Episódios de gostosas também choram

[EP EXTRA] coragem, nós vamos cair! especial vertigem ao vivo

02 de julho de 202650min
0:00 / 50:56

tá sabendo que eu lancei um livro né? e não tinha jeito melhor de celebrar do que ao vivo com vocês. nesse episódio, diretamente do teatro youtube, eu respondi as perguntas da minha comunidade sobre o meu livro, vertigem!

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Participantes neste episódio9
L

Lela Brandão

HostInfluenciadora
A

Aide

Convidado
B

Bela

Convidado
F

Fernanda

ConvidadoAdvogada familista
G

Gabi

ConvidadoPersonagem infantil
I

Ingrid

Convidado
J

Jay

Convidado
R

Raquel

ConvidadoAssistente digital
V

Vicky

ConvidadoRoteirista
Assuntos6
  • O Processo de Escrita de LivrosO significado de Vertigem · A importância das perguntas sobre respostas · A dificuldade de escrever sobre a própria história · A relação entre feridas e a criação artística · O processo de escrita como um vale de lágrimas · A influência da análise no processo criativo
  • Depressão no mundo hiperconectadoO celular como membro fantasma · A sensação de ser raptado do momento presente · A ilusão dos mundos sobrepostos nas redes sociais · O impacto da hiperconectividade na escuta do corpo · A média de tempo de tela no Brasil · O ECA Digital · A recente invenção dos aplicativos
  • Ansiedade e saúde mentalA primeira crise de pânico em uma festa · O medo de enlouquecer e não conviver em sociedade · A progressão dos sintomas em diferentes ambientes · A busca por respostas fora de si mesma
  • O corpo falaA necessidade de espaço para o corpo falar · A interocepção como linguagem do corpo · A sutileza necessária para a escuta corporal
  • Entrada e saída intencional da internetA avó como a última pessoa fora do mundo online · A experiência de vida através dos olhos da avó · A existência de vida fora da loucura criada pela tecnologia
  • Criatividade e desenvolvimentoA dificuldade em se desapegar de versões passadas de si mesmo · O registro do passado como parte da identidade presente · A necessidade de semanas de escrita para entrar no fluxo criativo · A transformação de experiências em arte e comunicação
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LBLela Brandão

Oie! Ai, gente, que tudo ver vocês assim! Como é que vocês estão, meu povo? Bem? Já tem gente chorando? No branding do Gostosa também choram? Quem aqui já leu Vertigem? Ah, eu amo muito! Quem começou a ler? Boa, boa! Tá bom, tá bom. Ai, gente, eu tô muito feliz de estar aqui com vocês hoje. Estamos ao vivo Para todo o Brasil, para todo mundo, quero uma salva de uhuus! Porque eu recebi muita mensagem reclamando que queria estar aqui, não conseguiu.

Então somos privilegiadas, sim, e eu principalmente sou muito privilegiada de poder conversar com vocês, gente. Tô muito feliz e realizada com esse momento, porque como a Niki bem disse, muito obrigada inclusive, eu passei muito tempo escrevendo esse livro sozinha. Sem saber se tava uma grande palhaçada ou se ia interessar alguém, se ia tocar alguém, se ia ser de alguma importância. E eu honestamente, em vários momentos eu tava escrevendo e pensando: vai ter um momento que eu vou sentar com as minhas divas, minhas queens, minhas gostosas choronas, e eu vou poder conversar sobre tudo isso que eu tô escrevendo.

E isso me fez, me motivou muito a continuar escrevendo. E antes da gente ir para as perguntas, porque hoje estamos no Gostosas na Escuta ao vivo, Eu queria só contar uma coisa que eu tava pensando vindo para cá, que às vezes a gente acha que o que a gente tem para falar é tão besta, né, tão irrelevante. E eu muitas vezes durante esse livro eu me questionei muito se ele tinha alguma importância de existir no mundo e se ele ia ser de alguma, ter algum impacto na vida de alguém que lesse.

E honestamente, as pessoas me perguntavam sobre o que que você tá escrevendo, tá escrevendo livro sobre o que que é, e eu não sabia responder. E eu não saber responder foi uma crise tão grande, porque quando eu começava a responder assim: "Ah, é sobre o vazio", e eu me sentia tão idiota. E aí eu aprendi com a Ana Holanda, que me acompanhou durante o processo de escrita, eu compartilhei isso com ela, ela falou assim: "Fala que são ensaios, que aí ninguém questiona, fala que são ensaios e ponto final".

O que eu queria dizer é que muitas vezes a gente acha que o que a gente tem para falar e as coisas que a gente quer criar às vezes não são tão importantes a ponto de existir no mundo, mas às vezes é só questão de encontrar o público certo. E vocês, eu sinto que são o público certo para esse livro, especialmente quem está aqui. Então queria agradecer muito. E vamos para as perguntas? Primeira pergunta. Oie! Oie, gostosas! Oi, Lela!

Oi, nossa, que maravilhosa, uma queen! Eu queria entender o que significa na prática escutar o seu próprio corpo e o mundo, e que nos mantém tão hiperconectados. Como é seu nome? Jay. Jay? Nossa, amei esse nome! Então sua pergunta é o que significa? O que significa na prática? Escutar o seu próprio corpo e o mundo que nos mantém a todo tempo hiperconectados. Super boa pergunta! Quem leu o livro sabe que essa pergunta central, né, do livro.

Tem um termo que eu escrevi, cheguei no livro, que é dos mundos sobrepostos. Vocês já chegaram nessa parte? Sim ou não? Que eu não enxergo vocês, não esqueçam. E eu fiquei muito amarrada nessa dicotomia das redes sociais e da internet, dessa hiperconectividade, como a Jay colocou, que é a gente estar o tempo todo— eu tô sem meu celular no caso agora— a gente tá sempre com o nosso celular na mão como se fosse um membro do nosso corpo, né?

E quando a gente vê que ele não tá perto, parece que a gente tá com um membro faltante, a gente toma um susto e fala: meu Deus, cadê meu celular? Cadê meu celular? Cadê meu celular? E Eu comecei durante a escrita desse livro entender o celular como um black mirror, assim, tipo uma coisa que te suga para outra realidade. Vocês já tiveram essa impressão? Que você simplesmente é raptada do momento presente e você vai para um outro mundo que o seu corpo não faz parte.

E eu acho que assim, é um fator da nossa vida hoje em dia, né? Eu trabalho com isso e os meus projetos nem existiriam se não fosse se não fosse essa possibilidade de se conectar com outras pessoas através das redes sociais, etc. Mas ao mesmo tempo é totalmente sem legislação, totalmente sem limites, cai no nosso colo de um jeito que a gente não sabe o quanto que faz bem, o quanto que faz mal, de que forma faz bem, de que forma faz mal.

E quando a gente é raptado para essa outra realidade que existe em uma outra velocidade, que existe em uma outra quantidade de informações que a gente recebe por minuto, sei lá, eu sinto que o corpo fica totalmente sem entender o que tá acontecendo. Não sei se vocês têm essa impressão. Gente, estamos ao vivo e vocês podem responder qualquer coisa que eu falo, tá? Não é que nem no podcast que vocês só ouvem. Podem fazer sim, não, nada a ver, mokreia.

Estamos aqui para todas as reações. Maravilhosa, podem falar. Brincadeira. E a parada é que esse mundo sobreposto é muita loucura, né? Porque a gente tem a impressão que tá todo mundo nesse mundo sobreposto, e a gente, por estar no presente, tá perdendo esse mundo sobreposto. Só que depois que eu escrevi, né, e relendo a coisa, eu pensei tipo, cara, não é um mundo sobreposto, cada um tem o seu, porque os algoritmos são vários.

Então não é porque você foge para essas redes sociais que você faz parte de alguma coisa, né? Você tá sendo entregue uma coisa, não quer dizer que você tá pertencendo ao mundo, que você tá de fora se você tá na realidade. E eu acho que essa coisa de você ir para um outro mundo quando você entra nas redes sociais e perde a noção do tempo, porque você fala, ah, vou rolar 5 minutos de TikTok, quando você vê, você falou assim, vou ver um filme, já acabou o filme, você tá ali no TikTok.

Inclusive, não sei se vocês ficaram sabendo, mas tá rolando um super bafafá em Hollywood que os atores estão indignados com os roteiros que têm chegado. Vocês estão sabendo disso? Porque agora vou explicar para quem falou não. Agora parece que os roteiros que chegam para essas produções muito hollywoodianas é que a cada tantos minutos precisa ter alguma coisa que chama atenção e todo tempo precisa ter alguém explicando em voz alta o óbvio que tá acontecendo na tela.

Então assim, ah sim, você entrou na minha casa e pediu um café, tipo assim, precisa ter alguém falando porque já se assume que a pessoa tá assistindo e vendo a tela. E aí os atores estão assim: "Gente, mas que tipo de roteiro é esse? Que coisa louca!" E é um sintoma da nossa realidade, né? E a gente é raptado achando que a gente vai entrar numa promessa de pertencer e de que a gente não precisa sentir o que a gente está sentindo.

E se a gente sentir angústia até de qualquer coisa, a gente pode rapidamente escapar para as redes sociais. Mas isso tem sintomas reais no corpo, né? E se a gente está preenchendo a nossa atenção, que a gente acha que é infinita, mas é muito finita, e eu até falo disso no livro também, que a gente tem uma atenção limitada e a gente acha que é um recurso infinito, se a gente tá preenchendo com muitos conteúdos rápidos e negócio de IA agora, umas coisas assim, você não tem espaço para escuta do corpo, que é uma coisa tão, tão singela.

Me fugiu a palavra. Uma coisa tão sensível, uma coisa que demanda tanta sutileza. Essa era a palavra, sutileza, que você precisa estar muito atenta. E se tem uma coisa que a gente não fica quando a gente está com tempo de tela, que nem no Brasil, que é 9 horas de tempo de tela a nossa média, você vai perder a escuta do corpo. E perder a escuta do corpo significa você perder as respostas, né? Como quem leu o livro sabe do que eu tô falando, assim.

Então é muito complexo esse tema, porque ao mesmo tempo que traz coisas tão boas assim, como por exemplo, eu não conheceria vocês se não fossem as redes sociais. E vocês provavelmente não estariam aqui. Mas também traz coisas muito difíceis que eu escrevi esse livro tentando também trazer essas questões como um tema de conversa para que a gente possa juntas determinar o jeito que isso vai ser usado e movimentar essas conversas, enfim, para além.

Já existem várias conversas legais em torno disso, o ECA Digital que surgiu, que surgiu não, né, que avançou também no ano passado com o nosso divo Felca. E eu acho muito louco o quanto isso caiu no nosso colo sem nenhuma instrução. E eu até tenho um capítulo que eu falo de como eu descobri um aplicativo. Vocês lembram quando vocês viram o primeiro aplicativo na vida de vocês? Ou tinha gente que nem era nascida? Ó, nem era nascida esse divo dos 6% aqui.

Gente, qual foi o primeiro aplicativo que vocês viram? Pol? Bichinho virtual? Eu não sei o que é isso. Pol? Ah, Poké. Não, não. Ela fez assim: "Pol?" Eu não sei o que é isso, acho que não era nascida ainda. O meu era um aplicativo de... Ah, era essa batata! Era um bichinho virtual. Isso era um aplicativo, menina, eu jogava no computador. O computador. Era Paul o nome? Não lembro não. Povo do chat aí de casa, vocês lembram do Paul?

A batata, bichinho virtual. O aplicativo que eu lembro é aquele que fingia que era uma cerveja. Eu até falo disso no livro, que você— ou então isqueiro. E eu lembro que eu olhava aquilo como se fosse assim um truque de mágica. E isso é um sintoma do quão recente que é essa conversa, né? Tipo, a gente lembra do primeiro aplicativo e agora isso já tá totalmente dentro da nossa vida sem a gente saber o que que é a gente, o que que é o virtual, o que que é o corpo, o que que é o online.

Então eu acho perigoso. Será que respondi a Jay? Eu sou podcaster, gente, eu vou falando, vocês sabem. Ela falou que respondi. E eu tava até— vou só completar rapidinho, tá, gente. Eu tava falando com uma amiga minha, a Vitória Puig, se você tiver assistindo, um beijo para você. Ela tava falando que ela tava se sentindo isso, se sentindo aquilo, e se eu tinha alguma dica do que fazer. E eram todos sintomas muito parecidos com desconexão, com o que eu falo assim no livro sobre desconexão.

E aí eu perguntei: amiga, você tá tendo algum tempo na rotina para só ser o seu corpo? Tipo assim, alguma caminhada, alguma pausa, alguma academia, sei lá, qualquer coisa? Ela: nossa, é verdade, não. E aí eu acho que isso é bem relevante assim, não acho que é uma resposta, mas eu acho que se a gente levar nossa vida, principalmente aqui em São Paulo, Quem é de São Paulo aqui? Grande maioria. Eu não sei se eu tô, eu não tenho como falar por outros estados, desculpa, mas porque eu sempre fui paulistana.

Mas aqui em São Paulo a gente anda, eu vejo as pessoas andando agora, a gente tá na Avenida Paulista, eu vejo as pessoas andando aqui na Avenida Paulista, parece tipo assim um amontoado de membros que segura a cabeça, sabe? E tipo assim, não serve para nada esse amontoado, ele só tá segurando a cabeça. Se a gente levar nossa vida assim, é óbvio que o corpo vai ter sintomas. É óbvio que ele vai reclamar eventualmente. Eu acho que isso é uma consequência de você viver uma vida hiperconectada, porque quando você está conectado, você não está conectado no corpo, né?

Você está conectado na mente. Precisa descer, né, bicha? Vamos para a próxima pergunta? Oi, Lela. Oiê! Tudo bem? Tô bem, e você? Tudo bem também. Fale seu nome, por favor. Oi, eu sou a Raquel. Desculpa essa minha voz aqui, gente, horrorosa. Não tem problema, Raquel. Lela, eu queria saber qual que é o seu maior equívoco Durante o processo para atravessar o seu vazio, qual é o meu maior equívoco? Nossa, profunda, né? Profunda, né?

Psicanalítica. Qual é o meu maior equívoco? Obrigada, Raque, pela pergunta. Bom, vou ser muito transparente então. O maior, meu maior equívoco na minha trajetória de quando eu não tinha esse nome, né, assim, quando eu comecei a sentir essa parada, que no começo do livro eu descrevo como queda livre, que é esse sintoma muito forte que eu tinha da síndrome do pânico. Eu não sabia que chamava vazio, mas eu sabia que tinha alguma coisa dentro de mim que eu não conhecia, que tava causando sintomas muito físicos, apesar de ser psicológico, porque eu cansei de ir para o hospital e falarem que não tinha nada.

E o meu maior equívoco foi achar que a resposta do que que eu tinha dentro de mim ia estar fora de mim. E aí, menina, foi uma sequência de desgraça. Pode falar palavrão aqui nessa transmissão, Neike? Ela não sabe. Ela fez assim: por mim? Por mim? Foi uma sequência de descaradamente mentais. Quando eu fui acreditando que a resposta poderia estar fora, em coaches, em gurus meio estranhos, em pessoas que tinham o caminho muito dado, em pessoas que estavam vendendo o caminho muito fácil.

E o livro inteiro, não sei se quem leu reparou, ele é estruturado ao redor de perguntas. Inclusive, para quem não leu, tem literalmente um capítulo chamado "Por que eu amo perguntas?" E eu sou muito avessa a essa coisa das respostas, sabe? Eu me tornei muito avessa nos últimos anos. E escrevendo esse livro isso ficou muito claro, assim, eu já tinha essa impressão, mas quando eu fui escrevendo eu fui entendendo o quanto eu era avessa a pessoas te darem respostas de perguntas que não tem como estar em outras pessoas a resposta.

Só tem como você a achar a resposta dentro de você. E se você achar uma resposta, porque várias coisas não têm respostas. E honestamente, e é isso que eu digo também, spoiler para quem não leu, sinto muito, no último capítulo é que as respostas são chatas, meio, né, assim, porque se você vai atrás das respostas, você tá indo atrás de um fim que vai acabar ali. E aí é o fim do seu caminho. Agora, se você foca o o caminho nas perguntas, as perguntas são capazes de te levar para caminhos muito legais, porque uma pergunta gera outra.

E aí essa coisa, tem uma entrevista da Fernanda Torres que eu até cito no fim do livro, que ela fala o quanto que ela tem medo de ser esquecida pelo mundo, e como a curiosidade é um jeito dela grudar no mundo, sabe assim, um jeito de você não ser esquecida pelo mundo. E eu acho a curiosidade tão valiosa, porque as pessoas mais interessantes que eu conheço, elas são profundamente curiosas. Você já conversou com uma pessoa que não te faz nenhuma pergunta?

Que ela só faz um grande monólogo? E você fala tipo: "Meu Deus do céu, me tira daqui!" Com certeza ela era leonina, provavelmente. Desculpa, desculpa, leoninos, mas eu já fui num date com um leonino que fez exatamente isso e fiquei traumatizada. Mas é muito sem graça você só encontrar respostas, porque quando você sabe tudo, você vai pra onde? Tipo assim, qual é o seu caminho daqui pra frente se você tem tudo resolvido? Fé, sei lá, acabou, tipo assim, sabe?

E por outro lado, as perguntas, se você pergunta uma coisa de um jeito diferente, ela é capaz de te colocar num caminho diferente do que a pergunta original, assim. No livro eu falo bastante sobre como eu estruturo as perguntas pra me levar pra lugares mais legais. E uma das perguntas, por exemplo, hoje mesmo eu tive que fazer um negócio que era chato para caramba. E aí sempre que eu tenho que fazer um negócio que é chato para caramba na minha rotina, eu penso, eu me pergunto, né, como seria isso se isso fosse legal?

Gente, isso já abre um leque assim, porque te dá insumo para imaginar várias coisas. Então eu acho que um grande erro que eu cometi primeiro foi ir atrás de respostas em vez de ir atrás de perguntas. E o segundo é achar que as respostas que eu tava procurando, que nem são interessantes e muitas vezes nem são as respostas, porque resposta é um negócio fixo e a vida não é fixa, achar que elas poderiam estar fora de mim, que alguém poderia me oferecer isso.

E eu sei que isso parece muito mais fácil, né, se você falar tipo assim, ai, queria tanto uma respostinha, tipo assim, mas Cara, eu, eu, bom, eu tenho 32 anos, né? Não sou nenhuma guru, monja, coisa, nada disso. Mas o que eu aprendi é não ir atrás de respostas e atrás de perguntas, e desconfiar muito de quem te oferecer resposta, porque geralmente ela tá tentando te convencer de alguma coisa meio esquisita, tá? Eu já caí em várias.

Não caiam, vocês não precisam cair. Próxima pergunta. Não, próxima resposta, reparem. Oi, Lana, tudo bem? Oi, Queen, qual é seu nome? Aide. Ai, que lindo. Assim como você, eu não sou muito boa de decorar texto. Não tem problema, pode ler. Você já comentou algumas vezes no podcast que só traz temas para conversar com a gente que você já elaborou internamente, em análise, enfim. Durante a escrita de Vertigem, você sentiu que esse processo te levou a ressignificar coisas sobre si mesmo que você não tinha percebido ainda?

Ótima pergunta. Isso é uma pergunta de quem escuta o podcast, tá vendo? Ela já falou que eu não sabia decorar coisa, que eu só trago coisas elaboradas, e também leu o livro. Meus parabéns aí, Dê palmas, palmas para todas as divas que estão perguntando, inclusive, né? Muito obrigada. Se quiser sentar, fique à vontade. Então eu tenho essa coisa, né, de não trazer muito. Quando eu entrei na análise, eu tinha minha mãe e minha cunhada que estão aqui.

Palmas para divas também! Elas vão lembrar, e eu tenho até uma cicatriz aqui, já contei sobre isso num episódio também, que era um episódio que eu contava histórias sobre a minha vida, que eu tinha literalmente uma ferida aberta. Vocês lembram desse episódio? Eu tinha uma ferida aberta porque eu tive leishmaniose. E eu fiquei por 7 anos com uma ferida aberta no pé. E quando eu entrei na análise foi bem na época que essa ferida tava bem aberta.

E a minha analista ficava falando: "Nossa, mas tudo que você traz é muito ferida aberta, é muito ferida aberta." E a gente ficou com essa imagem da ferida aberta. E eu aprendi muito a tratar as minhas feridas abertas na minha vida, depois transformar elas em alguma coisa. E eu acho que é muito ruim você ter feridas, né, tipo, em geral, não só abertas. E a vida tem, que nem a Adélia Prado fala, né, no final, de novo um spoiler, mas no final eu trago uma fala da Adélia Prado que ela fala que a vida é um vale de lágrimas mesmo, é um vale de lágrimas, não tem como falar de outro jeito, mas também tem crianças, tem, né, flores e tal, e essa é a vida.

Eu acho que a dor, ela é, e as feridas, elas são parte da vida e elas vão acontecer, pelo menos das pessoas que eu conheço. Raramente eu conheço alguém que não tem pelo menos uma história triste para contar. Alguém aqui tem história triste para contar? A outra levantou duas mãos em vez de uma. Bom, eu tenho choro da semana toda semana, então vocês imaginam. Mas o que a gente faz com essas feridas é muito— dar um sentido para ferida, né?

Assim, é um jeito meio romântico de olhar, mas eu também acho que é um jeito bonito de levar a vida assim. Você vai ter essa ferida de qualquer jeito, o que você vai fazer com ela meio que tá na sua mão assim. Às vezes a gente não consegue fazer nada por ela, com ela por muito tempo, ou às vezes a gente nunca vai conseguir fazer nada com ela, porque que merda mesmo que a gente tem essa ferida. Mas às vezes você consegue criar coisas bonitas assim e fazer com que ela seja de alguma forma útil para outras pessoas, ou bonita para outras pessoas, e te dá uma sensação de teve um porquê de eu passar por isso, sabe?

E eu acho que foi isso que eu fiz com esse livro assim. Eu demorei para entender sobre o que eu estava escrevendo, tanto que a Ana Holanda, coitada, que acompanhou a escrita, eu falava: "Ana, mas sobre o que eu estou escrevendo?" E aí ela me contou que tem um escritor português, que eu não vou saber o nome agora, ele tinha um ditado que ele sempre, durante a escrita, ele estava escrevendo e falava: "Ah, então é sobre isso que estou a escrever?" E aí ficou muito isso na minha cabeça, assim, quando eu descobri sobre o que eu estava escrevendo, era sobre uma das minhas maiores feridas, que era O porquê eu entrei na análise, e esse ano faz 10 anos que eu entrei na análise, e análise é o pano de fundo para as experiências que eu narro ali nesse livro, né, que resume tudo que eu aprendi, os caminhos que eu achei, os estudos que eu me deparei, os livros que eu li, as experiências, as trocas, as conversas, as viagens, enfim, todo esse apanhadão de coisas que eu reuni e trouxe nesse livro, porque essa ferida fechou.

Então, se eu fosse escrever esse livro enquanto eu tava ali tentando pegar o avião que eu tava segurando o choro e não conseguia saber se eu ia conseguir entrar naquele avião ou não. Isso é uma piada interna para quem leu o livro. Infelizmente, quem não leu vai ter que comprar. Mas se eu tentasse escrever ali, o que que eu ia escrever, né? Tipo assim, o que que eu teria para escrever naquele momento? Eu teria para como escrever: estou desesperada, pelo amor de Deus, alguém me ajuda, não sei o que tá acontecendo comigo, não sei porque que eu tenho essa sensação, não sei porque que eu tô saindo desse avião e vomitando por 3 dias seguidos.

E aí foi quando eu comecei a entender, essa ferida começou a se assentar, eu comecei a entender, tá, eu preciso de espaço para o meu corpo falar, para eu entender o que ele tá tentando falar, para eu aprender a ouvir, aprender a linguagem, aí achar estudos sobre a interocepção, que é a palavra que eu fiquei viciada depois, que eu até falo no livro. Então eu precisei de todo esse tempo para trazer isso. E essa que é a importância, eu acho assim, de você dar o seu tempo de elaborar E agora, o que eu acho que eu não— a sua pergunta era sobre o que eu acho que eu não tinha elaborado ainda sobre o livro, jamais.

O que eu descobri ao longo do processo. O que eu descobri— Anick! O que eu descobri ao longo do processo é que escrever é difícil, gente. Eu sabia que era trabalhoso, agora que era tão difícil— eu sei que eu reclamei muito disso no podcast, né? Vocês não me aguentam mais. Mas vocês já escreveram livro? Alguém aqui já escreveu? Ninguém? Aqui, já escreveu? Ah, minha filha, um livro de física, aí é fácil. Aí está tranquilo, graças a Deus.

Gente, meu Deus do céu, está vendo? Eu não teria como oferecer uma resposta de física para você. Eu teria como oferecer várias perguntas. Eu odeio física. Milita, vamos às ruas pela física. Alguém aqui gosta de física sem ser essa queen? Uma pessoa, você. Acho que eu ganhei. Alguém aqui odeia física? Ah, eu ganhei, eu ganhei. O que eu não esperava mesmo é que escrever era tão difícil. Eu não sei se é assim para todo mundo. Para mim foi muito desafiador, especialmente escrever sobre a minha história.

Nossa, como foi difícil! Vocês lembram quanto eu reclamei que eu queria desistir? Não vocês, minha mãe e a minha cunhada. Gente, eu acho que eu estou precisando ouvir um episódio que chama "Pare de Reclamar" do Meu Podcast. Que vergonha! Mas, gente, é porque foi muito difícil mesmo, assim, você escrever a própria história. Eu me senti, honestamente, com todo respeito ao Justin Bieber, o Justin Bieber escrevendo sua própria biografia aos 14 anos, sabe?

Eu falava: gente, quem que vai querer ler isso? Assim, eu tentei de todas as formas. O povo da minha editora tá aqui de prova. Eu tentei de todas as formas tirar os capítulos que eu falava da minha história, que é a parte 2. Eu queria deletar. Eu falava: gente, isso daqui tá, não tá acrescentando em nada, não sei o quê. E elas "precisa ficar, precisa ficar". Aí eu e a Ana Holanda quebrando cabeça como é que a gente ia deixar. Mas no fundo é porque a gente sempre acha que a gente não é tão importante, né?

E é engraçado porque eu tenho recebido muito, muitas mensagens falando que essa parte é a parte favorita das pessoas do livro. Ó, tem gente falando assim. Gente, como? É pra mim a pior parte! Mas é porque pra mim é muito engraçado ler e falar tipo: "Sim, isso aconteceu na minha vida, eu tô careca de saber já". Mas é isso assim, eu não esperava que ia ser tão difícil encarar minha própria história, transcrever ela, né, trazer ela em palavras de um jeito que ela— porque não sei se vocês repararam, mas no meu trabalho eu tento nunca trazer coisas muito individuais assim, sabe?

Eu sempre tento trazer coisas que eu acho que de alguma forma impactam mais pessoas, não tipo, ah, hoje de manhã eu comi isso, tipo assim. Foda-se, com todo respeito. Eu tento trazer vivências e coisas que eu acho que outras pessoas podem ter passado e coisas que eu acho que podem ser úteis para outras pessoas. A gente nunca acha que a nossa própria história vai ser útil, né? Mas é aí onde eu crio conexão. A gente tem graduados em gostar do choro.

E aí foi bem desafiador assim, e eu tomei uma chamadona assim da minha analista essa semana semana porque ela leu o livro. E se vocês estão achando que eu reclamei, imagina esta diva. E ela falou assim: "Lela, eu nunca mais vou acreditar em você quando você ficar reclamando que as coisas estão ruins, que você faz, porque tá muito legal o livro". Enfim, uma fofa, tá de férias, bom descanso, diva. Inclusive hoje era meu dia de análise, não tive.

Então é engraçado assim falar sobre a própria história, escrever e colocar ela em pé assim, né, porque não é só falar assim: "Ah, menina, eu Odiava física. E aí eu fui para não sei o quê. Agora, diferente de você escrever, tem outro tom, né? Acho que isso foi bem desafiador para mim, eu não esperava. E agora eu leio livros e fico assim: meu Deus, as pessoas escreveram todas essas palavras! Eu leio biografias e falo: meu Deus, 600 páginas de biografia!

Próxima pergunta. Te respondi a ideia? Sim? Oiê! Oiê! Tudo bem? Me chamo Ingrid. Como? Ingrid. Sempre falam, né, que existe muito sentimentos e sensações na escrita de um livro. Eu queria saber de você qual foi o sentimento ou a sensação que predominou quando você tava escrevendo? Linda pergunta, né? Poética. Amei, obrigada, Ingrid. Palmas para Ingrid! Vou falar por partes, tá? Porque foram 2 anos e meio, então não teve uma sensação única.

A primeira sensação foi desespero. Foi olhar, porque, gente, eu escrevia, eu escrevia, eu escrevia, e aí eu falava para as minhas editoras: "Gente, o que vocês acham?" E elas falavam assim: "A gente não tem material suficiente para opinar." E eu falava: "Pelo amor de Deus, eu escrevi para caramba!" E aí você vê, eram tipo 10 páginas. Então, primeiro foi muito desespero assim, porque como eu não sabia sobre o que eu ia escrever, né, eu fiz meio que o caminho oposto.

Em geral, você tem uma ideia, vai atrás de uma editora e aí você publica um livro ou não, né? O meu caso foi a editora me convidou e aí falou: "Escreva sobre o que você quiser." Aí meio que lascou. E aí eu abri aquele documento do Word e ficava tipo: "Gente do céu." Aí eu pesquisava assim: "Quantos caracteres tem uma obra de 300 páginas? Quantos caracteres tem uma obra de 600 páginas?" E eu falava: "Meu Deus do céu, eu não tenho repertório desses caracteres, não." E aí a primeira parte foi bastante desespero.

Eu escrevi a primeira parte, vocês nunca vão ler porque eu deletei a primeira parte inteira. Tava um ó, nem precisa. Essa primeira parte tá bem melhor, juro por Deus. Pergunta para as minhas editoras, cadê elas? E aí depois a segunda parte foi desespero, porque a segunda parte também— porque que aconteceu? Eu tava escrevendo Aí cada hora eu falava um negócio, eu falava: "Ah, não sei o quê, eu tenho um podcast." "Ah, e na minha marca de roupa, não sei o quê." "Ah, e eu sou influenciadora." Aí chegou uma hora que o povo falou assim: "Lela, quem não te conhece não vai entender absolutamente nada." Tipo assim: "Vai achar que você tá louca, porque cada hora você fala um negócio, cada hora você fala que fez arquitetura, de repente é podcast.

Você vai ter que explicar quem você é." Eu: "Lá vamos nós." Aí eu escrevi a segunda parte. Aí a segunda parte eu escrevendo, Aí foi esse desespero que eu já falei para vocês, que eu cada palavra eu me contorcia assim de vergonha assim. E aí eu escrevi um trecho muito maior do que vocês leram também. A gente editou para caramba para ficar bem fluido e dinâmico e para que eu falasse, não deleta tudo. E aí depois foi um, quando eu entrei na terceira parte ali que eu tava falando sobre descanso e exaustão, eu tava com um chão muito mais firme assim, que já tinha percorrido esse caminho.

E eu entendi sobre o que eu tava falando, assim, que foi da segunda para terceira parte que eu fiz, tipo, ah, sobre isso que eu estou a escrever. E aí eu entendi, eu tava muito interessada nesse assunto, assim, foi bem na época que eu fiquei um tempão offline, né, fiquei tipo 20 e tantos dias offline, estudei bastante sobre descanso, sobre os caminhos que levam a gente para essa exaustão que é meio projetada para a gente, né, no sistema que a gente tá hoje.

E Quais são as armadilhas que eu caí? Aí eu fui atrás das pessoas que estavam falando sobre isso, cheguei na Tricia Hershay, eu nunca sei falar o nome, Tricia Hershay, acho que é o nome dela, que é o Descansar e Resistir, e trouxe Bell Hooks, e aí eu comecei a juntar as peças. Aí sabe quando tem uma cena do filme que tipo as ideias vão fluindo? Essa foi a sensação de ideias fluindo. E aí quando eu falei sobre os mundos sobrepostos, eu tava falando do corpo não participar e tal, A Ana Holanda, eu tô falando bastante da Ana Holanda porque foi a minha grande parceira nesse percurso todo.

Ela foi contextualizando, ela é uma mentora de escrita, e como eu tô muito acostumada a produzir e botar para o mundo, né, para vocês escutarem e assistirem os vídeos e tal, foi muito desafiador para mim pensar em criar uma coisa sem saber se aquilo tava estruturado, estava fazendo sentido, estava interessante, e só depois de 2 anos E aí eu descobri o trabalho da Ana Holanda, que é uma mentora de escrita. Então a gente tinha um encontro mensal que ela simplesmente lia o que eu tinha escrito e me dava um feedback, tipo assim, falava: "Nossa, isso tá muito interessante, tem essa referência, tem essa, aqui faltou você explicar isso." Isso me deu um relaxamento de ombros, assim, sabe?

De poder conversar com alguém durante esse processo. E aí quando eu falei isso dos mundos sobrepostos, ela falou assim: "Layla, aí você tocou num ponto muito importante, que foi o corpo." 'Você deveria pensar mais nisso.' E eu já tava pensando em trazer o corpo. Aí eu falei: 'E eu não me empurro, que eu já tô na beira.' E aí eu entrei de cabeça na parte 4, que é a parte do corpo, que é a minha parte favorita. Não sei, alguém aqui já leu inteiro?

Também é a parte favorita de vocês ou não? Tudo bem se não for, eu não vou ficar ofendida. Sim, e é a minha parte favorita. Eu acho que é a parte que mais revela sobre mim e sobre um contexto do que é ser mulher, né, atualmente. E como a pressão e o que o sistema faz com a gente afasta a gente do nosso corpo, empurra a gente para o vazio, um vazio que a gente não percebe, a gente cobre de várias outras coisas. Então a última parte parecia que nem era eu que tava escrevendo, era uma sensação muito louca assim de eu escrevendo e as coisas vindo.

E aí eu lembro de eu escrevendo e aí eu lia, eu chorava, falava: nossa, Nossa, o que que é isso, sabe? Eu lia principalmente um parágrafo que é assim: Bem-vinda ao ringue. Vocês lembram desse? Que é assim: Bem-vinda ao ringue, agora você é uma mulher. Gente, não fui eu não que escrevi isso, foi algum ser divino que escreveu através de mim. Mas a sensação foi essa assim, de ter chegado e ter chegado no ponto que eu queria chegar e deixado as ideias fluírem.

E o fim foi muito legal assim. Aí quando eu cheguei no fim, eu voltei para o começo, deletei tudo E fiz um novo começo, né, com o "O Rei Está Nu". Foi uma das últimas coisas que eu escrevi, foi a introdução, que faz sentido para vocês lerem porque ela fala muito do livro até o final. E eu reescrevi a primeira parte também. E aí depois também minhas editoras falaram assim: "Lela, a gente acha que tá acabando um pouco baixo astral.

Você não acha que você tá acabando um pouco dramática?" Porque era assim, tipo, Do nada era assim: o corpo, ai, maldição, as coisas que fazem com a gente, não sei o quê, ai, desgraça de sistema, ai, voltei para mim, uma coisa meio louca. Aí eu falei assim: ai, gente, tem razão, acho que eu tô jogando um monte de pergunta no colo desse povo, melhor eu terminar um pouco mais abraço, tem mais a ver comigo assim terminar com abraço, não tipo: tô te empurrando.

"Coragem, vai cair!" E aí eu escrevi por último, no final, o "Por que eu amo perguntas?" E foi também fruto de uma pergunta que foi das minhas editoras, que foi assim: "Lela, você não acha que tá faltando uma resposta?" Tipo assim: "Você não acha que tá faltando uma coisa assim para as pessoas aplicarem na vida delas?" Aí eu falei: "Mas gente, eu não tenho resposta nenhuma, só tenho perguntas." Aí que virou, tipo assim, "Por que eu amo perguntas?" Aí eu escrevi o título de todos os capítulos, que eram outros também.

Então todos os capítulos viraram perguntas. E eu escrevi o último capítulo do Porque Eu Amo Perguntas também em resposta a essa demanda pelas respostas. Deu para entender? Eu estou muito doida. Gente, estou tão realizada de falar disso com vocês. Sério, porque foi um processo. Imagina, estava cheia dessas palavras aqui dentro, não tinha com quem conversar. Respondi? Então tá bom, então vamos para a próxima pergunta. Oie! Oi, Lela!

Tudo bem? Como é seu nome? Fernanda. Oi, Fê. A gente aqui é São Paulo, você sabe, né? Pode me chamar de Fefa também. Oi, Fefa. Lela, a minha pergunta é: o que foi mudando em você durante o processo de escrita? Porque em um dos episódios você fala que durante esses 2 anos você foi mudando, né? Em 2 anos muitas coisas acontecem. O que você sentiu que foi mudando em você nesse processo? Nossa, obrigada pela pergunta. Palmas para essa diva Fefa.

Ai, cara, o que que vocês acham que mudou em vocês em 2 anos e meio? Nada? Que você acha, mãe? Minha mãe, depois do processo que eu passei, vocês sabem, né? Minha mãe teve uma grande superação nesses últimos anos e entrou na análise. Uhul! Aos trancos e barrancos, né? Empurrada por alguém, não sei quem, gente. A vida, não sei a de vocês, mas assim, a minha vida ela dá uns 360 o tempo todo. E foi muito engraçado e curioso passar por esse processo que eu tava diante da mesma obra por 2 anos e meio.

Eu fiz arquitetura, né, sou formada em arquitetura. Um dos motivos de eu não ter seguido carreira é que eu olhava, meus pais são arquitetos, eu olhava eles assim, 3 anos com um prédio Sei lá, 5 anos na mesma hora. Eu falava: "Gente, eu não tenho a menor condição, eu sou muito ansiosa para isso, eu não tenho como esperar 3 anos para ver um negócio que eu desenhei estar no mundo." E aí eu fui para blogueira, tipo assim, é a coisa mais rápida que você vai ver alguém gravando um story e postando.

Então eu estou acostumada com esse ritmo, né? Assim, até o meu próprio podcast, meu podcast ele é sem produção nenhuma, né? A Calu, a minha editora, ela está aqui inclusive. Ela vai falar: "Sem produção nenhuma, gata? E eu sou o quê?" Mas a nossa diretriz é editar o mínimo possível. Não tem vinheta, não tem uma superprodução. Quando tem, é um episódio especial como esse, no caso, por exemplo. Mas o cerne do podcast sou eu falando, né?

Então todas as minhas— eu tô muito acostumada a fazer coisas muito rápido. E ainda assim, fazendo coisas muito rápido, às vezes eu vejo episódios antigos do podcast, me dá uma vontade de deletar, que eu falo assim: Nossa, vou deletar, hein? Olha lá! Mas são coisas que não me representam mais, opiniões que eu mudei, ou sei lá, coisas que eu falei de um jeito que eu não gostaria de ter falado, que eu falaria de— é o quê? As perguntas ainda fazem elas refletirem, que chique!

Aqui vai sair todo mundo doutrinado a perguntar. É, mas é isso. Para mim, eu tenho muito essa dificuldade. Eu, eu converso muito sobre isso com as minhas amigas que são artistas. Por exemplo, a Luana, MC Luana, eu falo bastante disso com ela também, sobre como fazer as pazes com o que você criou quando você era outra pessoa e tá ali no mundo. E às vezes é aquilo que vai se conectar com a pessoa, que é uma parte sua que nem existe mais, assim.

Então, para mim, sempre foi muito desafiador isso. Eu às vezes eu vejo coisas que eu fiz assim, hoje mesmo tava pensando, vou deletar tudo que tá no meu TikTok porque eu não quero que alguém tenha contato com uma versão minha que não é minha mais. Mas é muito egoísta isso e narcisista da minha parte, porque é o quê? É um registro de quem eu fui. Exato, eu não seria quem eu sou se não fosse a Lelinha do passado. E também, às vezes, o que vai se conectar com você, com você, com você, é quem eu fui há 3 anos, e não necessariamente quem eu sou hoje.

Até porque, tipo, por exemplo, eu trabalho há 10 anos com internet, tem gente que começou a me seguir porque eu era artista, que eu fazia murais, e aí a pessoa parou de me seguir. Tem gente que nem sabe que eu fazia murais. Então, também você ter fé assim de que o que você coloca no mundo, quando você faz um trabalho e entrega para o mundo, ele só vai existir quando outra pessoa interagir com ele, e você não tem controle dessa interação, né?

E aí quando foi o livro, que assim, eu olhava e era 2 anos, e aí eu falava assim: "Ai, tá bom, vou reler o livro para voltar para semana de escrita." Porque uma curiosidade é que eu tentei escrever o livro de sexta-feira. Essa era a minha grande ideia. Minha grande ideia assim de quando eu comecei em 2024 era que toda sexta-feira à tarde eu ia para o meu escritório, que não ia ter ninguém lá, e eu ia escrever e ninguém ia me importar.

Sexta-feira à tarde, tipo assim. É quando todas as buchas que sobraram da semana chegam. E eu obviamente não consegui escrever. E aí eu passei muito tempo tentando fazer isso. E depois eu aprendi com a minha amiga Marcela Ceribelli, que fez um prefácio lindíssimo. Palmas para Marcela Ceribelli! Ela fez um prefácio lindíssimo assim. Mas eu aprendi com ela depois de reclamar muito com ela. Tipo assim: meu Deus do céu, escreveu! Meu Deus do céu, 'Caralho, a mente que não acaba nunca.' E ela assim: 'Amiga, eu sei, já escrevi dois.' E o que ela me falou é: 'Cara, você precisa de semanas de escrita, porque tem um tempo diferente para você entrar no fluxo da escrita, né?

Você precisa começar a escrever e depois você engata em uma tarde por semana, não vai dar.' E aí toda semana de escrita que eu parava para escrever, eu tinha que reler o texto, tipo assim, desde o começo, para lembrar sobre o que que eu tava falando. Chegava uma hora que eu olhava as primeiras páginas e falava assim: "Não, de novo essa mona, velho, falando as mesmas coisas, pelo amor de Deus, eu não aguento mais, que vergonha!" Então isso foi muito desafiador, eu tive que me ver com essa coisa do passado e do presente e hoje, né, o que é Vertigem.

Eu apaguei o que eu escrevi no começo, então não é exatamente o que eu escrevi há 2 anos e meio atrás, mas eu comecei há 2 anos e meio atrás e ele, pra ele estar assim hoje é porque há 2 anos e meio atrás ele tava de outro jeito. E ele é engraçado assim, para mim eu pego assim o livro e aí eu vou folheando, eu falo, e eu vou lembrando o que que eu tava fazendo, o que que tava acontecendo na minha vida enquanto eu tava escrevendo cada parte.

Eu fico tipo assim, nossa, né, é como se fosse uma cápsula do tempo assim, que eu vou lendo e falo, nossa, é verdade, eu escrevi isso depois que eu, sei lá, entreguei a coleção com a Frida, eu escrevi isso quando eu tava acompanhando minha mãe "Escrevi isso quando tava, sei lá, mas tudo foi dentro do meu quarto." Então é bem engraçado assim, para mim parece uma cápsula do tempo que capta várias versões de mim que escreveram uma coisa juntas.

Ai, gente, é muito estranho. Vocês precisam escrever um livro para saber do que eu tô falando, porque é muito esquisito. Você olha e fala: "Nossa, aconteceu tanta coisa, eu escreveria de um jeito diferente." Só que aí chega uma hora que assim, né, eu deletei o começo, aí eu já não queria mais a segunda parte também, queria deletar. Aí, minha filha, você vai ficar escrevendo livro para sempre. Aí a minha editora falou: "Lela, vamos parar, tá feito, vamos lançar." E eu acho que, enfim, a gente fez um bom trabalho.

Não sei o que vocês acham. Obrigada. Isso foi nada modéstia da minha parte. Vamos para a próxima pergunta. Oie! Oi, Vicky! Oi, Lela! Vocês conhecem essa? Ai, vou te expor, não quer? Pode me expor. Vicky era influenciadora e se aposentou. Uma rara espécie de influenciadora aposentada. Blogger aposentada. E foi pra outra carreira. Como você tá aí? Hoje ela trabalha comigo, inclusive, como roteirista. Tô bem, amiga. Feliz de você estar aqui, minha amiga.

Eu também. Pode soltar a tua pergunta, vamos. Qual é a pergunta que ninguém te faz sobre Vertigem, mas que você gostaria de responder? Ih! Obrigada pela pergunta. Quer dizer, nem sei se eu agradeço. Palmas para Vicky Diva! Deixa eu pensar que pergunta. Uma pergunta que eu acho legal de responder, que eu respondi para ele, muito chique, que eu tenho certeza que ninguém leu, é que perguntaram por que que eu dediquei meu livro para minha avó.

Vocês viram essa resposta? Não? Ah, já viram? Então nem vou responder. Não, não, não viram? A minha avó, ela também é um personagem muito importante no livro, vocês devem ter percebido, eu falo sobre ela em vários momentos. E eu dediquei o livro para ela porque ela é a última e única pessoa que eu conheço que não participou do mundo online. Ela nunca teve— ela teve WhatsApp, vovó? Tentou, né? Não deu certo. Ela não sabe nem Smart TV, enfim, ela ouve TV porque ela nem enxerga direito mais.

E é muito interessante ver a vida através dos olhos dela assim, porque ela realmente não, tipo, esse mundo sobreposto para ela não existe. E o jeito que ela experiencia as coisas, e agora eu tenho visto também como a gente tá tão imerso nisso e ela não estar faz mal para ela também, sabe? E como a gente deixa de viver momentos com ela por estar priorizando uma coisa que assim... um Reels, tipo assim, sabe? Você vê depois, sei lá.

A última mensagem que chegou, a pessoa espera 5 minutos. Então eu dediquei meu livro pra minha avó por conta disso, assim. Eu acho que ela foi muito importante pra estrutura do livro em geral e na minha visão ela é uma pessoa muito importante assim pra eu entender que existe vida pra fora dessa loucura que a gente criou e que tudo isso é muito recente. E que existem outras formas de existir no mundo, sabe? Deixa eu pensar mais alguma pergunta.

Alguém quer fazer alguma pergunta? Tipo assim, ó, tem uma pergunta ali, Nick. Oi, Lela! Oiê! Como é seu nome? Ah, desculpa, te cortei. Gabi. Gabi? É. Oi! Oi! E enquanto você foi falando, primeiro queria parabenizar a sua didática e a sua capacidade de proximidade. Oi, gente, agora eu também vejo vocês! Desculpa, Gabi, Oi, tudo bem? Muito obrigada, já te agradeço, porque me sinto muito próxima assim, me sinto como se eu estivesse trabalhando e ouvindo seu podcast.

Então acho que isso é muito único. E a minha pergunta é a partir de uma frase que ficou na minha cabeça enquanto você falava, que eu vi uma vez no Instagram, que é: a escrita é basicamente sangrar. E isso eu relacionei muito com seu livro, com que você foi trazendo, e nada a ver com essa frase, mas Vai ter um ponto. Se você pudesse puxar uma cadeira para uma versão antiga sua para estar nesse evento agora, qual você escolheria?

Por que que ela teria que estar aqui? Obrigada, Gabi, pela pergunta. Deixa eu pensar, cara. Qual versão minha que eu escolheria? Eu acho que eu escolheria, Gabi, a Lela despencando na festa. Que é, para quem não leu o livro, foi a primeira vez que eu tive realmente uma crise de pânico sem saber o que que tava acontecendo. Foi uma sensação de morte mesmo. Isso voltou a acontecer várias vezes. E depois que isso aconteceu e seguiu acontecendo cada vez em mais lugar, então primeiro acontecia em festa, parei de ir em festa, aí começou a acontecer em metrô, parei de pegar o metrô, aí começou a acontecer na faculdade.

Aí se eu parasse de ir na faculdade, ia tomar um cacete da minha mãe. Brincadeira, mãe. Aí começou Aconteceu dentro de casa, vendo série. Eu lembro até qual era a série, era aquela Chernobyl. Ai, tava vendo essa série, menina, comecei a me querer. Graças a Deus. Não, mas começou com séries pesadas, aí foi pra Emily em Paris. E aí eu achei de verdade que eu tava ficando louca. Tipo assim, teve um momento que eu— e foi quando eu tava morando sozinha, porque eu saí da casa dos meus pais e fui morar com a minha melhor amiga Olga.

E aí teve um momento que ela saiu e foi ficar com os pais dela por muito tempo. Eu tava morando basicamente sozinha ali. E eu lembro de um dia que tava na minha cama, eu fiquei assim: bom, é isso, tô enlouquecendo mesmo assim, tipo, não vou conseguir conviver em sociedade, não tenho condição. E eu tinha muito medo de tudo. E se eu pudesse sentar com ela e falar assim: fia, calma aí, você vai ter que— nem, nem fia, calma aí, mas tipo assim "Tem um porquê de você estar passando por isso, sabe?" E mostrar para ela tudo que a gente fez dessa experiência e transformou ela num livro, em podcasts, em outras coisas bonitas assim, eu acho que ela ficaria tipo— Primeiro que ela ia falar tipo: "Vai tomar no cu, não queria passar por isso!" E segundo que ela ia falar tipo: "Tá, vou enfrentar isso porque eu sei que vai dar em alguma coisa importante." sabe?

É para falar para ela: você não pede para esperar, Lelinha do passado. Eu amo, gente. Estamos chegando ao fim, fui avisada aqui no meu ponto. Dá tempo de mais uma pergunta? Tá nas mãos da Niki, vamos ver. Dá? Vamos lá, última pergunta. Oi, Lela! Oiê! A gente tá quase com a mesma camiseta. Sim, eu amo essa camiseta, inclusive. Ela é tipo religiosa. É da Manu, né? Colab com a Manu. É dos Lobos, na verdade. É, colab com a Manu Xavier.

Ah, tá. Prazer, Lela, eu sou a Bela. Prazer, Bela. A minha pergunta é— meu Deus, tô muito nervosa. Respire, você está em um espaço seguro. Assim, não falando por todo mundo aqui, mas eu queria te perguntar como você se sente literalmente mudando vidas, não só através do podcast, mas através do livro e de tudo que você fala todos os dias? Oh câmera, filma minha mãe e minha cunhada, elas estão aos prantos. Bela, muito obrigada pela pergunta e pela gentileza.

Eu não tenho essa dimensão, né? Pra mim eu só tô criando e elaborando as coisas que eu tô fazendo e colocando no mundo. E é engraçado porque eu não crio pensando assim: "Isso aqui vai mudar a vida de outra pessoa". Inclusive, não sei se vocês lembram, se vocês prestaram atenção, tem um negócio que eu não sei como é que chama, epígrafe? Isso aqui? Alguém que é da editora pode me falar? É, né? Epígrafe. Vocês viram que eu tô muito autora, né?

Eu sei exatamente o que eu tô fazendo. Eu escolhi uma frase da Clarice Lispector, que ela fala: "Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha". Então eu acho que isso responde muito essa coisa de salvar vidas das outras pessoas, porque para mim eu não tô pensando e nem com essa intenção, eu tô genuinamente elaborando o que eu tô passando e tentando transformar em algo bonito que possa ou não impactar a vida das outras pessoas, mas isso eu não tenho que fazer, precisa da sensibilidade de vocês e do repertório de vocês e aonde que você vai se enganchar no meu trabalho ou não, Então também eu quero que vocês que estão aqui e quem está assistindo em casa também, tudo bom?

Tenha consciência de que se você é impactada pelo meu trabalho e sente que a vida está sendo transformada, isso é muito da sua autoria também, da sua disponibilidade de ser atravessada pelas palavras de alguém que nem sabe o que tá fazendo. Brincadeira, mas de alguém que também se disponibilizou ali para criar alguma coisa que pode ou não ser bonita, mas assim, eu sempre eu sempre funcionei dessa forma. E eu tenho duas testemunhas aqui que eu nunca funcionei na forma de aprender e guardar, ou de aprender e anotar.

Eu sempre funcionei na forma de aprender e comunicar. E eu acho minhas formas de comunicar, seja arte em parede, Reels, TikTok, podcast, e agora o livro também. Então agradeço muito mesmo. E chegamos ao fim do episódio. Se você ficou até o final, comenta aqui com emoji de— fala você um emoji de coração. O quê? Que cor? Coração azul, pode ser? Alguém falou laranja. Pode ser azul ou laranjinha? Ah, porque são as cores do Vertigem, entendi.

Tá, pode ser o azul ou laranja. E é isso, nos vemos na semana que vem, né? Porque esse episódio sai na quinta, teoricamente. Então nos vemos na terça-feira. Um beijo e tchau!

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