Diário Filosófico #01 - Onde você está quando não está presente?
Você já chegou ao fim de uma conversa e percebeu que não ouviu parte do que a outra pessoa disse?
O corpo permaneceu ali. A atenção partiu.
William James escreveu: “Minha experiência é aquilo a que aceito prestar atenção.” Nem sempre escolhemos aquilo que captura nossa mente, mas podemos perceber quando nos afastamos — e aprender a regressar.
Estar presente não é manter uma concentração perfeita. Talvez seja apenas isto: notar que partimos e voltar para a conversa, para a leitura, para a pessoa diante de nós.
No primeiro episódio da série Diário Filosófico, investigamos uma pergunta simples e desconcertante:
Onde você está quando não está presente?
Ouça o novo episódio da Odisseia Filosófica e pense conosco.
William James
- Presenca no Presente· SociedadeOnde estamos quando não estamos presentes·William James·Experiência e atenção·Notar o afastamento e o retorno
- A Natureza da AtençãoAtenção como luz·Formação da experiência·Impacto da atenção no mundo percebido
Talvez isso já tenha acontecido com você. Alguém está contando alguma coisa, você está olhando para a pessoa, acompanha a conversa e até responde de vez em quando, mas de repente percebe que perdeu uma parte do que ela disse. Seu corpo continua ali, sua atenção Não. Talvez você estivesse pensando no que responder, talvez tenha lembrado de um problema, ou sentiu o celular vibrar e, mesmo sem olhar para a tela, começou a imaginar quem poderia ser.
Essa é uma experiência bastante comum e ela nos coloca diante de uma pergunta curiosa: onde estamos quando não estamos presentes? Normalmente, quando alguém pergunta onde estamos, respondemos com um lugar: em casa, no trabalho, no trânsito, na sala de aula. Mas estar em um lugar não significa necessariamente participar do que acontece ali. Você pode fazer uma refeição inteira e quase não sentir o gosto da comida. Pode percorrer o mesmo caminho todos os dias sem reparar nas árvores, nas casas ou nas pessoas.
Pode terminar uma página e perceber que não sabe o que acabou de ler. Nada disso significa que você está desinteressado ou incapaz de prestar atenção. A mente se desloca, ela lembra, imagina, antecipa, se preocupa. Enquanto o corpo está aqui, o pensamento pode estar revendo uma conversa de ontem ou tentando resolver um problema de amanhã. A questão não é impedir que isso aconteça, talvez seja perceber com que frequência acontece e o que deixamos de viver enquanto estamos longe.
William James, um dos autores que ajudaram a formar a psicologia moderna, escreveu uma frase muito bonita em Princípios de Psicologia: minha experiência é aquilo a que aceito prestar atenção. James não estava dizendo que escolhemos perfeitamente onde colocar atenção. Um barulho pode nos interromper, uma lembrança pode aparecer sem ser convidada, medo, o cansaço e a ansiedade também influenciam aquilo que conseguimos perceber. A atenção não obedece inteiramente à nossa vontade.
Mesmo assim, James havia percebido algo importante: há muito mais coisas ao nosso redor do que somos capazes de notar. Pense no ambiente em que você está agora ao escutar esse podcast. Provavelmente existem sons que que você só vai perceber agora porque eu os mencionei. Talvez haja uma sensação nas mãos, nos pés ou nos ombros que estava presente, mas permanecia fora da sua experiência porque você não tava prestando atenção nela.
O som já existia, a sensação também, mas só agora elas ganharam algum relevo para você. Nossa atenção faz algo parecido com uma luz: ela não cria as coisas que ilumina, Mas permite que algumas delas apareçam com mais nitidez, enquanto outras aparecem, né, permanecem lá no fundo. E isso importa porque aquilo que notamos repetidamente participa pouco a pouco da formação da nossa experiência. Se nossa atenção vive presa ao que é urgente, talvez o mundo comece a parecer uma sequência interminável de urgências.
Se ela procura sempre novidade, talvez tudo que exige demora pareça insuportável. E se passamos boa parte do dia alternando rapidamente entre mensagens, tarefas, notícias e preocupações, podemos terminar a noite com a sensação estranha: muita coisa aconteceu, mas parece que não estivemos realmente em nenhuma delas. Não se trata apenas de distração, trata-se da maneira como habitamos o tempo que temos. Estar presente, porém, não significa alcançar uma concentração perfeita.
Ninguém permanece atento o tempo inteiro. Talvez presença seja uma coisa mais modesta: perceber que partimos e conseguir voltar. Voltar para conversa, voltar para leitura, voltar para comida que está esfriando no prato, voltar para pessoa que está diante de nós. Às vezes esse retorno dura poucos segundos, Depois a mente vai embora novamente, mas talvez o exercício da presença não esteja em nunca se afastar, talvez esteja em aprender a regressar, a perceber que ela se afastou e trazê-la de volta.
Antes de encerrarmos, quero lhe propor uma experiência bem simples. Sem fechar os olhos, perceba 3 coisas ao seu redor agora que até este momento haviam passado despercebidas. Pode ser um som distante, uma mudança de luz, alguma sensação no corpo. Não é preciso interpretar nem corrigir nada, apenas notar, apenas observar. Essas coisas já estavam aí por alguns instantes, você também voltou a estar. William James nos ajuda a perceber que uma vida não é feita somente daquilo que nos acontece, ela também é feita daquilo que conseguimos notar enquanto acontece.
Talvez então a pergunta não seja apenas onde estou, talvez seja aqui estou presente agora. Bom, esse foi o primeiro episódio desse novo formato que eu tô trazendo aqui para o podcast, formato de reflexões mais curtas com algum exercício prático. Tá, com algo da filosofia ou da psicologia bem mais mastigadinho, né, modo muito mais didático e aplicável ao dia a dia, né, que possa trazer algumas gotinhas de conhecimento e alguma reflexão prática para o nosso dia.
Espero que tenham gostado. Se gostaram, comentem e E se tudo der certo, vou continuar fazendo mais episódios com menores, né, episódios menores com reflexões desse tipo, tá bom? Então até a próxima!