Episódios de Conversas Para Ler

O mundo literário de Rui Couceiro

01 de maio de 202649min
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Rui Couceiro é escritor e comissário do festival BABELL. Neste episódio, apresenta-nos o seu novo livro, A Mais Bela Maldição, e fala-nos do seu percurso no mercado literário - de editor a autor.

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Participantes neste episódio2
C

Cláudia

Co-host
R

Rui Couceiro

ConvidadoEscritor
Assuntos3
  • LiteraturaTrabalho como assessor de comunicação · Experiência como editor · Transição para autor
  • A Mais Bela MaldiçãoHistórias de bibliófilos · Viagens e encontros literários · Experiência na residência literária
  • Festival BabelComissário do festival · Participação de escritores renomados · Modelo de acesso ao evento
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Rui Conceiro trabalha rodeado de livros, desde sempre, mas nem sempre da mesma maneira. Começou por trabalhar como assessor de comunicação numa editora, depois como editor, é comissário da Babel e é escritor. E sei que havia outros papéis para falarmos aqui também no mundo literário, mas esta pequena biografia já é um pouco longa. Bom dia, Rui. Bom dia, Cláudia. Sempre quiseste trabalhar com livros? Sempre foi um sonho ou aconteceu por acaso?

Trabalhar com livros talvez não, mas sempre quis ser escritor. E trabalhar com livros foi uma forma de me aproximar de um universo que me interessava muito. Eu quis ser muitas coisas quando era miúdo, como todos os miúdos. Quis ser explorador, alpinista, jogador de futebol.

Jogador de vôleibol, quis ser jornalista. Algumas dessas coisas eu fui. Fui jornalista, joguei vôleibol, fui campeão nacional. Tudo isso foi bom, fez parte da minha formação. Mas todas essas coisas eu deixei de querer. A única coisa que nunca deixei de querer foi ser escritor. E, portanto, houve um momento em que me aproximei desse universo porque perseguia esse sonho.

Dizeste explorador também? Explorador. Mas és explorador. Sim, mas era explorador da natureza, estilo David Attenborough. Era mais esse estilo. Mas rapidamente perdi essa vontade e comecei a querer fazer outro tipo de explorações. Que são as explorações do mundo através das palavras dos outros. E das minhas próprias. Porque...

A leitura diz-se muitas vezes que é uma poderosa forma de gerar empatia. Eu acredito que sim. Acho que é uma máquina de empatia, mas a escrita também. Escrever livros como este último que escrevi é uma forma extraordinária de nos colocarmos nos sapatos dos outros, como se costuma dizer. Portanto, há uma dimensão até muito egoísta nesta coisa de escrever.

porque eu escrevo as coisas que quero ler e isso tem muito que ver com a forma até como fiz os meus romances mas neste caso até, deste último livro eu escrevi porque queria fazer aquelas viagens e portanto era um prazer a que me queria dar

Começando aqui um bocadinho, digamos, começando do início. Entras neste mundo literário, primeiro como assessor, não é? Sim, eu aos 22 anos estava já a trabalhar como jornalista e tinha várias colaborações, numa rádio, era correspondente da Lusa, fazia algumas coisas. Tinha a expectativa de conseguir um lugar permanente em dois órgãos de comunicação social.

que me interessavam. Eu sempre fui muito interessado por rádio. Rádio sempre foi o meu meio de eleição, ainda é hoje. Eu sou um ouvinte diário de muitas horas de rádio, sobretudo da rádio pública. Eu sempre gostei muito porque a missão, o serviço público, é uma coisa que me interessa, mas eu, nessa altura, era também muito obcecado pela TSF e pela forma como a TSF...

tinha transformado a rádio e continuava a fazê-lo. Portanto, a Rádio de Palavra sempre me interessou muito, mas de repente acontece, eu não consegui... De repente chega-me um exemplar do Expresso, pelas mãos do meu pai, e ele diz-me assim, olha Rui, está aqui um anúncio para a Porto Editora, uma grande editora, uma editora ótima.

que vai começar a trabalhar na área da literatura e não só nos manuais escolares e precisam de uma pessoa para a área da comunicação, se calhar isto poderia ser bom para ti. E eu disse, não, pá, claro que não, eu sou jornalista, não me vou passar para o Dark Side, não quero nada, ser assessor de imprensa, não é isso que eu quero, nem pensar, que disparado. Mas depois estávamos no começo da internet, uns dias mais tarde eu encontro o mesmo anúncio online.

porque o meu pai não estava a ver e portanto eu não tinha de lhe dar razão enviei um e-mail a candidatar-me e depois esse processo de candidatura arrastou-se durante uns quatro meses e acabei por entrar por ser escolhido e começou aí a minha ligação concreta com o mundo das editoras

como tu disseste, durante 10 anos como assessor de comunicação na Porta Editora e depois, durante 10 anos, como editor na Bertrand, onde criei e dirigia a Contraponto durante essa década.

E como é que se faz essa passagem, portanto, da sua comunicação para editor? Foi um convite da administração da Bertram. A Bertram faz parte do grupo Porto Editora. E o administrador Paulo Oliveira terá reconhecido em mim as características para me tornar editor. Já tinha surgido uns anos antes uma conversa, mais ou menos, do mesmo género dentro da própria Porto Editora, mas isso acabou por não se concretizar. Eu nunca tinha tido o sonho de ser editor.

embora como assessor de comunicação eu tivesse, digamos, responsabilidades e tarefas que extravasavam um bocado as que inicialmente me tinham sido conferidas, porque fui sempre um assessor muito próximo dos autores e dos projetos, e portanto eu contribuía de forma, diria, muito visível para tudo o que a editora fazia.

Portanto, nada do que eu passei a fazer como editor me era estranho. Eu estava treinado. Tal como mais tarde, quando passei a ser um autor publicado, nada daquilo me era estranho. Eu sabia o que é que ia acontecer, porque estava dentro do processo há 20 anos.

E já que estás a falar então dessa parte quando és publicado, como é que é escrever o teu primeiro livro? Ainda trabalhavas como editor, não é? É mais fácil ou mais difícil sabendo aquilo que pode vir? Ou seja, tu fazias logo a tua própria edição, sabendo o que é que aquilo não ia passar? Como é que funcionou?

Em certa medida, sim. Mas depois eu evitei, ou procurei evitar, fazer um policiamento severo comigo, porque percebia que isso estava a coartar a minha liberdade. Então o Rui Colceiro, editor, colaborou pouco com o Rui Colceiro, autor. Eu acredito que a escrita de ficção tem de ser, para o resultado de ser verdadeiro, digamos assim, se é que posso usar esta palavra, tem de ser um espaço de total liberdade.

O autor não pode estar preso a nada, não pode haver amarras, não pode haver grilhões nenhums. E o que me sucedeu foi dizer, de facto, editor, tu não vais entrar aqui. Por isso é que escolhi um título que ninguém percebia, Baiou a Sem Data para Morrer, ninguém sabia que palavra era esta, o que é que isto quer dizer, ninguém entendia. Por isso é que escrevi um livro com quase 500 páginas.

O editor que eu era, ter-me-ia desaconselhado ferozmente a não utilizar nem aquele título, nem a escrever um livro daquela dimensão para a primeira obra. Era uma péssima estratégia, porque os leitores não conhecem o autor, e quando olham para o livro na livraria, se calhar até com alguma curiosidade, mas depois vêm, é para 500 páginas, sei lá se isto é bom, não vou ler isto. Portanto, teoricamente, eu cometi uma série de erros.

que apesar de tudo a minha intuição me dizia que eu deveria cometer, ou que eu deveria eventualmente arriscar cometer. E hoje, acho que tinha razão, o Bayoa ficou no ouvido das pessoas e portanto como marca funcionou muito bem. Não foi por isso que o escolhi, foi simplesmente porque achava que aquele era o título do livro. E quando terminei a leitura do livro e conversei com a minha editora, com a Sofia Fraga,

ela concordou comigo, ela disse tens razão, o título é estranho, mas é este o título do livro e ainda bem que assim foi porque a mim interessa muito fazer aquilo que eu quero fazer eu poderia

com relativa facilidade, fazer outro tipo de livros. Eu sei como os fazer. Eu poderia escrever livros de índole mais comercial, policiais, thrillers e outras coisas que eu sei como se fazem. Eu li o Raymond Chandler, o Dashiell Hammett e uma série de outros autores contemporâneos e o nosso Francisco de Viegas. Sei como é que isso se faz.

é técnica e poderia, portanto, revestir as minhas criações, as minhas invenções dessa estrutura e, eventualmente, isso até se produziria mais leitores, porque tem essa dose de mistério, esse apelo direto à curiosidade da pessoa. Ou coisas de outro registro até, poderia fazer romances sentimentais. Poderia fazer isso, sei como fazer, mas não tenho interesse. Eu quero fazer os livros que eu gostaria de ler, que eu quero ler.

Claro que depois acontece uma coisa curiosa. Eu escrevo os livros e nunca mais os leio. Eu nunca mais li os meus dois primeiros romances. Não sei se alguma vez voltarei a ler este. Talvez este leia, porque são textos diferentes. Mas há sempre aquela leitura com receio de nos envergonharmos do que estamos a ler. De pensar, epá, que porcaria, podia ter trabalhado isto melhor. E olha esta frase, que mal.

Não me apetece muito isso, mas se um dia isso vier a acontecer, e costumo dizer isto, ou seja, se vier a envergonhar-me do que fiz, talvez seja um bom sinal, significará que terei evoluído, não me importarei muito.

E como é que foi a relação com alguém a fazer aquele trabalho que tu costumavas fazer, não é? Foi muito boa. Porque eu comecei a trabalhar com a Sofia Fraga porque ela me desafiou. Ela era a minha colega. Nós cruzávamos-nos no edifício e, portanto, conheciam-nos há alguns anos e dávamos-nos bem.

E há uma altura em que eu começo a escrever umas crónicas para a visão e a escrever com mais frequência por altura da pandemia e ela um dia encontra-me e diz-me eu li aquela crónica que tu publicaste na visão eu tenho a certeza que tu tens um romance. Pela maneira como tu escreves, o meu olho de editora diz-me que tu tens um romance.

é, pá, tal, tenho, sim, mas aquilo ainda não está pronto, ainda não sei o que. Mas o que é que já está pronto? Eu, pá, pá, é 400 páginas. Dá-me as primeiras 50. E passou-me 50 páginas, passei-lhe 50 páginas, e ela, uns dias depois, veio ter comigo e disse, olha, eu quero publicar isto, eu acho que isto é muito bom, eu quero publicar.

E, portanto, ter tido a sorte de não ter de procurar editor, de ter sido um editor a vir ter comigo, uma pessoa em quem eu confiava, a Sofia Fraga é uma excelente editora. Tem uma grande bagagem literária e uma grande sensibilidade literária.

E, portanto, isso foi um privilégio para mim. Foi fácil resolver-me um problema que eu teria, porque a minha ideia era até enviar o meu livro, o meu original, o manuscrito, sob pseudónimo, para alguns editores, em que eu já tinha pensado. E já tinhas pensado também no pseudónimo?

Sim, já, não vou dizer qual é. Depois até o usei, não, antes até o tinha usado em alguns concursos, aqueles de originais de contos e coisas assim, mas na verdade não foi preciso, e ainda bem que não foi preciso, tivesse a sorte o facto de estar no meio e o facto de estar a escrever num órgão de comunicação social com uma visão que deu visibilidade.

àqueles textos e isso permitiu à Sofia Fraga interessar-se pelo que eu escrevia. Depois ela foi fundamental para fazer do Bayou um livro muito melhor e do Morro da Pena Ventosa um livro muito melhor. Já não foi a editora deste terceiro livro porque, entretanto, ela mudou-se da porta editora para a Penguin Random House, com muita pena minha. Hoje estou a trabalhar com a Patrícia Francisco, que também fez um excelente trabalho neste livro mais recente, A Mais Bela Maldição.

Tiveste alguns anos até ver o teu livro, o teu primeiro livro a ser editado, publicado nas livrarias, depois de ter estado tantos anos a ajudar outras pessoas a fazerem isso. Como é que depois foi ver o teu nome numa capa muito bonita? Porque os teus livros têm sempre capas muito bonitas. Como é que foi essa experiência? Como é que foi a sensação?

Não foi certamente tão emocionante como é para um autor convencional, na medida em que eu já tinha passado por aquilo centenas de vezes. Eu já tinha publicado centenas de livros, já tinha visto essa emoção na cara dos autores. Portanto, eu estava a viver algo pela primeira vez como se já o tivesse vivido numa outra vida.

ainda assim foi muito bom porque foi a concretização de um sonho e uma série de coisas que aconteceram depois disso foram também muito gratificantes ter o Alberto Mangala apresentar o meu primeiro livro um homem que eu admirava muito que eu não conhecia

e que aceitou apresentar o livro porque leu o livro e gostou dele. Leu-o numa noite quase 500 páginas. E isso para mim foi formidável. O Alberto Manguela é uma espécie de descendente dos escritores que eu mais admiro, que são quase todos, ou uma boa parte deles, latino-americanos.

Portanto, para mim é uma quase emanação do Borges, do Carlos Fuentes, do Miguel Angel Astúrias, do Garcia Marcas, do Vargas Llosa. E foi ele depois que também sugeriu o teu nome para ir para a Casa Baronesa. Sim, para a Santa Madalena Foundation.

A mais desejada residência literária do mundo, na Toscana, em Itália, gerida por uma baronesa que hoje tem 100 anos, que foi amiga do Calvino, o Dalí esteve no casamento dela, uma mulher formidável, amiga do Graham Greene.

mulher extraordinária, que me ensinou muito, de quem eu fiquei amigo e que me deu o privilégio de ir para lá escrever, passar semanas apenas a escrever. Foi, se calhar, ali que eu pela primeira vez me senti escritor, no sentido em que o meu dia-a-dia, o meu cotidiano, estava apenas e só consagrado à escrita e também um pouco à leitura. Eu levantava-me muito cedo.

Lia durante uma hora, tomava o pequeno almoço, lia durante uma hora, depois começava a escrever, até à hora de almoço, que normalmente era uma e meia, duas da tarde, almoçava com a baronesa, bebíamos sempre vinho, um vinho formidável que ela produz. Depois dávamos um pequeno passeio pela propriedade dela, com os cães atrás e tal.

uma quinta lindíssima, e depois disso voltava à minha sala de escrita, onde tinha a olharem para mim um original do Miró e outro do Dali, essa pressão toda, era o escritório do marido dela, entretanto já desaparecido, e depois ao fim da tarde, quando já não conseguia escrever mais, lá para as sete da tarde parava, ia conversar novamente com a baronesa, jantávamos.

voltávamos a beber vinho e ficávamos ali horas a conversar até a hora de ir dormir e portanto a única coisa que eu fazia era isso era ler, escrever o que é um sonho para qualquer autor isto é o que qualquer autor quer estar num cenário daqueles belíssimo a escrever e a ler o dia inteiro sem nada mais a entrar enquanto estou aqui a conversar contigo meu telemóvel deve ter tocado já umas seis vezes pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens pens

Não, prefiro conversar contigo Tal como naquelas circunstâncias Era ótimo não ter de atender o telemóvel E poder estar apenas a escrever E as pessoas sabiam que eu estava ali apenas para escrever E respeitavam esse espaço tão desejado por qualquer escritor

Eu estava até a mencionar isto Já nem sei o que é que perguntaste E eu respondi-te outra coisa qualquer Não, não, não, fiz só aqui uma ligação Porque estavas a falar de quem tinha apresentado o primeiro Ah sim, o Alberto Mangal Exatamente, o primeiro livro Que mandou o meu livro à baronesa para ela ler E foi na sequência disso que ela me convidou

Exatamente, para fazer esta residência literária, onde tiveste esse tempo para escrever em Itália, a baronesa que costuma receber muitos escritores e jovens talentos para poderem ali terem tempo e espaço e desligar, como tu estavas a dizer, o telemóvel e poderem só dedicar ao belo e à escrita.

As residências são muito importantes, já há algumas em Portugal, por exemplo, a Fundação Eça de Queiroz tem uma bela residência, foi uma iniciativa louvável do Afonso Reis Cabral enquanto presidente da Fundação Eça de Queiroz, acabou agora o seu último mandato. Há outras residências, eu diria, menores e menos estruturadas, esta acho que é muito boa porque é remunerada, ou seja, pagam ao autor para ele estar ali, para ele poder fazer face às despesas que tem em casa, na casa que deixa, enquanto vai para ali.

trabalhar e há outras residências muito boas, a Letic House, onde vários portugueses já estiveram, há residências extraordinárias no mundo inteiro e ainda bem que existem porque nós, escritores portugueses, precisamos muito disso, se calhar mais do que os outros autores, porque no estrangeiro, em países maiores...

É mais normal um autor poder ser profissional e, portanto, ter todo o tempo disponível para a sua atividade literária, que hoje em dia não é só a escrita, tem muito a ver também com apresentações, participações em festivais e outras formas de divulgação do seu trabalho, mas para um autor português que não consegue viver dos livros, de facto é imprescindível de vez em quando tirar umas licenças.

sabáticas, digamos, para poder escrever, para poder ir trabalhar de forma totalmente concentrada e dedicada ao livro que quer escrever. Agora, chegou às livrarias, foi este mês, exatamente, março? Sim, sim, no dia 16.

16, exato. Eu estava aqui a fazer as contas ao dia que o episódio vai... 16 de Abril. Exato, dia 16 de Abril. Portanto, chega este livro a mais bela, A Maldição, que é composto por... Bem, eu devia... Tu é que devias já explicar. Mas são textos que escreveste para a visão, mas não só, não é? Também tens textos que foram escritos...

com este propósito. É um livro de não-ficção e um deles é a história deste encontro com a baronesa, com este sítio onde ficaste. Mas não só. Queres falar aqui um bocadinho do livro? Sim. É de facto um livro de não-ficção que nasceu do facto de eu ter escrito alguns textos longos para a revista Visão.

O primeiro deles, a convite da então diretora Mafalda Anjos, que sabendo que eu iria para essa residência, me pediu para contar como seria estar lá, na primeira pessoa. Escrevi o texto, foi publicado na revista, funcionou bem, e logo depois, na sequência disso, há uma amiga que me manda uma fotografia do Aziz, o mais famoso livreiro da Medina de Rabat, que de resto está na capa do livro. E eu olhei para aquilo e pensei, eu quero conhecer este homem.

Aquilo tinha uma brevíssima legenda a dizer. A única coisa que este homem faz durante o dia inteiro é ler, fumar e rezar. Fuma, peca, não é? E depois reza para se redimir. E disse, eu quero conhecer este homem. E eu estava a atravessar Monsanto, a caminho da editora da Bertrand, que fica ali em Benfica.

encostei o carro, peguei no telemóvel, liguei a minha melhor amiga e disse-lhe Luísa, queres ir comigo a Marrocos? Conhecer uma história assim assada e mandei-lhe a fotografia por WhatsApp e ela olhou e disse quero. Então marcámos as viagens naquele momento e passado uns dias estávamos a apanhar um avião para Marrocos para ir para a Medina de Rabat procurar este homem. Não havia forma de o contactar, portanto tínhamos de o ir procurar.

E esta foi, digamos, a primeira aventura pensada para o que poderia vir a ser um livro. Eu iria publicar o texto ainda na visão, por o pulo à Mafalda Anjos e ela aceitou, e portanto o texto saiu depois na visão. Ainda fiz mais duas histórias, a história de um homem com poucos estudos, açoriano, que me foi contada pelo Onésimo Teutónio Almeida, foi ele que me falou dela.

um homem que queria começar a ler e não sabia por onde começar. Então o Onésio me disse-lhe que comece pelos clássicos, pelos melhores livros, falou-lhe dos prémios e disse-lhe que há um prémio, que é o melhor prémio de todos os prémios, que é o prémio Nobel. E ele disse-lhe que se há um prémio que é melhor do que todos os outros...

Eu quero ler os autores que vencem esse prémio. Então, leu Um Homem Sem Estudos, leu todos os vencedores do Prémio Nobel. É um devorador de prémios Nobel, o Ângelo Melo. Está aqui também neste livro, saiu também o artigo na visão e está aqui. Depois ainda fiz a história, fui a São Tomé e Príncipe a convite do Camões.

para um evento literário e, por absoluto acaso, conheci lá um homem que despertou muito a minha curiosidade, um socioeconomista francês reformado, que tinha decidido ir viver para São Tomé por se ter apaixonado por aquele país e que depois decidiu gastar o dinheiro da herança que recebeu dos pais a criar a primeira editora de São Tomé e Príncipe, numa altura em que em São Tomé nem sequer havia uma livraria.

e esse homem, o Jacques-Doménique Benoist, é um indivíduo fascinante, e eu escrevi também um texto para a visão, e quando tinha esses quatro textos já publicados na visão, eu já tinha a certeza de que queria fazer um livro sobre isto. E, portanto, reuni neste livro esses quatro textos iniciais.

e juntei-lhe mais seis, de seis viagens que fiz a partir daí pelo mundo inteiro e que me levaram à Alemanha, novamente à Itália, a Bogotá na Colômbia, aos Estados Unidos, também há mais uma história de Portugal, da Póvoa de Varzim, há essa história de São Tomé e Príncipe, e há o Brasil, e portanto andei a viajar daí em diante.

fazendo viagens que eu queria conhecer, conhecendo pessoas que eu queria conhecer por via da minha curiosidade. Portanto, eu queria conhecer estas pessoas. E, portanto, o livro foi um ótimo pretexto para fazer as viagens, para conhecer as pessoas. Eu sou uma pessoa de pessoas, gosto de pessoas, gosto de admirar os outros.

E há aqui gente que é profundamente admirável. E eu fiquei a admirá-los todos, cada um à sua maneira. Cada um terá também os seus quês. Eu não sou um indivíduo nada manicaísta. Acho que, de facto, todos temos coisas boas e coisas más. Eu gosto de apontar o meu olhar às coisas boas. É isso que me motiva.

E, portanto, este livro são as histórias de 10 pessoas, são 10 histórias em vários pontos do mundo. Elas sabem que fazem parte deste livro? Sabem, sabem, todas. Eu contactei-as dizendo-lhes, olha, eu estou a escrever um livro.

É um livro de histórias de gente excêntrica, bibliófilos excêntricos, gente apaixonada pelos livros e gostava de conhecer a sua história. Se não se importasse, eu gostaria de ir aí, conhecer aí a Bogotá, aí a Alemanha, conhecê-lo ou conhecê-la para conversarmos um bocado e perceber se de facto quer contar essa história no livro.

E todas as histórias que eu recolhi, acabei por contar no livro. Não houve nenhuma que tenha ficado fora. E eu tentei fazer um trabalho de produção bem feito, rigoroso, antes, para não correr o risco de ir atrás de uma história, ir conversar com uma pessoa e depois não o incluir no livro. Não queria fazer isso. E, portanto, houve muitas histórias das quais eu desisti.

Algumas histórias bem interessantes, uma história de uma tradutora do Kuwait é boa, de uma poeta palestiniana também era uma história boa, mas acabou por não funcionar, ainda houve uma altura em que coincidiu a ir para a Ucrânia, porque havia uma história que também queria contar da Ucrânia, não aconteceu.

Se calhar um dia acontecerá, não sei. Gostei muito destas viagens, foram maravilhosas aventuras, com muita maluqueira aqui pelo meio, porque às vezes o meu otimismo enorme fazia-me achar que ia conseguir fazer viagens de 28 horas em apenas 24, e coisas desse género, mas foram viagens de facto inesquecíveis.

e que depois eu quis partilhar com as pessoas. Isto é, digamos, um misto de reportagem com crónica de viagem, com umas pinceladas literárias, porque eu não queria que isto fosse um texto apenas jornalístico, digamos, e porque também não o é, porque o olhar do autor está talvez mais presente nestes textos do que na reportagem convencional. O autor está assumidamente presente em alguns desses textos.

E, portanto, é um género híbrido, digamos, que me dá muito gozo praticar. Houve alguma destas histórias que te marcou mais?

É difícil dizer que talvez a da Baronesa seja aquela que me levou a criar a relação mais sólida com a protagonista de todas estas, embora eu já tivesse uma relação de amizade com o advogado brasileiro que aqui está, o José Paulo Cavalcanti.

que é um obcecado por Fernando Pessoa e tem uma espécie de museu particular que compra todos os objetos, tem três pares de óculos, máquina de escrever, o livrinho que o Pessoa tinha no bolso do Rob quando morreu, tem tudo, além de saber de cor toda a poesia do Pessoa, o que é absolutamente impressionante.

Tem uma paixão louca, é uma obsessão. E eu gosto de obsessões, gosto de apreciar as obsessões, sobretudo quando essas obsessões têm a ver com livros. E esta gente toda tem, de algum modo, obsessões pelos livros. A Baronesa é uma obcecada pela companhia de escritores. Ela, desde que o marido morreu, decidiu transformar a casa dela numa residência. Uma residência para quê? Para escritores. Porquê? Porque ela adora escritores.

porque ela adora o universo da criação literária e, portanto, quer ter aquelas pessoas lá em casa. Que chatice. O John Benville está sempre lá, o Michael Cunningham está sempre lá, a Zedie Smith está sempre lá, só escrevem ali, a Olga Tokarco já esteve lá, a Annie Arnaud já esteve lá. Portanto, quer dizer, acho que é uma bela companhia.

Tu agora estavas a falar sobre essa questão de encontrares fora daqui quem acompanha a literatura portuguesa, o universo também dos nossos escritores e mencionas isso aqui em várias histórias. Como é que é, chegares à Alemanha e a ver o Castelo dos Livros, e a ver lá referências a Portugal, ou eu creio que também acontecia com o Livreiro de Rabat, também tinha...

Eu sabia de... Sim, eu falei-lhe em Saramago e ele respondeu-me com Paulo Coelho. Foi um bocado frustrante. Ah, pois foi. Mas compreendo que o Paulo Coelho estivesse representado na livraria dele, porque, de facto, é um autor muitíssimo vendido no mundo inteiro. Eu preferia que fosse o José Saramago, não só por achar que é melhor escritor, mas também porque é nosso e porque eu sou um grande fã do José Saramago, que acredito...

firmemente que é um dos melhores escritores de todos os tempos, um dos mais geniais de todos os tempos há muitos outros autores que venceram o prémio Nobel de Literatura e que não tinham um décimo do talento e da genialidade do José Saramago

E, portanto, para cada sítio em que eu viajava, obviamente tentava sempre encontrar marcas do nosso país. Às vezes sentia que esse tipo de busca era até um bocadinho de parola, no sentido de talvez exibir um bocado demasiado a nossa pequenez, mas eu não o faria se eu não fosse também um apaixonado pela literatura em língua portuguesa, e sou.

tanto a nossa como a que vem dos outros países de expressão portuguesa. Por exemplo, no Brasil, eu acho que há autores absolutamente geniais, brilhantes. Eu estava a falar do Saramago, poderia falar do Machado de Assis. Machado de Assis é um gigante, é um gigante da dimensão do Eça de Queiroz e são dois gigantes à escala universal. São dois autores de um talento formidável. Também temos o Camilo, quer dizer, nós temos muita sorte.

de termos grandes escritores e do ponto de vista dos autores contemporâneos, também há escritores brilhantes nos Palop, o Germano Almeida, o Mia Couto, o Zé Eduardo Agolusa, a Ana Paula Tavares, uma geração mais jovem, o Ondjá, que havia o Pepetela, também é um grande escritor.

muitos, quer dizer, há grandes escritores que trabalham a língua portuguesa de uma forma notável, porque eu acredito que, de facto, a língua portuguesa é uma das melhores para se fazer literatura, pelo menos se comparada com as outras que eu domino, em que eu consigo ler, eu acho que o português permite coisas absolutamente formidáveis e sinto-me muito contente por ser um autor que escreve.

em língua portuguesa e portanto, olha, nessas viagens lá ia eu sempre ao Duane Betts que é o último dos protagonistas destas histórias eu fiz questão de oferecer um livro do José Saramago e um livro do Fernando Pessoa, quis fazer isso. Agora já tens aqui no teu repertório romance e não ficção gostaste o que é que tu gostas mais?

Eu gosto mais da ficção. Acho que a ficção é mais desafiante. Mas gostei muito de escrever este livro. E não ponho de parte, pelo contrário, a possibilidade de publicar mais livros de não-ficção. Tenho até dois planeados. É possível que venha a fazer biografias também. Mas a ficção estimula-me mais. Tenho um romance em...

em curso, tenho um livro de contos pronto, praticamente pronto. Há muita coisa que ainda quero fazer, ainda há muitos livros que quero escrever. Vamos ver o que é que virá a seguir. Esse livro de contos ainda sai este ano?

Não está sequer planeada a sua publicação. Ele está lá pronto, está a amadurecer na gaveta, na minha adega literária, e vamos ver de que forma ele evolui. É preciso fazer esse teste também aos textos e perceber se eles mantêm algum tipo de interesse passado dois ou três anos ou se aquilo foi apenas um entusiasmo.

do momento, e os contos têm muito isso. É muito fácil uma pessoa entusiasmar-se com o que está a fazer, porque aquilo é rápido de fazer, é rápido de produzir, a comparar com o romance, e muito rapidamente nós conseguimos dar uso às nossas ideias. Essa é uma das grandes vantagens do conto. Eu ontem estive a conversar aqui na RTP2 com o...

no programa do Número Arthur Silva estava lá a Luísa Costa Gomes que eu acho que é uma brilhante contista e acho que quem trabalha o género do conto tem esse privilégio, privilégio de poder

dar serventia a muitas das ideias que o romancista ou consegue integrar no romance que está a fazer ou desperdiça. E, portanto, eu como gosto muito de ideias, de boas ideias, e de aproveitar as boas ideias que tenho, embora às vezes elas pareçam boas num momento e depois no dia seguinte vamos haver, não tenho interesse nenhum, mas gosto de aproveitar e também gosto muito de escrever contos.

Aqui ainda, voltando aqui, tinha aqui outra questão sobre a mais bela, a Maldição. Tu, estas histórias, aconteceu que tinhas a experiência de estar com a pessoa, às vezes vários dias, cruzavas-te com as pessoas que são aqui as protagonistas do livro. Tu escrevias logo a história a seguir, ou pelo menos umas linhas, ou como é que funcionava?

Era inevitável, sim. Aliás, eu estava a conversar com eles. Eu tenho um método de trabalho para este tipo de coisas, que é, eu estou a gravar e ao mesmo tempo estou a escrever no telemóvel. Escrevo muito depressa no telemóvel, tal como escrevo muito depressa no computador, melhor seria ainda levar o computador, mas normalmente levo só o telemóvel.

E estou logo, às vezes, a transcrever, ou outras vezes, enquanto a pessoa está a falar comigo, já estou a escrever frases que integram o que eu estou ali a beber. E depois, no percurso, nas viagens, às vezes de comboio, outras vezes de carro, encosto o carro e escrevo qualquer coisa, anoto, gravo coisas para não me esquecer, no dictafone, no comboio estou sempre a escrever...

porque naquele momento o texto começa a aparecer. E uma pessoa não quer desperdiçar com medo de perder o que está ali a surgir e que no momento em que surge, como eu dizia há bocado, parece sempre ótimo. Depois vamos a ver e dizer, isto parecia-me tão bom e afinal é tão banal. Mas a escrita é isso, não é? É um trabalho de reescrita constante, de melhoria do que estamos a fazer.

mas a maioria dos textos, hoje tenho também o à vontade suficiente para poder fazer a viagem e depois escrever passado uma semana ou duas ou três à vontade porque tenho as notas e depois aquilo reaparece tudo. Mas é muito melhor poder escrever naquele momento, tal como na ficção é excelente.

nós podermos escrever quando nos surge a ideia e quando sentimos o entusiasmo da escrita. Essa coisa que alguns chamam de inspiração, e ok, poderemos utilizar essa palavra, é muito bom escrever nesses momentos.

Essa poluição febril é agora. Agora estão a acontecer as coisas aqui dentro e parece que estão a ser despejadas na minha cabeça e eu preciso despejar rapidamente para o texto. Quando uma pessoa entra nesse registro, nesse caminho, é uma sensação formidável. É das melhores coisas que há no mundo.

Aliás, eu escrevi na semana passada também um texto para a visão, a propósito do Dia Mundial do Livro, e eu consagro a primeira parte do texto ao entusiasmo. O entusiasmo é a coisa que eu mais gosto de sentir. E, portanto, enquanto autor, eu também sou um autor que está sempre à procura do entusiasmo, de sentir o entusiasmo. Gosto disso enquanto leitor, entusiasmar-me com um autor que descubro.

e gosto muito disso enquanto autor que é sentir, é pá, encontrei um caminho para esta história já sei o que é que vou fazer aqui e aquele momento é um fervilhar de emoção cá dentro que não tem comparação

É muito engraçado falar sobre essa questão do vais escrevendo notas, vais gravando no dicofone, porque nós, por vezes, quando estamos a fazer reportagens, também nos acontece muito, ainda por cima em rádio, não é? Que não temos aqui o auxílio da Câmara de filmar. Portanto, às vezes eu tenho notas no telemóvel, que é do género o céu azul, a árvore está assim, tinha ali um passarinho que estava a cantar desta maneira.

Porque às vezes pode ser útil para fazer aqui uma imagem sonora ou descritiva. Eu aqui quis fazer muito isto. As pessoas que já leram o livro vão-me dizendo que estou a viajar com o livro. Eu quis que isso acontecesse. Eu quis transportar.

a pessoa para o local, porque a única forma de entender verdadeiramente destes protagonistas é perceber também o contexto em que eles se inserem. Portanto, é muito importante mostrar como é a cidade ou a vila em que eles moram, tentar mostrar os hábitos deles, o contexto socioeconómico em que se inserem, falar da política do país. Isso é muito importante para as pessoas conseguirem ver o objetivo do autor.

seja na não-ficção, mas também na ficção, é mostrar. O que nós queremos é mostrar, é iluminar os assuntos. Na ficção, o objetivo não é dar respostas. Se calhar na não-ficção, mas não nesta, o objetivo pode ser dar respostas. Nós vamos comprar um livro de receitas, o que temos ali são respostas, receitas de culinária, ou um livro sobre bricolagem.

O livro dá-nos respostas. A ficção não procura dar respostas, nem procura tão pouco moralizar. O que a ficção procura fazer, se calhar, é mais ajudar-nos a criarmos as nossas próprias perguntas, o nosso caminho de descoberta e, para isso, o autor, e nestes textos eu procuro também fazer isso, embora me permita dar opiniões.

O autor o que procura é filmar, apontar o foco, iluminar. Eu uso muitas vezes o verbo iluminar porque acho que é particularmente eficaz para explicar esta ideia. É como se fôssemos o técnico de luz no teatro que está a apontar o foco à personagem, ao acontecimento. É isso que eu sinto que sou e é isso que eu gosto de fazer. Permitir ao outro ver como eu estou a ver.

Isso é muito bonito, essa imagem de levar o outro. É isso que os meus autores favoritos fazem comigo. Portanto, eu tento fazer com o leitor aquilo que gosto que façam comigo. Não estou a pensar no leitor naquele momento em concreto. Estou a pensar, se calhar, no leitor em abstrato ou, como eu costumo dizer, de forma mais egoísta, num leitor que se chama Rui, que sou eu. E, portanto, eu faço como eu gosto que façam comigo.

Rui, temos então aqui A Mais Bela Maldição, um livro que saiu agora. Já falámos aqui um bocadinho sobre o teu trajeto no mundo na edição de livros, como assessor, como escritor. E agora tens, agora já há uns meses, já desde o final do ano passado, talvez, há um ano.

Estás aqui a trabalhar Noutro projeto E és o comissário do Babel Do Babel? Do Babel Que é aqui um grande evento literário Que vai acontecer no Porto Entre os dias 24 de junho e 29 Conta-me mais sobre este projeto Como é que isto surge? O que é que vai acontecer?

Surge da visão da família Pedro Pinto, que tem a Fundação Livraria Lelo e a Livraria Lelo, a vontade de, em ano de centésimo, vigésimo aniversário daquela histórica livraria, fazer um grande evento que unisse vários dos projetos que o grupo tem em curso.

Muitos deles estão ainda em curso, outros estão prestes a ser finalizados e esse evento seria uma grande celebração da palavra do território como contributo justamente para o desenvolvimento do território. A família Pedro Pinto acredita que a melhor forma de contribuir para o desenvolvimento do território é justamente investindo na cultura.

E eu sinto-me profundamente alinhado com essa visão. E, portanto, quando me desafiaram, já há mais de um ano, para comissariar esse futuro grande evento, tendo por base esta premissa, eu disse logo que sim. Não só porque sou um profundo apaixonado pela cidade do Porto,

mas também porque me interessa muito fazer do livro bandeira. Acredito que nos dias que vivemos, de ódios, de guerras, o livro é um caminho que nós não podemos deixar de incentivar os outros a trilharem. Acho que temos de fazer isso pelas novas gerações, pelo futuro da humanidade.

E, portanto, entusiasmei-me com isto. Estávamos há pouco a falar de entusiasmo. Entusiasmei-me muito com isto, com o entusiasmo contagiante do Pedro Pinto, líder da Fundação, presidente da Fundação Livraria Lelo.

e pus mãos à obra, faz agora um ano, o meu último dia na editora foi a 25 de abril do ano passado, e no dia 1 de maio, 2 de maio, estava a começar o projeto daquilo que viria a ser o Babel, que é um evento literário e cultural que acontece nas praças e ruas da cidade do Porto. A Fundação trabalha para este evento em coprodução com a Câmara Municipal do Porto, que se quis associar desde o primeiro instante...

a este projeto, por via da visão do vereador Jorge Sobrado e do presidente Pedro Duarte, que são grandes entusiastas do livro, da leitura e do Babel em concreto. E o que vamos fazer distingue-se por duas razões. Por um lado, vamos trazer à cidade do Porto muitos dos maiores escritores mundiais. Os eventos literários, eu diria, costumam ter um ou dois cabeças de cartaz. Nós temos para a ideia.

Temos o Salman Rushdie, a Margaret Atto, do Byung Shulan. Temos a Olga Tokar, que é o último Nobel. Temos o Javier Cercas, o Julian Barnes. Temos o Hector Abad de Facialins, a Conceição Evaristo. Temos os nossos Lídia Jorge, Gonçalem Tavares, Walter Ugumem, Dulce Maria Cardoso.

temos o Milton Atom, não sei se já referi, temos a Ana Paula Tavares, o Rafael Galo, o Francisco Mota Saraiva, a Filipe Martins, a Isabel Rio Novo, os grandes João de Melo. Temos um cartaz formidável, que eu, enquanto apreciador de literatura, sentiria ser um cartaz extraordinário. Como comissário do Abel, ainda acho mais, porque sei a dificuldade que foi construir um cartaz desta qualidade.

e depois temos um outro aspecto que nos distingue totalmente de todos os eventos literários do mundo, que é a forma de acesso às sessões. Era isso que eu queria saber, porque é uma maneira muito especial. É. Há uma coisa que é muito difícil aferir nos eventos literários, que é o resultado dessa política cultural.

Ou seja, as autarquias, os municípios, quase todos em Portugal hoje têm eventos literários, sejam festivais, sejam feiras, mas depois mensurar, saber exatamente quanto é que isso contribuiu para que as pessoas lessem mais, se aproximassem mais das livrarias, comprassem mais livros.

se tornassem mais e melhores leitores, é muito difícil. Eu diria que é quase impossível de conseguir, mas com o Babel nós vamos conseguir fazer isso. Ou seja, nós pegámos no modelo da Livraria Lelo, que convida as pessoas a adquirirem um voucher que se pode descontar.

numa compra na livraria e em breve provavelmente a livraria Lelo vai pedir às pessoas para comprarem livros para entrarem na livraria, mas o que decidimos fazer no Babel foi dar um toquezinho a esse modelo e pedir às pessoas que se dirigissem às livrarias da cidade do Porto e comprassem um livro.

independentemente do preço. Portanto, podemos ir a uma grande cadeia livreira e comprar uma novidade, podemos ir aos chamados livreiros independentes e comprar também uma novidade, mas podemos ir também a uma livraria de livros em segunda mão ou a uma alfarrabista e comprar um livro mais barato. E qualquer uma destas compras dá acesso a uma senha. Essa senha tem um código alfanumérico, é o livreiro que dá a senha, parece uma rifa.

Tem um código. Pegamos nesse código, introduzimos-o em babel.pt, babel com dois L's, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso, pensamos em bolso,

e a partir daí escolhemos a sessão a queremos assistir. Imaginemos Salman Rushdie, quero ver, ou Margaret Atwood, carregamos lá, como quando vamos ao teatro ou comprar um bilhete para um concerto, e depois recebemos o bilhete comodamente no nosso e-mail, no nosso telemóvel, e isso permite-nos o acesso à sessão. Mas...

Além da pessoa ter o bilhete para a sessão, depois de comprado um livro, independentemente do preço, a pessoa tem de fazer outra coisa durante o Babel. Só acede a uma sessão do Babel quem se fizer acompanhar por um livro. É preciso ter um livro na mão. Portanto, nessa semana do Babel, nós vamos ver milhares de pessoas com livros na mão.

E nós queremos, como disse, agitar a bandeira do livro. Por isso é preciso mostrar os livros, mostrar a quem não lê que há quem leia e senda de livro na mão é por alguma razão, porque isto é bom, é muito bom. Tem de ser um livro físico? Tem de ser um livro em papel, mas também pode ser um Kindle, ou um Kobo, ou um dispositivo eletrónico, tenha lá um livro, está tudo bem, é um livro na mesma.

Como é que está a correr essa... Os bilhetes já estão disponíveis? Sim. Como é que isso está a correr? Desde dia 6 de abril está a correr muito bem. Aliás, há sessões esgotadas. Por exemplo, a sessão do Byung-Chul Han foi a primeira a esgotar. É o filósofo mais lido no mundo e essa sessão já esgotou. A sessão da Margaret Atwood também já esgotou, mas depois nós abrimos mais uns lugarzinhos que ainda tínhamos guardado.

e é provável que outras esgotem muito rapidamente. Não sei em que dia vai para o ar esta conversa, se calhar quando nos ouvirem as pessoas já vão encontrar mais sessões esgotadas, há muitos milhares de bilhetes já emitidos, estamos muito contentes com isso, os livreiros da cidade também.

que me dizem, é pá, o Rui, esta semana entraram aqui 100 pessoas que nunca tinham entrado aqui na livraria, felicíssimos da vida, e é muito importante dizer, a Fundação Livraria Lelo, a organização do Babel, não ganha nada com a venda destes livros. O dinheiro é todo para os livreiros.

A Fundação Livraria Lelo só gasta dinheiro com isto, só investe. E estamos a falar de um orçamento ali a beirar os 3 milhões de euros de investimento, de oferta, às pessoas, aos interessados pelos livros. Vou-te fazer uma pergunta que é muito ampla, de propósito, para tu escolheres para onde é que vais. Como é que está o mundo dos livros em Portugal?

É de facto uma pergunta que permite várias respostas. Eu vou responder-te assim. Acho que do ponto de vista autoral...

Está bem e recomenda-se. Acho que há autores muito bons. Gosto muito de ler vários autores portugueses. Atravessa a um certo nível, talvez uma certa fase de orfandade inevitável depois do desaparecimento do José Saramago e do António Lobo Antunes. Felizmente temos outros grandes escritores.

Já falei aqui de alguns deles, a Lídia Jorge, o João de Melo, a Luísa Costa Gomes, ainda temos o José Rentes de Carvalho, grande escritor também, o Mário de Carvalho, mas acho que, de facto, essas figuras tutelares, como eram os de Saramago e o Lobo Antunes, que nos davam o orgulho.

de sabermos que sendo um pequeníssimo país, tínhamos dois dos maiores do mundo. É inevitável sentirmos esse orgulho. Mas estão a surgir grandes talentos. E eu sinto-me muito feliz por conhecer, privar e ler muitos talentos que acho que vão ser muito bons para os leitores portugueses e para leitores de outras paragens. Portanto, nesse domínio, acho que estamos muito bem.

e se calhar ficaríamos por aqui eu vou deixar ficarmos por aqui muito obrigada Rui voltamos para a semana boas leituras