Episódios de Não é o fim do mundo

#72 Não ser mãe não é o fim do mundo

07 de maio de 202629min
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"Você não entende porque não é mãe", "depois de ser mãe eu descobri o que é o amor." Nesse Dia das Mães, Jô e Nina imploram: sejam menos opressivos com quem não é mãe. Feliz não dia das mães para todo mundo!

Assuntos4
  • Dia das MãesPressão social para ser mãe · Maternidade como papel principal da mulher · Discurso de "descobri o amor após ser mãe" · Críticas a mães que não se encaixam no ideal · Mães de pet e mães de planta como alternativas
  • O papel da maternidade na sociedadeMaternidade como experiência definidora da mulher · Crítica à frase "você não entende porque não é mãe" · Adoção como alternativa à maternidade biológica · Desejos não realizados e a vida adulta
  • Viagem caótica de NinaProblemas com a companhia aérea Decolar · Perda de conexão e necessidade de ônibus · Interação com robôs e humanos em busca de solução
  • Clichês e posts de Dia das MãesPost autocongratulatório da mãe · Post de agradecimento ao pai no Dia das Mães · Posts de pais elogiando a mãe dos filhos · Conceito da "mãe suficientemente boa" de Winnicott
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No Rio de Janeiro, a sensação térmica chega a 60... Repete o pecado e o diabo... Ai, que loucura! Ai, que frio! Não é o fim do mundo, um podcast em tempo de apocalipse climático e existencial.

Alô, terráqueos, está no ar mais um episódio do podcast Não é o Fim do Mundo, o seu papo em tempos de apocalipse climático, existencial e também apocalipse das viagens, né, Nina? Estou aqui dormindo e Nina Lemos não está em Berlim, gente, ela está em Piraí, mas a muito custo, né, Nina?

Gente, estou no Brasil, mas basicamente eu fiz o caminho das Índias. É uma coisa muito inacreditável, gente. Eu falei para as duas vezes, eu acho que as coisas acontecem comigo, para eu ter assunto para contar no podcast. Só que só coisas horríveis. Basicamente, decolar...

Vocês são horríveis, não comprem pelo decolar. Comprei uma passagem, era Berlim, Amsterdã, Amsterdã Brasil. E eles esqueceram de comprar a minha passagem de Berlim para Amsterdã. E eu descobri, na hora que eu fui fazer o check-in, na véspera, eu fiquei 12 horas brigando.

com robôs, que inclusive é um tema que a gente vai se aprofundar no próximo episódio. Não serve pra nada, gente. Tudo que você faz é ficar implorando robô pra você falar com o humano. Então eu fiquei 12 horas falando com humanos, com robôs, e eles não resolveram a minha passagem, que eles esqueceram de comprar. E eu tive que pegar um ônibus para a Dor, de Berlim, para Amsterdã, que ainda fez conexão em Hamburgo. Ou seja, um pesadelo pra depois ainda encarar uma viagem de avião. Umas 30 horas viajando.

Mas você chegou a tempo de passar o Dia das Mães com a sua mãe, não é, Nina? Sim, não passo o Dia das Mães com a minha mãe há muito tempo. E de vivenciar todo o lado opressivo que essa data tem no Brasil. Eu acho que aqui é pior que na Alemanha, na Alemanha é menos, eu acho, sabe? Porque aqui o Dia das Mães, gente, é um grande surto, não é? E não é igual o Dia dos Pais, já reparou? É um grande surto, hordas de pessoas indo para a churrascaria, rosas.

churrascarias lotadas. E com o advento da internet, ficou ainda pior, não é? Cara, é muito opressora. Vamos deixar claro, antes de tudo, que nós não temos filhos, nós não somos mães. Nós somos mães de gato. E aí vão brigar falando que não existe mãe de pet. Então, a gente não é mãe de pet, mas, na verdade, a gente é sim, apesar de serem coisas diferentes. Você acha que você é mãe de pet?

Eu não me considero mãe de pet, é uma relação diferente. Só que eu tenho aquela teoria, lembra? Das mães de pet e mães de planta ou mães do que quiser. A gente vive numa sociedade onde a mulher que não tem filhos, ela é diminuída e é como se o papel dela no mundo fosse incompleto. Total.

Tanto que tem aquela coisa, a maternidade, é o meu grande papel, só entendi o que era amor quando tive filho. Tem todo esse pacote que vem de todos os lados, não só do lado mais conservador da sociedade. Todos os lados. E aí eu acho que o advento mãe de Pet surgiu também a partir de pessoas que talvez, inconscientemente falaram...

É obrigatório, então, ser mãe para eu existir? Então, eu vou ser mãe de samambaia, de pet. De bebê reborn. Até o bebê reborn pode ter a ver com isso também? Total. Então, eu acho que a pessoa é mãe de quem ela quiser. Eu também acho.

E no mundo que a gente pode ser o que quiser, parece que esse lugar da maternidade, que é um lugar super construído, óbvio, mas parece que ainda é um lugar meio intocável, é um tabu ainda, né, Nina? É um tabu e, assim, para a gente que não é mãe, já não tem nem mais idade para ser, a gente até poderia adotar, é claro. Quando chega o dia das mães, eu vou confessar, eu me sinto oprimida.

E eu tento fugir do Instagram. Porque é um saco. Porque tem uma coisa assim, gente, amamos crianças, amamos nossas amigas mães, lutamos pelo direito das mães, queremos que elas tenham direito à licença maior, que elas possam cuidar dos filhos. Toda a pauta que envolve maternidade, que favorece as mães, a gente é super a favor e estamos juntos. Pra caralho. Totalmente. Só que tem um lado sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem culpa sem

que é isso que você estava falando, que tem uma grande inspiração de pessoas que meio que acham que são melhores que as outras só porque elas são mães. Essa coisa do amor me pega muito. Tipo, eu descobri o que era amor agora que eu sou mãe. Inclusive, porque o amor é um sentimento subjetivo, né? Então, o que é você sentir amor varia de pessoa para pessoa, não é uma coisa científica. Todos os amores que eu sinto ou sentia...

Talvez sejam diferentes de todos os amores que você sente ou sentiu também. Não dá para medir. Não dá. Eu acho que é opressor com outras mães, entendeu? Porque vamos supor, finge que eu sou mãe. E eu não tenho esse grande sentimento do maior amor do mundo. Eu curto meu filho, gosto dele, beleza. Mas eu não sinto como se fosse... Falam como se fosse... Sabe filme que Jesus aparece no céu, O Grande Amor? Sim. Entre nuvens aparece o grande amor falando, agora você é mãe.

Agora você descobriu o grande amor. Se você, mãe, não vê esse Jesus do grande amor descendo do céu, você se sente inferiorizada e começa a achar que tem alguma coisa errada com você. É um tipo de narrativa e de discurso.

que é um grande clichêzão. Conservador. Conservador. E daí tem isso que eu também amiguinho daquela frase Minha Melhor Versão, que é o grande papel da minha vida. Ai, odeio. São lugares parecidos. De repente, parece que abre a portinha do clichê. Claro que você ter um filho da barriga ou não pode ser uma experiência avassaladora.

e que pode dar vazão a milhões de pensamentos e insights e tudo. Mas é muito doido que tudo isso se resume a um bando de clichê, que é isso, é o papel da minha vida, aprendi o que era o amor, é o amor incondicional. Eu odeio também. Você não entende, porque você não é mãe. Ai, que ódio.

Cara, não usem essa frase. Por favor, vamos fazer um apelo. Você pode até pensar isso. Agora, se você está perto de uma mulher que não é mãe, você não precisa falar isso. Imagina se eu viro para uma mãe e falo assim, você não sabe isso, né? Você não é mãe. Você não, não é mãe.

É, e isso serviria para tudo, porque isso interdita qualquer possibilidade de troca com o outro, porque ninguém sabe do outro, cada um está no seu corpo, né? É, total, total. É, total. É, total, total. E purificado individualmente. Em todos esses anos não sendo mãe, a gente já ouviu muita coisa tenebrosa, sabe? Nossa, total. Eu tive um namorado que, primeiro, uma coisa que era horrível, que eu tinha 35 anos e tinha vontade de ter filho.

E ele ficava falando, eu não vou ter mais filho, que ele já tinha um, não vou ter, não vou ter, na minha frente, que é um saco, né?

Aí num jantar com vários pais, aí virou um e falou assim, vocês não sabem o que eu sinto agora, agora eu entendi a mortalidade. Ô gente, uma pessoa precisa ter um filho para entender que vai morrer um dia? É, é muito doido.

É óbvio que a gente vai morrer. E tem uma coisa curiosa que é quase uma cobrança, quase como se a gente tivesse como não-mãe ter que dar satisfações ao mundo o porquê que não somos mães, né? Cara, e eu vou falar uma coisa já, Ju, que...

Eu quero pedir uma desculpa para a Patrícia Pilar, que não ouve esse podcast. Desculpe e agradecer, porque uma vez eu fiz uma entrevista com ela para a TPM e eu fiz essa pergunta. Porque eu... Idiota, Nina. Que pergunta horrorosa, mas eu fiz.

E ela me deu uma resposta que mudou a minha vida. Fala. Que me salvou. Que eu, em algum momento, fiz a estúpida pergunta. Falei, ah, mas você... Por que você não teve filho? Ou você não se arrepende de não ter tido filho? Você nunca quis ter filho? E ela respondeu, eu acho que eu nunca quis. Porque se eu quisesse muito, eu teria tido. Ah, gênia! Gênia! E essa frase mudou a minha vida, sabe? Qualquer questão que eu poderia ter em relação ao fato de eu não ser mãe, eu resolvo com ela.

Porque se o meu desejo de ser mãe fosse realmente muito forte, eu seria jovem.

Sim, e eu acho que a vida é também a gente lidar com querências, desejos não realizados, também faz parte. Por exemplo, vou dar um exemplo da minha vida. Eu fiz uma coisa muito louca e muito difícil, que é mudar de país, e que as pessoas falam depois dos 40 anos, como se fossem também grandes coisas. Eu obcequei que queria morar em Berlim, e eu fui e morei em Berlim.

que é uma coisa bem difícil. É claro que eu queria mais morar em Berlim do que ter filho, você entende? Entendo. Porque se eu quisesse ter filho tanto quanto eu queria morar em Berlim, eu teria tido uma gravidez independente, eu teria adotado, que é uma coisa que eu já pensei muitas vezes, que eu acho que eu faria muito. Eu acho que talvez se eu tivesse filho seria por adoção.

Eu nunca tive fetiche de ficar grávida, sabe? Isso é uma coisa que eu acho que é muito pessoal. Acho que tem gente que tem essa vontade e não tem. Eu nunca tive. Eu gosto mais de brincar, de educar a criança. Eu sempre tive enteado e me dou com meus enteados até hoje. E você também, né? Eu fui ótima madrasta. Ótima!

E ótima tia das filhas dos amigos que te adoram. Ah, é, total. Adoro criança. Amamos. Também tem nada a ver, né? Achar que uma pessoa que não tem filho não gosta de criança, tem nada a ver. E eu conheço mãe que não gosta de criança. Desculpa, mas eu conheço. Agora, Jô, eu marquei aqui uns clichês no Instagram que mais irritam a gente no Dia das Mães. O post autocongratulatório. Inclusive, quem inventou esse termo, desse post, sem prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim prim

foi nossa amiga Eva Oviedo, que é mãe, da Aninha e do Ian. Mas ela acha isso a coisa mais ridícula do mundo. Que é basicamente uma pessoa que posta uma foto com os filhos e fala assim, eu agradeço muito aos meus filhos que me tornaram mãe, meu melhor papel, é o meu melhor exercício. E o que a Eva fala é assim, se os seus filhos postam, perigia das mães, beleza, né?

Você também não vai brigar com ele. Claro que não. Agora, você postar se autoelogiando por ser mãe, tipo, eu sou uma ótima mãe, esse é o meu melhor papel. Ai, é muito irritante. Desculpa, gente, se você faz isso, mas me irrita. Você não acha meio ridículo? Eu acho ridículo. Ainda tem esse plot twist, que é tipo assim, no dia dos pais, refazer o post elogiando o pai, porém lembrando também de sua maternidade. Mas tem outro delírio, Ju.

Porque também tem o post no Dia das Mães para o pai agradecendo. Que é tipo, tenho que agradecer ao fulano de tal que me ajudou a concretizar esse sonho da maternidade. Você nunca viu? Existe. A Eva que me mandou, porque a Eva foi obcecada em post no Dia das Mães que ela deu. Caraca! E post de homem também é muito ridículo, de pai, que fala, né? É...

para a melhor mãe do mundo, a mãe dos meus filhos. Ai, para mim isso é meio conto de Aya, sabe? É uma coisa assim, tão bela, recatada e do lar. Tread wife, você não acha? Total, total. A mãe dos meus filhos. E tem um que me irrita muito, que é que ele fala assim, o homem, um homem.

Um homem, que é esse ser que não está com filme muito bom no universo. Vira e fala assim, tenho que agradecer a minha esposa, que é uma excelente mãe. Quem é você para julgar, meu filho? Como se filmar mãe que se fode, né? E somos super solidárias as mães, porque se fode para caralho, muito mais do que os homens que nunca se fodem, né? 0,1% se fodem por causa da paternidade.

E ainda vão ficar falando? Você é uma excelente mãe? Foda-se, cara, quem é você para julgar? Tudo isso parte da mesma coisa que é a estrutura da internet, que é a biscoitagem, né? No fundo, é o jeito de você biscoitar com as datas comemorativas. Biscoitar e provar coisas para a sociedade, né, Jô? Tipo, ter que dar satisfação para o mundo? Eu acho que vou postar no dia das mães uma foto da minha gata e vou falar obrigada por ter me feito mãe.

Nina, você vai ter o hate, hate total. Porque também é uma piada, né? Vamos brincar também. Mas você acha que a briga da mãe de pet deu uma datada, você não acha? Acho que deu, mas eu lembrei de uma outra coisa que eu odeio. Tem um conceito do Winnicott, que é um psicanalista que está super na moda, apesar de ser bem antigo.

que ele tem o conceito da mãe suficientemente boa. E as pessoas, mulheres, inclusive desqueridas nossas, aquelas dos audinhos de estimação, passaram a usar uma camiseta escrito mãe suficientemente boa. Você entendeu a loucura? Quem está te dizendo, sabe?

Você não sabe, não está provado que você é uma mãe suficientemente boa. Eu acho isso uma loucura. Não, mas não poderia ser assim, como se fosse um manifesto? Eu sou a mãe que dá para ser, tipo, mãe possível. Não, porque a mãe possível do Winnicott não é tão assim. A minha mãe não foi uma mãe suficientemente boa, de jeito nenhum. Ah, tá, quem deveria falar era o filho. O filho, o psicanalista, entendeu? Acho que não você se autodeclarar. Mas é porque tudo vira também uma camiseta, né?

É, porque a mãe suficientemente boa é aquela que dá alguma estrutura, sabe? No meu caso, a minha me deu muitas coisas, mas uma estrutura de... Não deu, entendeu? Imagina, se eu uso uma camiseta, escrito assim, não mãe, não rancorosa. Então, mas não poderia ser um manifesto? Não sou mãe, foda-se.

Aí é melhor, entendeu? Mas assim, como se eu tivesse uma camiseta que tinha super legal. Mas é porque, no fundo, tudo é a sua existência baseada no olhar do outro, né? E eu acho que essa coisa da maternidade pega muito por isso. Porque está o mundo todo te validando ou te desvalidando a partir de uma experiência entre todas as 4 mil experiências que você pode ter na vida, uma única experiência que vai...

Sacramentar se você é uma mulher completa ou não. É, isso é muito careta. E num mundo onde quase não se permite a incompletude. Totalmente. E olha a responsabilidade. Você coloca numa criança o peso de completar a sua vida. Coitada. Ninguém devia carregar esse peso.

Agora, Jo, só vou fazer um parênteses aqui, que o post autocongratulatório tem um que eu aceito, que é o da mãe solo. Entendeu? Quase 50% das mulheres do Brasil são mães solo, das mães. 11 milhões por aí. Então, eu acho que se você tem toda a carga fodida dentro de você e no Dia das Mães você posta, eu aceito. Você não acha, não?

Eu aceito que a pessoa poste o que ela quiser, mas eu também aceito que, provavelmente, esse dia eu não vou entrar nem no Instagram. Mesmo que a gente lute contra isso, consiga verbalizar e ter um papo, é opressivo, né? É muito. E é opressivo pela pressão mesmo da sociedade, e de se olhar no outro, o outro tem ou não tem, da competição. Eu tenho a impressão que eu, como você, a gente se conhece muito.

que a gente é muito bem resolvida com o fato de não ter filho, né? Eu acho que eu já tive, né? Já tive quereres e não quereres e inúmeras situações envolvendo isso, mas eu acho que... Eu já tive um casamento, tão pior casamento do mundo, claro que, né? Pode ter vários, mas assim... E que alguma grande parte disso, ter ficado, né? Quando você olha, você fala, gente, porque eu fiquei, né?

Sim. Era um desejo de resolver, entendeu? Gente, então está resolvido, entendeu? Tenho essa família, tá? Total. Tenho essa família, tenho meu enteado, posso talvez ter um filho, né? E foi um casamento horroroso, merda, né? Imagina se você tivesse tido filho com essa pessoa.

Ele teria sido abandonado. Teria sido abandonado. Ele abandonou meu escarço. Ah, vou falar, Jô. Se alguém pegar, pegou, mas eu vou falar. Mas você vai falar o nome? De ninguém, jamais. A pessoa que eu mais tive próxima de ter filho é um cara super legal, que eu adoro. Sim. Mas que é alcoólatra.

E o meu pai era alcoólatra, entendeu? Então, eu faço análise há 30 anos, né? Para tentar não repetir. Terminei com essa pessoa por isso, basicamente. Então, Jô, olha como é bom que a gente não teve. Porque você teria tido filho com uma pessoa que já teria sumido no mundo.

E eu teria tido filho com um alcoólatra que ia fazer eu reviver meu trauma infantil. Quando você olha e fala assim, o custo de eu fazer parte dessa sociedade que impõe eu ter uma família ou um filho para eu ser validada é eu me fuder muito, porque foi o que aconteceu. Eu acho que eu falei, cara, nenhum filho, nenhum sonho, nenhum...

ou nenhuma satisfação que eu tenho que dar para a humanidade, vale isso. Eu acho que para mim é um pouco parecido. Nos 30 e poucos anos eu tive muita vontade de ter filho, mas eu também nunca corri atrás de ter filho, entendeu? Eu nunca me esforcei para ter filho. Nem ficar num casamento a mais por causa do filho, não. Eu sempre chutei o balde e falei, não, quero mais ficar com essa pessoa, tchau. Então eu acho que eu queria, um lado meu queria, porque eu realmente adoro criança. É por isso, porque eu adoro criança.

Mas eu acho que o lado principal, não, entendeu? Então, eu acho que eu sou realmente como a Patrícia Pilar. Se eu quisesse ter tido, eu teria tido. Então, eu acho que eu não queria muito.

E agora tem uns movimentos legais, que é tipo assim, as mulheres finalmente podendo falar e se abrir, falando que elas se arrependem de ter sido mães, e são muito julgadas. Mas é claro que todos os relatos que eu sempre li sobre isso, não era que elas não amam o filho ou a filha. Elas viram que é uma roubada.

mas elas viram que era uma roubada. E também o número de mulheres que não querem mais ser mãe está aumentando. Tem até um nomezinho, geração no more, tipo no mother. E aí eu vi um dado que era 30% das mulheres no Brasil, inclusive o Brasil está na maior mudança geracional, onde a gente deixou de ser aquele país do futuro, de jovens para se tornar um país...

realmente de pessoas mais velhas, está tendo essa mudança demográfica, porque as pessoas estão tendo muito menos filhos. Então, a população está envelhecendo, tendo menos filhos, e isso está no pacote. Eu, sinceramente, atualmente, só vejo vantagens, sabe? Porque, assim, eu acho que posso morar onde quiser.

E tem uma coisa que também pega muito, e acho que para você também, que é assim, se a gente tivesse filho, a gente ia ter que aceitar trabalhos horríveis. No mundo liberal, capitalista horroroso, eu acho que isso conta muito para mim. Não, total. E já é difícil para caramba, né, Nina? Porque o mundo está em tão ladeira abaixo. Está tão difícil, Jô, que eu acho que a gente, nos últimos tempos, já falou isso várias vezes.

Se tivesse filho, como seria? Mas pelo menos a gente não tem filho. Nossa, porque realmente... Não tem que me preocupar com isso, porque pelo menos a gente não tem filho. É, e acho que tem uma outra coisa, voltando às coisas bizarras, que justificam a maternidade, que é esse narcisismo da pessoa querer que ela seja...

continuada a genética dela. Gente, isso eu acho quase eugenista. É muito doido, não é? Acho que tem isso. Eu acho que esse nosso podcast é sobre o fim do mundo, com o fim do mundo tão perto também.

É muito doido você pensar que, provavelmente, as pessoas que estão tendo filho agora, que os netos e os bisnetos já vão estar no inferno, né? Jô, não é netos e bisnetos, não. A gente vai estar com filhos. A gente. A gente vai estar, pelas nossas contas, 30 anos. A gente vai estar com 80 e cacetada. Pois é. Então, também... Isso significa, por exemplo, meus enteados, tá?

Se forem 30 anos, a ESC, ela tem 19. Ela vai ter 49. E isso não é coisa da nossa cabeça, gente. A gente não é maluca, não, tá? A gente está falando de estudos científicos, que a gente já falou exaustivamente nesse podcast. Não é assim.

Exatamente, o mundo acabou, mas vai ficar muito mais fícil, vai ter muito mais tragédia climática, vai ter refugiado climático, vai ter briga por água, por recursos mais do que já tem, vai piorar. É daquele ladeira abaixo. E isso não é uma justificativa para que a pessoa não tenha filho, porque o filho também, você botar novos seres no mundo, pode ser um sopro de esperança ou o que for. É, força e desejo, né?

Exatamente, não é nem para um lado nem para o outro, porque eu já vi nas redes sociais altas tretas dessa nova briguinha, que é isso, entendeu? Pessoas falando que ninguém mais pode ter filho que o mundo vai acabar contra os outros que querem o filho que vai salvar a humanidade. É o novo mãe de pet. É, é o novo mãe de pet. Então, a pessoa que quer ter filho no fim do mundo, tenha, não é nenhum juiz. Não, gente, cada um faz o que quer. Eu só acho que libera a gente um pouco dessa angústia.

Eu aceito o fim do mundo com mais tranquilidade, que eu aceito que eu sou mais colapser, entendeu? Porque ninguém está fazendo nada para diminuir o risco do mundo se fuder, pelo contrário, está rolando a guerra, o genocídio.

queima de combustível fóssil. Os milionários do mundo e donos do mundo estão matando o mundo. A raça humana está se suicidando. Mas eu acho que eu aceito isso com mais facilidade, por exemplo, que o Guerd, meu parceiro, que tem filho.

Com certeza, sim. Eu acho que é mais fácil colapso. Claro, você não vai ficar imaginando o que vai acontecer com as suas próximas gerações, porque não vão ter e está tudo certo. Não sou a última bolacha do pacote, que a minha existência tem que ser imaginariamente. Imaginariamente.

replicada num outro ser, porque esse grande legado que sou eu tem que continuar. Eu sou a importada da pessoa. Não quero que ninguém pegue esse problema de mim. Agora, gente, não briguem com a gente, amigas mães, porque isso não é disputa. E a gente está super do lado das mães. A gente é super...

Sim, mas a gente também tem direito de não ser mãe, ser respeitada, entendeu? Respeitada, exatamente. E assim, façam uma coisa boa, sabe? Parem de falar aí que você vai ver com as pessoas que têm filho um dia, elas são mais empáticas. Não, gente, olha quanta gente horrível que tem filho. Bolsonaro!

Não, é uma loucura isso, realmente. O Bolsonaro, a Michelle Bolsonaro tem filho. É, não, outra coisa que eu odeio é isso, como se o fato de você ser mãe ou até ser pai te transformou numa pessoa melhor. Então temos um problema, né? Temos um problema horrível, porque olha como as pessoas são horrorosas.

Para você ser uma pessoa melhor, você precisa de um estímulo. E esse estímulo não funciona. Sabe por quê? Quantos filhos tem o Elon Musk? É, porque as pessoas pediam ser igualmente melhores ou piores. As pessoas são esse bololô, exatamente. Se a maternidade tivesse transformado o mundo todos em pessoas melhores, estava todo mundo abraçado.

esse fim do mundo, né? Nem teria esse podcast, porque a gente não ia ficar falando sobre o fim do mundo. Agora, se você é mãe, parabéns. E é o que a Nina falou, a gente está juntona nas lutas. Nossa, totalmente. E até porque para as mulheres está cada vez pior, né, Nina? Além de todo o noticiário contra você.

Você lê e fica em depressão, né? Porque está realmente, todo dia você liga a televisão, é morte atrás de morte, né? E de feminicídia é um negócio que está descontrolado. Ainda tem dados muito bizarros. Um deles é horroroso, que a desigualdade salarial entre homens e mulheres voltou a crescer no Brasil. Como é que pode, Ju? Como é que pode? A gente recebe em média...

21% a menos que os homens na mesma função. Isso é bizarro, não é? Eu acho que a gente, inclusive pessoalmente, ainda continua recebendo menos. Claro, claro. E outro dia você me mandou uma matéria para a gente comentar aqui no podcast, que era sobre como essa coisa das tragédias climáticas...

vão aumentar, era uma matéria do Guardian, falando que realmente as mulheres iam ser as maiores vítimas, e claro que dentro dessa coisa das mulheres também tem todo um outro recorte racial e social também, então as mulheres negras, indígenas, iam ser mais vítimas ainda, e falava muito dessa coisa do peso.

do peso a mais da mulher, porque a mulher é que vai cuidar dos filhos, a mulher é que vai cuidar dos pais, a mulher é que vai cuidar dos outros. Do sogro. Do sogro, de qualquer pessoa, sempre vai recair sobre as mulheres.

sempre, os netos, que tem muitas crianças que são criadas pelas avós. Nossa! E daí eu cheguei numa frase de uma pesquisadora que eu fiquei muito chocada, Nina. Essa responsabilidade múltipla significa que as mulheres tendem a priorizar a segurança dos outros, o que pode atrasar a sua própria fuga e aumentar sua exposição a riscos. Olha que loucura!

Cara, que tipo assim, as máscaras de oxigênio cairão, colocam primeiro sobre você. Aí a mulher não resiste, vai lá, começa a botar máscara em todo mundo e morre sufocada. E é muito louco, né, Ju, nessa matéria. Eles têm um outro dado importante aqui, interessante, que eu achei, a gente pode até publicar o link nas nossas redes sociais, que é bem legal, que fala que o Brasil virou tipo um laboratório do futuro da crise climática. Sim.

que essas tragédias repetidas no Brasil mostram como vai ser o futuro, que o futuro vai ser isso cada vez mais constante e cada vez mais em todo canto, que é trágico, né? E os últimos dados de clima, etc., que a gente traz aí no próximo episódio, porque senão vai ficar muito longo, são terríveis, né, Ju? Mas é muito louco a gente ter desvantagem até no fim do mundo, né?

Então, feliz Dia das Mães para quem é mãe, façam seus posts, porque cada um também faz o que quiser. Ah, e boa sobrevivência, né? Para quem não é mãe, vai ter que sobreviver esse dia. Eu quero dar feliz dia. Vou dar diferente.

Feliz Dia das Não Mães. Sim. Eu também. Eu também quero colar no seu. Então, Feliz Dia das Não Mães. É tipo o desaniversário da Alice, né? É, desaniversário. Feliz Dia das Mães. Feliz Não Dia das Mães. Feliz Dia das Mães. E até semana que vem.

No Rio de Janeiro, a sensação térmica chega a 60 anos. Repete o pecado e o diabo. As chances de vencer o aquecimento... Ai, que loucura! Ai, que frio! Ai, que frio! Não é o fim do mundo. Um podcast em tempo de apocalipse climático e existencial.