois projetos, um projeto que atende crianças e outro projeto que atende jovens e adultos. Então, se articula ali. E é um projeto que também articula ensino, pesquisa e extensão. Porque ali dentro nós temos estagiários,

de cursos de educação física e também de terapia ocupacional. Nós temos ali o pessoal do CAPSI, que é um pessoal da prefeitura, que também está lá conosco, levando pessoas que são atendidas por esse sistema. E nós temos também, simultaneamente, pesquisa sendo realizada nesse...

ao mesmo tempo que nós estamos ali atendendo essas mães, né, e esses jovens e adultos com deficiência. Então, é um projeto que eu diria que ele tem uma tecnologia inovadora, que é, ao mesmo tempo que a mãe está sendo atendida, num projeto, o jovem está sendo atendido ou a criança está sendo atendida. Normalmente,

Em outros espaços, as mães levam os filhos para serem atendidos e elas ficam lá fazendo crochê, conversando e tal, mas não tem nada pensado para elas especificamente. Então, eu digo que é uma tecnologia inovadora, uma tecnologia social inovadora.

O outro projeto é o Balrum na UFIS, esse eu fui demandada, porque eu trabalho no curso de educação física, e lá nós temos salas enormes para dança e tal, e uma pessoa, uma travesti, a Maria Muriel, ela veio até mim, ela é lá das ciências sociais, ela não é do curso de educação física, e ela veio até mim pedindo o espaço de uma sala.

porque haveria ali pessoas trans, pessoas não binárias e tal, travestis e trans e não binárias, que queriam usar o espaço para trabalhar a chamada cultura balum. Na época, vou te confessar, eu nem conheci o que era a cultura balum, apesar de também trabalhar com dança. Então, olha a nossa ignorância, a ignorância também do...

do lado acadêmico, né? E ela foi me apresentando, ela me pediu para eu iniciar reservando salas e eu comecei a acompanhar, né? Porque eu não podia reservar a sala e deixar eles lá sozinhas, eu tinha que ir lá acompanhar, porque essa é uma característica lá, uma exigência, né? Do nosso curso. E a partir daí eu fui acompanhando, fui acompanhando e aprendendo sobre, e seis meses depois nós abrimos, então, um projeto de extensão chamado Balrô na UFIS.

Estamos com esse projeto até hoje. Ele atende pessoas, como você disse, transvestigêneres, como a gente chama, e a cultura Baurum é realmente uma cultura que envolve pessoas.

não sei se vocês já ouviram falar, mas o Vogue, o Runway, a Desfile de Face, enfim, são várias categorias e elas disputam essas categorias. E aí a gente tem aulas dessas várias categorias do Bauhum e ao final do semestre a gente sempre faz um encontro de Bauhum.

onde elas realmente disputam, tem uma disputa por categoria e alguém vai levar o troféu ou uma medalha. Mas é muito interessante. Eu hoje diria que também esse é um projeto inovador.

porque traz as pessoas trans para dentro da universidade, porque a gente tem uma articulação direta com as casas de Balrum. Nós, no Espírito Santo, temos várias casas de Balrum, duas estão...

coordenando o projeto com a gente, que é a Casa de Bonequetes e a Casa Espírito Cante, o coletivo, na verdade, Espírito Cante. Aí tem várias outras casas que vão e que frequentam, mas as que estão na coordenação do projeto são essas. Essas pessoas passam a adentrar o espaço de uma universidade.

E os alunos, por exemplo, de educação física, os outros alunos que estão acostumados a ver determinados corpos na universidade, passam a ver outros corpos, é muito interessante, porque elas chegam lá com um estilo de vestimenta diferente, com um caminhar diferente, cabelos diferentes, formas, é realmente um corpo, que são corpos, elas falam, são corpos...

que começa a frequentar um lugar onde não se via isso antes. Então, é muito interessante.

Muito bom, muito bom, de verdade. Infelizmente, a gente tem que terminar a conversa, que está tão gostosa. E aí, para a gente finalizar, tem algum material que você queria indicar para quem nos ouve hoje, no sentido de continuar as reflexões da nossa conversa, para quem quer saber mais sobre os projetos do NUPED, para quem quer saber como, onde, pode acessar os livros que você mencionou, o gênero de disputa na educação e os colas plurais. E eu abro esse espaço também para você se despedir da gente, de quem nos ouve.

Que bom, é hora da gente fazer a propaganda também, né, Indiara? Então, primeiro eu gostaria de indicar o meu próprio livro, para quem quiser se aprofundar um pouquinho sobre o que eu discuti durante a minha tese de doutorado. O nome do livro é O Movimento Pedagógico de Gênero nas Escolas, o que e como fazem as professoras.

Ele foi publicado pela editora APRI. Vocês podem encontrar o livro, inclusive, nessa editora. Ele está à venda lá. Ele não está disponibilizado gratuitamente, mas agora vou indicar um que está disponibilizado gratuitamente.

Gênero em Disputa na Educação, a Falácia da Ideologia de Gênero. É um livro que eu organizei junto com a professora Helda Varenga e com a professora Lília Moreira. Ele foi publicado pela Brasil Publisha e ele está disponível no nosso Instagram. Tem lá o link na bio. Então, quem quiser pode acessar lá, o Instagram do Nupegis.

E também essa última publicação nossa, que é o Caderno Metodológico, Escolas Plurais, Prevenção às Violências contra as Mulheres. Essa é uma versão que está no site da Secretaria de Estado de Educação do Espírito Santo, do governo do Espírito Santo. É uma publicação que teve uma parceria entre a Secretaria e o NUPES.

e está disponível nesse site da Secretaria de Educação, SEDUES. E aí, para me despedir, gostaria de agradecer imensamente a vocês pelo convite, eu acho que esse é um espaço que a gente precisa garantir e divulgar bastante, porque vocês trazem temáticas sempre muito atuais, e assim, gostaria de agradecer imensamente.

Obrigada, viu? Erin Neuza, em nome de toda a equipe do Segundo das Feministas, eu te agradeço muito por estar aqui conversando com a gente hoje, pela sede, pela disponibilidade, compartilhar suas experiências riquíssimas, e toda essa experiência também dentro da política educacional, realmente te agradeço muito.

E, bom, esse foi o meu episódio do Segundo das Feministas, o podcast mais feminista da história. Aqui você fica conhecendo mais sobre a história das mulheres, as relações de gênero e a educação. Se você está no que está acompanhando no Spotify, eu te convido para deixar a sua avaliação do podcast na página principal do Segundo das Feministas. Isso contribui diretamente para que a divulgação científica e historiográfica que a gente faz aqui chegue a mais pessoas.

E também um convite a acessar o nosso catálogo dos 225 episódios, que a gente acabou de lançar agora no mês de abril, e que contém todo o acervo dos Segundas Feministas em algumas categorias, gênero e educação, violência de gênero, experiências LGBT, QIAPN+, trans, travestis, maternidades. Então, assim, está muito rico, está disponível no nosso Instagram dos Segundas.

Deixo aqui o convite para todo mundo acessar. E é isso. Seguimos na luta. Gostou do programa?

Esse foi mais um episódio do Segundas Feministas, projeto do grupo de trabalho Gênero Dampu Brasil. Compartilhe o Segundas Feministas nas suas redes e ajude na divulgação do conhecimento científico e historiográfico feminista. Juntas, juntos e juntes, somos mais fortes!

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