12 | A Obsessão masculina pode ser mortal
Obsessão (Obsession), lançado em maio de 2026, é a estreia de Curry Barker como diretor, roteirista e editor de longa-metragem em Hollywood.
Neste filme, Bear (Michael Johnston), é obcecado pela amiga, Nikki (Inde Navarrette). Ele é o perfeito exemplo de homem comum, um cara legal, um nice guy. Alguém que ninguém acreditaria ser capaz de atos pavorosos, nascidos do individualismo extremo e da objetificação de uma mulher que o tratava como amigo.
Neste episódio, eu foco apenas no filme em si. Mas por que, se chacoalharmos uma árvore, caem 8 Bears? Porque, no Brasil, 8 em cada 10 feminicídios são cometidos por companheiros ou ex-companheiros.
Bear pode não ter tirado a vida da Nikki fisicamente, mas ele tirou a sua liberdade, seu poder de escolha. Muitas vezes, é assim que começam os casos da vida real que terminam em morte.
Se você se encontrar em uma emergência, ligue 190 (Polícia Militar), mas para denúncias e orientações, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher).
Permaneçam atentas, estejam seguras e se coloquem em primeiro lugar.
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Rai
- A obsessão masculina e a objetificação da mulher no filme ObsessãoObsessão·Curry Barker·Michael Johnston·Inde Navarrette·Feminicídio
- A violação do livre-arbítrio de Nicky através do desejo do One Wish WillowNicky·One Wish Willow·Livre-arbítrio·Dignidade
- A construção do personagem Bear como um 'nice guy' perigoso e manipuladorBear·Incel·Manipulação·Mentiras
- A transformação de Nicky em uma 'Nicky do desejo' e a perda de sua identidadeNicky do desejo·FLDS·Submissão feminina·Marionete
- A incapacidade de Bear de assumir responsabilidade e sua busca por uma saída egoístaResponsabilidade·Egoísmo·Atendimento ao cliente·Suicídio
- A negligência de Bear e suas consequências trágicas para Sandy, Sarah e IanSandy·Sarah·Ian·Oxicodona·Negligência
I'm not kissing any boy that's passive. Their indecision is painfully unattractive. Obrigada por ouvir O Sétimo Andar. Esse podcast é um baby e precisa da sua ajuda para continuar crescendo. Compartilhe seus episódios favoritos com amigos, avalie com 5 estrelas O Sétimo Andar na sua plataforma de áudio preferida ou contribua com uma inscrição no Substack. Mas lembre-se, a sua maior contribuição é estar aqui me fazendo companhia.
Obsession, ou Obsessão no Brasil, chegou aos cinemas em maio de 2026 e é a estreia de Curry Barker como diretor, roteirista e editor de longa-metragem em Hollywood. Em Obsessão, Michael Johnston interpreta Bear, que é obcecado pela amiga de escola Nicky, interpretada pela Indya Navarrete. Esse é um filme independente feito com cerca de apenas US$750 mil. Curry rejeitou 2 milhões de dólares de estúdios que queriam transformar o Bear em um herói.
Mas tudo terminou bem quando a Focus Features aceitou Obsessão do jeito que ele é e comprou os direitos de distribuição por cerca de 15 milhões de dólares. Hoje, o filme ultrapassa 490 milhões de dólares na bilheteria mundial. Curry não teve medo de usar da sua honestidade e foi recompensado por isso. Honestidade essa que o Bear desconhece. Expectations, a música do novo álbum da Olivia Rodrigo, me veio à mente nos primeiros minutos de Obsessão.
O que raios é aquilo? O que o Bear quer da vida dele? Existe homem mais passivo e indeciso que ele? Mas não se enganem, porque desde o início de Obsessão já tava claro que a resignação desse poste em forma de homem levaria a situações perigosas. Sabem aquele você prefere encontrar um homem ou um urso, bear, em uma floresta? Ele, ironicamente, precisou tirar a escolha da Nicky para ser escolhido. Além disso, bear em inglês também pode significar aquilo que você tem de suportar, como uma provação.
E é isso que o Bear se torna para a Nicky, algo insuportável que ela resiste até o final. Mas vamos começar do início, como a gente sempre faz. A primeira cena do Bear mostra ele como é, tão cinza quanto as roupas que ele usa, praticando uma declaração que soa melancólica e utilitarista. Se alguém me dissesse as coisas que ele tá falando, eu me sentiria assustada. Você pensa em mim o tempo todo quando você tenta não pensar em mim?
Isso já soa obsessivo. Eu fui a única pessoa legal com você quando você se mudou pra cá? É difícil de acreditar, mas se for verdade, o que você estava fazendo para nenhum outro ser humano ser legal com você? Isso parece improvável. As pessoas costumam ser simpáticas, nem que seja por educação. E o Ian? E a Sarah? Parece que todos eles se conhecem há muito tempo. Então isso é uma mentira? Parece mais um Ah, ninguém foi legal comigo, só você é a pessoa que eu quero ter.
Olha só que coincidência! Isso seria só a primeira mentira da história. E por eu agir como uma pessoa educada, como uma amiga, você diz que talvez eu... Talvez o quê? Talvez gostasse de você? Vamos colocar nome nas coisas. O Bear é claramente um incel. Esse tipo de homem acredita como ninguém que mulheres só são legais com segundas intenções. Então ele continua falando e diz que percebeu quem a Nicky é. É mesmo, Bear? Quem é a Nicky?
Porque ao longo do filme todo o que ele faz é não perceber quem a Nicky é. É ignorar propositalmente todos os sinais de como ela não está agindo como ela mesma. Então ele diz que a avó dele morre e dá a entender que só a Niki ligou pra ele. É uma grande red flag uma pessoa não ter amigos, pelo menos algum colega próximo o suficiente pra ligar pra ele. Então eu pergunto de novo: por que as pessoas não se aproximam dele? E de novo, se é que isso é verdade.
A gente nem sabe se a avó dele realmente morreu. Sabe por quê? Porque lá na frente, quando ele abre a pobre ferramenta de pesquisa de IA dele, não faz muito tempo que ele pesquisou sobre casas de repouso. Ou seja, ele pode ter ganhado a chance de morar na casa da avó não porque ela morreu, mas porque ela foi morar em outro lugar. Isso seria a nossa quarta mentira do Bear, se eu tô contando certo. 4 possíveis mentiras em poucos minutos.
Então ele diz que pensava em não se declarar porque ela é muito boa para ele e ele ia perdê-la. Quando um homem diz que você é muito boa para ele, acredite, dado tempo suficiente, ele ainda vai te ressentir por isso. Se você não se cansar primeiro. E ele termina proferindo a maior desonestidade do filme: Mas talvez você devesse saber que eu escolheria você acima de tudo. Porque a gente vem a ver que ele escolhe a si mesmo acima de tudo.
Mesmo ignorando o resto do filme, com essas poucas falas já dá pra saber o tipo de coisa que vai vir do Bear eventualmente. Então é revelado que ele tá praticando essa declaração com a garçonete da lanchonete onde ele está. Tirar a mulher das tarefas dela no horário de trabalho já é um traço egoísta. Ele é um cliente, ela é colocada em uma posição muito delicada negando o pedido dele. E enquanto ele fala, dá para perceber que ela tá desconfortável.
Mas ele não se importa o suficiente para parar. E mais, quando ela fala, ó, assim que ele termina o que tinha para dizer, tenho a impressão que ela só reagiu como imaginava que ele gostaria que ela reagisse. O que mais ela faria com esse cliente? E isso é só uma amostra de como vai ser o relacionamento dele com alguém que só age para agrado dele. Mesmo a custo da própria independência. E ele não vai se importar, porque as necessidades dele são satisfeitas.
Depois de terminar essa prática, ele mesmo fala que não vai tentar de novo, porque foi tão constrangedor. Ele se sentir constrangido por falar sobre o que sente é o primeiro passo para os problemas dele, que acabam virando problemas de todo mundo. E é possível que ele ache constrangedor porque ele sabe que tá cheio de mentiras. Também me incomoda ele e o amigo dele, o Ian, estarem praticando essa conversa com a Nicky como se a iniciativa do Bear fosse a única barreira entre eles, como se ela apenas tivesse de ser conquistada uma única vez e pronto, é dele, como se ela fosse um Pokémon.
Outra coisa é que se você tem de se desdobrar tanto para agradar outra pessoa, como a gente vê com ele fazendo de novo e de novo é porque você não é compatível com ela. Eu vejo isso como uma farsa. Você quer que ela goste de alguém que não existe, e uma hora isso vai dar problema. Então o Ian pergunta: você já flertou com a Nicki? E aí a gente descobre que o Bear tava falando tudo aquilo sem nunca ter nem dado nenhum indício de estar interessado por ela, o que deixa tudo muito mais Assustador.
Imagina ela ouvindo aquilo tudo do nada, com zero contexto. E o Ian tá tentando ajudar ou sabotar ele e a Nicki? Porque ele dá a ideia do Bear ser maldoso com a Nicki como forma de flerte, que é uma das coisas que redpills fazem. Inclusive, eles acham que é uma estratégia sem igual. E a gente fica sabendo lá no final que o tempo todo o Ian tava ficando com a Nicki nos últimos 2 anos, se bem me lembro. Então ele só não queria perder esse acesso a ela caso o Bear conseguisse esse relacionamento.
É a mesma coisa que Red Pill criadores de conteúdo fazem. Eles sugerem mil coisas horríveis que vão deixar o homem solteiro e, consequentemente, esses homens vão consumir cada vez mais o mesmo conteúdo, porque esses criadores não querem perder acesso ao dinheiro dessa gente tonta. E mau caráter. A gata do Bear, Sandy, vai de bye-bye depois de comer oxicodona, o analgésico mais potente que morfina. E o Bear parece surpreso e pergunta como ela conseguiu acesso ao remédio.
E realmente, Bear, como ela conseguiu acesso a um remédio que tem uma tampa segura contra crianças? Como que a sua gata, sem polegar opositor, conseguiu abrir a embalagem? Eu vou te dizer como: o Bear deixou o remédio destampado em um lugar de fácil acesso para a Sandy. Mas assim como em todo o resto do tempo, ele não se responsabiliza pela negligência dele. Ao invés disso, ele pergunta para a gata como ela conseguiu isso. E mais, A oxicodona tava rotulada com o nome de outro paciente, que eu imagino ser da avó dele.
Ela deve ter vivido anos nessa casa com a Sandy viva, porque ela realmente amava a própria gata. Sim, a gata dela. Eu não acho que a Sandy era originalmente do Bear. Não só pelo descuido dele, como também porque a gente vê uma foto da Sandy em um porta-retrato de estilo mais antigo, que combina com a mobília do resto da casa. Então ele matou a gata da avó. Depois ele ainda descarta a Sandy em um saco de lixo, como toda pessoa que ama seu pet faz, e guarda o remédio no gabinete do banheiro, onde a gente vê que ele tem várias outras embalagens que também devem ser da avó dele.
E ao fechar o espelho do gabinete, ele vê no seu rosto emaciado a própria imagem sustentada por essas drogas que, por alguma razão, ele não joga fora. É como se ao invés de tratar a própria dor psicológica, no caso, ele encobrisse ela com analgésicos, que é o que acontece entre ele e a Nicky. Ele ignora todos os sinais de que ela tá sofrendo em prol do bem-estar falso que o relacionamento com ela proporciona. No quarto do Bear, Nós vemos uma daquelas fotos de cabine, uma tirinha com 4 imagens.
A primeira é dele com a Nicki. Essa é legendada com a palavra bass, que significa baixo em português, o instrumento. É a base da música, nesse caso, a base da realidade. E a realidade é que ele está desfocado nessa foto, ele não importa. Ela está ao lado dele. Olhando pra gente através de óculos escuros, como que um mistério pelo qual ele se atrai. O objeto de desejo. Essa foto se refere à primeira parte do filme. A segunda tem a legenda Clef, que traduz pra clave em português.
Bear decide o tom em que a música toca. Ele dirige a Nicky a partir do momento em que faz o desejo. A Nick mostra o dedo do meio e tem o sorriso invertido, como que triste, mas o Barry está em foco e feliz, no comando. É a segunda parte do filme. A terceira é legendada como Bandits, ou seja, bandidos. A palavra começa com band, que significa banda em português, e sabemos que tudo aqui é uma referência à música porque eles trabalham na loja de instrumentos musicais.
E pelo menos o Bear e a Nicky tiveram aula de música na escola. Os bandidos são a Nicky e o Ian. O Bear parece triste enquanto a Nicky e o Ian sorriem abraçados. É a parte do filme em que o Bear descobre que eles estavam ficando durante os últimos anos, roubando o que deveria ser o momento dele, a felicidade dele. A quarta é legendada como B Squad, ou seja, o grupo todo, o time. Um grupo onde Bear se via como o coitado, mas também o merecedor do grupo, enquanto o resto eram os seus coadjuvantes.
Bear aparece com os olhos fechados porque já não está entre nós. Nicky olha para o Ian, que está com os olhos riscados porque também já foi de bye-bye. Ele aponta para a própria cabeça, aludindo ao tiro da Nicky. E a Sarah aparece deitada na frente, de vermelho, como que coberta com o próprio sangue. Essa é a última parte do filme. Acima da cama do Bear, o maior pôster diz player, jogador, que é o que ele se torna, fazendo da Nicky um avatar.
Outro pôster parece ter dinheiro em papel e um revólver, aludindo ao bilhão do Ian no final do filme. E a forma como ele morre. E o último do canto parece dizer Pedrolino, que é um personagem italiano da Comédia dell'Arte, um personagem que sofre pelas peças pregadas pelos amigos e que não tem sucesso no amor, que é claramente uma referência ao Bear. O quarto tem dois abajures, um de cada lado da cama, mas só um está ligado, quase que acima da cabeça do Bear, representando que apenas ele vai ser consciente das decisões tomadas.
Porque mais pra frente a Nick vai sempre deitar do lado esquerdo e ela não estará no controle da mente dela. Além disso, o abajur do lado do Bear tem conchas azuis bem na frente, o que me faz lembrar do poder das sereias, que mexem com a mente dos navegadores fazendo eles irem em direção a elas, em direção ao perigo e, em consequência, à morte. A cena desse momento mostra o Bear chorando e eu penso, ok, totalmente compreensível, a Cindy acabou de morrer.
Mas não, ele tá chorando pela Nicky. É doentio. Parece até a profundidade de um Pires com a gata morta e as lágrimas por uma mulher, como se ela tivesse culpa pela miséria dele. Então ele atende o telefone e começa com aquele jeitinho que dá vontade de sacudir e falar, Pelo amor de Deus, seja quem você é! Até que ele acende o abajur que tinha apagado e muda sutilmente de comportamento, como se tivesse iluminado outro lado dele.
Desse lado, ele diz não pra Nicky quando ela pergunta se ele vai pra noite de trivia. Ele tem o livre-arbítrio intacto e fala o que precisa quando quer. Todas as vezes que ele se fez de pobre coitado sem posicionamento, a vontade dele tava ali o tempo todo. Omissão também é uma escolha. Não é um romance, é uma história de amor. Chegamos à loja onde o Bear procura um cristal para a Nicky. E prestem atenção na atendente porque ela volta muito diferente no final.
Ele volta diferente no final. O Berto tem a opção de comprar ametista para tranquilidade e claridade, ou um quartzo rosa para atrair amor, por exemplo. Então ele pede por um cristal que tenha energia positiva, e o recepcionista sugere citrino, que, como ele diz, é como luz do sol em uma pedra. Ele diz que a Niki odiaria citrino. E ele me enche de agonia porque, de novo, qualquer coisinha ele dá um passo para trás. A Nicky odiaria isso e aquilo.
Com todas as indecisões e pequenos ajustes para tudo, é como alguém caçando um animal e verificando a direção do vento, as pegadas no chão, o cheiro da própria roupa. Independente disso, ele sabe do que ela parece gostar ou não gostar. O que parece incluir coisas fofas demais ou grudentas demais. Mas quando ela se torna tudo isso, ele não acha estranho. Claro, porque é conveniente para ele. Mas ele não vai querer um cristal. Ele quer a via mais rápida.
Ele quer ter o próprio desejo realizado como que não passe de mágica. Por isso, ele escolhe o One Wish Willow. A princípio, é um presente para a Nicki. Mas o que atrai ele é o próprio desejo reprimido. Reparem que ao redor existem outros produtos: um que permite ver o futuro e outro que você pode afetar uma pessoa através de uma boneca de vudu. Talvez ele devesse ter escolhido ver o futuro e ser poupado de tudo o que ia acontecer.
E no fim, ele tratou a Nick como uma boneca. Enquanto a pessoa afetada por ele estava presa dentro da própria cabeça. Chegamos ao bar e é enlouquecedor como a Nick pergunta para o Bear qual era a coisa importante a que ele tava se referindo no telefone e ele não diz que a Sandy morreu. Não é normal que uma pessoa esconda algo tão importante, tão trágica. Sem razão nenhuma. Ele é cheio de red flags por todos os lados. A Nicky se interessa por ele, ela vê ele como um ser humano normal, ao contrário do que ele faz com ela, interagindo o tempo todo como se tudo fosse um jogo com diálogos certos e errados pra chegar mais rápido na main quest.
Isso é um 500 dias com ela versão Horror. Se o Tom tivesse um ano Ash Willow na história dele, ele provavelmente teria feito a mesma coisa que o Bear. Ambos querem a ideia de alguém. Ambos querem a sua manic pixie dream girl. A personagem que existe pra fazer eles crescerem dentro do próprio plot. Mas eles agem como sombras de pessoas. Homens que não têm interesses próprios, hobbies, objetivos, sonhos, e colocam todas as expectativas deles em cima de uma mulher que esperam resolver todos os seus problemas.
Indo embora do bar, a Nicky pergunta quem tem dinheiro, consegue da Sarah, e entrega para uma pessoa aparentemente em situação de rua. Até então, A câmera estava focada no grupo e nós focamos na conversa entre eles. Mas a Nicky percebeu essa pessoa e a necessidade que ela tem. Bear jamais faria algo assim. Há um grande contraste entre os dois, entre o nível de empatia deles. Ele não enxerga nem o que tá em alta definição bem na frente dele implorando por ajuda.
Imagina alguém que ele consideraria um figurante na história dele. Então, Beres se voluntaria para dirigir a Nick para casa, não porque ele é essa pessoa super legal, mas porque ele quer passar um tempo com ela para ganho próprio. E é um tempo no qual ele está no controle, literalmente no volante. É aqui, na altura dos 15 minutos de filme, que a gente escuta o nome dele ser falado e não o apelido. É como se a máscara deslizasse para o lado.
A Nicky chama ele de Baron. E o que é um Baron, um barão, senão uma pessoa que detém o poder? No caso dele, disfarçado de algo fofo, de bear, urso, mesmo que também perigoso, ainda que por vezes não pareça. Ele fala para Nicky que vai ser estranho não vê-la todo dia no trabalho. E ela responde que não tá feliz lá. E ele imediatamente desvalida o sentimento dela, dizendo: É só um trabalho, Anick. E daí vai pra: É só a Anick sendo esquisita, mas ela tá bem.
É só um desejo que não faz mal pra ninguém. O que tem de tão ruim em estar comigo? E assim por diante. Ela explica que quer escrever e precisa de uma grande mudança de vida pra isso. Porque ela não está sentindo amor e precisa sentir amor para trazer a história à vida. Então eles têm o seguinte diálogo: Amor? Então é um romance? Não, não é um romance, é uma história de amor. Isso não é a mesma coisa? Para o Bear, se ele ama a Nicky, o que já estabelecemos não ser verdade, Então ele vive um romance, não importa o que ela sente.
Mas ele não entende o que é amor, ele não entende limites, nem reciprocidade. Todos os sinais estavam aí desde sempre. A Nicky nem continua a conversa, ela só diz que ele é a única pessoa com quem ela pode falar sobre esse tipo de coisa. E ele sorri como se fosse um sucesso. Sabe o que eu vejo nisso? Eu vejo um homem feliz em ser o único porto seguro de alguém, o que é extremamente preocupante. Ele sente prazer em imaginar que possui um lado da Nicky que seria inacessível para os outros.
Ele quer ter e quer que as outras pessoas vejam que ele possui. Por isso, mais para frente, ele não se importa que ela não é a Nicky real. O que importa é a aparência de ser, é o corpo, é o benefício que ele traz socialmente e o prazer que ele recebe fisicamente. Mas quando a Nicky reage com aversão à ideia dele ter comprado algo para ela, ele percebe essa, digamos assim, pequena reação fora do que ele desejava que fosse. Ele só percebe sinais.
Que são inconvenientes para ele. Eu desejo que Nicky Freeman me ame mais do que qualquer pessoa no mundo todo. Bear se despede da Nicky chamando ela de Freak Nicky e ela estabelece um limite na mesma hora, mas essa reação de estabelecer um limite é invisível para o Bear. A câmera deixa o rosto da Nick fora do campo de visão dele e do nosso também. Ele inclusive confirma que sabe que ela não gosta de ser chamada assim. É mais um sinal de que as partes mais reais da Nick vão ser ignoradas por ele, que os limites serão ignorados.
Ele também só se sente seguro para agir dessa forma quando ela tá invisível nesse sentido. Assim como ela se torna invisível quando o desejo entra em ação. É como em céus online que dizem barbaridades, mas não estão literalmente falando tais coisas na cara de uma mulher, porque eles são covardes. Quando ela encara ele de volta no campo de visão, olhos nos olhos, e pergunta se ele gosta dela, Ele volta a ser o cara inseguro de sempre.
E é através da insegurança dele que chegamos ao pedido desesperado que ele faz: eu desejo que Nick Freeman me ame mais do que qualquer pessoa no mundo todo. Se declarar para Nick não é algo inalcançável. Ele não precisa de um desejo para isso. Ah, mas ele não tem coragem. Ok, então deseje ter coragem. Deseje se declarar para ela. Mas não, ele não altera a própria personalidade, ele não viola os próprios limites. Não, ele viola o livre-arbítrio, a mente, a independência da Nick.
Ele deseja que ela sinta algo que ele sabe que ela não sente, e ele vai tão longe quanto pode. Ele não só deseja que ela goste dele ou o ame, mas que ela ame mais que qualquer outra pessoa no mundo inteiro, acima dela mesma. É a violação máxima. E você pode dizer: ah, mas ele não sabia que o desejo se tornaria realidade, ele não achava que era sério. O fato dele pensar que não é real cria uma sensação de segurança que faz com que a vontade real dele venha à tona.
É justamente porque é um desabafo, porque é um momento vulnerável, que é sincero. Então, Bear se prepara para ir embora quando ele olha para o lado e vê a Nicky na porta olhando para ele. A porta está iluminada, mas as janelas da casa estão apagadas. Esse tipo de escolha é comum nos Estados Unidos. As pessoas deixam só a luz da varanda acesa quando não estão em casa ou quando estão esperando alguém chegar. Mas não é interessante pensar que a escolha foi consciente para essa cena?
Pensem que a porta para a mente da Nicky é aberta e outra personalidade toma conta do corpo dela. Antes, quando ela se despede do Bear e anda em direção à casa, nós ouvimos a porta fechando. Ela chegou a entrar, ou seja, a Nicky real entra, fica presa internamente, e a Nicky do desejo sai, uma silhueta da verdade. Enquanto isso, os olhos, que são a janela da alma, estão apagados. Porque a Nicky real não está no controle. E sim, a casa já tava assim quando eles chegaram, mas eu vejo essa escolha como um foreshadowing.
A Nicky do desejo vem até o Bear e pergunta sobre o presente que ele mencionou, aquele que a gente sabe que a Nicky real nem queria. E os olhos dela já parecem diferentes, fitando o Bear com uma atenção que não tinha acontecido até aqui. A voz também muda. Ela ganha uma voz de tradwife de FLDS, a Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que ficou famosa nos Estados Unidos por ser uma seita extremamente pesada.
Inclusive, tinha um documentário na Netflix onde eu acho que eles falam sobre essa voz que as mulheres fazem nesses meios religiosos. Não só na FLDS, mas em qualquer meio que prega a ideia de submissão da mulher. O nome do documentário, a propósito, é Sejam dóceis, rezem e obedeçam. Elas fazem uma voz infantil o tempo todo, de forma a não parecerem uma ameaça para o homem. É isso que a Nick já começa a fazer. E a Indi atua tão bem.
Ela lamenta que o Bear perdeu a Sandy, mas é muito desconfortável, porque ela sorri e balança a cabeça ao invés de acenar. E a combinação da negativa com um sorriso dá um ar inumano para ela. Ela também força a vista como se tivesse com dificuldade para enxergar. Eu acho que eu vi a Indi ou o Curry falando sobre essa cena, sobre a ideia de que a Nick do desejo tinha tinha acabado de nascer. Como um bebê quando vem ao mundo, ela abre e fecha os olhos para se acostumar com a luz.
E agora, por volta dos 21 minutos de filme, o Bear olha para embalagem de One Wish Willow. Ele já sabe. Pode parecer loucura, e mais para frente ele tem outras realizações, mas aqui, lá no fundo, Ele sabe. É só a primeira vez que ele decide seguir em frente. Então ele pergunta se ela tá ok e ela repete a pergunta de volta, como bebê que agora começa a espelhar os movimentos de outras pessoas. Imagino que preferencialmente os movimentos dele.
A mudança de expressão dela para indignada, surpresa, confusa, Nikki do desejo, Nikki real, é tão rápida e convincente. E a Nikki, pela primeira vez ali, já pede desculpa pelo comportamento estranho dela, mas a Nikki do desejo sempre volta a tomar conta. A Nikki real também fica presente menos tempo do que parece. Por exemplo, quando ela diz que deve estar muito bêbada, aquela já não é a Nikki real tentando justificar a atitude estranha dela.
Aquela é a Nick do desejo, performando mais próxima da Nick real pro Bear não afastar ela, porque ele acabou de dizer que está ficando assustado. E por que é tão estranho só ouvir a voz dela e não ver o rosto dela? Talvez seja porque ela dá grandes saltos falando de coisas que não fazem sentido com a situação. E isso intensifica a estranheza dela, mas piora muito mais quando ela começa a chorar sem balançar o corpo, porque fica evidente que ela tá mentindo e tá escondendo o rosto para o Bear não ver a falta de vida nele.
E agora eu também percebo porque tem tanta luz verde no filme todo. Porque verde é muito usado em filmes não só para vilões, mas também para magia sombria e para o sobrenatural. Chegamos à casa do Barry e ele rapidamente esconde uma revista pornográfica que tinha um imenso hidratante ao lado, não esperando a visita de ninguém, muito menos da Nicki. Então a Nick chega ao portal da cozinha e tem a luz de uma abajur atrás deles. Essa luz ilumina o Bear, mas não ilumina ela, porque a Nick real está nas sombras.
E esse detalhe dela não ser visível vem desde a cena passada e se repete daqui para frente. A gente também vê que na geladeira dele tem ímãs de coração e uma foto de duas pessoas na praia. Imagino que ele e outra mulher. Depois que eles vão para o quarto, a gente vê uma das várias performances da Nick do desejo. Ela tira a camiseta para dormir, mas não tira o sutiã. É a coisa mais irreal até aqui. Ela tá tentando parecer sexy para ele.
Na minha humilde opinião como mulher, a Nick real tiraria o sutiã. Que é a primeira coisa que a gente quer tirar quando chega em casa, e não tiraria a camiseta. E o que tá acontecendo com o relógio na mesinha de cabeceira? Quando a Nicky pede pro Bear ficar com ela, o relógio diz meia-noite e alguma coisa, e agora parece que são 6:55 da manhã. Ou o tempo passou diferente sem ele perceber, ou só não dá mesmo pra ler os números com clareza.
Mas esse tema do tempo já foi trazido antes. O Ian diz lá no início que tudo que o Bear tem é tempo. Depois, o Bear encara o relógio na parede do quarto dele durante a mesma ligação em que a Nicky diz que eles estão perdendo tempo. Então, esse pode ser um indício de que o fim vai chegar mais rápido do que ele imagina. E a Nicky real vem à superfície pela segunda vez quando o corpo dela é violado, quando ela beija o Bear. E lembrem-se que ele sabe e não se importa.
Ele sabe. E ele se coloca no lugar de vítima quando a vítima é ela. Ele diz: você me fez sentir que eu fiz algo que você não gostou. O que incomoda ele é como ela fez ele se sentir e não como ela está se sentindo. Na manhã seguinte, o Bear vai até a cozinha e nós vemos que uma das fotos na geladeira mudou, porque agora não tem ninguém na foto, só areia e mar. Eu me pergunto se a Nick já fez isso e é uma demonstração do nível em que ela já está, ou se é só uma espécie de foreshadowing.
E a bússola moral da Nick do desejo está quebrada, porque ela existe cada vez mais só para o Bear. Ela realmente faz um memorial com o corpo da Sandy na intenção dele gostar disso. Então, quando ele vê e diz que é errado, ela diz: Bem, eu não sei se é errado, Bear. Porque ela literalmente não sabe, mas ele entende isso como ela diminuindo a esquisitice da coisa. E ele repete: Não, é errado. E ela, níquido desejo, recém-nascida, pergunta se ser errado é bom.
Ela tá totalmente perdida e dá um passo atrás do outro para viver na medida do que ele acha certo ou errado. O que é incrivelmente irônico. O Bear pode dizer que errado não é bom, mas não é o que as ações dele dizem. Tudo que a Nicky queria era ir para casa depois de um dia cansativo. Mas a decisão do Bear vai mudar o rumo da vida dela para sempre e nunca vamos saber se algum dia ela pode voltar a descansar de verdade. Quando o Bear chega no trabalho e explica para o Ian o que aconteceu, o Ian sugere que a Nicky tenha usado MDMA e por isso o comportamento estranho.
Então o Bear diz que pesquisou sobre MDMA em 3 sites diferentes, mas pelo que a gente vê, ele não fez isso. Ele perguntou para uma IA, o que é um barato vindo de uma pessoa que trabalha em uma loja de música e é interessada em uma mulher que quer ser escritora tão intensamente a ponto de pedir demissão para mentira a história. A pesquisa mais antiga inclusive é casa de gente velha, para depois ser corrigido pela IA e ele pesquisar casa de repouso, o que fala da falta de vocabulário dele e da dependência por inteligência artificial.
Ele também pesquisou sobre oxicodona, então ele já sabia quão perigoso era o remédio que matou a Sandy. O que coloca, sei lá, mais 1000 pontos na negligência dele. E aí vem a última semana de pesquisas com: como saber se você entrou na friendzone? O que é um termo totalmente inventado por incels que, como sabemos, não conhecem o simples conceito de amizade. E depois a gente tem como flertar, Como impressionar uma garota? A última pesquisa também é filmes clássicos de romance.
Esses filmes geralmente contam a história de um cara que insiste muito em uma mulher até ela ceder, como Diário de uma Paixão de 2004, ou mostra um cara que sempre foi amigo da mulher e eventualmente ela descobre que ama ele. Como em O Casamento do Meu Melhor Amigo, de 97. Quantas vezes a gente já não viu essas histórias? A Nick do desejo volta para casa do Bear e ele tem a segunda oportunidade de admitir que gosta dela. Ela nem pergunta, ela parte para o ponto de dizer que sabe que ele gosta.
E ele nega. É a segunda chance e ele nega de novo. Ele já tirou o poder de escolha da Nicky e agora ele tira também a dignidade dela. Ele força que ela diga que gosta dele. Dessa forma, ele tem menos chance ainda de correr o risco de rejeição, que a essa altura é fantasiosa. Ele diz: por quê? Você gosta de mim? E ela diz: te assustaria se eu dissesse que sim? E ele pergunta: desde quando? Com aquele suspiro de quem tem tudo que queria, mas com uma expressão que diz: eu não sou suficiente para você?
Por que você se sentiria atraída por mim? Ele é um sad boy, um nice guy. Ele é toda a essência dos homens coitadinhos que, na verdade, são perigosos, porque a insegurança deles é como um lago profundo que te puxa para baixo. Então ela pergunta pela terceira vez se ele sente algo por ela, e a hesitação é tanta que eu tô pronta para ele negar de novo. Quando ele finalmente diz que sim, não soa como uma admissão. Mas como uma coisa que pode ser trabalhada.
Soa como: a gente pode chegar lá se você faz questão da minha pessoa. E isso é seguido pelas cenas revoltantes dos dois tendo aquela falsa vida feliz, porque a gente sabe que o corpo da Nick é violado de novo e de novo, e é tão difícil de ver. E como o desejo muda ela como um todo, agora ela é a pessoa que acha IA uma boa ideia, algo que pode ser até engraçado. Em uma das próximas cenas, ela mostra um meme gerado por IA de duas pessoas que se parecem com eles e que diz: eu quero usar sua pele como um suéter.
Uma daquelas coisas que soam bizarras. Mas que muita gente acha fofo. A Nicki Real jamais gostaria de algo assim. É uma junção da inteligência artificial com aquela coisa grudenta que ela não gosta. O que que é o ápice da coisa grudenta? Qual é o máximo? Eu acho, né, diria que seria usar a pele de uma pessoa. É óbvio que tem alguma coisa de errado com ela. Nós que conhecemos ela por poucos minutos sabemos disso. Imagina o Ian e a Sarah.
Todo mundo sabe que tem alguma coisa errada, mas eles se encontram dentro de um mundo onde parece que ninguém mais entra. Em uma outra cena, eles aparecem atrás da estrutura de uma janela, como que atrás de grades, presos, separados do resto. Do que é real. Não importa para mim. Quando chegamos ao encontro deles no restaurante, Bear e Nick estão sentados na frente de uma grande janela amarela. A gente já sabe que essa cor pode representar aquilo que é doentio, mas além disso, a cabeça do Bear está sobre o único ladrilho de vidro Verde, o que, de novo, indica a malícia que vem dele.
Eu também percebo, pela primeira vez, que a Nick tá usando um colar com um B de Bear, que, dado o contexto, age mais como uma coleira. É aí que a Nick pergunta o que o Bear gostaria de ter como profissão, e ele responde crítico gastronômico. Mas pela descrição que ele dá do trabalho, a gente vê que ele não tem nenhuma ideia de como seria. Não é algo que ele realmente gostaria de fazer, nem com o qual ele realmente se importa. É a mesma coisa do relacionamento dele com a Nicky.
Ele descreve uma realidade na qual ele seria endeusado por nenhuma razão e no fim teria um benefício de graça. É nessa cena que o Ian liga pro Bear trazendo as preocupações dele e o fato de que a Nicky mentiu sobre o pai ter câncer. E o Bear é confrontado de novo com aquilo que ele secretamente já sabe, que o desejo funcionou. Mas antes dele poder questionar a Nicky, ela entrega um cristal para ele, um olho de tigre, para ajudá-lo com autoconfiança.
Até a Nicky do desejo vê o tamanho da insegurança dele. Mas proteção seria outra propriedade do olho de tigre. Talvez ela devesse ter guardado para ela, já que ela precisa de proteção contra o Bear. Eu me pergunto se ela já tinha esse cristal separado porque já vinha percebendo essa insegurança, ou se a Nick real escolheu o cristal como uma alfinetada contra o Bear, de forma que passa despercebido pela Nick do desejo, o que seria muito interessante também.
Pouco depois, ele junta os pingos de caráter que ele tem e pergunta para Nick se o pai dela realmente tem câncer. E ela sofre aqueles 15 eternos segundos de pane interna. Até a grande cena do: Não? Não. Não, não, não, não. Não, não, não, não, não, não. Não faz isso, eu achei que a gente tava tendo um bom encontro. Por que isso importa? E ela parece totalmente alucinada, como quem poderia matar o Bear ali mesmo. E até aqui, fora as razões óbvias, a gente não sabe que quem corre perigo fisicamente é ela mesma.
Eu vi a Indy falando sobre essa cena e sobre como cada não significa uma coisa diferente, e foi exatamente a sensação que eu tive vendo o filme, que a princípio ele pergunta sobre se o pai dela tem câncer e ela só responde Não, meio que sorrindo, tipo, não, ele não tem, por que que isso importa? E aí em seguida ela fala o não de não me faz essa pergunta, não, eu não quero responder isso, não, eu não quero ter essa conversa, e assim por diante.
Maravilhosamente incrível. Então o Bear diz, sim, a gente tá tendo um bom encontro. E ela pergunta de novo, então por que isso importa? E ele fala a verdade: não importa para mim. Ele tem acesso a ela, a companhia dela, ao corpo dela. Então não, não importa para ele. E corta para cena deles no quarto, fruto dos piores pesadelos nascidos das mais profundas perturbações da mente do mal, na qual a Nicky, claramente presa dentro da própria cabeça, É só um corpo usado pelo Bear.
Eu nem quero falar mais sobre isso. Todo mundo viu, todo mundo sabe o que significa. É brutal, é desumano, e eu me sinto fisicamente enjoada. E o pior é que algo parecido acontece com mulheres sob o poder de homens todos os dias ao redor do mundo. Enfim. Eu tenho um imenso desejo pela punição do Bear. E felizmente seguimos perturbando ele, mesmo que às custas do inferno no qual a Nicky real se encontra. Sabe aquela sombra no canto do quarto, quando você acha que é um monte de roupas?
Talvez não dessa vez. Um pouco de luz cai sobre o rosto da Nicky. Que parece distorcido. E eu pensei que eu tava vendo coisas, mas a Indy realmente usou uma maquiagem para essa cena que aumenta a pupila e a íris dos olhos e o sorriso, além de acentuar as maçãs do rosto. Lembra um pouco como é uma marionete. Quando o Bear conversa com ela, ela não só fala volta a dormir, ela fala Volta a dormir. O que deixa tudo muito mais esquisito e arrepia os pelos do braço.
Quando ela sai do canto andando como um maldito dinossauro necessitado de exorcismo, o Bear comenta que ela tá usando o suéter dele. E ela diz, ele cheira a você. O que leva a gente de volta àquele meme do qual eles estavam rindo lá no início, que dizia que era usar sua pele como um suéter e que faria eu sair dessa casa assim que possível. Sem levantar suspeitas, porque isso é um comportamento de gente que vai te assassinar. Então o Bear diz pra ela voltar pra cama, e ela anda pro canto daquele jeito reverso super esquisito e diz que não vai voltar, porque ela não gosta dos sonhos dela.
A reação imediata de voltar pro canto parece ser um indício da Nicky real querendo estar o mais longe possível do Bear. Mas sendo obrigada ainda a estar no mesmo quarto que ele. E o que será que são os sonhos? São a Nicky real gritando por liberdade? Ou são a Nicky real reagindo aos sonhos que representam essa situação toda da vida real e atrapalham o resto do corpo de dormir? Depois que a Nicky insiste que ele volte a dormir, O Bear hesita e começa a deitar.
Uma daquelas cenas do filme que a gente riu, pra logo depois ficar todo mundo gelado de novo. E eu tô revendo esse filme pra poder conversar com vocês e tá sendo uma missão. Eu tô indo contra a minha natureza. Vocês têm noção de que agora eu tô com a cabeça virada pro lado como se fosse mudar alguma coisa? Do tanto que eu vejo da tela. Que eu tô toda dura e prendendo a respiração depois que ele deita? São 17 segundos. 17! Sem contar o delay dele começar a deitar de novo.
A partir do momento que ele tá quieto na horizontal, são 17 segundos até a próxima fala. É muito cultivo ilegal da minha ansiedade. Então ela grita aquele, por que você não me ama? Com uma voz distorcida e anda daquele jeito super esquisito com o vaso de flores. E essa cena, se bem me lembro, é a cena que não foi a Indy que fez, foi uma bailarina, porque eles queriam tirar o melhor possível dessa sensação de aversão que a gente sente com aquilo que não parece humano.
Além da performance geral que a gente viu até agora, esse andar esquisito dela e a maquiagem do início me lembram muito uma marionete, como eu tinha dito, no sentido de que o desejo modificou uma parte do cérebro dela e que isso afeta o comportamento cognitivo e a atividade motora. Esse efeito também é uma ótima metáfora para como ela é a boneca que o Bear desejou. Então amanhece e ela não tá lendo no sofá porque o livro está de cabeça para baixo, mas ela escolheu um título que talvez o Bear gostasse de vê-la lendo: A Arte da Sedução.
Muita gente diz que é o do Robert Greene. Eu procurei a mesma capa que aparece no filme para ter certeza e não encontrei. Se for dele mesmo, faz total sentido para a história, porque ele cita diferentes formas de sedução bem manipuladoras. Aparentemente o livro também é do Bear, então posso apenas pensar que ele comprou na intenção de usar com a Nicky. Outro sinal da natureza perigosa dele. Depois que o Bear passa pela horripilante porta de silver tape, A Nicki se despede e fica com aquele sorriso congelado no rosto por um milésimo de segundo a mais do que faria sentido.
E aí a gente já sabe que ela não vai sair dessa posição. É como a Andy comentou em uma entrevista, se bem me lembro, que ela e o Curry estavam brincando com a ideia de: se uma árvore cai em uma floresta e ninguém tá por perto, ela fez barulho? A Nicki vira um personagem em standby, uma NPC. Ela só existe a partir da interação com o Bear ou para causar algo pro Bear, mas nada para ela mesma. É assim que ela começa a urinar em pé.
E eu não consegui enxergar bem isso na tela, mas a Andy comenta que o líquido usado foi colorido com um pouco de vermelho justamente para indicar que ela não tem se hidratado direito. No trabalho, o Bear abre a lancheirinha dele e vê o que é um pedido de socorro. A primeira foto dele diz você e a segunda da Nick com ele diz not me, que em inglês tem aquela ambiguidade de Eu não sou importante como você. E também: não sou eu. É claramente a Nick real tentando passar por uma frestinha da Nick do desejo de forma que não seja suspeito.
A gente vê isso mais pra frente. É como se ela tivesse medo da reação do próprio corpo ou medo de não conseguir voltar pro controle e perder a oportunidade de pedir por ajuda. É de doer o coração, porque ela aproveita essa chance para dizer para o Bear: essa não sou eu. Como se ele não soubesse, porque ela, vendo ele como amigo, jamais pensaria que ele ignoraria os sinais de propósito, e muito menos que ele fecharia os olhos para um pedido de ajuda.
Engraçado que enquanto ele olha as fotos, a Sara tá falando ao fundo sobre como as pessoas são tão pretensiosas hoje em dia. Ah, meu bem, você não faz ideia de quem tá do seu lado. Então ela vem e senta ao lado dele e segundos depois fala que o lanche tem um cheiro esquisito e ele não tinha percebido. O que é mais um indício de que ele mentiu quando disse que queria ser um crítico gastronômico. Ele está mastigando a comida que a Sara só sentiu o cheiro e não sente nada de errado.
Sabe quando uma pessoa gela? O Berg gelou assim que a Sara leu o bilhete. Qual é o veredito? Gato? Na verdade, Todos nós gelamos, eu sei. Quando a câmera foca no sanduíche dele, a gente vê que ele já deu umas 3 mordidas naquilo. E ele merece cada horror que a Nicky faça ele passar. A Nicky tá literalmente bem. Ian pede carona pro Bear e confronta ele mais uma vez sobre a relação dele com a Nicky. E o hábito de mentir do Bear continua intacto.
Ele diz que a Nick está literalmente bem. Se ele fosse uma boa pessoa, não só nada disso estaria acontecendo, como também Bear teria buscado uma rede de apoio antes mesmo da rede ir até ele. Mas tudo bem, deixe ele cavar a própria cova. Uma pá por vez. E parece que o Ian não gosta da Nicky romanticamente, talvez, mas a preocupação dele também parece genuína. Essas duas coisas coexistem. E imagino que esse gostar da Nicky é o que faz ele ver a situação através de outra lente.
Enquanto a Sarah, que gosta do Bear, enxerga a relação deles através de uma lente que só mostra o Bear, o Ian enxerga as discrepâncias entre o Bear e a Nicky. Todas as coisas que não batem, que no caso totaliza algo como 99,99999% de tudo. Ele diz: Ah, meio que parece que a Nick tá passando por alguma coisa e meio que parece que você tá tirando vantagem da situação. E eu não sei como é a relação de homens no privado, mas já ouvi coisas Horrorosas, como histórias de homens que serviram ao exército e presenciaram falas terríveis contra mulheres.
Me parece que você, como homem, precisa de ter um caráter, uma certa coragem, digamos assim, para ir contra outro homem quando vocês estão sozinhos. O Ian falou em benefício da Nicky quando o Bear insistiu que não tinha nada errado. Ele não desistiu de dar a opinião dele, mesmo com o Bear ficando irritado, porque essa situação suspeita com a Nicky era mais importante que manter essa amizade e fingir que tá tudo bem. Pelo menos foi o que me pareceu.
Então ele sugere que o Bear vá à festa dele sem a Nicky e que seria uma noite dos meninos. Ok, ótimo. E o Bear aceita. Não só porque ele quer provar que tá tudo bem, mas porque estar em uma festa é um indício de popularidade e ele não quer cortar essas coisas da vida dele. Era pra Nick deixar a vida social dele melhor e não pior. E vemos ele chegar em casa e praticar dizer: Nick, eu tô muito chateado. Você não pode cozinhar o gato.
Se esse é um relacionamento com uma pessoa que tá literalmente bem, Deus me livre desse tipo de relacionamento saudável. Escutamos a música bizarra do One Wish Willow, que ainda tá na bolsa dele, e Bear, entre uma noite digna de atividade paranormal, um sanduíche de gato e o confronto do Ian, decide ligar para o atendimento ao cliente. Eu pesquisei sobre o número que ele liga e acabei encontrando um site do One Wish Willow, onewishwillow.com, feito pela Focus Features, que ficou inclusive uma gracinha, só para vocês saberem, caso vocês queiram dar uma olhada.
Mas enfim, se alguém em sua extrema ingenuidade ainda achava que existia uma boa pessoa no Agora você não pode negar que ele sabia do desejo e que ele é extremamente egoísta. Ele pergunta se pode alterar um desejo. Alterar. Foda-se, com perdão da palavra, o que a Nick quer. O que importa é o Bear, o desejo do Bear. Prazer do Bear. E o atendente responde: Você gostaria de cancelar o seu pedido? E o Bear insiste na mesma escolha descarada, desumana.
Ele corre para falar, ele mal toma fôlego e diz: Não, não, não, não, não! Porque ai dele se essa mulher voltar a ter autonomia sobre sobre o próprio corpo, sobre as próprias escolhas. Ai dele se ele perdeu o brinquedo que ele ganhou, por mais assustador que ele seja agora. Porque pra ele, ele ainda tá ganhando. Ele ainda tem os benefícios sociais e pessoais de ter a Nick com ele. Ele ainda começa dizendo: não, tá ok manter o... eu só quero saber se eu posso, tipo...
Alterar um pouco. Ele confirma e o atendente diz: sinto muito, a gente não faz isso. E eu posso estar errada, mas talvez isso tenha sido um teste. E se o Bear tivesse aceitado cancelar de primeira, o cara teria dado uma solução para ele, porque o Bear claramente diz alterar. E o atendente pergunta: cancelar? Como se ele tivesse dando a oportunidade. Ele volta atrás e pede para cancelar, como se ele tivesse falando de um plano de telefone.
É, é de um absurdo. E ele escuta que isso não é possível e que ele não pode fazer nada sobre. Então Bear responde: então ela tá só? Fudida para sempre. E para uma pessoa desavisada parece até que ele tá preocupado com ela, mas não. Ela tá fodida para ele, estragada para ele, impossível de conviver para ele. Quando ele tem a chance de conversar diretamente com a Nicky, ele escutou os gritos de sofrimento dela E ele não quer encarar esse desconforto.
Tadinho dele, é muito difícil, ele não quer ser responsável. Então ele desliga o telefone. Inclusive, o atendente dessa conversa é o próprio Curry, o diretor do filme, que eu acho que atuou muito bem essa energia de um tanto onisciente, de quem já viu de tudo e nada importa. Fica o fun fact pra vocês. Em seguida, o Bear abre a porta de casa pra ver a Nick vomitada com ração de gato. Provavelmente era o que ela tinha ao alcance dela pra comer sem sair da posição em que ela estava.
E ao mesmo tempo é uma referência pra Sandy, que também tinha grãos de ração por perto quando o Bear encontra ela morta e que também sofreu pela negligência dele. Chocado com a cena, o Barry espera ela entrar no banho e aí ele menciona que foi convidado para a festa do Ian. Na hora, o chuveiro desliga. Então eu pensei, tem outros momentos também, óbvio, mas nessa hora eu pensei, esse filme deve ser um enorme gatilho para quem esteve em um relacionamento abusivo.
Porque ele tava claramente com medo de mencionar o convite. Então eu imaginei outra pessoa nessa situação reunindo coragem para mencionar algo totalmente normal e sentindo o comportamento da namorada ou namorado mudar imediatamente. Deve ser horrível viver pessoalmente algo assim, traumatizante sem dúvida. Então ela grita e chora, toda aquela coisa, e é aterrorizante, mas Quando o Bear chega com ela na festa e o Ian pergunta se ela fez ele se sentir culpado, ele diz que não.
Não só porque ele sabe que a culpa é dele, mas porque a imagem dele é mais importante. E agora que ele parece um cara mais legal por namorar ela, é pior ainda. Ele não quer perder esse crédito. Ela está nas mãos de uma das piores pessoas possíveis. Um homem omisso com baixa autoestima. A roupa que a Nick escolhe para festa parece muito desconfortável, tão apertada, sabe? E parece ser uma roupa que se encaixa no meio gay, numa tentativa de ser atraente para o Bear, mas claramente fora do estilo dela.
No início do filme ela tá usando roupas mais largas, ela passa a sensação de prezar mais pelo conforto. Depois eu vi a própria figurinista explicando que foi essa mesma ideia, principalmente o short curto. Um colega comentou com ela que achava sexy mulheres usarem esse tipo de short e ela teve a ideia de fazer a roupa nesse estilo. Outra coisa interessante, mas que eu não vi ela comentar, É que o Bear usa um colete que lembra aquele estilo caçador, enquanto que a blusa da Nicki tem estampa animal de zebra.
Ele o caçador e ela a caça. Chegamos na cena do jogo e, na vez da Nicki, ela levanta e lê um trecho do livro que ela diz que está escrevendo. E claro que a história total Cersei e Jaime Lannister com uma temperada de violência deixa todo mundo desconfortável. Menos ela, que não percebe a insanidade da coisa. Mas a Nicky real sabe muito bem o que ela fez. O que me parece é que a Nicky real tava trabalhando em um texto e a Nicky do desejo continuou escrevendo para agradar o Bear, mas a real sai de novo por aquela fresta e, assim como nas Polaroids do lanche dele, Ela conta como se sente.
Ela lê o seguinte: eu sabia que ele tava olhando para o meu peito. Ou seja, ela sabia que ele gostava dela. Eu sou mais do que a sua esposa, eu sou sua irmã. Ou seja, ela não é o par romântico dele, porque, como o Bear fica sabendo, ela vê ele como um irmão mais novo. Eu sabia que ele não deixaria esse lugar. Ele cederia e escolheria estar dentro de mim, como fizera muitas noites antes. Que traduz para: sempre que o Bear via a Nicky real parecer assustada, ou todas as vezes que ele percebia que tinha algo errado, ele agia como se se sentisse culpado.
Mas a Nicky real sabe que no fim ele vai colocar o prazer dele em primeiro lugar. E depois de uma ameaça, provavelmente da Nick do desejo, ela termina com: Hensel é a minha alma, um amor que apenas o galho de uma árvore de salgueiro poderia conjurar. A Nick real diz que é como se o Bear tivesse tomado o lugar da alma dela e que só o anuexuelo poderia fazer ela estar sob o controle do Bear. Se passando por um romance. Bear, o homem que ela via como um irmão.
Então é a vez do Bear jogar. Beije a pessoa à sua esquerda. E Nick vira o emoji que tem a boquinha mais triste do teclado. E bastava aquilo, só aquilo, meio segundo daquilo, pra eu sair da minha cadeira se eu fosse a Sara. Mas eu sou uma pessoa sensata e a Sara, está confirmado, não tem um pingo de sensatez na cabeça dela. Bem, não tinha. A mulher acabou de ler uma criação tenebrosa da cabeça dela que mistura incesto, assassinato e uma declaração de amor ao Bear.
Ela levanta fazendo aquela cara e você fica ali de boca aberta uma eternidade ao invés de levantar e sair logo? A Nick ainda anda no ritmo dela, chega nas costas da Sarah e fica em pé atrás dela por 9 longos segundos. E ela ainda assim não levanta. A mulher claramente nada contente com o jogo, atrás de você, fora do seu campo de visão, e você nem olha para trás? Existe gente para tudo. Então a Niki pega a cadeira da Sara ao mesmo tempo que entra a trilha, e eu sinto os meus órgãos em queda livre, como se eu tivesse passado por uma lombada.
E a Niki arrasta a cadeira para trás e espera o beijo do Bear. Era aí que a Sara tinha de ter ido para casa, feito as malas, e saído da cidade por tempo indeterminado. Ela ia passar na faculdade, já ia ter a mala pronta para se mudar de novo e estudar o que ama e ser feliz. Mas de novo ela não foi sensata. A Niki Real vem à frente, corre para longe do Bear e diz com todas as letras: Não sou eu, não sou eu, não sou eu! E bate a garrafa quebrada contra o próprio rosto.
Mas não parece que com a intenção de causar ferimento mortal, e sim com a intenção de acordar, de sair desse transe através da dor. Mas logo em seguida ela já é anique do desejo de novo, o que é desesperador. Se aquilo não traz ela de volta, Então qual saída resta? E todo mundo tá justamente chocado e falando para o Bear levar ela para o hospital, enquanto o Bear olha para ela como se estivesse envergonhado porque agora ela agiu estranho na frente de outras pessoas.
Já no hospital, a enfermeira se recusa a levar a Nicky para tratar uma complicado, porque sem dúvida ela negou ajuda e a pessoa não pode ser tratada contra a própria vontade, o que é muito irônico dado o contexto da situação. E o Bear não diria que ela não tá mentalmente bem e que precisa de ajuda. Imagina admitir publicamente que viveu uma farsa, que a Nick não tava mentalmente saudável quando, entre aspas, escolheu ficar com ele.
Em casa, o Bear confirma a preocupação com a imagem dele quando pergunta por que ela fez aquilo, se referindo não só ao machucado, mas a toda a cena. Ele diz, você tá assustando todo mundo. De novo, é sobre o que os outros vão pensar e não sobre o bem-estar dela. Mesmo quando ele encontrou ela em casa naquela situação extremamente preocupante, em pé no mesmo lugar por mais de 8 horas. Ele não pergunta o que aconteceu ou como ela tá se sentindo, porque daquela vez não tinha ninguém olhando, não tinha ninguém para julgar o caráter dele além dele mesmo.
Até que ele perde o controle e diz: tudo tava normal, tudo tava bom para ele. E continua com: olha, você é tão bonita, e você era Você é normal, mas isso não... Isso não tá ok, Nick. Ela é tão bonita e normal. E era isso que ele queria. O status de namorar uma mulher bonita e normal. Porque ele mesmo exala essa energia de quem tá desconfortável na própria pele. E ter a mulher bonita e normal ao seu lado é uma validação social pra ele.
Ele não sabia e nem se importava com o que as palavras dele implicariam na prática, que seria uma história de amor, mas jamais um romance. É pouco depois disso que ele finalmente diz que o amor dela não é real. Ah, não me diga! Mas ele não tá triste pelo sofrimento dela, ele tá chateado porque ele não recebeu o que queria. Eu sei que é repetitivo, mas é tudo sobre ele, ele, ele. Corta para ela dizendo que ama ele em toda a realidade.
Em seguida, ela anda e faz aquele andar reverso demoníaco que gruda na sua cabeça. E quem pode ser essa senão a Nicky real, tendo uma reação visceral ao que ela foi obrigada a dizer? Até porque a essa altura ela sente o contrário de amor pelo Bear. Ela quer estar o mais longe possível dele. Sempre que a Nicky real vem à tona, a reação dela é de se afastar dele imediatamente. Parece que ela fala ao contrário também, mas eu gravei a fala e reverti e não soa com nada inteligível.
Então eu pesquisei sobre e aparentemente ela fala normal. Parece que de acordo com o script ela deveria falar Rail me, bear. Mas no áudio soa como rail me, rail my guts, que é uma expressão grosseira sobre sexo agressivo. Ou seja, ela tá tentando distrair o bear com o que ela sabe que tem valor para ele. Depois, ao mesmo tempo que ela se acalma e diz que nunca machucaria ele, o corpo dela faz o contrário, ela avança por um segundo como se quisesse correr na direção dele.
De novo a Nicky real traindo as palavras da Nicky do desejo, mostrando a revolta dela. A última coisa que ela diz é: você só precisa abandonar tudo o que uma vez você foi, que é não só o que o Bear impôs a ela, Mas também o que agora a Nicky real começa a ver como saída desse pesadelo. Por favor, por favor, por favor, por favor. Como qualquer pessoa normal, a Sara manda mensagem pro Bear às 2:40 da manhã e diz que tá esperando ele no parque.
Quem vê até pensa que ela é a pessoa perigosa, carro parado no meio da noite, e não alguém incrivelmente sem juízo. E ela diz que se ele não for, ela vai para casa dele. Quem faz isso? Mas o Beto levanta da cama e eu tento me preparar psicologicamente, porque estamos na era da Nick violenta. Mas no lugar do medo, eu recebo vontade de chorar. Ela diz: Per, me mata, por favor. Ela tá dormindo, sou eu. E ao invés dele escutar Nicky real nessa rara oportunidade, ele contra-argumenta: Você é você, Nicky.
Ai, meu Deus, o ódio que avança pelo meu corpo é sem igual. E ela avisa: Por favor, não acorda ela. Só me mata. A Indy pronuncia de um jeito muito convincente esse só me mata. Parece aquela sensação de quando você tá sonhando, tenta falar com muita dificuldade e acaba falando na vida real. Só que no caso da Nicky, o pesadelo é a realidade. Mas o ódio mais profundo que a gente sente pelo Bear é sempre o próximo. Esse energúmeno, esse berço primitivo de malevolência, diz: o que é tão ruim sobre estar comigo?
Ai, meu Jesus amado, a mulher é o inferno na terra! Mas o que tem de tão ruim estar comigo, Nick? E ela diz: eu nunca estive com você, Bear. Só me mata, por favor. Por favor, por favor, por favor, por favor. Mas ele se afasta e dá as costas para a súplica de quem um dia o chamou de amigo. Bear entra no carro da Sara e desde agora a gente se prepara porque sabemos que a Nicky vai aparecer de alguma forma em algum momento. A Sara diz que não acha certo a Niki estar se apoiando no Bear no caso do pai falsamente morrendo.
E Bear, que cuida da namorada dele nos piores momentos, aquele que todo mundo pensa, poxa, que cara legal, ele diz, eu não me importo em estar lá para ela. E ela continua com, não, mas essa não é a sua responsabilidade, Bear. Ah, você não faz ideia do que é a responsabilidade dele. E depois ela ainda diz que ele merece alguém mais tranquila. E é interessante que agora ele sabe ter uma conversa e usar palavras. E ele responde: alguém como você?
E ela diz: bem, quero dizer, eu tava à sua esquerda. E não só durante o jogo na casa do Ian. Se vocês prestarem atenção, vão ver que a Sarah tá à esquerda do Bear em todas as cenas que ela aparece ao lado dele. Então ela diz que ele devia ter beijado ela. Ela claramente queria ter morrido mais cedo. E quando a gente começa a relaxar e ficar desavisado, a Nick quebra a janela e a gente presencia aquele material premium de pesadelo.
Aquela coisa estarrecedora, macabra, traumática. E o Bear fisicamente se encolhe pra longe da responsabilidade. Ao invés de sair do carro e fazer o possível pra segurar a Nicky, ele deixa ela agredir a Sarah de novo. E de novo. E de novo. E acho que foi a Indy que disse em uma entrevista que essa cena devia ter sido mais forte. A gente vê a Sarah morrer por causa desses impactos, mas na cena original ela ainda estava viva quando a Nicky diz que eles precisam descartar o corpo.
É profundamente perturbador. Essa cena foi ruim o suficiente, Curry. Ela não saiu da minha cabeça. Eu terminei o filme e ela continuava voltando e voltando. Eu fui assombrada por ela durante toda a noite e o dia seguinte. E agora, assistindo de novo, eu tampei com a mão toda a cena do carro pra tentar proteger um pouco da minha saúde mental. Só agora, com uma morte como consequência, ele volta à loja onde comprou a New Age Willow.
E o atendente da loja tá lá, o que parecia uma mulher no início. Ele fala do mesmo jeito que antes, veste o mesmo tipo de roupas. E parece bem feliz com o próprio desejo. Você pode ter um resultado legal. Como disse o diretor, não é o ano Exwillow que é amaldiçoado, mas o desejo do Bear. E o Bear quer transferir a responsabilidade, dizendo: como você pode vender isso? Ninguém compraria se eles soubessem. Sendo que quando ele teve todas as chances de fazer algo pela Nick, ele não fez.
Tanto é que o atendente diz: Ah, Deus, o que você fez? Porque a responsabilidade é do Bear. Então ele vai até o Ian para que ele faça o pedido que contradiga o que ele mesmo fez. Mas o Ian deseja 1 bilhão de dólares. E agora só resta a roleta russa de conversar com a Nicky, porque ele tem mais um eixo E a esperança é que ela não negue um pedido dele. Chegando em casa, ele vê que ela fez um altar para ele. Parece ter várias coisas que ele usou.
Tem até um anel que parece de noivado bem no meio de tudo. Não sei se ela comprou ou se ele guardou para ela, o que é bizarro também. Como essa possibilidade pode ter passado pela cabeça dele? Enfim. Tem um mundo de coisas no altar, mas podia ter uma vela só que eu já dava meia volta de qualquer jeito. De qualquer forma, ele chama por ela e a gente vê que na TV não tá passando um programa, mas o Bear dormindo. Pode ser uma continuação da Nick simulando um comportamento normal, como assistir a um filme, mas sempre existe a necessidade de direcionar tudo pro Bear.
Em seguida, a gente vê a Sarah exposta em uma cadeira, como um manequim bizarro que a Nick trouxe de volta pro Bear. É o extremo daquilo que ela diz: eu faço qualquer coisa por você. Já que ele parecia interessado pela Sarah, então que ele tenha a Sarah. Agora ela não é uma competição real. Mas isso é extremamente perturbador, então me pergunto se não é uma forma de puni-lo pelo desvio dele. Porque ela também diz na cena do carro que é tudo culpa dele.
Mas a Nicky aparece fumando e tatuada como a Sarah, usando o vestido dela e perguntando se agora ele gosta mais dela. Então talvez a Sarah só esteja ali porque a Nicky precisava das roupas dela e ela claramente perdeu a noção dos limites. Eventualmente o Ian entra, é morto porque ninguém pode competir pela atenção do Bear, Então ela vomita nele. E a Andy confirma que é só ácido estomacal, porque ela não tem se alimentado, já que ela não faz nada por ela mesma.
Pouco depois, o Bear se tranca no banheiro e pula direto pra próxima opção: terminar a própria vida. Mas não pelo bem da Nicky, não pro desejo acabar pra Nicky, e sim pra essa tortura acabar pra ele. Ele chega à conclusão de que nem vale a pena tentar que a Nick use um desejo, porque ele já não quer lidar com as consequências. Ele não quer encarar a Nick real, nem os corpos da Sarah e do Ian na casa dele. Ele escolhe mais uma vez a solução que desconsidera a Nick e como ela vai lidar com tudo isso depois que ela voltar a si.
Ele contempla a decisão feita com uma trilha que soa a finalização, até que a trilha corta e ele volta a ser o Bear de sempre, tentando colocar para fora o que ele tomou, mas sem sucesso. Ao mesmo tempo, a gente escuta ao fundo o One Wish Willow sendo aberto e a gente sabe o que a Nicki vai desejar. Com uma trilha romântica ao fundo, Ele sai do banheiro, os olhares deles se encontram e eles sorriem e se beijam. E eu fico: Nãooooo!
Porém, lá no fundo, torcendo pros remédios fazerem efeito, porque a Nick precisa ser liberta. E imagina que loucura os dois presos nesse loop. Acho que morreriam em 3 dias por inanição, um querendo viver pelo outro. Como o meme do gato amarrado ao pão com manteiga, girando eternamente. Finalmente, o Bear colapsa e até o choro dela parece performático. Mas é assim que o desejo funciona, até, sei lá, a última atividade cerebral ou o último batimento cardíaco.
E quando parece que a Nicky vai usar o revólver nela mesma, ela volta a si. E agora, ao invés de correr do Bear, ela empurra ele pro chão. E todos voltamos a respirar, aliviados. Ironicamente, o Curry tinha planejado que ela morresse no fim, mas gravaram a cena dela sobrevivendo e ele achou tão bom que a atuação da Angie reescreveu o final de Obsessão e nos deu uma final girl. Mas a essa altura, acordando e vendo todos os terrores que esperam por ela nessa casa, será que o melhor ainda é estar viva?
Como você se recupera mentalmente depois disso? Então a câmera gira 180 graus, dá Nick no sofá, Albert no chão, a TV de ponta-cabeça, como que representando as personalidades invertidas. E no fim, quem paga pela obsessão masculina é a mulher. Eu sou a Rai e esse foi o Sétimo Andar.