Episódios de 7° andar

🎧 13 | Você precisa aceitar O Convite?

27 de setembro de 20261h16min
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O Convite (The Invite), estreou em 2026 e é dirigido por Olivia Wilde, com roteiro de Will McCormack, Rashida Jones e Cesc Gay, baseado em seu filme Sentimental, lançado em 2020.

Temos Seth Rogen como Joe, a própria Olivia Wilde como Angela (episódio extra de The Studio?!), Penélope Cruz (Piña) e Edward Norton (Hawk).

Olivia negou uma oferta de US$ 20 milhões da Netflix para lançar O Convite exclusivamente em streaming, porque queria explorar o fenômeno que é uma plateia compartilhar a experiência da comédia. Ela ainda chamou os acordos de streaming de “suborno“ pros financiadores que acabam recebendo mais que os próprios cineastas.

Enquanto Olivia se mantém firme em prol do cinema, Angela se mantém aberta a possibilidades… variadas.


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Participantes neste episódio1
R

Rai

Host
Assuntos6
  • A crise de Joe e Angela e a possibilidade de um novo começoJoe se sentindo rejeitado·Angela buscando romance·o convite para um novo relacionamento
  • A complexidade dos relacionamentos e a busca por conexãoamor como verbo e escolha·insegurança no início do romance·superar dificuldades juntos
  • A dinâmica disfuncional do relacionamento de Angela e Joefalta de cuidado mútuo·comunicação como jogo de tênis·distanciamento físico e emocional
  • A intervenção dos vizinhos e a revelação de problemasvizinhos como catalisadores·Joe admitindo a briga·Rocky como vampiro de energia
  • A frustração de Joe com o passado e a vida atuallembranças de um romance passado·dissociação do presente·expectativas quebradas na vida
  • A busca de Angela por validação e a performance socialnecessidade de validação externa·foco obsessivo no apartamento·performance para convidados
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Amor não é incondicional. A condição é escolher e ser escolhido. Não é à toa que amar é um verbo. Obrigada por ouvir O Sétimo Andar. Esse podcast é um baby e precisa da sua ajuda para continuar crescendo. Compartilhe seus episódios favoritos com amigos, avalie com 5 estrelas O Sétimo Andar na sua plataforma de áudio preferida ou contribua com uma inscrição no Substack. Mas lembre-se, a sua maior contribuição é estar aqui me fazendo companhia.

O convite, no original The Invite, estreou em 2026 e é dirigido por Olivia Wilde, com roteiros de Will McCormack, Rashida Jones e Seth Gellar, baseado no filme espanhol Sentimental, também de Seth Gellar, lançado em 2020. Pro convite, nós temos Seth Rogen como Joe, a própria Olivia como Angela, Penélope Cruz interpretando Pinha e Edward Norton no papel de Hawk. Olivia negou uma oferta de 20 milhões de dólares da Netflix para lançar O Convite exclusivamente em streaming.

Ao invés disso, ela aceitou 12 milhões da A24 para garantir a exibição doméstica nos cinemas. Olivia queria explorar o fenômeno que é uma plateia compartilhar a experiência da comédia. E ela chamou os acordos de streaming de suborno para os financiadores, que acabam recebendo mais que os próprios cineastas. Olívia se mantém firme em prol do cinema e Ângela se mantém aberta a possibilidades variadas. Essa última semana eu tenho me pego olhando para trás o tempo inteiro, pensando em bons momentos com uma pessoa muito especial.

E é assim que a gente começa o convite. Com o flashback. Joe ensina Angela a tocar a música I'm Confessing That I Love You no piano, enquanto ele mesmo aprende a tocar melhor. Da mesma forma que eles nessa cena, nós entramos em um romance um pouco inseguros, sem saber aonde ele vai. Então repetimos o que dá certo, de novo e de novo, até que a relação esteja estabelecida. Mas uma hora chega a parte difícil. A gente erra as notas.

É frustrante. E quando a gente supera o ponto difícil, vem a parte na qual estamos conectados não só pelos bons momentos, mas pelos maus também. E a gente tem a opção de recomeçar a música juntos e de rirmos dos tropeços que acontecerão pelo caminho, porque a gente sabe que eles vão acontecer. Talvez Joe não estivesse pronto pra isso. Ele tá sentado em um auditório, pensando no filme da sua vida com Angela. Aquele tom quente das lembranças se foi.

E restam os tons frios, com aquela mal-amada luz branca que ilumina tudo. Aquela que parece uma luz de consultório, feita pra você enxergar as menores imperfeições. E ele tá em um cinema ou um teatro? Não, ele está em um conservatório onde ensina música. Expectativas quebradas dão início à história do convite. Às vezes nós nos prendemos aos melhores momentos do passado, aqueles que são só flashes, são cores, sons e emoções, e nós paramos de apreciar o presente, de tentar a música de novo.

Assim como o Joe está totalmente dissociado da orquestra, é como se nós nos perdêssemos tanto no passado que ficamos dissociados de nós mesmos. Mas ele, nós, não somos apenas espectadores das nossas vidas. Somos quem faz a vida acontecer. Somos professores e alunos ao mesmo tempo. Então Joe levanta da cadeira sem trabalhar no presente. E a orquestra, esse presente, olha de volta pra ele, esperando por uma atenção que não vem. O eco dos movimentos dele na sala são quase tão barulhentos quanto o silêncio gerado pela expectativa.

Então a gente não espera uma música alegre enquanto ele volta pra casa, mas é o que acontece. O barulho interno dele é abafado pela música em alto e bom tom. And your eyes are great, such strange things. A letra conta muito da história deles. Nos seus olhos eu leio coisas tão estranhas, mas seus lábios negam que elas sejam verdade. Com a sua resposta, eles mudam, me deixando triste. Eu tenho medo de que algum dia você vai me deixar.

Me lembra das cenas nas quais Joe e Angela se olham como se ainda tivessem amor um pelo outro. Pra logo em seguida dizerem algo que machuca ou que tira a atenção dessa emoção. Principalmente o Joe, que todas as vezes faz uma piada de algo que não tem graça. Na intenção de diminuir a importância de coisas ao redor dele, como quem diz: Minha dor é mais importante. Olha pra mim. Sofre comigo. Essa trilha também é toda animada, o que contradiz a tristeza da própria letra.

Isso também serve pra mostrar como eles levam a vida como se tivesse tudo bem. E ela também só toca quando eles estão separados, cada um ocupado com a sua própria coisa, como se a distância fosse o melhor remédio pra eles. Por isso, quando o Joe entra em casa e fecha a porta, a música para abruptamente. Tudo é meio escuro e frio lá dentro. Joel deita no chão e quase se camufla com as cores ao redor. Então a Angela pede que ele tire os sapatos.

E vemos que escondido nele, em algum lugar, tem cor. As meias vermelhas dele são um ponto de vida no meio do verde acinzentado. A Angela resgata a vida que existe nele. E levando em consideração que, pelo visto, foi ela que escolheu as cores do apartamento. E espero que o Joel tenha escolhido as próprias roupas. Então isso quer dizer que eles se completam, porque vermelho e verde são cores complementares. Eu gosto das cores do apartamento, mas como eu disse, tudo parece tão frio.

Parece que todos os cômodos são iluminados por uma luz branca. E imagino que o color grading também tenha responsabilidade por isso. Pra mim é uma forma de mostrar que a relação deles faz tudo parecer frio. Eles fazem o lugar. Toda a introdução até aqui faz com que a gente espere que eles tenham uma relação complicada. A música cortando, ele lembrando do passado, as cores do apartamento, etc. Mas eles parecem um casal bem normal a princípio.

Um daqueles que estão juntos há tanto tempo que podem ser totalmente como eles são, sem medo de rejeição. Mas existe um ponto no qual esse conforto se sobrepõem à falta de cuidado com o outro. E é muito complicado, porque você quer mostrar como está se sentindo inteiramente e ser acolhido em momentos difíceis. Mas como a gente descobre que esses momentos se tornaram todos os dias da nossa vida? Então você não pode esperar infinito acolhimento, porque quem acolhe o outro?

Quem acolhe a pessoa que você também prometeu acolher? Ela pode passar a fingir uma vida que não existe. Quando o Deel pergunta, assim, meio perdido, por que do queijo e do suflê que a Ângela tá fazendo, a gente assiste essa interação por um espelho. O reflexo não é o objeto em si, mas a representação do objeto. Nesse caso, me parece que o reflexo deles no espelho é uma representação de como a Ângela quer ser vista. Como uma pessoa que tem tudo sob controle, mas sem precisar se esforçar pra isso.

Como se a mesa de jantar fosse a mesma, com ou sem visitas. Então Angela e Joe começam a perguntar e responder como em um jogo de tênis. O Cello ao fundo entra aumentando a tensão, como quem diz: vai começar! Cada resposta de cada lado é uma chance de vencer o jogo. Joe diz que ela comentou que queria convidar os vizinhos por algum motivo insano. E ainda questiona por que ela não perguntou. Ela diz que avisou no dia anterior. Ele diz que avisar não é perguntar.

E assim vai. Quando ela diz que é tarde demais pra desmarcar, Joe volta a se irritar que ela não comentou nada. E sarcasticamente diz que são os vizinhos que são barulhentos. E ela tá fazendo um suflê pra eles. Nessa hora, ele abre o forno, o que faz os suflês murcharem. Ele murcha o suflê metafórico dela o tempo todo até agora. E a gente vem a descobrir que esse virou o estado normal do Joe. Parece que pra Ângela, convidar os vizinhos vai além da cortesia.

Ela admira algo sobre eles e faz questão de dizer que a mulher é tão, tão bonita. Ela quer impressionar os dois. E o que eles têm que ela não tem? Eles têm um relacionamento vivo. E eles em si transmitem vida. A individualidade deles permanece viva. Se eles gostarem da Ângela, ela vai se sentir validada de que ela não é o problema do relacionamento dela. Parece que a performance da Ângela tem uma mistura de causas. A gente não sabe como ela era antes da morte do relacionamento.

Parece que existe a necessidade por validação de que ela segue sendo interessante, mesmo nas condições atuais. O foco obsessivo no apartamento parece ser a única coisa que resta pra ela dar atenção depois da morte desse relacionamento. Parece também uma forma de não pensar que o relacionamento acabou, de não precisar lidar com isso. São diversas camadas. Não é à toa que ela é uma pessoa tão ansiosa. Além disso, a gente fica sabendo que ela tá entrando na menopausa, então ela tem dois lutos ocupando a cabeça dela.

Ela acusa ele de ser previsível e ele acusa ela do mesmo. Ou seja, os dois estão naquele ponto da vida que sabem ler um ao outro como uma partitura, mas se cansaram da música. O tempo inteiro a câmera enquadra eles separados por paredes, representando o distanciamento deles. Essa ideia de que eles estão na mesma quadra, mas em times adversários. Mesmo assim, de vez em quando, eles se encontram no mesmo ambiente. Ainda há chance.

A gente pode resetar? Vamos tentar de novo, com uma música. Ângela pede um reset. E Joe, depois de resistir, aceita. E a trilha volta mansinha, como uma manhã de um dia que promete sol. Até que tudo desanda de novo. Todo mundo que já esteve em um relacionamento sabe bem como é essa vontade de recomeçar uma conversa. E às vezes dá certo. Às vezes fica um gosto amargo na boca. Outras dá totalmente errado. No caso deles, deu errado.

O que me parece é que os dois estão gritando por atenção. Mas um não escuta o outro. E no momento não tem como esses lados se encaixarem. Porque eles dependem de uma terceira parte. Os vizinhos. E eles fazem parte mais do que a gente imagina até agora. Quando o Dio sugere uma cortina na janela que tem vista pra janela dos vizinhos, a Ângela nega dizendo que gosta da luz. Bem, ela sem dúvida gosta de alguma coisa. E de novo, a Trilha vai acompanhando tudo.

O cello fica lento e grave enquanto a câmera dá um zoom na janela vizinha. Como se ali estivesse... tan-tan-tan-tan... o inimigo. É como se a gente estivesse vendo uma peça de teatro ou um desenho animado. Eu me sinto totalmente entretida. É fascinante como tudo é tão dinâmico mesmo que a gente não saia do apartamento. A câmera usa ângulos variados e os portais entre as salas, o espelho, as luzes e a trilha suportam tudo. É muito satisfatório de ver.

Mas seguindo, a Ângela troca a blusa porque a dela rasgou, como se fosse outro soufflé murchando. E o Joe imagino que se troca porque chegou do trabalho. Eles estavam usando a mesma cor de camisetas, ela uma amarela listrada E ele, uma xadreza amarela. É como se eles combinassem naturalmente. Quando eles se trocam, acabam escolhendo um esquema de cores que combina de novo. Ela, um verde, e ele, um azul. Ambas as cores meio apagadas.

É como se a essa altura eles pensassem juntos. Ao mesmo tempo, o azul do Joe pode simbolizar a tristeza dele e o verde da Angela camufla ela com o resto da casa. Que também tem as paredes verdes. É como se esse fosse todo o mundo dela. Onde a Ângela começa e a casa termina? Então ela fala pela milésima vez sobre os orgasmos da vizinha. E o Joe tá incomodado com isso. E ouvindo eles conversarem assim, nem parece que a gente vai descobrir que eles não transam há um ano.

Só falta ela implorar como a Bella em Crepúsculo. Então, a campainha toca. Pinha usa cores quentes, o que faz todo sentido com o jeito atraente e afetuoso dela. E Roque usa preto. Preto absorve todas as cores e, independente dessa ter sido a ideia ou não, realmente parece que ele absorve o ambiente. Como o Joe diz, ele encara, olha profundamente, Faz muitas perguntas. Chega a ser uma pessoa inconveniente. Depois que eles são recebidos, a câmera mostra o casal e a Ângela do ponto de vista do Joe.

Distantes. Enquadrados pelo portal do hall e pelo portal da sala de jantar. Como se Joe estivesse assistindo aos três de longe, em uma TV. Como se eles não fizessem parte do mesmo mundo. Uma das tropes do cinema que me irritam é quando alguém faz muito barulho perto de um personagem e esse personagem não escuta nada. Felizmente, esse não é o caso do convite. Os vizinhos dizem que estavam ouvindo toda a discussão do Dio e da Ângela.

Como pessoas civilizadas, não é realmente legal apontar isso. Parece até que a Pinha tenta impedir. Mas é o Roque quem fala. E ele não para. É um sinal de que o relacionamento deles também tem imperfeições. E quando a Ângela começa a negar, pronta pra continuar a performance, o Joe desilude dizendo que estavam brigando sim. Como eu disse, é um filme de expectativas quebradas. Mas da melhor maneira. Ele tem um timing cômico que faz cócegas em algum lugar do cérebro.

E o Joe diz que o ambiente não tá legal e que se eles quiserem ir embora, não é um problema. O que é praticamente um convite pra se retirarem. Mas o Rock aceita ficar mesmo assim. Então qual é o ponto dele ter perguntado se era o melhor momento? Que visita faz isso? Mas eles fazem. Rock fica em pé no hall sozinho olhando pro Joe como um espírito obsessor. É tão desconfortável. Parece um vampiro que tem que ser convidado a entrar.

Mas do ângulo da Pinha e da Ângela também dá pra ver ele. E não parece estranho, parece que ele já está dentro de casa. Só é desconfortável do ângulo do Joe, porque o Joe não quer a visita. E às vezes é compreensível. De novo, o Roque faz uma pergunta um tanto desnecessária. Diz que a Ângela e o Joel comentaram deles visitarem o apartamento e depois nunca mais disseram nada. E a Pinha, de novo, indica que é pra ele parar de falar.

Ela faz um zip com os dedos sobre a boca, sabe? Mas parece que ele se diverte colocando as pessoas nessa situação. Ele tá sorrindo. Ele é como o vampiro de energia de What We Do in the Shadows. Talvez o tanto de espelho na casa seja um sinal. Em um dado momento, o Roque aparece em um enquadramento ao mesmo tempo em que o Joe é refletido no espelho, como se ele estivesse agindo como um Joe no relacionamento dele. Mas o Joe ainda se sobressai.

Eventualmente, o Joe diz que algumas coisas na casa foram caras, como que dando uma alfinetada na Ângela. Mas depois a gente vem a descobrir que ele não gosta que saibam que a casa era dos pais dele, porque ele não conseguiria pagar por um lugar assim. Isso me lembra como a gente tira conclusões de quem acabamos de conhecer baseado no clima daquele momento, sem a gente saber de toda a história. Talvez não fosse uma alfinetada, mas uma forma de se sentir melhor consigo mesmo.

Então quem é ele pra julgar? Quando o casal elogia a decoração da Ângela, ela admite que se importa muito e o Dio olha pra ela meio que constrangido, como se ela estivesse exagerando em agradar os convidados. Mas parece que ela realmente fica emocionada por um simples elogio, conta a casa. Porque ela se acostumou a não ouvir nada ou a ouvir majoritariamente críticas do Joe. A gente sabe também que até os desenhos que a filha dela faz são colocados à mostra em quadros pela casa.

Porque ela se importa em mostrar esse lado artístico da família, o que também faz parte da performance. Mas afinal, quando a performance para de ser para nós mesmos e começa a ser para os outros? A nossa autoexpressão é uma forma de performance. Não necessariamente quer dizer que não é genuína. E essa genuinidade tá viva na casa. Os quadros da filha são rabiscos coloridos. É desordem e cor no meio de uma paleta monocromática e uma casa pensada nos mínimos detalhes.

A filha ainda não é como os pais e é amada em sua individualidade. Ela também é o que mantém eles juntos e é ela que carrega nessa personalidade uma parte do que falta na vida deles. Em que momento a individualidade da Ângela e do Joe deixou de existir? Em que momento ela deixou de ser admirada? Nós não podemos criar ou destruir energia, mas podemos encontrar maneiras de moldá-la. A frase da Pinha é nossa primeira introdução à ideia de que o relacionamento do Joe e da Ângela pode ser remodelado.

A energia deles não pode ser destruída ou criada, mas pode ser alterada de acordo com a necessidade. E de energia, Ângela entende bem. Ela prefere abrir o vinho de casamento que talvez está guardado há 15 anos ao invés de só dizer que não tem vinho. E Joe acaba cedendo. Mas honestamente, qual é a outra ocasião especial se eles parecem estar sempre em algum tempo estressante ou monótono? Julgando pelo que a gente vê agora, claro.

Mas onde foi a alegria pelas pequenas coisas? Talvez se ela não existe, também não existiria um momento especial o suficiente pro vinho. Talvez o próximo acontecimento importante fosse dali a 6 anos. A Ângela é incrivelmente ansiosa e disso a gente já sabe, mas não sabemos quanto exatamente. Até que a Pinha diz o quão legal a filha deles é e a Ângela concorda e diz que vai sentir falta dela. Então ela leva a taça de vinho à boca melancolicamente, como se a menina tivesse recebido um diagnóstico e fosse morrer a qualquer momento.

Até o Dio pergunta onde ela tá indo, porque que tipo de reação é essa? E ela responde: Faculdade. Faculdade? A garota tem 12 anos. Deve ser muito difícil ser filha de alguém assim. Na verdade, eu sei que é. E pelo visto ela vê a filha como um suporte na vida dela. Ela diz que vai ficar sozinha depois que ela for embora. Ela vê a filha como a única coisa que faz ela estar nesse casamento. E isso é tão triste pra ela e uma imensa pressão nessa criança.

Porque mesmo que a mãe não fale desses assuntos, o ar carregado é óbvio. É tão carregado que dá pra sentir através da tela. Eu gosto também como esse filme dá a sensação de que a gente tá ali, presenciando e vivendo tudo. Vários ângulos ajudam nessa sensação de que nós somos um convidado a mais na casa. Eu vou colocar os meus frames preferidos no Substack. Mas enfim, eventualmente a Ângela vem abaixo quando ela descobre que a Pinha é vegana.

Mas não se preocupe, Ângela, de certa forma você caiu no prato da carnívora. Assim como o Roque, a Pinha parece se entreter com todo esse teatro que a Ângela quer atuar, mas que não tá saindo de acordo com o script. Enquanto isso, o Roque se entretém abrindo o gabinete do banheiro e vendo os remédios que são guardados ali. Como algumas pessoas dizem, esse é o caminho mais rápido de conhecer alguém. Ele parece dar atenção ao Xenex, um remédio de ansiedade que depois a Ângela para pra tomar.

Isso provavelmente é o que influencia ele a depois perguntar se ela tem tequila, porque ele assume que álcool vai acalmá-la de alguma forma. Enquanto isso, eu fiquei irritada junto com a Ângela e a Penha quando o Dio começa a fazer piada com toda a questão da menopausa. Ele não perde a chance de criticar a Ângela em público, e pra quê? É extremamente não atraente e tem um gostinho de traição emocional. Ele só entende a seriedade da menopausa quando é colocado em uma situação hipotética que é desconfortável pra ele.

Existe um paralelo aqui sobre como ele não para pra pensar em quão difícil é a vida da Ângela desde que ele resolveu agir como uma pessoa eternamente triste. Mas ai de nós se alguém expuser ele. Ele teve uma banda e uma música sobre a Ângela que foi famosa por pouco tempo em 2008. Até mesmo o momento que ele mais teve sucesso foi por causa dela, mas ele foca no recebimento da arte por estranhos e não na alegria que o levou a compor a música em primeiro lugar.

E eles ficam desconfortáveis ao admitir que a garota é a Ângela. Dizem que tecnicamente ainda é ela. Existe dor nessa lembrança porque o presente não se compara com ela. Joel também nega que os convidados escutem a música. Ele prefere negar a possibilidade de admiração pelo trabalho dele e pela esposa do que lembrar que o sucesso não permaneceu. Depois, a própria Ângela diz que ele ensina música como um ponto positivo e acrescenta que é uma escola maravilhosa, mas ele faz questão de dizer que é um lugar pequeno, que é uma escola ok.

Ela vê uma luz e ele vê uma sombra. Ele só vê que chegou quase lá. E eu entendo, deve ser muito frustrante e é o medo de muitas pessoas. Mas e o que ele conquistou no caminho? E o que se tornou realidade? O que nunca aconteceu, nunca aconteceu. Mas e o que ainda pode acontecer? E o que está acontecendo? A vida não fica em standby. Quando o Roque admira o tapete da Ângela, Joel segue sem perder a oportunidade de ironizar os interesses dela.

Isso me deixa tão indignada, porque o tempo todo ela é educada com ele. Ela não joga ele embaixo do ônibus como ele faz com ela. É como se ele ressentisse que mesmo a Ângela não tendo seguido arte como carreira, Ainda assim, ela mantém a arte viva. Ela ainda pratica dentro de casa. O interesse não morreu e ela não tem vergonha do que não aconteceu. E eu entendo que ele ache que tudo é muito performático e parece que ele quer ver o teatro pegar fogo ao invés de interpretar um papel.

Ele quer descontar nela o que ele mantém reprimido porque ela age como antítese dele. A gente vê que a Pinha não tem os mesmos interesses do Roque. Mas ela simplesmente não fala nada quando o assunto é algo que ela não se importa. E quando ela fala, é com carinho. Inclusive, ela menciona que ele fez o apartamento deles e quão bonito ele é. Pelo visto, a Ângela fez todo o apartamento dela também, mas o Joe não elogia o trabalho dela.

Ele não parece agradecido que ela tenha transformado a casa deles em um lar. Por ele eram eles e as paredes. E pronto. Ao mesmo tempo, outra pessoa não pode fazer mais que ele. Dio fica sabendo que Rocky era bombeiro e se recusa a que seja verdade, porque Rocky deveria ser mais forte. Ele tem uma imagem de como as coisas deveriam ser e não se importa em julgar pelas aparências. Isso é outro ponto de porque ele julga a si mesmo com tanta intensidade.

Ele imagina que os outros farão ou fazem o mesmo em segredo. Mas ele não vê como entrega as próprias inseguranças ao tentar encontrar uma fraqueza no outro. Ele também diz que jamais aceitaria a massagem do Roque. E como ele poderia? Dio repele qualquer ideia de estar exposto ou vulnerável. Esquecem que elas merecem mais. Os lobos se separam. Pinha vai fumar com Joe e Ângela faz um tour com o Roque. E vemos que Roque notou o livro que estava na mesa dela, Kopenhagen Designs.

Mais um pedacinho da artista deixado à mostra como que não quer nada. Ângela faz questão de deixar pistas da formação dela pra poder dizer que se formou em arte. Ela deseja poder falar com outras pessoas sobre o que ama, enquanto o Joe se esforça para esconder a música. O vão aumenta entre eles. E Joe vai fumar no escritório sabendo que ela não gosta que fume em casa, porque ele sabe que ela não vai negar na frente das visitas.

E isso é tão chato da parte dele, mas eu entendo que ele quer pelo menos ter só o espaço dele. E eu também sinto essa vontade de contrariar pessoas quando elas estão sendo na frente dos outros o que ela não é quando nós estamos sozinhos. Sabe aquela ideia de que às vezes nós somos rudes com quem amamos de forma que não somos nem com um estranho? Ângela, se você vai se mostrar essa pessoa leve, agradável e despreocupada, então eu também mereço essa versão.

A Pinha, ao contrário da Ângela, também vê o outro lado no caos do Joe. Ela vê que ele passa tempo lá e diz que é o maior sinal de criatividade. Notem que a casa inteira é fria, fora o quarto da Maggie, se bem me lembro. Mas o escritório do Joe é quente. A luz do abajur é amarela. É lá que bate o coração da casa, a memória do amor que começou tudo. E é lá que esse amor é reencontrado, mas a gente ainda não tá lá. Enquanto isso, Ângela mostra pro Roque as mudanças que fez no banheiro e diz que o tema era renovação sem mudança, manter o original, mas com uma nova superfície.

Que é de novo outra cena em direção ao que é possível pra relação dela com o Joe, as mesmas pessoas, Mas uma nova forma de se relacionar. Parece que enquanto Pinha e Joe se conectam em um ambiente de luz quente, através do toque, de experiências e de histórias, Angela e Roque se conectam intelectualmente, em um ambiente frio, com cores frias, falando sobre escolhas feitas pra casa e por que foram feitas dessa ou daquela forma.

Falando sobre a autoexpressão, mesmo que não de forma explícita. Cada um se nutre daquilo que falta no dia a dia. Também é interessante que o curso de escolha da Ângela tenha sido arte, porque o que é música senão arte? Óbvio! Joe e Ângela deveriam poder se conectar todos os dias através desse tema. Isso é pra você ver quão distantes eles estão um do outro. Nesse caso, a criatividade do Joe tá em falta. E a Ângela também compartilha histórias.

Ela encosta na parede enquanto conversa com o Roque e se abre contando, por exemplo, que o apartamento era dos pais do Joe e que ele não gosta que fiquem sabendo disso. Como o Roque diz, ninguém pode pagar por nada hoje em dia. É um presente que eles tenham essa oportunidade, que eles deveriam abraçar isso e fazer desse lugar um lugar deles. E eu concordo, e a Ângela também. Inclusive, como eu disse, foi isso que ela fez. Ela transformou essa casa em um lar.

Então vemos que ela vai se abrindo na linguagem corporal. A gente vê ela ok com ele do nosso ângulo. Enquanto isso, o espelho e o Roque Vem um outro lado dela. Um lado mais relaxado. E que nós estamos descobrindo também. Mas tem certas coisas que a gente não começa conversando com o vizinho na primeira visita. Alguém só precisa avisar o Joe disso. Por outro lado, nada sobre essa visita convencional. Então, deixa quieto. Joe pergunta pra Penha como ela soube que o relacionamento anterior dela tinha chegado ao fim.

E ela diz que eles pararam de transar, de conversar e que eventualmente viraram estranhos. Pelo que a gente fica sabendo, Joe e a Ângela estão quase na fase 3. Eles ainda se falam, mas as conversas que a gente viu até agora são as partidas de tênis e alguém sempre tá tentando marcar um ponto. Então Penny diz: Pessoas esquecem. Que elas merecem mais. Elas começam a viver de migalhas. E até aqui parece que isso serve para ambos, Ângela e Joe.

Mas honestamente, a gente vinha ver que Joe trabalhou com força para Ângela esquecer que ela merece mais. E é louco porque ele acha que isso se aplica a ele, que ele é a pessoa aceitando migalhas. Mas como você chegou aí, Dio? Enquanto ele tá fazendo esse tipo de pergunta pra Pinha, já pensando no fim do próprio relacionamento, a gente escuta o Roque dizer: Eu acho que você só tem que escutar em que direção o seu coração tá te puxando.

Qual é a sua visão de si mesma? E ele dá 3 opções pra Ângela. Uma na qual ela tá sozinha. A outra na qual ela está envelhecendo junto a alguém. E a terceira na qual ela está em um café em Copenhague com um estranho. Então eu pensei, meu Deus, ela também está discutindo o próprio relacionamento com o vizinho? Mas não, ela está discutindo a cor da parede. Ela não está discutindo algo assim com o vizinho, Joe. Ao mesmo tempo, é uma referência a como ela se sente.

Rock sugere a terceira opção e ela diz que se sente da mesma forma. Ou seja, ela não quer estar sozinha, mas ela também não se vê envelhecendo com o Joe. Ela mesma diz há umas cenas que depois que a filha for embora pra faculdade, ela vai estar sozinha. Ou ela não considera a presença dele como companhia, ou inconscientemente já espera se divorciar no futuro. Ela quer a terceira opção. Um romance. E que seja com um estranho, porque com o Joel não vai ser.

É engraçado que essa casa tem tantos espelhos. Tem pelo menos 3 no quarto dela, um na sala de jantar, o do banheiro, um enorme na sala. São várias chances pra ela e pro Joel olharem pros próprios reflexos. Mas eles se negam a enxergar a realidade. A enxergarem a si mesmos, ao que funciona e ao que não funciona mais. Depois de escolher a cor de tinta, a Ângela diz: Parece tão claro agora que a gente tá aqui olhando para ela. Você tá tão certo, tava ali o tempo todo.

E ela ainda diz que tem sido meses disso, que tem sido uma tortura, talvez 12 meses de tortura. E Rock diz que ela só precisava de alguém que dissesse o que ela já sabia. E quantas vezes isso é verdade? O que a gente escuta de outra pessoa pode ser o que falta pra revelação final do que a gente sente. Como dizem, santo de casa não faz milagre. Ela também diz que Joe acha que todas as opções são iguais. Isso porque ele só reclama.

Ele deixou de ver as nuances na vida, as alegrias no cotidiano. As coisas não são sempre uma festa, os dias não são sempre chocantemente diferentes. E felizmente não são, porque seria insuportável. Mas quando você deixa de ver as pequenas belezas, de enxergar onde as nuances se encontram, então uma parte de você começa a morrer. A gente também pode fazer uma outra comparação entre o Joe e o Rock. Joe se sente miserável porque há décadas o sonho dele de ter sucesso com uma banda não deu certo, mesmo que ele ainda ensine música hoje.

Rock teve um acidente de trabalho que o fez desistir, mas ele ressignificou a vida dele. Ele saiu totalmente da área e encontrou outros interesses. Aí estão as diferentes opções de cores que a vida te dá. Se você souber enxergá-las. A ignorância do Joe também aparece quando ele ri do nome do Roque por ser um pássaro e faz piadas com a pinha. E isso provavelmente só acontece porque ele não sabe que pinha é um fruto em espanhol, senão ele teria mais noção de que ambas as coisas são próximas demais para fazer piada com só uma delas.

Já na próxima cena, Roque diz que Ângela deveria substituir a janela porque ela quebra com um pouco mais de calor. E ela diz que não tem risco disso porque o apartamento é bem frio. Claro que tem um grande duplo sentido aqui com o relacionamento dela e do Joe. Mas é interessante que eles voltam a estarem separados pelo enquadramento das portas. O Roque de um lado e ela do outro. De volta a um assunto que distancia eles, porque cada um vive uma realidade totalmente diferente da do outro.

Eu retiro tudo que eu disse. A gente deveria convidar mais pessoas. Quando os 4 voltam a estar no mesmo ambiente, na sala, a trilha volta à loucura. A Ângela volta a correr, a ansiedade volta. Parece que é a simples aproximação entre os opostos. Joe e Rock, Ângela e Penha, Joe e Ângela. Tudo forma uma tensão. E Rock precisa atualizar a terapia dele com alguém, porque ele é muito invasivo. E ele sabe o que ele tá fazendo, porque o Joe é honesto até aqui.

Ele pega o álbum da antiga banda e insiste em tocar. E a Pinha incentiva, mesmo com o Dio pedindo várias vezes que não e precisando eventualmente tirar o disco da mão dele. Que convidado mais inconveniente. Não é um bom passo pra quem está na missão que ele está. Consentimento não é sempre importante, Rock. Agora, eu gosto que mesmo depois da Ângela tentar de tudo pra impedir que o Dio traga o assunto do barulho dos vizinhos, O Roque e a Pinha sabem o que tá acontecendo e eles mesmos falam sobre.

E o Joe entra na ideia de dizer que não ouviu nada. Não pra agradar os outros como a Ângela, mas porque ele acredita que os vizinhos fazem de propósito. E ele não quer dar o gosto de eles estarem certos. Eu não faria igual, mas entendo a lógica dele. E me pergunto quantas vezes ele fez isso com a Ângela ao invés de só... Conversar. Mas o Rocky não quer deixar, ele sabe que o Joe não tá sendo honesto. E a Pinha pede que ele largue o assunto, mas ele insiste.

Essa insistência pode ser um objetivo pessoal de fazer as pessoas serem honestas sobre incômodos, porque ele era uma dessas pessoas que se fechava a interações que exigiam vulnerabilidade. Então o Pinho decide dizer que eles sabem que o Joe se incomoda com o barulho deles. Eu acho um tanto preocupante que o Joe continua negando e só admite quando ele vê a si mesmo em 4K. Ele sugere até montagem antes de admitir. De novo, eu me pergunto quanto disso ele fez no casamento todo dia só pra não ceder quando tá errado ou quando a Ângela expõe algo que ele prefere ignorar.

Então Joe quebra e diz que eles estavam transando como monstros. E tem uma lâmpada iluminando ele por baixo que me lembra muito aquele imaginário do suspeito sendo interrogado em uma sala escura. É irônico que o spotlight não esteja nos acusados. E Pinha e Roque estão seríssimos enquanto ele fala tudo que tava preso. Até que eles finalmente sorriem quando o Joe fala sobre como ele e a Ângela já gastaram tanta energia falando sobre os orgasmos da Pinha.

Eles talvez tivessem pensado que era o fim, mas agora estão de volta ao jogo. E de repente nós estamos falando sobre Vanessa e Kai, que nem estavam na história, como aquele poema-quadrilha do Carlos Drummond de Andrade. Como a gente chegou em um ponto muito fora da curva, Angela e Joe saem da sala pra fofocarem por 3 segundos sobre como Joe estava certo o tempo todo e que os barulhos não eram normais. Existe um companheirismo em um relacionamento longo que é diferenciado.

É o conforto com a outra pessoa, a sensação de mentes sincronizadas. Essa cena foi tão fofa. E quando eles voltam pra sala, o Joe diz: Eu retiro tudo que eu disse. A gente devia convidar mais pessoas. Tristemente, ouvir sobre as experiências de outras pessoas foi o ponto alto da semana deles. Na verdade, talvez do último ano, como a gente vem a ver. E esse é um dos motivos pra nós estarmos em contato com outras pessoas. Elas entregam outras perspectivas.

Então eles voltam pra conversa totalmente mudados, prontos pra saberem todos os detalhes das festas. Eles de repente se tornam o casal que talvez era o que a Pina e o Roque estavam esperando em primeiro lugar. Pessoas abertas, curiosas e divertidas. Pela primeira vez, Ângela e Joe têm o mesmo interesse. Será que outro tema traria tanta atenção quanto a vida sexual que pra eles é inexistente? É engraçado que a Ângela continua entusiasmada com a logística das festas, e com o menu eventualmente, e a facilidade de comunicação.

Parece que ela tem dificuldade em se comunicar em um nível mais íntimo, e ter opções ajuda muito. Enquanto isso, o Joe se interessa mais pelo lado... Humano das conexões. Ele fica intrigado com a ideia de ser escolhido para algo assim, porque depois a gente vem a saber, ele se sente rejeitado pela Ângela. E Roque diz: Honestamente, eu acho que a melhor coisa sobre sexo em grupo é que ele força total clareza de comunicação. Mais uma vez, o que é um problema para Ângela e para o Joe.

E ele diz que imagina que não seria a melhor coisa. E ele fala ironicamente, mas ele tem um problema em se comunicar sobre o passado dele. E sobre o próprio presente. Então ele pergunta: O que acontece se ninguém te escolhe? Eu sinto que essa pessoa seria eu. E eu achei isso tão triste, de verdade. Porque isso reflete como ele tem se sentido. Ele... Totalmente se entrega nessa conversa. Isso também deve ter relação com todos os anos que ele considera um fracasso por não ter sido escolhido pelo público e pela indústria para seguir carreira na música.

Ele claramente atrela o valor dele a se sentir escolhido de uma forma ou de outra, seja como pessoa, seja como alguém que ocupa um espaço. E quando o assunto muda pra ciúme, a Penha diz que eles praticam compersão. Ela diz que compersão é sobre encontrar alegria na alegria dos outros. A-há! Porque eu aposto que isso é outra coisa que falta no relacionamento do Joe e da Ângela. Como eu disse antes, parece que o Joe só vive triste.

Parece que não tem nada que traga alegria além da própria filha. O que é o mínimo. Enquanto isso, a Ângela tem as alegrias dela e ele as diminui ao invés de apoiar e se sentir apoiado pela felicidade dela. Então a Penha diz: E pra mim não tem nada melhor que assistir o meu companheiro nas mãos de outra pessoa. O ponto aqui é: e se o Joe e a Ângela fossem felizes com outras pessoas? E se eles não devessem estar juntos? E claro que nesse assunto de relacionamento aberto e poliamor ou qualquer outra coisa que passa perto disso, existe uma ideia muito patriarcal de quem recebe atenção nesse meio.

É a ideia da mulher jovem e isso se conecta ao discurso de que mulheres não podem envelhecer, como a gente já conversou lá no episódio sobre a substância. É isso que a Ângela pensa, mas a Pinha esclarece que não. A Vanessa é uma mulher mais velha. É bom pra Ângela ter contato com essa realidade, porque a forma como ela não se vê atraente, inclusive como ela fala mais pra frente com o Roque, pode ter ligação com a própria idade.

E Joe admite que se sente melhor em saber que o som do apartamento vizinho não vem de um sexo convencional entre pessoas casadas, mas que é algo extraordinário, O que acusa ele de novo. Ele se sentia incomodado porque ele não fazia. Ele se sente melhor porque não é uma competição no mesmo nível da realidade dele. Logo, a rotina dele volta a parecer mais normal e aceitável. Então tudo desanda quando o Roque traz a janela. Que a Ângela passa nua em frente.

Sabendo que ele tá olhando e que isso virou um ritual deles. Ele quer trazer o caos. Não é possível. Ele ignora a Pinha pela milésima vez e segue em frente, contando tudo que não era realmente dele pra contar. E se ele queria contar de boa-fé, não era o momento certo de qualquer forma. Aliás, existe uma forma de contar isso de boa-fé? Acho que não. E o Tcheldo que a gente tinha esquecido volta com tudo pra fazer o drama. Ângela explica o hábito pro Joe e Roque aparece mais uma vez com a mão direita erguida, o que chama atenção pra um anel preto.

Pra bom observador, meia aparição basta. O anel preto na mão direita sinaliza relacionamento aberto. Ou swing. É... E a Pinha vem e defende a Ângela falando sobre como isso é importante para as mulheres. Existe um timing cômico do que ela tá falando, mas também existe verdade nisso. Imagino que em um relacionamento solitário no qual você não se sente desejada, muitas mulheres encontrariam conforto em saber que o problema não é com elas.

Ao mesmo tempo que elas não estão ativamente, fisicamente traindo alguém. Enquanto a casa tá caindo, o Rock tá no fundo comendo petiscos como se ele não tivesse colocado fogo em tudo. É o pior bombeiro da história. Como o Joe segue indignado, a Penny entrega que ele olha pros peitos dela quando estão no elevador. Então, estamos quites. E ela começa a virar a full terapeuta e pergunta pro Joe se os peitos dela parecem fora de alcance.

Quando ele tá olhando pra ela. Não é como se fosse uma surpresa, ele tem sinalizado várias vezes que não se sente bom o suficiente pra ser escolhido. Ela pergunta: Você se sente digno de desejá-los? Enquanto ele evita a resposta, a gente vê o Rocky se divertindo, e eu acho que o Edward Norton quebrou o personagem várias vezes. Ou ele é só um ótimo ator, o que também é verdade. E a Ângela se sente tão orgulhosa de ficar sabendo que a Pinha e o Roque falam sobre ela quando estão juntos.

É como se ela se sentisse validada, finalmente, a respeito do próprio potencial sexual e da atração que ela causa em outras pessoas. Ela e o Joe estão passando por necessidades muito parecidas. E é tão triste que eles não estejam suprindo as próprias faltas e a do outro dentro do relacionamento, pelo menos nesse contexto. E isso faz parte de toda a ideia de se relacionar, é o dar e receber. O Joe, mergulhado nessa sensação de exclusão e autoinsuficiência, começa com a paranoia de que a Ângela teria planejado tudo para ter um ménage com o Roque e Pinha.

Mas o drama muda de novo porque Hock revela que eles, na verdade, visitaram pra convidar os dois pra transarem juntos. Se antes estávamos em um rigoroso inverno russo, agora começa uma certa primavera no Mediterrâneo. Joe confirma várias vezes que ele também está incluído no convite. Ângela se sente elogiada. E admirada, e esse afago gera uma trégua instantânea entre eles. Como diz a pinha, tudo o que se quer é ser desejado. Assim que o convite é feito, Angela anda em direção ao Joe.

O flow muda e eles conversam um casal de frente pro outro. Ambos emoldurados pelo mesmo portal. Ambos finalmente na mesma página. Joe e Angela começam a falar um por cima do outro. Joe ironizando o calendário da Angela, mas ela diz que pelo menos ela deu um calendário. Isso é provavelmente o que acontece. Ele reclama tanto que as coisas na vida dele não mudam, mas ele não faz nada para que isso aconteça. Você precisa dar um primeiro passo, nem que seja simbólico.

Joe não queria visita e agora está sedento para não perder a oportunidade. E Angela, que estava toda estressada, agora está tensa com a possibilidade de perder essa chance. Saímos da primavera para um verão agradável o suficiente para começar a entrar no mar. Então Pinha sugere que eles testem a temperatura da água colocando um pé de cada vez, um casal ali e outro lá. Quando a Pinha pergunta para o Joe como ele se sente em passar tempo sozinho com ela, Ele e a Ângela se olham imediatamente.

Ele diz: Como você se sente sobre isso? Você se sente bem sobre isso? Você tá ok com isso? Então eu também me sentiria bem sobre isso. Ele pergunta e checa mais duas vezes pra ter certeza. É um indício do cuidado que ele tem pela Ângela. Nesse aspecto, se não em outros. E ela confirmar de que se sente bem com a ideia. Nos leva de volta à fala da Pinha de que a alegria do outro deveria te deixar alegre. E isso eu digo de forma ampla, não que eu esteja tentando fazer ninguém fazer essas estrepolias.

É metafórico. E quando o Roque convida a Ângela, ela também olha imediatamente pro Joe. É ela que se move primeiro pro lado esquerdo da tela, onde está a Pinha e o Roque. Mas mesmo assim ela coloca o Joe em primeiro lugar. Tudo isso pra dizer que é um sinal de esperança. Eles ainda se importam um com o outro. Ainda existe uma espécie de cuidado e respeito. Enfim, é uma situação delicada. E quando eu menos espero, eles unem as mãos em um grupo de oração.

Aleluia, irmãos! Eles agem de forma tão experimental. É como se tivesse uma receita. É necessário todo um passo a passo para aumentar as chances de sucesso. Se você abrir o forno antes da hora, o suflê murcha. E imagina o sol que vai murchar. Um suflê? Um suflê metafórico. Meu Deus, vocês são terríveis. Então, Roque pergunta para Ângela: Você realmente se olha no espelho e não sabe quão sexy você é? E ela reage com nojo e diz que não.

E ele diz, você não pode ser tão desconectada de si mesma, é? E ela confirma e se chama de estúpida. É péssimo. Parece uma reação ao olhar dele, como se fosse uma crítica. E ela tem tido um problema de people pleasing. Ela inclusive diz que essa é a voz na cabeça dela, que é como ela fala consigo mesma. Então, assim como o Joe, ela sofre muita autocrítica, mas ao contrário dele, ela foca em fazer o melhor trabalho exteriormente e negligencia o interior.

Ele acha que tá fazendo algo interiormente, mas não está. Ele só fica se alimentando de ressentimentos e não faz nada no exterior também. Mas eu me pergunto como essa característica dela afeta o relacionamento dela com ele. Ela parece reforçar várias regras com ele, como não comer antes da hora, fumar no telhado, tirar o tênis quando chega em casa, etc. Como eu disse, eu acho profundamente frustrante quando alguém que teoricamente se importa com você não exige dos outros o mesmo que exige de você.

Mas eu me pergunto se essa é a forma de controle que ela encontrou na vida com o Deel, porque o que gera as emoções dele parece tão inacessível. Enquanto a gente tá aqui preocupado com isso, Deel está se sentindo extremamente grato pela Pinha, coisa que ele não para de dizer. Até que tudo é arruinado pros dois lados por causa das costas dele. É engraçado, não é? Ele foi atingido pelas próprias costas, assim como tem se sentido traído ou manipulado em vários momentos da noite.

Mas de onde tá vindo o ataque, Joe? A ligação tá vindo de dentro de casa. Você sabe que a sua dor nas costas não é sobre as suas costas. Joel machucar as costas antes do ápice de um momento positivo pra ele e pra Ângela serve como um paralelo pra todas as vezes que o empecilho atrapalhou a felicidade deles. Ele muda de comportamento do vinho pro vinagre. E Ângela quer ignorar o problema. Ela não aguenta mais ter a vida atrapalhada por algo que nem aconteceu com ela.

É o mesmo que acontece com o passado do Joe e a famigerada banda. Logo depois que eu penso isso, a Penha diz: Você sabe que essa dor nas costas não é sobre as suas costas. E ela, com toda a sua sabedoria meio pseudociência, complementa com: A sua dor nas costas é sobre tudo aquilo que você não diz, sabe? É sobre a sua raiva, é a sua raiva que tá falando. E ele eventualmente admite que não estava doendo enquanto eles estavam dançando porque ele tava tendo um bom momento, ele estava relaxado.

O cotidiano dele é cercado de tensões. E não sei com relação às costas dele, mas eu mesma já tive dores em momentos difíceis e quando fiz exames não era nada. A Pinha sabe do que tá falando. E o Rock tenta se conectar com o Joe e ele diz, eu não quero que você tente de nenhuma forma se identificar emocionalmente comigo. A gente não se parece em nada. É cômico e é trágico. Joe age como um ser incompreendido. Ai, meu Deus, ninguém nunca viveu ter uma banda que deu errado e morar em um apartamento deixado pelos meus pais.

É claro que a dor dele é real, mas ele não está em uma situação única e longe de se identificar. É uma vida comum, e o comum ofende ele. Que bom que é comum com alegrias. Poderia ser comumente triste mesmo, triste pra valer. Então Joe fica indignado de uma vez só e confronta o Rock sobre o nome dele. O que tem a ver com ele odiar a identidade que o Rock criou pra si mesmo, porque ele próprio não consegue ser fluido? Não consegue criar um novo sentido pra própria vida.

E é assim que funciona. A gente precisa se reinventar e ressignificar elementos da nossa vida o tempo todo. Então a gente descobre por que a Pinha se recusou a rir do nome dele umas cenas atrás. Não é só porque ele é namorado dela e, claro, porque ela respeita ele. Mas porque a origem do nome nasceu depois de um longo sofrimento. Ele é Howard Wilson Kelly. E Joe se deleita nisso e diz que o tempo todo não era Hawk e que isso muda tudo.

E por que muda tudo? Porque ele vê nessa mudança de nome uma farsa, que pode ser o que impede ele mesmo de mudar de vida. Ele não quer se mudar e se sentir uma farsa. Ou ele já se sente dessa forma por não ter conseguido seguir a carreira que queria. E ver que outra pessoa também é uma farsa faz ele se sentir melhor consigo mesmo. Provavelmente é uma mistura dos dois. Mudar a forma como você vê a própria vida não acontece da noite pro dia.

Às vezes, no início, é meio fake until you make it. Finja até conseguir. Joe acha ridículo que Roxy deu esse nome. Veja só, ele acha ridículo alguém decidir como quer ser tratado. Ele precisa que o mundo decida o valor dele. O que me faz lembrar lá atrás quando a Pininha pergunta pro Dio se ele se sente digno de desejá-la. Roque diz que em uma situação de quase morte viu o filme da vida dele com a esposa passar rapidamente na frente dos seus olhos.

Que ele viu ela tentar se abrir com ele sobre a fantasia de vida que ela tinha. E que ela queria compartilhar esse tipo de versão sensual e aventureira dela mesma. E a Ângela já tá chorando nessa frase. Ela olha pro Joe por um segundo, porque essa é ela no relacionamento deles. E ele continua dizendo: E eu não me limitei a resistir isso. Eu fiquei muito tenso e... Crítico e inseguro, e eu fiz ela se sentir tão mal sobre aquilo que em algum momento daquele filme ela só para de tentar se conectar comigo.

E é o que o Joe tem feito com a Ângela, e por isso nessa hora ele olha pra ela. E o Rock continua dizendo que comprimiu a esposa, que ele recusou a tentativa dela de viver com mais ousadia, E a Ângela tá olhando pro Joe como se ela estivesse percebendo que ela tá sendo recusada. Então o Roque diz que conheceu a Pinha. Ela deu duas opções pra ele: você pode setear fogo ou se fazer disponível. E essas são as opções do Joe. Na verdade, essas são as opções da Ângela também, porque se ela continuar nesse casamento da forma que está, ela não tá se fazendo disponível.

Depois de ouvir tudo, Deel ainda faz piada com a vida do Rock e a morte da esposa dele. É chocante a insensibilidade e ao mesmo tempo a infantilidade com que ele lida com essa situação. É um vislumbre do que é viver com ele. Parece que a gente tá vendo o Hades através de uma pequena rachadura no chão. E ele ainda fala isso depois de ter tido um momento com a Pinha pelo qual ele se diz tão grato. Imagina ele com zero gratidão. E a Pinha chama a responsabilidade para ele.

Ela diz: o meu namorado compartilha essa história muito difícil e dolorosa com você e você tá tirando sarro dele? A gente faz com os outros o que achamos que merecemos para nós mesmos, não é assim? Ele acha que merece ser tratado assim se compartilhar o que sente. E assim, ele não compartilha nada. Enquanto a Pinha defende o Roque, ele faz questão de corrigir o inglês dela. E ele corrige uma palavra totalmente desnecessária, porque tava claro o que ela quis dizer.

E aí que a Pinha perde o chapéu com o Roque e joga que o espanhol dele é péssimo. Mas ela não fica corrigindo ele, ela ajuda ele. Que ela tem dito a noite toda que aquilo não ia funcionar e ele não tava escutando ela. Que esse é o problema dele, ele não escuta. É o que eu tava falando lá atrás, ele era inconveniente o tempo todo e não era por falta de aviso. E ela pede várias vezes que ele só pare de falar e ele continua falando pedindo desculpa.

Hawks, falcões, têm uma ótima visão. Isso esse hawk tem, ele observa tudo. Mas a audição deles não é lá essas coisas. Então a Ângela diz que ela e o Joe estão mortos por dentro. Que não conseguiram nem fazer uma orgia. E a Pina diz, não, não se preocupa. Vocês não estão mortos. Vocês queriam transar com nós dois. Só não era a noite certa. Senhoras e senhores, o termômetro pra saber se vocês estão vivos É baseado em se vocês topam fazer uma orgia ou não.

Se a resposta for não, pode enterrar. Então a Penha diz que o que ela não entende é como o Joe e a Ângela transam se eles se tratam tão mal. Ela só joga essa bomba e fica esperando uma resposta. Eu declaro aberta a terapia. E é aí que ela descobre que eles não transam há um ano. Ângela diz que ele nem tenta, e o Joe diz que parou de tentar porque ele pode tentar por quanto tempo até que seja uma tortura. Ele diz que é humilhante.

Ok, compreensível. Mas quando Ângela pergunta se ela não merece um pouco mais de esforço que isso, se ele não poderia tentar com mais intenção, O Joe se entrega quando diz: Quanto esforço eu deveria colocar em transar com uma mulher que deveria querer transar comigo? Por que eu deveria me esforçar tanto? Você deveria se sentir atraída por mim. Você é minha esposa. Ai, meu Deus. Por quê, meu amigo Joe? Não é assim que as coisas funcionam.

Não é porque vocês são casados que a vontade dela é imutável, como se fosse uma programação colocada pra funcionar desde o sim do casamento. Ela continua sendo um ser humano com vontades, com dias e dias, alguém que você precisa continuar conhecendo e descobrindo ao longo da vida. Então a Ângela diz que não é muito atraente estar com alguém que é miserável. Fala mais alto para quem tá no fundo! Vocês não têm noção do p— Na verdade, olha só, vocês podem sim ter noção.

O peso que é você tentar carregar um relacionamento com alguém que não quer nada, que não tem desejo de nada, que é uma espécie de objeto de cena. E ela diz que porque ele é miserável, ela é miserável. Enquanto ela tá tentando falar verdades, ele continua com essa infantilidade, como se fosse uma competição de respostas na 5ª série. Ai, você é miserável também, então parabéns. Então nós dois somos miseráveis. Estamos quites, ok?

Não tem nada pra você ficar chateada. Isso não é você querer ter uma conversa. Não é à toa que ela não fala nada pra ele. Então a Pinha faz uma grande pergunta: Ângela, você transaria consigo mesma? O que é, na verdade, muito interessante. Da forma que você se vê, você se sentiria atraída por si mesma? Quanto isso diz sobre a sua energia como pessoa? Pinha faz outra pergunta: Vocês ao menos se lembram de um tempo quando vocês não eram miseráveis?

Um dos momentos mais desoladores é quando você percebe que tem estado há tanto tempo em uma espécie de limbo que não se lembra mais como era antes. Isso já aconteceu com vocês? Você de repente se vê perguntando: essa é a realidade agora? Eu sou assim? Essa é simplesmente eu? Vai ser assim para sempre? Mas como dizem, os bons momentos passam e os maus também. Claro que você precisa dar algum passo, como checar o seu calendário, Então a Pinha pergunta como eles se conheceram.

E de novo, o Joe não quer ajudar. Ele só diz, ai, quem se importa a esse ponto? Ele é tão... ele parece uma batata. Mas isso é uma ofensa pra batata, que é mil e uma utilidades, o vegetal mais amado do mundo. Mas a Ângela segue disposta a contar a história. Foi no bar onde Joe tocava com a banda. Parece que ela já tinha tendência de agradar pessoas, porque ela pede pro date deixar ela em casa, pra só então ela correr 11 quarteirões de volta pro bar.

Loucura! O ponto é que ela viu no Dio alguém digno. Ele foi escolhido. E ele foi escolhido por ela. Ângela diz que eles eram felizes, até que um dia ele só decidiu ser miserável. E ele pergunta, você tá de brincadeira comigo? Eu decidi ser miserável? Você realmente não entende como eu me sinto? Eu sou um fracasso, Ângela. Eu vivo no apartamento dos meus pais, o que é humilhante. Eu ensino em uma escola ruim. Ensino um monte de crianças a tocar o boé que não se importam com isso.

E nada vai mudar em breve. Essa é a minha vida. Então sim, eu sou miserável. Pessoas assim trazem uma melancolia sem igual para qualquer lugar. Você mora na casa dos seus pais. Parabéns pelo privilégio. Você poderia não ter nada. Você vive em um apartamento muito bonito e enorme em um país onde tudo é caro no capitalismo tardio. Você dá aula em uma escola na qual diz que os alunos não se importam com nada. Mas era você quem mal se importava durante a aula, enquanto os alunos se entreolhavam esperando algum tipo de atenção.

Você tá decidindo olhar pra sua vida da pior forma possível. Você é miserável pelas suas próprias escolhas? E qual é a régua? Afinal, o que é um fracasso? E ele ainda diz: Por que você só não pode aceitar que eu não sou feliz e me deixar não ser feliz? E eu vou te dizer o porquê, Joe. Porque a partir do momento que você aceita compartilhar a sua vida com alguém, isso inclui os momentos de miséria. E você não quer que a pessoa que você diz amar seja miserável pelo resto dos seus dias.

E a gente sabe que ele é assim porque a banda dele não deu certo. Sucesso no meio artístico é raro. Pelo menos ele pôde viver isso por algum tempo. Ele pôde tentar. E se você tentou, já não é um fracasso. E a Ângela fala isso mesmo. Ela diz: Desculpa que a sua banda não deu certo, mas você ainda ensina música todo dia. O que honestamente me parece quase um trabalho unicórnio. Muita gente seria feliz só em ter a chance de dar aulas.

Ela continua falando: Você tem uma vida que eu acho que muita gente mataria pra ter, mas você decidiu fazer a escolha de não superar suas besteiras E de só ser miserável. Você nem toca o piano que você costumava amar. E todo mundo precisa andar em ovos ao seu redor. Você é como um cachorrinho machucado e triste. Ela diz que ela teve de largar tudo. E o Joe diz que ela largou tudo porque quis. E questiona o que ela faz o dia todo no apartamento, comprando coisas e tentando controlar cada aspecto da vida dele.

Agora, eu não sei o que houve com a carreira dela. Mas eu vou chutar que ela teve de criar a filha deles e acabou perdendo chances no mercado. Ela largou a carreira dela pra que Joe pudesse construir a dele. O conto mais conhecido da história. Quantas mulheres nesse mundo já ouviram a mesma coisa? Você não trabalha, só fica em casa o dia todo, eu tenho de pagar por tudo. E assim vai. Então, o Pin aponta como eles falam um com o outro e como ficam se culpando pela própria infelicidade.

Mas tem um caminho onde as coisas se encontram. E não dá pra ser feliz com alguém que decidiu ser infeliz. Ela diz: Vocês fizeram essas escolhas. Elas são as suas escolhas. Tem tanto ressentimento. Por que vocês estão nesse casamento? Porque eles têm uma filha. Ah, de novo, uma das histórias mais repetidas que os contos dos Irmãos Grimm. Então ela fala o que todo mundo acha. Ótimo. Isso vai ser ótimo pra ela. Porque vocês acham que ela não percebe, né?

Que ela não sente isso? Você prefere que ela cresça marinando nessa ansiedade horrível? Todo dia. O que é melhor? Ter pais felizes que são separados ou ter pais miseráveis que ficam juntos pelos filhos? A segunda opção não é a melhor. Então ela continua com: eu acho que nós temos apenas algumas chances nessa vida de termos relacionamentos significativos. Geralmente A gente move pra pessoas diferentes. Às vezes a gente pode ter um novo relacionamento com a mesma pessoa.

Depende de vocês, mas eu acho que esse relacionamento acabou. A Pinha termina dizendo: Mas eu não sou a sua terapeuta, então acho que eu já falei demais. Se isso não é uma sessão de terapia, imagina como são as sessões dela. Então ela invoca o rock de trás do sofá. E depois eles desaparecem como se nunca tivessem estado ali. Como se fossem uma personificação dos desejos da Ângela e do Joe. Como se só tivessem vindo fazer um trabalho divino à la Hércules e já tivessem partido pra próxima.

Talvez fora do caráter da Ângela, ela diz que vai limpar a bagunça do dia. No dia seguinte. Esses pensamentos trazidos à tona precisam de tempo para serem processados. E eu sei que foi ela quem convidou e cozinhou, mas não vou mentir que me bateu estranho a forma como ela tomou a responsabilidade. Deu uma impressão de que é sempre ela que limpa a casa, sabe? Como se fosse esperado que ela fosse limpar naquele mesmo momento, e como se isso sempre acontecesse dessa forma?

Se for assim, é mais uma razão pro relacionamento deles estar mal. Mas os dois voltam a conversar normalmente, como se nada tivesse acontecido, e como se já tivessem aceitado o fim do relacionamento. Quando a Ângela diz que tá cansada e vai pra cama, Joe estende a mão como se fosse um convite pra ela ir com ele. Ela até inclina um pouco para frente, como que tentada a aceitar, mas ele acaba dizendo que vai dormir no escritório.

Ela parece um pouco decepcionada, mas apaga as luzes e sai da sala. Tudo parece tão mais frio depois que ela vai embora. Então ela visita o quarto da filha, o link que resta entre eles, e Joe vai ao escritório e senta ao piano. Nesse momento, ambos estão nos únicos lugares de luz quente da casa, acomodados por memórias do que foi conquistado. Do quarto, Ângela escuta as notas de I'm confessing that I love you. Será uma visita ao passado ou uma nova declaração?

A gente vê o espanto no rosto dela. Joe finalmente encarou o piano depois de tantos anos. E ele erra as notas da parte que diz ser difícil, mesmo depois de todo esse tempo. Sempre haverá partes difíceis. Mas ele tenta de novo. E dessa vez acerta as notas. Ângela se une a ele e toca junto. E dela escapa um sorriso e depois uma lágrima. Será um alívio? Uma nostalgia? Dio toca de novo e dessa vez termina a música passando pela parte difícil sem erros.

I'm confessing that I love you over again, over again. Eu confesso que eu te amo de novo e de novo. E assim três convites foram feitos. O convite para visita, o convite para desejarem e serem desejados e o convite para um novo relacionamento, para tocar a música outra vez. Eu sou a Rai e esse foi o Sétimo Andar.

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