Episódios de NÃO IMPORTA

#78: EVACUAÇÃO DE REGRA, BOCEJOS, PÉ NA BOCA E OUTRAS COISAS

30 de julho de 202649min
0:00 / 49:37

Quem acha que tem o molho definitivamente não tem o molho. Quem tem o molho não sabe que tem o molho. E quem diz que tem o molho tá no processo de deixar de ter. Na dúvida entre o grau de molho que se tem, o que importa é ter muita cagação de regra, coxas grossas e o povo com uma comidinha bem molhuda esperando pra assistir o Não ImPorta quinta-feira meio dia. E no fundo, é isso que importa, ou não...

ELENCO:

Gregorio Duvivier

João Vicente de Castro

ROTEIRO:

Eduardo Branco

DIREÇÃO:

Matheus Monk

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Participantes neste episódio3
G

Gregório Duvivier

HostComediante
J

João Vicente de Castro

HostApresentador
M

Mosquito

ConvidadoPercussionista
Assuntos8
  • O conceito de 'molho'Definição de ter 'molho' · Molho brasileiro e sua importância · Molho regional (baiano, mineiro, gaúcho, norte) · Molheira e sua saudade
  • Esquema de capangas e coerçãoExpressão 'cagar regra' · Diferença entre cagar regra e palestrinha · Palestrinha como castigo
  • Bastidores de Gravações MusicaisEvolução do fósforo para cacheta · Cacheta como instrumento de samba · Marcos China e Birani do Fundo Digital
  • Música e admiração por artistasProcesso criativo de Gregório Duvivier · Música 'Língua' de Caetano Veloso · Pé na boca como metáfora
  • Tecnicas NarrativasRoubo de subjetividade e memória · Gaslighting e manslighting
  • Produção e qualidade do caféOrigem do café de qualidade · Altitude e zona tropical para café · Biodiversidade e café · Serra do Caparaó
  • Morte e viver plenamenteSexo como afirmação da vida após contato com a finitude · O luto e a sexualidade · A memória de Cláudio
  • Etiqueta de recepção e comportamento socialBocejo em diferentes culturas · Ofensa social do bocejo
Transcrição426 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
GDGregório Duvivier

Agora, tu boceja?

JVJoão Vicente de Castro

Eu bocejo, mas eu não bocejo muito não.

GDGregório Duvivier

Se eu bocejar, tu bocejarás?

JVJoão Vicente de Castro

Bocejarei. Grande palavra, né?

GDGregório Duvivier

Bocejo.

JVJoão Vicente de Castro

Um bocejo.

GDGregório Duvivier

Que seja um bocejo.

JVJoão Vicente de Castro

Sabe que é muito mal visto em muitas culturas bocejar, né?

GDGregório Duvivier

Bocejar é... Meu padrasto, que era gringo, ele era... Um tapa na cara seria menos ofensivo do que um bocejo.

JVJoão Vicente de Castro

Em várias culturas é melhor tu peidar do que bocejar. Na França mesmo, tomar banho é menos importante do que você saber não bocejar. Tipo assim, não tem problema tu tá fedido, mas tu bocejar na França é muito ofensivo.

GDGregório Duvivier

Bocejar ou bocejar?

JVJoão Vicente de Castro

Eu falo bocejar.

GDGregório Duvivier

Eu falo bocejar, mas eu me sinto falando errado.

JVJoão Vicente de Castro

Não, errado, pelo amor de Deus.

GDGregório Duvivier

O que que é errado?

JVJoão Vicente de Castro

A língua viva.

GDGregório Duvivier

A língua é viva como tu vives. Extravagante mariola que reflete todo sarcasmo empírico em gringos evidentes que savanejam a estrutura geral da subserviência agressiva de todo impuro sejo que boceja outrora que seja o bocejo do bu, que é um ensejo para o bocejo.

JVJoão Vicente de Castro

É um talento assim realmente único para falar qualquer coisa.

GDGregório Duvivier

O que eu só não sei, é juntar as palavras para fazer uma ideia que faça sentido. Agora é só o picar palavras, é comigo mesmo.

JVJoão Vicente de Castro

Quando não precisa desse ingrediente que é o sentido, você voa.

GDGregório Duvivier

Quando não tô preso ao sentido. Estar preso ao sentido é uma prisão.

JVJoão Vicente de Castro

É uma prisão.

GDGregório Duvivier

É uma prisão. É a gaiola do poeta.

JVJoão Vicente de Castro

Você é um craque do futebol sem bola.

GDGregório Duvivier

Exatamente. Ou talvez o futebol sem demarcações, sem gol, sem gol, né? Mas enfim, é tudo isso para dizer que eu não tenho ideia do que eu tô falando.

JVJoão Vicente de Castro

Só cagando regra, cara. Esse programa, ele é, ele define o quê? Porque a gente tava antes conversando ali, aí falou, a gente podia falar de tal coisa. Aí alguém falou assim, pô, mas isso daí vai ser, vai ser cagação de regra. Sim, mas esse programa, ele é cagação de regra, certo? Ah não, foi melhor ainda. Alguém falou uma coisa e o João falou assim: desculpa, acho que não tem regra. E aí você acabou o assunto desse programa, porque esse programa é basicamente achar regras. Ah, mas não tem regra. Nada tem regra, mano. Tem que cagar uma regra.

GDGregório Duvivier

O que seríamos nós sem cagar regra?

JVJoão Vicente de Castro

Aliás, cagar regra é uma grande expressão também da língua portuguesa, porque cagar regra— você não gosta?

GDGregório Duvivier

Eu já falei aqui, eu sou contra cagar e mijar. Eu sou contra. Não se caga, não se mija.

JVJoão Vicente de Castro

Tá? Se faz, se defeca, se urina, você vai ao toalete.

GDGregório Duvivier

Ela acabou de cagar aqui. Você vai ao toalete, ninguém precisa saber. Isso é meio coisa daquele velho que a gente inventou, que é o pai, o Monroi que diz que é o pai dele.

JVJoão Vicente de Castro

Tá, mas você fala...

GDGregório Duvivier

Que é o cara que fala, agora só um todinho gelado. Que fica narrando o futuro dele. Você não precisa falar... O que que te importa que eu fale, Gregório, só um minutinho que eu vou mijar ou fazer xixi?

JVJoão Vicente de Castro

Vou ao banheiro.

GDGregório Duvivier

Vou ao toalete.

JVJoão Vicente de Castro

Mas quando você tem que falar da coisa, por exemplo? Quando você vai contar uma história. Cara, eu tava lá e o cara, tipo, fez cocô nas calças.

GDGregório Duvivier

Cocô? Ah, tá bom.

JVJoão Vicente de Castro

Tu pode falar cocô?

GDGregório Duvivier

Cocô.

JVJoão Vicente de Castro

Tá, mas se você tiver que usar um verbo pra usar, por exemplo, pra regra.

GDGregório Duvivier

Cocôzinho.

JVJoão Vicente de Castro

Vou defecar regra? Eu vou evacuar a regra? Para de defecar regra.

GDGregório Duvivier

Ah, para de ir ao toalete com regra. Para de jogar regras no toalete. Ó, que bonito, você é demais bonito. Está jogando regras no toalete.

JVJoão Vicente de Castro

Tá, então vamos falar isso. Qual é essa expressão? Jogar regra no toalete, evacuar regra, defecar regra. Ela tem uma particularidade que é: ela não funciona se a pessoa conhecer as regras, né? Se for uma pessoa que entende das coisas, você não vai falar isso.

GDGregório Duvivier

Artista não caga regra, não tem paciência.

JVJoão Vicente de Castro

Exatamente.

GDGregório Duvivier

Sobre futebol.

JVJoão Vicente de Castro

Exatamente. Pô, fui ver o programa da faculdade que o professor lá ficou cagando regra sobre direito, mas a aula era sobre o quê? Direito. Então ele não cagou regra.

GDGregório Duvivier

Talvez ele tenha cagado regra sobre disciplina.

JVJoão Vicente de Castro

É, cagar regra é basicamente sobre a sua área que não é da sua expertise. Você tá necessariamente fora do seu escopo, que é esse programa aqui, porque a gente só fala sobre coisas que ele não entende. Exatamente.

GDGregório Duvivier

Quer sobre basicamente tudo.

JVJoão Vicente de Castro

Ou seja, esse programa é uma grande cagação de regra. Que é muito chato. Tem uma diferença entre cagar regra e palestrinha? Que é uma expressão que surgiu recentemente. O cara é um palestrinha?

GDGregório Duvivier

É que eu acho que o cagador de regra, ele... ele... Vamos lá. Ele... diz como consenso uma coisa que ele pensa. Tá, tá. O palestrinha elabora uma coisa longa, consensual ou não, mas de maneira prolixa e tentando florear essa, essa conversa. Então ele apresenta o argumento, desenvolve o argumento, em geral tem qualquer coisa de motivacional. Tem alguma coisa motivacional? Tem alguma coisa? Tem uma estrutura meio chat GPT-liana?

JVJoão Vicente de Castro

Uma palestrinha?

GDGregório Duvivier

Uma palestrinha.

JVJoão Vicente de Castro

Olha, curioso, você tá fazendo uma palestrinha sobre o palestrinha.

GDGregório Duvivier

Mas é que o palestrinha não é só fazer uma palestra. O palestrinha é um jeito de ser.

JVJoão Vicente de Castro

É um jeito de ser.

GDGregório Duvivier

Sabe o Chico Bosco? Outro dia ele falou uma coisa assim, cara, eu converso sobre tudo com meus filhos. Eu não brigo com eles, eu só converso com eles. Então, se eles fazem uma coisa errada, eu sento com eles, eu falo, olha, meu filho, não pode fazer isso. Ou seja, os filhos dele não fazem coisa errada para não ouvir palestrinha, que é o maior castigo.

JVJoão Vicente de Castro

O maior castigo que tem é uma palestrinha, né?

GDGregório Duvivier

Porque você toma um tapa na venta, tomou, passou, acabou, vai, entra no quarto e vai que vai. Vocês tomam Guilherme!

JVJoão Vicente de Castro

Passou.

GDGregório Duvivier

Já passou, acabou. Tomou um Guilherme, tá aqui. Acha aqui.

JVJoão Vicente de Castro

Acha aqui.

GDGregório Duvivier

Passou. Agora você ouvir assim: meu filho, você tá feliz com o que você fez?

JVJoão Vicente de Castro

Esse tipo de pergunta que te fode.

GDGregório Duvivier

Me deixa entender. Se o papai fizesse isso, você ia gostar?

JVJoão Vicente de Castro

Não, é muito chato. Nossa, palestrinha é o pior castigo.

GDGregório Duvivier

E por que você não ia gostar? Por que isso, meu filho? Faz com que você se sinta triste, assim como papai tá triste. E se o papai tá triste, o papai não vai fazer com que você—

JVJoão Vicente de Castro

Você já vai falar em Wittgenstein? Porque o Bosco ainda deve manter umas referências ali na luz pro outro filho. Moleque de 6 anos e ele tá lá.

GDGregório Duvivier

Meu filho, Freud vai dizer.

JVJoão Vicente de Castro

Freud vai dizer. Porra, é foda. Palestrinha é realmente foda.

GDGregório Duvivier

Eu acho que daqui a pouco Assim como foi retirada do comportamento dos pais a agressão física, a palestrinha vai ser cancelada. Você acha? Porque uma criança perde muito tempo ali, né?

JVJoão Vicente de Castro

Muito, cara. Tem algo na palestrinha que é foda, que é quando você— eu às vezes tenho algumas áreas que eu começo a ficar muito nervoso, que se a pessoa entrar ali eu vou dar uma palestrinha. Tem umas áreas... Porque todo mundo tem uma área de expertise que te torna muito chato ao sabê-la. Tem coisas que é melhor não saber, é isso que eu quero dizer.

GDGregório Duvivier

Tipo?

JVJoão Vicente de Castro

Tipo café.

GDGregório Duvivier

Ah, você...

JVJoão Vicente de Castro

Eu sou um cara que gosta muito de café.

GDGregório Duvivier

Mas do velho mundo.

JVJoão Vicente de Castro

Justamente. Café tem que ser do novo mundo. Café... Aliás, tem uma curiosidade. Café, de modo geral, o país não tem... É o contrário de vinho, quase, que só lugar chique que dá vinho. Café bom em geral é do sul global, assim, melhor café que tem é Etiópia. Brasil, Brasil pau a pau com Etiópia.

GDGregório Duvivier

É pau a pau mesmo? Ou você tá sendo brasileiro?

JVJoão Vicente de Castro

Pô, é o Caparaó, é pau a pau com Etiópia. Do Caparaó especialmente. Mas é Etiópia, ó, tá vendo?

GDGregório Duvivier

Me troquei de casquinha. Você não gosta, né? Qual a altura mesmo que tem que ter?

JVJoão Vicente de Castro

Tem que ter pelo menos 1000 metros.

GDGregório Duvivier

Ah, isso é óbvio, gente. Pô, vai ter o quê, 900 agora?

JVJoão Vicente de Castro

Café bom é mais de 1000 metros.

GDGregório Duvivier

Mais de 1000 metros.

JVJoão Vicente de Castro

Tem que ter, claro, uma zona tropical. Fora zona tropical não tem. Então é muito específico, porque você tem que ter muita altitude, mas também na zona tropical. Nos Alpes tu não faz um café nem fodendo. Então tem que ser altitude tropical. E hoje em dia estão vendo cada vez mais que mata adianta muito em volta. Por isso que o Acaparau é foda, que ele é no meio de uma mata. Então não adianta nada ter, entendeu, uma puta altitude e tal, mas se não tiver biodiversidade também é boa pro café.

Cafés espetaculares. Serra do Caparaó, os melhores do mundo. Beijo, pessoal do Caparaó. Família Protássio faz um café.

GDGregório Duvivier

Tá ótimo, a gente já entendeu. A gente sabe que vai chegar agora a caixa de café que não vai chegar pra mim, tá? Caparaó, beijo pra família González.

JVJoão Vicente de Castro

Cara, e aí a gente começa a falar de café. Ah não, porque a pessoa fala assim: ah, porque o café não pode ferver, né? Porque se ferver a água, o café fica— Se eu falar que isso não faz a menor diferença, Porque vai queimar o café se... Vou respirar, que eu não vou ser a pessoa que fala que café não queima se a água tiver 100 graus em vez de 96. Não faz o menor sentido isso.

GDGregório Duvivier

Mas isso, por exemplo, mostra que você não é o cagador de regra.

JVJoão Vicente de Castro

É.

GDGregório Duvivier

Porque o cagador de regra, ele tá só esperando o momento dele discordar de você.

JVJoão Vicente de Castro

E tem gente que é assim sobre qualquer coisa.

GDGregório Duvivier

Primo e irmão de um sujeito... Eu tenho um amigo que eu sofro muito, eu adoro ele. Mas ele tem uma questão que é o seguinte: ele é um tipo específico de gente que começa a falar uma história que nos primeiros minutos você já entendeu o que ele quer dizer. Então assim, no caso desse jogo, foi que o impedimento veio bem... Aí eu penso: sim, aí o Brasil empatou, não sei o quê. Aí eu falo: sim, o Brasil empatou. E aí ele continua. Porque aí o Brasil foi, empatou.

JVJoão Vicente de Castro

Nossa, muito chato.

GDGregório Duvivier

E aí parece um pouco... Tinha uma ex-namorada minha que era assim também. Ela ia brigar comigo... Deixa eu já contar isso aqui. Ela ia brigar comigo e eu concordava com o que ela tava dizendo. Então ela falava assim, você não devia ter feito isso. Eu falava, é verdade. E aí ela já tinha formulado todos os argumentos antes.

JVJoão Vicente de Castro

E ela não ia jogar fora.

GDGregório Duvivier

Ela não ia jogar fora. Então ela continuava, porque não pode fazer isso.

JVJoão Vicente de Castro

Essa história que ele tá contando, não só que ele contou, eu já contei, porque ela é minha e acontecia comigo. Então não é que ele tá contando de novo uma história dele. Ele tá contando uma história uma história minha e o espectador pode encontrá-la. Então olha que barato, agora o espectador vai ter acesso, ele vai ter acesso ao que acontece com esse amigo do João. Ele rouba as tuas histórias, ele rouba a tua subjetividade, ele rouba a tua memória, ele rouba a tua individualidade. Não é verdade, canalha! Não é verdade, você conhece, você também conhece.

GDGregório Duvivier

Fala nome.

JVJoão Vicente de Castro

Não, você conhece, você também tá cansado de conhecer. Você conviveu na época em que isso aconteceu, você adora essa história, fala igual a tua ex. Agora você mudou e se apropriou. Igual aquela tua história, que cara de pau! Isso é horrível, é horrível, é gaslighting, é manslighting, é gaslighting.

GDGregório Duvivier

Bom, o Gregório escreveu uma peça com as coisas que eu falo.

JVJoão Vicente de Castro

Caralho, isso daí me dá ódio. João, pega uma coisa que você fala depois que você for ver a peça, fica repetindo por aí.

GDGregório Duvivier

Eu nunca assisti essa peça.

JVJoão Vicente de Castro

Ai, João, pelo amor de Deus. Porque tem umas coisas, voltando à cagação, que é foda, que é o seguinte: A defecar regra, que é o seguinte, que faz você muito chato. E claro, é mais comum em homem, né? É muito difícil uma mulher cagando regra.

GDGregório Duvivier

Homem é tudólogo, né?

JVJoão Vicente de Castro

Homem, todo homem é tudólogo. É muito difícil ter um homem que não seja em alguma coisa.

GDGregório Duvivier

Nunca um homem branco hétero disse não sei. Olha que bela frase para pichar no muro. Mas sempre um homem. É porque, bom, vocês sabem que tem aqui um sujeito que é o feminista e que anda pelo litoral brasileiro dizendo, é porque lá quando eu dirijo não importa.

JVJoão Vicente de Castro

Você dirige?

GDGregório Duvivier

Não importa. É, não é, bom, aquelas coisas que eles falam, aquelas bobagens. Não concordo com muita coisa não, muita coisa não concordo. Acho muito falocêntrico. Muito falocêntrico, muito falocêntrico, falam muito do cocô e xixi.

JVJoão Vicente de Castro

Pedestal, eles estão no pedestal.

GDGregório Duvivier

É, estão ali, fácil, né? Enfim, eles se reconhecem como brancos, né? Então eles... Eu vim de Macaé e fui fazendo uma vida lá.

JVJoão Vicente de Castro

Uma história de superação.

GDGregório Duvivier

É, uma história de superação. E hoje em dia eu tô lá tentando botar um tipo de regra, mas eles não entendem muito, muito bobos, né? De alguma forma, se você pensar.

JVJoão Vicente de Castro

Total.

GDGregório Duvivier

Mais velhos e tal, e já com muita incertezas na vida.

JVJoão Vicente de Castro

E assim, marcas também que não é muito a minha praia. Eu sou um cara mais do cinema, cinema, né, iraniano. Eu sou um cara que tá, eu sou, meu compromisso é mais com, você já viu os vídeos que eu faço filmando pessoas na rua com consentimento de todas? Eu sou um cara que gosta muito de consentimento.

GDGregório Duvivier

Ele fala essa frase, se alguém me perguntar o que te dá tesão, eu falo consentimento. Meu Deus, meu Deus, consentimento, consentimento, consentimento, consentimento.

JVJoão Vicente de Castro

Eu tenho um poema que é assim: sexo para mim só com sentimento. Eu fiz esse poema, cara, que ótimo que me deu agora.

GDGregório Duvivier

Com vírgula sentimento, com sentimento, com sentido. Sentimento não é Consentimento. Eu posso te contar de um curta que eu tô gravando?

JVJoão Vicente de Castro

Sentimento ou contimento? Sem consentimento não há contido nem sentido.

GDGregório Duvivier

Sentido e mento, pois não minto.

JVJoão Vicente de Castro

Se não tivesse atido, seria sentido.

GDGregório Duvivier

Ativo, mas também talvez não, pois não concordo com patriarcado. Não arco com patriarco.

JVJoão Vicente de Castro

Não arco com o patriarca. O que que você ia falar?

GDGregório Duvivier

Eu não ia falar nada não, hoje eu não tô falando nada. Eu tô mais, olha, era pra eu tá com Velho Mundo na mão aqui. Deixa eu te falar uma coisa, esse negócio do vinho do Velho Mundo, né? Você me mentiu.

JVJoão Vicente de Castro

Não, não, não.

GDGregório Duvivier

Mentiu que eu— Bom, só contextualizando, né, pra todos entenderem. Outro dia eu tava falando aqui Que eu gosto de vinho, mas não sou entendedor de vinho. Até o menino que é entendedor de vinho, o jovem do vinho, foi lá e...

JVJoão Vicente de Castro

Ele é menino mesmo ou você tá meninando ele?

GDGregório Duvivier

Não, é um jovem.

JVJoão Vicente de Castro

Don't menino me. You're meninando me.

GDGregório Duvivier

Não, ele é, ele é o trinta, trinta, deve ter uns trinta. E ele, e ele respondeu, disse Como assim? Acho engraçado que uma pessoa dizer que... É um clássico a pessoa dizer que gosta de vinho, mas não entende nada de vinho. Não disse que não entendo nada, eu só disse que não sou um grande entendedor. Entendedor é uma palavra que não quer dizer que você entende, quer dizer que você entende muito, concorda? Sou um entendedor de música clássica.

Gosto de música clássica. Peço perdão ao jovem do vinho que se sentiu ofendido com a minha fala. Mas o que o Gregório mentiu dizendo que eu digo por aí que eu gosto de vinho do velho mundo Verdade é que eu gosto, mas a verdade é que eu não falo esse tipo de frase. Sou um cara muito humilde, eu sou feliz no simples. Qual que é o seu simples, João?

JVJoão Vicente de Castro

O simples?

GDGregório Duvivier

Qualquer lugar que eu consiga esticar minha perninha pra dormir, pra mim tá bom.

JVJoão Vicente de Castro

É?

GDGregório Duvivier

Ventilador de teto? Ventilador de teto com luz pra fazer vão, vão, vão, vão. Talvez as maiores agonias da minha vida. Quer me enlouquecer? Me bota numa sala que tem ventilador de teto e uma luz branca que faz assim.

JVJoão Vicente de Castro

Caralho, e às vezes quando a luz tá atrás do ventilador de teto por algum motivo, e aí fica flicando. Aliás, sério, nada me irrita mais que, cara, luz flicando. Na entrada do pórtico tem uma ali que é pra enlouquecer.

GDGregório Duvivier

Tem não, hoje está.

JVJoão Vicente de Castro

Hoje está. Tem umas ruas no Rio que tá a lâmpada, tá assim, a lâmpada da placa da rua, e tá lá há 10 anos esperando o Monk fazer um vídeo de uma senhora andando com Com pinto. Nossa, solidão ou solidão é lava.

GDGregório Duvivier

É solidão ou solitude.

JVJoão Vicente de Castro

Solitude me irrita demais. Essa, a diferença entre solidão e solitude, não há. Sabe por quê? Porque não existe essa palavra solitude em português. Isso é um anglicismo que vocês estão importando, porque em inglês tem a diferença entre loneliness and solitude. E daí eles falam, é, aí importa uma trend.

GDGregório Duvivier

Estás na frente de uma pessoa que já falou muito isso.

JVJoão Vicente de Castro

É uma trend importada. Me irrita muito isso.

GDGregório Duvivier

Mas desculpa, a solidão, Gregório, a solidão é uma coisa que carrega um grau de tristeza.

JVJoão Vicente de Castro

Não necessariamente.

GDGregório Duvivier

A solidão, Gregório, solidão é um estado pleno. É um estado de solidão. Não é assim: ontem fiquei sozinho. Isso é uma coisa. Ontem estava sozinho. Ah, adoro ficar sozinho. A solidão.

JVJoão Vicente de Castro

Vamos inventar uma palavra então nossa, que não seja uma importação. Solitude, que isso? Que solitude?

GDGregório Duvivier

Porque solitude para mim carrega o conceito de feliz em estar sozinho, certo? Então talvez a gente pudesse—

JVJoão Vicente de Castro

é porque solidinha, solidinha, aí sim, solidez, solidez é bom.

GDGregório Duvivier

Solidez. Não, eu gostei mais solidinha, porque solidinha é fofo. Ai, eu adoro viver uma solidinha.

JVJoão Vicente de Castro

Viver uma solidinha é bom mesmo, porque tem a solidão. É agora que eu entendi. A solidão e a solidinha. Ah, gostei.

GDGregório Duvivier

Gostou?

JVJoão Vicente de Castro

Não, solidão.

GDGregório Duvivier

Pronto, vai escrever uma peça, saudar a língua 2, falar: seria muito melhor se fosse solidão virasse solidinha. O negócio de seu na língua.

JVJoão Vicente de Castro

O seu na língua. Tô com seu na língua agora que eu não ouvi que estavam chamando isso não. Seu na língua. Tô com seu pau na língua. Não, mas por que não?

GDGregório Duvivier

É seu de senhor. Ele é o seu na língua.

JVJoão Vicente de Castro

Ah, tá, ele é o seu na língua.

GDGregório Duvivier

Mas tipo como se Ele é o seu na língua?

JVJoão Vicente de Castro

É, o seu na língua. Ah, eu sou o seu na língua.

GDGregório Duvivier

Cara, por isso que o humor morreu depois de Porta dos Fundos, né? Porque essa geração não sabe fazer graça. O seu na língua. Igual tem o seu Jorge. Ah, é o seu na língua. Porque ele, como ele escreve peças com as coisas que o Jorge fala lá de língua portuguesa, ele é o... Vamos criar um canal com 20 milhões de inscritos.

JVJoão Vicente de Castro

É engraçado, aliás, seu, né? A gente ter adotado seu pra... Ele é o seu Jorge, parece que ele é o Jorge de alguém.

GDGregório Duvivier

Jorge de alguém. Mas sabia que eu achava, por algum motivo, eu li em algum lugar, eu tô errado, eu sei, acho, que seu, de seu, de senhor, era com O.

JVJoão Vicente de Castro

Ah, seu. Poderia ser.

GDGregório Duvivier

Poderia ser, né?

JVJoão Vicente de Castro

O seu eu acho que não é de seu, dele, né? É de senhor, de seu. Ele é o seu Sérgio.

GDGregório Duvivier

Acho que é do senhor.

JVJoão Vicente de Castro

Seu Sérgio, seu Sérgio. É de senhor Sérgio, seu Sérgio.

GDGregório Duvivier

Seu Sérgio, seu Sérgio.

JVJoão Vicente de Castro

É, mas é que fica parecendo que ele é o seu dele. É. Porque também tem um outro seu que é seu...

GDGregório Duvivier

Por isso que eu chamo ele de meu Jorge, eu sou muito amigo dele.

JVJoão Vicente de Castro

Esse humor é bom, ele é bom. Porque tem um outro seu na língua portuguesa que eu gosto, que é pra xingar, que é seu idiota.

GDGregório Duvivier

Seu idiota.

JVJoão Vicente de Castro

Que não é de senhor idiota? Acho que sim.

GDGregório Duvivier

É? Ah, deve ser.

JVJoão Vicente de Castro

Seu imbecil.

GDGregório Duvivier

Seu imbecil.

JVJoão Vicente de Castro

Ele é um seu imbecil.

GDGregório Duvivier

É igual o seu da língua. Seu.

JVJoão Vicente de Castro

Seu, ninguém mais fala. Se fala ainda muito isso? Fala assim, seu bobo. Seu bobo. Que é muito bom. Será que vem de você é um bobo? Seu bobo.

GDGregório Duvivier

Você é um bobo, pode ser. Talvez.

JVJoão Vicente de Castro

Tem o... Contrações do português. Uma música bonita, um grande verso que eu vi agora de Rogério Skylab. Novo, que é: eu vejo na TV o que eles falam sobre o Jorge, não é Sérgio. Genial! O Jorge no Brasil não é levado a sério.

GDGregório Duvivier

Caralho, é perfeito! Não é Sérgio no Brasil, nunca, nunca é levado a sério. O Jorge no Brasil nunca foi levado a sério.

JVJoão Vicente de Castro

Que gênio! Puta que pariu, os caralho, que gênio! O Jorge no Brasil não é levado a sério. Grandes versos já escritos em língua portuguesa. Gênio.

GDGregório Duvivier

Reescritos, né? Assim como o Caetano fez com— era da peça.

JVJoão Vicente de Castro

Qual? Da minha peça?

GDGregório Duvivier

Andava nos rachos, distraída.

JVJoão Vicente de Castro

Eu tava pensando nessa música, num verso que eu acho muito lindo, que eu acho que você gosta também, que é— ela é cheia de versos lindos ali no meio, né? E tem uma que é Música Livros. Música Livros, Caetano. Os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor tátil que votamos aos maços de cigarro. A ideia de que maço de cigarro a gente vota a ele um amor tátil é muito linda, porque mesmo quem não fuma sabe o que é isso, né? Eu criança pegar os maços, não é um objeto delicioso?

GDGregório Duvivier

Eu acho que é um objeto também proibido e delicioso.

JVJoão Vicente de Castro

Porque pegar ele, eu lembro de tirar, uma coisa deliciosa, tirar do maço de cigarro o plasticozinho que o envolve e tentar botar de novo, que não era fácil, não era fácil, veja bem, não era, envolvia, porque era muito bem justinho, feito sob medida, parecia que tinham feito aquele maço, botava, aí criava um vacuzinho que não dava para empurrar, que era tão sob medida que ele ficava cheinho de ar, aí você tinha que Talvez abrir aqui uma brechinha pro ar ir saindo e botando aquilo ali. Aquilo ali, amigo, é das coisas mais gostosas que tem no mundo.

GDGregório Duvivier

É o plástico bolha 18+.

JVJoão Vicente de Castro

Plástico bolha, que é outro objeto que tem um amor tático. Essas coisas têm um amor tático. Tem uns objetos que são assim, né? A gente gosta deles assim, tipo, gostava de pegar. Isqueiro. Aliás, todo o universo do cigarro tem um amor tático, porque cinzeiro é outro objeto bonito, um cinzeiro. As casas acho que não tem mais cinzeiro, que é bom, tão fumando talvez menos, não sei, mas Não tem cinzeiro. Vape não precisa de cinzeiro.

Olha que tristeza, que é uma pena, porque o cinzeiro é sempre um objeto bonito. Eu adoro, eu gosto de pôr fósforo. Minha filha descobriu o fósforo outro dia, chega, parava, ficava o dia inteiro. É muito mágico aquilo, um palitinho que você faz tchum, e o cheirinho de fósforo.

GDGregório Duvivier

Cheiro de fósforo é maravilhoso, é uma delícia. Lembra que pessoas colecionavam fósforo?

JVJoão Vicente de Castro

Porque restaurante tinha muito fósforo na porta. Nunca mais vi restaurante com cabecinha verde.

GDGregório Duvivier

Tu prefere com cabeça vermelha? Eu prefiro, João. Falocêntrico, falocêntrico.

JVJoão Vicente de Castro

Isqueiro aqui, esse fósforo então nunca mais vi, que é o fósforo de restaurante, que ele é molengo, sabe? Fósforo que ele é, ele não é—

GDGregório Duvivier

tem dois tipos de fósforo, o de madeira e o de papelão. É que ele é de papelão, quer dizer, imagino eu, é de papel, é verdade.

JVJoão Vicente de Castro

É, cagou na regra. Tem dois tipos de fósforo. Tem duas grandes escolas.

GDGregório Duvivier

Fósforo é o seguinte: quem começa com palavra é o seguinte, vai cagar a regra. Vai cagar a regra.

JVJoão Vicente de Castro

João, fósforo é o seguinte.

GDGregório Duvivier

Agora, qual a questão do fósforo?

JVJoão Vicente de Castro

Aí tá uma mãozinha da pessoa.

GDGregório Duvivier

Fósforo é o seguinte: tem duas coisas.

JVJoão Vicente de Castro

Primeiro, eu brinco que tem duas escolas.

GDGregório Duvivier

Eu brinco que na Roma Antiga Aí quando começa, quando começa na romantia. Mas o fósforo, o fósforo de caixa e o fósforo, vamos dizer, de papelão, ele, eles têm utilidades diferentes. Porque o de papelão serve para quê? Para acender e para escrever um bilhete para você mandar para alguém que você se interessou no bar.

JVJoão Vicente de Castro

Ah, tem isso? Você escreve ali no dorso? Ah, não sabia.

GDGregório Duvivier

Adorei ti.

JVJoão Vicente de Castro

Adorei ti.

GDGregório Duvivier

Com sentimento, sinto que terei sentimento. Lindo. Sem ti.

JVJoão Vicente de Castro

Já não coube. Acabou, acabou o espaço.

GDGregório Duvivier

Não, acho que eu é pequenininho.

JVJoão Vicente de Castro

Você é pequenininho?

GDGregório Duvivier

Aí tu manda. Tem também anotar um telefone.

JVJoão Vicente de Castro

É verdade.

GDGregório Duvivier

Coisas que não tem no de caixa.

JVJoão Vicente de Castro

O de caixa?

GDGregório Duvivier

O de caixa... Tacaracá, tacaracá, tacaracá.

JVJoão Vicente de Castro

Foi feito pra isso.

GDGregório Duvivier

Foi feito pra isso. Malandro que é malandro. Anda com fósforo mesmo se não fumar. É boa frase também. Disse eu que fiz a mesma frase e ninguém reagiu, e ninguém achou. Autovalidação. E eu gostava muito de quebrando as pontinhas da caixa. Agora, a grande coisa que a evolução do fósforo virou a caxeta.

JVJoão Vicente de Castro

O que que é uma caxeta?

GDGregório Duvivier

Cacheta é um objeto, um instrumento, que é basicamente... Aí eu vou cagar a regra, que eu não sei o que tem dentro, mas é tipo uma... Imagina dois plásticos assim, costurados assim, fazendo um quadrado, e dentro, acho que bolinhas de metal. Então faz o mesmo barulho.

JVJoão Vicente de Castro

Ai, não conheço.

GDGregório Duvivier

É, pois é, Gregório, você não é do samba. Eu sou do samba. Eu sou.

JVJoão Vicente de Castro

João do samba, entendeu?

GDGregório Duvivier

Alô, Mosquinho!

JVJoão Vicente de Castro

Alô, Inácio!

GDGregório Duvivier

Fala, Feijão! Olha, bichinho! Cadê?

JVJoão Vicente de Castro

Isso foi você emulando o quê? Um puxador do samba?

GDGregório Duvivier

Não, não, isso eu só falando com meus amigos. Beloba!

JVJoão Vicente de Castro

É assim que você fala com sua turma de samba?

GDGregório Duvivier

Timbaia!

JVJoão Vicente de Castro

É assim que você fala com eles? E aí, mosquiça! Fala assim com eles? Bom dia! Como foi seu dia? Assim que você é?

GDGregório Duvivier

Ei, Rubem!

JVJoão Vicente de Castro

É assim.

GDGregório Duvivier

Milco!

JVJoão Vicente de Castro

Tu muda de voz?

GDGregório Duvivier

Bota a cacheta pro Gregório ver.

JVJoão Vicente de Castro

Eu acredito que tem uma cacheta. Mas é o instrumento do mala, não é não? É o instrumento do mala. Chega com isso daí numa roda de som, Monroi, lá vem ele de cacheta. É o que o João toca lá com o Guga.

GDGregório Duvivier

O contenedor do mosquito.

JVJoão Vicente de Castro

Chato pra caramba. Não, tá vendo?

GDGregório Duvivier

Não, não é isso não. É isso? Palito de fósforo não tem fósforo, né?

JVJoão Vicente de Castro

Palito de fósforo não tem fósforo.

GDGregório Duvivier

O fósforo tá na caixa, na ponta dele não é fósforo.

JVJoão Vicente de Castro

Sério, cara? Caralho, grande informação.

GDGregório Duvivier

Cloreto de potássio.

JVJoão Vicente de Castro

Cloreto de potássio, ou seja, o fósforo— o fósforo então—

GDGregório Duvivier

Desculpa. Não, também o caga-regra que fala não é regra, é ciência. É o pior cagador de regra.

JVJoão Vicente de Castro

É verdade.

GDGregório Duvivier

Não tô cagando regra, é ciência.

JVJoão Vicente de Castro

É igual a gente fala, não é preconceito, é pré-conceito.

GDGregório Duvivier

É con—

JVJoão Vicente de Castro

não, é pós-conceito. É conceito. Não é preconceito, é conceito. Caralho, que raiva.

GDGregório Duvivier

É, só a gente saca.

JVJoão Vicente de Castro

Existe alguma entrada de cacheta no Google ou ele acabou de inventar? Ele inventou. Não há cacheta. Se fodeu. Não há cacheta no Google, não há. Então não há. Não há cacheta, ele vai... É, não tem, gente. Desculpa, o João inventou isso. Mas eu fiquei muito bolado que não há fósforo no palito de fósforo. O fósforo então ele é aquela superfície áspera na qual você esfrega o palito, é isso? É.

GDGregório Duvivier

Se alguém quiser acreditar aí, pesquisar no Google, mas até onde eu sei é.

JVJoão Vicente de Castro

Eu tinha um jogo no fósforo que as crianças não podem fazer isso em casa porque é muito perigoso.

GDGregório Duvivier

Fala, meu padre, tá ao vivo no— não importa, tá?

JVJoão Vicente de Castro

Tá ao vivo não tá não.

?Voz C

Ixi, deixa eu botar uma camisa.

GDGregório Duvivier

Não precisa não.

JVJoão Vicente de Castro

Deixa eu botar uma camisa.

GDGregório Duvivier

Não precisa não. Eu falei aqui, ô mosquito. Aqui é mosquito. Meu brother mosquito. Ó, então é o seguinte, eu tô falando aqui pro Gregório, esse ignorante do samba, que há uma evolução do facho que virou uma coisa chamada caxeta. Aí eu expliquei pra ele que é um plástico assim e dentro tem o quê dentro da caxeta?

?Voz C

Não sei, uma sementezinha, uma sementezinha.

GDGregório Duvivier

E aí botaram no Google e eles acreditam mais o quê? No Google do que no meu conhecimento de samba. Eu queria que você explicasse brevemente a Gregório o que é uma cacheta.

?Voz C

Eu, Gregório, prazer em falar com você, meu irmão.

JVJoão Vicente de Castro

Saudade.

?Voz C

É o seguinte, a cacheta é um instrumento que o Marcos China, um percussionista É a melhor qualidade. Eu tô tentando achar uma aqui. Ele faz.

JVJoão Vicente de Castro

Então foi o Marcos China que inventou a cacheta?

?Voz C

Eu acho que não, porque o Birani do Fundo Digital também fazia. Na verdade, cada um, a cacheta pode ser várias coisas. É a reprodução da caixa de fósforo, né, do som da caixa de fósforo. Então o Birani fazia com latinha. Latinha de remédio ou de chiclete, botava feijão. Então fica com um sonzinho, vai ser uma caixinha de fósforo um pouquinho mais alta. E a do Marcos China é essa aqui, ó.

JVJoão Vicente de Castro

Achou?

GDGregório Duvivier

Toca aí um minutinho, vamos ver só como é que faz. Não dá para tocar caixeta e ficar com o telefone na mesma mão.

JVJoão Vicente de Castro

Caralho, aí sim, humilha na caxeta, maravilhoso. Saquei, maravilhoso.

?Voz C

É bagulho de malandro.

JVJoão Vicente de Castro

Primeiro solo de caxeta. Tá bom, tá aqui, ó.

GDGregório Duvivier

Obrigado, mosquito.

JVJoão Vicente de Castro

Torce, isso.

GDGregório Duvivier

Beijo. Mosquito, que vai estrelar Zeca Pagodinho no cinema. Filme dirigido por Silvio Guindani. Grande elenco. E tá arrasando com a cena.

JVJoão Vicente de Castro

Quero muito ver isso. Já viu cena?

GDGregório Duvivier

Já.

?Voz C

Depois eu tenho que mandar uma música pro Gregório, que eu peguei a letra dele com a Teresa Cristina e musiquei.

GDGregório Duvivier

Tá ali.

JVJoão Vicente de Castro

Sério, rapaz? Aê, nossa parceria decolou! Ah, que alegria, irmão! Tamo junto, te amo! Olha isso, em primeira mão. Vocês vão saber que tem uma música aí. Aliás, falando em música, vamos lá, eu quero falar de um assunto que é o seguinte. Não, não, não, vamos lá.

GDGregório Duvivier

O Gregório mais uma vez me imitando.

JVJoão Vicente de Castro

A gente vai mostrar o corte.

GDGregório Duvivier

Ele começou a compor música agora só porque eu componho música.

JVJoão Vicente de Castro

Ah, tá bom. Eu queria primeiro que você falasse um pouco desse seu lado compositor, que isso nunca foi abordado aqui. Ah, é. João Cêsar tem um lado compositor. Ele compôs várias músicas, ele compõe músicas. Uma delas com Ana Vitória, se você talvez não saiba. Tem música com Ana Vitória, tem música com o Inácio, tem pagode, tem samba, tem música, tem, né, vários gêneros. E um deles é com Ana Vitória. Ana e Vitória, são uma dupla, mas você compôs com a Ana.

GDGregório Duvivier

Não, Ana e Vitória é a dupla.

JVJoão Vicente de Castro

É a dupla. Você compôs com a Ana?

GDGregório Duvivier

Eu compus com a Ana.

JVJoão Vicente de Castro

Tá, então ele tem essa música. E a gente vai ver hoje como é que é o processo criativo do João. Vamos lá, põe, dá o play aí. Uma dúvida, no frango assado, a pé fica onde na sua preferência? Na boca. Dei outro sentido aos pés quando na sua boca. Olha o verso, olha esse verso, esse amor tátil que ele tem pelos pés alheios. Cara, ninguém tinha entendido esse verso do João ainda até ver o Não Importa. Então Não Importa é também uma forma de você entender o João compositor, entender O que ele quis dizer?

GDGregório Duvivier

Eu componho, assim como Chico Buarque, eu componho através de olhos que não são meus, Gregório.

JVJoão Vicente de Castro

Ah, tá. Caralho, essa daí foi muito boa. Então, o que você quis dizer com dei outro sentido aos pés quando na tua boca era isso? Não! Botei os pés na tua boca...

GDGregório Duvivier

O pé virou uma chupeta.

JVJoão Vicente de Castro

É isso?

GDGregório Duvivier

Eu nem sei se esse verso é meu, pode ter sido dela também.

?Voz C

Ah, sim.

GDGregório Duvivier

Mas, de qualquer forma...

JVJoão Vicente de Castro

É bom demais isso. Parabéns à pessoa que encontrou isso. Então a pessoa é fã do Não Importa e da Ana Vitória. E o mais doido deve ter sido ela pensar assim, isso parece aquela música da Ana Vitória, Pede Sua Boca. Deixa eu ouvir ela. Quem compôs? Caralho, que delícia isso!

GDGregório Duvivier

Eu assim, para mim, sexo Sexo pra mim, sexo é o seguinte: tem improviso, tem que dar espaço ao que não tá sendo pensado, não tá sendo programado. Às vezes te sobra um pé na boca, você vai fazer o quê? Renegar? Vai falar não?

JVJoão Vicente de Castro

Te sobra um pé na boca, é das grandes frases.

GDGregório Duvivier

É, te sobra um pé na boca, alguém senta na tua cara, a vida é assim. Você vai falar o quê? Não sou banco? Olha que anticlímax!

JVJoão Vicente de Castro

Dei outro sentido agora.

GDGregório Duvivier

Quando eu fiz de banco, você entendeu? Às vezes você tá saindo de um velório e aí no carro acontece. É, é claro, você tá ali, por exemplo, sabe?

JVJoão Vicente de Castro

Já aconteceu isso?

GDGregório Duvivier

Já aconteceu comigo. Já saímos de um velório, cara, eu fico Velório me dá tesão do caralho. Mas isso tem uma...

JVJoão Vicente de Castro

Dê outro sentido à morte.

GDGregório Duvivier

Quando na minha boca. Não, mas o que eu tô dizendo é, isso tem uma explicação na psicanálise, sabia? É? É, porque quando você... Isso acontece muito, a pessoa transar muito depois de um velório. Por quê? Porque ali você tá em contato com a finitude, com a morte, e o sexo é exatamente o oposto. É afirmação da vida.

JVJoão Vicente de Castro

João, parabéns, parabéns, você conseguiu, você conseguiu chegar em alguém com um cadáver. Você deu aqui a letra para pessoa tentar transar no enterro. Você realmente é tadinho do Cláudio, né? Ele é jovem para caramba, não faz sentido.

GDGregório Duvivier

Não, ele era um cara demais.

JVJoão Vicente de Castro

Demais, nunca mais.

GDGregório Duvivier

Você conhecia ele? Há muito tempo.

?Voz C

Muito.

GDGregório Duvivier

Meu irmão. Seu irmão? Puta, desculpa. Pô, eu adorava ele também. A gente se divertia muito juntos.

JVJoão Vicente de Castro

Mas acabou, nunca mais.

GDGregório Duvivier

Não, não é assim não, não acabou. Cláudio vai viver sempre dentro de nós. Dentro de nós.

JVJoão Vicente de Castro

O quê? Não entendi.

GDGregório Duvivier

Não, dentro de nós.

JVJoão Vicente de Castro

O que que você não entendeu dentro?

GDGregório Duvivier

A morte, né? O que é a morte? Infinitude. Acabou. Mas será que acabou?

JVJoão Vicente de Castro

Como assim? Talvez tenha acabado pelo...

GDGregório Duvivier

Não, não, mas eu acho que também que pro Cláudio realmente acabou, mas pra quem tá aqui talvez não.

JVJoão Vicente de Castro

O que você quer dizer com isso?

GDGregório Duvivier

Quero dizer que a gente tá há muito tempo em contato com a morte.

JVJoão Vicente de Castro

Você tá de pau duro?

GDGregório Duvivier

Não, não, é que tá com uma chuvinha, eu trouxe Minha sombrinha, é... Vamos afirmar a vida? Vem afirmar a vida comigo?

JVJoão Vicente de Castro

O que você quer dizer com isso?

GDGregório Duvivier

Tem um panda ali atrás.

JVJoão Vicente de Castro

Um panda? É um hotel? Você tá louco? Que isso? Você vem aqui todo dia... Você não conhecia ele, né?

GDGregório Duvivier

Conheci.

JVJoão Vicente de Castro

O nome dele não era Cláudio.

GDGregório Duvivier

Cláudio é o jeito que eu chamava ele.

JVJoão Vicente de Castro

Você vem aqui todo dia, né? Me falaram de você. É o maníaco do enterro!

?Voz C

Merda!

JVJoão Vicente de Castro

Cara, ele vai todo em pé e fala o mesmo texto.

GDGregório Duvivier

Ah, essa vida, a morte, a vida. Fica ali meio sozinho no bar. Quem olhar, olhou. Quem pegar, pegou. Mas sim, é verdade. Mas é isso, são maneiras. Todo lugar, Gregório, a gente pode achar uma maneira de viver. É, né? Todo lugar a gente tem que achar uma maneira de existir, né? Todo lugar.

JVJoão Vicente de Castro

Para de chegar em mim, meu querido.

GDGregório Duvivier

É, mas a questão é o seguinte, né? A questão é do, é do, é do química, né?

JVJoão Vicente de Castro

Química.

GDGregório Duvivier

Acho que a química pode acontecer em qualquer lugar.

JVJoão Vicente de Castro

É, menos quando mais se espera, né? Dizem que a coisa menos sexy que tem É casal, por exemplo, que tá tentando engravidar e tem que transar nesse dia 5 de junho, que é o período fértil. E aí você broxa.

GDGregório Duvivier

É. Broxa?

JVJoão Vicente de Castro

Não, eu broxo. É, tipo assim, transar com hora marcada, sabe? Ou... Tem um casal que eu conheço que transa toda quarta. Sei que já que eles transam. Você não... Não é meio estranho isso?

GDGregório Duvivier

É, e deve dar uma afliçãozinha, né? E se eu não quiser hoje?

JVJoão Vicente de Castro

Isso, aí você não pode bater uma punheta na quarta de manhã já.

GDGregório Duvivier

Não, não. Tem que fazer. Tem que aqui, ó.

JVJoão Vicente de Castro

Hoje tem.

GDGregório Duvivier

Terça à noite, no último acerto maior. Mas a questão é que eu odeio... Como é que é o nome disso? Blind date, por exemplo. Ah, tem uma amiga minha e um amigo teu. Porque ali vocês sentam na frente do outro pensando: a gente tem que dar certo. A gente tem que...

JVJoão Vicente de Castro

É uma coisa meio medieval.

GDGregório Duvivier

É uma coisa meio medieval, uma coisa... É quase... São duas castas que vão se... Duas não, a mesma casta que vai, vamos botar a mesma pessoa. É ruim mesmo, porque o interesse na pessoa é muito subjetivo. Interesse das pessoas nas pessoas é muito subjetivo, né? Tem gente que eu tenho, uma mulher que, por exemplo, que eu acho incrível, que você pode achar nada, ou vice-versa. Tem a coisa do molho, o molho, o molho. Eu só gosto da expressão falando, tem um molho Da expressão gosto, não gosto de molhos.

JVJoão Vicente de Castro

Você não gosta de molho? Eu amo molho.

GDGregório Duvivier

Eu gosto de pimenta.

JVJoão Vicente de Castro

Eu sou um cara que eu vivo pra molho.

GDGregório Duvivier

Você pede 2 molhos na salada?

JVJoão Vicente de Castro

Peço 2 molhos. Peço pra dobrar o molho, eu falo capricha no molho.

GDGregório Duvivier

Capricha no molho.

JVJoão Vicente de Castro

Tenho pena que capricho é uma palavra que não existe em várias línguas, capricha.

GDGregório Duvivier

É, já falei.

JVJoão Vicente de Castro

Porque o capricho é, capricha no molho é muito bom. E eu, falando em objetos saudosos, a molheira.

GDGregório Duvivier

A molheira.

JVJoão Vicente de Castro

Coisa mais gostosa que tem é a molheira, não é? Toda casa de vó tinha uma molheira.

GDGregório Duvivier

Toda, no Brasil inteiro, em todas as pessoas. Eu tô falando do Iapoque, é o Chuí, tô falando das comunidades do Rio de Janeiro. Toda casa de vó tem uma molheira que acompanha a carne assada, frango ou a salada, né?

JVJoão Vicente de Castro

Salada nem sempre, mas o frango sempre vem com uma molheira, um bom frango assado. E aí você vai pegar ela e ela faz assim, ó, você vai regar.

GDGregório Duvivier

Então tem gente que nasceu com a própria moleira. Todo mundo nasce com moleira.

JVJoão Vicente de Castro

Moleira.

GDGregório Duvivier

A moleira, por exemplo, a moleira do bebê, porque tem o mesmo formato, tem aquele formatinho. Dá para botar uma gorgonzola ali. Mas de qualquer maneira, você tem o molho? Eu tenho molho?

JVJoão Vicente de Castro

Você tem o molho?

GDGregório Duvivier

Acho que qualquer pessoa que disser eu tenho molho não tem o molho.

JVJoão Vicente de Castro

Eu acho também. É uma boa definição. Cagou uma regra agora certeira, né?

GDGregório Duvivier

A primeira é a Primeira coisa que você não faz quando você tem um molho, porque ter o molho tá diretamente ligado a uma falta de preocupação com o teu molho.

JVJoão Vicente de Castro

Claro, claro. O molho, ele nunca é autoproclamado. Eu tenho molho, eu preciso ter molho, como é que eu faço? Eu tô fazendo um curso de molho, eu tô tentando ganhar molho.

GDGregório Duvivier

Pouca gente diz eu tenho molho. Na Bahia, onde se fala muito isso, é, a pessoa não fala eu tenho molho, ele fala o baiano tem O baiano tem molho, deixa genérico.

JVJoão Vicente de Castro

E todo mundo, mineiro tem um molho, com certeza, que é outro molho do baiano. O baiano é mais apimentado, é um dendê.

GDGregório Duvivier

Minas tem pimenta também, mas Minas tem uma pimenta, mas é outro tipo de pimenta, outro tipo de molho. Mineiros têm molho, bastante molho.

JVJoão Vicente de Castro

Gaúcho tem molho, chimichurri mais assim. O gaúcho tem um molho, sabe o que que é? Molho acompanha, que é uma coisa bem carioca. Muita gente fala molho acompanha, tem aquele molho acompanha, como se fosse o molho que acompanha a carne.

GDGregório Duvivier

Eu acho que todo brasileiro, todo brasileiro, muitos brasileiros têm um molho. Acho que a grande, a grande, a grande coisa do Brasil, tanto é que não é um clássico sentar com um gringo ou uma gringa e falar assim, ah, mora aqui há 20 anos. Eu já pergunto logo, casou?

JVJoão Vicente de Castro

Casou. É sempre assim. Se não fosse o molho brasileiro, inclusive, cara, não existiria. Eu acho que nós não, não existiria o Brasil. Não, porque a gente tá aqui também fruto do molho, fruto do molho, que as pessoas vieram aqui. O gringo que veio, não tinha molho lá e veio aqui porque aqui tinha molho.

GDGregório Duvivier

Geograficamente o Brasil tem molho, tem.

JVJoão Vicente de Castro

Ele é uma molheira, é uma molheira, formato Brasil é uma molheira.

GDGregório Duvivier

Chega no Rio de Janeiro, um monte de problema, mas o Rio de Janeiro tem o quê como cidade? O molho.

JVJoão Vicente de Castro

E o Norte, João? O Norte para mim tem o melhor molho.

GDGregório Duvivier

Desculpa, o Norte tem o melhor molho. Como é que é isso?

JVJoão Vicente de Castro

É o molho meio de jambu, aquele molhinho, molho de tacacá. É o molho, molho do Norte, já são muitos molhos, muitos molhos, molhos, molhos de chave, né? Molho de chaves, né? E o molho, qual é o molho correto? É o capixaba, que não tem DND?

GDGregório Duvivier

É só para gerar o engajamento, porque eu definiria mesmo o Brasil como o país com mais molho.

JVJoão Vicente de Castro

Com certeza, brasileiro. Eu acho que o que une o brasileiro é o molho, o que une brasileiro é A gente não vive sem molho, não vivo sem molho.

GDGregório Duvivier

Você é o cara mais molhudo que eu conheço. O Gregório, não sei se você sabe, ele pede uma salada quando a gente tem uma coisa que a Gabi, que é um carrasco, ela fala assim: hoje vocês vão comer e ler ao mesmo tempo e conversar sobre o programa. Então a gente pede uma salada da Algarim, inclusive beijo pra Algarim, e a gente em geral você pede uma salada, você monta lá sua salada e você Pede um molho, ele pede dois. Então ele fica, ele come assim, ele joga o molho, o molho base, molho de pimenta, castanha com pimenta, e fica comendo com uma mão e com a outra com um outro molho.

Então ele pega aqui, ele joga aqui, então ele, ele com uma escova de dente, uma pasta de dente, ele dá uma pastada e vai comendo e vai se babando. E aí são dois tipos de molho na barba, um vermelho e um mais esbranquiçado.

JVJoão Vicente de Castro

Aí a barba eu sempre guardo um pouco pra mais tarde.

GDGregório Duvivier

É. E aí eu, aí o que é bonitinho, que vocês falam, ah, não importa, é maravilhoso, porque eu amo ver a relação de vocês. Aí eu vou lá, pego a porra do guardanapo ali, porque não adianta fazer assim, porque você faz assim, ele faz assim, ó. Não adianta, ele só espalha. Então esse é Gregório do Vivier.

JVJoão Vicente de Castro

Eu amo molhos, são a alma da vida. Inclusive as pessoas falam muito, sabe, tem essa, essa briga culinária francesa e italiana, né? É tipo Brasil-Argentina no futebol. Cozinha, se o francês mais fraco que o italiano, é quebra-pau. E o bullying que o italiano faz com francês é que os produtos são ruins, por isso que tem molho, para disfarçar que o peixe não é o melhor, a carne não é o melhor, tudo vai ser.

GDGregório Duvivier

E o italiano cozinha do mundo.

JVJoão Vicente de Castro

Pois é, mas o italiano vai dizer que não é por causa disso, porque a cozinha é mais de produto, não é tanto de molho.

GDGregório Duvivier

Mas é verdade, né?

JVJoão Vicente de Castro

O quê?

GDGregório Duvivier

É que produto bom é muito bom, né? Todo brasileiro sabe que um bom tomate—

JVJoão Vicente de Castro

O que é isso? Fazer um outro merchan? Ele fechou agora, ele fechou a marca de tomate?

GDGregório Duvivier

Não, não, o que eu ia dizer é realmente, eu tava pensando nisso outro dia, eu virei uma pessoa Que eu sou menos hoje de um prato preferido, mais pra coisa mais fresca que existir.

JVJoão Vicente de Castro

Ah, é?

?Voz C

É.

GDGregório Duvivier

Tipo, meu prato preferido era estrogonofe. Ainda é. Eu sou louco num estrogonofe. Agora, me vem com um peixe... A gente mora no Rio, a gente tem uma facilidade que se pesca aqui. Então você vai numa peixaria, muitas vezes tem um peixe que foi pescado no dia.

JVJoão Vicente de Castro

No dia.

GDGregório Duvivier

Isso pra mim não tem prazer maior do que um peixe pescado no dia.

JVJoão Vicente de Castro

É mesmo?

GDGregório Duvivier

Ou com a minha mãe que mora na serra, ela traz de lá coisas que foram colhidas no dia. Isso é um negócio inacreditável. Isso parece que você tá— eu acho que é o maior luxo da vida, você comer um troço que acabou de sair da terra.

JVJoão Vicente de Castro

Pô, eu gosto, eu não me ligo, não ligo tanto na idade das coisas não. Eu gosto de coisa, inclusive gosto até coisa passada, eu confesso. Até as coisas que eu gosto é deixar as coisas envelhecendo nas geladeiras. Aí quando já passou, não só queijo, tudo velho fica bom assim. A Giovana fala, é, tem que jogar fora isso. Não, não mexa. Amor, já tá estragado, não acredito que você vai comer isso. Qualquer coisa velha, salada velha mesmo.

Gosto de salada, já alface murcho. Eu gosto, eu gosto de coisas marinadas na geladeira, eu faço experimentos. Talvez um dia eu morra, mas na verdade é que eu gosto de coisas. E eu, por exemplo, para mim, o que eu vou no cardápio eu sempre vou no item que demorou para fazer. Coisa 72 horas é meu, é esse, sabe? Porque eu não vou fazer em casa nunca um cordeiro que ficou 3 dias ou uma costela no bafo, porque aquilo demorou tempo. Mas quanto mais tempo durou, mais gostoso fica.

GDGregório Duvivier

Não, é porque você é do—

JVJoão Vicente de Castro

eu sou um cara que eu demoro, né? Eu perco tempo lá embaixo, sei que vocês me entendem.

GDGregório Duvivier

É, eu não, mas uma coisa que eu acho que É uma das únicas coisas pra mim que fica melhor no dia seguinte do que na hora, é feijoada.

JVJoão Vicente de Castro

Feijoada é uma delícia no dia seguinte. Muito bom.

GDGregório Duvivier

2 dias depois, então? Uhum.

JVJoão Vicente de Castro

E 3? Ah!

?Voz C

Uhum.

GDGregório Duvivier

E quando começa a criar aquela crosta de mofo em cima?

JVJoão Vicente de Castro

Não, amor, coitadinho.

?Voz C

Prancha.

JVJoão Vicente de Castro

Caramba. Cara, comida de Natal, dia 25, 26, 27, não dá pra comer.

GDGregório Duvivier

Não.

JVJoão Vicente de Castro

28. Peru.

GDGregório Duvivier

Vou contar uma coisa muito triste. Uma vez... Eu não é nada demais, na verdade. Eu lembro quando era moleque, eu morava na casa de um amigo meu, eu sei lá, devia ter 16 anos. E aí eu lembro que eu cheguei lá e a gente morava com a mãe dele, eu morava na casa dele com ele e com a mãe dele, né? E aí a gente, eu cheguei um dia com fome da noite assim e tinha um arroz que tinha mofo em cima. Mofa, mofo mesmo. Eu pensei o quê? Tá em cima, é, tirei.

E peguei o de baixo, botei lá, comi gostosinho para caramba, feijão em cima, um negocinho assim. Eu passei bastante mal nesse dia, jura? Então você tem que tomar cuidado.

JVJoão Vicente de Castro

Eu tenho que tomar, eu sei disso. É porque um amigo já me falou algo que eu vou falar, que não é científico, tá? E vai fazer vídeo resposta falando de serviço. Qual é o meu serviço que eu vou dar hoje? Um amigo que falou aqui: se o mofo é visível, não tem problema, que o que mata é o invisível.

GDGregório Duvivier

Certeza que faz sentido. Tipo assim, com certeza, com certeza. O inimigo agora é outro, o inimigo agora é outro, é o invisível.

JVJoão Vicente de Castro

Se você tá vendo, não tem problema.

GDGregório Duvivier

Se você tá vendo o seu inimigo Não tem problema, ele tá lá. Você não vê, é como no campo de batalha, é como na guerra. Se ele tá ali, ele tá ali, tá mirando nele. Agora, se tu chega lá e não tem ninguém na divisa da Rússia, eu queria dizer, na Ucrânia, não é possível, eles não desistiram.

JVJoão Vicente de Castro

Claro, é isso. Tu já viu uma salmonela olhando para você? Não, não, salmonela é que te ferra. Aquela ostra. Aliás, salmonela é uma coisa nojenta, assassina, né? Mas com um nome delicioso. Você não comeria? Viu um risoto de salmonela? Claro que veria!

GDGregório Duvivier

Não, e mais do que isso, fala muito sobre essa questão das religiões querendo ser empurradas goela abaixo das pessoas.

JVJoão Vicente de Castro

Por quê?

GDGregório Duvivier

É salmonela, né?

JVJoão Vicente de Castro

Gente, esse foi o Não Me Importa. Foi um prazer conversar com você, Tom. E assim a gente termina. Salmonella. Que ódio, que ódio, caralho! Salmonella, realmente.

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