#82: GREGORIO GÊNIO, AUTOESTIMA DO ARA KETU E OUTRAS COISAS
Na vida, tem dias em que a única coisa que pode te salvar é um axé no volume máximo pra você esquecer os problemas ou um podcast sem nenhuma importância pra ouvir com o cérebro lisinho, igual a um peito de frango... Tem gente que diz que o Não Importa é bom demais, e quem sou eu pra discordar?
ELENCO:
João Vicente de Castro
Gregorio Duvivier
ROTEIRO:
Eduardo Branco
DIREÇÃO:
Bianca FrossardSEJA MEMBRO DO PORTA+ https://www.youtube.com/channel/UCEWHPFNilsT0IfQfutVzsag/joinENTRE NO CANAL DO PORTA NO WHATSAPPhttps://bit.ly/ZapdoPortaAPROVEITA E VAI NO NOSSO SITEhttps://portadosfundos.com.br/
Cara, sabe o que eu tava ouvindo, João? Agora, na verdade, eu tava cantarolando no camarim, e aí eu lembrei que eu nunca tentei pra isso.
É... Conheci uma menina que veio do sul pra dançar o tchan e a dança do tchutchu.
Deu em cima, deu embaixo, na dança do tchaco, na garrafinha, deu uma raladinha. Sabe o que é tudo isso que ele tá fazendo? Ele tá fazendo um recap de todos os sucessos do Gera Samba até então. Olha que bonito. Ele começa a música lembrando ao povo, tipo, previously on Gera Samba. Conheci uma menina que veio do Sul.
Quem é ela?
É aí que tá, eu não sei quem é essa menina. Acho que ele inventou só pra rimar com o Chuchu. Porque quem é a menina que veio do Sul? Não tem. Não, Débora Brasil não veio do Sul, eu chequei. Veio de Salvador. Nem Calapéria, de vez em quando.
Mas será que era do sul da Bahia?
Pode ser do sul da Bahia. Ah, pode ser. Pra Salvador.
Pra Salvador.
Porra, pode ser. O fato é que a menina veio do sul pra dançar o tchan. E a dança do chuchu, que não teve muito. A dança do chuchu teve. Do tchu, tchu, dança do chuchu. Sabe, o dá de cima, dá embaixo, na dança do tchaco, que também foi outro que não deu tão certo, mas estão tentando emplacar pra ver se o pessoal ouve. Na dança do tchaco, o tchaco era dá de cima, dá embaixo.
Na garrafinha... Emplacou, emplacou.
Deu tchaco, deu?
Tchaco!
Dá de cima, dá embaixo. Aí depois tem... Na garrafinha, deu uma raladinha.
Agora o Geraldo Sampa mostra pra vocês a dança do bumbum que pegou de uma vez. Bota a mão no joelho.
O que é muito bom, porque é só um detalhe aqui, que é a dança do bumbum que pegou de uma vez.
Ele escrevendo isso na hora?
Isso.
Era uma autoestima.
É uma profecia autorrealizada. Muito bom. Ele é o dizer que não tinha como ter pegado, ele acabou de gravar.
Não, ele tava escrevendo.
Escrevendo ela.
Era a sétima linha que ele tava escrevendo.
Como é que pegou de uma vez?
Se não pegou, se ele não comprou, eu acho que ele já tinha lido o segredo.
Ele veio do futuro.
O segredo.
Ah, o segredo.
Eu vou jogar essa energia, vou jogar para o universo. Isso dá raiva de gente que fala que vai jogar para o universo.
Então, mas ele jogou e deu certo, deu certo, porque a dança da bundinha pegou de uma vez mesmo. Se tem uma coisa que pegou de uma vez foi essa, né, que é bom para caramba. Bota a mão no joelho, dá uma abaixadinha.
Acho que não canta.
Acho que bota a mão no joelho, dá uma abaixadinha, mexe, mexe gostoso, vai mexendo gostoso, balançando a bundinha. Uma rimainha, que é uma coisa também interessante. Bundinha, no caso... Faz qualquer palavra rimar com qualquer palavra. Exatamente, ele descobriu essa grande sacada. Pô, não é bom que ele faz um recap? Eu nunca tinha tentado fazer isso.
Ele faz um recap e ele faz uma previsão.
Faz? De que vai pegar?
De que vai pegar de uma vez.
Assim como o Oraqueto faz muito isso, né? Acho que é metalinguístico.
É.
O Oraqueto.
Intermesa Escola.
Não dá pra explicar.
Esconder.
Não dá pra esconder.
Sem cantar falando.
O que eu sinto por você, ará.
Ou seja, ele é o ará, é o ponto de vista de quem tá sentindo alguma coisa pelo araquete.
Pelo ará, mas é o ará que tá cantando.
Então eu acho que o compositor que estava compondo para o araquete estava dizendo, quem canta isso é o araquete, é Tatal. Tatal. Mas a quem escreveu, mesmo sendo Tatal, ele não é o araquete.
O araquete é maior que ele.
Então ele se coloca de fora ou de dentro, mas entendendo que é uma instituição, né? Não dá, como se o Arrascaeta escrevesse: não dá para esconder o que sinto por você, meu Fla. Não é que ele não está no Fla, ele nem faz parte, mas ele não é o Flamengo.
Ah, tá bonito, entendeu? Porque o que eu acho bonito do Araqueto é que as canções do Araqueto em geral são de amor ao Araqueto. O Araqueto, Araqueto, quando toca, deixa todo mundo pulando que nem pipoca. E fora esse refrão bonito, eu, eu, eu, eu acho lindo esse momento do Carnaval, muito bonito mesmo.
Eu acho que tem uma questão de autoestima do araqueto que pouca gente fala.
Pouca gente fala. Meu sonho é ter autoestima do araqueto e cantar músicas de amor para mim mesmo.
É música, é autoestima do heterossexual e do araqueto.
Bom demais, é muito bom. Não, é isso, o refrão lá não é eu não, é Só sei que o araqueto é bom demais.
De tudo que eu te disse, pode até estar tudo errado, uma coisa eu sei por certo.
Isso, eles são, eles são a morte. A morte, claro. Acho que nem isso, ninguém conta a morte ali não, tão óbvio. Eu acho que ele tá revisitando Sócrates, o filósofo que disse que só sei que nada sei. Não, não, só sei que nada sei.
Tem uma coisa que eu sei, que o araqueto é bom demais.
O resto, o resto realmente já não sei. O resto eu concordo com Sócrates, mas ele esqueceu. Ele fez essa nota de pé de página na tradição socrático de duvidar. Tá bom, pode, não precisa saber de nada, mas eu só sei que o Araquito é bom demais. Eu tô com ele porque Araquito é bom demais, é bom demais, bom demais. Agora você tem que começar com esse adendo, lembrar que o Axé—
queria começar com esse adendo. Será que isso é uma frase possível?
Não é.
Queria começar com esse adendo. O autor de Céu da Língua, o grande livro mais vendido da vida inteira.
Para, João!
Sabe o que eu não gosto que Você não gosta disso?
Não gosto.
Na minha frente?
Cara, é chato. Toda vez, todo dia é isso. Como falam, parando na rua pra falar que é o livro mais vendido. Tipo, não tem, sabe? Ai, eu prefiro mil vezes ser como os autores que não vendem nada, mas têm assim uma vida mais tranquila também, sabe?
É difícil ser afrontado com o seu talento o tempo inteiro. Você, às vezes, a sua filha: Pai, por que gritam gênio, gênio? Faça pelo menos mais uma peça.
Notas também, que eu tenho que dar o tempo todo nota. Todo mês. Não, eu tenho que estar o tempo todo nota de— porque tá vendendo demais, tem que reimprimir nota fiscais.
Entendi.
As pessoas não falam desse problema.
E renovação de contrato. E será que posso?
Posso. Quero outro, editora, quero outro igual, igual esse.
A editora falando: estamos falindo.
Não aguento mais. Só sei que o Gregório é bom demais, cara.
Grande autoestima do homem hétero branco.
E eu tava— você acha que lá vem o negão Cheio de paixão é problemático?
Olha...
É um elogio ao negão? É uma sexualização do negão. Com certeza.
Olha, quem escreveu? Acho que vale muito saber quem escreveu.
Vale muito saber.
Porque talvez ele esteja falando dele mesmo.
Pode ser.
Aí não seria problemático. Não. Sendo ele um negão que estava, de fato, cheio de paixão e querendo te catar, se a pessoa quisesse ser catada. Isso é importante dizer.
Agora, tem consentimento no negão? Não tem. Porque a cafungada do negão é um problema.
É. Ah, é. Lourinha.
Lourinha. Eu adoro esse verbo, cafungar. Parabéns, porra, esse verbo é uma delícia, porque não é fungar, é cafungar.
E cafungar é coisa que não se faz em alguém, né? Não, é uma cafungada.
Ah, é isso?
Não, isso é uma fungada. Acho que justamente isso é uma fungada, uma cafungada é aqui, ó, porque é no cangote. Então é uma cafungada.
Ah, é, tem um cangote ali.
Tanto é que vem de fungo.
Vem? Claro, fungada é fungo, vem de fungo.
É, você funga porque você sentiu fungo, você é alérgico. Então quer dizer, Além da lourinha não ter requisitado a tal fungada, ela devia ter alguma espécie de fungo atrás da orelha, talvez por falta de banho. Ele vai catar a fungada dela, da lourinha, mas ainda assim cheio de tesão, cheio de tesão.
E olha, nem coroa ele perdoa não. Esse verbo perdoa, perdoar para não pegar já é algo muito problemático, mas as pessoas falam, né?
Muito errado.
Ele não perdoa não. Às vezes para futebol também, o cara é mau, ele não perdoa, não perdoa.
É, mas no caso de ser um ato sexual É mais estranho, é mais estranho, porque tem alguma coisa que me faz pensar que essa pessoa disse não e ele falou, não vou te perdoar.
Perdoar pelo quê, né?
Por você ser um objeto do meu desejo.
E ele tem uma obsessão com cangote, porque não só é cafungada dele um problema, como cheirou o cangote da linda morena.
Ou seja, não tem uma questão de perfil, né?
Morena, loura, coroa. E além disso, ele cafunga o cangote, ele vai muito aqui assim.
Ele gosta muito dessa parte do corpo, mano.
Exatamente, vai. Caraca, isso era muito anos 90, né?
É, eu acho que essas músicas continuam, né? No sentido de a gente numa festa, ironicamente, às vezes toca uma cafungada do Negão.
Tem umas que a gente ouve mesmo sendo problemático, né? Então, amiga minha uma vez tava dançando, tava tocando baile, era o apogeu do baile de favela.
Tá bom, aí não, mas aí a gente vai...
Tinha essa amiga muito feminista e tal, dançando, falou, essa música é muito problemática. Eu falei, porra, mas você tá dançando. Ela falou assim, cara, eu sou assim, eu problematizo, mas eu não paro de dançar. E eu acho que é um bom lema, não é?
É um puta lema. Problematize, mas nunca pare de dançar. Nunca. Eu acho que é um bom lema pra militantes excessivas. Tipo, não esqueça, as pautas são importantes. Mas também não vai parar de dançar.
Não vai falar pro Didi, vai puxar, né, do fio da tomada, porque nem vai adiantar muito, a galera vai ficar, passa música, é o pior.
Não, eu tô falando da vida da pessoa, entendeu?
Ah, a vida total.
Brigue, lute, mas também não só brigue e lute, dance.
Claro.
Talvez não sobre o mesmo tema, né, talvez não ouvindo a mesma música, talvez ouvindo uma música, dance numa música menos problemática ou problematize uma música problemática.
Exatamente.
É, Gregório, você começou esse programa de maneira muito embasada nos seus argumentos de música popular brasileira, brasileira. E eu gostei muito de onde veio isso. Tem mais?
Tem. A gente já falou sobre— talvez já tenha falado aqui sobre Péricles filmando. É, como sempre distraída. Já falou?
Não, sem cantar. Não vai falar de Péricles?
Eu sou apaixonado pelo Péricles. Ele não escreveu a letra dessa música.
A Voz de Deus.
Te filmei, você não viu. Eita, Péricles, não faz isso!
Mas ela não tava fazendo nada, ela tava na rua, andando.
Tava?
É.
Era a coisa mais bonita, o seu corpo de perfil?
Não. Não, não pode fazer isso.
Te proponho amor, um trato, toma o seu retrato. Esqueci a melodia, conta.
Não, mas não é pra cantar sem melodia.
Esqueci a letra. Eu te dou o seu retrato, mas quero você. Eu te dou o seu retrato, mas quero você. Entendeu? Ele tirou uma foto, ele filmou ela escondida. De perfil.
Mas é nua?
Ele fala qual versinho?
Você, você, ele botou num cartão postal? Aí é foda.
Ela é assim, você é feita um cartão postal.
Ele filmou, ele imprimiu e mandou para as pessoas. Eu estive aqui e lembrei de você.
A metáfora cartão postal é muito ruim, porque cartão postal geral não tem uma mulher nua, né?
E mesmo se tiver, né, o cartão postal que Você imprime a mulher que você ama, que você filmou sem o consentimento dela, mandar pra todo mundo, que é o mais—
filmar não é cartão postal, não é aqueles que faz assim. Sim, isso. O fato é que a mulher tava toda nua, tomando banho de lua, tomando banho de lua, tava no momento incrível da vida dela ali, a sós, ela e a lua, né? Sagrado feminino estava lá. E o pericão, o lírico, o letrista, não foi o letrista, Tá? Dessa canção, o eu lírico da canção, filmando ali escondido a mulher na banheira. O que que ele faz? Te proponho, amor, um trato.
Imprimi. Toma o seu retrato, que já é uma palavra muito de velho, nunca mais fala, né? Fiz um retrato. Toma aqui, amor, o seu retrato.
Te proponho um trato.
Toma o seu retrato, mas eu quero você. Chantagem! Não só filmou escondido como chantageou a mulher. E essa é a canção que ele cantou no Criança Esperança.
Não para, que negócio é esse, amigo?
Com as crianças todas assim: Te proponho... Caralho! A gente é sobrevivente dos anos 90, cara. Olha só, pelo amor de Deus, eu não tô querendo cancelar aqui a pessoa que eu amo, que é o Péricles, quanto mais. O Exalta Samba, maravilhoso.
Caralho, melhor grupo do mundo.
Eu acho também. Aliás, eu queria fazer uma paródia.
É importante dizer, Péricles é a pessoa mais fofa do planeta, mais legal, mais talentosa, bom demais.
Muito, eu amo ele, é uma voz mais bonita do mundo.
É um programa de comédia.
Falando em comédia, eu queria fazer um programa só com um monte de... Dá pra fazer uma banda feminina em Rede Esporte Exalta Samba. Tu olha mulheres, tipo, no puerpério, mães e tal. Exausta Samba.
Não? É, pode ser.
Não vale não? Exausta? O pessoal do Exausta, com vocês Exausta Samba, não? Tem coisa. Tem coisa aí. No dia que estourar, se fizer um sucesso, tá? Eu que dei a ideia. Eu que dei a ideia. Mas eu falo, não, é porque os anos 90 a gente é sobrevivente pra caralho mesmo. Toda vez que reclamam que as crianças agora tão vendo merda no YouTube e piscina de Nutella, banheiro sei lá o quê.
Mas você não acha que a música é diferente disso? Porque a música muitas vezes, não tô dizendo que não é sério ter músicas que falam de pedofilia ou de qualquer coisa assim, racista e tal. Mas a música a gente tem... Quantas vezes você já ouviu uma música que você falou, caralho, A vida inteira eu escutei essa música, mas nunca tinha ouvido a letra.
O tempo inteiro, né?
Então é diferente. Então a música tem algum caráter que te leva através do ritmo, antes ou junto com a letra. Então muita coisa que você cantou a plenos pulmões, se você fosse responsabilizado por isso, você seria preso. Então é exatamente, mas a criação nos anos, nos anos 90, eu acho que tem coisas boas lá também.
Tem tipo o quê?
O esporro.
Esporro, né?
Esporro, pô. Falta esporro?
Tu acha que falta esporro?
Ah, acho que falta esporro. Acho que falta esporro. Eu que não tenho filho posso dizer.
Ah, no filho dos outros, né? Sempre falta esporro no filho dos outros. É um bom lema.
Tá, mas desculpa, essa gente— eu vou comprar uma briga.
Pode falar.
Essa coisa de gente que não usa a palavra não com a criança.
É complexo.
Eu acho que não— Houve um tempo que a gente não— que era tiro, porrada e bomba. Também não é bom. Não. Mas eu acho que tem que ter frustração numa criação de uma criança, não tem? Isso não pode, porque não. O por que não foi muito perdido.
O que você quer dizer com por que não?
Não vai lá.
Ah, por que não?
Não vai lá. Por quê? Por que não? Porque você pode até botar entre o por que não a explicação. Então, não vai entrar na piscina agora. Por quê? Porque você acabou de comer e você vai ter uma congestão. Por quê? Por que não?
Eu amo uma pessoa que chama Ivana Jauregui. Aparece para você?
Não, não.
Para pais e mães aparece, não aparece? Tá vendo? Olha como o algoritmo ele vai certeiro. É uma—
tio, você descobriu que o algoritmo vai certeiro? Ai, que maravilha! Então quer dizer que o algoritmo entrega para pessoa que a pessoa quer ouvir.
Eu não vou mais falar, fala mais nada.
Fala que você conversou ele muito bem. Eu tava desacreditado.
É uma argentina que dá dicas muito boas pra crianças, como criar seus filhos. Ela é maravilhosa. E uma das coisas que ela fala é isso, a importância do limite. Muito importante. Importância do limite. O limite pra criança é libertador, cara. A criança ama limite. Ao mesmo tempo, eu não sei se ela fala isso não, tá? Mas a coisa do não é ridícula. Não vou falar não pra minha filha agora. Não, mas o não, ele... Você tem que ser estratégico com uma criança.
Entendo.
Às vezes o não, ele vai mudar a realidade. E é melhor falar assim, é melhor falar... Tem maneiras às vezes mais inteligentes de falar um não. Em vez de falar um não assim, tipo assim, eu vou me pendurar aqui. Porra, vai se pendurar aqui, tu vai cair lá embaixo, vai morrer. Fala, não pode se pendurar aqui. É importantíssimo falar. Às vezes mais importante, isso daí é um não que realmente não pode. Mas se ela tá falando assim, eu não vou tomar banho, você vai tomar banho.
Tem estratégias de fazer ela tomar banho. E uma delas é oferecer liberdade de mentira, né? Que é uma coisa muito boa com criança. Você vai tomar banho, vai pulando pro banho igual um coelho, ou você vai rastejando igual um jacaré?
Ah, boa.
Mais do que, você vai agora, entendeu?
Você, claro. Não, mas eu não tô falando de brutalidade não, mas eu tô falando de um pouco de frustração. Às vezes eu acho que pode ser frustração, é coisa mais importante do mundo. Eu tenho uma história que eu adoro, é Caíto. Acho que ele não tinha tela, e eu falei assim, pô, você não tem tela? Sua filha pequena adora, fofinha. Ele falou assim, não, mas eu expliquei. Falei, foi ali, pendurou, caiu, não tem papai. Não tem mamãe, não tem mais nada. Dora não chega perto daquela de jeito nenhum.
Meu pai, quando eu era pequeno, ele fez isso. Ele levou um ovo, não deveria ter feito, muito política anticorreta, né?
Tacou e falou, ó, a cabecinha do Gregório.
Foi.
E inclusive pela falta de pelos, né? Porque ele não achou pelo em rosto.
Eu tinha bastante cabelo na época. Então não faz sentido a sua metáfora. Enfim, ele quase jogou um ovo. E eu lembro quando eu era em casa, que ele morava em casa, então não tinha essa metáfora. Então o medo era justamente esse. A gente foi num hotel. Estava hospedado num hotel em Belém do Pará, lá no alto, 20º andar, lá no último, tava alto pra caramba. Meu pai ficou muito grilado, deixou a gente sozinho. Aí caiu um ovo, desculpa, um ovo na praça.
Não deveria ter falado isso, né, em Belém. O fato que ele fez isso foi muito didático pra mim, porque o ovo realmente se espatifou, né?
Não sobreviveu.
Isso aí seria a cabeça de vocês, meu pai falou. É verdade.
Então aí tem uma falta de habilidade, Edgar, te amo, mas uma falta— isso aí seria a cabeça de vocês, eu também não chegaria tão alto.
Eu acho importante.
Foi super, foi super, foi, foi. Acho que a frase talvez não tenha sido muito boa.
Minhas filhas também não têm, não tem na minha casa, não tem grade nenhuma, não tem nada, não, não tem nada. Pergunta se minhas filhas já. Aí volta e meia chega uma criança lá e faz umas coisas que, caralho, minha filha mora aqui todo dia, nunca pensou em fazer isso, cara. O que que você tá fazendo? Se pendurar do lado da janela que cai, coisa impensável para minha filha que tá lá todo dia. Mas tem criança que não entendeu isso.
Mas esse deveria ser o seu maior medo, né? Imagina, Deus me livre e guarde.
Imagina que pânico. Aí, aí que minhas filhas viram, porque eu nunca dou, nunca precisei gritar. É por isso que eu digo assim, você diz, ah não, falta esporro. Esporro não é muito eficiente, entendeu? O pai que grita em geral é porque ele não tem legitimidade.
Não grita necessariamente. Não pode fazer isso, porque se você fizer isso, você vai cair, vai se machucar. Eu não quero que você— isso é um esporro.
Entendi. É, pra ele isso não era esporro, isso era um toque. Tem diferença, hein, toque e esporro. Qual é a diferença do toque e do esporro?
É porque toque você não dá quando você é hierarquicamente, no sentido de familiar, acima da pessoa. Toque você dá pro irmão, eu acho.
Ah, é?
Acho que de pai pra filho não vem toque.
Pra mim esporro é depois que a pessoa já fez. Esporro é tipo assim, você tá maluco de ter feito isso?
Não, não, acho que no meu entender o esporro pode ser... É depois que você já fez uma coisa que eu já avisei que você não podia fazer.
Isso, né? Mas o tom pra mim é importante, porque uma coisa que eu vejo como pai é que as pessoas tendem a falar, ó, o pai não grita. Cara, a autoridade ela é muito diferente da legitimidade.
Pode ver o Poderoso Chefão.
Isso.
Nunca gritou.
Nunca gritou. Cortava o cabelo do cavalo.
Por que que você não pega um cavalo e grita?
Exemplo de paternidade pra mim é o Poderoso Chefão. O cara junto tá pronto pra ser pai.
A filha do Gregório faz uma besteira, ele corta a cabeça de um cavalinho de pelúcia.
Eu aprendi isso com o Dom Coleone, fazia, dava certo, cara. Eu sinto isso com o filho, que assim, pai que berra é porque tá faltando legitimidade, tá faltando justamente a autoridade. Tem que ser legítima, senão você berra, senão você faz uso da força.
É até uma coisa que ator usa muito, né? Quando o ator vai fazer um personagem poderoso, ele fala o mais baixo possível.
Claro, gente poderosa fala baixo.
Fala baixo.
A coisa de berrar, cara, é muito... Tadinho, ridículo. Já berrei, óbvio. Claro que eu já berrei, mas me arrependi na hora e vi que não adiantou nada. Só me fez ficar ridículo, desde que eu berrei com o filho.
Mas sabia que eu tinha muito essa sensação de quando eu era cobrado e quando eu era... Tomava de alguma forma uns porro ou alguma coisa, eu me sentia cuidado.
Ah, é?
Eu me sentia muito cuidado. Quando o limite, a coisa do que você falou, alguma coisa assim há pouco tempo. Até aquela história, né, que às vezes a minha mãe tava viajando e eu tava sozinho em casa, enfim, falava no telefone. Na época telefone custava caro, né? Então tinha muito essa coisa da mãe falar Para de falar no telefone, desliga o telefone. E eu muitas vezes achava meio cool falar isso, então falava de mentira. Mas vou ter que desligar que a minha mãe tá mandando.
Eu também fazia, não com telefone, com outras coisas, tipo: ah, não posso que eu tô de castigo. Meu pai nunca me deixava no castigo. Eu achava chique deixar de castigo.
Um sadomasoquista ficcional.
Não, mas tem a ver com você. Eu achava que tinha a ver com—
eu tinha um pouco inveja dos pais, inveja leve, porque os nossos pais eram mais liberais, eram fofos.
E eu, mas eu adorava, eu achava chique. A gente falava mal da mãe, do pai, tipo, a mãe, cara, que escrota.
Sabe o que eu fazia também? Depois de passar 3 dias na casa de um amigo meu, ele falava, dá uma McDonald's. Minha mãe não deixa. Mentira, deixava, deixava, deixava, com certeza. Tava afim, inclusive tava até programando o negócio para fazer. Mas é isso, eu sentia. Então eu, a gente botava nosso próprio limite.
É, é exatamente.
Não que as nossas mães não tivessem botado.
Davam muito, mas é que tinha uma coisa. Na verdade, criança não, né, cara? Criança, mulher. Uma das coisas que eu aprendi na paternidade muito cedo, já saindo da maternidade, primeira coisa, o charutinho que você tem que fazer com o bebê, né? Que é apertar. Aquilo ali é muito contra-intuitivo, muito louco.
Não, para você, se bota um negócio daquele, eu morro.
Morre, né? Imagina alguém te aperta com um pano assim, faz assim, e agora dorme. O bebê faz chapa. Você vê um charutinho bom A criança é a coisa mais sonífera que tem. Um adulto ficaria, né, se debatendo, chutando.
Mas não dava manter isso até uns 12?
Era meu sonho, mas tem uma hora que a criança começa.
Ah, é?
Pô, que as minhas filhas chutam inclusive, cara. Não sei se ela, que que elas sonham.
É incrível. Não, mas criança chuta muito. Eu lembro de eu falar, mãe, posso dormir com você? Não, você chuta muito. Por que criança chuta?
Eu não sei, cara.
Ah, vai vir algum especialista falar porque o O córtex frontal está se formando e não sei o quê, e os sonhos ficam alucinantes. Todos fazem confusão.
É muito importante deixar chutar.
É muito importante deixar chutar, inclusive botar sua carinha assim para que o pau apanhare na sua cara.
Mas eu vi um estudo que diz que o sono— isso é verdade— o sono, eu durmo muito melhor com minhas filhas, mesmo com chute. Eu inclusive quase sempre durmo quando eu vou botar para dormir.
Isso é uma coisa bem gostosinha.
Isso é muito bom, dormir com filho. Melhor coisa do mundo.
É sentir o cheirinho da criança. Muito bom.
Aliás, o meu único problema com a minha profissão hoje é essa, que eu não boto para dormir de quinta a domingo. E por isso que eu nego qualquer convite de segunda, terça e quarta. Eu falei igual um paulista. De segunda, paulista fala de segunda, né? De segunda, de terça, de quarta. As segundas, terças e quartas eu não faço nada à noite porque boto para dormir. E botar para dormir é bom, muito bom, porque é muito sonífero. Caraca, não tem nada que dê mais sono do que uma criança fazendo assim do seu lado e você contando uma história propositalmente circular.
Porque pra botar pra dormir eu conto histórias que é tipo assim, você não tem noção do quanto elas são chatas. O que eu consigo ser chato, um truque, por exemplo, enumerações. Tudo tem. E aí o coelhinho pegou a trouxinha dele pra viajar. Ele botou cenoura, banana, repolho, E a Marieta era mais assim, sabe, aquelas que relutam um pouco, começa assim: repolho? Papai, o senhor não come repolho? Eu falei: não, filha, relaxa. Errei, errei.
Ele falou: levou pro amigo. A senhora levou pro amigo.
Filha, filha, então eu tenho que usar mais cuidado de não errar, porque ela gosta de conversar no meio da história. Aí eu vou repolho, aí tem que ser uma história assim, não pode ser nada conflituoso que faça ela acordar.
Claro, claro.
Tipo, você vai levar uma coisa pra comer que é uma Nutella, quê? Não, não, não, então tem que ser assim.
Ou também algum risco. Risco é bom? Não, risco é ruim.
Não, é ruim.
Tipo, aí o lobo mau espreitou.
Não, não pode ter conflito. Mas tem que ser, mas o começo da história tem que ter um pouco, um gancho, senão vai falar assim, não, tá chato. Então tem que ter assim, te contei já, porque ela reluta muito para dormir. Não, não, não, não vou dormir. Eu te contei, só que ela ama uma fofoca, ama uma história. Você conhece já, você conhece já a história? Ela ama cavalo e ama sobretudo um cavalo, que é a Princesa, que é um cavalo que ela viu poucas vezes na vida, mas ela é apaixonada por ele, que é—
Ele chama Princesa?
Pelo cavalo, pela égua, desculpa. Não é um cavalo, é uma égua. É a Princesa. E aí, eu te contei do aniversário da Princesa? É um gancho, entendeu? Sei. Às vezes tá chorando, ela para pra—
Não.
Você não sabe qual foi o tema do aniversário da Princesa? Como é que foi?
Conta pra mim.
Foi bruxaria, porque ela adora histórias de bruxa, que é outra coisa que a Celeste gosta também.
A Princesa Celeste?
A Princesa. Não, e a Celeste também. Puxa, é, foi todos os animais da fazenda foram, foi, começa o porco, o boi, a galinha, a boi. E aí é uma hora também, outra coisa que ajuda muito, será que as pessoas estão dormindo agora? Será?
Aí é o pior problema.
Uma outra coisa que ajuda muito, fica a dica para você, é a criança começar, é começar a ter iluminação e também os personagens vão ficando com sono. E aí foi ficando de noite, ela tava tão cansada. Eu já vou dormindo no meio dessa hora. E aí ela foi ficando com a perna—
Como é que você já dormiu antes algumas vezes?
Muitas vezes. Eita, vamos lá. Às vezes a história começa a ficar surreal, você vai dormindo e vai, tipo. E aí a princesa foi gravar um vídeo, eu começo a misturar com a porta dos fundos.
Aí a princesa falou, João!
E com calma urgente. Aí o PL, a princesa, ela votou a favor do PL da 6 por 1.
E aí, cara, a princesa fez um filme superfaturado.
E quando vê, é muito gostosinho dormir ali. Eu dou umas vezes uma descansada, às vezes Giovanna, amor, você dormiu, ou vice-versa. Não vai acordar o outro que dormiu contando a história.
A minha mãe contava João Pestana, que era um grande— Sério? Sério.
Eu preciso ver. Não, mas é verdade, escrevi um livro chamado João Pestana. Por causa dessa conta. Minha mãe contava também. Mas conta.
Não, mas era isso, que ele vinha com o cavalinho dele, chegava perto, jogava pozinho no olho, aí depois enchia de areia, e o olho começava a ficar pesado, não sei o quê. A história do João Pestana, diferente das outras, ela era 3D.
Tinha, é.
Porque pelo menos minha mãe fazia assim, o cavalinho chegando, aí eu imaginava que tinha um cara ali, ou não sei o quê, aí ele parava aqui. Aí vinha, tacava o pozinho no meu olho, aí dava a volta e tacava no outro.
Eu escrevi exatamente esse livro. Olha a coincidência, eu escrevi exatamente esse livro. Da sua mãe. É que eu escrevi ele, bota inverso e tal.
Acho que um pouquinho depois, porque eu acho que...
30 anos depois.
30 anos depois.
Mandei exatamente esse, é o princípio. Só que eu escrevi, claro, transformando isso numa sabedoria popular. É lindo isso, daí vocês vão prestando... Porque uma das coisas legais é que você vai relaxando o seu corpo com a consciência dele, né? Tipo assim, ah, primeiro começa no pé, e o pé vai ficando pesado, aí vai deixando o joelho. Ao invés de chamar de cachorro.
Que é uma técnica de meditação.
É muito. E tomando consciência de cada parte do corpo. Mas se falar isso pra criança, ela vai achar chato. Agora, você tem um bicho, um cara que vai jogando areia.
É um cara bem pequenininho. É. Com cavalo. O seu tinha cavalo também? Não. Ah, não?
Tinha cachorro. No livro tem um cachorro. Que eu inventei, mas não tem cachorro na história.
Ah, tem sim. Eu tenho um cavalo.
Cavalo, legal.
Cavalo e um saco de areia.
Mas, cara, aí dá... Mas é muito gostoso isso. Dormir e acordar com areia. Mas tem isso. Tem o chute. E tem uma noite de mal dormidas também, mas botar esse momentinho da criança lá... Ai, cara, tô com muita saudade de ter bebê em casa. Não, não vou falar disso não, que vai aparecer uma pressão na Giovana.
E é.
Mas ela não quer mais ter filho.
Não? Não. Faz um filho em mim.
A gente já tentou, João.
Mas eu vou tentar de novo, amigo.
Muitas vezes.
Olha só.
Te mandei estudos.
As pessoas... Cara, não desiste tão fácil não. Falou o quê? 30, 40 vezes?
Foi bastante. Foi no seu período fértil, foi na— a gente viu toda a sua tabelinha. Você sempre falou que tava ovulando.
Falou que tava de mau humor.
Aí eu joguei, andei, fui pra médicos, falaram que isso não existe. Aí você fazia assim, não, é a posição, você botava o pé pro alto. Aí depois ficava de cabeça pra baixo. A gente tentou de tudo, cara.
Mas enfim, eu acho que é Assim, sei lá, grandes personalidades não são as que acertaram rápido, foram as que desistiram mais devagar.
Você inventou isso agora?
Acho que sim.
As que desistiram mais devagar, que bonito.
Bonito, né?
Muito, cara. Você é um cara que gamifica tudo?
Não, não vou aceitar. Não, não vai aceitar. Dá pra ser melhor que isso. Mas será que o fato de ser homem tá dificultando o quê? Eu engravidar?
Eu acho que tem a ver com ser homem, João. Talvez, não quero ser preconceituoso.
Pode ser que seja.
Será que no futuro o homem vai engravidar?
É, existem homens trans que engravidam.
É verdade, tem toda razão.
Boa lembrança.
Será que homem cis vai engravidar?
Cara, sabe o que que eu acho? A verdade é que homem cis não engravida porque homem cis é bobo. Então não é capaz de carregar uma criança no ventre.
Onde ele tá chegando? É bobo? Como assim bobo? Dá um exemplo.
Não, é sério, cara. O homem hétero morre mais do que todo mundo. É verdade, homem hétero, porque é o cara, é o cara que fala: e se eu pular dessa pedra, o que acontece? E Pessoal, não, Marcos, não faz isso não, cara. Não dá, dá, dá. Bate com a cabeça, morreu. Ou é dirigir bêbado, entendeu? Corrida com ex.
Que que é isso?
Corrida com ex. Nunca vai ter corrida com ex.
Com o ex você bota a hora e o ex fala assim, não, bota, você bota o lugar, bota o lugar. Aí o ex fala, tu vai chegar lá 16:02.
Eu falo na sua bunda, cara.
E aí você tem que chegar antes do cara. Eu faço muito isso, a gente é muito irmão de alma.
Não, mas aí assim, não pode ser imprudente, mas você tem que fazer coisas, porque o ex às vezes, o ex às vezes ele é safado, o ex às vezes ele tá mais pensando no coletivo do que em você.
Como assim? Isso não existe?
Existe. Você bota ele na rota e às vezes tem o tempo menor por aqui, mas ele tá te colocando por ali. Por quê? Porque ele tá separando todas as pessoas que usam Waze. Quer dizer, não tenho certeza que faz, mas eu acho que faz.
E você quebra o esquema dele falando: não, aqui não é um violão.
Nem a pau de ver não. No cupardal. E aí eu vou gamificando o Waze de forma que, sem correr, dirija com prudência. Mas é isso, chegando, e aí vai, aí troca de faixa com mais mais vezes, porque você tá vendo aqui, tá andando mais aqui, tá costurando. Não vai costurando, não vou não, por causa do Waze. Não, porque não pode tomar multa, tem que dirigir dentro das regras, principalmente no Rio de Janeiro que tem muita multa.
Fazendo assim você ganha do Waze. Todo dia você ganha um minutinho, dois?
Eu ganho sempre. É, eu ganho sempre.
Sempre?
Ah, esse Waze não pode comigo.
Não, mas será que o Waze vai começar a entender isso e te botar um minuto a menos?
Caraca, ele poderia fazer isso, né?
Porque você sabe que você, ao fazer isso, tá fodendo para todo mundo.
Por quê?
Porque quando você chega 3 minutos antes, o Waze é baseado nas todos os usuários que fizeram o projeto dele. Ele vai tirar 3 minutos do Juvenal, que é mais lento, que vai calcular errado. Opa, hoje tá dando só 13 minutos.
E o Gregório, porque também já falou que faz isso.
Nem faço isso.
É, mas é uma coisa, eu acho que é uma coisa de homem, é capaz, porque tanta coisa para você competir, fazer, que você tá competindo com um cara que nem Um computador que nem ele nem vai falar: aí, essa me ganhou. Ele segue a vida dele, ele só desliga. E você ficou ali ganhando de algo inanimado.
Caralho, mas a gente é ridículo, a gente é assim. Sabe uma coisa que me motiva muito? Exercício, uma competição qualquer. Então, por exemplo, não sei se tem, já fez remada? Já remou na academia? Já na academia remou? Já remou com um visorzinho na frente?
Não.
Tem várias coisas que pode botar naquele visor. Uma delas eu botei sem querer tentando programar tem um botzinho com um pace do lado e você é o bot, entendeu? Isso daí me fez morrer quase. Tem um botzinho que não existe, tipo um Waze que eu botei meio rápido ali, botei agora, não lembro qual é, como é que é, pace de remada. Eu botei ali, ele rápido, quando eu vi eu tava morrendo para pegar uma porra de um barco que não existe.
São 8 pixels ali, coisa, e 8 mesmo, né? Mal feito, literalmente faz assim, não faz nenhuma seta direito. Ele tava assim, filho da puta, ele vai chegar primeiro. Como se eu tivesse em Esparta e minha vida fossem cortar minha cabeça fora, entendeu? Você entra às vezes nessa gamificação em que você tem que morrer. Uma vez eu tava, eu e a Bárbara, a gente fez uma grande, uma coisa de bicicleta, que eram, sei lá, uns 30 km assim de bike dando a volta na cidade.
Eu e Bárbara, minha irmã e Teodora. E aí eu, quando eu olho pra Bárbara, tava muito frio, tá bom, não era no Rio. Eu que tava tentando fingir que isso aconteceu no Rio. A gente foi, a família, pra— a gente já tá em Nova York.
A gente foi, acabou a minha história do ano. Foi fazer um White Christmas.
A gente tava, e aí tem um negócio chamado Five Boroughs, que são os 5, você passa pelos 5 bairros de bicicleta. É muito maneiro, você atravessa, dá a volta na bicicleta nos 5 grandes bairros, né, de bicicleta até voltar. Não sei quantos quilômetros são, se são 100, se são 40, eu sou muito ruim de quantos quilômetros são. Não é um negócio dificílimo não, até pra eu fazer. Então não é uma coisa assim, não treinadas fazem, e dá para fazer.
Eu fiz, não vou dizer tranquilo, mas foi ok. No final do dia eu tava cansado, mas foi ok, sem treino, sem nada. E aí, só que tava um pouco frio, era maio, mas ainda tava frio, o verão não tinha chegado ainda. E aí a gente tava andando de bicicleta, de repente eu olho para Bárbara, tava um vento frio, ela tá aos prantos. Eu: para, para, para, para, para, gente, vamos parar, que a Bárbara— ela assim, e ela anda, será que vai? Vai, vai, segue.
Aí eu fui, ela assim: o que que faz? Foi minha mãe, a minha mãe voltou? Não, então mandou seguir. A Bárbara chorando no trajeto todo, chegamos no final ela, ai, gente, que muito bom! Que que é? O que que você tava chorando? Ai, para me motivar. Eu imaginei que eles estavam fugindo dos nazistas, que nós éramos—
desculpa rir assim, não é—
nós éramos umas crianças muito pobres, somos pobres, vocês estavam fugindo. Não sei se era uma coisa assim, ele é miserável, então fugindo de uma coisa.
Que maravilha!
E ela passou tipo 3 horas meio chorando, correndo, e ela olhava para trás para motivar ela a chegar até o no final, entendeu? Ela tava num cosplay emocional.
Eu fazia, faço menos hoje em dia, isso pra dormir.
Como?
Eu penso que eu passei um perrengue muito grande num frio desesperador na neve, numa floresta assim e tal, e de repente eu chego numa cabana, encontro uma cama bem fofinha e eu tô ali quentinho.
Ah, você imagina isso, dorme. Que fofo.
Pra dormir.
Fofo. Você faz meio que um roleplay, um RPG.
Ou pensando assim, tô num trem, numa viagem, e eu tô cansado. Ah, só consegui esse espacinho.
Que maravilha! Eu faço um pouco para exercício. Não chego a imaginar vilões correndo atrás, mas tipo isso, um barquinho, alguma coisa me ajude. Tipo assim, se eu chegar no final disso daqui, sabe? Eu sempre tenho uma meta que às vezes é muito bom também se enganar. Não, eu vou parar, tô correndo. Eu não corro não, tá? Mas quando eu tô fazendo alguma coisa tipo isso, ah, eu tenho que chegar em 10 km, que não são 10, são 4. Eu chego em 4, eu falo, não consigo, eu vou pra cima, vou só 5. 5 eu paro. Eu fico...
Eu sou o oposto. Se eu boto na minha cabeça, é 2 km, 10 repetições, alguma coisa, e alguém fala, vamos mais um, não consigo. Eu me programei pra aquilo. Ah, é?
E você deu tudo de si.
Não, não por isso. É só porque assim, eu já, quando eu olho ali, vamos dizer que é um posto aqui no Rio, né, que na praia tem posto. Fala assim, vou até o posto 9. Chegando perto, meu corpo já vai falando, ei, cara, ganhou gostoso, ali você vai parar, ali vai beber uma água, ali, entendeu?
Você acha que o povo correria tanto assim se não tivesse aplicativo, se não tivesse Strava, se não tivesse rede social? Não é nem aplicativo, ia ter tanta gente fazendo running, que não é correr, pessoal faz Instagram, pessoal faz running. Running, se não tivesse Instagram, tu acha que corriam legal assim?
Acho que não.
Quantos que sobravam na maratona sem Instagram?
12. É, mas o que que a gente faria se não tivesse ninguém olhando?
Nem lembrar. Teatro, eu faço uma coisa que é basicamente pessoas olhando. Você faria peça se não tivesse ninguém olhando?
Não. Faça uma peça, faça um teatro, faça uma peça como se não tivesse ninguém olhando, vai ser melhor do que fazer. Chama ensaio.
Chama ensaio.
Mas eu acho que dessa coisa da gamificação do mundo, eu acho que, bom, isso é uma gamificação, né? Você, a gente finge que a gente é corredor, eu finjo que eu sou boxer, você finge que você é escritor. A gente tem mais uns fingimentos assim e tem muito a ver com, você vai se apegando nesse universinho, né? Você vai ficando Aí daqui a pouco você já tá falando com mais propriedade. Prancha pra mim é 75.
Quando vê, mas é assim que se vira, né? Você começa, que tem aquele ditado, o hábito faz o monge. O hábito de roupa, né? A roupa faz o monge. Bota a roupa, quando você vê, já tá meio, começa a fingir que é. Quando não é tão longe fingir da coisa do que sei. Então tem isso meio de profissão assim. Ou falar uma língua, muito isso. Falar uma língua é fingir que você fala, até o momento que você tá falando, mas tem que começar fingindo. E as pessoas são ruins de língua, as pessoas têm vergonha de fingir.
Minha mãe.
É?
Não tem vergonha na cara.
Não tem vergonha e fala qualquer língua. Esse é o segredo.
Assim como dormir.
Dormir também ela?
Não, dormir você tem que fingir que você tá dormindo antes de dormir.
Ah, claro. Dormir é fingir que tá dormindo.
Antes.
Perfeito.
Senão você não dorme.
É muito parecido fingir.
Não dá pra você fazer assim, ó.
Não, total, é.
Então você tem que emular a forma de dormir.
Minha filha faz isso às vezes, mas assim, ela tem 3 anos e meio.
Mas então, dormir é... pré... pré... pré... pá... pra dormir é importante fingir uma dormida, eu acho. Mas sobre as gamificações, eu acho que tem uma também que aí é um universo masculino, até por uma questão óbvia, mas saudades dos gelos nos mictórios.
Era uma delícia.
Não era?
Faz tempo que eu não encontro um mesmo.
Que grande momento. Mas será que é porque você não sai mais tanto?
Talvez. Porque eu lembro assim... Em casa nunca vi assim estranho, nunca aquele que a gente tinha em casa.
Um bom mictório cheio de gelo dá uma sensação de frio, dá vontade de beber aquele xixi.
É, eu nunca fui nesse lugar não, achei não. Você entende o que eu quero dizer?
Mas assim, você fazer um belo furo entre todos aqueles gelos, uma coisa que eu acho que a sua próstata hoje em dia nem conseguiria. Mas um furo profundo assim, reto, inteiro, gostoso, que você vai com o calor do xixi e contra o frio do gelo, e você vai fazer. Eu muitas vezes, por exemplo, tava ali com uma questão muito séria para resolver, alguma coisa de trabalho, eu falava: se eu derreter esse gelo aqui, eu vou conseguir. Então tem um misticismo do gelo no auditório também, limpar o mictório, às vezes que não tem gelo, às vezes tem um sujinho, que você vai com força e precisão no chato do xixi pra limpar.
Teu xixi já limpou, BD?
Quando tem gelo é a minha única coisa que me resta.
Tu limpa o mictório quando tu urina? Tem que ver o que você tá comendo, porque tá ácida.
Não, mas por exemplo, é trocar a naftalina de buraco, mas não é qualquer buraco, tem que botar só naquele que eu quero botar naquele buraco.
Isso aí vira um resta 1 de naftalina.
Manter a naftalina alta ali durante um tempo, entendeu? São coisas que—
e o limão? Ah, o limão destruir aquela rodela, aquela rodela de limão, é uma coisa boa.
Isso tudo sem se sujar, porque é importante não sujar, claro, nem sujar o banheiro, e não sujar o banheiro, exatamente. Então são coisas que a gente faz que mudam uma noite de uma pessoa. A gente tinha vezes que eu ficava uma noite inteira Bebendo água e fazendo xixi, limpando o mictório.
Essa gamificação tem uma função?
Tem.
Que é tipo não mijar no chão, porque o homem é tão porco que se não tiver um interesse pra ele ir no mictório, eu acho que ele mija em qualquer lugar da coisa.
Fala mijar, faz xixi.
E tem uns mictórios que você entra que eles estão banhados de xixi. Por que que não fez xixi ali, caralho?
Por que que não fez xixi ali dentro, né?
Ali tá feito pra isso, não é tão difícil. Mas se você bota um gelinho, o idiota já vai igual Sabe que a melhor coisa, espelho volta e meia ele tem uma função, tipo em elevador, que é você não pichar. Espelho, percebe que elevador sem espelho sempre tá pichado.
Mas acho que nada mais lindo e romântico, desculpa, do que uma declaração de amor cravejada em algum lugar. Eu acho bonito.
Você acha bonito?
Acho, acho. Porque aquilo ali é amor, né, que você quer gritar para o mundo. Você acha? Ah, depredação da propriedade privada, eu acho que é um love bombing.
Eu tenho muita aflição de demonstrações públicas de amor.
Eu adoro.
Eu acho que é sempre sobre a pessoa que está, claro que é, nunca sobre o outro.
Eu acho que é um traço da paixão você querer gritar para todo mundo ouvir, não? Tô apaixonado. Quantas vezes você me procurou e disse, João, eu tô apaixonado? Muitas, muitas, muitas vezes você ficou apaixonado.
Engraçado. Eu tenho uma coisa a falar para o amigo, para o melhor amigo, o post.
Mas então, quando você fala para o melhor amigo, o que que você quer? Você não tá querendo comunicar ele, você tá querendo botar aquilo no mundo. Você não precisa me comunicar que você tá apaixonado, a não ser que seja um assunto que tá acontecendo. Mas às vezes a gente procura um amigo para dizer que tá apaixonado. Para quê? Para nada. Porque você quer colocar no mundo que tá apaixonado. É um estado gostoso de estar, e é importante que as pessoas saibam.
É, mas eu acho que é importante. Eu acho que você vai estar sempre chamando mais atenção para si do que qualquer coisa. Não é tão interessante para quem tá ouvindo. São os piores poemas de amor, são as piores músicas, é tudo, é o que tem de pior, é arte contaminada pelo sentimento. Eu acho, eu acho que em geral isso é uma coisa muito mais narcísica do que artística. De modo geral, as demonstrações públicas de amor, elas são tipo, cara, manter que você é a pessoa, declara para ela, é muito importante, mas a partir do momento que vira fogos com um avião passando escrevendo o nome da pessoa, é você.
Olha como eu sou apaixonado, é um traço de narcisismo. Corra! Sabe uma gamificação que eu adoro que a gente não falou? É fazer a mala ficar com exatamente o limite permitido, que é 23 kg.
Não sabe? Não, não, isso aí não me pegou.
Mas nunca aconteceu comigo de chegar lá e a mala ter 25 kg. Às vezes o cara fala Senhora, o moço é gente boa, fala, ah, tá tranquilo, você é uma pessoa que trabalha ali. Mas o cara vai falar assim, não, tem que ter 23. Aí tem que ficar tirando coisas para pesar ela.
Eu já tive que tirar muita coisa, já tive que tirar vinho, já tive vinho, me deu muito, já deu livro, já tive distribuindo livro, não vou pagar, costuma nota, claro. Talvez custe mais caro do que comprar o livro no Brasil.
Acertar qual fila do caixa vai mais rápido.
Ah, isso sem dúvida, isso sem dúvida.
Tem cálculo, você faz tipo assim, ah, tem muita coisa nesse carrinho, mas aquele ali tem cara de ser mais pilhado, ele tá nervoso, ele tem que ir logo. Essa daqui vai pagar com dinheiro, isso daqui tá com dinheiro, sei lá, sabe? Você vai fazendo cálculos humanos e não dá para sair e ir para outra, meio mal visto.
E no trânsito é mal visto? Eu acho, é, porque banca sua escolha, banca sua escolha, que também é uma coisa bem boba de homem. Não banco não, escolhi errado, vou para o outro lado.
Carro tem muito isso, né?
Tem muito isso.
É muito chato tá com alguém no carro que fica, que não banca as coisas, fica indo e voltando. Eu tendo, sou a pessoa que mais foca aqui. Ah, você vai andar, vai andar. E é sempre assim.
E na média a gente vai chegar ao mesmo tempo.
Exatamente. Eu acho, porque assim, se tem uma fila que tá andando muito mais rápido, essa aqui não tá, em geral não tá porque tem alguém travando. Quando as pessoas sair, essa daqui vai fazer Concorda?
Fiquei muito paralisado no tchum.
Tchum! Aposta na tua fila, é o que eu tenho a dizer.
Eu acho que em algum lugar, se você tá parado tudo, é porque tem um gargalo.
Tem um gargalo.
E esse gargalo tem ali um acordo qualquer de olho no olho, que é: passou 3 aqui, passa 3 aqui. Então as filas vão andando. Só que você sempre tem a variável de uns 4 a 5% ali que não tá gostando da pressão, que vão estar trocando, atrapalha muito.
É, faz sentido. Aliás, uma outra gamificação é sinal laranja, né? Que aliás, para mim é um problema. Sinal amarelo, eu falei laranja porque em geral eles são meio laranjas, né? Vamos falar sobre isso. Sinal amarelo é laranja, ninguém fala disso. Infelizmente é um dos assuntos que acho que o brasileiro não tá, não tá preparado, não tá abordando, não tá preparado. Vocês não estão preparados para ter essa conversa.
Caraca, que raiva!
Sabe o que eu tenho disso? Você, ninguém tá preparado. Aí começa uma conversa, às vezes banal, ninguém tá preparado ter essa conversa porque a pessoa ela é única que sabe. Só eu que acho que nunca é só você que acha, nunca.
Inclusive você só gravou isso porque você sabe que vai ter adesão, porque mais gente acha.
A pessoa ela sabe que é uma coisa que todo mundo acha, ela fala só eu que acho para ter um engajamento. Enfim, sou eu que acho que o sinal amarelo é laranja, mas não é só isso. O amarelo eu tenho dúvida sobre a utilidade dele por um motivo. O amarelo ele gera uma gamificação que assim, eita, deixa eu correr!
Gera pra idiotas como nós, mas pra pessoas civilizadas, o certo é: viu o amarelo, parou.
Só que nessa, no Rio de Janeiro, o cara atrás vai bater em você.
Não, e vai buzinar, vai te xingar pra caralho. Mas o certo é o certo. O certo é parar no amarelo. Eu faço isso? Não. Eu tento até o último segundo. A minha dúvida é: fui meio carro, meio carro pra dentro da faixa de pedestre.
Vermelho, tomei multa da faixa de pedestre? Não, é porque a faixa de pedestre ainda é antes do fio, da linha do sinal que você tem que passar na linha.
Então eu tô metade do carro na linha, tem radar, ficou vermelho, multa igual o cavalo, é a cabeça, botou a cabecinha, botou a cabecinha, amigo. Eu acho que não, acho que eu acho que é a bunda que É, eu acho que tem 2 segundos de carência.
Assim, pode botar só a cabecinha, pode, mas devagar.
É igual multa. Eu não sabia que 10% você pode ultrapassar a velocidade.
Não, não pode. Pode, a multa é menor, a multa é menor até 10%, mas tem uma multa.
Acho que não, não, acho que não tem, acho que não. Tem certeza? Eu acho que tem uma margem de erro, tem uma margem de erro de 5% tal, porque deixa eu ver se tem margem, porque é uma coisa que ele pode estar desinformando, como é meio sério esse assunto. Então vai.
Não, não é permitido nem fazer o limite da via, velocidade, porque existe uma margem de erro técnica. De quanto margem de erro? Vamos lá, velocidade a 100 km/h, tô lendo 107 km/h, é 7%.
7%.
Tem um pouco a diferença entre o carro e o radar, né? Se reparar, como quando você tá passando, o radar dá um valor e você tá com outro no seu ali mostrando. Tem 40 e lá, lá tá dando 35. Essa é outra gamificação que eu tenho.
Ah, eu também.
Passar no 40, passar 40 km/h. É perigoso, eu vivo. É essa maluca. Não, eu sou otário de passar 37. Mentira, eu tento passar 40. Só que tem uma diferença entre o velocímetro e o coisa, né? E 40 é muito, eu tô falando 40 porque é muito devagarinho, né? Na rua da minha mãe é 40, mas é uma rua grande, tá certo. Então tô falando, acho que tem que ser baixo mesmo, porque isso daí realmente funciona. Mas eu gosto de passar, cravar 40. Você tinha que ganhar, ao contrário de multa, parabéns.
Reduziu um ponto.
Isso é importante falar, tá? Porque até 20% é uma infração média. A partir de 20% a 50% já é grave. Mas tem mais que 50% acima do limite?
Tipo, claro que tem, 100, 150, acima de 50%.
Não, dúvida assim, ah, dá, óbvio que dá.
Você dava para você, mas você tá 40, se você tiver 180, você passou bastante.
Multa de R$800, suspensão imediata do direito de dirigir. Fica a dica aí para você. Se for acima de 50%, ou seja, se é 100, você tá 150. Só que isso daí, a 40, você passar 65, não é tão impensável.
Exatamente, você perde a carteira para sempre.
É indústria da multa. É todo igual. A pessoa falar, tem certas coisas que é meio que uma, como é que se diz, um passaporte de cuzão, né? Falar, eu concordo que multa é muito chata. Tem gente que fala, é a indústria da multa. Já falo, puta, que parada, dá muita preguiça.
É, final, começa ali novembro, começa tudo os guarda pra rua multar.
Pior que as crateras guardam, tem, mas o radar não tem nada a ver com isso.
O radar não tem nada a ver.
Não, mas no Rio realmente tem mais, tem mais suborno.
Não, mas o que eles dizem é que o estado tem muito pardal pra arrecadar mais dinheiro.
Mas eu acho que tem uma gamificação do amarelo que faz com que as pessoas de modo geral acelerem.
Agora, você já viu, tem uma nova categoria agora que é o que faz 10, 9, 8, já viu assim?
Isso aí deve ser uma loucura de aceleragem. Eu fico muito puto com gente que— não sei se você faz isso.
Olha que loucura, foram criando camadas. Podia ser só verde, vermelho. Aí ele falando assim: não, vamos botar amarelo para avisar que vai estar para fechar? Vamos. Aí o cara falou: não tá funcionando, vamos botar agora uma contagem regressiva. Então agora é 10, 9, 8, quando chegar 1 A laranja e aí vermelho. Qual vai ser o próximo?
Ah, bateria do microfone. Pediu para parar, parou.
Gregório, como é que você quer acabar com esse programa hoje? Já?
Eu quero falar, eu quero falar sobre uma coisa.
Sempre tem um pós-créditos, Gregório, que a gente não falou.
Você me falou que eu amei. Gente que não sabe usar modéstia à parte. Fala sobre isso.
Não, não, acho que é um assunto mais para frente. Não, mas o que eu quero falar, que é o seguinte, é de literalmente. Literalmente, podem falar que eu persigo literalmente, a palavra literalmente. E de fato é sempre, até nas comunidades do Extinto Orkut tinha pelo pelo bom uso do literalmente. Porque as pessoas falavam, né, eu tô literalmente para morrer, eu literalmente morri de frio, eu literalmente vomitei quando eu vi aquele rapaz falar aquilo que ele falou.
E aí as pessoas usavam mal o literalmente. Aí houve um grande movimento social de pelo bom uso do literalmente. As pessoas se perguntaram qual o bom uso. Ah, entendi, literalmente se você for literal, se realmente acontecer, legal. E agora as pessoas mudaram o jeito, eles estão usando literalmente de maneira desnecessária, onde não precisa. Por exemplo, eu literalmente vou botar um casaco, tá errado? Não. Mas por que que você usou o literalmente? Porque é só você botar um casaco.
É perfeito. Eles estão usando um bom uso literalmente, mas que é um péssimo uso, literalmente, porque justamente eu defendo que literalmente seja mal usado. Porque a beleza do literalmente mal usado é que estão usando literalmente no sentido figurado. Não é lindo isso? Olha, até olha o nó que estão dando quando falam literalmente vou morrer. Eles estão justamente— a palavra, o que tá sendo, que não tá sendo literal não é o vou morrer, é o literalmente.
E o uso literal do literalmente é idiota, né? Por que você tá falando literalmente? Eu acho bobo isso. Botei o casaco literalmente. Claro que é literalmente, não existe essa expressão.
É porque literalmente só é ser usado quando o que você diz parece impossível.
Exatamente, né? Exatamente. Cara, ele literalmente morreu de trabalhar, tipo, que a pessoa morreu.
Ela literalmente cruzou o oceano, né? Caralho, realmente cruzar o oceano é um negócio. Agora, literalmente para coisa banal é banalizar o uso de literalmente.
Exatamente, porque acho que mais até do que coisas inacreditáveis, literalmente é para coisas que são expressão. Entende? Eu acho, tipo assim, literalmente morreu de saudade porque, caralho, porra, cachorra, você viajou, não tinha ninguém lá, ela morreu.
Literalmente atirei o pau no gato.
Isso, eu acho que tem que ser algo assim, é uma expressão, e você tem que denotar de fato que aquilo não tá sendo usado no sentido figurado, né?
Mas também com grandes feitos, com feitos que parecem mentira.
É literalmente, mas todas as pessoas Porque parece que é, parece que é uma expressão.
Tem um amigo do meu pai, começa o movimento pelo mau uso do literalmente.
Vamos, pelo amor de Deus, vamos usar errado, vamos usar no sentido figurado literalmente, porque tem uma dificuldade que é dar ênfase às coisas. Literalmente ele funciona para isso, parece que é de verdade.
E eu acho que é uma coisa que vem do inglês, essa coisa de usar o literalmente. É, talvez, que é minha briga, que eu já falei aqui, ou para poder, você que tá assistindo isso em casa agora, que fala pra poder, eu vou botar a sunga pra poder ir pra praia. Não precisa, tira o pra poder, eu vou botar a sunga pra ir pra praia.
Cara, eu já falei do espécie de, já, mas pode falar igual pra poder também, que não precisa. As pessoas muito, ele é uma espécie de professor, não, ele é um professor, não precisa. Uma espécie de, ele é uma espécie de professor, só que muito gentil. Não, ele é um professor, só um professor. Em geral, espécie de quase sempre dá pra, não sei se você já falou de um animal, de uma espécie de animal.
É que eu acho que uma espécie de vem de um jeito de falar que era meio engraçadinho. É uma espécie de leão marinho, só que terrestre, uma coisa assim.
As pessoas têm mania de modalizar, acho que modalizador isso. Agora esqueci o nome disso. Você, elas têm medo de dizer as coisas, então elas ficam, parece que é um discurso, parece que é o jurídico delas dizendo. Então tem muito meio que, tipo, uma espécie de, são coisas que acho que abrandam o discurso, atenuam o que você vai dizer.
Perfeito, não te culpabilizam pela próxima coisa que vai sair da sua boca.
Parece que a pessoa tá pensando num processo futuro. Não, não é um ladrão, ele é uma espécie de ladrão. Ele é meio que, tipo, cara, ele é uma espécie de assim, vamos dizer assim, sabe? A gente fica o tempo todo moderando, tipo, fala a parada.
Tipo?
Tipo, quer que eu dê um exemplo?
Não, tipo é uma pessoa que usa muito tipo. Tipo, cara, ele é tipo meio que, meio que também dá um pouco, mas o pra poder é uma briga que eu vou comprar aí com você que tá em casa, que eu vou pra poder, porque pra poder é uma das mais odiosas muletas linguísticas ou verbais, linguísticas ou de fala que existe no mundo. Porque pra poder, a não ser que seja uma coisa que realmente seja Pra poder. Eu vou reconhecer essa firma pra poder comprar. Mas ainda assim, é estranho. Não precisa.
Sempre pode ser pra. O poder não precisa.
Pare de usar o pra poder.
Literalmente pare.
Pra gente poder encerrar esse episódio.