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Divã na CBN: Psicanalistas analisam o ódio como afeto primordial e seus impactos na sociedade

07 de maio de 20269min
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Para Ruth Cavalcante e Leandro Borges, o ódio é um sentimento constituinte do ser humano que, diante da falta de simbolização e do medo do diferente, tem se manifestado de forma violenta e polarizada.
Participantes neste episódio2
L

Leandro Borges

HostPsicanalista
R

Ruth Cavalcante

HostPsicanalista
Assuntos3
  • Ressentimento e seus ecosO ódio como constituinte do ser humano · O ódio como rejeição ao estranho · O ódio como resposta à frustração · O ódio e a impossibilidade de simbolização · O ódio às diferenças
  • Cultura de redes sociais e hatersO ódio capturado por discursos coletivos · A cultura do cancelamento · Viralização do ódio nas redes sociais · Facilidade em odiar no cotidiano
  • Discurso de ódio e intolerânciaO ódio como estruturante da existência · Desafio de lidar com o ódio · Evitar a violência como resposta imediata
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Divã na CBN, com Ruth Cavalcante e Leandro Borges. Divã na CBN, com Ruth Cavalcante e Leandro Borges.

Olá, seja bem-vindo ao nosso divã. Nós vivemos num tempo em que o ódio parece ter ganhado voz, corpo, velocidade. Ele circula nas redes, nas relações, nos discursos cotidianos, muitas vezes naturalizado e às vezes até legitimado. Mas o que é o ódio, afinal?

e o que ele revela sobre a nossa relação com o outro. Hoje nós vamos começar uma série de encontros para pensar o ódio como afeto, suas formas contemporâneas de expressão e o lugar da palavra diante da violência. Oi, Leandro.

Oi, Ruth. Boa tarde a todos. Esse afeto primordial. O Freud fala uma coisa muito interessante, de que tudo que aparece de estranho ao eu é odiado. Então, assim, isso que a gente vê mesmo no bebê chorando, tudo que causa estranhamento, tudo que é novo...

soa como invasivo e é a base primordial do ódio. Então, o ódio é constituinte. Então, existir é também odiar. Ou seja, a gente tem o ódio até antes de qualquer outro afeto. Ele é realmente bem básico, bem primordial.

É, exato, porque ele é essa rejeição a tudo que é estranho. E a gente vê isso no bebê, como o processo de adaptação do bebê traz choros, desconfortos. E essa primeira posição, digamos, seria a matriz simbólica do ódio. O amor vai vir só depois, só mais tarde que o sujeito vai entender o que é o amor de mãe, os cuidados. Então, no primeiro momento...

ao ódio. Então, o ódio como estrutural, como constituinte, como aquilo que vai penetrar também na linguagem, a gente sabe muito bem, então o ódio faz parte de nossa matriz.

E quando o outro, essa outra pessoa, aparece na nossa vida, o ódio comparece ali na relação com o outro quando alguma coisa escapa ao nosso controle. Quando o outro não responde como a gente espera, quando há alguma frustração, ele não nos dá o que a gente queria que ele desse.

E diferente do amor que tende a idealizar, o ódio revela a falta. Ele mostra o que está incomodando, o que está ferindo, o que está desorganizando. Ele é um sentimento muito forte, muito potente. É porque o ódio nos confronta com o nosso próprio limite, com aquele ponto impossível de simbolizar. Então, vamos pegar uma coisa que a gente odeia. A gente odeia a morte.

Porque ela é impossível de simbolizar. A gente não entende a morte. A gente não entende a traição, por exemplo. Todo mundo que é traído passa por um momento de odiar o outro. Porque não entende ou fica buscando palavras, contornos. Na traição, por exemplo, a gente fazia tudo por ele. Ajudei ele nisso, ajudei ele naquilo. Agora me trai. E na morte?

Quantas teorias a gente inventa sobre a morte para suportar esse encontro inevitável? Inevitável e que a gente odeia toda vez. O ódio a isso, por quê? Porque a gente não consegue simbolizar, ou seja, integrar isso.

O que a gente não consegue simbolizar, integrar. A gente odeia, como a gente falou agora há pouco, desde o começo, desde lá do bebê, porque ele não está entendendo o que está acontecendo. E o não entendimento ele odeia. Sei lá, uma porta que bate e o bebê assusta, por exemplo, ele chora. Ele não chora de amor, não. Ele chora de raiva, de ódio. Então isso vai, e isso, claro, vai ganhando.

consistência e substância com a linguagem, do que você gosta, do que você não gosta, e do que a criança, por exemplo, não gosta, ela dá birra. Então, tudo que a gente não simboliza, aparece como ódio. E aí aparece o outro com o seu jeito singular, que às vezes não...

É diferente do meu. É diferente. Então, a gente tem um ódio às diferenças. Por isso, talvez, até essa rivalidade social entre homens e mulheres. Porque são diferentes. Então, acho que o ódio comparece na diferença. Onde há diferença, há ódio. E o Freud fala naquele texto do mal-estar na civilização, perdão, na análise do eu e do grupo, que a gente tem duas maneiras. Ou a gente se identifica ou a gente segrega.

Ou eu me pareço com aquele. Eu me integro, me torno irmão. Me integro, me torno. Ou segrego. Então, já que não faz parte, então eu odeio. E na contemporaneidade, a gente está vendo um fenômeno muito interessante, que o ódio, às vezes, é capturado por discursos coletivos. Eu começo a odiar em grupo.

Eu não me sinto satisfeito em odiar sozinho. Eu me identifico com um determinado grupo e passo a incorporar aqueles valores e a odiar no coletivo. É um ódio que reverbera mais, ele é muito mais forte, ele é muito mais potente. Porque é em massa, né, Ruth?

Hoje a gente tem até um fenômeno de cancelamento, que é como se a massa conseguisse se organizar diante de uma pessoa, de uma fala, de um tropeço, de um erro. E aí temos a cultura também do cancelamento, que é uma cultura, ser cancelado é ser super odiado.

É ser morto, né? É ser morto, é ser cancelado. Você não vai deixar de existir para mim, você morreu. Tem até uma brincadeira de muito mau gosto, o CPF foi cancelado, tipo, o sujeito foi cancelado, o sujeito foi super odiado, e com as redes sociais...

a massa ganhou muito mais consistência pelo dispositivo tecnológico e a facilidade que a gente tem de conectar e de transmitir essa informação. Então, eu passo um vídeo para um grupo de WhatsApp, eu posto nas minhas redes e isso tem um outro significante para isso, isso viraliza. Hoje o ódio viraliza. E é tão fácil odiar, não é? Ah, odiar. A gente não precisa de muita coisa. Não, a gente está prontinho.

É como se o gatilho estivesse assim... O carro que fecha no trânsito, você já está odiando o cara, já xinga, já deseja o mal. Então, para odiar é muito fácil. A gente tem grandes acontecimentos dos nossos ódios. Estamos em guerra, é uma marca do nosso gódio.

Tivemos a Primeira Guerra Mundial, a Segunda e tantos eventos que mostram a potência que o ódio pode chegar e, de repente, não é usado em massa ou contra a massa e assim sucessivamente. E o ódio provoca um fenômeno interessante, porque ele acaba simplificando o mundo.

O mundo perde os matizes. Então, de um lado está o certo, do outro lado está o errado, de um lado está o bem, do outro está o mal. E essa lógica apaga essa subjetividade, as nuances do sujeito, a complexidade. Nada totalmente bom, totalmente ruim. Isso faz parte da riqueza, vamos dizer assim, da alma humana.

É a dialética, o ser ou não ser. E aí quando a gente pega essa coisa que a gente está vendo, essa coisa mesmo de um empobrecimento do simbólico, essa polarização binária, certo ou errado, ter ou não ter, santo ou impuro, essa pobreza simbólica, essa pobreza da discussão, do conflito de colocar em palavra, aí polariza, ou eu estou do lado de cá,

ou eu estou do lado de lá. Então, isso, a gente perde esse poder de dialética, o poder de dialogar, ou até mesmo de conseguir argumentar.

E até ter um conflito, mas um conflito dentro de uma esfera. Um conflito pela palavra. Pela palavra. Eu acho que o desafio do nosso tempo não é então eliminar o ódio, já que ele é estruturante e ele nos fez ser quem nós somos, mas encontrar umas maneiras de lidar melhor com ele. Porque essas maneiras de pular as etapas da palavra e ir direto para a violência, a gente está vendo que não está funcionando.

E hoje a gente fica por aqui. E a gente continua tratando desse tema na semana que vem. Toda quinta, às duas e trinta e cinco, nós estamos aqui. Até semana que vem. Tchau, tchau. Até lá. Divã na CBN, com Ruth Cavalcante e Leandro Borges.