Episódios de Devaneios Marsupiais

EP62 - Filhos - Ter ou não ter? (Eis a questão). Part. @psijessicarosa

07 de maio de 20261h5min
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Ter filhos deixou de ser um passo automático da vida adulta e virou uma escolha cada vez mais questionada.

No novo episódio do Devaneios Marsupiais, conversamos sobre os motivos que fazem tanta gente não querer mais ter filhos. Ansiedade, pressão social, custo de vida, medo do futuro, sobrecarga emocional e a dificuldade de equilibrar trabalho, saúde mental e parentalidade.

Pra esse papo, recebemos a psicóloga @psijessicarosa, doutora pela PUC-Rio, especialista em parentalidade, neuropsicologia e terapia analítico comportamental, responsável pelo projeto Trilhas Parentais, além de mãe do Gael e do Rafael.

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Participantes neste episódio1
J

Jéssica Rosa

ConvidadoPsicóloga
Assuntos5
  • Fatores que influenciam a decisão de ter filhosPressão social para ter filhos · Custo de vida e parentalidade · Saúde mental e parentalidade · Liberdade de escolha e autonomia · Comparativo entre gerações · Impacto da tecnologia e redes sociais · Romantização da maternidade · Individualidade e parentalidade · Congelamento de óvulos
  • Preparação para ter filhosDefinição de metas de vida · Separação de desejos próprios e expectativas sociais · Planejamento financeiro · Consciência sobre concessões necessárias · Preparação psicológica e de casal · Discussão de valores e regras familiares
  • Formação e herança familiarNuclearização da família · Rede de apoio familiar vs. rede paga · Família monoparental · Participação paterna ativa · Família escolhida vs. família de sangue
  • Projeto Trilhas ParentaisOrientação parental · Psicoeducação para pais · Plataforma de videoaulas · Temas abordados: bullying, desfraude, limites
  • Impacto da maternidade na visão da psicólogaEmpatia com os pais · Necessidade de estudo contínuo sobre parentalidade · Desafios práticos da parentalidade · Reforço da crença na teoria através da prática
Transcrição180 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Devanei os massupiais! Eita, que viagem. Salve, salve, rapaziada. Sejam bem-vindos a mais um Devanei os Massupiais depois dessas duas semaninhas de férias pós-BBB, né? A gente precisou dar uma diminuída na frequência porque o negócio estava sério. Dessa semana, a gente vai falar sobre um papo que já está ali no meu espectro social há um tempo, mas que eu nunca tinha trazido efetivamente aqui para o programa e eu acho que essa é a hora certa.

Eu quero trazer pra vocês uma percepção que eu tenho sobre o nosso tempo, sabe? Pela primeira vez, parece que ter filhos deixou de ser um próximo passo automático que as pessoas tomam na vida e passou a ser realmente uma escolha. E uma escolha que muita gente simplesmente decidiu que não quer fazer.

Se você perguntar para os nossos pais ou avós, a lógica era outra. Era crescer, trabalhar, casar, ter filhos. Meio que um roteirinho padrão da vida adulta. Nada era muito discutido. A gente basicamente seguia essa cartilha da vida adulta. Mas e agora? Agora a gente tem uma geração inteira olhando para isso e pensando. Será que eu quero mesmo ter filho? Será que eu dou conta de ter filho? Ou até mais, será que faz sentido colocar uma criança nesse mundo do jeito que o mundo está hoje?

Essa resposta eu concordo com vocês que não é tão simples, até porque essas perguntas todas passam na minha cabeça também. Porque, por um lado, a gente nunca teve tanto acesso à informação, a gente nunca teve tanta liberdade de escolha e autonomia, até sobre o nosso próprio corpo, sobre o nosso próprio futuro.

Mas por outro lado, a gente nunca teve tão cansado, a gente nunca teve tão pressionado, a gente nunca teve tão inseguro financeiramente e muitas vezes até mesmo emocionalmente sobrecarregado. Para ter filho hoje, não basta só ter amor, não basta só gostar da paternidade. Você precisa de tempo, você precisa de dinheiro e principalmente você precisa de muita saúde mental. E aí entra um ponto bem interessante.

Será que essa queda no interesse, entre algumas aspas, é realmente uma perda? Ou é a primeira vez em que as pessoas estão podendo escolher o seu futuro de verdade? E mais, o que isso diz sobre a nossa sociedade hoje? O que isso diz sobre a nossa relação com as outras pessoas? E principalmente, o que isso pode dizer sobre o nosso futuro como sociedade?

Para mergulhar nisso com um pouco mais de profundidade, a gente trouxe uma convidada que vive esse tema todos os dias. A Jéssica tem 12 anos de atuação na psicologia, é doutora pela PUC do Rio, ela tem foco em parentalidade e desenvolvimento infantil, além de ser especialista em terapia analítica, comportamental e neuropsicologia. Então o currículo dela...

É gabaritadíssimo pra gente ter esse papo. Então ela vai trazer essa bagagem técnica e também vai trazer a sua experiência vivendo a maternidade na prática. Ela é mãe do Gael e do Rafael. Então, sem mais delongas, seja muito bem-vinda, Jéssica. Muito obrigada pelo convite, que alegria estar aqui falando de um tema que eu sou completamente apaixonada, né? Falando sobre parentalidade, sobre criação de filhos.

E reconheço a importância dessa temática. Acho que você contextualizou muito bem. Hoje o desafio que é criar filho sempre foi, mas hoje está sendo um desafio muito particular. Então eu estou muito feliz de estar aqui participando. Que bom, que bom mesmo. Massa, massa demais. E assim, eu não falei na nossa apresentação aqui, mas você também tem um projeto chamado Trilhas Parentais, né? Fala um pouquinho sobre ele pra gente.

Isso, o Trilhas Parentais surgiu porque como eu atendo crianças e adolescentes no consultório, eu realizo muito a orientação parental, não tem como a gente atender esse público sem ter esses momentos com os pais, de psicoeducação, de traçar estratégias, de sensibilizar para algumas questões, porque os pais acabam influenciando diretamente no comportamento dos filhos, sejam os comportamentos adequados ou os inadequados.

E aí, a partir dessas orientações, daquilo que os pais me traziam, e das minhas pesquisas também, né? Porque desde a faculdade eu pesquisei sobre parentalidade, desde a graduação. E no mestrado e no doutorado eu só fui aprofundando essa temática.

Então, a partir disso, eu percebi a necessidade que os pais tinham de um direcionamento mais objetivo, mas que munisse eles de teoria, porque a gente recebe muitas informações, às vezes informações contraditórias, a gente fica sem saber o que fazer, porque vem um especialista e diz uma coisa, vem outro especialista e diz outra coisa. Meu Deus, como é que eu crio o meu filho?

E aí eu me juntei com a minha sócia, que é também uma psicóloga infantil juvenil, chamada Sara Bastos, e a gente resolveu criar o Treino das Parentais, que é uma plataforma que tem videoaulas ali de vários temas que se referem à parentalidade, como palmada, como bullying, como manejar essa questão do bullying, dos pequenininhos até os adolescentes. Então tem temas que contemplam o desfraude.

Né, meu filho com dois anos, como é que eu disfraudo? Se você for entrar nesse universo, eu sugiro que você assista essa aula. Muito louco. Até, assim, como dar notícias difíceis pros meus filhos. Como colocar limites, né? Como estabelecer regras em casa. Então, é uma plataforma bem completa pra ajudar os pais mesmo com a informação de verdade. Científica.

informação pesquisada, que realmente não é fonte da minha cabeça ali, né? A fonte de voz da minha cabeça, mas realmente teoria, para auxiliar os pais nessa caminhada tão árdua e desafiadora. Perfeito, perfeito. Então, beleza, para a gente começar a entrar aqui no nosso tema, eu quero te trazer um contexto dessa minha escolha de tema aqui para o episódio, né?

Eu analiso a minha fase de vida agora como a fase das grandes escolhas, porque se a gente for ver desde a nossa infância, a gente passa por ciclos. A gente tem aquele período da vida onde a gente tem os aniversários de 15 anos. É o primeiro marco, aí depois tem os aniversários de 18 anos. Aí é beber, é experimentar, enfim, ir para as festas.

E aí a gente vai crescendo, a gente vê o momento em que essas festinhas, essas coisas vão perdendo gás, aí entra a fase do barzinho, entra a fase, enfim, até o momento em que chega a fase dos casamentos, né? E essa é a fase que eu tô vivendo hoje, eu sou recém-casado, me casaram em setembro do ano passado, e aí junto com o casamento vem o pensamento sobre constituição de família, né?

E aí os meus amigos, né? Minha bolha social ali, ela tá mais ou menos nessa mesma fase. Muitos amigos casando, muitos amigos iniciando esse processo da vida a dois. E aí em conversa com a maioria desses amigos, o que eu percebo é que, pelo menos dentro da minha bolha, a maioria desses amigos não querem ter filhos, né?

E eu vou meio que na contramão disso. Eu tenho a vontade de ter filhos, não agora, mas eu também não quero ser aquele pai-avô, né? Aquele pai que é muito mais velho. Sim. Mas a minha esposa, por exemplo, ela já tem um pouco mais de dúvida se ela quer ou não quer ter filhos. Ela vive um momento profissional muito bom, né? Ela está em ascensão de carreira. Então ela tem medo que isso possa atrapalhar de alguma forma. Mas eu queria saber de ti, assim, se existe de fato...

hoje na nossa sociedade, uma queda no desejo de ter filhos, ou se isso é mais uma percepção de bulha? Tem, tem uma queda sim. Inclusive a taxa de natalidade tem diminuído se a gente pega dentro da perspectiva de crescimento populacional. Obviamente hoje a gente tem uma população muito grande, né?

Mas quando a gente compara percentualmente com outros períodos do desenvolvimento da população, a gente tem uma taxa de natalidade substancial. E eu associo muito isso, esse aumento dessa...

Do desejo de não ter filhos, né? Eu associo muito a essa questão do próprio conhecimento. Hoje a gente consegue fazer escolhas mais conscientes, né? E a gente tem uma liberdade de escolha muito maior. Antigamente era esperada a pressão para ter filhos, era uma coisa muito esperada e muito cobrada culturalmente.

Hoje ainda é. Então você é um recém-casado, né? Você vai fazer um ano de casado ainda. E eu tenho certeza que você já escuta perguntas do tipo, quando é que vem o primeiro? Com certeza. Né? Porque existe essa cobrança social, sim. Só que hoje a gente consegue fazer essa escolha com muito mais clareza, com muito mais consciência. Então eu tenho amigos hoje que...

falam de uma maneira muito explícita, abertamente, eu não quero ter filhos. Eu gosto de criança, eu gosto de interagir com crianças, mas eu entendo a responsabilidade que implica ter filho, a demanda financeira, as mudanças na vida, porque é uma decisão.

muito grande, que vai te impactar de muitas maneiras, e as pessoas têm mais consciência disso e fazem essa escolha de uma forma muito mais clara. Então, sim, tem aumentado, sim, ao mesmo tempo que a gente também vai vendo um movimento contrário, assim, na...

naqueles que têm desejo de ter filho, de também ter mais consciência sobre o que significa ter filhos. Então, eles falam assim, eu sei o que isso vai me implicar. Então, além de a gente ter um grupo, uma bolha ali que não quer ter filhos, a gente tem uma outra bolha que quer ter filhos, porém não agora. E aí, tomam essa decisão com mais maturidade, com mais responsabilidade. Então, as pessoas estão tendo filhos mais velhas.

É óbvio que isso tem outras implicações, né? Mas essa escolha, eu acho que está sendo até uma decisão mais importante, porque as pessoas estão esperando ter uma organização financeira mais bem estabelecida, uma organização de vida mais bem estabelecida, e uma noção da responsabilidade desse desejo. Aí, em decorrência disso, a gente está tendo famílias com um único filho, né? Porque chega ali num momento que não dá para ter mais do que um.

Por conta do envelhecimento mesmo dos pais, mas eu acho que escolher ter ou não ter está sendo bem mais consciente do que as gerações atrás.

Perfeito. Inclusive, você falou sobre essa pressão social, e eu acho que hoje a gente vê muito ainda, principalmente na nossa geração, né? A gente tá aqui numa geração antes da geração Z, né? Nós somos os millennials aqui, e os nossos pais ainda têm um pouco da mentalidade dos nossos avós.

Então, os nossos avós tinham, sei lá, 16, 17, 20 filhos. Os nossos pais tinham 4 filhos, 3 filhos. E nós costumamos ter um ou nenhum, né? Então, ainda há na cabeça dos nossos pais um pouco dessa visão de caramba, mas você já tem 30 anos, você ainda não tem um filho.

Que curioso, né? Enfim, que diferente. Que diferente, é. Mas isso acaba que gera uma certa ansiedade, né, gente? Será que eu tô atrasado em relação ao meu pai? Porque, não sei, meu pai com 30 anos já tinha uma casa, já tinha um carro próprio, já tinha dois filhos, um emprego bom e eu tenho 30 anos, eu tenho uma coleção de quadrinhos, né? Eu tenho um cachorro.

E é isso, eu moro de aluguel, sei lá, e aí a gente tem esse momento de comparação. Eu queria saber de ti como que a ansiedade em relação à comparação parental, ela pode influenciar no desejo de ter ou não ter filhos hoje.

De muitas maneiras e de uma maneira muito direta também, né? Porque nós somos cobrados aí, só pra você ter uma ideia. Eu tenho dois filhos, né? Você pode dizer, nossa, suficiente, né? Dois filhos, pronto, não existe mais cobrança. Não, pelo contrário. Eu escuto hoje ainda, tu não vai tentar o terceiro, não? Vai ver se vier uma menina, aí eu até brinco. Se vier outro menino, o que eu faço? Eu devolvo.

a justificativa é essa mas tu tem que tentar um menino depois se vier outro menino eu faço o que com ele aí eu tento quarto pra ver se vem um menino quinto, sexto então atinge sim diretamente, mas eu acho que hoje a gente está tendo tão mais

noção de nós mesmos, até para conseguir ter um diálogo mais franco, de dizer assim, não quero, ou só quero um, ou vou ter depois que eu conseguir comprar a minha casa. Porque realmente a geração dos nossos pais, principalmente a geração dos nossos avós, eu não vou dizer que era mais fácil, mas economicamente a relação era diferente. O que tem seus...

seus prós e contras, né? A gente ia entrar numa discussão bem mais aprofundada, mas antigamente, até essa percepção de escolha profissional era diferente, era uma coisa meio, meu pai, sei lá, meu pai é dono de uma farmácia, a minha vida vai ser patã nessa farmácia.

Não interessa se eu pensei em algum momento e segui uma outra carreira profissional. Hoje, não. Hoje, a gente faz essa escolha de uma outra maneira. A gente tem essa perspectiva de futuro, do que eu quero fazer. Eu não quero mais ser como o meu pai, que trabalhava tantas horas por dia, vivia em função daquele trabalho dele. Era só aquilo. Hoje, a gente pensa de uma maneira mais discutiva. Hoje, a gente está aqui, por exemplo, num podcast da minha casa, você dá a sua trocando isso. Era algo que não existia no tempo dele. Então...

Essa própria mudança cultural, tecnológica, profissional, dessa nova construção do mercado de trabalho, também, querendo ou não, influencia na maneira como a gente pensa a construção do nosso futuro e a nossa constituição familiar.

Então hoje a gente se depara não só com pessoas da nossa geração ou de uma geração um pouco abaixo da gente, um pouco mais novos, falando, discutindo se querem ou não ter filhos, mas também discutindo como é que querem constituir essa família. Então hoje as pessoas têm mais liberdade de dizer se eu não quero morar junto, é cada um na sua casa. Ou falando de outras formas de se relacionar. Porque hoje a gente consegue ter mais liberdade nesse pensar.

E isso vai influenciar. Mas é óbvio que esse conflito intergeracional, esse conflito da geração anterior dos nossos pais em relação a gente, vai influenciar, obviamente. E isso pode ser até algo extremamente perigoso. Porque eu me deparo com pessoas que falam que querem ter filhos, mas querem ter filhos mais pela cobrança social.

do que por ser um desejo seu. Então, acaba sendo até tópico de terapia, assim. Da pessoa dizer, quando eu paro para pensar, eu não queria ter esse filho, mas eu fui cobrada a ter esse filho, e aí eu tive. E os prejuízos que isso vai causar na construção dessa relação parental, da maneira como você vai criar esse filho, né? Então, isso vai, de alguma forma, influenciar e pode ser extremamente perigoso, né?

A gente não tá falando da decisão de comprar um carro. Se não der certo, a gente vai lá, vende de novo e acabou. Se livra dele. A gente tá falando da decisão de criar um ser humano e das implicações que isso vai ter pra minha vida, mas principalmente pra vida dele.

Perfeito. A gente fala, quando a gente faz esse comparativo com os nossos pais e nossos avós, eu não posso deixar de associar diretamente também as redes sociais, né? Eu acho que antes a gente tinha uma cobrança muito do nosso ciclo familiar mesmo. A nossa mãe teve uma cobrança dos nossos avós, que tinha uma cobrança ali dos tios. Era um ciclo muito fechado, né?

Eram as pessoas ali que estavam à sua volta. Hoje, com a rede social, a gente tem uma cobrança de uma pessoa que você nunca viu na sua vida. E assim, não é uma pessoa, não são dez pessoas. São milhões de pessoas que estão ali procurando o mesmo tema ou buscando o mesmo assunto.

e conversando, debatendo, colocando ideias, desde a mais embasada até a mais absurda, né? Então, a gente tem contato com todo tipo ali de, vamos chamar de vertente de pensamento, pra gente deixar um termo mais polido aqui pro programa, mas a gente tem ali contato com várias vertentes de pensamento e isso acaba trazendo uma pressão de fora também, né?

Mas, ao mesmo tempo, a gente também vê essa pressão sendo feita de uma forma que, na minha visão, é uma forma mais tóxica, né? Que é a romantização dos temas, né? Então, tem muita gente... A gente vê temas sendo romantizados que são absurdos. Por exemplo, a submissão. A gente vê perfis focados em pessoas que sentem orgulho em serem submissas aos seus parceiros, né? Então, a gente passa por tudo isso.

A mesma coisa eu vejo com a parte de parentalidade. A gente tem, por exemplo, o caso da Virgínia. A Virgínia é mãe de três, ela vive muito bem, viaja de avião, tem duas babás, uma foguista, tem cozinheira. Então, assim, é uma maternidade, como é que eu posso dizer, quase que de novela, né? De comercial de margarina, uma coisa linda. E aí as pessoas veem aquilo que tem um pouco menos de senso crítico e pensam, ah...

Então tá beleza, eu vou ter filho também. É fácil assim. É fácil, exatamente, é tranquilo. Eu queria saber de ti, são duas perguntas em uma. Como que tu vê a influência das redes sociais hoje na decisão de ter filho? E quais as consequências dessa romantização da parentalidade na internet hoje? Porque a gente tem tanto a galera que rejeita, que odeia, que tem aversão absurda, como a gente tem a galera que romantiza muito. Então, qual a tua percepção sobre esse assunto?

Quando a gente é tão engraçado como a sociedade, ela se estabelece dentro de ciclos, né? Antigamente, bem antigamente, lá atrás, não existia uma divisão clara nessa estrutura familiar. Então, o grupo social, a tribo ali que a pessoa pertencia, de alguma forma atuava diretamente.

Na criação das crianças, né? A gente podia entrar numa discussão muito mais longa pra dizer que antigamente não se tinha nem a ideia de criança como se tem hoje em dia, né? Mas...

A família nuclear se formou, e aí quando a gente pega assim as gerações, né, nossos bisavós, nossos avós, a gente tem essa família nuclear supremamente estruturada, e o que acontecia dentro daquelas quatro paredes, era problema das pessoas que pertencem àquelas quatro paredes. E aí a gente tinha uma série de absurdos associados a isso, de violência, né, de uma série de questões, e aí quando isso se abre novamente, principalmente com a advento das redes sociais,

Não sei se você está acompanhando minha linha de raciocínio, porque eu vou viajando dentro desse assunto. Eu adoro esse tema e eu vou viajando. E com essa facilidade de informação que se foi chegando, muitas coisas importantes foram estabelecidas. Por exemplo, a lei da palmada.

A lei da palmada aconteceu depois que uma criança foi morta por responsabilidade da mãe do padrasto. Não sei se você se lembra do caso do menino Bernardo. Tanto que hoje a gente chama a lei da palmada de lei do menino Bernardo. Foi depois desse crime horroroso que aconteceu com ele que essa lei foi mais bem estabelecida e ganhou força. Então hoje, com essa lei e com a questão das redes sociais, a gente...

Se você bate no seu filho em público, você vai receber uma chuva de olhares julgadores, porque isso não é mais autorizado. E, por um lado, isso é muito importante. As redes sociais, elas trouxeram uma velocidade de informação que foi muito importante quando a gente fala de criação de filhos. Ao mesmo tempo que ela também trouxe uma velocidade de desinformação.

Então, hoje, você falou da romantização da maternidade, da paternidade, que realmente isso acontece, isso pode ser muito perigoso para quem está dentro desse ciclo, vivendo a criação de um filho, porque você se coloca numa posição de ainda mais culpa. Como assim? Só para mim não é fácil.

Como assim, só pra mim não é lindo? Como assim, só meu filho não me obedece? Né? Só meu filho não dorme? Deixa eu te contar uma história que aconteceu comigo. Eu estudo parentalidade desde a graduação. Então eu defendi meu TCC, que foi sobre parentalidade, em 2012. Então tu pensa quantos anos tem que eu estudo parentalidade, né? Sim. Quando eu tive meu primeiro filho...

Eu caí na besteira de comprar um curso sobre sono e rotina da criança. Por que você é em privação de sono?

com um bebê que simplesmente não dormia, eu já não aguentava mais, eu já estava dando tilt. O tilt fora, o pôrpério, aquela mudança hormonal, todas essas questões. Comprei esse maldito desse curso. Assisti o curso. Terminei assistindo o curso, me senti na pessoa mais errada do mundo. Não é possível, eu não consigo seguir isso. Comecei a seguir as instruções do curso.

Aí as instruções do Pulse era assim, dava 5 horas da tarde, tava anoitecendo, eu não podia mais acender uma luz dentro de casa, eu não podia mais ter um barulho, tudo pro meu filho dormir. Aí tu pensa, eu nasço de meu perverbo, 6 horas da noite no escuro, sozinha com o bebê, porque meu marido ainda tava trabalhando, a babá já tinha ido embora, eu tava sozinha. Eu chorava naquele... Meu Deus, eu não quero mais isso pra minha vida, como é que eu volto atrás? Como é que eu devolvo essa criança? Então, olha o perigo disso.

Né? Assim, dessa visão de facilidade da vida materna. De, ó, como é fácil, tu apaga a luz e a criança dorme. E detalhe, o meu filho não dormia. Um tempo depois a gente descobriu por que ele tinha um problema de som.

Mas o curso em nenhum momento me disse isso. Investiga se seu filho tem um problema de sono. Tá entendendo? Então, pode ser muito perigoso isso. Porque coloca a gente numa posição de incapacidade. Eu sou incapaz de criar essa criança, de educar essa criança adequadamente, porque eu não consigo fazer isso que a Virgínia tá fazendo. Ninguém me contou que talvez os filhos da Virgínia tenham mais prejuízos em termos de desenvolvimento socioemocional do que os meus filhos.

que estão comigo diariamente, que eu estou acompanhando a tarefa de casa, que eu estou levando para o colégio, que eu estou conversando, que eu estou estabelecendo limites. Ninguém fala sobre isso. A gente olha para a parte que é publicada. E a gente não publica momentos difíceis. Exatamente. A gente só publica os momentos felizes. Então, isso pode ser muito perigoso. Tanto porque pode dar a ideia errada para as pessoas que ter filho é fácil.

Então, não, vou ter filho. É simples, é fácil. Rapidamente eu resolvo aqui as questões.

Como, se eu já tenho meus filhos, eu posso me colocar numa posição de me sentir extremamente culpada, porque eu não consigo ver isso acontecendo, eu não consigo ver esse amor incrível, olha que coisa louca, essa facilidade, essa romantização, porque não é assim que acontece.

Mas também existem muitos perfis na rede social que ainda bem estão mostrando do outro lado. Estão dizendo assim, ter filho é maravilhoso, é uma coisa incrível, te muda como pessoa, você é outra pessoa antes e depois de ter filhos, você enxerga o mundo sob outro ponto de vista, mas é difícil pra caramba, é desafiador pra caramba. É tipo o jogo do videogame que você passa uma fase e vê outra fase mais difícil.

Aí a outra é ainda mais difícil e você fica, meu Deus, será que eu não vou finalizar esse jogo nunca? E aí o spoiler, não, você não vai finalizar, né? Então, ainda bem que hoje nós também temos esses perfis que viram e dizem assim, ó, não é bem assim. O buraco é mais embaixo, é desafiador sim, tem dias que você perde a paciência, tem dias que você pensa o que foi que eu fiz da minha vida, por que eu resolvi ter filho, mas tem dias que são incríveis, tem dias que são maravilhosos e é isso.

A gente, quando faz ainda, ainda nessa questão de comparativo, né? Quando a gente passa a comparar como eram vividas as vidas antigamente, como são vividas as vidas hoje, né? A gente percebe que a gente foi passando por um processo de individualização. A gente antes vivia em casas muito grandes, com toda a família dentro de casa. Todo mundo participava.

Exato, e todo mundo participava da criação de todo mundo, né? Eu, por exemplo, eu tive muita influência das minhas tias na minha criação, provavelmente você também teve contato com alguém da sua família, além dos seus pais, né? Então você tem ali uma rede que influencia na sua criação. E aí a gente foi passando por um processo...

mas de individualização. As casas foram diminuindo, a gente foi cada vez mais diminuindo o nosso núcleo familiar, as mesas foram diminuindo, então as mesas que antes tinham 20 cadeiras, hoje passaram a ter 4 e aí eu tenho uma mesa aqui em casa, por exemplo, que cabe em duas pessoas. Então as mesas de refeição elas diminuíram consequentemente a nossa individualidade ela foi ficando cada vez mais exposta.

Por que eu te pergunto isso? Por que eu falei isso? Porque a gente hoje passa por um processo onde a gente valoriza muito o nosso eu, a minha personalidade, a minha individualidade, e a gente sabe que ter filhos é abdicar um pouco dessa individualidade, é abdicar um pouco do seu eu para priorizar o próximo, para priorizar uma pessoa que você, às vezes, até ama mais do que você mesmo.

Então existe esse processo de ceder. Então acho que hoje isso também afeta na hora de decidir esse ponto de, vamos botar entre algumas aspas, essa autopreservação da individualidade, ela também influencia muito no decidir ter ou não ter filhos.

Ou isso, mais uma vez, é uma percepção de quem está em um momento diferente da vida agora, está nesse processo de transição de momentos. Porque eu moro num prédio, principalmente, que eu vejo muitos casais jovens, né? Um prédio onde a galera meio que se muda para começar a vida. Aqueles prédios que são mais smart, né? Que as coisas acontecem ali no hall social, mas os apartamentos são um pouco menores.

Mas a gente vê, sempre que a gente está no elevador, que a gente sai no corredor, a gente vê muitos casais jovens, a galera que está começando a vida. E assim, aqui no apartamento que eu estou hoje, daria para ter um filho, porque a gente tem um quarto a mais. Mas as plantas normais dos prédios, dos apartamentos daqui, não dá. Não dá para você pensar em ter. Então, esses apartamentos smart também, que hoje economicamente é o que as pessoas conseguem adquirir para iniciar a vida, também dificulta um pouco esse...

Esse processo de iniciar, pensar em ter filhos ou não, né? Como que tu enxerga essa movimentação do eu, da individualidade, dentro da parentalidade?

Influência é muito, né? Não tem como, porque ter filhos é abrir mão disso. Agora sim, existe um período em que a criação do filho te anula muito como indivíduo, mas ao mesmo tempo você vai se reconstruindo dentro dessa nova relação e vai se reencontrando. Então eu falo assim, explicitamente isso não é romantização da minha maternidade, ou os meus filhos não me impedem de fazer absolutamente nada.

Agora, eu tenho uma rede de apoio que me auxilia muito nesse processo. É claro que nem todas as saídas que eu quero fazer, eu posso fazer. Nem todas as viagens que eu quero fazer, eu posso fazer. Tanto por uma questão deles, assim, quem fica com eles, mas também por uma questão financeira. São dois, tem um custo em relação a isso. Mas o custo que eu quero fazer, eu faço. Em termos de trabalho...

posição de mercado, eu consegui me organizar dentro disso, enfim. Então, também não é assim. Às vezes as pessoas acham que ter filho é pronto, minha vida acabou, né? Hoje eu só vivo em função dessa criaturinha. E é importante que você não faça isso, porque senão a relação do seu filho vai ser muito problemática, né? Mas essa...

ideia do eu, de olhar para si, estabelecer suas metas de vida, profissionais, enfim, pessoais, etc. Vai influenciar, sim. Se não no desejo de ter filhos, mas no atraso de ter filhos, hoje a gente vê muito as pessoas postergando.

E com essa questão do congelamento de óvulos, isso permite que isso aconteça. Então, eu tenho amigas que congelaram óvulos e estão aí vivendo a vida, dizendo que na hora certa eu tenho, porque agora eu não tenho mais pressa, porque eu não preciso mais me preocupar tanto com o meu relógio biológico em relação a isso. E essa mudança cultural também. Você falou do tamanho dos apartamentos, que tem diminuído.

Mas os carros têm diminuído, né? A gente vê ali carros cada vez menores. Isso tem a ver também com essa questão econômica que a gente vivencia, que também é um ponto que atrapalha muito nesse desejo de ter filhos. Hoje está tudo mais caro. Então, talvez o valor de um apartamento pequeno, hoje, proporcionalmente falando, permitisse aos nossos pais, antigamente, ter uma casa de três quartos.

né? Então, não é só essa ideia de individualidade que mudou, mas a própria relação econômica também mudou. E isso pesa nessa decisão e deve pesar mesmo, né? Porque ter filhos também é oneroso financeiramente e a gente precisa pensar sobre isso. Eu espero não estar te fazendo desistir de ter filhos. Falando disso. Que no final, você não diga, é melhor não. É, não. Chegamos à conclusão, então, que é o trabalho.

Deixa pra lá, deixa pra lá. Vamos ter um cachorro. Mas sim, influencia sim. Mas talvez nem diretamente só no quero ou não quero ter filhos. Mas no... Vou ter só um... Né? Nessa diminuição do tamanho da família. Entendi.

Inclusive, falando ainda em diminuição do tamanho da família e falando ainda um pouco de como funciona essa estrutura social, eu queria abordar o tema família mesmo, porque a gente é ensinado, na verdade, desde sempre que famílias são, pelo menos a nossa geração foi ensinada assim, né? Nossa família são...

Os pais, os avós, os primos, os tios, enfim. E aí é tio de primeiro, segundo, terceiro grau. É primo de primeiro, segundo, terceiro grau. Aí a gente chega num ponto meio que crucial. Eu tenho alguns amigos um pouco mais velhos. E essa semana passada, semana anterior, eu tava trocando ideia com um deles e tal. Ele foi pai recente.

E aí ele me contando, cara, eu queria muito que a minha filha tivesse mais contato com outras crianças. Porque eu cresci com meus primos e tal. E ela não tem primos e nem vai ter. Porque eu tenho dois irmãos, mas a minha irmã...

Ela não vai ter filho, ela não pode ter filho. E o meu irmão, ele já é bem mais velho e tal, e ele não tem o menor interesse em ter filho nessa parte da idade. Então a minha filha vai crescer sem primos. E aí eu fico me perguntando, cara, e aí? Eu moro em casa, eu não moro em prédio, eu não consigo trazer convivência. Então todo o contato que ela vai ter com outras crianças é quando ela for pra escola. Mas e até lá?

E até lá, e até o período escolar, como é que eu faço para essa criança ter o contato com outras crianças, enfim, com pessoas da idade dela. E aí ele compartilhando um pouco dessa angústia. Eu queria saber de ti como que o conceito de família vem mudando.

De acordo com esses tempos, porque a gente brinca muito na internet, ou até mesmo em roda de amigos, que nós temos a nossa família de sangue e tem a família que a gente escolhe, né? São os nossos amigos, são as pessoas que estão próximas da gente de alguma forma e que a gente trata como se fosse família. Eu tenho dois irmãos, mas minha irmã mora fora, meu irmão é muito mais velho do que eu e eu tive muito mais irmãos de vida do que propriamente em contato com os meus irmãos de sangue, né?

Então, como que essa estrutura familiar, ela vem se alterando? E você falou de rede de apoio, como que a gente consegue inserir a rede de apoio dentro desse tema? Uhum.

Como você falou lá no início, a família tem se nuclearizado cada vez mais. E tem uma particularidade também nisso. Eu fui criada também pelas minhas tias. Minha mãe tem três irmãs. Minha mãe me teve muito jovem. Ela me teve com 22 anos.

E quando ela me teve, ela ainda estava na faculdade. Então, ela e meu pai não tinham condições financeiras na época de ter babá, né? De custear alguém. Então, pra minha mãe trabalhar, pra minha mãe ir pra faculdade, quem ficava comigo eram as minhas tias.

E eu sou uma das sobrinhas mais velhas. Eu só tenho um primo mais velho da família da minha mãe e eu sou a mais velha da família do meu pai. Então, acabou que eu fui muito beneficiada nisso porque eu era a bebezinha, né? A bebezinha da família, porque só tinha eu. Então, realmente, eu tive muito contato na minha infância com as minhas tias e com os meus avós, né?

Nessa época, minha avó não trabalhava, minhas avós viveram mais como dona de casa. Minha avó paterna não, ela até trabalhava. Mas a materna era dona de casa, então acabava que eu ficava com ela também. Hoje, a minha vida com os meus filhos é completamente diferente. Primeiro, eu tive filho mais velho do que a minha mãe. Meu primeiro filho, eu tava com 31. Bem diferente da minha mãe, que me teve com 22 anos, né? Isso influencia.

Bastante. O segundo ponto é que os meus pais e os meus sogros trabalham. Eles não são aposentados.

Eles trabalham ativamente. Então, eu não tenho como recorrer a eles. Então, se eu preciso de alguma coisa, assim, em relação aos meninos, a minha mãe tem que sair do trabalho para poder me ajudar. Ela super me ajuda, mas eu sei o custo que isso gera a ela e eu não peço isso a ela. Minha irmã também trabalha ativamente. E ela tem um filho. Então, ela também não tem como fazer isso. Eu só tenho uma irmã. Eu não tenho três. Como a minha mãe teve e como o meu pai teve, porque o meu pai também tem três irmãos.

Então, eu tenho oito times no total. Então, isso por si só já influencia. Então, hoje em dia, não é regra, obviamente, mas o que a gente mais tem em termos de estrutura familiar, pensando em rede de apoio, é a rede de apoio paga, né? Que é a babá. É mais difícil, na dinâmica que as pessoas vivenciam hoje, contar com esse apoio familiar.

Então, por exemplo, eventualmente eu vou fazer alguma coisa, meus filhos vão dormir na minha mãe. Não é assim, vai passar o final de semana na avó, eles vão na hora de dormir, no outro dia de mel, ela tá me ligando, 8 horas da manhã, tu vem que hora buscar que eu tô cansada. É assim, que não era com a minha avó desse jeito, né? É uma outra perspectiva.

E hoje, o que a gente tem de estrutura familiar hoje no Brasil, se você pegar o censo do IBGE, a principal estrutura familiar, a mais frequente estrutura familiar que a gente tem no país hoje, é a família monoparental, que é um pai cuidando dos filhos. Normalmente, a mãe. A mãe, sim.

separa, o que costuma acontecer? Divorcia, os filhos ficam sob cuidados da mãe, a mãe que tem a guarda e eventualmente eles veem o pai. Ou a gente tem o pai que abandona completamente que infelizmente em pleno 2026 isso ainda é um padrão comum em termos de parentalidade aqui no país. Então você imagina você com sua esposa criando um filho vocês vão passar por inúmeros desafios na criação desse filho, imagina quando é um único o trabalho.

pai ou a única mãe cuidando dessa criança, né? Então, a rede de apoio vai ser extremamente importante, mas dentro da estrutura que a gente tem hoje, ela vai ser mais difícil. Então, a gente vai ter que encorrer muito mais a rede paga. E eu falo isso quando eu falo no meu Instagram abertamente, assim, a rede de apoio que eu tenho hoje, a rede paga.

Conto eventualmente com a minha mãe, conto e conto muito, mas conto pontualmente, assim, eu vou sair tarde do consultório, eu preciso pegar as crianças no colégio, aí ela pega. Ah, eu vou ter uma reunião, você consegue deixar os meninos no colégio? Ela deixa. E ela me ajuda muito fazendo isso. Mas nessa logística, assim, de, ah, eu queria, sei lá, ir ao cinema com o meu marido assistir um filme, eu tenho que recorrer à rede paga.

E isso influencia também na nossa decisão de ter filhos. E deve influenciar mesmo. É importante que influencie. Porque a gente precisa ter ciência disso. Eu brincava com a minha sogra. Infelizmente, minha sogra faleceu. Mas na época que eu tinha...

recém-casada, ela dizia assim pra mim, tem um filho, me dá um neto. Aí eu brincava com ela, mas eu não tenho como te dar um neto agora, porque eu não consigo pagar uma babá, né? Eu tava no início da vida profissional, eu não consigo pagar um funcionário. Aí ela dizia, não, se você me der um neto, eu me aposento.

pra cuidar dele. Aí eu, tá certo, demorei um pouquinho pra dar um neto pra ela, mas eventualmente dei o neto dela, nunca se aposentou. Aí eu ficava brincando com ela, tu me enganou, né? Tu me enganou, tu disse pra mim que tu ia se aposentar pra brincar com teu neto. Ela já tinha idade de se aposentar, ela já tava na época de se aposentar e ela não se aposentou. Porque aí depois ela disse pra mim, não, é porque eu gosto tanto do meu trabalho. É, mas você me enganou. Ela pensou se eu tivesse caído.

Nessa sua história, lá atrás. Eu tinha me empascado todinha.

Mas é, viu? Olha, eu vou te dizer uma coisa. A minha mãe, ela foi bancária por 30 e... Sei lá, 36, 37 anos da vida dela. Trabalhou dentro de banco. E que pra mim... Desculpa aí aos bancários. Inclusive, ó. Um beijo a todos os bancários do Brasil. Mas pra mim, é uma profissão que... Desculpa, eu não tenho a menor identificação, né? E eu não sei como é que uma pessoa consegue ser tão apaixonada por um negócio. Até hoje, assim. Minha mãe é aposentada. Mas até hoje ela fala...

Meu sonho é voltar pro banco, meu sonho é voltar, tá lá na ativa. Diz, cara, pelo amor de Deus, tu vai fazer 70 anos esse ano. Vai descansar, vai botar a cabeça no travesseiro, vai, sei lá, assistir um filme. Fazer qualquer outra coisa, né? É, mas não, ela só pensa em voltar a trabalhar, em voltar pro banco e tal. E isso, inclusive, já foi motivo dela de terapia, tá? De levar pra análise e entender. Eu acredito!

Porque é essa dependência do trabalho. É meio que uma relação tóxica que ela tem mesmo com a paixão pelo trabalho. Mas você falou uma coisa muito interessante na tua fala, que inclusive é uma coisa que eu abordei em algumas conversas já, que é sobre a monoparentalidade, né? Sobre ser criado só pela mãe. Eu fui criado só pela minha mãe, por exemplo. Então eu tenho essa experiência em casa. Só que...

A minha mãe, ela sempre, ela me deu uma educação de assim, nunca me bloqueou, nunca bloqueou o acesso ao meu pai, meu pai também nunca se bloqueou para ter esse acesso comigo, nós tínhamos o contato pontual.

mas nós, como é que eu posso dizer, tínhamos uma relação distante mesmo. Ele não participou da minha criação, então eu não tenho... Ah, pensa em memórias, sei lá, afetivas com seu pai. Não tenho, não participo dessa conversa, mas também não me é traumático, entende? Eu não vivo em torno de uma amargura com meu pai, porque... Não.

Por quê? Porque eu tive um tipo de criação onde a minha mãe, ela podia me dar estrutura de viver, de estudar, de comer, de vestir. Então, eu tive toda uma estrutura e minha mãe teve uma rede de apoio muito forte da minha avó. Minha avó, ela me levava e me buscava do colégio, me levava para a natação, me levava para a luta. Então, ela tinha todo esse, porque minha avó não trabalhava, minha avó vivia em casa, então ela podia...

fazer tudo isso de uma forma muito mais presente. Só que, pelo que eu percebo, conversando com amigos e amigas, os meus amigos homens têm muito mais vontade de ser pai do que as minhas amigas mulheres têm vontade de ser mãe. E aí, no primeiro momento de conversa...

É essa a visão que eu tenho, certo? Porém, quando a gente vai aprofundando a conversa, o que o cara quer é ter o filho. E o que a mulher tem não é a falta do desejo de ser mãe, é o medo de não ter o parceiro pra ser o pai. Então, esse bloqueio emocional, esse medo faz com que...

a decisão se confunda na cabeça, né? Em vez de ser, eu não quero, eu tenho medo de não conseguir ser mãe solo, eu tenho medo de ser mãe solo, de ser colocada nessa situação, vira um, eu não quero ter filho. Eu não quero ter filho porque eu não quero passar pelo que a minha mãe passou, eu não quero passar pelo que a minha amiga tá passando. Faz sentido isso que eu tô te falando? Completamente. Completamente. E assim,

A gente já mudou muito em termos de cultura em relação a isso. Eu acho até que essa nossa geração atual, nós temos pais, homens, muito mais conscientes do que implica ter filhos e muito mais conscientes da importância da participação ativa masculina, paterna. Masculina não, paterna. No desenvolvimento do filho.

Se a gente parar pra pensar em termos de cultura e sociedade, antigamente mesmo, até no tempo dos nossos avós, não era tão direcionada ao pai a importância de se fazer presente na vida dos filhos, então o pai era a figura de autoridade, aquele que colocava dinheiro em casa e acabou. E aí que competia a mãe, cabia a mãe, né? O cuidado, o educar, o acompanhar, o garantir ali.

aquele dia a dia básico pro desenvolvimento daquela criança. A gente ainda enxerga isso hoje. Eu me lembro muito quando eu tava grávida do meu primeiro. Eu fui criada...

Eu sou filha de pais separados também, mas os meus pais separados eu já era adolescente, eu tinha 15 anos. E fiquei morando com a minha mãe, o meu pai se fez muito presente na nossa criação, mas depois da separação, inquestionavelmente, foi a minha mãe que estava ali no dia a dia, né? Ela que estava ali na lida mesmo com a gente, porque a gente morava com ela.

A gente ia passar um final de semana com meu pai. Era isso. E quando você vai passar um final de semana com meu pai, ele não passa o final de semana ensinando a tarefa de casa. Ele passa o final de semana levando pra tomar sorvete, pra ir pro cinema, pra jantar fora. Então é o oba-oba. Né? A pressão ali da regra, do ter que fazer, da responsabilidade, era a minha mãe que colocava.

Então, a mamãe, ela sempre colocou muito isso na nossa cabeça, assim, de só tenha filho se você quiser ter filho, só tenha filho se você estiver preparada para ter filho, e busque um parceiro que esteja ali sendo pai de verdade, porque vai sobrar para você, porque o filho é da mãe, né? Até hoje a gente escuta isso. E aí, quando eu estava grávida do meu primeiro filho, eu fiz um acordo com o meu esposo, que ele ia diminuir a carga de trabalho dele ali naquele início, porque eu precisava dele ali, né? Aquela criança, enfim.

E eu fui muito julgada por isso. Então eu ouvia coisas, né? Eu dizia assim, ah, essa madrugada o Gael acordou e quem foi botar ele pra dormir foi o Oswaldo, que é o meu esposo. E aí eu era julgada. Como assim? Ele tem que trabalhar no outro dia. Tu deixa ele ficar acordado de madrugada. Ele precisa descansar pra trabalhar. Eu digo, eu não preciso também não.

E eu sou a super heroína que não precisa dormir. E eu ouvi isso, né? E assim como eu ouvi coisas do tipo, nossa, ele troca a fralda dos meninos? Ele dá banho nos meninos? Imagina.

Eu fiz filho só? Eu fiz sozinha? Foi, né? Fui eu que projetei a criança? Ele tem que fazer, né? O pai, né? Então, hoje, a gente tem uma geração de homens muito mais conscientes disso. Até na minha pesquisa do doutorado, que eu investiguei gerações de homens, né? Eu fui entrevistar os avós, entrevistei os pais e fui entender a diferença.

E as semelhanças na criação dos filhos, inclusive até te convido para ler a tese da minha pesquisa, porque fala exatamente sobre isso que você está falando, como você quer entrar nesse universo da parentalidade, eu acho que é super bacana. E eu vi muito essa mudança da relação com os filhos. Antigamente, os nossos avós não entendiam muito, claro que tinha as exceções, mas de uma forma geral, eles não entendiam muito o impacto da relação deles com os filhos.

De como era importante eles colocarem o limite, eles serem a autoridade, mas eles também seriam o afeto. E hoje você tem muito mais consciência disso. A gente ainda não rompeu por completo essa ideia de que o filho é da mãe, de que ele tem que ser responsabilidade da mãe, tanto é que se eu saio sem o meu esposo, eu fui dar um curso, passei um final de semana em Juazeiro, dando aula.

E aí é a coisa que eu mais escutei. E os meninos estão com quem? Como assim? Com o pai deles. Eles têm pai. Pai deles. Aí ele fica sozinho com as crianças? Fica. Mas a babá ficou, né? Não, ele tá sozinho. Os filhos dele, os filhos são dele.

Eu vou até te cortar nesse ponto, porque a gente passou... Quem é cronicamente online deve ter visto recentemente um debate que rolou na internet sobre uma blogueira... O que você vai falar? Uma blogueira que não deixava o pai ficar com as crianças, né? Ele queria ficar com o neném e a mãe... Não, ele vai ficar com a minha mãe, porque eu não confio em você, com o pai e tal. E o cara, mas eu sou o pai, eu quero participar. E ela, não, não, não, não, não, não. Sim.

Pra você ver como é essa coisa da cultura, né? É, tem, tem sim. Que é cultural, que é cultural. E nós, enquanto mulheres, temos responsabilidade sobre isso também. Porque o meu esposo, ele não foi espontaneamente ficar sozinho com os meninos, mas foi por incentivo meu. Eu dizer pra ele, eu fico sozinha com eles. Se eu consigo ficar sozinha com eles, você também consegue ficar sozinha com eles.

E aí ele começou a se arriscar, né, nessa direção. Então, eu dou muita aula no final de semana, então eu passo sábado dando aula. Ele fica sozinho com as crianças. E aí, às vezes, ficava meio temeroso, assim, aí ficava só em casa. Vai sair, vai para um restaurante com eles. Aí ele começou a ir, a sair, porque eu faço isso. Eu saio sozinha com eles. A gente, meu esposo está trabalhando, a gente vai... Às vezes eu levo os meninos para tomar um café.

Eu tô montando um café numa cafeteria super faturado. Vamos com a mamãe? Vamos, eu e eles dois. E os meus filhos são pequenos. O meu mais velho vai fazer cinco e o meu mais novo tem três. E desde que eles são bebês, eu levo eles para os cantos comigo. E incentivo o meu esposo a fazer a mesma coisa. Porque é a hora que ele constrói o vínculo com eles.

É a hora que esse vínculo e essa estrutura... E ele se sente até mais fortalecido e mais seguro. Então hoje, felizmente, a gente vem acompanhando essa mudança. Os pais estão mais conscientes disso, de que eles precisam se fazer presente, que aquele filho é deles e que aquele filho precisa deles também para se desenvolver, precisa da participação deles para se desenvolver. É óbvio que não é 100%. Eu ainda tenho amigos da minha idade.

que não trocaram uma fralda do filho nunca. E eu fico, como assim? Você nunca trocou a fralda do seu filho? Mas ao mesmo tempo, eu também tenho amigos que estão ali 100% presentes no tudo, né? No fazer comida, no trocar fralda, no dar banho, no botar pra dormir, no acompanhar a tarefa de casa. E que bom, porque isso vai ser muito importante.

Com certeza, com certeza. Queria sair um pouco do cenário global, no cenário social, e eu queria entrar mais nesse cenário da Jéssica como mãe, como psicóloga. Inclusive, a minha primeira questão é justamente essa. Eu, percebendo no que você estava falando sobre a tua formação, eu percebi que na faculdade tu ainda não tinha filho, né? Tu veio ter filho aqui já mais pra época do doutorado, né? Cinco anos, acho que é mais ou menos ali na época do doutorado.

Foi. Eu defendi o doutorado em maio. Ó, agora. Vou fazer cinco anos que eu defendi. Eu defendi o doutorado em maio e o Gael nasceu em julho. Então eu defendi grávida.

O doutorado. Entendi. E aí, eu acho que quando você estuda parentalidade e quando você vive a parentalidade na prática, a sua visão muda, né? Então, como é que a maternidade, no teu caso, mudou a tua visão como psicóloga de parentalidade?

Mudou muito, mas não no sentido teórico. Mudou, eu acho que a maternidade, ela permitiu que eu olhasse para os pais com um olhar mais empático.

Porque antes eu via de uma forma muito objetiva, né? Tipo, ó, você tá fazendo isso, vai acontecer isso. Se você fizer aquilo, vai acontecer aquilo. Você precisa entender, você precisa se conscientizar, você precisa mudar em relação a isso. Depois que eu me tornei mãe, eu entendi assim, é óbvio que os pais precisam se conscientizar. Ter filho não é instintivo.

Ao contrário do que a gente pensa, né? Não é assim, nasceu uma criança, nasceu um pai e uma mãe que sabem exatamente o que fazer. Não, não é automático. A gente precisa estudar. Só que as pessoas, elas estudam muito para a fase do bebê. Então elas estudam como é que troca a fralda.

Como é que limpa o coto umbilical? Como é que desengasga? Ah, aí elas estudam se na introdução alimentar vai ser BWL, se não vai ser, né? Só que quando o menino começa a crescer, e começa a ter autonomia, elas param de estudar.

Aí elas acham que entra no nível instintivo e não entra, né? Então, eu observava muito isso e queria muito psicoeducar, mas de um jeito muito teórico, assim, muito... Tem que ser assim, por causa disso, por causa daquilo.

Depois que eu me tornei mãe, eu entendi que o buraco é mais embaixo. A gente precisa estudar. A gente precisa ter conhecimento, porque olha que coisa importante. Nós estamos criando uma criança, educando uma pessoa. Daqui a pouco, nosso filho está aí na sociedade, sendo uma pessoa boa ou ruim, a partir daquilo que eu fiz. Mas eu entendi que é muito mais desafiador do que eu imaginava.

É muito mais difícil do que eu imaginava. Mas só reforço a ideia de que é aí que a gente precisa estudar mesmo. Pra entender essa dinâmica, né? Mas eu acho que o meu olhar pros outros pais se tornou mais empático, sabe? Mas compreensível.

Quando tu entrou nessa fase da vida prática mesmo, quando tu chegou, caramba, agora eu sou mãe e tal, e eu li esses textos, ou eu vi essa teoria, mas, cara, na verdade é totalmente diferente. Em que momento tu olhou e disse, cara, essa teoria aqui, ela tá errada, porque na prática...

É totalmente diferente. Eu estou tentando seguir a teoria e a prática está sendo. Então, o que mais te chocou? Até mais o que mais te surpreendeu vivendo a maternidade na prática? Eu acho que o que mais me surpreendeu, talvez seja... Porque, assim, eu estudo muito o desenvolvimento. E dentro da perspectiva do desenvolvimento, quando a gente fala de infância, tem os marcos, né? Tem aquelas fases que a gente espera. E eu acho que a prática, ela me permitiu ver que, opa, não é bem assim.

Existem os marcos, eles são importantes, eles são ali, a gente precisa se basear neles, mas existe uma estimulação dentro de casa que a gente precisa fazer e às vezes as pessoas não dizem. Existe um olhar cuidadoso ali, para compreender o que vai acontecer naquela fase, o que não vai acontecer.

Nem toda criança necessariamente vai passar por aquela determinada questão que é esperada. Então eu acho que foi muito por aí. Mas ao mesmo tempo, a minha prática reforçou muito a minha crença na teoria.

Porque como eu tento, e aí eu reforço aqui o tento, né? Vou botar o tento em letras garrafais, porque eu sou humana e às vezes eu erro. Nem sempre eu consigo. Mas como eu tento seguir muito aquele que eu estudei, eu vejo os resultados disso. Então eu vejo nos meus filhos...

os resultados dessa teoria, quando eu coloco ela em prática, sabe? Aí eu fico, poxa, não é que isso funciona mesmo? Não é que esse autor estava certo e a coisa é desse jeito mesmo, é por aí que a gente vai, sabe? Então, é muito desafiador, mas eu vejo os meninos, assim, o nível de autonomia que eles têm hoje, de compreensão que eles têm hoje, de colaboração que eles têm hoje, porque eu entendi a dinâmica do limite do afeto.

do seguir regras, sabe? Então, eu vejo o resultado. Então, isso também reforçou muito aquilo que eu falo no consultório para os meus pais, para os pais dos meus pacientes, porque eu coloco em prática e eu vejo o resultado com os meus filhos.

Perfeito, perfeito. Pra gente finalizar, vamos falar um pouco aqui com o nosso, diretamente com o nosso público. Como é que alguém pode entender, na verdade que são duas perguntas em uma, tá? Como é que a gente pode entender melhor se a gente quer ou não quer ter filhos? Como que a gente chega nessa conclusão? E quais são as perguntas essenciais que a gente precisa responder antes de tomar essa decisão? Eu acho que...

Uma coisa que é importante é a gente estabelecer nossas metas de vida. Se você parar para pensar assim, agora, se você fechar os seus olhos e se imaginar daqui a 10 anos, o que você vislumbra?

Nessa imaginação. Um filho faz parte disso? Essa pergunta é importante, porque a gente precisa separar o que é realmente meu do que é o que se esperam de mim. Então, será que o meu desejo de ter filho é porque realmente eu quero ter filho, eu me vejo tendo filho, eu acho que a vida faz mais sentido se eu tiver um filho.

Ou será que é porque eu sou cobrada isso? Porque eu quero dar um neto pra minha mãe? Porque tem isso também, né? Então essa é uma pergunta, assim. Se eu penso da minha vida daqui a 10 anos, uma criança tá dentro dela? Ah, eu ainda não tenho certeza se eu quero ter filho. Aí eu pegando a mulher especificamente. Porque o homem pode ter filho até, né?

70 anos. A mulher não. A gente tem um limite. Então, uma mulher especificamente. Se eu não tenho certeza se eu quero ter filhos agora, será que não é mais vantajoso, por exemplo, sei lá, eu tentar juntar dinheiro e fazer um congelamento de óculos pra eu não tomar uma decisão impulsiva sem ter certeza só porque o meu tempo tá passando? Só porque o relógio tá correndo e eu preciso correr com isso? Porque é uma decisão muito séria pra gente tomar assim só porque, né? E não o o o

eu quero efetivamente, né? Então, esse é um outro ponto. E entender, assim, eu acho que antes da gente ter filho, a gente precisa entender, tentar entender o que implica ter um filho. Eu estou financeiramente preparada, e aí estar financeiramente preparada não é ter todo o dinheiro do mundo, porque eu acho que na condição atual que a gente vive hoje economicamente, poucas pessoas estão realmente financeiramente preparadas, né?

mas eu tenho margem de abrir concessões. Tudo bem para mim postergar a compra da minha casa. Ou então, não, para mim é muito importante ter minha casa própria antes de ter filho, então eu vou me organizar para isso. Ou tudo bem entender que eu não vou mais conseguir viajar todos os anos, eu preciso passar um tempo aí me organizar e enxergar isso financeiramente. Tudo bem para mim entender que eu vou viver um período de privação de sono. Por que você vai?

Não tem como. Tudo bem pra mim entender que a minha vida, por um período de tempo, vai girar em torno do meu filho. E vai. Então, hoje eu consigo viajar com o esposo, a gente consegue sair pra jantar, a gente consegue assistir um filme. Mas a nossa vida gira em torno dos meninos. Então, quantas coisas a gente já cancelou porque um acordou com febre.

ou porque o meu caçulinha ficou chorando, a gente ficou com muita dó e resolveu não sair mais e ficar com ele em casa então gira em torno deles, não tem como a gente prioriza esses outros aspectos que são importantes pra gente, como o trabalho como a vida do casal como a vida com os amigos mas o top 1 de prioridade são os meninos, então se você não está disposto a fazer essas mudanças o trabalho

a entender as concessões que você vai precisar fazer, né? Porque você faz concessão quando você casa, por exemplo, e aí você vai fazer outras concessões quando você tem filhos, que vão ser bem mais impactantes, né? Então, se você não está disposto a fazer isso, não tenha, não tenha filhos. Porque a gente está falando da vida de uma pessoa. E a forma como você vai encarar a chegada dessa criança, né? Vai impactá-la.

vai trazer prejuízo pra ela. Tem aquela frase típica de mãe, da Santa Teresinha de Lisê, que é justo que muito custe o que muito vale. Filho custa muito porque filho vale muito.

Então, faça essas perguntas e tenha filho consciente. Porque mesmo tendo filho consciente, vai ter momentos que você vai dizer assim, meu Deus, onde é que eu tava com a cabeça quando eu achei que eu podia ter filho? Imagina se não foi uma escolha consciente. Com certeza. E aí a gente chega na última pergunta, que é, dá pra se preparar psicologicamente pra ter filho? Minimamente.

minimamente dá pra se preparar. É óbvio que você pode se preparar o máximo que você conseguir e ainda assim vai ser muito desafiador, né, por uma série de fatores que não tem como a gente se preparar previamente. Olha o outro gritando aí, chamando o irmão.

Não tem como a gente se preparar totalmente para isso, mas a gente consegue se preparar minimamente em todas as esferas financeiras, sociais, de buscar logo uma rede de apoio previamente, de ter consciência de que...

o casamento vai passar ali por uma... Não sei, amor. O casamento vai passar por um desafio, né? Isso pode abalar as estruturas do matrimônio. E tudo bem, a gente vai tentar encontrar outros caminhos pra fazer isso dar certo, né? Então, você pode se preparar nesse sentido.

Ah, e principalmente, acho que o maior preparo, o mais importante preparo que você pode fazer com a sua esposa, com a sua parceira, com o seu parceiro, enfim, é já ir entendendo os valores de cada um. Porque o filho vai crescendo e a gente vai tendo que colocar limites e regras e apresentar valores e os pais entram em conflitos em relação a isso.

E aí isso acaba se tornando um grande problema, não só para o casamento, mas também para a criação dos filhos. Então, discutir ali, né? Que tipo de colégio a gente quer que o nosso filho estude? O que a gente gostaria que ele fizesse, né? Em termos de atividades extracurriculares, a gente consegue se organizar para isso? O que é importante, assim, em relação aos pitacos externos? Da gente seguir, da gente não seguir?

Então, ter esses diálogos prévios vai ser extremamente importante até para a criação dessa criança.

Com certeza, e isso entra também no ponto, eu nem tenho filho ainda, né? Mas eu já tive brigas homéricas, assim, porque numa discussão de um possível filho que eu possa vir a ter, eu disse que eu não queria batizar ele quando fosse criança. Nossa! Nossa! Foi uma confusão, assim, na família. Como assim você não vai batizar criança? Eu disse que ele tem a opção de escolha. Vai que ele não se identifica com a religião que eu resolvi batizar ele.

E vai que ele é de outra religião. Pra ele não vai fazer sentido. Ele quer que ele tenha esse poder de escolha. Não, mas tem que batizar, tem que batizar. Eu disse, tem que batizar pra você, pra mim não tem. Se você quiser batizar outra criança, você tem outro filho. E aí tem toda a discussão, toda a briga em torno disso. E vai acontecer, né? Vai acontecer, se não por esse, por vários outros aspectos.

Mas a diferença é que é você pegar aqueles pontos que são muito valorosos pra você. Então essa questão da religião, por exemplo, é um ponto que é muito valoroso pra você. Então você precisa conversar com a sua esposa antes, né? Porque assim, se os dois concordarem que ele não vai ser batizado, a família pode estar com o quanto for. E vocês vão sustentar. Isso. Né? Então, ah, é muito valoroso pra mim que meus filhos estudem no colégio X.

E a gente discutiu isso previamente, que essa era uma questão importante. Então, esses pontos, é super importante que vocês discutam antes, porque vocês se alinham enquanto casal.

ou tem um acordo que é assim vamos fazer o seguinte, quando a gente estiver discordando sobre alguma coisa, a gente não fala na frente dos nossos filhos então a gente não tira autoridade, esse é um acordo que eu tenho com o meu esposo, por exemplo, nós somos pessoas diferentes com criações diferentes, então a gente tem o seguinte acordo, eu posso estar enlouquecida discordando do que você está fazendo falando naquele momento do nosso filho mas eu vou fazer cara de paisagem

E quando eles saírem de perto, eu vou virar pra você e vou dizer tu tá ficando doido? Mas não é na frente deles. Porque eu tiro a sua autoridade. E isso pra mim é importante. Isso pra mim é valoroso. Eu acho que os meninos tem que respeitar nós dois como figuras de autoridade, né? Então, às vezes eu fico assim por quê? Casa de Ferreira e Espeta de Pau. Meu marido estuda? Não. Ele lê os livros que eu mando pra ele? Não. Né? Aí eu fico.

O que ele tá falando, pelo amor de Deus? Quando ele sai de perto, ele pratica, tudo leu, tudo se preocupa em ler aquele livro bem fininho que eu te mandei. E aí ele resolve fazer seguindo o instinto, né? O instinto de paga.

Perfeito, Jéssica, muito obrigado pelo papo, foi muito massa, muito construtivo, espero que você tenha gostado de verdade, e fica à vontade aí para fazer suas divulgações, enfim, esse momento é seu aí para você fazer o seu jabá.

Não, eu queria agradecer. É um tema que eu não sei se dá pra perceber, meus olhos brilham. Porque eu amo falar sobre isso, amo. E eu acho que se a gente tem pais conscientes, nós temos filhos conscientes, nós temos filhos com comportamento bacana, bem criados, e temos uma sociedade mais estruturada.

vai sendo um efeito dominó. Então, a gente precisa muito conscientizar os pais, sensibilizar os pais, fazer eles entenderem aquilo que eles estão fazendo em termos de criação. Então, eu amo esse tema. Convidar todo mundo para me seguir nas redes sociais, porque, enfim, seguir o meu Instagram, que é o PsiJéssicaRosa, conhecer o Trilhas Parentais, que é www.trilhasparentais.com.br

Que é incrível o trabalho que a gente desenvolve no Trilhas. A gente também tem podcast, a gente tem vídeo no YouTube falando sobre criação de filhos, esses temas todos. Então, conheçam a gente, sigam o nosso canal. Eu tô ficando muito blogueira mesmo, eu tô tendo canal no YouTube.

siga o nosso canal, que é o Trilhas Parentais e o nosso podcast, meu e da Sarah que é o Trilhando com a gente que a gente só fala de temas da parentalidade então fica esse convite também e é isso, eu amei estar aqui hoje e quando você decide ter filhos me mande uma mensagem pra gente conversar eu te mando um monte de livro pra tu ler

Beleza, com certeza, vou usar sim esse contato pra melhorar, pra conhecer mais sobre esse mundo, pra eu decidir realmente ser pai. Mas, Jessica, novamente, muito obrigado, e muito obrigado a você que assistiu a gente até aqui. Ó, todas as redes sociais, o site do Trilhos, tudo vai estar aqui na descrição do episódio, bonitinho, tanto no Spotify, como no YouTube, como em todos os agregadores aí, que a gente tá online.

Muito obrigado a você que assistiu. Ó, tá curtindo o programa? Tá curtindo o Devaneios? Considere apoiar a gente em apoia.se barra devaneios marsupiais. Lá você consegue apoiar a gente a partir de um reais. Um reais é ótimo, um real. E apoia muito o nosso trabalho a continuar acontecendo de forma semanal. Fechou? Muito obrigado. Sejam bem-vindos de volta depois dessa pausa. E semana que vem tem mais. Um beijo e até a próxima.