A identidade que te deram não define quem você é - Trajetórias
Neste episódio do Trajetórias, recebemos Fernanda Reis para uma conversa profunda e inspiradora.Sua história é marcada pela superação de contextos de extrema vulnerabilidade social e por desafios vividos dentro da própria família. Ainda assim, Fernanda constrói uma trajetória potente: torna-se fisioterapeuta, constitui sua própria família e trilha o caminho da vida acadêmica. Hoje, no doutorado, desenvolve pesquisas de grande relevância social.Uma narrativa que atravessa dor, fé e resistência — e revela a força de uma mulher que transforma sua história em potência.Venha se emocionar com esse encontro.Curta, compartilhe e inscreva-se no nosso canal!
Débora
Fernanda Reis
- Identidade e RepresentatividadeTrajetória de Fernanda Reis · Vulnerabilidade social · Identidade e fé
- Desafios da MaternidadeExperiência de ser mãe · Impacto da maternidade na carreira
- Pesquisa Científica e SaúdePesquisa sobre Covid-19 · Importância da atividade física
- Igualdade de GêneroMachismo estrutural · Mulheres na ciência
Olá, pessoal! Tudo bem? Aqui quem fala é a Débora. Bem-vindo a mais um Trajetórias. E iniciando o programa de hoje, nós vamos ler um poema de Rappi Kaur.
Acima de tudo, ame. Como se fosse a única coisa que você sabe fazer. No fim do dia, isso tudo não significa nada. Esta página onde você está, seu diploma, seu emprego, o dinheiro, nada importa. Exceto o amor e a conexão entre as pessoas que você amou.
E com que profundidade você amou? Como você tocou as pessoas à sua volta? E quanto você se doou a elas?
Então assim nós começamos mais um Trajetórias. Estou muito feliz de receber a Fernanda, uma amiga de muitos anos, para a gente conversar sobre a história dela. É uma história muito bonita, de muita superação. Fê, ela está no doutorado. Conta para a gente um pouquinho do seu currículo, como é que estão as coisas, depois a gente começa a voltar no tempo.
Bem, atualmente eu sou doutoranda em ciências da reabilitação na área cara de pulmonar. Tenho mestrado na mesma área de cara de pulmonar. Trabalhei com pacientes com Covid na época da pandemia.
Tenho residência em Oncologia, pós-graduação em Obstetrícia e agora acabei de receber o título de especialista. Fiz uma prova de título de especialista pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Fisioterapia Respiratória. Maravilha, isso é demais. A sua carreira de formação, a sua profissão de formação? Fisioterapeuta. Fisioterapeuta. Especi do principal.
Conta pra mim, eu quero ouvir tua história, que a nossa proposta é ouvir a sua história, a sua trajetória, a partir da sua perspectiva. Conta pra mim como que foi a tua infância, como que essas coisas que aconteceram na tua infância foram formativas pra você, te formaram essa mulher maravilhosa que você é hoje. Bem, no início da trajetória...
Foi completamente sem expectativa, porque eu tenho um irmão que é brilhante, eu tenho muito orgulho dele, só que por termos idades muito próximas, um ano só de diferença, e ele...
ter um QI mais elevado, ele sempre foi o foco da educação, das poucas oportunidades que tínhamos, se alguém fosse ser eleito para ter uma oportunidade, seria ele, ele tem completo mérito em tudo que ele conquistou, em toda a carreira dele, e foi uma inspiração para mim, a carreira dele.
Contudo, não ele, mas as pessoas ao redor, os familiares ou os professores, faziam comparações entre mim e ele, e sempre me inferiorizando.
Então, até o meu encontro com Cristo, eu nunca fui uma boa aluna, sempre de medíocre para ruim, porque eu coloquei essa... eu acreditei nessa identidade que me deram. De que eu era inferior, de que eu não era inteligente.
Minha mãe só ia nas reuniões escolares dele, não ia nas minhas. E os professores perguntavam por que minha mãe ia nas reuniões dele e não ia na minha. Ele começou a fazer curso de inglês antes de mim e eu tive que brigar muito. A minha mãe era faxineira em uma escola de inglês. Os dois teriam direito à bolsa, só que...
Se eu não me engano, demorou um ano até eu conseguir ingressar. Então, a luta é maior. Era quase uma resistência e uma luta contra mim mesma, sobre aquilo que eu acreditava em mim. E fazer dele um objeto de inspiração e não de comparação. Quando eu tive um encontro com Cristo...
E em uma briga familiar eu escutei que eu nunca ia fazer uma faculdade boa e que eu nunca iria ter um bom emprego. Eu não tive nem capacidade de reagir àquilo.
E a única coisa que eu senti no meu coração era Deus falando comigo, dizendo que eu iria ser aquilo que Ele determinasse que eu fosse. E a partir dali eu comecei a orar e pedir para Deus me dar a sabedoria de Daniel. A Bíblia fala que Daniel era um homem muito inteligente.
Então eu comecei a me dedicar aos estudos. Eu me aproximei de pessoas como você, que já era uma grande leitora. E comecei a ler os livros que tinham na faculdade e a admirar pessoas que se dedicavam à leitura, que eram diferentes, de que se aceitavam num ambiente de muita pobreza.
O que se é levado em consideração é muito a aparência. E uma das coisas que me impressionou, assim que eu te conheci, foi um dia que você falou que você não mudaria nada em si mesma. E eu falei, uau, alguém que se aceita.
por inteiro, e eu falei, eu quero ser assim, eu quero ser além de um exterior, eu quero ter algo interior.
E comecei a me dedicar a isso num ambiente ainda hostil, porque eu morava num barraco de um cômodo e nem eu nem o meu irmão podíamos ficar com a luz acesa, então a gente estudava no banheiro ou ia mais cedo para a faculdade, fora do horário de trabalho, porque eu trabalhava e fazia faculdade.
ficava até mais tarde na biblioteca estudando, porque em casa não se tinha um ambiente para estudar, e nem nenhum tipo de motivação, não recebi palavras de motivação. Quando eu passei, quando eu consegui a bolsa da faculdade...
Claro, nossa, parênteses, a Fernanda tão burrinha conseguiu. E a partir do momento que eu conseguia a bolsa, o Fernando já fazia iniciação científica e me incentivou a procurar os professores que orientavam na iniciação científica. E eu comecei ali a fazer do zero. Eu sou da área da saúde, ele é da área de humanas.
eu comecei a estudar como se estruturava uma introdução, como objetivo, tudo baseado no que ele fazia, que não era nada a ver. Mas eu lembro que o meu projeto de iniciação ficou tão bom, tão bem estruturado, que pensaram que eu tinha plagiado. Sério? Te acusaram de plágio? Levantaram suas suspeitas? Sim, levantaram suspeitas de plágio, buscaram, obviamente.
Graças a Deus não encontraram nada. Tive uns percalços no meio do caminho. Foi horrível, foi horrível.
Aí, bem, fui bem durante a universidade, me dediquei. Ainda na graduação, você está falando. Isso, isso é da iniciação científica ainda. Qual que foi o seu tema da iniciação científica? Na iniciação científica, eu entrei em contato com um engenheiro da igreja que eu frequentava e ele desenvolveu um equipamento.
de respiratório que vibrava e emitia sons para cegos. Então, o cego sabia que estava fazendo... A pessoa com deficiência visual, perdão. Sabia que estava fazendo o exercício corretamente porque o aparelho vibrava e emitia sons. Mas, inclusive, o contato era meu. A ideia era para a professora que poderia fazer um equipamento assim para cegos. A ideia era completamente dela.
E eu falei, eu vou desenvolver essa ideia. Aí, conversei com o engenheiro, ele desenvolveu o protótipo, eu testei, e foi muito trabalhoso, porque eu testei em crianças também. Então, pra você conseguir, foi quase um ano até conseguir a aprovação do Comitê de Ética. A tinha a Plataforma Brasil já naquela época? Tinha, tinha, já tinha a Plataforma Brasil. Pois é.
Então, tudo, toda a submissão na Plataforma Brasil, eu fiz absolutamente tudo. Não teve o que eu não fiz nesse projeto. Tudo redondo. Sim. Muito trabalho, porque eu não entendia nada daquilo. E eu ia tanto, eu ia pessoalmente no Comitê de Ética, porque a hora que eles davam a Devolutiva, eu nem entendi o que eles estavam questionando.
E aí eu ia lá pessoalmente para conversar com eles. Cadê essa orientadora para te orientar?
o que você precisa corrigir, o que você não precisa corrigir. Então, sempre foi um caminho árduo. A pesquisa, para mim, sempre foi um caminho árduo. Hoje, graças a Deus, na verdade, desde a residência, eu tenho ótimos orientadores, Deus me abençoa, assim, que hoje eu tenho pessoas que, de fato, me mostram o caminho, que...
são muito competentes para me mostrar no que eu posso melhorar ou por que caminho seguir. Mas desde ali a pesquisa se tornou uma paixão.
Temos pouca retribuição no Brasil, a gente sabe que o Brasil não valoriza pesquisadores. Sabemos que, se a gente for olhar no parâmetro mundial, 70% dos homens são pesquisadores, mas no Brasil, pelo menos na área da saúde, as mulheres já estão em 50%.
Mas não estamos no cargo, não estamos nos cargos de chefia, né? Então, muitas barreiras ainda precisam serem vencidas nesse quesito.
da pesquisa, para que tenha mais a nossa cara e a nossa identidade e a nossa liderança, né? Ainda faltam as mulheres estarem em cargos de liderança, receberem o mesmo financiamento que os homens recebem.
Então ainda temos um caminho árduo para seguir. Eu quero ouvir de você. Você falou que teve um ponto ali de inflexão na sua história, em que até o momento você era meio que significada pela narrativa da tua família acerca do que você era. E ali Deus fala com você, e você muda a tua perspectiva sobre você mesma, e muda também a tua forma de lidar com os estudos. E eu me lembro...
De uma vez, gente, é impressionante. Eu nunca vi uma pessoa que estuda tanto quanto a Fernanda. Agora, né? E tem... Ela escrevia cadernos, assim. Ela estudava... Eu quero que você me conte. A sua estratégia de estudo. Escrita. Conta pra mim como que é. Como que é isso?
Eu, infelizmente, adoraria ter outra forma de estudar, mas eu escrevo. Eu não posso nem falar que eu faço um resumo, eu acho que faço uma cópia dos livros, porque para mim tudo é importante. Eu já até fiz um curso em janeiro para tentar otimizar isso, mas eu ainda não consegui colocar em prática. Então, minha forma de estudar é tudo no manuscrito, eu escrevo tudo que tem de Nietzsche, quando há épocas...
E até mesmo eu tive que comprar uma impressora pra poder ficar imprimindo, porque os artigos eu imprimo. Eu gosto de... Escrever na folha, assim. Eu imprimo todos os artigos. E um tablet? Já, o Kindle tá lá juntando poeira. Eu gosto de livro físico, eu gosto de tudo que é físico. Pra escrever nos livros. Caramba, Fê.
Parece que me desconcentra, parece que eu tô perdendo conteúdo, se eu não escrevo, se eu não... Pra eu jogar aquilo no lixo é quase um crime, né? Mas morar em apartamento eu tenho que me desfazer. Ai, você joga aqueles manuscritos todos? É, uma vez por ano eu tenho que jogar no lixo. Você faz uma empresa.
Eu tenho um vídeo da Tayla brincando no pequenininho, um aninho, ela brincando com as minhas folhas. Mas eu espero concluir, por exemplo, eu dou mestrado, eu fiquei quase dois anos com o material impresso, os artigos impressos em casa, pra eu achar depois o inferno também.
Que impressionante. É tudo... Mas na época você ainda pegou a fase minha não estudiosa, né? Que era bem... Ah, eu me lembro que a gente só passou em matemática. Por que pecamos? O pecado tá na nossa história. Na nossa vida acadêmica. Lá no início. Só passamos porque uma amiga nossa, a Adriele, nos ajudou.
Mas estamos aqui. Afinal, matemática não é nosso. Na verdade, acho que foi a gente que entregou o nome dela. Ela não queria pecar. Esqueçam o nome que eu falei aqui. Porque a gente copiou de alguém. A gente colou. Gente, esquece essa parte.
melhor deixar pra lá mas enfim, pra dizer que olha aí, a nossa história começa ali de um lugar eu acho impressionante eu acho que das histórias de superação que eu conheço, é a mais impressionante você vem de um lugar de extrema vulnerabilidade social extrema vulnerabilidade social e conseguir encontrar
no relacionamento com Deus e com você mesma, ter essa ascensão e compreender a importância daquilo que você está fazendo. Eu estava meditando essa última semana na história de Davi, e quando a gente vê o início da história, por toda a história a gente vê que ele é... Ele...
Tem completo descrédito diante de todo. De todos. Você é pequeno, o irmão dele, a forma com que o irmão aborda ele, chega a falar que ele é mau caráter, você vem com más intenções. Mas Davi nunca assumiu essa identidade. Ele nunca assumiu a identidade de fraco.
E ele falou, eu vou enfrentar. Quem que é esse filisteu para desafiar o exército do Deus vivo? Então a minha oração, Deus, eu não consigo. Eu tenho limitações. Mas eu sou filha do Deus vivo. O Senhor não tem limitações, então me ajude. E nas piores matérias, que era bioquímica e biofísica, as minhas notas foram acima de nove.
E eu até ganhava pra dar aula pro pessoal que ficava de DP. Nossa, demais. Eu adoro ver essa história. Então, eu amo a história de Davi. Porque muitas vezes a gente só costuma se comparar ou com quem faz menos.
Pra poder se colocar acima. Ah, mas tem gente pior. A firma também tem gente melhor. Então, a gente tem esse mau hábito de sempre se comparar ou olhar pro outro e falar. De vez, o admirar como um objeto de inspiração.
Ser só algo de lamentação. Nossa, a Débora é tão inteligente. Eu sou tão... A Débora é muito inteligente. Débora, que livro você me indica pra ler? Então... A época eu lendo umas coisas não é da vez. O mundo de Sofia. O mundo de Sofia. Fernão Capelo Gaivota. O Fernando Veríssimo. Você leu todos. Eu li todos o Fernando Veríssimo. Você gostou também? Não, era só pra uma paquera mesmo.
Mas eu me apaixonei pela leitura Hoje você gosta de ler? Amo ler Literatura, você gosta? Eu amo, contudo, desde que eu entrei na faculdade é uma carga tão alta de livros da minha área, que eu não tenho tempo pra ler, eu até compro
Mas eu tô com uma pilha de livros, de outras, de literatura, que eu não consigo ler. Porque você se absorve completamente. Completamente com os livros da minha área, mas eu amo. Eu amo outros tipos de... Principalmente os clássicos, né? Eu gosto muito dos autores Machado de Assis, Shakespeare. É bem água com açúcar, mas eu amo. Eu li todos que tinham lá. Eu nunca li Shakespeare, nunca.
Eu li todas. São histórias fáceis, né? E são histórias curtas. Então, acho que para quem é um leitor iniciante, é fácil. Principalmente os adolescentes. A história é fácil, galera. Confia. As histórias são um enredo. É um enredo fácil. Você lê o mundo de Sofia. Aquilo é uma bíblia. Para adolescente. Mas é muito interessante.
E, beleza, você teve toda essa trajetória na sua iniciação científica. E você ingressa no mestrado. Antes disso, você tem já uma especialização? Tenho, em Oncologia, que eu já desenvolvi um projeto científico, né, também. Porque você tem que defender um TCC. O meu TCC virou um artigo científico. Que demais, né? Também. Foi bem legal. Foi com pacientes com câncer de pele, melanoma.
que é o câncer de pele mais agressivo. Graças a Deus, entre os cânceres de pele, é só 3%. Tem uma representatividade baixa em câncer de pele, mas ele é bem agressivo. Então eu fiz com pacientes com melanoma. Entendi. Publiquei o ano passado. Com pacientes, mas qual era a temática?
Então, a gente avaliou o grau de atividade física desses pacientes, porque esses pacientes pós-cirurgia, eles costumam ficar com linfedema, que fica a perna, fica enorme, ou o braço, dependendo de tirar ali os linfonodos, o paciente fica com a perna imensa.
E é um ciclo vicioso. Quanto menos atividade esse paciente faz, mais limitação física ele vai ter. Então, eu acredito que a maior barreira hoje que a gente tem na área da saúde é a questão da atividade física. Tá. Porque quanto mais grave o paciente fica, com mais fraqueza muscular.
Mas se ele não reagir para fazer uma reabilitação, para fazer atividade física, vai se tornar um ciclo vicioso. Ele vai ficar cada vez mais fraco, ficar acamado. Mas é porque, principalmente o paciente oncológico...
que ele sente muita náusea, muito vômito, ele não quer fazer. Muitas vezes ele não quer porque ele se sente, ele tá doente, né? Ele se sente doente. Só que a atividade física não é uma coisa só pra pessoa saudável. Porque a gente tem aquela coisa, ah, se você tá doente, vai descansar, vai deitar um pouquinho. Pra um paciente que tem uma doença crônica, não dá.
Não dá pra ele ficar deitado, senão ele vai ficar acamado, senão ele vai perder a força muscular. E se a gente pensar num idoso, ele pode não voltar, andar mais. Esses idosos que a gente vê muitas vezes atrofiado, numa cama, quando você visita um asilo, começou às vezes com uma pneumonia. Ele começou com uma pneumonia, ficou acamado. Conforme a gente vai envelhecendo, o músculo vira gordura.
Ficou, o tempo que ele ficou ali acamado se recuperando da pneumonia, ele perdeu o pouco de força muscular que ele tinha. E atrofiou.
Então, é muito rápido. Uma pessoa entubada perde força. É muito comum a gente pegar pessoas com entubação a longo prazo sem nem controlar o pescoço. Sem força pra controlar o pescoço. Eu vi esse termo, é tetra... Tetraplegia do paciente crítico.
Interessante. Ele opera completamente. Nosso corpo, como diz um termo, é antifrágil. Se você dá impacto no osso, vai ter mais depósito de cálcio. Se você faz musculação, se vai causar uma agressão, ele vai ganhar mais força. Então, o nosso corpo não foi feito para ficar parado.
Nosso corpo é antifrágil. É o contrário. Ele foi feito para o movimento. Para gastar. Exatamente. E aí, nesse momento, você está lá trabalhando? Você trabalhou nessa época ou você estava apenas fazendo a pós-graduação? Como é que foi? O programa de residência, você faz 60 horas semanais.
Então é dedicação exclusiva. Tá. São 12 horas praticamente por dia. Você ganha. Sim, uma bolsa. Você ganha do governo. Tá. Na época era 3 mil reais. Era uma bolsa. Me senti rica.
pra quem é 60 horas semanais e assim, é 60 horas de prática estudar você vai estudar quando chegar na sua casa porque no dia seguinte você tem sim, às vezes você vai dar aula nas primeiras horas entre as 7 horas da manhã às vezes tem aula das 7 às 9 são os alunos que vão dar a maior parte das vezes ...
É os alunos que vão fazer essas aulas. Então, e daí das nove até seis horas da tarde, você tá em prática. Então, você tá trabalhando. Você tá ali no hospital, vão te dar os piores pacientes. Não só os piores de mais grave, mas às vezes dos mais pesados. Não é só no intuito de se aprender, é de dividir ali a carga.
mais vulnerável ali. Ah, tá aprendendo? Sim, sim. Sendo realista, sim. Aí você terminou a residência, você chegou a praticar a profissão de fisioterapeuta ou não? A residência, por você ficar ali 12 horas só atendendo, 60 horas, vai dar mais de 5 mil horas. Normalmente você é contratado até antes de terminar. Ah, tá.
Foi assim que aconteceu comigo. Um pouquinho antes de eu terminar a residência, já me chamaram pra fazer plantão. Então, eu não cheguei até essa... Desemprego, não fiquei desempregada logo após a residência. Eu já fui contratada, já saí empregada. Certo. Então, a residência abre muitas portas.
Aí você fez a residência, fez... É um... É a residência, é a residência. Você ia falar, é um estágio, não. É uma residência na qual você recebe uma bolsa. Isso, isso. Os médicos também recebem a mesma bolsa. E aí você começou a dar plantão.
Como fisioterapeuta. E em que momento você falou. Agora é o momento de eu dar o próximo passo. E ir para o mestrado. Como que foi isso? Desde que eu saí da residência. Eu já queria ter entrado no mestrado. Só que eu vinha num ritmo muito frenético. De estudo. Porque eu vim da faculdade. Eu trabalhava. Também eu nunca tive o privilégio. De só estudar.
Era 5 horas no estágio, se eu não me engano. Remunerado a R$400,00 a remuneração do estágio. Sem passagem, eu tinha que ir a pé até o estágio. Quantas horas semanais? 5 horas? Vai dar umas 20 horas? Ah, tá. 5 horas por dia.
É, cinco horas só era das sete a meio-dia. Das sete da manhã. É, eu entrava uma hora da tarde, nas 11h30. Eu entrava na faculdade. E aí, eu ficava na biblioteca pra estudar à noite, né? Porque era o horário que eu tinha. Não tinha computador em casa, não tinha internet. Celular não era smartphone, né? Era celular bem básico. Mas você era uma biblioteca estudando. Era o lugar que eu tinha pra estudar. Até porque eu não tinha computador.
E você fala que eu que sou nerd. Não, mas... Eu acho que eu fiz isso em toda faculdade de uma vez. De ir pra biblioteca estudar. Eu sinto até saudade. Eu acho que eu fiquei tanto tempo na biblioteca que eu sinto saudade, assim, desse ambiente da biblioteca, assim. E foi...
E tudo é um propósito, né? Nada, voltando à história de Davi, em nenhum momento ele se vitimizou. Ou porque os irmãos falaram que, o irmão falou que ele tinha más intenções, ou porque ele era pequeno. Ele falou, mas eu não vou na minha força, eu vou na força.
Do Deus vivo. É Deus que está à frente. Então, acho que o mais importante é a identidade. Quem você é. E você não vestir essa capa de vítima. Ah, ó céus, óbvio, ó azar. O outro tem, eu não tenho. Claro, tudo que for possível fazermos para termos mais igualdade social.
Devemos fazer. Mas a maior parte do tempo a gente vai se deparar com a desigualdade social. E se você vestir essa capa de vítima, você não vai chegar em lugar nenhum. E ninguém faz questão da sua presença. Ninguém faz questão do pobre, ninguém faz questão da mulher, ninguém faz questão. Você estando lá ou não. Então você de fato tem que ter a sua identidade.
E se eu tiver que fazer o dobro do esforço, eu vou fazer. Para conquistar aquilo. Que se eu tiver que ficar na biblioteca, coitada de mim, eu não tenho... Não, não tem. Não tem espaço.
Pra isso. Você vai chorar. Às vezes eu choro de cansaço até hoje, que eu tô muito cansada. Tem as questões da maternidade. Eu choro, durmo um pouquinho, cinco horas da manhã coloco o celular pra despertar. Todo dia? Não, todo dia não. Hoje não mais. Hoje eu tenho a possibilidade, né, a Thayla vai pra escola. Se eu tenho algo com mais urgência pra acontecer, aí sim.
Teve uma semana que eu fiquei quase a semana inteira dormindo muito pouco. Mas hoje eu me sinto privilegiada. Eu tenho um marido que me possibilita não estar trabalhando como CLT, com trabalho ali com horários.
Isso é um privilégio muito grande. Agradeço a ele. Ele acredita muito em mim, acredita nos meus sonhos, né? Dentro de um mundo tão machista, né? Você ter um homem que, de fato, cumpre o papel dele como...
um servo de Deus, como um esposo que acredita na sua esposa, que incentiva e dá suporte para ela realizar os sonhos dela, sem se sentir inferiorizado por isso.
É muito bacana. Quando ele me vê naquela correria de estudagem, não sei o quê, eu vejo o olhar de admiração dele. Quando ele viu a minha defesa do mestrado, sem aquela coisa de, tipo, ela está passando por cima de mim, ou mesmo eu já escutei, agora você virou dona de casa.
De uma forma, aí eu falo, eu sou dona da casa, do carro, o carro tá no meu nome também. Apesar de usar de forma pejorativa. É, exatamente, usar de forma pejorativa essa questão. Então a gente tá o tempo inteiro sendo atacada de alguma forma, mas eu não assumo essa identidade. E não me ofende me falar que eu sou, não, a minha família é a coisa mais importante.
que eu tenho. Sem eles qualquer coisa perde o sentido, principalmente...
Para a Tayla, é o legado que eu quero deixar. Eu quero deixar um legado para ela. Ela já tem uma condição financeira muito melhor do que a que eu tive. Ela tem uma condição financeira estável, ela tem uma casa, ela tem um carro, mas eu quero deixar mais para ela. Eu quero deixar um legado, uma identidade da mulher, a mulher que ela pode ser o que ela quiser.
o que mais me causa...
comoção e motivação. Se minha filha quiser ser uma grande cientista, eu quero que ela acredite que ela pode ser uma grande cientista. E que ninguém a limite de forma nenhuma. E eu sempre quis ser mãe de menino, eu falo, Deus, obrigada por ter me feito mãe. E ela tão pequenininha já é muito cheia de personalidade. Eu sou completamente apaixonada. E acho que hoje, atualmente...
Eu amo, amo pesquisa, amo sentar, ficar escrevendo minha tese, ser menunciosa, ficar estudando palavras, procurar sinônimos. Mas mais do que isso é dar algo para ela, para ela, para a minha sobrinha, que vem de uma vulnerabilidade social muito grande, que vem de uma violência doméstica muito grande. Eu falo para ela, eu só preciso que você tenha uma identidade.
que você tem essa identidade em Deus e que você vai derrubar o Golias, porque o Golias poderia ter caído sozinho. Mas precisou daquela atitude de Davi, de ir derrubar o Golias. E o que me causa muita tristeza, principalmente no meio cristão, por que não estamos estudando? Não é que estudar é... tem pessoas que são empreendedoras, não é isso.
É o porquê que nós, sendo filhos do Deus vivo, nos limitamos tanto. E não vamos com as nossas cinco pedrinhas derrubar o Golias. Não existe fé que não se movimenta. Tá. Não existe, não existe. Jesus falou, levanta-te e anda. Por que Jesus não foi lá pegar na mão dele? Ó, vem aqui que eu vou te ajudar.
A levantar. A fé, ela sai do lugar. Ela se movimenta. E, na verdade, nós somos cheios de orações e de poucas atitudes. A gente espera por um milagre, quando o milagre é simplesmente estarmos vivos.
É termos uma cabeça para pensar e termos pernas para caminhar. Na época do nosso ensino médio, quando em épocas de chuva, eu chegava encharcada de manhã e só saía à tarde depois do técnico. Eu ficava com aquela roupa toda molhada, a roupa secava no corpo. Eu falava, meu Deus, eu não tenho dinheiro nem para pagar passagem num dia de chuva. Depois eu pensava, bem, eu tenho pernas para vir andando. Eu poderia ser cadeirante. E...
Eu acho que essa vibe do acolher a sua dor é importante. Mas eu sempre falo que se Jesus ressuscitou no terceiro dia, a gente também tem que levantar. Não dá para acolher essa dor para sempre. Colocar uma casinha para ela, um enfeite.
E me assusta, me assusta, assim, como a cristandade é acomodada. Ah, eu não arrumo emprego. Mas você fez um currículo? Você entregou?
um currículo, você procurou cursos técnicos gratuitos? Tem vários lugares que oferecem cursos técnicos gratuitos. Há pouco tempo atrás, o nosso atual presidente falou que os cristãos deveriam... Ele sugeriu isso, que os cristãos deveriam votar nele, porque 80% dos que recebem bolsa da família são cristãos.
É chocante? É chocante. E eu acredito que seja verdade mesmo. O cristianismo está muito presente para os mais humildes, porque é onde a gente recebe uma palavra de esperança. Como cristãos, somos incentivados a ir nos mais vulneráveis. Então, não temos medo de entrar nas favelas. Alguns vão até presídios.
Mas a gente precisa de algo a mais. A gente precisa de cristãos em todos os lugares, e não de forma nenhuma fazendo algum apontamento contra outra religião. Não é isso. É porque hoje, quando se pensa em cristão, não se pensa em um intelectual. Não. Pelo contrário, né?
Já me perguntaram isso. Nossa, como você é tão estudiosa e é crente? Como? Como que você se declara feminista e é crente? Ou como que você, já escutei, eu nem me considero de esquerda, eu me considero de centro-esquerda. Não existe cristão de esquerda.
A pergunta para formular a frase. Será que sabe formular? Eu concordo com você. Eu concordo com você. Eu acho que o seu papel, o meu papel, como mulheres, como cristãs, como futuras educadoras, que é para isso que estamos fazendo mestrado e doutorado.
É abrir esse caminho, abrir esses olhos. Tem um caminho. Vamos andar por ele. Vamos, outras mulheres, as crianças, os homens também. Vamos trilhar esse caminho. Um caminho cheio de pedras, né? Eu que estou mais ligada a alguns grupos mais de esquerda, eu vejo a ojeriza mesmo que eles têm em relação aos crentes evangélicos.
a forma pejorativa com que eles tratam, como eles acham que a gente é uma massa homogênea, como se a gente fosse tudo igual. E a gente está por dentro, a gente sabe que não é assim. E por mais que a gente não seja reconhecido dessa forma, tem muitas pessoas que pensam muito e estão muito vinculadas a processos de movimentos sociais, que estão engajadas em transformação social.
A maior parte são feitas por cristãos, inclusive igrejas católicas, evangélicas, os espíritas também, tem muitos projetos sociais.
Então eu entendo isso que você está falando e realmente é um ponto de crítica, né? Porque a gente vê dessa maneira e entende que ou a gente se cala diante desse tipo de coisa e se junta a eles dizendo, não, realmente, o povo evangélico é tudo pessoal ignorante ou a gente mostra que não, que existem pessoas muito bem posicionadas ali. Eu comecei a escrever, ainda estou para finalizar esse artigo, que fala destrinchando um discurso, que é muito...
Esse discurso que você falou, que está muito presente nas redes sociais, não existe crente de esquerda. E aí, destrinchar de onde vem esse discurso, por que ele é um discurso que está sendo falado após 2013, por exemplo, e de onde ele vem, por que ele se construiu, sendo que existem matrizes progressistas dentro da religião cristã desde sempre.
Então, vi de Jesus, né, algumas posturas dele, né, em relação às pessoas que eram rejeitadas pela religião na época, né. Sem entrar nesse mérito, mas já tendo entrado, né.
eu quero entender agora, você então ingressa no mestrado, eu quero ouvir sobre o teu projeto do mestrado, porque foi de extrema importância no momento do Covid, na pandemia que nós tivemos no ano de 2020, foi até 2023, se não me engano? Isso. E aí eu quero saber, ouvir, como que foi esse projeto, como que foi o teu mestrado, e depois você vai caminhando ali para a transição para a maternidade, como que isso aconteceu.
Bem, em 2021 a gente estava no boom da pandemia ainda. Eu comecei, eu me candidatei ao mestrado, fui aprovada. Em um mês eu escrevi um projeto inteiro. Em um mês já estava aprovada pelo Comitê de Ética.
Minha orientadora falou que chegaram umas interfaces, interfaces... É o que a gente coloca no rosto do paciente antes dele ser entubado, quando ele começa com o processo de insuficiência respiratória. Basicamente assim.
Nós, tudo que fazemos, questão de movimento, exige força muscular. A respiração não é diferente. Então, quando a gente tem um processo patológico no pulmão, esse músculo respiratório começa a ser mais recrutado. Então, o paciente respira uma quantidade maior. Nossa respiração normal de um adulto é de 12 a 20 vezes.
por minuto. Num processo patológico, isso vai, chega até 40, se não mais, respirações. Então, é uma alta exigência muscular do nosso músculo diafragma. Isso dá fadiga até quando chegamos num processo que o paciente tem falência respiratória. Isso afeta a exalação de gás carbônico, então o paciente começa a ficar ali intoxicado por gás carbônico.
E sem oxigênio. E sem oxigênio, as nossas células morrem. A gente precisa de oxigênio simplesmente no corpo inteiro. Então, antes da intubação, o paciente coloca algumas máscaras externas, antes de se colocar um tubo que vai direto para a traqueia, que a gente chama de ventilação invasiva.
No Brasil, a gente tem máscaras que só pegam o nariz, máscaras que pegam o nariz e a boca. Só o nariz, normalmente, é para quem tem apneia do sono, não costumamos usar no ambiente hospitalar. Mas, oro nasal, que pega o nariz e a boca, facial, máscara que pega, e elas vedam e jogam a pressão de ar para dentro do pulmão.
Então, uma vez que você não precisa fazer a força, você já vai economizar ali o diafragma, que já está muito cansado. A mesma coisa de eu te colocar várias sacolas pesadas e falar, anda!
Tem uma hora que você vai fadigar, a sacola vai cair da sua mão. É mais ou menos esse o processo de um paciente com uma doença pulmonar. O músculo do diafragma está fazendo um baita esforço e vai chegar uma hora que ele não vai mais conseguir trabalhar.
Então, quando a gente coloca uma máscara dessa, que joga a pressão para dentro do pulmão, ele não precisa fazer esse esforço, diminui, né? Diminui bastante esse esforço dele. E alguns dos pacientes a gente consegue manter sem precisar de um tubo, e outros pacientes não tem jeito. Ele chegou num limite, vai ter que ser entubado mesmo, porque o comprometimento pulmonar está muito grave.
O que aconteceu na pandemia é que não tínhamos ventiladores. E tanto para uma ventilação invasiva, que é aquela do tubo, que às vezes a gente vê em filme, quanto para as máscaras, a gente precisa de ventiladores. Só que são ventiladores diferentes, menores e os maiores que ficam no ambiente de UTI. Não tínhamos nenhum dos dois ventiladores.
Então, chegaram uma interface que é tipo um capacete, veste mesmo, um capacete, ele enche de ar e o paciente fica recebendo pressão ali dentro. No projeto de mestrado, metade desses pacientes faziam por um ventilador mecânico e a outra direto na rede de gases. E a gente gerava pressão com outro aparelhinho. Mais do céu.
um equipamento que nem é para ele porque ele não é eletrônico, que a gente chama de válvula de pipe. Então é muito barato um aparelho, um equipamento muito barato comparado a um ventilador que na época chegou a custar 300 mil.
um ventilador porque não tinha, né? Então o preço foi lá nas alturas que já não é barato, né? Um ventilador já costuma custar R$ 80 mil, R$ 100 mil, dependendo da marca de um ventilador. Um ventilador de ventilação não invasiva, achamos o mais barato. R$ 10 mil, R$ 20 mil, R$ 30 mil vai depender da marca do ventilador. Então no projeto de mestrado a gente separou em dois grupos para fazer a comparação.
E tivemos a mesma taxa de sucesso, tanto no ventilador quanto fora do ventilador. E para a gente foi um grande sucesso, porque estávamos conseguindo livrar os pacientes de serem entubados, mesmo sem ter um ventilador. Fala para a gente a taxa de óbito de entubação.
ali no primeiro no começo do Covid antes da vacinação 80% dos pacientes que eram entubados morriam não eram só 80% no Brasil, isso era uma taxa dos Estados Unidos também os Estados Unidos também tinham uma taxa
A Itália já usava o Helmet, que é esse capacete, então eles tinham taxas melhores do que os Estados Unidos. Os Estados Unidos não tem esse hábito de usar o Helmet, nem o Brasil. O Brasil também até hoje não tem essa aderência.
ao Helmet, mas sabemos que se Deus me livre, por uma nova pandemia, algo que se exija uma grande quantidade de ventiladores mecânicos, a gente tem a possibilidade de ofertar pressão para esse paciente, sem ser por um equipamento. Perfeito.
Sem precisar de um ventilador. Interessantíssimo, interessante. E foi super necessário, né? Porque enquanto a intubação era 80% a taxa, o do Helmet é quanto por cento a taxa de óbito? É 50% dos pacientes, de todos os pacientes que usaram Helmet.
Ela não chama, não é invasiva. Não é invasiva. Ventilação invasiva precisa do tubo, ou pela boca, ou pela traqueostomia. A gente chama de ventilação invasiva. Quer dizer que esse paciente está recebendo pressão ali direto na traqueia. Ventilação não invasiva é no rosto. Externa. Externa. Ele não... Então, pelo realmente, ele ficava com sonda se alimentando. Por sonda, ficava consciente. Ele não ficava desacordado.
Se ele tinha um pouquinho mais de condição, ele até poderia sentar numa poltrona. Então, a taxa de óbito é bem... Eu não vou lembrar os certos dados, porque são dados de 2022. Mas eu lembro que 50% dos pacientes não foram entubados. E o fato de não serem entubados, você garante ali uma sobrevida para esse paciente. E um outro ponto...
mais crucial da pandemia é que muitos pacientes, esses 80% indo a óbito, tinham uma grande parte de mão de obra despreparada.
Todos os tipos de profissionais foram contratados. Inclusive, em um dos hospitais que eu trabalhei, uma aluna que tinha acabado de sair da faculdade, ela não sabia mexer nos ventiladores, ela foi contratada, porque não tinha mão de obra. Precisava. Precisava, mas alguém que acabou de sair da faculdade, ele não tem utilidade dentro de uma UTI.
você vai causar grandes comprometimentos pulmonares de um pulmão que já está comprometido. Perfeito. Então isso seria um outro estudo. Quantos desses pacientes morreram por falta de perícia da equipe? Entendi. De todos, não estou falando só de fisioterapeuta. Da equipe médica, despreparada, paciente crítico, não é paciente para qualquer...
Não dá para alguém que é formado em ortopedia ir atender um paciente. Eu não atendo ortopedia. As pessoas falam, fiz a terapeuta, estou com uma dorzinha aqui, estou com o meu tornozelo usado. Se for algo simples, eu posso dar algumas orientações.
Algo mais... Não é... Estudo pulmão e coração há muito tempo. Estudo paciente oncológico há muito tempo. Mas falta... Caráter mesmo. De alguns profissionais. Porque eu escutei. Eu estou aqui para ganhar meu dinheiro. Fernando, o teu trabalho de mestrado tem uma importância social... Absurda, né? Porque se eventualmente...
recomeça algo assim, ou não, né? É o avanço da ciência, né? A importância dessa tipo de pesquisa pra você salvar e poupar vidas o quanto possível. E economizar custos, né? Quando a gente pensa no SUS, a gente tem que pensar...
Em economia de custos, em coisas que sejam efetivas, mas que toda a população deve ter acesso. Não adianta. Se a gente tem recursos que sejam financeiramente baratos, que sejam eficazes, é tudo que a gente precisa no SUS.
Para que a maior parte da população possa ter acesso ao melhor tratamento. E a Tayla chega nesse momento aí de finalização do mestrado. Graças a Deus. A Tayla não foi planejada, né? Foi no susto?
Não foi num susto. Eu sempre fiz a tabelinha. Você sabia o que estava fazendo? Sim. Completamente com ciência. Avisei pro meu marido, estou no meu período fértil. Ai, gravidade de primeira. Eu vou ver a filha de primeira. No dia fértil. A ciência é real.
Não, e sabe o que é engraçado a ciência, filha? Ela não fala. Sabe o que é engraçado? Que eu atendia, na época eu atendia um sacerdote judeu, e ele falou pra mim, você tem filhos?
Ela falou, não. Ele falou, você precisa ter filhos. Você vai engravidar e a próxima vez que você me atender você vai me falar que você gerou filhos. Que isso! Verdade, engravidei no mesmo. Veja que é profeta. Sim, é. Ele falou que o filho dele também é um sacerdote judeu e que ele anda, tipo, com uma van porque ele tem 12 filhos. Jesus, né? Depois dessa bênção do sacerdote judeu. Sim, ele orou por mim em hebraico.
aramaico, não sei qual dos dois, porque eu não entendi. Ele só mandava falar amém ao final. Ele falou, cada vez que eu fizer uma pausa, você fala amém.
Ele fez isso por três vezes. Eu disse a mensa, entendeu. E ele é com o corão lá aberto. Ele, inclusive, médico também. Só que ele estava ali no processo idoso. No processo de reabilitação. Isso é muito simbólico, né? Na vida da Tayla. Eu não sabia disso. Sim. E ele orou por mim no dia 7 de abril. No dia 9 eu engravidei da Tayla. Meu Deus. Eu sei o dia que eu engravidei da Tayla. Porque eram os últimos dias da... Olha isso, né?
E eu, não, Douglas, imagina. A palavra não volta a ver. É. Então a Tayla veio, nesse tempo, fui falar pra minha, é engraçado que todo mundo que ou engravida ou os orientandos, os meninos que vão se tornar pai, morre de medo de falar pra orientadora.
A orientadora, assim, eu morri de medo, parecia que eu tinha engravidado na adolescência. Eu já estava com os meus dados coletados, já tinha rodado tudo. Na verdade, eu já estava com um artigo para mandar, para tentar publicação. Então, já estava tudo encaminhado.
Mesmo assim, eu fui morrendo de medo. E eu não lembro, assim, exatamente qual foi a reação dela, mas como coisas por mensagem, a gente não sabe qual foi a reação do outro. Ela me deu parabéns e tal, mas ao ler a mensagem, eu achei, meu, ela tá decepcionada comigo.
O meu irmão, que é pesquisador, eu morri de... Eu falei, nossa, ele vai achar que nunca mais eu vou estudar. E ele, de fato, achou que nunca mais ia voltar para a carreira acadêmica. Ele falou pra você, Fernando, Fernando. Não, ele falou, agora acabou, né, estudo. Foi alguma coisa assim, filho, ele é de direto e reto. Tanto que quando eu falei pra ele que ia começar o doutorado, ele, ai, começa, começa. Porque já estava com a Tayla.
E defendi o meu mestrado, a defesa, né? Eu já tinha finalizado as coisas do mestrado no primeiro ano do mestrado, mas a defesa foi no segundo ano. Então eu já estava grávida de nove meses. Eu tive a Thayla, acho que duas semanas depois da minha defesa. Os dois filhos nasceram. Os dois no mesmo mês, assim.
Eu já estava com 37 para 38 semanas. Então, para mim, foi muito simbólico eu estar ali com a Taylo, defendendo o meu mestrado. Depois, ela, pequenininha, mexendo nos meus artigos enquanto eu ainda estava tentando publicar o que gerou de artigo ali do mestrado. E foi muito... Durante a gestação...
eu não sentia afeição. Eu venho de uma gestação indesejada, então eu não sei o que é isso, o que é... Não que eu não gostasse, não era isso. É que eu não sentia.
fez, tipo, aquele negócio de uau, tô grávida eu não senti isso não é que eu não gostava de estar grávida mas também não é não me causava nenhuma emoção não foi algo que me deixou super, exato exato, e eu me sentia culpada, mas desde a barriga dela eu falava que eu amava ela mas isso eram só palavras não era algo que eu realmente sentia K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K K
Tanto que no dia que ela nasceu, eu fiquei com ela ali nos meus braços e o médico falava, fala alguma coisa para ela, fala alguma coisa para ela. E eu não sabia o que dizer, eu ainda estava...
me descobrindo. E hoje a Thayla é meu respirar. Ela é cada batida do meu coração, ela é cada pensamento que eu tenho, ela é um propósito que eu tenho na vida. É a melhor coisa que me aconteceu. Eu nunca sonhei em ser mãe. Nunca sonhei, nunca. Não que eu fale, ah, eu não quero ter filhos. Nunca falei isso.
Mas também não era uma coisa... Quando eu via mulheres e falava nossa, meu maior sonho era ser mãe, eu achava aquilo um absurdo. Como pode? O maior sonho de uma mulher é ser mãe ou casar. Isso nunca foi meu sonho. E eu casei por acaso. Eu tive filhos. Não, não foi por acaso. Mas não foi algo planejado.
E foi tudo que eu precisava. Constituir família, me descobrir ali, eu e ela. E ela fala o tempo todo, mamãe, eu te amo muito, muito, muito, muito. E quando, convivendo ali com ela...
dando amor para ela e recebendo o amor dela, isso me ressignificou completamente. Me ressignifica, a minha infância se ressignifica. Tipo, eu corro com ela.
eu corro com muita alegria. Cada vez que eu vou num parquinho, eu vou com alegria. Quando a gente viaja, tem viagens que a gente nem tem fotos juntas, porque, de fato, eu quero estar ali com o meu corpo e alma. Às vezes eu falo pro Douglas, e o Douglas também, como ele é meio no profile, ele também não é de tirar foto, então eu falo pra ele, lembro pelo menos de tirar uma pra eu lembrar da viagem, porque eu tô ali.
E eu, quando eu lia na Bíblia, quando eu era adolescente, que eu lia na Bíblia, porque a sua geração vai ser abençoada, os filhos dos seus filhos, eu não entendia, aquilo pra mim não fazia sentido. Eu falava, Jesus, eu queria ser abençoada. Não faz sentido, tipo, a minha geração, e hoje eu vejo que a conquista dela...
me causa tanta alegria como se eu tivesse tido uma boa infância. Quando eu proporciono uma boa infância para ela, é como se eu estivesse proporcionando a mim também. Eu sou grata a Deus porque a infância que eu não tive, eu estou tendo com ela. Eu estou aproveitando a infância com ela. O amor que eu não tive, eu estou tendo com ela. Ela me dando esse amor e eu dando esse amor para ela. Eu estou assim...
E de uma forma que foi completamente natural, assim, claro, um processo. Logo depois que eu tive a Tayla, eu fui fazer uma pós-graduação em obstetriz e as pessoas falavam, você ama maternidade? Eu falava, eu não amo a maternidade, eu amo a Tayla.
Porque a maternidade, principalmente no primeiro ano, ela é muito pesada. Principalmente quando você não tem rede de apoio. Eu não tinha uma rede de apoio. Não tinha? Era eu, ela e um emprego. E um emprego que me maltratou muito pós-maternidade. Que me colocou em uma escala de trabalho com três horários.
diferentes. A gente só tem um horário para deixar uma criança na escola, não dá para cada dia você deixar essa criança em um horário. Então, o primeiro ano ali da Tayla...
Eu estava numa depressão muito grande, não era uma depressão pós-parto, não tinha nada a ver com ela, tinha a ver com o meu ambiente em redor, a minha falta de estrutura familiar, a minha falta de acolhimento no trabalho que eu tinha. Eu sempre tive um jeito muito prático de lidar com as coisas e achava...
Mulheres em ambiente de trabalho, às vezes, muito mimimi. E eu falava, ah, eu gosto de trabalhar com homens. Até a hora que você vira mãe. A hora que você vira mãe, aí você vai querer que caia várias mulheres para te acolher. Para ser mimimi. Porque você está num momento completamente fragilizado. Para entender que você vai chegar ali no seu trabalho e você nem dormiu. À noite, você passou por uma noite inclaro.
E eu recebi esse acolhimento de uma gestora que nem sequer era mãe, mas ela era mulher. E quando eu olhava para ela, eu via que ela entendia a minha dor. Quando eu ia conversar com o meu gestor, eu só sentia um vazio, um seco. Ele não...
ele não entende, mesmo ele sendo pai, ele não entende. Ele não entende, eu quero estar aqui, eu quero fazer o meu melhor. Mas eu passei hoje uma noite sem dormir. Ou eu não tive tempo, não vi minha filha acordada, porque a sua escala que você me deu de trabalho não me permitiu chegar em casa num horário que minha filha tivesse acordado. Ela foi pra escolinha com quatro meses.
Eu era muito, muito pequenininha. Quando eu ia buscá-la na escola, ela não me reconhecia, ela não queria sair dos braços das professoras para vir para o meu. Então, esse primeiro ano...
Eu não falava que eu amava a maternidade. Eu amava, eu estava aprendendo ali a amar a Tayla e estava recebendo o amor dela. E você me ajudou muito nesse período. A me entender, a entender a dinâmica familiar que muda completamente.
É um momento muito solitário entre nós, o nosso corpo, os nossos pensamentos, as pessoas falando que você não vai chegar mais a lugar nenhum.
Foi uma das coisas que me pegou muito no pós-maternidade, que talvez por isso eu não abracei a maternidade logo de cara. Porque eu não queria que as pessoas falassem que eu não ia mais chegar, porque eu já ouvi isso durante toda a minha infância e adolescência, que eu não ia chegar em lugar nenhum. Eu não queria escutar isso de novo, e eu estava escutando isso, que eu não ia chegar em lugar nenhum pós-maternidade. Agora você vai ser mãe.
Não, eu vou ser mãe, eu quero ser uma boa mãe, mas eu também quero ser uma boa profissional, eu também quero ser uma boa pesquisadora. A gente precisa, nos libertem, né? Libertem a nossa mente, as pessoas elas não têm, elas querem que a gente leve na brincadeira pesos de palavras muito pesadas.
E a gente que tem que ficar lidando com todo aquele conflito emocional, sem ter quem acredite em nós. Parece que quando você olha ao redor, ninguém mais acredita que você vai ser uma boa profissional, que você vai... Querem te limitar naquilo. E é linda, é perfeita, é perfeita a maternidade. Mas a gente não é só mãe. A gente é tudo aquilo que Deus quiser.
que sejamos, e por um propósito maior, não é por um título. Eu lembro que quando eu defendi o mestrado, você me perguntou como você se sente, e agora, como você se sente? Eu me sinto igual, como você se sente pós o mestrado? Igual, somos iguais, somos iguais, tudo o que vale é o relacionamento, como você leu no poema, mas além disso, então por que corremos atrás disso?
Porque tem pessoas que precisam disso. Não é só um título, é o que você pode fazer por essas pessoas ao qual fazemos a pesquisa. É o que podemos fazer pelas nossas filhas, para que o caminho seja mais fácil para elas do que foi para nós. Os nossos tantos conflitos internos, a gente vai conseguir ajudá-las porque choramos sozinhas. Em quem tivemos?
em mulheres que fizeram o melhor que podiam, mas que fizeram pouco. Não porque queriam, mas porque era tudo que elas tinham. Então a gente chorou sozinha. Então a gente só teve ali o consolo do Espírito Santo dizendo que a gente ia conseguir e que só mais um passo. Só mais um passo.
Ai meu Deus. Toda vez que eu sinto pra conversar com você, eu fico estasiada com a sua grandeza. Eu não sei explicar. E você, com as suas palavras, me faz lembrar da importância do que a gente tá fazendo aqui. Que é ouvir. Ouvir.
Bom, diante disso que você me conta sobre a Thayla, você deu sequência para o doutorado, atualmente você é doutoranda. Conta para mim o que você deu sequência, como que foi essa transição para o doutorado, como está sendo essa pesquisa. Bem, agora com uma criança pequena em casa. Agora com uma criança pequena em casa.
Sempre tem uma história em tudo. Foi muito difícil esse retorno ao trabalho. Muitos conflitos comigo, com a gestão. Eu saí em uma situação que você acompanhou como advogada, que para mim é um símbolo de resistência.
Por eu ter condições de trabalho, como que eu posso dizer? Eu não recebi as mesmas condições de trabalho que um homem. Entendi. Eu já com doutorado, já com mestrado. Você sentia essa diferença, essa desigualdade na pele? Eu fui tirada do meu horário de trabalho.
E um homem entrou no meu lugar. Para benefício dele. Para benefício dele. Não tenho absolutamente nada contra ele. Um ótimo colega de trabalho. Inclusive, antes de levarmos isso extrajudicial, eu conversei com ele. Não tem nada a ver contigo.
não é certo para mim, como pessoa. Eu entrego, eu entrego um bom trabalho, eu chego no horário, eu atendo todos os pacientes, eu não me recuso a nada, mas eu não aceito que um homem venha a ser colocado no meu lugar, ou até mesmo se fosse uma mulher.
sem qualquer benefício, um machismo estrutural. Eu nunca fui descredibilizada por ser mulher, mas a partir do momento que um homem entra no meu lugar, isso se fala de machismo estrutural. Eu tendo um currículo já com mestrado, eu entregando tudo aquilo que me é exigido, do que se trata isso?
se não. Então eu não aceitar isso, pra mim, foi a minha forma de resistência. E a partir do momento que eu saí desse...
trabalho, eu ingressei no doutorado. Fui conversar com a minha orientadora, que me orientou no mestrado, uma mulher maravilhosa, muito bom, muito bom, assim, estar nesse ambiente que as mulheres estão cada vez mais, nada contra os homens, né, porque às vezes gera esse negócio da inimizade, não é nenhum tipo de inimizade, é porque é um caminho muito árduo.
para uma mulher. Então, sempre que eu vejo uma mulher conquistando, uma mulher conquistando um troféu, a Lívia Herbelin, agora, com esse troféu da caneta que detecta o câncer, eu achei assim uma coisa fantástica. Mãe de três filhos, quem disse que uma mãe não pode... Três filhos. Três filhos. Uma mãe de três... Ela é uma mãe em tempo integral?
Não tem. Não tem como ser uma grande pesquisadora e ser uma mãe 24 horas. Claro que a gente é mãe em tempo integral a partir do momento que você tá pensando na sua filha enquanto grava e eu tô pensando na minha. Na trajetória que a gente vai dar pra ela. A gente é mãe em tempo integral porque meu celular tá aqui do meu lado por um caso de emergência.
Mas o que se encara muitas vezes da maternidade integral, que você tem que ficar 24 horas em casa. Ou que se você só é uma boa mãe, se você não colocar na escola. Porque muitos, quando eu com quatro meses fui colocar a Thayla na escola, ai, tadinha, ela é muito pequena, você vai colocar. E ela de fato era muito pequena, mas você... Pessoas que poderiam, inclusive, vir na minha casa e cuidar delas. Você quer vir na minha casa, eu te pago pra você. O valor que eu pago na escolinha, eu pago pra você vir cuidar dela. Então...
É muito complicado, porque ainda somos olhada como isso é obrigação sua. Se alguém tiver que abrir mão da carreira, tem que ser você. Se alguém tem que parar de estudar, tem que ser você.
É feio. É muito feio. Você ser uma mãe que precisa de uma rede de apoio. As mães egoístas. Mãe que está pensando na sua própria carreira e deixando sua filha. Mas se alguma coisa acontece com o seu marido ou com o meu marido, se você não tem uma profissão... Hoje a gente não se aposenta mais. Você não existe pensionista. Se acontece algum... O que a gente vai fazer? Fazer o que com essas crianças? Aí vão falar que você ficou acomodada em casa.
Nunca era suficiente. Ela não trabalhava. Ela não trabalhava e não estudou. Mas se você estuda, você está sendo dondoca, porque às vezes vai precisar de alguém para te ajudar nas tarefas a cada 15 dias, porque mesmo estudando...
Se você não tiver um emprego fora, você vai precisar de alguém pra te ajudar. Porque a demanda é muito grande. Mas ninguém tá vendo a roupa que você lava, a louça que você lava todo dia, a comida que você faz todo dia, e que você pausa pra escrever um parágrafo. Um parágrafo por uma mãe. Quanto tempo você demora hoje pra escrever um parágrafo? Uma coisa que eu fazia... Começou a doutora daí, então eu não queria escrever.
Porque sempre a demanda fica normalmente para a mãe. Então a gente tem que achar as lacunas de tempo que nem existe para fazer acontecer.
Mas a gente faz acontecer por elas. A gente faz porque a gente precisa mostrar que é possível que elas são, de fato, imparadas. É nisso que você fala quando... Eu não vou me dobrar a esse discurso da vítima.
Eu vou fazer. Eu reconheço a desigualdade. Eu reconheço as circunstâncias. Eu reconheço o social que me cerca. Mas eu não vou me dobrar. Eu vou quebrar as barreiras que foram. E a sua história é isso. É quebrando barreiras, superação. É uma coisa assim... Não é sobre-humana porque...
Eu acho que é sobre-humana. Porque você fala sobre o que... Quando você coloca a história de Davi, Davi não foi através da força dele. Ele foi porque ele sabia quem estava com ele. E quando você coloca isso, você...
É como se colocasse tudo aquilo que você tem diante de um Deus que é infinito. E falasse, olha, isso que eu tenho. E ele multiplicou. Sim, eu tenho cinco, eu tinha cinco pedrinhas ao mesmo. Matou um cinco gigante com essas pedrinhas. Sei, eu tô muito grata de você estar aqui. Eu acho que essa entrevista me renova, assim, em muitas coisas.
E pra gente encerrar, eu vou fazer três perguntas mais rápidas, assim. Eu quero saber uma mulher que você admira. Vou falar uma das primeiras mulheres que eu admirei. Foi você. Ai, eu não vou perguntar por quê. Eu também não vou perguntar. Foi você. Você é muito grande.
E tem um louvor pentecostal que a minha sobrinha canta, que ela fala que para ser grande tem que ser pequena. E você sempre foi muito grande, muito grande nas suas ideias.
muito grande no seu coração. Você sempre teve esse coração social. Mesmo não vindo de uma condição social tão desfavorável, o que é muito raro, alguém que não cresceu em uma favela, não vê a miséria ali se preocupar com quem está na miséria. Então, isso é muito mais grande em você do que em mim. Porque uma coisa é você viver na pele.
Outra coisa é você não viver e mesmo assim ter os seus olhos sensíveis para isso. E a gente sempre acha que a nossa história, que nós somos invisíveis.
Mas você com seu cabelo, com seus livros ali pela E-Tech, seu jeito espontâneo, sem nunca se importar com o que estava vestindo, com aquela camiseta do Che Guevara. Toda furada aqui. Camilo sem lavado por 17 dias. 17 dias, pegou fungo, meu Deus.
ser um espírito despreocupado. E que eu vi ao longo, acompanhando de longe, depois da escola, a se preocupar com coisas que você não se preocupava na adolescência. E eu falo, eu observo a Tayla em algumas coisas, e eu entendo porque Jesus fala que a gente tem que ser como criança. Vamos envelhecendo e acreditando que estamos cada vez mais maduros.
Quando, na verdade, às vezes a gente começa a se preocupar com coisas que não se preocupavam. Sim. Então, você teve uma adolescência típica, né? A adolescência normalmente é uma adolescência muito preocupada com as aparências, muito preocupada com parecer ao invés de ser. E ali eu vi uma referência de ser de fato. Algo leve.
Então, ali convivendo contigo, eu comecei a ler livros, coisas que eu não fazia. Eu comecei a me preocupar, não só com o meu futuro, mas o que as pessoas que estão ao meu redor vão ganhar, se eu ganhar. Aonde eu vou? Quando eu chegar...
Quem vai vir comigo? Hoje eu penso muito na minha sobrinha que está em vulnerabilidade social. O que eu posso fazer para que ela venha e para que ela acredite em si mesma?
Então, de mulher, pensando, né, assim, falar de pessoas que eu não conheço, eu acho muito utópico você ficar falando de pessoas, sendo que as mulheres mais admiráveis estão ao nosso redor, que são aquelas que a gente convive. Você tem uma coisa para te dizer? A beleza está nos olhos de quem vê. Não está em mim, está em você.
Fala pra mim um sonho que você tem ainda pra realizar. Um sonho? Ganhar acima de três dígitos. Sem dúvidas. Eu quero ganhar... Não vou em culto de prosperidade. Deus me livre. Não vou. E eu falo pra Deus, assim, eu quero aquilo que ele tem para mim. Não fico falando pra Deus, eu quero um... Uma conta acima de três dígitos mensal.
Mas porque eu preciso fazer algo social. Não se faz algo social sem dinheiro. Eu não quero dar migalhas. Eu quero ter um lugar estruturado para que as pessoas tenham acesso. Acesso à educação, acesso à orientação. Muitas pessoas não sabem que os cursos gratuitos que tem por aí não sabem como se preparar para o Enem. Se a gente tiver um ambiente que tenha comida, que tenha um local,
pra ficar, eu e o meu irmão, o Fernando, a gente ficava na rua na época do ensino fundamental, até da horária de ir pra escola. Porque se a gente ficasse em casa, a gente era vítima, éramos vítimas de violência doméstica. Muita violência doméstica, muita violência psicológica. Então a gente não tinha um lugar pra ficar. A gente ficava andando pelas ruas, até da horária de ir pra escola.
E eu não sou a única. Ainda tem muitas. Se você vai numa comunidade, é muita criança. Vítima de violência doméstica, violência sexual. Somos o país que está indo para quase o primeiro lugar em violência sexual. As nossas crianças estão completamente desprotegidas. Então, se tudo que eu fizer acabar em mim ou acabar em um título de doutorado, eu não fiz nada. Eu não fiz nada.
Se ninguém, se as pessoas do lugar que eu venho não forem beneficiadas, não tiverem uma estrutura, não uma estrutura de dependência, porque hoje o que a gente temos, somos pessoas falando eu não vou arrumar um emprego porque o Bolsa Família está a 700 reais. Elas estão sendo condicionadas à miséria, esses 700 reais não dá para chegar no final do mês. Mas elas não acreditam, elas não têm essa identidade.
Elas perderam completamente a identidade. Então, um projeto social que... Não, você pode ganhar muito mais do que isso. Você pode ter um lugar decente para morar. Outro dia, a minha sobrinha falando sobre mim, ela falou, tia, a favela venceu. A favela não vence. Vence quem consegue sair dela. Não é uma questão de, ah, saiu da favela, ficou metida. Não é isso. Não tem saneamento básico. Tem violência.
Quando a polícia desce, os traficantes entram na sua casa para se esconderem, como já aconteceu comigo. É terra de ninguém, não tem lei. Eu lembro que um traficante de uns 12 anos começou a andar armado pelas vielas. Eu morria de medo daquele doido dar um tiro e ele ficava, a biqueira, na frente da casa da minha avó. Eu tinha que ir para a casa da minha avó. Então, toda vez que eu ia para a casa da minha avó, eu ficava morrendo de medo.
As vielas, esgoto, esgoto a céu aberto. Não tem, não é lugar. Parece bonito para tirar foto, para ser ponto turístico de gringo, para ser ponto turístico de prostituição infantil. Não é lugar, a gente quer um lugar decente para morar. As pessoas precisam de cultura. O que temos hoje é uma prostituição infantil que começa desde as roupas das crianças. O que estamos fazendo com essas meninas?
Os funks, você é preconceituosa contra a música. O que diz nessas músicas? Anitta, que me perdoe, mas o que ela diz para essas mulheres? Não é a questão de, eu tenho controle sobre o meu corpo. Você está se vendendo. É uma venda. E que começa com as crianças. Você faz essas meninas de 4, 5 anos dançarem até o chão.
para quem está olhando essas meninas, quem está passando a mão nessas meninas. Então é isso que não se vê. É uma cultura que é vendida como a cultura da liberdade feminina. Isso é a cultura da prostituição infantil, que a gente vê quando estamos ali do lado de dentro. E a nossa menção de valor ali é por quem tem o melhor corpo.
Quem tem as roupas mais curtas. Por isso que te conhecer fez uma grande diferença. Essa menina é diferente. A esquisita. Tá vendo, gente? É ela. É sobre isso. E a amiga, me fala se você escrevesse um livro autobiográfico. Qual que seria o título dele?
Eu quero ler esse livro, tá? Eu preciso dele na minha mesa. Você vai ter um livro antes de mim. Suas poemas lindas, sua escrita, que é completamente envolvente. O título de um livro eu acho que seria Ele por Elas. Ele, o nosso Deus. Por todas nós.
pelos nossos sonhos, pela nossa defesa. Aquele Jesus que defendeu a mulher que teve vários casamentos, ou Jesus que defendeu uma mulher que trabalhava com prostituição. É ele olhando. Ou Jesus que olhou para Marta e Maria e sentiu a dor delas e chorou por causa de Lázaro.
Então é Ele. Ele com toda essa afeição por nós. E nos dando força para que a gente siga adiante.
Fernanda, minhas amigas e meus amigos. Palmas! Palmas na edição! Grande, meu amigo. Muito obrigada pela tua presença aqui. Eu que agradeço. E você que ouviu a nossa história, espero que você tenha a história da Fernanda, espero que você tenha gostado, ouvido e se emocionado conosco.
Curte, compartilha com as pessoas, com mulheres que você conhece. E deixa um comentário aqui pra gente saber que você tá gostando. Obrigada, um beijo, tchau! Ai, amiga, que lindo!