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O Esplendor e a Infâmia. Delgado Alves de costas: rude e ridículo, mas cheio de razão

28 de abril de 202613min
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Os melhores para a política de que fala Aguiar Branco não são os que fogem da transparência. O português preso pela morte de Lincoln. E o pianista que vai dar 15 concertos para vítimas da tempestade.

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Participantes neste episódio2
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Pedro Delgado Alves

Convidado
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Pedro Jorge Castro

Convidado
Assuntos3
  • Concertos para vítimas da tempestadeGerardo Rodrigues · Iniciativa 75 minutos de paz
  • Gesto de Pedro Delgado AlvesTransparência na política · Escrutínio político
  • História de João Maria CelestinoAssassinato de Abraham Lincoln · Conspiração contra presidentes
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Ora, e amanhã à tarde há debate quinzenal, por isso esta semana o Esplendor e a Infâmia chega um dia mais cedo, à Tarde Política, já está aqui connosco o Pedro Jorge Castro, Diretor de Juntudo do Observador. Bem-vindo, Pedro, como estás? Estou bem. Se me fizeram uma promessa, que é, por muito discórdia do que eu vou dizer a seguir, não me virem as costas, se for possível. Não dá jeito até por causa do microfone, não é? Exatamente.

Portanto, já estás aqui a dar pistas sobre um dos temas que aí vem. Vamos começar então pela Infâmia.

Ora, começamos então pelo virar de costas de Pedro Delgado Alves. Pedro, qual é exatamente a infâmia que vês aqui? Um gesto mal educado na Assembleia ou o discurso da Guiar Branco que motivou essa atitude do deputado socialista? Muito bem posta a pergunta. Estava aqui escrito só. Foi o que eu li, pronto, estava aqui.

É mesmo isso. Então, repara, no nosso passado político recentíssimo, que toda a gente tem na memória, não é preciso ver arquivos históricos, não é preciso ir ao baú, temos um primeiro-ministro que ainda está a ser julgado por corrupção, temos um ministro da Economia que recebeu uma avença do BES, temos um governo de maioria absoluta, dinamitado depois de 13 secretários de Estado e governantes terem tido casos complicados em termos de transparência e depois foi a saber que o chefe de gabinete do primeiro-ministro tinha 75 mil euros em notas.

No gabinete, ao lado dele, em São Bento, temos um primeiro-ministro atual que teve de eleições de novo por causa de suspeitas sobre a sua empresa, da Spirum Viva, tem as obras da casa mal explicadas, também com algumas suspeitas, e num contexto destes, ver o Presidente da Assembleia da República elencar aqueles motivos para as pessoas, como razões para não conseguirmos atrair os melhores para a política.

é um bocadinho chocante, deixa-me dizer-te, pelas duas razões em si. Na verdade, o que ele diz é que, ou o que ele dá a entender, é que os melhores não estão disponíveis para ir para a política porque não estão disponíveis para entrar num reality show. De certa forma é isto. Dando a entender que o nível de escrutínio é elevadíssimo e que nem é para se sujeitar a isso. Ora, se não estão para se sujeitar a isso, não são os melhores. Logo, para mim, este é o ponto de partida básica.

admito que os políticos são malpados e que isso sim é uma questão que eles não conseguem discutir sem ser envolvida num manto de populismo e portanto ninguém quer levantar isso, o tempo que demoraram para eliminar o corte

dos vencimentos dos políticos, é sintoma disso mesmo, mas eu também não espero que alguém vá para a política por dinheiro. Também não serão esses os melhores, seguramente. Aliás, quem analisar um bocadinho da história política recente do país vê que...

mesmo quem se interessa por dinheiro e por ganhar dinheiro, sabe que o dinheiro vem depois, eventualmente, de exercer um cargo político. Depois é que acabam por ser convidados para conselhos de administração, onde são muito mais bem remunerados. E a contraparte disso é facilitar os contactos que acumularam durante o exercício do poder.

Mas, portanto, eu espero que os melhores sejam aqueles que vão por convicção. Pode ser por ego também, claro, é preciso ter uma grande dose de ego, de que se vai conseguir contribuir para fazer alguma coisa do país, enfim, para mudar alguma coisa, para melhorar as condições de vida dos outros.

E não há nada mais nobre do que isso, na verdade. Isso é motivo suficiente para as pessoas irem para a política e eu espero que seja esse o principal aliciante para as pessoas se candidatarem a isto.

Quem tem medo do escrutínio, quem não está para prestar contas sobre algumas coisas que tenha feito, quem não quer indicar os conflitos de interesses que tem, quem receia tudo isto, simplesmente, lamenta, então, não tem as características para desempenhar as funções políticas da melhor maneira para todos.

Logo, no dia a seguir a isto, dois dias depois, viemos a saber esta história de Álvaro Santos Pereira, que eu até já elegei aqui pelas suas partilhas de serviço público no X, sobre outros temas.

E ficámos a saber esta história extraordinária de ele ter feito os negócios de ações, ter comprado ações da Calp e da Jornal da Martins, dois meses depois de ter entrado no cargo, de ter tomado posse deste cargo. E, caramba, isto é um caso que, para mim, há aqui qualquer coisa mal explicada, porque custa mesmo a crer que ele não soubesse, ou que não tenha tido noção do problema que estava aqui. Há de haver uma explicação qualquer que, se calhar, ainda é pior do que isto, não é? Na verdade, atenção.

Eu percebo que lhe fica mal vir dizer, olha, não sabia, fui surpreendido e já está resolvido. Neste momento, para já, esta é a verdade oficial. Eu acho estranho que ele, que estava tão participativo nas redes sociais, não tenha vindo já com um estudo sobre, precisamente, o nível de transparência dos governadores de bancos centrais ou algo desse género.

mais tarde ou mais cedo ele vai ter que dizer alguma coisa sobre isto. Estranho muito. Não sei se está de férias, o que é que pode ser. É impossível continuar na vida pública sem dar esta explicação, por muito que custe e que tenha-se feito depois no resto da sua credibilidade.

Vamos agora ao gesto de Pedro Delgado Alves. Foi ridículo? Foi. Aquela imagem dele de costas, não é? Ver Pedro Nuno Santos assim a olhar de lado a tentar desviar-se para ver o caminho. A cara de Isabel Moreira também, ambos meio incrédulos, mas que até com uma pontinha de inveja de não terem sido eles a fazer aquilo. Portanto, expôs, de certa forma, ao ridículo, sim. Perdeu, diria quase para sempre, a possibilidade de acusar o Chega de faltas de educação no plenário.

Se toda a bancada do Chega agora de repente decide virar-se de costas, seja para quem for naquele plenário, alguém vai estar ali a dizer piu-piu, não pode criticá-los por essa conduta, porque lhe será logo apontado o dedo.

foi ridículo, foi falta de educação sim, eu percebo que seja interpretado dessa maneira mas é o mundo em que vivemos neste momento aquilo que foi a forma de ele chamar a atenação claro que ele poderia ter dito depois poderia ter vindo falar disto depois em declarações cá fora, enfim se calhar não não sei se teria direito a um artigo de opinião no público dia a seguir, não sei se viria o explicador na manhã seguinte a falar sobre isto se calhar nem nos iríamos a perceber eu consegui

Assim ele marcou um ponto de uma forma indubitável. E o ponto, no ponto ele tem razão. Independentemente dos pecadinhos dele no percurso da luta para a transparência, dos momentos em que foi menos claro neste debate e nas propostas que fez.

Ele tem razão no ponto, não é? No ponto da exigência, do escrutínio, da transparência, nós não podemos abrandar nisto, não é? Eu creio que ninguém compreenderia, no estado em que nós estamos, no estado em que está a nossa democracia, com esta sequência de casos, que se diga que a redução do escrutínio é que vai fazer com que venham pessoas melhores para a política.

O problema não está nos escrutínios, está naquilo que o escrutínio encontrou. O problema está nestes casos todos que foram encontrados. E, portanto, tendo arriscado um gesto que pode ser visto desta maneira ridícula, acho que há aqui um ponto.

que ele tem na questão de princípio. Claro que isto vai perseguir o resto da vida. Assim que ele for apanhado em qualquer coisa, lá está. O deputado que virou costas, afinal, tinha ali qualquer coisa a esconder. Mas eu acho que ele tem razão no essencial aqui e a Guerra Branca não tem razão nisto. Acho que ele está a ver mal o ponto, tudo a favor de atrair os melhores para a política, mas se isso implicar coisas esquisitas e facilitar portas giratórias e tudo isto, acho que estamos mal.

E vamos agora ao baú, a propósito do atirador detido quando se aproximava de Donald Trump no jantar dos correspondentes. Trazes aqui a história de um português que esteve preso por suspeito a tentar matar um presidente norte-americano. Já me deixaste curiosa, conta-nos tudo sobre isso. Então recuemos a 1865. É lá. Foi mesmo. O ano em que Abraham Lincoln foi assassinado por um ator no seu camarote, estávamos ali mesmo no fim da guerra sul-americana, ele estava a assistir uma peça de teatro, o atorciavek światowy.

praticamente ganha e ganha a guerra, não? À mesma hora, o outro conspirador entrava em casa do secretário de Estado, William Seward para o apunhalar, e dias depois foi então preso o português João Maria Celestino, também conhecido como Capitão Celeste, 38 anos há imagens da época que o mostram com um bigode imponente e um chapéu

Esta detenção, a mando do chefe de serviços secretos americanos, foi notícia do New York Times. Este Celestino, a ocupação dele era comandar uma embarcação que tentava furar o bloqueio naval imposto aos Estados do Sul na Guerra Civil Americana, portanto para os abastecer de bens comerciais. Há relatos que o apontam como traficantes de escravos, mas também descrições que andava a passear a cavalo pelas ruas de Washington em grande estilo, com o corpo carregado de ouro.

Ele conhecia dois dos conspiradores que andavam a fazer planos para eliminar o presidente americano e na noite do atentado, horas antes de matarem o secretário de Estado e de matarem Lincoln também, ouviram o Capitão Celeste a dizer que queria matar o secretário de Estado americano. Ouviram isto. Ele estava a caminho de Filadélfia, foram prendê-lo a Filadélfia, teve 82 dias preso em solitária, em condições bastante severas. Ele tinha de usar um gorro.

almofadado, apertado no pescoço, isto para não se matar, porque outro dos conspiradores tinha desatado a dar cabeçadas nas grades e suicidou-se. Estes prisioneiros tinham também preso aos turnos de luz uma bola de ferro de 34 kg, que tinham de arrastar-se cada vez que se movimentavam. Isto é bastante impressionante.

Bom, quatro dos conspiradores foram enfrucados, o que o português só fosse. Os detetivos não conseguiram provar a sua ligação ao crime, mas frisaram que ele era perfeitamente capaz de conspirar contra o presidente. O capitão Celeste pediu uma indenização de 100 mil dólares, que é uma fortuna gigantesca, à documentação no arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que indica que, de facto, ele terá recebido alguma quantia, também às espeitas que tenha colaborado com os serviços secretos, dando informações sobre os conspiradores. Isto acabou com ele, rico.

e sendo avistado anos mais tarde em São Paulo, do Brasil. É um belo baú. Um belo baú.

Ora, e hoje passa um ano sobre o apagão e três meses sobre o início do comboio de tempestades, é um dia cheio de efemérides. Fico por isso intrigado, Pedro, sobre como vais dar a volta a este ponto de partida para encontrar um lado esplendoroso. Pois é, o ponto de partida é triste, de facto. O apagão não há um ano, ainda estamos aqui a apurar responsabilidades, ainda nem sequer foi definido juridicamente o que é que aconteceu, o que tem impacto depois para apurar indenizações.

das tempestades há três meses, ainda nós hoje de manhã ouvimos aqui na rádio a propriedade de um restaurante, a dizer que seis dias depois tinha papelada toda em entrega aos seguros para fazer uma peitagem, ainda não tem resposta, vai acabar com um processo em tribunal contra a seguradora, isto não é caso único será muita gente que ainda não conseguiu resolver os problemas, portanto, para pagar os estragos com as seguradoras enfim, isto para lá das pessoas que estão em sofrimento eu consegui

pela perda de familiares, seja vítimas diretas da tempestade, seja das pessoas que eram telhadas, enfim, tudo isto. Pois bem, neste contexto, apesar de tudo, há aqui uma luz que eu vi, que é em 15 freguesias de leiria, afetadas pelo mau tempo, vamos ter conceitos do pianista Gerardo Rodrigues em igrejas, auditórios e espaços municipais.

Isto é uma ideia do artista, desenvolvida depois em conjunto com a Câmara de Leiria. Os concertos vão ser gratuitos, o próprio pianista paga as despesas, portanto, abdica de qualquer cachê, vai apenas haver aqui um custo dos direitos de autor, portanto, a sociedade de autor vai receber a sua parte. Os concertos começam a 8 de maio, depois prolongam-se pelo resto de maio e junho, e olha, acho tudo feliz aqui, o altruismo do pianista, o intervalo que vai ser propiciado às populações afetadas, no meio de tantas preocupações.

E o próprio nome da iniciativa, que é 75 minutos de paz. Acho que merecem todos. Eu próprio vou tentar lá dar um salto. É sem dúvida uma iniciativa, enfim, que para quem tem sofrido tanto nestes três meses, acaba por ser importante. Também sabes o que é que se está a falar. Claro que sim. O Pedro Jorge Castro regressa na próxima semana com mais um Esplendor e a Infâmia.

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