EP70 - Vocês são amigos? (Uma autocrítica)
Quem quer ser amigo de todo mundo talvez não seja amigo de ninguém.
No episódio de hoje, eu falo sobre lealdade, covardia, conveniência e sobre as amizades que realmente valem a pena.
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- A evolução do conceito de amizade com o envelhecimento e a rotinaConvivência na juventude·Rotina adulta·Disponibilidade afetiva
- A importância da autocrítica e da responsabilidade pessoal na construção de amizades leaisQuestionamento pessoal·Ser leal e disponível·Confiança nas relações
- A importância do confronto e da honestidade nas amizades verdadeirasAmigo que contraria·Coragem para discordar·Compromisso com a realidade
- As consequências de comprar brigas por amigos e a decepção com a falta de lealdadeComprar o B.O. dos amigos·Consequências de brigas·Retomada de relações
- O dinheiro como revelador da verdadeira postura e lealdade nas amizadesFlexibilidade de convicções·Oportunidades de ganho·Desgaste em defesa
- A covardia e a quebra de confiança nas relações de amizadeSilêncio e omissão·Apuntar pelas costas·Rever conversas e situações
Devaneios marsupiais! Eita, que viagem! De tempos em tempos, algumas relações fazem com que a gente se pergunte o que exatamente a gente tá chamando de amizade. E eu acho que esse é um tipo de pergunta que vai ficando um pouco mais interessante à medida que a gente vai envelhecendo, porque quando a gente é mais novo, a amizade ela parece muito ligada ali à convivência, né, ou a frequência em que aquele grupo se faz presente constantemente.
Mas daí, depois de adulto, isso vai mudando aos poucos, porque a rotina vai mudando, o trabalho começa a ocupar um pouco mais de espaço da nossa vida, as pessoas se casam, se mudam, enfim, elas entram em outras fases da vida. E aí a amizade deixa de ser dependente ali do estar junto, ela passa a depender muito mais daquilo que permanece quando a frequência diminui. E acho que isso é o mais importante com o passar do tempo. Hoje eu acho que eu tenho uma visão um pouquinho mais prática sobre amizade.
Eu não preciso falar com aquela pessoa todos os dias, não preciso estar perto dela para considerar ela minha amiga, assim como eu posso falar com uma pessoa todos os dias e sentar ao lado dela o dia inteiro, e isso não vai significar necessariamente que a gente tem uma amizade profunda ali. Para mim, o que pesa cada vez mais é uma espécie de disponibilidade afetiva, se eu posso chamar assim. E eu gosto desse conceito porque ele não exige que ninguém viva em função da outra pessoa, óbvio.
Isso é claro, tá? Todo mundo aqui é adulto, todo mundo tem sua própria vida, todo mundo trabalha, todo mundo tem problema, tem seus próprios relacionamentos, enfim. Só que existe uma diferença muito perceptível entre alguém que tá vivendo a própria vida e alguém que simplesmente nunca tem espaço para você na sua vida. Amizade, ela costuma ser muito lembrada quando a gente tem grandes momentos, né, em aniversários, nos casamentos, nas grandes conquistas, ou então naquelas crises um pouco mais óbvias.
Mas grande parte da amizade, ela acontece num território um pouco menos fotogênico, se a gente pode colocar nessa palavra. Ela acontece quando alguém percebe que você não tá bem e pergunta de novo, né, foi o que aconteceu? Não desiste naquele primeiro tô de boa. Que não era tão verdade assim, né? A verdadeira amizade, ela acontece quando a pessoa, ela aparece sem transformar aquilo ali num grande evento. Ela aparece para tomar um café com você, ela aparece para, sei lá, tomar uma cerveja, para conversar uma besteira.
E às vezes é esse tipo de presença que faz total diferença na relação. Ao mesmo tempo, eu também acho que a amizade, ela envolve um pouco de confronto. E isso aí pode até parecer um pouco contraditório com o que eu falei agora no primeiro momento, né? Né? Porque existe uma ideia até relativamente infantil de que amigo é aquele que apoia, que valida, né, que tá ali do teu lado em qualquer circunstância, porque daí vier. Só que com o tempo eu passei a valorizar um pouco mais aquele amigo que consegue me contrariar, né?
Eu prefiro muito mais que alguém me diga que eu tô errado do que alguém que me assista fazer uma merda enorme e, para preservar ali uma conversa confortável, fica de boa ou valida aquela minha atitude, né? Isso exige um pouco de intimidade, porque é muito mais fácil você concordar discordar. Você concorda? Discordar exige um gasto de energia absurdo, né? Discordar de alguém que você gosta, principalmente porque quando aquilo ali pode gerar um incômodo, você tem que ter, além de tudo, uma certa coragem, também muita confiança de que a relação suporta esse tipo de honestidade.
E eu acho que amizade boa, boa de verdade, ela aguenta um desconforto, tá? Eu já tive e ainda tenho amigos que conseguem olhar para mim e dizer que eu tô errado, que eu tô sendo um babaca, que eu tô sendo cabeça dura, enfim, ou então que eu tô simplesmente ter errado ali no meu posicionamento. Às vezes eu vou discordar na hora, talvez eu fique puto, talvez eu leve um tempo para processar aquela informação, mas eu sei que existe ali um cuidado naquela fala que me é direcionada naquele momento, né?
Isso para mim vale muito mais do que uma passada de mão na cabeça na hora errada lá, porque amizade também é uma relação em que você espera algum tipo de compromisso com a sua realidade, né? E não somente com seu ego, porque Se eu tiver fazendo uma escolha ruim, eu quero ter por perto pessoas que me respeitem o suficiente pra falar: olha, tá fazendo merda, né? Tá indo pro lado errado. E eu quero conseguir fazer a mesma coisa por elas.
Só que essa liberdade de desconforto dentro de uma amizade também cria uma espécie de linha que, quando ela é atravessada por alguém de fora, muda a coisa completamente de figura. Porque eu posso discordar completamente de um amigo, certo? Eu posso brigar, eu posso achar que ele tá errado. Mas quando alguém tenta deliberadamente prejudicar alguém que eu amo, eu tenho muita dificuldade de fingir que aquilo não tem relação comigo.
E isso é uma característica minha, talvez até um defeito em determinadas situações, mas eu sou um cara que eu compro o B.O. dos meus amigos, pô, não tem jeito. E eu não digo isso como se eu fosse, sei lá, um herói, né, como se isso aqui fosse uma virtude, porque comprar B.O. dos outros muitas vezes é só ali uma excelente maneira da gente arrumar um problema para a gente mesmo, né. Mas existe uma coisa dentro de mim que reage instintivamente quando alguém que eu considero próximo passa por uma injustiça ou por uma situação que seja muito pesada.
Não consigo me controlar, né? E comprar uma briga por alguém tem muita consequência, né? Você se indispõe com pessoas, você fecha algumas portas, você cria relações ruins que provavelmente originalmente nem deviam ser suas. Às vezes você entra numa situação já sabendo que podia simplesmente ficar de boa e seguir ali a sua vida, mas você escolhe não fazer isso porque aquela pessoa importa em algum nível para você. E é justamente por isso que uma das experiências mais desagradáveis dentro de uma amizade é perceber que você entrou numa batalha em defesa de alguém e algum tempo depois de descobre que aquela pessoa já voltou tranquilamente para o lugar de onde ela veio, entendeu?
Do lugar onde o problema nasceu. E aí você ficou com as consequências e ela tomou a relação, ela retomou ali aquela relação como se nada tivesse acontecido. Eu quero tomar cuidado aqui porque as pessoas têm todo o direito do mundo de perdoar, tá? As pessoas têm direito de reconstruir relações, elas têm o direito de rever seus posicionamentos, entender que elas exageraram em algum ponto, e até mesmo de concluir que elas não querem mais sustentar ali um conflito.
Eu não acho de fato que amizade dê a ninguém o direito de controlar com quem a pessoa pode ou não falar, pode ou não sair. O que me incomoda é totalmente outra coisa. O que me incomoda é quando alguém permite que os amigos se exponham por ela, comprem a ideia de que determinada situação foi grave, que aquela pessoa aceita receber apoio, aceita receber uma defesa, e deixe que outras pessoas assumam as consequências para depois, quando surge ali uma conveniência, simplesmente mudar de posição sem consideração nenhuma por quem ficou ali no meio da história, entendeu?
E aí vem uma parte que, porra, para amizade é foda. Porque dinheiro é uma coisa que particularmente, cara, é inacreditável. Dinheiro é um negócio eficiente demais para revelar esse tipo de situação, né? Não precisa nem ser muito dinheiro, sabe? Às vezes o que muda a postura de uma pessoa é uma diária de serviço, é uma oportunidade ínfima de um contrato, de um acesso, de uma vantagem mínima que pareça. E eu acho curioso observar como certas convicções elas ficam flexíveis quando entram a possibilidade de ganho.
Em determinado momento, a situação era grave, grave o suficiente para exigir uma solidariedade, um posicionamento, um afastamento. Depois aparece uma oportunidade profissional e tudo passa a ser tratado ali como se fosse perfeitamente separável, né? E talvez seja mesmo em alguns casos. Eu só acho importante que a pessoa tenha consciência de que enquanto ela reorganiza a relação dela de acordo com o que é conveniente naquele momento, alguém pode ter assumido um desgaste real em defesa dela durante todo esse tempo, né?
Esse tipo de experiência inevitavelmente muda a forma como você entende lealdade. Eu não penso lealdade como obediência cega, inclusive longe disso. Eu também não olho com a expectativa meio mafiosa de que todos os seus amigos precisam odiar automaticamente quem você odeia. Isso é até insustentável, né? E sinceramente é bastante infantil na estrutura geral. E o que eu valorizo de verdade é a coerência da situação. É você saber que uma pessoa ela não vai te incentivar a entrar numa guerra que ela própria não tá disposto a sustentar.
É saber que se alguém se posicionou ao seu lado no momento difícil, você vai levar isso em consideração depois. Existe uma diferença enorme entre mudar de ideia e agir como se ninguém tivesse pago preço nenhum por uma situação que envolveu você. Talvez seja por isso que eu tenha começado a prestar um pouco mais de atenção nas amizades que pulam na bala. E eu uso essa expressão com muito cuidado, porque eu não tô falando de pessoas que fazem qualquer coisa por você, Eu tô falando daquela sensação muito específica de saber quem vai permanecer quando alguma coisa ficar extremamente desconfortável.
Porque tem gente que é uma excelente companhia enquanto tá tudo funcionando, relação é leve, é divertida, é cheia de história, de quiquiqui, kkk. Só que a amizade ela também passa por momentos em que tá próximo custa alguma coisa. E é nessas horas que você começa a perceber quem realmente tem disposição para dividir um pouco desse peso. Isso também me faz pensar muito, muito de verdade sobre covardia dentro das relações. Às vezes a covardia ela tá no silêncio.
É alguém que concorda com você na sua frente e age de outra forma quando você sai. É alguém que sabe que você tá sendo prejudicado e prefere não se envolver porque não quer perder uma vantagem que pode vir a aparecer, né? É alguém que deixa você assumir uma posição por ela e depois se afasta quando percebe que aquela posição pode trazer algum tipo de custo. Quando você considera alguém próximo, você naturalmente baixa um pouco a sua guarda.
Então certas atitudes machucam justamente porque vem de onde você não esperava precisar se proteger, entendeu? A expressão ali, apunhalar pelas costas, ela é muito boa por causa disso, né? O problema não é só a facada, ela tá no fato de que você tá de costas, né? Você, sei lá, tem uma certa confiança de que naquela posição você não vai ser deliberadamente atacado, né? Você não fica de costas para alguém que você considera uma ameaça.
E eu acho que algumas decepções com amizade tem um peso enorme justamente por mexerem com essa confiança que é tão básica nesse início de relação, né? Você começa a rever conversas, situações, coisas que você contou, momentos em que você esteve disponível, e percebe que aquela relação talvez não significasse a mesma coisa para as duas pessoas, né? Isso é uma sensação que, na minha opinião, é bastante amarga dentro desse conceito.
Eu acho que a gente fala pouco sobre fim de amizade. Existe um repertório cultural inteiro para lidar com o término de namoro, né? Tem música, tem filme, tem livro, enfim, tem piada, tem um monte de coisa. Mas com amizade é um pouco mais estranho. Porque as amizades, elas acabam, sei lá, depois de 10, 15, 20 anos, e você simplesmente segue a vida sem saber exatamente onde colocar toda aquela vivência, né? Às vezes não existe uma grande briga, né?
Às vezes o que tem é só uma pequena sequência ali de coisas que mudam a percepção que você tinha sobre aquela pessoa. Eu não acho que uma amizade que termina necessariamente tenha sido falsa. Eu acho que existem relações que elas foram importantes durante um período E elas deixam de fazer sentido um tempo depois. E isso faz parte da vida, né? Faz parte do processo de amadurecimento. O que talvez seja mais difícil é quando o fim ele vem acompanhado da sensação de que você se enganou sobre alguém.
Porque aí o luto ele não é só pela relação, ela é também pela versão da história que você tinha construído. E aí isso aí pode fazer com que a gente fique mais desconfiado, com que a gente fique um pouco mais seletivo com as relações, talvez até um pouco mais duro com as pessoas que a gente conhece. Eu ainda acredito profundamente em amizade, eu acredito profundamente nas pessoas, e talvez seja justamente por isso que eu tive experiências tão ruins, e em contraste eu consigo enxergar melhor o valor das coisas boas, né?
Hoje eu tenho muita gratidão pelas pessoas que eu sei que estão comigo, e eu não preciso que sejam muitas, assim como não são, né? Acho que essa é outra coisa que mudou um pouco na minha cabeça. Durante muito tempo eu dei muito valor a conhecer todo mundo, né, a circular em todos os grupos, e isso pode ser uma característica ótima, em determinado período da vida. Problema começa quando a necessidade de ser querido por todo mundo impede que você, enfim, tenha qualquer posição um pouco mais firme, né?
Porque ser amigo de todo mundo, existe ali um grau de flexibilidade que em algum momento costuma custar algum tipo de coerência. E eu sinceramente, vamos botar aqui as cartas na mesa, vamos tirar o elefante branco da sala. Eu sinceramente acho que quem quer ser amigo de todo mundo na verdade não é amigo de ninguém, porque amizade envolve um tipo de escolha, né, um grau de comprometimento, um grau até de disposição para desagradar.
Você não precisa transformar a vida, óbvio, numa sucessão de lados e conflitos, né, mas existem momentos em que a neutralidade não é exatamente neutra. Em algumas situações, ficar tentando preservar a boa relação com absolutamente todo mundo significa simplesmente deixar alguém que você diz amar enfrentar sozinho uma coisa que você sabe que foi injusta. E eu tenho dificuldade, mas é uma dificuldade gigantesca de chamar isso de amizade.
Eu gosto de gente que tem uma certa previsibilidade moral, sabe? Não no sentido de saber exatamente o que alguém vai fazer em cada situação, mas de conhecer os valores que orientam as decisões daquela pessoa. Eu gosto de saber que existem coisas que não mudam facilmente porque apareceu uma oportunidade, ou porque mudou o grupo, ou porque alguém mais influente entrou na sala. Isso me dá segurança de verdade naquela amizade. E talvez seja isso que eu procure cada vez mais.
São relações que eu não preciso ficar calculando o tempo inteiro qual versão daquela pessoa vai aparecer dependendo de quem tá ali por perto, né? Também percebo um pouco que amizade tem muito menos relação com afinidade do que eu imaginava anteriormente. Claro, gostos em comum ajudam demais, né? Humor parecido, porra, bom demais você soltar uma piadinha e ser entendido, né? É, mas dá pra gente ter uma afinidade gigantesca e mesmo assim não confiar em alguém.
Vocês já perceberam isso, que tem gente que vocês não dá a menor confiança, mas que por algum motivo vocês gostam da mesma coisa, vocês estão ali no mesmo ambiente? Assim como tem pessoas que você discorda em gênero, número e grau da maioria das coisas que ela fala, mas que vocês conseguem se dar super bem, que vocês conseguem dialogar, porque de certa forma o que atrai vocês ali não é necessariamente afinidade dos gostos, mas é afinidade de caráter, afinidade moral que vocês têm.
E eu acho que isso sustenta muito mais uma relação do que necessariamente gostos em comum. No fim, talvez a amizade ela seja uma combinação de coisas que são bastante simples, mas que ficam muito difíceis de sustentar ao longo do tempo. Que vamos lá, como a gente já falou aqui algumas vezes, né, presença Honestidade, disponibilidade, lealdade, capacidade de conversar, capacidade de contrariar, capacidade de comemorar as vitórias e principalmente confiança, né?
Claro, isso aqui não é uma lista de requisitos para ficar aplicando às pessoas, mas são coisas que eu percebo que passaram a ter muito mais valor para mim quando eu decido iniciar uma amizade. E é aqui que esse episódio vira um autoquestionamento de verdade, porque é muito fácil eu passar aqui vários minutos falando com vocês sobre amigos que falharam comigo, né, sobre quem foi covarde, sobre quem sumiu, sobre quem me deixou comprar uma briga, quem voltou atrás por dinheiro, quem falou uma coisa na minha frente, fez outra pelas costas.
Só que se a reflexão termina aí, ela é confortável demais. E eu acho que eu também preciso olhar para mim e perguntar que tipo de amigo eu tenho sido, né. Eu tenho aparecido? Eu tenho dado espaço para as pessoas que eu amo na minha vida? Eu tenho conseguido ouvir quando elas vêm falar comigo? Eu tenho falado o que eu acho quando eu vejo que um amigo tá errado de verdade, mesmo sabendo que é mais fácil eu concordar, que exige menos energia?
Eu tenho defendido as pessoas quando elas não estão presentes? E principalmente, quando alguém deposita confiança em mim, eu tenho feito jus a essa confiança? Porque eu acho que amizade ela não pode ter só uma perspectiva sobre o comportamento dos outros, né? Ela também precisa ser uma responsabilidade pessoal. Eu quero ter amigos leais, então eu preciso ser leal nas essas atitudes. Eu quero que meus amigos sejam disponíveis, então eu preciso encontrar maneiras de estar disponível também para os meus amigos, né?
Se eu quero cobrar honestidade das pessoas, eu também preciso ter coragem de ser honesto com essas pessoas. E isso obviamente não significa que eu vou acertar 100% das vezes, né? Eu certamente não acerto 100% das vezes porque eu sumo, às vezes eu me envolvo demais com meu trabalho, e aí eu passo dias e dias e dias sem responder. Às vezes eu compro umas brigas que provavelmente era melhor eu ter deixado passar. E em algumas situações talvez eu nem perceba rápido o suficiente que alguém precisava de mim.
Mas existe uma coisa que eu tento preservar demais: se eu chamar alguém de amigo, eu quero que essa palavra tenha um peso verdadeiro. Eu quero que essa pessoa saiba que ela pode me procurar no momento em que ela precisar, esteja a semana boa, esteja a semana ruim, e que ela pode me ligar quando qualquer coisa tiver desmoronando na vida dela, que eu me posicionar do lado dela em alguma situação que seja complicada, que seja, enfim, é difícil, eu não vou mudar de lado só porque apareceu uma diária melhor do outro lado.
Talvez isso pareça uma visão até exigente demais, e tudo bem, e por mim pode ser, mas eu acho que confiança é uma coisa cara demais para ser tratada de forma banal, que é a forma em que eu vejo a maioria das relações hoje tratando, né? Tem uma música do Rancor que eu gosto muito. De vez em quando, quando acontece algum tipo de coisa assim, ela volta na minha cabeça e eu fico pensando que ele fala olho vivo e faro fino, né? Eu gosto muito dessa ideia porque amizade também exige uma perda da ingenuidade na hora de sentir afeto por alguém, né?
Porque você pode confiar, você pode amar seus amigos, você pode se entregar às relações de amizade, mas ainda assim você precisa observar o que que as pessoas fazem com tudo isso que você deposita na relação, principalmente quando surge um dinheiro, principalmente quando manter uma posição custa alguma coisa. Porque é muito fácil ser leal quando a lealdade não te cobra nada, né? Talvez seja nesses momentos que a relação realmente se revele com mais clareza.
Então eu acho que a pergunta desse episódio continua sendo muito simples: vocês são amigos de verdade? Você tem amigos, amigos de verdade, aqueles amigos que você considera? Eu não tô perguntando daquelas pessoas que você sai junto, que você tira foto, que enfim você conversa todo dia, que você frequenta os mesmos lugares, o mesmo evento duas vezes por ano. Não, tô perguntando se existe espaço entre você e aquela pessoa, né? Tô perguntando se existe confiança de verdade, se existe alguma disposição para permanecer perto quando as coisas ficam desconfortáveis.
E a pergunta mais difícil talvez venha logo depois: você está sendo amigo de quem você chama de amigo? Porque talvez a maturidade ela esteja um pouco menos em descobrir quantos amigos a gente tem e um pouco mais em entender quais relações realmente merecem ser chamadas assim, e também perceber que não precisa ser amigo de todo mundo. Talvez nem seja possível você ser amigo de todo mundo. E amigo de todo mundo não é amigo de ninguém, não vai estar do lado de ninguém quando o negócio apertar.
E eu prefiro ter pouquíssimas relações, mas que eu consiga realmente baixar a minha guarda quando eu tô com essas pessoas. É muito cansativo ficar de guarda alta. Quem luta sabe o quanto é difícil, quinto round, você manter essa guarda alta e você manter, né, se manter ativo ali. Enfim, gente que não vai negociar a minha confiança por conveniência. No fim, Conclusão que eu tiro aqui é que eu particularmente não quero ser amigo de todo mundo, não faço questão.
Eu quero ser amigo dos meus amigos e eu quero tentar fazer isso o mais direito possível, né? Bom, essa era a reflexão que eu tinha para hoje. Programa um pouquinho mais curto, espero que vocês tenham gostado. E deixa aqui nos comentários se vocês estão passando por alguma situação em que a amizade, enfim, foi posta à prova em algum momento. Fala aqui se você já teve alguma decepção com amizade. Quero ouvir você agora falando sobre esse assunto.
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