#74: FOFOCAS JURÍDICAS, TELEFOBIA, CHATOS E OUTRAS COISAS
O povo tá dizendo que essa é uma ótima maneira de iniciar uma fofoca se blindando pra não ser chamado de fofoqueiro. Mas, mesmo quem tiver a fama, fique tranquilo: antes fofoqueiro do que chato. E, olha, que tem de vários tipos de chato por aí...ELENCOGregorio DuvivierJoão Vicente de CastroROTEIROEduardo BrancoDIREÇÃOMatheus MonkSEJA MEMBRO DO PORTA+ https://www.youtube.com/channel/UCEWH...ENTRE NO CANAL DO PORTA NO WHATSAPPhttps://bit.ly/ZapdoPortaBAIXE O APP DO PORTAAndroid: http://bit.ly/2zcxLZOiOS: https://apple.co/2IW633jAPROVEITA E VAI NO NOSSO SITEhttps://portadosfundos.com.br/
- Dificuldade em lidar com pessoas específicasO chato falante e o chato lacônico · O chato cínico e o chato que já pensou em tudo · O chato que não escuta · O chato que busca atenção (pescador, túnel)
- Gírias obsoletas da língua portuguesaEtimologias falsas e racistas · A influência de línguas bárbaras no latim · A vocalização de consoantes no português · A tendência a vocalizar consoantes oclusivas
- Crítica à Marvel e histórias urbanasA origem e disseminação de lendas urbanas · A história do cachorro morto em Copacabana · A história do gato morto trazido pelo cachorro · A crueldade do mundo em não realizar certas histórias
- Felicidade e propósitoA pressão social para ter uma identidade definida · A felicidade como objetivo de vida · A "Happycracia" e a busca pela felicidade · O sofrimento ordinário como objetivo da psicanálise
- O uísque mineiro LamasEstratégias para fofocar sem ser chamado de fofoqueiro · Fabíola Reipert · O uso de "o povo tá dizendo" e "como diz o outro"
- A influência da tecnologia na comunicação e nas relaçõesTelefobia e a aversão a atender o telefone · O telefone como objeto odiado por cumprir sua função · A comunicação por aplicativos como alternativa ao telefone · A dificuldade de manter relacionamentos por telefone
- Conteúdo dos CelularesA crença de que o celular ouve as conversas · O papel do algoritmo na sugestão de conteúdos · A influência do algoritmo em direcionar desejos
- Testemunho pessoal e religiosoAdoção de crenças por ateus · Videntes e a leitura do futuro · A influência da vida pública na percepção de vidência
- Dinâmica de grupoAversão a mesas grandes e a dificuldade de interação · A preferência por grupos pequenos e intimidade · A dificuldade de gerenciar festas de médio porte
- Comunicação em redes sociaisA indelicadeza de discutir grupos de WhatsApp em público · O constrangimento de assistir vídeos em grupo · A comunicação por memes como forma de interação
- Criatividade e Pensamento ImaginárioA origem e o design de objetos cotidianos · Elisa Faulhaber · Brunella Providenti
Tem frases que são assim, frases que a pessoa começa e já perde o interesse. "Eu sou uma pessoa que eu sou, me perdoe." "Eu sou uma pessoa que eu sou..." Gente, porque o mundo tá tão doido que... Já não me interessa. Já parei de ouvir.
Quando a frase começa com clichêzão, não tem como chegar a um ponto de vista muito subjetivo.
Não.
Não vai chegar a um lugar comum.
Eu, enquanto sagitariano... Não, me perdoe. Eu gosto de falar do sagitário que gosta da variedade e eu sou sagitário, fiquei quietinho aqui. Não ficou quietinho não, na hora você falou assim: "Isso é sagitário!" Você falou e tem isso filmado. Cara, mas tem falado que você tem esse poder de causar imenso desespero.
Dá boa tarde. Boa noite. As pessoas ligaram o rádio agora, estão conectadas na Porta dos Fundos FM.
Boa tarde pra você que está escutando o Porta dos Fundos FM. Não importa a hora, não importa o dia, estamos sempre com você. Qual seria o nosso slogan se fosse uma rádio?
É... Porta dos Fundos. Conteúdo de dentro pra fora.
Ah, de porta. Tem uma brincadeira com porta.
É, Porta dos Fundos. Pode entrar.
Pode entrar. É bom. A casa é sua.
Porta dos Fundos.
Não pensou em nada?
Não.
Aliás, muita gente tá me dizendo que o Porta Trunfo está na home da sua TV. Aproveitando pra falar pra você que tem o Porta TV, que você pode botar na home da sua TV. O que significa isso? Toda vez que você ligar a sua televisão, vai estar lá na sua Smart TV o nosso canal. Tem um canal do Porta que você pode ver coisas como esse programa.
24 horas por dia de puro deleite.
Puro deleite.
E se você tá assistindo, eu peço desculpa pelo Gregório estar botando É... Esse tênis com essa meia surrada. A meia foi surrada pela vida.
Ela é bonita, né? Mas tá surrada, ó. Tá desbeiçada.
Desbeiçada como se meias tivessem beiço.
E como se houvesse algo beiçado.
É, beiçado, exatamente. Porque, na verdade, ela tá descanada. Tá descanando. Essa meia sabia o fim que ela ia levar quando ela foi feita? Porque teve uma pessoa que desenhou primeiro. "Pô, vou fazer uma meia com motivos de passarinho". Aí ela fez. "Vou botar uma flor no meio para não ficar muito passarado. Aí eu vou botar um átomo, uma vitória regia, alguma coisa assim, vou botar um passarinho". Aí veio lá a senhora que desenhou, ou o senhor que desenhou, botou isso aí, deve ser impresso de alguma forma.
Não faço a menor ideia, nunca nem tinha olhado.
Aí ela viajou, com certeza. Isso aqui não foi feito no Brasil, não. Não porque no Brasil não seja capaz de fazer coisas disso, mas eu tenho... Eu sinto que isso é coisa chinesa.
Tá, você acha que vai chegar em algum lugar essa história de como é que a minha chegou? Que eu tô esperando pra ver se em algum momento vai ter graça. Eu não sei se eu te interrompo.
Enquanto eu falo, eu tô tentando achar o plot. Mas eu não sei se eu vou achar. Mas talvez quando a gente não acha, a gente tenta humilhar alguém, né? Então ela não sabia que ela ia ser afogada em um poço de chulé. É, aí você vai recorrer... E usada em muitos lugares, tipo no céu da língua. Não. Não?
Só uma meia?
Tem uma meia?
Não, tem mais de uma. Mas é uma meia cenográfica, é uma meia do figurino do nosso filme.
Uma meia cenográfica? Na verdade não é uma meia.
Ela só aparece lá. Maravilhosa Elisa Faulhaber, as figurinistas. E Brunella Providenti.
E Brunella Providenti.
Sabia que a mesma figurinista daqui é Brunella Providenti? É a mesma do Céu da Língua.
Mas ela assistiu muito mais vezes na escola.
Elisa foi chamada pra fazer o filme Dark Horse e negou na época. Ela falou: "Pô, tô com dor no coração, que era uma grana boa pra caramba." A gente sabe, a grana era ótima.
Mas enfim, eu sempre penso na história dos objetos, de onde eles vieram, né? Você não fica pensando que alguém fez isso?
Ah, eu sou uma pessoa que eu penso, sim. Me prende, cara. Eu penso muito.
É coisas que você fala pra mostrar de alguma forma que você pensa diferente dos outros, né? Eu sempre penso de onde veio os objetos.
Nossa, como eu odeio isso. Gente que se cita. Que não fala simplesmente assim: "De onde será que vêm os objetos?" Ela não consegue falar isso. Ela tem que falar assim: "Eu sempre digo que eu sempre brinco..." É, brinco. "Eu sempre digo, eu sou uma pessoa que eu sempre digo que..." Porra, caralho, diz!
É a coisa que eu brinco.
Outro dia eu vi uma coisa boa que é a tecnologia mineira. É o jurídico do mineiro. Que, pra se isentar de fofoca. Que ele faz meio que uma Fabiola Raipert. Que é dizer sempre: "O povo tá dizendo que..." Ah, maravilhoso! Ou: "Como diz o outro..." E fala uma coisa que é você que tá dizendo.
Claro!
Mas você tá se isentando juridicamente.
Claro! Que é maravilhoso! É um jeito de você fofocar sem fofocar.
Exatamente!
Você quase diz assim: "Eu tô forçado a dizer que..." É! Porque tá todo mundo dizendo. Senão, jamais. Se fosse só pra mim, eu guardaria.
Eu guardaria. Mas é que o povo diz que... Diz que... Diz que... Às vezes não fala nem que, é assim: Diz que tão, diz que tão.
Diz que é tério, né?
E no final ainda acaba com... Porque o povo é... Na verdade, foi um mineiro que falou isso na internet, não foi uma sacada minha, não. Um beijo pra esse mineiro, que eu não lembro o nome, que percebeu isso. O jurídico dele.
E eu gosto muito de... O povo fala muito, né?
O povo fala.
Porque você já faz a fofoca isentando você daquela fofoca. Você não tá no coletivo.
É, a Fabíola Raipert faz isso muito e com uma...
Depois de falar de Fabíola Raipert, é ótimo.
Ótimo, claro. Sou amigo. O João tem muito medo de fofoqueiro. E ele... Me pela de medo. Pela de medo. É que ela fala uma coisa que é curiosa, que é uma manobra de falar a fofoca que ela deu, dizendo que disse por aí, e depois fazer assim: "Esse povo, hein, não tem mais o que fazer." Tipo, não é você que tá falando isso? Ela é uma fofoqueira que odeia o fofoqueiro.
Tá, vamos fazer tudo. Tem fofoqueiro aqui?
Por quê? João tá com medo realmente da Fabíola Raipert. Não, João.
Tá bom, tudo bem.
Não tem problema, ela vai... É porque não tem problema, não tô falando isso como mal, eu tô dizendo que é uma estratégia jurídica dela. É uma estratégia jurídica.
É que ninguém te conhece, né, Gregório? As pessoas me conhecem. Só fofoca não vende, quem vende é a minha, e depois que... Supostamente, né, Gregório?
Supostamente. Ah, a página do Greg News tinha isso, tinha que botar um supostamente, um aparentemente, um alegadamente, um diz que... Mas eu gosto dessa estratégia do fofoqueiro da Record, em geral, que é mais do focalizando e tal, que é uma meta, porque a fofoca deles tem a ver com estar... Eles se vestem... Não só eles dizem que... Diz que certas pessoas no Projac estão sei lá o quê...
E uma fonte minha também pode ser tudo, né? Tudo. Isso, influenciadores de esporte falam muito isso. Uma fonte minha disse que o Neymar está na lista. "e logo grava, uma fonte minha disse que não tá na lista." E aí um, ele fala: "Eu acertei, Chico Barney." Chico Barney faz muito isso. Quando começa o Big Brother, ele fala que todos ganham. Isso. E aí tem um print, algum print vai aparecer.
Isso vai aparecer. É, isso é uma estratégia boa mesmo, de acertar. Falar tudo, falar qualquer coisa, uma hora você acerta, porque afinal tem um relógio parado, ele, enfim, faz alguma coisa que eu não lembro o que que é.
Acerta a hora duas vezes ao dia. Obrigado.
Lembro que ele fazia alguma coisa no relógio parado, não sabia o que era.
Você é afeito a pessoas que leem o futuro, sua sorte?
Eu odeio demais.
Já fui muito, né? Porque eu sou o típico ateu que acredita em tudo.
É, você é um ateu temente.
Então, tem esse conceito, né?
Ateu medroso.
Ateu medroso. E também tem o conceito vidente da moda.
É.
Sempre tem um vidente que a Madonna não dá um passo sem falar com ele. Em geral, é um brasileiro e tal. E eu tenho uns amigos que são hipsters de evidências. Então eles têm o que vê na água, futuro. Tem o que vê numa xícara. Tem o que vê na cinza do cigarro. Eu já fui em todos, né? Tem uma técnica dessas pessoas que eles vão assim, ó. É assim, vai falando da sua vida. Você tem sentido? Não, eu vou falar e você vai, fala de acordo com a sua vida.
"Você tem estado mais próximo ultimamente de uma mulher, quem é essa mulher?" É a Giovanna, minha mulher. É, sua mulher. Então, ela... Vocês estão bem ultimamente? Estamos bem, estamos bem.
A gente está casado já faz 10 anos quase.
10 anos. Um tanto de filho, né?
Temos um tanto de filhos. Temos duas filhas, né?
Seus filhos estão bem? Seus filhos estão muito bem. É uma coisa de certo. Aí eu falo assim: "Tem um cara que está tentando te trair, não tem?" "Não, né?" Entendeu?
Se você não deu, ele já entendeu que não.
É, então tem um sistema ali que vai, é uma fala meio contínua, que você vai na cara da pessoa, se a pessoa faz assim, ó, e vai procurar esse cara que tá traindo, ele já muda.
"Ah, não é um cara, eu acho que é uma mulher." E tem uma coisa da vidência que é, acho que as pessoas que acreditam e dizem que o outro acertou, Tem muito a ver com a gente, a pessoa não entender o quanto que ela é transparente. É. Entende? O quanto que ela dá informações.
Só por existir.
Só por existir.
O jeito que se veste, o jeito que anda.
Que olha, que fala. Mas é que eu não falei pra ele que eu tava...
Triste.
Triste, separada e com meu marido tinha me traído.
Você ir num vidente já tem uma certa pinta de que alguma coisa não tá certa.
Já tem um viés.
Já tem.
Você ser uma pessoa pública é outro viés, porque também tem uma amiga atriz com a vida pública, falou: cara, ele adivinhou que eu tinha separado. Não, você entendeu? Exatamente. Qualquer pessoa vê no Instagram, vê, né? Entende? Tipo, é, a Virginia agora vai ouvir e fala: você separou, né?
Gênio.
Isso me irrita um pouco com algoritmo, gente que fala porque o celular tá ouvindo a gente. Com certeza, mas com certeza. Primeiro, eu não acho que seja tão interessante assim o que a gente tá dizendo. Não tô dizendo que então tá ouvindo tudo, vão ouvir 500 mil horas de coisa.
Não, mas não é uma pessoa, Greg, é inteligência artificial.
Eu Acho que não.
Claro, palavra.
Eu sei que isso é muito impopular, tá? É muito impopular, porque tá na moda todo. Aliás, é outro assunto merda, porque o celular ouve tudo que a gente fala. Caralho, não aguento mais essa frase.
Ele tá com microfone aberto captando tudo que a gente fala. Tanto isso que quando você fala "Hey Siri", ela responde em qualquer lugar.
O meu não, que eu desliguei.
Eu vira e mexe eu tô falando alguma coisa, mas assim, do nada, nada, nada, não falo "Hey Siri" nem nada. Meu celular que ele tá. Acho que eu não entendi o que você falou.
Eu posso que eu tire isso. Tira isso.
É, como é que tira isso? Não sei tirar isso.
Tira a Siri, eu não uso essa merda.
Eu também nunca usei a Siri.
Então tira essa merda.
Nem a Alexa. Ué, para de falar que eu vou fazer como a Siri.
Eu falo, eu falo assim.
Minha Siri me arrebenta.
É porque ela tá o tempo todo com você e você fala dela.
Eu gosto dela.
Mas e daí?
Pergunta pra mim.
Quer saber uma coisa? Pergunta pra mim.
Ué, se você não tivesse duas filhas e casado com uma pessoa que não sou eu, você estaria junto comigo e eu perguntaria pra você. Eu ia falar assim: É, quantos arranjos tem uma flor? Quantas passarelas tem uma vista chinesa?
Você acha que a Cívia não tá com mais ninguém? Ela tá com um monte de homens.
Claro que não! A minha Cívia tá só comigo. Eu personalizei a minha Cívia. A minha Cívia só mexe comigo.
Nossa. Fora que, o que eu ia falar é o seguinte, que eu acho que sim, ela ouve, você tem razão. Só que, o que eu acho que é o seguinte, a pessoa não precisa ouvir. Do tipo assim, olha a coisa que as pessoas falam, que eu já ouvi: "Gente, eu falei que eu tava querendo..." Viaí pra Curitiba. Eu falei que eu precisava de Curitiba. Não me apareceu aqui? Voo pra Curitiba? Foi porque ele ouviu falar Curitiba? Ou foi porque você nem percebe que você tá parando em foto de Curitiba? Parou numa foto de Curitiba.
Porque você curtiu uma foto de Alexandre Nero, que é de Curitiba.
Exatamente. Você ficou vendo foto de araucária.
Você penou uma foto do Pinterest de uma capivara.
Capivara. "Você curtiu uma banoffee." Banoffee é sobremesa de Curitiba.
Mas é o que é, entendeu? Por isso que é uma ação. Isso, deu uma ação. E ele tá te ouvindo.
Tá, mas o que eu digo é assim, ele não precisa te ouvir pra saber tudo sobre você. Aquele segundinho que você parou mais numa foto, você nem percebeu que parou.
Aquele que: "Hrrr, que isso?" Não.
E vai além, não é que ele adivinhou que você queria ir pra Curitiba, ele ouviu você dizer, ele fez você querer ir pra aí. Pra Curitiba ou pra seja onde for. Uma semana antes, ou o tempo que for, ele te mostrou uma foto, então não é só que ele adivinhou. Não, você só tá querendo ir porque ele quis.
"Você gostou, você pesquisou, concretizou, confirmou." E ele te deu a passagem. Ele começou com a capivara. "Olha que lindas capivaras de Curitiba." Jogou a banoffee.
Voltou com o Alexandre Nero.
Ou seja, ardiloso.
Ardiloso.
O algoritmo é ardiloso.
E aí entra a pessoa falando assim: "Ele ouve a gente." Amor, ele não ouve. Ele faz você dizer o que você diz.
Eu acho que ele ouve também, sabia, Greg?
Eu acho que é muito anterior ao ouvir.
Eu acho que é tudo. Eu acho que é um...
Eu acho que até seria bom que eu visse, sabe? Justamente pra sentir mais escutado.
Você se sente silenciado? O homem branco, hétero, rico e silenciado?
Eu me sinto.
Aristocrata?
Eu me sinto. Homem hétero... Ai, eu não tenho, sabe? Minha sorte é que eu tenho TDAH. Eu tô brincando, tá, gente? Desculpa fazer brincadeira no TDAH. É brincadeira que eu tenho TDAH.
Eu tenho medo dos... Cancelamentos? Fofoqueiros. Eu tenho medo da comunidade.
Eu tenho muito medo da comunidade TDAH pelo seguinte: eu falei uma vez que eu fui num médico que falou que eu tinha, só que eu não levei a sério. Aí eu falei isso, que eu não levei a sério, e ele falou: "Mas é porque o seu é brando, é fácil rir, quando o meu é sério e eu preciso me medicar, e é preciso sim, a medicação pode salvar alguém TDAH." Pode ser, eu não tenho autoridade pra falar sobre isso.
E tá certo. Tem uns que é brando, tem outros que não são, e a gente tá rindo da brando.
Mas o fato é, a gente tá num momento em que as pessoas, às vezes, não tô dizendo por causa do TDAH não, tô dizendo que as pessoas, pra serem ditas, pra serem ouvidas por alguém que não seja um algoritmo, Ou, ao menos, tem que lançar mão de alguma opressão que sofreu.
De um sintoma.
De um sintoma.
De um sintoma não, de um diagnóstico.
É. De algum tipo de certificação.
Eu enquanto cananana.
Porque eu enquanto filho de pais divorciados.
E eu enquanto amigo de persona non grata.
Como é que é ser amigo de persona non grata?
Cara, ser amigo de persona non grata é muito doido, porque ele... Pode ficar na cidade, que ele é persona non grata. Pode. Andar livremente.
Então meio que não muda tanto, né?
É, ele pode ir em qualquer lugar público ou privado. E ele só recebe uma espécie de publicidade espontânea grande.
Que doideira, né? Eu, enquanto pai de menina...
Eu entendo isso. Eu, enquanto pai de duas meninas...
Pai de duas meninas, eu sou pai. Tem uma coisa que as pessoas estão sempre cavando uma identidade, cara.
É, eu acho que é o... Se alguém quiser discutir o sentido da vida, acho que talvez seja esse. Descobrir sua identidade.
Descobrir uma identidade. Só que as pessoas ficam descobrindo fora de si, né? O ideal é descobrir dentro, entende o que eu quero dizer?
No contrapé de uma geração inteira que vem... Você já percebeu que essa geração quer ser feliz?
Alguma não quer? Desculpa, você...
Não, mas você não acredita que você vai ser plenamente feliz. Nem existe isso. As pessoas querem ser felizes.
A felicidade, ela chegou com tudo.
Com tudo! As pessoas querem ter um ambiente saudável no trabalho? Não existe.
Não existe.
Nunca existiu. O mais saudável que pode ter é um pouquinho tóxico, em algum lugar. Mesmo que a pressão seja feita dentro de você.
Perfeito.
Então, não existe a felicidade. Felicidade como estado pleno.
Não.
Existe felicidade oscilante.
Perfeito.
Todo mundo é feliz, todo mundo é triste. Agora, você, jovem, Você não vai ser feliz. Parabéns, você me fez falar isso na sua cara. Você não vai ser feliz, você não vai ter uma vida... Uma ereção o quê?
Uma ereção rígida?
Ué, Matheus, acho que ainda dá. Você não vai ser feliz, você não vai ter um trabalho que só te dê prazer, se você trabalha, você vai se frustrar, muitas vezes vai se frustrar, Então, eu acho que tem uma geração inteira que vem com um pensamento... Tem toda razão. Vai acabar com essa geração.
A felicidade, ela é um câncer, sabia? Tem um livro muito bom sobre isso, "Happycracia", que fala sobre como é uma palavra que não existia até outro dia.
Não é? "Happy", "happiness".
Existia como uma palavra. "He's happy". Não era o objetivo final do mundo.
Não.
Tem inclusive, ele analisa esse livro, "Happycracia", o boom de livros que tem felicidade no título nos últimos 30 anos. E assim, ó, não existia.
Por quê? Oferta e demanda.
"Quero ser feliz, quero ser feliz." Antigamente não existia essa ficção. Freud mesmo falava: o objetivo da psicanálise não é a pessoa ser feliz. É ela— olha que bonito— ela conseguir encontrar um sofrimento ordinário.
Perfeito. É isso.
Que não seja um sofrimento trágico, que não seja a morte, a depressão, a ga— Não, que seja aquele sofrimentozinho de todo dia.
Assim como no amor. Não se acha a pessoa perfeita. Se acha a pessoa que você tem menos— Menos não. Menos questões com o defeito.
É, que você, mais ou menos, acho que você, aquela pessoa que você gosta de ser infeliz junto.
Isso, que você tem, que você ama ela apesar dela, não apesar dela, por conta, assim como você me ama, por conta dos meus defeitos.
É, porque os defeitos, como diria a nossa Clarice Lispector, tô citando muito, né, Freud, Clarice Lispector. Quando a pessoa não tem o próprio repertório, nunca se sabe qual é o defeito Sabe essa citação que você deu?
Não sei. Faz seu VT.
Agora eu vou falar uma coisa que é... Como é que chama? Uma paráfrase. Que é você citar errado, basicamente.
Parafrasear. O velho parafrasear.
Nunca se sabe qual será o defeito que sustenta o edifício inteiro.
Perfeito.
Então você vai...
É defeito.
Você às vezes excluiu um defeito seu e ele era uma viga central do seu prédio.
Claro. Você só era amado por isso.
Você desaba. Você viu no edifício aquele da Palace 2? Qual é a frase? Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta um edifício inteiro. E aí realmente a gente às vezes tem que entender que o defeito ele é estrutural, mas isso é uma desculpa para quem não quer fazer análise, né?
É uma desculpa para quem não quer fazer análise, mas você analisado você consegue ter uma visão panorâmica, um rádio, um raio-x do seu prédio Entender qual é defeito pilar fundamental, constitutivo...
Defeito constitutivo.
Defeito constitutivo. Freud nunca disse, porque ele nunca pensou nisso.
Nunca?
Defeito constitutivo.
Mas a gente tem, tem muito.
Chatice constitutiva?
Você é que tipo de chato? Todo mundo é chato? Você acha que todo mundo é chato?
Todo mundo é chato.
Tem gente que é mais chata.
Então, tem o chato que tem a consciência da chatice, porque fez psicanálise, E também ouviu as pessoas, porque o chato consciente tem muito a ver com ter o ouvido aberto para os amigos.
Total.
É, porque o chato— e ter o ouvido aberto para os amigos, de maneira geral, faz com que o amigo entre nessa seara. Porque o cara que não ouve muito, em geral, o amigo não chega nem no ponto de falar: "Eu vou falar que ele tá fazendo muito tananã." Ele não vai nem ouvir. Ele não vai ouvir porque ele não ouviu nada.
Esse é o paradoxo do chato.
É o paradoxo do chato.
Que o chato, ele só é chato porque ele não consegue "Quem o vi que é chato." Assim como corno é o último a saber. É, chato é o último a saber, perfeito. Porque o chato, tem uma coisa que é chave do chato, eu acho. Que às vezes a gente pensa: "O que é o chato?" "Ah, é uma pessoa que fala muito." "Ah, é uma pessoa que fala, que faz, que é isso, chega a ser..." Não, acho que não tem a ver com coisa ativa, tem a ver com o que ele não faz. O que é chato? Não escuta.
É, não escuta.
Porque a pessoa fala muito, mas escutando... Ela escutou uma coisa que você fala e ela fala em cima do que você falou. E você fala uma outra coisa, ela escuta e vai em cima... Não é tão chato. O chato é uma pessoa que tá solando, que ela não importa o que você diga, ela tá só esperando a vez de falar.
Mas isso é o chato falante.
Sim, mas mesmo que ele não fale muito.
O chato ativo.
Tem até o chato que fala pouco, mas se ele não escuta, ele é chato.
É. Se ele não escuta e não investiga. Porque tem um chato, um tipo de chato que, tô falando até de uma pessoa específica, que é o chato nuvenzinha negra. "Ah, poxa, isso nunca vai dar certo, porque não sei o quê, porque sempre me maltratam, porque não sei o quê, não sei o que mais." Já trabalhou? É o chato droopy. É. Ó a vida, ó o azar. Esse cara não fala muito.
Não. Aliás, um dos piores tipos de chato que tem é o chato lacônico.
Chato lacônico.
E aí, como é que foi lá ontem? Legal. Sim, mas conta, você, logo. Aquela coisa, né, sempre. É que você disse que queria almoçar comigo pra... É? Pô, sabe o chato que você tem que ordenhar a fala? A imagem não foi muito boa.
Desculpa, não. É que aí a gente... O Começo Não Importa teve muito a ver com esse tipo de graça, né? Mas ele não fez mais. Mas é que o chato que você tem que ordenhar assim, fazer... Mas enfim, esse é primo irmão do chato cínico. Esse é um dos que eu mais odeio.
Qual?
O chato cínico. Que nada mesmo faz diferença. É tipo: "Ah, eu fui na Lua." É, um primo meu, ele viaja sempre, ele é piloto, então ele tá sempre... Uma vez ele foi... Foi lá, saiu da... Tudo bem, você pode ser o que você quiser.
Você não soube, né? Vou ganhar um Nobel com minha pesquisa.
É, é o chato e eu. Esse é o chato e eu.
Não, eu tô falando coisa minha, daí você fala e o cara vai falar assim.
É, exato.
É normal, o Brasil já tem vários Nobels, né?
Sabe, tipo... É, mas nunca um que foi dado diretamente a uma pessoa e o Macron falou que é o melhor Nobel.
Que é o melhor Nobel que já foi dado. Parabéns, você ganhou o melhor Nobel. Mas tem esse chato, que é o chato nada é novo, nada...
Eu acho que talvez o maior medo que eu tenho na vida é ser o chato cínico. É? É, porque é muito chato gente que não se anima com as coisas.
É, que não se deslumbra. Gente lumbrada.
Gente lumbrada. Pulando. É tudo meio que já pensou. É, tive essa ideia. Tem colega de trabalho lumbrado também, que é a pessoa que você fala assim: "E se a gente fizer um vídeo que é assim?" "É, eu já tinha até pensado nisso, mas..." Tudo começa com "eu já tinha pensado..." Então foda-se! Então vambora! O chato que já pensou. Você é o chato que já pensou? Não importa o que digam. Se a pessoa resolver um câncer e falar: "Olha, eu resolvi, achei a cura do câncer." Você vai falar: "É, o Thay já tinha achado, mas eu resolvi manter entre..." entre nós, é essa pessoa que tudo é pouco pra ele. Mas essa pessoa é infeliz, né? Essa pessoa é infeliz.
É, de modo geral ela é. Eu acho que uma das coisas mais— Não que a felicidade seja o ideal, mas eu acho que, de verdade, um dos traços, eu acho que, de depressão, de tristeza, é a pessoa não conseguir se deslumbrar.
A falta de curiosidade. Eu acho que a tristeza tá muito ligada à falta de curiosidade. "Ah, já vi tudo na minha idade." Ou: "Isso eu já sei, isso eu já conheço." Não ter nada a aprender, não ter nada a ver, não ter curiosidade.
Isso é um horror. E ao contrário, é a coisa mais legal que tem no mundo. Gente que brilha o olhinho em qualquer coisa que você fala.
Qualquer bosta.
Qualquer bosta.
Qualquer coisinha você fala: "É mesmo?" E também gente que deixa o olhinho brilhar, porque às vezes também eu vejo que o olhinho brilha, mas a pessoa finge que já conhecia pra não se sentir burro.
Nossa.
Então sabe a frase que... E é bom de pegar essas pessoas. Sabe a situação... Aquela coisa que a Clarice Lispector mesmo falava.
Claro, sei, claro.
Aquela frase do amor... Do amor do Defeito?
Defeito. O Defeito inteiro.
Sabe? Bom, Arnaldo Jabor também tinha uma frase dessa que dizia que...
Eu também tinha do Arnaldo, do show.
Que ele dizia que o cinema...
O cinema, ele era... Nossa! Caralho!
Mas então dá vontade de falar assim: "Então vá se foder para lá e deixa eu viver a vida." Né?
Esse chato cínico é muito chato.
É uma pessoa que não aprende com você.
Não.
Não aprende com nada.
E você se considera algum desses chatos? O cínico é o que você tem mais perigo de ser.
Mas acho que não, porque eu tenho muito medo dele.
Talvez. Mas às vezes o medo, ele vem do perigo.
Não, com certeza o medo vem do perigo. Uma pessoa que trabalhou muito em clínica e se conheceu.
Cara, eu sou chato da repetição, chato, muito chato esse. É o chato que repete história, como vocês sabem aqui.
É que você esquece do que falou.
Eu esqueço.
Mas sabe o que é lindo? Olha só, você pode virar esse chato porque eu não vou virar o meu chato. Então, sempre que você vai contar uma história, eu vou fingir que eu tô ouvindo pela primeira vez.
Obrigado.
E vou claramente piscar pra alguém do lado, tipo: "Ele tá contando pela vigésima vez." Mas... Isso vai te fazer ser vivo. Tipo, a sua existência... Drew Barrymore.
Você é minha Drew Barrymore e eu sou seu Adam Sandler. Obrigado. Minha namorada tem amnésia.
Exatamente.
Porque eu realmente... Eu sou meio Drew Barrymore, o que é bom. Por que eu nunca vou ser o seu chato cínico? Porque eu esqueço as coisas. Então você pode me contar uma coisa mil vezes, eu vou me surpreender.
Greg, quantas vezes eu te conto uma história, empolgadíssimo, você fala: "Já contou." Muitas vezes.
É verdade. Não vou mais fazer isso não.
Não, não, pode fazer. Eu prefiro que faça. Cara, eu prefiro não fazer porque senão realmente a gente não vai conversar nunca mais.
Tem algo da velhice que eu acho que é meio paradoxal, que é o fato de que o normal seria a gente ganhar histórias e ficar— você vai sendo um velho, quanto mais velho você fica, mais histórias você tem, porque você viveu mais coisas.
Armazenamento.
Não é isso que acontece na prática. Na prática acontece que você vai perdendo histórias, vai morrendo, vai esquecendo histórias, até ficar com uma história só e você morre. Porque uma pessoa muito velha, em geral, ela tem uma história só.
Até você ficar com história nenhuma.
É?
Simplesmente é a morte.
E é a morte. A morte é quando você deixou de ser, só sobrou uma história, não tem mais história e você morre.
Mas sabe uma coisa que é bonita da nossa amizade? A gente levanta história um do outro muito quando a gente tá em ocasiões...
Ai, eu amo suas histórias.
Tipo o Gregório que conta aquela vez... Conta aquela.
E eu conto muito suas histórias por aí quando você não tá. A história do urso panda... Aí o problema é que o "não importa" estraga um pouco. Estraga um pouco. Porque as pessoas já viram. Agora tem uma história que eu levantei pra você que é uma história preferida sua. "Você contou e caiu." Ele cortou, ele pediu pra tirar.
Ele canetou.
E é a minha história preferida.
Não, não é a sua história preferida.
Um dia ele vai liberar. Eu acordei com a dor no coração. Dor no coração. A gente falava, eu e o Monque: "Vamos tentar, deixa eu tentar." Aí eu escrevo pra ele: "Poxa, João, pelo amor de Deus." Ele nem me responde. Tava tão difícil esse dia. Eu queria que ele contasse essa história.
Você conta essa história por aí?
Conto, claro. Mas é óbvio, João.
Será que as nossas histórias um dia vão virar lendas urbanas? Acho que sim, né? Toda lenda urbana vem de uma história real. A história do gato, que a gente já contou aqui, né? Do gato que aparece lá rapidamente. Uma mulher foi fazer babysitting nos Estados Unidos, aí a mulher falou: "Ó, só não deixa o meu cachorro sair." de casa. O cachorro sai de casa finalmente, volta com um gato morto na boca, sujo de terra. Ela vê o gato sujo de terra, olha no porta-retrato, é o gato da família.
Por isso essa mulher não pediu pra não deixar esse cachorro sair. Ela vai, lava o gato, bota o gato no sofá, vai embora. No dia seguinte, a mulher liga e fala: "Aconteceu alguma coisa?" Ela: "Não." "O que aconteceu?" "Ah, então, meu gato morreu ontem, eu tinha enterrado ele, ele apareceu lavado no meu sofá." Essa história, por exemplo, é uma história que eu amo.
Ela é maravilhosa.
Ela é maravilhosa. Ninguém no mundo é capaz de inventar essa história.
Mas muita gente inventa como se tivesse acontecido com ela, né? Eu já vi essa história na boca de pessoas falando na primeira pessoa.
Muito. Mas alguém já viveu essa história, eu acho.
Alguém já viveu? Ou foi um roteirista amador?
Não, não tem como.
Porque você é um cara que inventa história.
Eu invento história.
Tipo o João Carlos.
Mas é muito pequena.
Do nada conta uma história que não tem nem aonde. Ah, tem essa história que eu vou contar rapidamente, que eu já contei aqui, mas só pra você entender do que eu tô falando. João chegou um dia e falou assim: "Cara, eu tava no trânsito e passou um cara vendendo um Baby da Família Dinossauro no sinal. E o cara ficava gritando assim: 'Olha o Simpsons!'" Eu falei: "Que maravilha, olha o Simpsons Baby!" Aí ele falou assim: "É mentira, não tinha." Então, mas é que são histórias que você vê que poderiam acontecer e não aconteceram porque o mundo é cruel.
A crueldade do mundo não é só desigualdade social, é a crueldade de histórias que poderiam acontecer e não acontecem. É por isso que existem roteiristas no mundo, pra contar histórias que poderiam ter acontecido. Tudo indica que a história poderia ser real, mas não é.
Mas não é.
Por conta do destino, que foi preguiçoso.
Foi preguiçoso, porque o mundo em geral, as histórias não são tão boas quanto na realidade, né? Quanto na ficção. Mas tem essa coisa dos mitos, acho muito curioso, porque tem uma pessoa que veio atrás desses mitos. Não, Flora Thompson de Vaux. Que ela é uma pessoa que foi atrás, a namorada dela contou uma história pra ela, como se tivesse acontecido com uma amiga, falou assim, a história é: uma amiga minha foi cuidar de um cachorro na casa de uma senhora em Copacabana, a senhora viajou, o cachorro morreu, ele era a vida da senhora, aquele cachorro.
A minha amiga ligou pra senhora, falou: "Olha, seu cachorro morreu." Aí a mulher chorou, mas falou: "Eu tava esperando que ele morresse mesmo." "Vou pedir você fazer uma coisa, vai levar ele pro veterinário." "Essa amiga levou ele pro veterinário, lá o veterinário ia congelar o cachorro, porque eu quero muito enterrar o cachorro quando eu voltar, muito. Então, por favor, leva o meu cachorro morto pro veterinário, tá? Quando eu voltar eu vou enterrar ele, muito obrigado, não fica culpada." A mulher falou: "Ufa, que bom." "Onde é que é o veterinário?" "Ah, é em Botafogo, eu tô em Copacabana, eu vou de metrô, tá trânsito essa hora." Ela teve a ideia de levar o cachorro morto da senhora de metrô.
Por isso botou o cachorro numa mala, fechou a mala, foi pro metrô levando o cachorro. Metrô, Carioca Verde. Quando tava lá carregando a mala, veio um cara super solícito, porque tinha que pegar a escada. "Ô, deixa eu te ajudar aqui!" Pegou a mala, tava levando, "Pesado, né? Que que tem?" Aí a mulher falou, com vergonha, "É... eletrônicos." Aí o cara falou: "Opa!" E saiu correndo com a mala da mulher. Roubou o cachorro morto. Da senhora.
E aí acaba a história. Só que essa minha amiga Flora Thompson de Vaux, quando ouviu a história, ela é americana essa amiga, norte-americana, estadunidense, ela falou assim: "Isso aí foi com uma amiga tua?" Ela falou: "Foi." "Mas eu já ouvi essa história nos Estados Unidos, de outra pessoa." E ela começou a ficar obcecada de: "Caralho, olha aí, ela achou uma lenda urbana que atravessou fronteiras." E ela começou a traçar, ela é jornalista também, começou a ir atrás e perseguir Onde é que essa história teria nascido?
E viu num fórum de internet, no começo da internet, nos anos 90. Aí viu outra coisa, ela foi parar na revista Seleções. Lembra dessa revista?
Não.
Reader's Digest.
Claro.
Que em português chama Seleções. Um conto da Seleções estava lá.
Um conto?
Um conto.
Maravilhoso.
E aí foi parar num fórum de internet, foi parar na coisa, até parar na amiga das pessoas. Porque as pessoas não falam: "Tem uma história." Elas falam: "Minha amiga." E aí...
Que dá um caráter mais sedutor à história, realmente. É que você tem que ver se a história já tá mainstream.
Claro. A história, ela é muito mais forte quando é um amigo meu.
E nada mais delicioso do que alguém te contar uma puta história. Mas nada mais broxante do que alguém te contar uma puta história que você sabe que é lenda urbana.
É horrível.
Puta, é uma pena.
Porque você não vai falar pra pessoa assim: "É, não, não, isso é mentira." É, no programa do Porchat já fizeram uma vez, contaram uma lenda urbana. E ele falou? O Fábio contou?
Acho que não. Ai, é horrível, porque você fala assim: "É, eu já ouvi a história de 30 pessoas." É, ele tava no programa ouvindo, sei lá, gravando, ele não ia mandar a pessoa embora, né?
Não ia falar assim, é muito broxante, é muito humilhante, é igual falar "Eiá".
É.
Que é muito triste.
Tio. Tio.
Eiá. Isso é "Eiá". Ou uma coisa que dá muita aflição é... Eu ouço muita coisa assim de etimologia.
Sabe de coisa chata? É chato corrigir?
É muito. Eu nunca corrijo. Não, por exemplo, me falam muito etimologia. A gente tem muita intimidade, aí dá. Mas me falam muito etimologia, te falam porque acham que eu vou gostar, por causa da língua portuguesa. Só que como justamente eu sou nerd desse assunto, eu sei que é mentira. Tem muitas etimologias mentirosas.
Tipo?
Aluno vem da pessoa que não tem luz. Não é triste isso? Alumine, lumine, alumine, sem luz. Mentira, não é? Eu não vou falar assim, é mentira.
Tem muita luz.
Pois é, é Ninguém fala isso, já é meio de esquerda, meio Paulo Freiriano dizer como educação apaga o aluno, entendeu? Nós temos que trazer um aluno, vamos usar essa palavra, entendeu? E tem muitas pessoas que usam, sei lá, por algum motivo tem muitas etimologias racistas inventadas. Todas são mentirosas, quer dizer, tem muitas de verdade também, tem umas que são verdadeiras.
Uma mulata, por exemplo, não é uma palavra...
Mulata tá em disputa, a gente vai falar que é mulala, que é mestiço, ou cada um vai usar. Criado mudo, é inventado. É uma tradução do inglês dumbwaiter, não é? Não tem a ver com uma pessoa que ficava do lado de uma mesa de cabeceira humana. Isso nunca existiu. Nas coxas. Ah, porque os escravos tinham que fazer a telha nas coxas. Mentira, isso não existe. Cara, como CC dizem alguma coisa horrorosa que não vou nem citar. Sim, seria cheiro de crioulo.
Nunca existiu isso, só uma tradução do inglês body odor. Cheiro de corpo, body odor, cheiro de corpo. CC. Agora, como é que a pessoa inventa? Quem é esse pervertido que fica inventando etimologias racistas que não existem? Existe tanto racismo na sociedade, você precisa inventar em palavras que não fazem sentido? Não é revoltante isso? Outro dia eu vi que "inhaca" era racista, porque vem de uma ilha de Moçambique, a Ilha de Inhaca, de onde viriam pessoas escravizadas.
Mentira! Tudo mentira! Não vieram pessoas escravizadas da Ilha de Inhaca, que inclusive existe. Inhaca é a palavra tupi-guarani Tem nada a ver. Aliás, como tantas palavras para mau cheiro, já percebeu isso? Nhaca é tupi.
Budum.
Budum, deve ser.
Deve ser.
Futum.
Futum.
E caatinga, caatinga. Futum não. Caatinga é muito bom.
Caatinga.
É tupi-guarani. Porque os indígenas que deram banho, que ensinaram o português a tomar banho, né?
É claro.
Até não se tomava banho, então eles ensinaram a tomar banho e não à toa tem tantas palavras para mau cheiro.
Falava... Que o Pedro Álvares Cabral era catinguento.
Imagina o cheiro que os portugueses chegaram.
Imagina no meio do barco, roupa pra cacete.
É muito nojento. Aliás, eu vi um indígena falando uma coisa boa assim: vocês reclamam que índio que tem celular, que tem iPhone. Mas você é índio, mas você tem celular? Mas você usa tênis? Meu amor, você come tapioca? Você come mandioca? Você "Tomar banho? Você não toma banho? Então você não é um homem branco porque você toma banho?" Você não usa todas as minhas palavras? Cara, é muito bom isso. É, mas ele entendeu banho como uma tecnologia roubada dele.
É perfeito. Você é o chato da etimologia, né? Também.
Sou, eu sou chato da etimologia, mas eu sei disso.
Você não é exibido. Você joga uma etimologia quando cabe na conversa.
Eu me seguro muito, porque volta e meia as pessoas falam umas coisas que linguisticamente são muito...
Não, não, mas o que eu tô dizendo assim... É, você não fica cagando regra, porque o chato caga regra, que é chato mesmo. Cara, você colabora com uma conversa às vezes. "Ah, é até engraçado, porque isso aqui vem do Tupi." Não é que você tá querendo se amostrar. Se amostrar com um A na frente, que é mais do que se mostrar.
É, se amostrar é muito bom.
Se amostrar é muito mais... Ser um amostrado. Ser um amostrado.
É muito bom.
Será que esse A daí... Dá esse... Essa força.
Eu adoro esse "a" em algumas coisas que botam, tipo o "avoar", né? A voar. A mostrar.
Agora, uma coisa que eu não consigo entender é "guspe".
Guspe?
Tem gente que fala "guspe". Sem preconceito, a língua é viva, vamos que vamos. Mas se escreve "cusp"? Eu não sei de onde ele vira "guspe". Tem alguém que fala "guspe"?
Você quer que eu seja o chato da etimologia ou não?
Quero.
Existe um processo na língua portuguesa que agora esqueci o nome, é a vocalização de algumas consoantes. É uma das coisas que definem o português. Por exemplo, amigo.
Amico.
Amico, do latim amico. Por que a gente fala amigo, comigo? A gente tem uma tendência a vocalizar consoantes oclusivas, se não me engano. Então é muito comum o C virar umblico, umbigo, vira umbigo. A gente tem uma tendência, esse C virar G é um dos traços distintivos do português.
Tem graça, não tem nenhuma.
É muito mais engraçado ado só perguntar por que guspe.
Mas mesmo no começo da frase, no começo da palavra?
É menos raro, é mais raro, mas existe, mas existe. Mas eu acho que, eu chutaria que guspe vem daí. A gente não gosta muito das consoantes, eu acho que a gente tem a tendência a gogogogó. Não é interessante?
É interessante.
Porque é um dos mistérios da língua, que é, tá, tinha um latim, por que que o português ele tem um vetor, ele aponta para algumas coisas? Quais são essas coisas? Há o abandono das consoantes intervocálicas, que eu falo lá na peça mesmo: "Dolor vira door, color vira cor, salida vira saída." Ele joga fora algumas consoantes.
E coloca outras.
É uma língua mais vocálica.
Mas bota outras.
Quais outras?
Vogais?
Vogais.
Ah, tá. Você falou consoantes.
A gente tira as consoantes e bota umas vogais. Tipo no Rio de Janeiro.
Bota umas vogais.
Rio de Janeiro bota "alôa", Crescia. Crescia. Bota vogal, eles não têm. Eles botam muito mais vogal. Aliás, esse daí é um dos traços. O outro é transformar L em R, né? Blanco vira branco e tal. Ele vai transformando esse L pós-consonantal em R. Então tem várias coisas. E tem por quê? Como é que começa isso?
Não sei.
Em geral, tem uma contaminação de uma língua local. No caso do português, se fosse o suevo, não sueco, que era um povo que viviam ali onde hoje é Portugal. E que falando latim misturaram essa língua a qual a gente não tem acesso, porque ela não tem registro escrito. Essa língua a qual a gente não tem acesso misturaram ao latim. Então isso aconteceu em todas as línguas latinas. Uma contaminação, com muitas aspas, contaminação dos dialetos das línguas bárbaras com o latim que era a língua do imperador romano.
Línguas bárbaras.
Mas eu acho que a nossa audiência deve ter feito, irmão, quando eu comecei. Então eu peço desculpas, porque eu tava falando exatamente qual o tipo de chato eu sou. Eu sou o chato que é capaz de ficar falando... Você só falou "gusper", era mais engraçado a gente ficar falando coisas que são erradas. Mas esse é o chato que eu sou, que eu fui contaminado. Eu sou o chato da etimologia. Eu sou... Que é um dos mais chatos que pode ter no mundo. Eu sou o chato do café.
Não, mas isso não é chato. Isso é... Obsessãozinha que vai andando degrau a degrau e vai ficando mais legal, vai aprendendo um café novo, esse vai indo para um lado, para o outro... Eu acho que... Tá valendo. Você não fica falando: "Pô, tu vai tomar esse café aí? Isso é industrializado." Isso é o chato. Você ter uma mania, tá ótimo. O problema é você ter que enfiar ela goela abaixo de todo mundo, falar que tá errado o outro.
Tem razão.
Então você não é chato com café, você é apreciador de café.
Obrigado. Mas o que eu sou de chato é que eu não vou tomar.
Mas sim, já te vi tomando café.
Não tomo.
Não?
Eu queria muito ser isso, aí me torna uma pessoa antipática. "Acabei de passar um cafezinho." Aí eu olho pra cor dele. "Vai, eu vou querer." Eu olho pra cor dele... Racista. Não, não, não, João.
Qual é a cor?
É uma... O café tem que ter uma transparência. Se ele é completamente opaco...
Você gosta do chá café, né?
Ai, cara, pelo amor de Deus.
Eu sou chato do conforto.
Você é o chato do conforto.
Sou o chato do conforto. Isso é chato. Lugar que eu não gosto... Por exemplo, tem um restaurante que eu não vou falar o nome porque ele é maravilhoso. Mas eu não consigo frequentar porque a maior parte dele é fora. Eu tenho calor. Agora dá pra ir. Mas eu tenho calor, então...
Isso vai ser chato.
Isso vai ser chato, é. Porque meus amigos ficam numa coisa ali de... "Puta, vamos nesse lugar?" "Não, não vamos, porque eu..." Mas você chateia alguém com algum assunto? Não? Chateio? Chateio? Não, acho que não. Acho que eu sou... Eu acho que é a idade, Gregório. Me fez entender que as pessoas são o que são. Eu não preciso estar perto de umas e as outras eu tenho que aceitar como são. Entendeu? Tem umas que falam: "Não, isso aí eu não quero, não topo".
Mas tentar brigar com a pessoa... Não sei se você percebe isso, mesmo aqui, quando a gente fala de trabalho. Eu não estou pressionando você a fazer o que você não quer, entendeu? Uma coisa que tinha da gente se pressionar, a fazer coisas que não eram da nossa natureza. Da sua, umas coisas, da minha, outras, entendeu? Acho que não serve pra nada você ficar impondo o jeito que a pessoa deveria ser. Não. Realmente não... Tá provado, constatado cientificamente...
Isso não adianta.
Que ninguém muda.
Acho que ninguém muda.
Acho que só muda se a pessoa quiser.
É, mas às vezes não é bom dar um toque?
Carinhoso. Muito bem dado, com muita habilidade, senão não serve muito pra nada. Você não tem que ser assim? É, eu sei. Eu tenho que ser, mas eu sou, entende?
Sim. É, eu acho que tem alguma coisa do chato...
Não é o gabrielismo. Eu nasci assim, eu cresci assim. Eu só tô dizendo que se você é, é por algum motivo.
É.
Não, total. E você não tá sabendo.
Mas eu acho que o chato raramente quer que você mude. Então, o Gozo Chato já, ele é interessante. Minha mãe, ela é uma pessoa, tipo, vou falar da minha mãe, que é gatilho pra ela, porque vai reclamar comigo hoje em dia.
Ela já não assiste mais, acho.
Ai, que bom. Mas ela tem uma coisa que a gente, eu até falo com as minhas irmãs, "Fui Olivia Bynum", a gente se fala, que é resolver o problema dos outros, muitas vezes sem o consentimento. Ou não é sem o consentimento, mas sem a pessoa ter pedido.
Vou defender a Olivia aqui, vocês pedem bastante coisa pra ela.
Não, não, calma aí, só defendendo ela. O nosso problema ela resolve o tempo todo sem eu pedir ou pedindo. Ela resolve. Ela é maravilhosa. Ela tem uma generosidade gigantesca. Mas o que eu tô falando é de uma pessoa nada a ver.
Ah, entendi.
É tipo assim, minha avó, Ivna Camargo, também era assim. "Por que vocês não vendem aqui um ovinho mexido?" "Ah, porque é uma padaria." "Mas padaria com ovo mexido é a melhor coisa que tem." É o seguinte, não tem coisa... Não tem o que fazer. Aí ela já resolve a operação do lugar.
Sabe?
E ela resolve muito o problema que as pessoas não têm. Mas na verdade têm, só que elas não sabem que têm ainda. Então ela vira a portadora da notícia que a pessoa tem um problema.
Minha mãe é igual.
Sou muito nessa.
Eu tô vendo televisão, quando eu morava com ela ou quando eu tava na casa dela, vendo televisão, um travesseiro ali. Ela: "Levanta." "Por quê, tá bem." "Bom, bota outro." "Eu não quero." "Bota outro." Não é outra coisa?
E era.
E era. É outra coisa. Mas eu tava vivendo.
Porque minha mãe, ela sabe...
Elas têm razão.
Elas têm razão. Minha mãe sabe o que é melhor pra você.
Antes de você mesmo saber.
Essa que é a verdade dela. Mas aí ela vive com a pecha também de se meter em algum lugar. Com essa sina que assim: "Puta, eu sei o que é melhor pra essa pessoa do meu lado. Eu vou falar." E sabe. E eu tô virando às vezes um pouco ela. Só que eu não sei se eu sei sempre. Não sei se eu tenho o mesmo dom que ela. Mas eu me vejo hoje em dia, a velhice, em vez de fazer como você, perceber que cada um é cada um, que é o certo se fazer, eu tô percebendo que às vezes ajuda muito se meter na vida dos outros.
Dos outros que você tem interesse.
Que você tem interesse, claro. Então eu tenho me metido, sabe? Tem? Eu tenho.
Na minha, só não sei.
É porque sua vida tá bem. Mas não, até parece, João, eu me meto o tempo todo na sua vida.
Tipo?
Eu tenho um filho.
Nunca falou isso na vida? Só no "não importa". É tudo papinho de "não importa".
É? Eu te falo, já te falei isso sinceramente.
Não, nunca falou. Talvez quando a Marieta nasceu.
Não, e eu já te falei também em relação a namoro, a coisa, não?
Não. Não, você é muito mais... Você gosta muito mais do João solteiro que gera conteúdo pra você do que...
Não, não, mas o que eu digo que eu me meto é... Mas é porque sua vida tá muito encaminhada. Você não tem muito o que dizer. Mas eu tô começando a falar umas coisas que eu nunca falaria, porque eu sempre evitei ao máximo conflito. Sabe?
Mas é conflito falar? Não, dá uma boa opinião só para ver.
Um cara me escreveu falando assim: Greg, pô, queria muito fazer, tem uma proposta de um programa, uma coisa que você me ajudasse e tal, vamos tomar um café? Eu tenho um problema que isso me dá gatilho.
Eu odeio, eu amo tomar café, eu odeio um café, odeio o conceito do café.
Sai de casa para sentar no lugar para ficar. Ah não, hoje pode ser Zoom. Pior ainda, ligar um Zoom. Eu vou cansar. Eu acho muito ruim o Zoom também, João. Eu dei, e aí eu falei para esse cara: desculpa, eu odeio café, odeio reunião, me diz o que que é, se quiser eu posso tentar te ajudar aqui, me manda o que você tiver. E é um amigo, entendeu? Maravilhoso. Mas eu não, eu não vou, eu queria parar de marcar reunião e café e coisas desse tipo, entende?
E eu não tô conseguindo falar uma coisa. Você não tem interesse, não que você não tem interesse nesse cara, mas não no E o cara mandou o projeto, eu falei: "Puts, que bom que..." Eu pensei: "Que bom que a gente não tomou café, porque eu não teria o que dizer, não é minha praia." Ele falou assim: "Galo, mas eu não sou a melhor pessoa." "Mas quem pode ser?" "Deixa o seu número." É verdade, ele vai te escrever.
Caraca! O que é um bom humorista, né? Ele vem com uma história que parece que é uma balela, uma bobagem sem menor... Interesse pra quem tá assistindo, e ele termina com uma boa piada.
Parabéns. Não, mas é verdade. Eu dei seu número.
Pra mim, porque a gente tava falando de chato, pra mim, o maior chato do planeta é o chato que não sabe falar coletivamente.
Isso é muito chato.
O chato que pega você no...
No mano a mano.
No mano a mano e trava. Engage.
Engage.
Crava o olho no seu olho e não deixa com que nunca mais você fale com uma pessoa, mais pessoas da mesa.
Tem uma expressão de um amigo que é pescador. Que é o chato que fica procurando um olhar. Ele tá querendo contar uma história e tá todo mundo já evitando. Se você olha, tá, pescou. E aí, fudeu, irmão. Tá com o assunto dele aqui, ó. Sabe? E aí você tá fudido. Em francês tem uma expressão boa também que é o tunnel, túnel. É tipo assim, o que que tu fala? Cara, onde é que você tava na festa? Pô, peguei um túnel ali. O túnel é um chato que vai emendar e você não tem saída do túnel.
Tem pessoas que são assim. Peguei aqui, entrei no túnel, agora vou ter que ouvir a história inteira.
E você ouve, né? Eu ouço. Mas será que esse chato não percebe, né, que você tá— a comunicação corporal, toda fala, você começa a ficar de lado pro chato do túnel, você começa a você virar o pescador segundo seu amigo, você começa a procurar um olhar, você começa a falar com ele mais alto que você precisa pra ver se alguém engaja na sua conversa. "É foda mesmo é quando..." Pra ver se alguém pega. E você vira o chato que é pego pelo pescador, vira um pescador em si.
João, sabe uma coisa que eu tô percebendo em relação a isso? Que eu, tardiamente, eu tô percebendo que eu não gosto de mesa grande.
É?
De mesa de bar. Tipo, sabe mesa de bar? Eu explico.
O que que é grande?
10 pessoas em que as pessoas vão sentando, sabe? Não, eu não entendo.
Eu faço isso desde 95.
É, eu faço. Volta e meia. É, falando, as pessoas vêm ver minha peça, não sei, tem uma coisa, vamos. Aí tem pessoas que nem se conhecem direito e sentam num bar com 10 pessoas, no qual por acaso sempre vai sentar do lado da mais chata. Você vai perder a pessoa que você queria ouvir, que é o seu amigo, que você quer sair, que é lá. E você vai estar numa mesa que teoricamente é do caralho, porque a ideia é muito boa. E eu vi uma série que tem um monte de bar, coisa que aquele Anos Novos, eu fiquei com saudade de um bar, de um boteco, os amigos todos bebendo.
É a ideia boa. Na prática, eu É um brinquedo que eu não gosto. Eu acho que eu não gosto mais, em particular.
É sério, não é? Porque eu já sofri tanto com isso.
É. Eu percebi agora.
Com o seu trazer de todos os universos pra mesa que eu estava planejado jogar.
Eu percebi tarde demais.
Pois é, obrigado. Pede desculpa.
Desculpa se eu já te botei nessas mesas.
Quando eu te botei nessas mesas?
Quando eu te botei. Mas é difícil enquanto brasileiro e enquanto carioca, porque o bar É uma instituição. O bar está para a gente como o samba está.
Isso, mas você pode ir com 4, não com 10.
Pode estar em pé também, não? Em pé eu acho bem melhor. Do time do Império.
O legal do Gregório é que ele é capaz de juntar uma mesa com 10 pessoas que, vamos dizer que 80% não se conhece, né? E ele vai embora. Ele também não tem a culpa.
Eu era essa pessoa.
Hoje tem culpa?
Envelheci. Não, eu perdi. Porque eu era as pessoas. Adorava sentar numa mesa com 10 pessoas, conectava tal, fazia amigos. Às vezes um pegava o outro, coisa... Funcionava, dava certo.
Ficava com medo do que ia acontecer comigo?
Ah, se o João tivesse na mesa, era um inferno. Eu tinha que ficar cuidando como quem cuida de um bebê, de uma criança. "Calma, João, não fala assim." Separando. Agora, eu tô percebendo cada vez mais que pra mim não funciona tanto. Prefiro estar num grupinho menorzinho.
Você cresceu, Gregório.
Eu cresci. Ou tá em pé. Em pé, com todo mundo em pé, a coisa ainda dilui, acho bom. Você já odeia. Mas em pé, eu acho que tem uma coisa de festa também que eu percebi. Por que eu gosto de dar festa pra 300 pessoas?
Porque você não precisa falar com ninguém.
É, acho mais fácil dar 300 do que dar de 30, muito mais. Eu acho que ou é 8, 10, um jantar bem pequenininho, dos amigões, isso é uma coisa. Ou é 300. Esse meio lugar de 30, 40... Sei. Acho muito difícil.
Fica meio xoxinho, né?
Fica meio xoxinho.
Ao mesmo tempo fica meio cheio.
Fica meio cheio, você não vai conseguir conversar muito bem com ninguém. Vai ficar um meio termo muito aflitivo. Muita gente você não vai chamar que pode ficar chateado com você. Porque se for 8 pessoas, você não vai chamar um monte de gente também. As pessoas não vão nem ficar sabendo. Não vai ter foto, não vai ter "Olha onde a gente veio", né? Eu queria, aliás, falar disso, de uma... Não sei como é que você é em relação a isso, mas tem uma etiqueta que não ficou muito clara, que é o seguinte: Você, eu acho que você não pode, não deveria poder falar de grupos de WhatsApp em lugares que as pessoas não estão no grupo.
Acho muito indelicado. Aliás, tem um tipo de chato que é o mais chato, que é o chato que mostra vídeo.
Calma, calma, calma, calma, calma, calma. Agora você pegou em pessoas que estão aqui.
Não, não, não, é diferente. Ele tá zoando o Eduardo Branco, que o Eduardo Branco tá sem mostrando. Ele é roteirista do programa, ele tem que mostrar as refs. Não, não, tem que contextualizar.
O Eduardo Branco, ele fala: tem uma amiga minha, essa aqui, ó, que aqui, ó, aquela porta aqui, ó, faz circo. Aqui, ó, no circo tem dois filhos aqui, ó, é o filho dela lá do Arteiros. Arteiros. Sempre acaba no os arteiros.
Mas ele tá mostrando para nós uma foto, uma informação. A pior coisa do mundo é isso daqui. Olha esse vídeo play, aí você vai ficar numa situação analógica vendo uma tela, sendo olhado, vendo uma tela. Muito, eu vejo quando chegar em casa. Não, ver com alguém te vendo é sempre ruim.
Eu gosto de ver vendo, né?
Acho muito chato.
Eu tenho amigos que a minha conversa com eles é só memes.
É, né?
Não tem oi, não tem tudo bem, não tem nada. Começa em geral com manda um, haha, manda outro, haha, manda de novo. E uma hora desiste. E eu acho, desconfio, que esse meu amigo em geral não vê os meus.
Não?
E faz do meu algoritmo uma coisa muito esquisita, porque hoje em dia meu algoritmo tem coisas que são crime até assim. Em algum lugar.
Cara, tem algo, tem algo no algoritmo, no algoritmo no celular. Me dá uma saudadezinha às vezes de um telefone fixo, embora eu odeie. Eu odeio telefone, né? Você sabe disso. Um telefone que toca, ele sempre toca na hora errada, mesmo que não seja telemarketing. Você não quer parar para resolver. E as pessoas falam: mas telefone é bom, tô te ligando porque telefone é bom que a gente resolve na hora. Eu não quero resolver na hora.
Toda minha vida tentar não resolver as coisas na hora. "Ah, você vem, você vai me obrigar? Um telefone e bota uma arma na tua cabeça." E existe uma coisa, até acho que chama "fonefobia" ou "telefobia", que é fobia do telefone tocar. Eu tenho isso. Ou de falar no telefone. Tanto é que eu acho que o sucesso de vários aplicativos tem a ver com as pessoas odiarem falar no telefone. iFood, Uber... Tem um monte de aplicativos cuja única função é fazer com que você não precise ligar. Sabe?
E isso daí, pra mim, foi... Você diria que o telefone é o... É um dos únicos objetos que é odiado por exercer a função para a qual ele foi projetado?
Perfeito.
Interessantíssimo.
Interessantíssimo. Porque um telefone, ele teoricamente é uma coisa que serve pra tocar.
Só isso. Ele nasceu pra isso.
Quando ele toca, hoje em dia a gente fica com ódio. Um celular que toca... "Por que que ele tá fazendo isso? O que que é isso, gente? O celular tá tocando." E você vê uma...
E a pessoa que te liga... Tem gente que liga, né? Tem um ou outro que liga.
É chato que liga.
E você fica, e essa pessoa fica meio marcada, né, como um boi assim de esse liga, esse liga. Mas você sabe que eu vou te, muita gente, muita gente é, muita gente é uma loucura. Nas rodas do Brasil tá só se falando nisso, né? Mas eu acho que parte da minha solteirice tem a ver com o desespero de falar no telefone, porque eu acho, sempre achei, falar no telefone Coisas de casal. "Ah, mas eu não sou assim. Ah, como é..." Não, isso não é coisa de casal.
Aconteceu comigo. O que eu acho que as conversas que aconteceram comigo... "O que você fez hoje?", por exemplo, é uma pergunta que acaba com o meu dia. E eu entendo que, para um casal, seja importante uma pessoa saber o que a outra... Mas eu já vivi. Eu não quero contar o que eu já vivi. Eu quero viver uma nova experiência a partir daqui. Claro que a gente pode falar de história, como é, mas o que que eu vivi hoje, talvez me pergunte amanhã, mas hoje eu acabei de viver, então não me obrigue a viver essa coisa novamente.
E muitas vezes, em relacionamentos meus, eu me senti obrigado a falar no telefone porque eu amava a pessoa, mas de fato a gente não tinha nada para falar por telefone, a gente tava com vontade de estar junto, se ver. Que é muito diferente. Tá junto não se sacia falando no telefone. Saceia. Saceia. Saceia de... Da ceia mesmo.
É uma ceia saceia de pessoas. Não se sacia...
Desculpa. Não é... Encontrar... Calma. Falar no telefone não sacia a vontade de você estar junto. É uma coisa completamente diferente. Mesmo FaceTime.
Diria inclusive que é pior. Não, mais saudade. Eu vejo que as minhas filhas, eu tenho muita saudade viajando, é muito, que é o seguinte, elas odeiam falar, elas pioram quando me veem no vídeo, mais saudade. E ela não gosta de falar no vídeo, o que por um lado eu acho maravilhoso, que significa que elas não gostam de tela tanto, tanto, gosta lá de ver coisa, mas elas não gostam de celular, interagir por uma tela, para elas é um saco.
E aí quando eu viajo, eu tô louco pra vê-las, eu quero mandar, mas eu vou mostrar pra vocês que vai ser chato pra elas, vai ser chato pra mim, mas eu tenho que fazer, senão eu não vou ficar 15 dias, velho, eu fiquei 2 semanas viajando, foi uma dor gigante. Mas perde vídeo.
Não vou ficar esse tempo não vindo, fazendo vídeo. Não, pedi pra Giovanna fazer vídeo.
Ah, fazer vídeo, mas eu quero que elas também me vejam.
Ai, narcísica! Eu quero que, senão, sei lá, tem medo delas esquecerem minha cara. Não esquece não, Gregório, você tá por aí. Não, mas eu tenho medo. Sauda-língua.
Tadinho, meu pai, a mãe dele viajou, as pessoas faziam coisas É muito diferente de antigamente. Meu pai, a mãe dele viajou, ela ganhou uma bolsa de artista, ela era artista plástica. Ela e o meu avô ganharam uma bolsa, os dois eram artistas plásticos, pra estudar na França 2 anos. Eles foram. Com uma criança, meu pai tinha 1 ano e meio, não, tinha 2 anos. E ele ficou selado dos 2 aos 4 com a minha avó. Aqui? É. Ah, não!
Com a sua bisavó. Minha bisavó. Caralho! E eles foram...
Meu pai, outro dia, publicou as cartas, dá vontade de chorar, cara. As cartas da minha avó, que tava triste. Minha avó ficou culpadíssima. Foi evidente, culpável. Evidente. Porque ela não era uma psicopata, exatamente. Ela era o contrário, ela era uma grande mãe. Mas ela foi meio à reboque do marido. O marido que falou assim: "Temos que ir, isso é uma puta oportunidade." Realmente era, uma coisa pra estudar num puta lugar lá na França e tal.
Então eles foram, mas ela foi com dor no coração e ficou mandando cartas. Ela pintava pra caralho, minha avó. Cartas lindas, todas ilustradas, com cartões postais pintados à mão e cartas. E ela ficou lá, obviamente, só pensando no filho que estava aqui. E meu pai, ao mesmo tempo criança, a avó contava, porque ele não sabia ler, para ele as cartas e ficava mostrando. Os desenhos? Não, a foto. Tinha uma foto da minha mãe que meu pai pediu para ela mostrar para ele não esquecer a cara quando ela voltasse.
E o maior pânico dela era: "Ela vai voltar e eu não lembro a cara dela." "Vovó, como é que é a cara dela?" "Conta, descreve como é que é a mamãe." Imagina essa dor, porque naquela época não tinha avião, mas você não ia e voltava. Eles foram de navio, voltaram de navio. Imagina essa dor mesmo de uma criança, né? E hoje em dia pelo menos você tem o FaceTime, mas por outro lado é pior, não ajuda tanto, sabe?
A verdade é que imagina as pessoas que não têm nunca pai, nem por 1, 2 anos, nem por ano nenhum. Vamos dizer isso, né? É nesse clima Feliz e descontração que termina mais um Não Importa. Assine o Porta Mais, veja Ela É Pior Que Eu, o novo podcast, videocast do Porta dos Fundos, e a gente volta semana que vem. Gregório, último.
Terminou meio pra baixo assim. Você achou? Foi fofo. Tá, o que que é que eu tenho que falar? Assine o Porta Mais. Assista Por Trás da Porta também. E assista Por Trás da Porta. A gente tá se reunindo no Por Trás da Porta com pessoas que trabalham no Porta, nas mais diversas áreas. A gente fala sobre—
Pessoas que não trabalham e são pagas pelo Porta também.
Pessoas que já trabalharam, pessoas que querem trabalhar. Tá lá no Por Trás da Porta. Então assista nosso canal de making of, no fundos da porta. Não perca. Uma palma de salvas.