Episódios de Isto Dá que Pensar

O hantavírus e a solidariedade de Richard Rorty

08 de maio de 202622min
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No episódio desta semana analisamos o surto de hantavírus, no navio MV Hondius, com o olhar do filósofo norte-americano Richard Rorty. Como é que se cruzam o medo e a solidariedade?

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Participantes neste episódio2
A

Ana Sofia Freitas

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D

David Erlis

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Assuntos3
  • Hantavírus e solidariedadeSurto de hantavírus no navio cruzeiro MV Hondius · Medo e negação de pandemias · Richard Rorty e a solidariedade · Solidariedade baseada na compaixão pela dor · Crítica ao discurso de divisão de classes e cruzeiros de luxo
  • 50 episódios do podcastCelebração do episódio 50 · Top 3 episódios mais ouvidos no Spotify · As férias e as dicas de Byung-Chul Han · Caso dos anjos contra Joana Marques e liberdade de expressão · Donald Trump na Casa Branca
  • Filosofia de PlataoNeopragmatismo e relativismo contextual · Solidariedade como reconhecimento de semelhanças na dor e humilhação · Crítica à concepção iluminista e metafísica da solidariedade · O papel dos sentimentos na moralidade versus racionalismo (Hume vs. Kant) · Cultura de direitos humanos e o papel do jornalismo em despertar sentimentos
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Bem-vindos a mais um episódio do Isto dá-que-pensar. Estou, como sempre, com o David Erlis. Olá, David. Olá, Ana Sofia Freitas. Esta semana falamos do surto de antivírus no navio cruzeiro MV Ondios. Já lá vamos, mas antes, David, temos que celebrar.

Temos que celebrar a nação de Freitas. Este é o nosso episódio número 50. Portanto, é nada mais nada menos do que o nosso quinquagésimo episódio. E temos aqui... Oba, oba. Eu gosto dessa expressão de português do Brasil. Oba, oba. Pois é, de português do Brasil. Como é que temos depois de 50 episódios? Sinto-me bem. Sinto-me bem. E como combinámos, David, cada um de nós tem uma surpresa. Eu tenho uma surpresa para ti.

E eu tenho uma surpresa para ti. Nós combinámos que podiam ser surpresas de qualquer caráter, informativo, um objeto, um símbolo, uma frase. A minha surpresa é muito simbólica e simples, mas relevante. Eu acho que já sei o que é. Eu pedi os três mais ouvidos no Spotify. Uou! Vamos saber quais são os três episódios mais ouvidos. Sim, vamos.

É que nós, os ouvintes, devem saber. Nós vamos fazendo isto com muito carinho pelo que estamos a fazer mas não monitorizamos as estatísticas mesmo para nos sentir livres e não queremos saber das estatísticas, não perguntamos a ninguém. Em relação à atualidade, nem sequer há outra maneira de fazer. Sim, queremos sentir-nos livres. É o que está a acontecer no país e no mundo. Acho que também podíamos acabar por condicionar... Claro.

Se soubéssemos ao longo do tempo, agora vamos saber, mas se soubéssemos ao longo do tempo, quase em tempo real, quais são os temas que geram mais buzz ou a duração que gera mais audiência, nós se calhar nos condicionávamos por isso e nunca foi o objetivo do programa. Então, top 3, vamos começar por... Espera bem, vamos fazer um suspense. Eu vou fazer aqui um rufo no próprio microfone. No próprio microfone. Ah, pensava que ias fazer assim com o livro. Top, em terceiro lugar temos... Calma, calma, estou a fazer o rufo.

As férias e as dicas de Byung-Chul Han. Ok. Não esperava. Nunca na minha vida achei que esse episódio... É que esse episódio nem foi muito polémico. Não agarrámos num grande tema. As férias são importantes para as pessoas e, portanto, estas dicas...

Claro, é interessante que eu acho que talvez esse episódio tenha sido mais ouvido porque, por um lado, as férias ao mesmo tempo que são muito valorizadas, sobretudo no contemporâneo, em que os trabalhos estão muito exigentes, em que temos muitas felicitações, muitas notificações, muitos e-mails.

mas ao mesmo tempo lança ao indivíduo um repto de responsabilidade, que é, olha, este tempo é teu, como é que o vais planear? Talvez também tenha a ver com a popularidade crescente também do filósofo Byung-Chul Han. Número 2. Calma, Rufo. Acho que isso não é necessário. Vai lá, deixa-me fazer um Rufo no microfone. Não é o episódio número 50. Isso não fica com a sonoplastia, não é grande coisa com este vídeo. Mas vamos tentar outra vez. Achas que isto vai ouvir? Estou mais calmo, sim.

O episódio em que falámos do caso dos anjos contra Joana Marques e a liberdade de expressão. Lembras-te bem desse caso? Lembro-me e esse surpreende-me menos. Esse eu aguardaria que fosse um dos três mais ouvidos porque o caso teve muito buzz. O próprio caso teve grande impacto. A Joana Marques tornou-se nos últimos anos uma figura incontornável. Adoro esta expressão, uma figura incontornável.

Mas é, de facto, uma figura incontornável do nosso meio humorístico. Esse caso tornou-se polémico e foi um caso que trouxe ao espaço mediático muitos debates sobre os limites da liberdade de expressão, nomeadamente do Ricardo Araújo Pereira, para além de também, quer dizer, o melhor dos nossos humoristas, um pensador muito pertinente e muito perspicaz sobre diversos temas, nomeadamente sobre a liberdade de expressão.

e esse surpreende-me menos, curiosamente. E, na verdade, nós fizemos uma série de episódios sobre liberdade de expressão. Fizemos dois. Sim, mas fizemos dois. Exatamente, fizemos dois. E eu penso que depois ainda falámos de Karl Popper e do Paradoxo da Tolerância. Portanto, no fundo, foi também um tema recorrente aqui da nossa aventura. E em primeiro lugar? Rufo. Vou fazer mais devagarinho.

Donald Trump na Casa Branca. Donald Trump é um grande protagonista dos nossos programas, porque está a marcar a atualidade sempre, ou quase sempre. E eu acho que esse episódio há de ter sido dos primórdios, portanto eu acho que aí se calhar misturaram-se dois impactos, o próprio impacto, ou seja, no fundo quase dois inícios, por assim dizer.

o início do mandato de Trump na Casa Branca coincidindo com o início do podcast, porque tenho ideia que esse episódio é dos nossos primórdios e, portanto, é interessante. Foi aqui uma convergência de inícios. O início do nosso podcast, isto dá a pensar, e o início do mandato de Trump na Casa Branca.

Muito bem, e agora estás tu preparada para a surpresa que eu tenho para ti? Estou completamente preparada. Tu deves estar na expectativa, até porque já me viste entrar com este saco. Sim. Um saco que diz desafia-te a viver. Ah, não sabia disso. Ok, não, ok. Oh, David, sempre a surpreender-me.

É ótimo. Acabaste de ter uma consciência que isto é claramente um saco de uma marca que não vamos dizer para não fazer product placement. Desafia-te a viver. Eu acho que considerando a quantidade de trabalho que tu e eu temos é um bom lema. Eu ofereço-te um exemplar do meu novo livro. Muito obrigada.

Para viver uma vida quase boa. Eu já te disse que adoro esta expressão, não é? Uma vida quase boa. É verdade, nós já falámos... Nem tem uma vida completamente boa. Ninguém. Já falámos sobre o título do livro. Espero que gostes. São temas do cotidiano. Agora sou eu que vou fazer aqui. Este é o livro do David, o novo livro do David. É verdade. E podem procurar na livraria mais próxima de vós. 21 lições de filosofia para viver uma vida quase boa. Muito bem.

Vamos então avançar com a nossa atualidade. Muito obrigada, David, mais uma vez. São 50 episódios. E quero aproveitar e, por favor... Mas não vamos entrar aqui no... Não, não, eu só quero dizer uma coisa. Não, quero dizer uma coisa. Quero dizer uma coisa. E eu confio maximamente na tua edição dos episódios. Nunca dou indicações para nada. Mas desta vez vou pedir-te...

que não possas editar isto que é em muitos sítios onde chego uma palestra sim, mas só para dizer isto esta parte não podes mesmo tirar eu vou a muitos sítios aliás, não vou a muitos sítios mas quando vou a sítios no âmbito da minha vida de escritor, de palestrante muita malta ouvo isto que dá que pensar ou seja

Muita malta ouve com muito carinho, ouve com muita periodicidade, ouve com muita fidelidade. Eu acho que, de certo modo, este podcast não é um fenómeno de massas, mas quem nos ouve acompanha-nos... Nem nunca foi essa a nossa intenção. E quem nos ouve acompanha-nos com atenção. Então, eu queria também deixar duas palavras.

uma palavra especial a todos os nossos ouvintes mas também uma palavra muito especial a ti, porque a verdade é que no podcast a minha voz acaba por ouvir-se mais tu estás mais na tarefa e tu estás na tarefa socrática da pergunta mas esta ideia foi tua a ideia do nome do podcast

Foi teu. Tu é que me convidaste e me deste a esta oportunidade. E, portanto, para além de agradecer aos ouvintes, queria agradecer-te a ti e também a paciência que tens para comigo e para com as minhas idiosincrasias. Obrigada. Muito obrigada também a ti, David.

E vamos à atualidade, então. Falamos de antavírus, um surto no navio cruzeiro MV Ondios, que saiu da Argentina dia 20 de março e que deveria ter concluído a viagem dia 4 de maio em Cabo Verde. A coisa não correu bem. A Organização Mundial de Saúde garante que este não é o início de uma nova pandemia e que a situação não se pode comparar à Covid-19. Apesar destas garantias, há naturalmente medo da vida.

Há medo, há um medo que é indissociável da recente pandemia. É interessante que quando algo é negado, mesmo que a negação seja sincera e se venha a verificar, portanto mesmo que de modo sincero os especialistas não achem que estamos perto de uma nova pandemia e mesmo que de facto não se venha a verificar uma nova pandemia.

É sempre interessante analisar o fenómeno da negação, porque nós só verbalizamos negações daquilo que está a precisar de ser negado. Quando algo não vai acontecer, e é óbvio que não vai acontecer, nós acabamos por não o negar porque a rejeição disso é óbvia, é evidente, não precisa de ser dita. É sempre interessante quando, num dado contexto social ou mediático, algo é negado.

Porque quando algo é negado, mesmo que essa negação seja sincera e venha a ser verdadeira, significa que há uma mínima probabilidade de... Porque se fosse completamente impossível, nem sequer nos preocuparíamos em negá-lo. Mas aqui, quando falas em algo negado, falas concretamente em quem? Da possibilidade da nova pandemia. Obviamente que eu confio nos especialistas. A Organização Mundial da Saúde, garante-se. Sim, que fique claro. Eu confio nos especialistas. Uma das coisas que me incomoda...

Mas na Covid houve também pessoas e especialistas a dizerem que não era uma pandemia e depois aconteceu. Claro, porque os especialistas enganam-se, ninguém é infalível. Há razões para haver desconfiança, portanto há medo. Claro, claro, o medo é fundado. Era precisamente para aí que eu queria ir, sem discursos alarmistas, que é um dos perigos da comunicação atual fora dos meios de comunicação, ou seja...

as redes sociais, as fake news, os deepfakes, os vídeos manipulados, é o alarmismo e uma sensação de pânico constante. Isso depois também ajudam os meios de comunicação, sem querer acabam por ajudar, com as notícias 24 horas, os canais noticiários 24 horas, que nunca nos permitem desligar.

E o digital está sempre. E a vida era mais serena quando tínhamos um noticiário à uma, outro noticiário... E não tínhamos internet. Exatamente, outro noticiário às oito, não havia canais de notícias sempre a dar notícias. Mas isto para dizer o quê? É óbvio que há medo. Confio nos especialistas na sua rejeição de que venha a haver uma pandemia, mas tens razão, eles são falíveis. E o que eu queria sublinhar é que só negamos, só nos preocupamos em rejeitar publicamente.

aquilo que tem uma mínima probabilidade de existir, porque se a probabilidade fosse zero, nós não nos preocuparíamos em negá-lo. Portanto, é natural que o medo exista. E o medo, frequentemente situações de medo, conduzem à perda de solidariedade. E eu hoje queria pensar um pouco, ir do medo para a solidariedade e pensar brevemente esta noção de solidariedade. E trazes um amigo, como sempre.

Trago um amigo e curiosamente... Um amigo novo. Trago um amigo, olha, e trago um amigo especial. Curiosamente, ao escolhê-lo, não pensei nisto, mas é interessante o inconsciente. Os psicanalistas, como já aqui disse, gostam muito do inconsciente. Eu não sou psicanalista, mas aprecio essa corrente. Trouxe um amigo muito especial, que é o Richard Horty, porque o Richard Horty, filósofo norte-americano contemporâneo, morreu em 2007.

foi o filósofo sobre o qual eu fiz o meu mestrado em filosofia entretanto afastei-me um pouco hoje em dia posiciono-me de forma mais objetivista ele é um pouco relativista da corrente neopragmatista portanto um homem que acha que as verdades objetivas não existem a verdade está sempre subsumida num dado contexto social num dado contexto linguístico então Obrigado.

E o nome do meu primeiro animal de estimação, do meu querido gato que tive entre 2015 e a sua partida em 2023, era Rorty. Ao meu gato eu dou-lhe o nome de Rorty. E portanto trago Richard Rorty. E tens aí um grande livro à frente.

curiosamente isto que tenho aqui não é um livro do Richard Horty é uma revista cultura, revista de história, teoria das ideias onde eu tive a oportunidade de publicar o meu primeiro artigo académico em 2013 precisamente um artigo sobre Richard Horty, aquilo que eu vou partilhar baseia-se noutro livro dele, portanto olha se tu fizeste no início agora aqui também vai

aqui da revista. Um clássico. Exatamente, um clássico do nosso podcast. Aquilo que vou partilhar sobre ele está num livro que é um dos seus livros mais conhecidos Contingência, Ironia e Solidariedade e precisamente... Mas o que é que nos diz ele então sobre a solidariedade?

Ora, curiosamente, Richard Horty relaciona a dor com a solidariedade, ou seja, o sofrimento, e nós vemos como os passageiros deste navio estão a sofrer, vemos até alguns vídeos... Uma espécie de quarentena. Sim, com os seus depoimentos emocionados na internet. E, curiosamente, Richard Horty vai relacionar a dor, o sofrimento com a solidariedade.

Ele diz que, na sua perspetiva, palavras de Horty, a solidariedade, de acordo com Richard Horty, não é pensada por ele, e agora palavras dele, como sendo o reconhecimento de um eu central da essência humana em todos os seres humanos.

Ou seja, Richard Horty não pensa a solidariedade a partir de uma certa essência do humano, uma essência positiva do humano. Por exemplo, temos todos uma capacidade chamada razão e por termos essa capacidade chamada razão, todos merecemos a solidariedade. Essa seria uma maneira iluminista.

de ver a solidariedade de uma maneira que Richard Horty apelidaria de metafísica e que não é dele. Ele diz o seguinte, a solidariedade deve ser antes pensada como sendo a capacidade de ver cada vez mais diferenças tradicionais de tribo, religião, raça, costumes, etc. como não importantes.

em comparação com semelhanças no que respeita à dor e à humilhação. Ou seja, Richard Horty, e esta é a expressão de um autor curiosamente argentino que tem um livro sobre Richard Horty, pensa no seguinte, uma comunidade na dor como base da comunidade moral. Ou seja, a solidariedade...

tem como base a compaixão com a dor e com o sofrimento do outro. Esta compaixão, então, vem de percebermos que o outro está numa situação de sofrimento e, por reconhecimento, percebermos que há algo de comum, apesar de não sabermos dizer bem o que é, entre o nosso sofrimento e o sofrimento do outro.

Olhando então para este caso, para os passageiros deste navio, como é que podemos relacionar com esta passagem que acabaste de ler?

Pode haver uma tendência para, a partir do medo, negarmos a solidariedade, ou seja, para pensarmos nestas pessoas que estão num navio como um radical outro, ou seja, estão num navio, estão lá fechadas, estão longe e não os vamos deixar entrar de qualquer modo em lado nenhum, porque já estão separados.

à partida nesta situação, ou seja, a infecção... Tem uma condição própria? Sim, tem uma condição separada à partida porque a infecção ocorre num navio e, portanto, há até a ideia de que nem estamos a fazer nada de mal se não lhes dermos a devida assistência, pode haver esta ideia, porque a situação de separação, no fundo, já existe, ou seja...

Eu não estou a impedir ninguém de atracar, eu estou apenas a manter uma situação que já existe, que é a viagem de barco. Ou seja, ao nada a fazer, já estou a promover a separação. Esse pode ser um raciocínio a que o medo conduza. De facto, houve alguns países...

que penso que não os aceitaram. Também é compreensível porque, pelo que percebi, não eram países dos mais desenvolvidos, eu não sei se hoje em dia se pode dizer países em desenvolvimento ou se isso já faz parte da linguagem proibida pelo politicamente correto, mas são países que não são dos países mais desenvolvidos do mundo e que podem não ter as infraestruturas que garantam o devido isolamento.

E depois ainda há aqui a hipótese de, como estão num cruzeiro, isto até é merecido, pode haver aqui também a ideia da classe social, de um discurso de divisão entre classes. Estamos a falar de um cruzeiro de luxo. Sim, é isso, eles estão num cruzeiro de luxo e infetaram-se, eles agora que se amanhem porque não é dever nosso cuidar de outro ser humano, ainda para mais um ser humano burguês que andou por aí a viajar.

A meu ver, o que Richard Horty nos vem dizer é precisamente o oposto. É, no fundo, o que Richard Horty aqui apresenta de forma interessante é uma visão pós-moderna do mandamento judaico-cristão de amar o teu próximo como o ti mesmo. Só que aqui o reto de Richard Horty é fazê-lo não a partir de uma concepção racionalista do humano, não a partir de uma concepção daquela essência que é em comum, mas a partir da ideia de compaixão a partir do sofrimento.

Isso parece valorizar mais, David, os sentimentos do que a razão. É exatamente isso e é muito bem visto da tua parte. Richard Horty precisamente pertence a uma tradição de que temos, por exemplo, antecedentes em David Hume e do qual um grande adversário seria Kant, que é o papel dos sentimentos na moralidade. Já falámos aqui. É verdade, David Hume. Também já falámos de David Hume.

Não estou absolutamente certo. Sabes que eu começo a sentir necessidade de ter uma grelha, porque já temos tantos episódios é que é bom, que já não me lembro de cor de que filósofos é que já falámos ou não e às vezes tenho de percorrer a feed do próprio podcast e então se calhar está-se a justificar fazer uma grelha no Excel. Eu, David Ciúme, não tenho a certeza, mas canto, claro que sim. E repara, é uma interessante questão que levantas porque o papel dos sentimentos na moralidade é algo que divide os filósofos.

Para uma tradição mais racionalista da ética, de que o maior representante seria Kant, os sentimentos não têm um papel relevante no agir ético. Pelo contrário, por exemplo, para Richard Horty, os sentimentos têm um papel relevante no agir ético. E diz Richard Horty o seguinte... Olha, porque isto é uma frase polémica em termos...

epistémicos. Diz, a emergência da cultura de direitos humanos, emergência aqui no sentido de surgimento, o surgimento da cultura de direitos humanos parece não dever nada a um conhecimento moral mais elevado e dever tudo ao facto de ouvirmos histórias tristes que despertam os nossos sentimentos.

Então nós temos aqui a defesa de Richard Horty, que é polémica. Eu já estive em perfeita convergência com Richard Horty, tive nos últimos anos uma viragem mais objetivista. Ele diz que a afirmação global dos direitos humanos não tem a ver com uma questão de epistemologia moral, ou seja, de maior conhecimento moral, mas sim com uma questão puramente prática, que é ouvirmos mais histórias uns dos outros. E aí, por exemplo, há um grande elogio ao jornalismo.

O jornalista, quando nos mostra como é que se está a sofrer em Gaza, como é que se está a sofrer no Sudão, ou dentro deste navio, ou como é que sofreram no 7 de outubro, para sublinhar sempre as duas partes dos tristes acontecimentos do Médio Oriente.

os civis e israelitas mortos, ou como é que se sofre no Sudão, ou como é que se sofre no Iémen, ou como sofrem as mulheres no Irão, de cada vez que o jornalista nos diz e nos mostra como é que alguém está a sofrer,

de acordo com Richard Horty, está a fazer muito mais pela empatia e compaixão humana do que um grande teórico moral. Porque para Richard Horty a solidariedade advém precisamente dessa compaixão com o outro que resulta de percebermos que há algo de comum entre o nosso sofrimento e o sofrimento do outro. Isso parece-me fazer muito sentido. E é algo que se cruza, por exemplo, com a tua profissão.

Vamos terminar, David, hoje sem a frase habitual. Hoje quero apenas dizer que são 50 episódios a pensar a filosofia a partir da atualidade. Ou a atualidade a partir da filosofia. Isto dá que pensar. Dá que pensar.

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