Episódios de Devaneios Marsupiais

EP69 - Barco de Teseu, Patati Patatá (E porque somos o que somos)

28 de agosto de 202633min
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Em algum momento da vida, todo mundo já usou um “eu sou assim mesmo” para encerrar uma conversa que talvez merecesse continuar.

No episódio novo do Devaneios Marsupiais, uma conversa que começa em filosofia e, por algum motivo, passa por Patati e Patatá, acaba chegando numa pergunta bem mais incômoda do que parece:

Qauanto do que você chama de personalidade é realmente você e quanto é só uma versão antiga sua que você nunca mais questionou?

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Assuntos6
  • A identidade de Patati e Patatá como metáfora para a filosofia do Barco de TeseuBarco de Teseu·Patati e Patatá·identidade
  • A frase 'eu sou assim mesmo' como desculpa para não mudar a personalidadeautoconhecimento·mudança de comportamento·responsabilidade
  • A identidade como um conjunto de características mutáveis e a seletividade da memóriamemória seletiva·versões do eu·nostalgia
  • A identidade como construção social e a importância de questionar comportamentos antigosambiente social·reprogramação de hábitos·autoconhecimento
  • A dificuldade de mudar e a transformação de dificuldades em características fixashábito·aprendizado·personalidade
  • A autenticidade e a necessidade de filtro na comunicação para o bem-estar coletivosinceridade·grosseria·empatia
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Devanei os marsupiais! Eita, que viagem! Eu acho que existe uma pergunta filosófica que a humanidade vem fazendo há séculos, e por algum motivo eu acho que eu consigo explicar perfeitamente usando dois palhaços brasileiros. A pergunta é: o que faz uma coisa ser ela mesma? E eu sei que essa frase ela parece o começo assim de uma discussão insuportável entre duas pessoas que acabaram de descobrir filosofia, mas pensa aqui comigo um pouquinho.

O que que faz O Patati ser o Patati e o que faz o Patatá ser o Patatá? É a roupa? É a maquiagem? É o cabelo? São as vozes? As músicas? Enfim, é a autorização que a gente tem que ter legalmente para usar o personagem? Será que é o sujeito que tá por baixo daquela maquiagem? Porque todo mundo sabe que existe um Patati e o Patatá oficial, e existe aquilo que aparece na festa do seu primo por 150 conto e o Uber e talvez até alimentação, né?

A gente olha e a gente sabe que é falso. Às vezes a gente sabe imediatamente, né? Você olha ali para o Patati e pensa: esse esse homem com certeza tá fazendo umbigo, não existe dúvida. Só que aí começa o problema: por que que ele é falso? Ele tá vestido igual, ou pelo menos ele tentou, né, se vestir igual. Ele tá com a maquiagem, ele tá com a peruca, ele conhece as músicas, provavelmente ele tá dançando ali alguma coreografia.

E provavelmente uma criança ali pelos seus 3, 4, 5 anos olhe para aquilo e não veja diferença nenhuma entre aquele Patati e o Patati de verdade. Para aquela criança é o Patati. Então quem é que tá certa? É aquela criança que acha que aquele realmente é o Patati, ou é a gente que sabe que ele é um Patati falso? E se eu pegar o intérprete oficial do personagem, tirar dele toda aquela maquiagem, todas aquelas roupas, colocar nele uma bermuda, uma camiseta, e encontrar esse sujeito comprando pão na padaria, ele continua sendo Patati?

E eu vou apontar dentro da padaria e vou dizer: meu Deus, aquele ali é o Patati! Muito provavelmente não, porque naquele momento eu não tô vendo Patati, eu tô vendo um homem comprando pão, e ele pode ser qualquer pessoa. Então aparentemente o Patati ele não é só o homem, só que ele também não é só a roupa, porque só se vestir igual o Patati não é o suficiente. Eu, por exemplo, se eu colocar aquela fantasia e eu sair na rua, ninguém vai achar que eu me transformei nele, vão achar só que eu preciso de ajuda, né?

Essa discussão completamente idiota é uma versão meio boba de um problema filosófico antigo, né, que a gente chama de barco de Teseu. Teseu, para quem não lembra ou para quem não sabe, é um sujeito da mitologia grega que matou o Minotauro. Ele entrou no labirinto, ele saiu de lá e aparentemente encontrou tempo para ter um barco famoso, né? E esse barco ele teria sido preservado durante muitos anos. E obviamente madeira envelhece, principalmente madeira dentro d'água.

Uma peça estragava e ela era substituída por outra, e depois outra, e depois outra, e depois outra. E isso foi acontecendo até chegar um ponto em que todas as peças de madeira do barco tinham sido substituídas. E aí alguém perguntou: esse ainda é o barco do Teseu? Porque ele nunca deixou de ser chamado de barco de Teseu, ele nunca deixou de existir, ele manteve ali a mesma função, manteve a mesma história. Mas tudo aquilo que era fisicamente composto do barco de Teseu tinha sido substituído.

E como aparentemente a pergunta não era irritante o suficiente, alguém acrescentou o seguinte: imagina que todas as peças antigas, né, todos os pedaços de madeira foram guardados, e aí alguém um tempo depois reconstruiu o barco usando exclusivamente as peças de madeiras que foram retiradas do barco original de Teseu. Agora você tem dois barcos: um que tem a continuidade da história, mas nenhuma peça original, e o outro que todas as peças originais, mas que foi construída agora e não tem nenhuma história.

Qual deles é o verdadeiro? E o motivo de eu gostar dessa história não é porque eu tenho interesse especial em barco ou gregos ou nada do tipo, é porque a gente vive fazendo a mesma pergunta sobre a gente mesmo sem perceber, né? A diferença é que quando a discussão é sobre um barco, todo mundo aceita que a resposta é complicada, mas quando a discussão é sobre a gente, né, sobre a nossa personalidade, de repente a pessoa tem certeza meio que inacreditável assim.

Eu sou assim, acabou, né? Eu sou desse jeito. Séculos de discussão que a gente tem sobre identidade e a gente encerra porque o Carlão decidiu que ele é grosso e ele não pretende rever essa atitude dele, né? Para ele, inclusive. Essa frase, eu sou assim, ela me interessa muito porque ela pode ser uma coisa extremamente saudável, mas ela também pode ser uma das maiores desculpas que a gente inventou para não mudar absolutamente nada na nossa personalidade.

Existe um eu sou assim que é o autoconhecimento, né? Eu sou mais reservado, eu gosto de ficar em casa, eu não gosto de festa, eu não quero ter filho, eu gosto de passar um tempo sozinho. E beleza, né, você tá ali colocando determinados limites. Problema começa quando essa frase ela deixa de descrever e ela passa a justificar. E sempre existe ali uma tranquilidade impressionante na maneira como a pessoa diz isso, né, como se ela tivesse comunicando à própria altura.

Eu tenho 1,83m, eu tenho olhos castanhos, eu tenho uma incapacidade absoluta de conversar como um adulto quando eu sou contrariado, né. É como se isso fosse completamente normal. E o mais curioso é que o eu sou assim mesmo, ele quase nunca aparece para nenhuma coisa boa. Ninguém fala. Aí, porque eu respeito muito as pessoas, sabe? Infelizmente eu sou assim. Essa frase, ela normalmente ela aparece quando alguém apontou algum problema em você, e em vez de você discutir o seu comportamento, você transforma aquele comportamento em identidade.

Porque se aquilo é algo que você faz, talvez você possa fazer diferente. Mas se aquilo é quem você é, a discussão meio que termina por ali, né? Não dá para mudar, não dá para mexer, talvez não dê nem para questionar. Tá resolvido, você é o que você é. E talvez seja justamente por isso que essa frase ela seja tão confortável. Quando eu digo eu sou assim, eu me um nível da responsabilidade que muito incomoda, né? É a responsabilidade de perguntar se eu gostaria de continuar sendo assim.

Porque quando a gente reconhece que uma coisa ela pode mudar, significa que a gente admite também em algum nível que eu poderia tentar, né? E tentar dá muito trabalho, meu, pelo amor de Deus. Tentar é um negócio que, sei lá, meu irmão, tentar significa que a gente tem que fazer diferente numa situação em que o meu automático sempre foi o suficiente, né? Significa que eu tenho que controlar minhas reações, que eu pensar antes de responder, que eu tenho que conversar, enquanto eu podia só dar as costas e ir embora.

Isso é muito mais difícil do que transformar as coisas em personalidade. Ah, eu sou ruim com dinheiro. Talvez seja verdade hoje, mas isso não significa que você nasceu com um gene específico que faz você parcelar as coisas em 12 vezes no cartão, com ou sem juros, né? É porque eu não sei falar em público. Beleza, mas não sei não significa que você é uma pessoa incapaz de aprender. São frases que são completamente diferentes na essência.

A gente pega muitas dificuldades e a gente repete durante uns anos e começa a tratar como se ela fosse se fixa na nossa cabeça, né? E quanto mais tempo a gente faz com que aquilo exista dentro da gente, mais legítimo parece quando a gente repete. Problema é que antiguidade ela não melhora comportamento. E eu falo antiguidade, né, para não chamar vocês de velhos absolutos, né? Tem coisa que você faz há 20 anos e continua sendo ruim, né?

Então não tem muito o que dizer. E aí que eu vou voltar para os nossos queridos Patati e Patatá, porque eu realmente acho que eles ajudam mais do que deveriam nessa discussão. Imagina aí um patati falso, certo? E eu não tô falando de qualquer patati falso, tô falando de um bom patati falso. Imagina aí que esse patati falso não é aquele sujeito que chegou atrasado, que esqueceu metade da maquiagem. Eu tô falando de um profissional dedicado, o cara que estudou o personagem, que ele sabe cantar as músicas, que eles conhecem os gestos, que eles sabem fazer a voz.

Enfim, o cara é impecável. Agora imagina, né, o intérprete oficial num dia horroroso da vida dele. Ele tá cansado, ele não tem vontade, ele pega e entrega uma apresentação ruim. Naquele momento, qual deles está sendo mais Patati? Eu não tô perguntando qual é oficialmente o personagem, porque isso envolve marca, envolve contrato. Enfim, eu tô perguntando sobre identidade. Se todas as características que fazem alguém reconhecer um Patati estão presentes no sujeito que não é o Patati, vamos botar isso entre aspas, Enquanto o homem é autorizado a fazer o Patati, tá fazendo aquilo de um jeito que mal lembra o personagem.

Aonde está o Patati nessa história? Eu acho que essa pergunta é interessante porque ela mostra que identidade ela não é uma coisa única. Não existe necessariamente um botão escondido em que alguém, sei lá, vai olhar e vai dizer, porra, verdadeiro Patati, né? É um conjunto de coisas que mistura ali, desde aparência até o contexto. Algumas coisas pesam muito mais do que outras, mas nenhuma delas parece ser suficiente sozinha. E aí a gente funciona de um jeito meio parecido, porque quando você diz que isso aqui sou eu, o que exatamente é você?

É aquele comportamento atual? São as suas memórias que você acumulou durante a vida? São os seus valores? É a história que você vem escrevendo? É aquilo que as pessoas conhecem de você? Porque no fim, todas as coisas elas mudam, né? Você pode continuar com o mesmo nome, com o mesmo CPF, mas você pode olhar para a pessoa que você era 10 anos atrás e sentir que tá vendo alguém completamente diferente de quem você é hoje. E eu acho engraçado quando a gente fala de verdadeira essência, né?

Como se existisse um Koala original guardado em algum lugar e todas as versões seguintes elas fossem aproximações que são melhores ou piores em algum aspecto do que ele. Qual dessas versões do Koala é a original? É o Koala de 10 anos que tinha plena consciência de que ia ser piloto de avião? É o Koala de 20 anos que, enfim, era publicitário? Que não queria nada com nada, era um cara da festa, era um cara da farra, ou é o Koala de 32 anos, casado, focado na profissão, focado no esporte?

Qual dessas versões representa o Koala de verdade? Será que todas elas estavam erradas? Será que todas elas estavam certas? E se colocasse eu com 15 anos e eu com 32 anos, um de frente para o outro, muito provavelmente Essas duas versões, elas não se dariam nada bem. Provavelmente elas inclusive iam sair na porrada absoluta, né? Elas não iam ter a menor paciência uma com a outra. Isso não significa que uma dessas duas versões é falsa.

As duas sou eu, definitivamente as duas sou eu. Porém, a pessoa que eu era, ela não deixa de ser verdadeira porque eu mudei. Ela simplesmente deixou de ser a versão atual. E esse talvez seja um ponto importante que a gente costuma ignorar durante a vida: mudar não apaga a versão anterior, certo? Não apaga. Quando alguém muda de opinião, por exemplo, Existe uma tendência muito forte de tratar isso como inconsistência, né? Internet adora fazer isso, porque a internet adora um print.

Você pode dizer qualquer coisa hoje e alguém aparece com uma postagem sua de 2013 dizendo: ah, engraçado, porque há 13 anos você pensava diferente. Sim, pô, graças a Deus, né? Que bom que há 13 anos eu pensava diferente, porque eu sinceramente espero ter mudado de opinião sobre muitas coisas em 13 anos, né? Ia ser muito estranho eu passar mais de uma década vivendo, conhecendo pessoas, estudando, errando, acertando, e conseguir sair desse período inteiro exatamente a mesma pessoa, com as mesmas certezas.

Pô, claro, né, vamos jogar limpo. Claro que existe oportunismo, existe gente que muda de discurso conforme é conveniente, né, no âmbito onde ela tá, no ciclo onde ela tá, e depois finge que nunca pensou do outro jeito. Tudo bem, existe. Mas também existe uma coisa chamada aprendizado. Existe descobrir que você tava errado, né. Existe entrar em contato com a realidade que talvez você nem conhecesse Existe perceber que uma opinião que parecia muito sólida, na verdade, ela não tinha base em nada, com porra nenhuma, né?

E uma das frases mais difíceis da vida adulta continua sendo: eu estava errado, né? Porque ela exige aceitar que uma versão anterior sua fez ou pensou alguma coisa que hoje você não defenderia. Só que defender eternamente um erro porque foi você que cometeu, na minha opinião, não é coerência, é simplesmente paixão, né? É apego, apego às próprias ideias, apego à própria moralidade, né? Eu acho que relacionamento é provavelmente o lugar onde essa discussão ela fica muito mais evidente, porque é onde as nossas características elas deixam de ser uma questão exclusivamente nossa.

É, você pega e diz assim: eu sou uma pessoa que some quando fico chateada. Beleza, tranquilo. Só que agora existe alguém do outro lado tentando entender se a relação acabou, se você morreu, ou se você simplesmente decidiu transformar o silêncio como a sua ferramenta de comunicação. Eu não acho que entrar num relacionamento significa autorizar ali uma reforma completa na sua personalidade, não, tá certo? Ninguém tem obrigação de virar outra pessoa para atender às expectativas do seu parceiro.

Por favor, não me entendam mal. Só que também existe uma distância enorme entre preservar quem você é e exigir qualquer comportamento seu como parte aceita, sagrada da sua identidade. Vamos deixar as coisas muito bem separadas nas suas caixinhas. Tá? E tem uma frase que resume bem isso, que é: quem gosta de mim tem que gostar de mim do jeito que eu sou. E eu concordo até a metade, talvez, da frase, porque você não deveria, né?

Deveria é ótimo, deveria é bem coisa de velho mesmo. Você não deveria precisar inventar uma personalidade para ser amado. Concordo, você não deve fingir que gosta de alguma coisa sem gostar, e nem ter uma opinião que você não tem só para estar perto de outra pessoa. Só que gostar de você como você é não significa gostar de tudo que você faz. Vamos aqui trabalhar essa diferença. Eu posso amar alguém, eu posso achar que determinada atitude dela é péssima, posso tranquilamente.

Eu posso admirar uma pessoa e ainda assim querer que ela peça desculpa quando ela tá errada. Eu posso aceitar várias características e recusar várias outras, e tudo bem, beleza, a gente tá aqui concordando com isso. Às vezes é justamente porque existe afeto que aquela pessoa vai lá e te fala sobre um problema que você tem, Quem não se importa é que normalmente não gasta energia tentando discutir os problemas. Só que quando alguém aponta alguma coisa e a resposta é, você me conheceu assim, isso vira meio que uma tentativa de usar o passado como um contrato de aceitação, como se conhecer um defeito no começo impedisse qualquer reclamação no futuro.

Ah, porque você sabia que eu era assim. Beleza, eu sabia, e eu também sabia que você tinha 20 anos. Agora você tem 30 e alguma coisa precisa ser mudada em relação a isso. Você não concorda comigo? Existe também uma coisa muito curiosa na forma como a gente transforma um comportamento em identidade depois de repetir aquilo por tempo suficiente, né? Você faz alguma coisa durante uns anos, como eu falei lá no comecinho, e aí as pessoas começam a esperar aquilo de você.

Em algum momento parece que sair desse papel seria falso, né? Seria você quebrar a sua identidade. O cara que sempre foi o engraçado sente que precisa fazer piada mesmo quando ele tá mal. A pessoa que sempre foi a forte começa a achar que pedir ajuda é uma quebra de personagem. E sempre resolveu tudo sozinho pode sentir vergonha de admitir, talvez, que não tá conseguindo resolver determinado tipo de problema. E aí a identidade deixa de ser uma descrição, né, da pessoa, e ela passa a ser uma obrigação.

Você não tá mais só simplesmente sendo alguma coisa, você tá mantendo uma expectativa que foi construída ao seu redor ao longo do tempo. E talvez uma das coisas mais difíceis de mudar seja justamente perceber que algumas pessoas se acostumaram com a versão específica sua e não necessariamente vão gostar quando ela desaparecer. Você mudou é uma frase estranha, né? Dependendo do tom, parece meio que uma acusação, né? Uma coisa meio acusatória e tal.

É, você mudou, é sim. E essa costuma ser uma das consequências da gente que continuar vivo, né? Mas nem sempre quem fala isso tá celebrando. Às vezes a pessoa ela tá dizendo que você não funciona mais para vida dela como funcionava antes. Você começou a dizer não e essa pessoa provavelmente achou ruim, né? Você passou a cuidar mais do seu próprio tempo e as pessoas podem encarar isso meio como egoísmo. Você parou de aceitar uma brincadeira que sempre te incomodou e agora você ficou uma pessoa chata, né?

Isso não significa automaticamente que você melhorou ou que você piorou, porque afinal de contas tem gente que muda para melhor e tem gente que muda para pior. A questão é outra: a mudança por si só, ela não é uma perda de identidade. Você não deve fidelidade eterna à maneira como você sempre foi, principalmente quando aquela maneira fazia mal para você. Isso também vale para coisas que a gente insiste em preservar porque elas tiveram alguma função no passado.

Teve gente que aprendeu a não confiar de ninguém e depois passa a vida dizendo, ah, é porque eu sou desconfiado. Talvez em algum momento isso tenha feito sentido para ela, né? Tem gente que aprendeu a não demonstrar fraqueza, a não pedir ajuda, a não depender dos outros, enfim. Isso aí pode até ter sido necessário em determinada fase da vida. Eu não acho que a gente precisa transformar todo hábito numa investigação interminável sobre a infância das pessoas, né?

Mas existe um valor meio que imensurável assim, você perceber que algumas coisas começaram como reação e só depois elas foram ganhando um status de personalidade. Entender por que que você é de determinada maneira pode ser importante, mas esse entendimento ele não exige que você continue exatamente igual. É por isso que eu tenho uma implicância enorme com a ideia de que autenticidade significa fazer tudo exatamente como seu impulso manda.

Tem gente que diz: eu sou muito sincero, com orgulho assim, que chega até a me preocupar de vez em quando. Porque normalmente essa sinceridade ela vem seguida, ou até mesmo acompanhadinha ali de mão dada, com a grosseria completamente desnecessária e geralmente ainda vem junto com a aspa: eu falo mesmo, se eu pudesse eu falava mais. Bacana. Por mim, você deveria falar um pouco menos, na verdade, né? Nem toda opinião ela precisa ser divulgada e nem toda a verdade precisa ser dita, principalmente do jeito que é dita, no momento que é dita e para pessoa que é dita.

Isso aí, meu amigo, não tem nada a ver com falsidade, certo? Tem nada a ver com ser falso. Ter filtro não significa que você é uma pessoa falsa. Às vezes significa só que você desenvolveu a capacidade sobre-humana, às vezes, de perceber que outras pessoas existem e que elas têm sentimentos também, né? A gente romantizou tanto ser você mesmo que a gente esqueceu até de perguntar se essa versão de você tá fazendo um trabalho minimamente aceitável para comunidade em que você tá inserida.

Se você tá se anulando para agradar todo mundo, você realmente pode ser importante, né? Pode ter ali uma importância melhor de ser mais você. Mas se ser você significa tratar todo mundo igualmente, merda, depois exigir compreensão porque esse é o seu jeito, talvez valha a pena ser um pouco menos você durante esse período de teste. Pense nisso. E aqui o Patati falso, ele volta a ser útil, porque ele também tá tentando ser algo que ele não é, mas isso não significa necessariamente que tudo ali seja falso, né?

Ele pode ter desenvolvido habilidades reais para interpretar aquele personagem que ele tá fingindo ser. Ele pode ser bom com crianças, né? Ele pode ter aprendido a cantar, ele pode ter dominado um repertório que muitas vezes ele talvez nem conhecia. A questão não é dizer que ele virou o verdadeiro Patati, A questão é perceber que uma identidade ela pode ser feita de várias características que são aprendidas, conquistadas ou incorporadas durante o tempo.

Isso é importante porque a gente trata muita coisa na nossa vida como se tivesse vindo pronto com a gente, né, como se tivesse nascido de fábrica. Ah, porque eu não sou disciplinado. Disciplina, galera, não é uma— não é como o seu tipo sanguíneo, né, que vem com você. Disciplina é hábito, é força, esforço, né. Ah, porque eu não sei conversar. Conversar é habilidade, É você ter um pouco mais de leitura, você ter um pouco mais de dinâmica, é você ter ritmo de fala.

Tudo isso é coisa trabalhada. Aí, porque eu sou horrível com dinheiro, talvez você seja horrível hoje, né, mas tem como você aprender a ser melhor. Eu, por exemplo, passei por isso recentemente, né. Eu tive minhas contas organizadas pela Celina porque eu sempre fui péssimo com gestão financeira. E claro, né, existem limites nessas mudanças. Eu não tô defendendo aqui aquela ideia insuportável de que qualquer pessoa pode virar qualquer coisa.

Né? Tô falando isso, eu sei que as pessoas têm suas limitações, né? Pessoas, elas têm temperamentos diferentes, né? Elas têm aptidões diferentes. Só que reconhecer limites não é a mesma coisa de declarar que você é imutável. Talvez o problema ele esteja na quantidade de certeza que a gente coloca nas afirmações que a gente faz sobre a gente mesmo, né? É aquele famoso eu nunca vou conseguir, ou isso não é para mim, enfim. E aí a vida vai passando e muitas vezes uma circunstância muda tudo isso muito, né, antes que você aprove ou desaprove aquela situação.

Você começa um trabalho que nunca imaginou, né, você passa a gostar de uma coisa que você tinha certeza e de uma coisa ou de alguém que você, né, jurava que odiava, vira amigo daquela pessoa. Muitas vezes você muda de cidade, às vezes sua rotina muda por causa disso, sua carreira muda depois de uma decisão acertada ou falha. Coisas que pareciam muito absolutas, elas vão ficando cada vez menos absolutas. E isso não significa também que você não se conhecia, né?

Significa só que autoconhecimento não tem nada a ver com previsão de futuro. Você pode saber muito bem quem você é hoje e ainda assim não saber quem você vai ser amanhã ou depois de amanhã, e enfim, depois de viver cada experiência que ainda não aconteceu, né, que você ainda tem para viver. Eu acho isso bem interessante quando a gente sente saudade de versões antigas da gente. Existe um tipo de nostalgia que não é exatamente saudade de uma época, mas é saudade da pessoa que você era naquela época.

Época. Você lembra de quando você era mais leve, quando você tinha uma autoconfiança melhor, sei lá, quando você era mais saudável, talvez. Só que memória é extremamente seletiva. Tem fase da vida que ganha uma reputação excelente depois que ela acaba, né? Na hora que você tava vivendo, você tava desesperado mesmo. Só que depois de 10 anos e depois de tanto problema maior, virou bons tempos, virou: ai, que saudade daquela época.

Você lembra das festas que você vivia com 17, 18 anos e esquece da ressaca moral, das merda que você fazia aí no meio da rua, né? Você lembra das pessoas e esquece, enfim, mais da metade dos conflitos se for uma pessoa que você gosta. E talvez tenha mesmo existido alguma coisa naquela versão antiga de você que você gostaria de recuperar, mas isso não exige que você volte a ser aquela pessoa por inteiro. Você pode gostar muito de uma característica passada sem precisar restaurar ali o pacote completo.

E aí talvez seja outra coisa que a gente pode puxar sobre o barco de Teseu para a gente pensar. Quando uma peça ela é substituída A peça antiga, ela existiu, ela fez parte da história daquele bar. Ela não precisa continuar lá para que a sua importância ela seja reconhecida. A gente às vezes trata qualquer abandono de uma característica antiga como se tivesse traindo a nossa própria trajetória, né? Aí, eu sempre fui assim. Beleza, mas talvez você não queira mais ser.

Aí, mas eu sempre quis isso. Tá bom, mas talvez você agora não queira mais. É porque eu passei 10 anos construindo a minha carreira e talvez você tenha descoberto que essa carreira que você construiu não é o que você gosta de fazer. Olha só que merda! Isso não transforma automaticamente as coisas em fúteis ou voláteis, enfim, não é isso. Você aprende a transformar as coisas, as coisas elas passam a ter novos significados conforme as suas experiências vão passando.

Existe uma tendência humana muito forte de continuar investindo numa coisa só porque a gente já investiu demais nela, né? Isso vale para tudo, inclusive para nossa identidade. E eu acho sinceramente que existe, na verdade, é um medo aí dentro, porque mudar também significa admitir que a sua versão anterior ela tava incompleta, ou talvez ela estivesse simplesmente errada. Talvez ela servia melhor para outra frase da sua vida. Outra frase é ótima, né?

Outra fase. Isso mexe com um negocinho aqui dentro de 3 letras chamado ego. É mais confortável a gente acreditar que sempre soube exatamente quem era do que a gente simplesmente assumir que permaneceu no erro. Só que talvez maturidade tenha menos a ver com fidelidade a uma versão e mais a ver com a sua capacidade de revisão das suas versões. Olha só que interessante, né? E quando eu digo revisão, eu não tô falando de você olhar para trás, você odiar quem você foi para reconhecer que você faria diferente hoje, tá?

Você não precisa se humilhar por ter errado em algum momento do seu passado. Coerência, ela pode ser manter os valores, né? Manter o seu a sua essência, por assim dizer. Imobilidade é manter um comportamento só porque ele é antigo. E aí, isso aí a gente vê demais na rua, né? Isso é muito triste, né, velho? Muito triste, de verdade. E aí, vamos voltar a falar sobre o falso Patati, porque existe aqui uma coisa engraçada na história.

Quem é, no final, que vai decidir quem é o Patati verdadeiro? Eu fiz essa pergunta lá em cima e eu faço questão de voltar agora para ela. No sentido oficial, Existe uma resposta que ela é mais ou menos fácil assim, ela é até relativamente objetiva. Mas se a gente for trazer para o sentido figurado, se a gente for trazer, por exemplo, comparativo que eu trouxe lá, que a criança olhando para o patati, é essa diferença entre o real e o falso, ela talvez não exista para ela.

E o reconhecimento acontece porque determinados sinais na visão dela estão presentes, né? Tem a roupa, tem a maquiagem, tem a voz, tem a música. Tem tudo ali que reforça a imagem do Patati. Então, para ela, naquele momento, é o Patati. Mas para nós adultos, né, pessoas que já temos um pouco mais de experiência, a gente começa a olhar para outras informações, como por exemplo origem, autorização, história do personagem. O que uma coisa é depende também de quem tá olhando para aquela coisa, né, e quais são os critérios que estão sendo usados naquele olhar.

E a nossa identidade, ela também é parcialmente construída pelos outros, tá? Não vamos ser hipócritas aqui e achar que o ambiente que a gente tá inserido não molda a gente de alguma maneira, porque molda sim, mas molda até a página 2, tá? Não é para você ser moldado completamente pelo ambiente que você tá inserido, pelo amor de Deus, porque aí é insuportável viver somente se baseando na opinião alheia, né? Vamos mantendo parcialmente.

Você é o engraçado do grupo. Você é o responsável da família, o difícil, confiável, enfim, você tem a sua característica ali dentro. As pessoas, elas começam a repetir essas descrições, e aí depois de algum tempo você mesmo começa a repetir essas descrições, né? Às vezes você nem sabe mais se aquilo nasceu de você ou se você só assumiu um papel que todo mundo passou a esperar de você dentro daquele grupo. Tem coisa que a gente faz porque a gente acredita que faz parte de quem a gente é, e aí quando a gente tenta parar, a gente sente um estranhamento, sentimento, né, uma sensação ruim, a gente começa a colocar um limite e a gente começa a achar que tá sendo egoísta nas nossas ações, né.

Às vezes a gente precisa realmente aprender, reprogramar, repetir para que aquele comportamento ele seja aí sim enraizado. Porque inconscientemente a gente fez isso com comportamento que é prejudicial de alguma forma para gente, né. Só que hoje, no momento atual, a gente não percebe mais isso. Então por isso parece algo que tá enraizado, que tá dentro da gente. E eu também acho importante dizer que nem toda mudança ela é necessária.

Existe ali o risco da gente ouvir uma conversa dessa e transformar a nossa personalidade no projeto interminável de melhoria, né? E isso também é um inferno, vamos combinar que isso também é um inferno. Você não precisa ficar analisando todas as suas características e corrigindo todos os defeitos, tentando otimizar ali cada comportamento que você tem, porque, cara, sinceramente, tu vai enlouquecer se tu for tentar fazer isso. É do ser humano, é da gente ter esse tipo de erro, e melhorando aos poucos, cara.

Precisa melhorar tudo ao mesmo tempo. Algumas coisas em você, elas são suas mesmo, elas enraizaram, e talvez esteja até tudo bem, entendeu? Algumas coisas, elas incomodam algumas pessoas específicas, e ainda assim, que se foda, tá ligado? Você pode continuar incomodando essas pessoas porque essas pessoas de certa forma não fazem diferença nenhuma na sua vida. Problema é quando algumas atitudes suas incomodam a você ou a pessoas próximas que você ama, e aí você se recusa a mudar.

Isso sim é um problema. Agora, atitudes suas que uma pessoa se incomoda porque é diferente do que ela, enfim, entende como algo aceitável, aí, meu irmão, aí você, cabe a você avaliar se vale a pena ou não fazer essa mudança, né? Você quer ou não trocar essa madeira do seu barco, né? Porque senão a gente vai viver em reforma, cara. Cara, tentando se adaptar ao olhar do outro. E eu vou te dizer um negócio: tem um grupo, por exemplo, de 5 amigos, tu for tentar se moldar para um, provavelmente vai ter uma peça do teu barco que vai estar podre para outra.

Então já não vai dar muito bom ali. Então tu vai ter que escolher uma pessoa para ser o teu amigo, e aí tu vai se moldar com base nele. E eu vou te dizer um negócio: vai durar bem pouquinho, porque a tua cabeça vai, ó, enlouquecer, surtar. Não consigo, não consigo simplesmente imaginar porque alguém ia querer fazer isso com ela mesmo. Você não sabe o que ainda vai acontecer na sua vida, você não sabe quem você vai conhecer, as coisas que você vai perder, enfim, os ensinamentos que você vai ter durante a vida.

Declarar que a sua personalidade foi encerrada naquele momento parece precipitado, e parece precipitado em qualquer fase da vida. Tenha você 20, tenha você 92 anos, para mim é precipitado demais você dizer que as portas da sua personalidade fecharam e a partir dali você não muda mais. Talvez por isso eu gosto mais da frase eu tenho sido assim. Ela muda pouca coisa semanticamente, mas ela muda o suficiente, porque eu eu tenho sido uma pessoa mais fechada, ou eu tenho reagido mal a isso, ou eu tenho dificuldade de conversar.

Você reconhece que há um padrão, né, no seu comportamento, mas você não transforma o seu padrão num destino traçado, né? Você não passa ali a régua e diz: meu patrão, a continha tá fechada, é isso aí que eu sou. Não, existe espaço. Você pode continuar igual, você pode mudar tudo. Completamente, ou você pode mudar só um pouquinho, né, só o suficiente. E aí essa é a resposta que eu acho mais honesta para pergunta: quem sou eu? Eu sou a pessoa que ela existe agora, depois de todas as minhas versões anteriores e antes de todas as próximas versões que estão por vir.

Não é uma definição muito bonita para colocar numa bio, mas ela talvez seja uma definição muito verdadeira, né. No fim, eu não sei né, qual é o verdadeiro barco de Teseu. Se você tava esperando uma resposta, me desculpa te frustrar. E eu também não sei exatamente em que ponto o Patati e o Patatá falso deixam de ser apenas sujeitos fantasiados e se tornam, pelo menos para uma criança, o Patati e Patatá daquela tarde. Mas eu gosto de pensar que o fato da resposta ser difícil já ensina para a gente alguma coisinha, né?

Se identidade fosse realmente uma coisa tão simples, a gente ia conseguir apontar pegar, né, para uma peça, para uma característica, né, e dizer é isso. Porque a gente não consegue nem com barco, nem com patati e patatá, e muito menos com a nossa personalidade. E talvez isso devesse deixar a gente um pouco menos confortável em usar o termo eu sou assim como se fosse um argumento definitivo, sabe? Porque você pode ter sido assim durante muito tempo, por muitos motivos excelentes até para ser, mas Ainda assim, você pode perguntar se você quer continuar, né?

E você pode decidir que sim, nem toda, nem toda, e você pode decidir que sim, nem toda reflexão ela precisa terminar com mudança, mas pelo menos houve ali uma escolha. O problema é quando a gente não escolhe porque a gente acha que essa questão ela já nasceu resolvida. Então, na próxima vez que você falar eu sou assim mesmo, talvez valha você fazer uma pergunta simples depois disso: desde quando? Talvez vale a pena até você fazer outra: até quando eu vou ser assim?

Não porque, novamente, não porque você precise mudar, mas porque talvez algumas coisas que você chama de identidade sejam só comportamentos muito antigos que você vem repetindo. Talvez algumas certezas estejam funcionando ali só pelo hábito, pela repetição. Talvez existam ali algumas versões suas que já não fazem mais tanto sentido para quem você é hoje, mas elas continuam ali porque ninguém percebeu que elas podem sair pela porta dos fundos.

E se depois de tudo isso você continuar achando que existe uma essência fixa, imutável, impossível de substituir, beleza, meu chapa. Só me explica uma coisa: se eu tenho a roupa, a maquiagem, o cabelo, a música, a voz, o cenário, e eu consigo convencer 20 crianças de que eu sou o Patati, o que que tá faltando? Galera, essa foi a reflexão que eu tinha para trazer hoje. Eu sei que é uma loucura, né? Barco de Teseu é Patati Patatá, e quem sou eu?

Mas no fim Enfim, eu acho que essa é a essência do podcast, né? É um devaneio mesmo. Acho que essa foi o meu devaneio da semana, falar um pouco sobre o barco de Teseu, sobre a nossa identidade, o quanto ela é mutável e variável durante a vida. É isso. Se você gostou, não esquece de deixar o seu like, deixe seu comentário, fala um pouco aí qual é o seu barco de Teseu, né? Que tipo de atitudes ou que parte da sua personalidade você teve que deixar para que peça você teve que substituir para continuar, né, a sua jornada, né, que peça podre saiu para que uma nova pudesse entrar.

Conta aí nos comentários se você tiver confortável. Se não tiver, devaneusmarsupiais@gmail.com, você pode ir lá escrever sua história, mandar o seu comentário por lá também, mandar o seu relato. E esse email também é a nossa chave Pix, se você quiser ajudar com qualquer valor. Se você quiser receber recompensas pela sua ajuda, apoia.se/devaneusmarsupiais. Lá você vai conseguir ter, enfim, uma série de recompensas. Confesso que o Apoia.se tá um tempo sem ser atualizado, vou dar uma atualizadinha lá, vou colocar uns conteúdos.

E prometi, vou cumprir em algum momento, que é, teremos um especial aí só para assinantes, né, só para pessoas que apoiam lá a gente no Apoia.se. A gente vai ter um episódio com as perguntas, né, com os pedidos de ajuda dos proibidões, né, do devaneiosmarsupiais@gmail.com. Só as histórias mais calientes vão estar por lá e só quem é assinante vai poder ouvir. Fechou, pessoal? Muito obrigado pela audiência mais uma vez. Se você chegou até aqui, minha gratidão. É isso, a gente se vê daqui a 15 dias. Até mais!