Episódios de DEUSES E DEVOTOS

SERÁPIS: UM DEUS MACEDÔNIO NO EGITO

03 de maio de 202615min
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Quando Alexandre o Grande morreu em 323 a.C., ele deixou para trás um império vasto demais para qualquer herdeiro único. Seus generais — os chamados diádocos — dividiram o mundo entre si como cartas num baralho.

O Egito ficou com Ptolomeu I Sóter. Um macedônio. Um grego. Um estraneiro governando uma civilização que tinha cinco mil anos de história. O problema era óbvio: como legitimar o poder de um faraó que não era egípcio perante dois povos completamente diferentes — os gregos recém-chegados e os egípcios nativos? A resposta de Ptolomeu foi genial na sua audácia: criar uma divindade que pertencesse aos dois mundos ao mesmo tempo.

Participantes neste episódio1
M

Marcos André

HostComentarista esportivo
Assuntos7
  • Expansão do culto de SerápisDisseminação pelas rotas comerciais · Adoção em Roma e resistência inicial · Popularidade entre o povo romano · Culto em Éfeso
  • Picolé de LimãoEngenharia religiosa e política · Fusão de Osíris e Apis · Legitimação do poder de Ptolomeu I
  • Declínio e fim do culto de SerápisCompetição com novas religiões (Mitra, Isis, Cristianismo) · Edito de Tessalônica e cristianismo oficial · Destruição do templo em Alexandria · Perseguição religiosa
  • Contexto histórico do Egito HelenísticoMorte de Alexandre o Grande · Divisão do império pelos diádocos · Governo de Ptolomeu I no Egito
  • Iconografia e atributos de SerápisVisual de deus grego (barba, rosto) · Cesta de grãos (módios) · Associação com Cérbero · Fusão de divindades gregas (Zeus, Hades, Dionísio)
  • Legado e descobertas arqueológicasAchados em Éfeso · Escavações em catacumbas egípcias · Importância para a arqueologia e história das religiões
  • A natureza da crença em SerápisCriação política versus crença real · Significado para os adoradores
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E aí E aí E aí E aí

Olá, imagine que você é um general, um estrategista, você é um novo faraó governando, um Egito que ainda não te conhece. Você precisa urgentemente criar um Deus. Você não precisa descobrir, você não vai herdar. Você vai ter que criar do zero com um objetivo claro, político, poder.

criar um deus. É exatamente isso que aconteceu no século 3 antes de Cristo no Egito helenístico. O resultado dessa engenharia religiosa se chamou Serapis, uma divindade que atravessa seis séculos de história, essa divindade adorada de Alexandria a Roma, de Atenas a Bretanha. Os vestígios do curso dessa divindade nós estamos nos enterrando até hoje.

Meu nome é Marcos André, eu sou professor de História. Este é o podcast Deuses e Devotas, episódio de número 51. Nós vamos mergulhar na história completa de Serapis. Então, como que Serapis nasce? Por que ele foi necessário? Como seu culto vai se espalhar ali no mundo mediterrâneo? E, lógico, como que ele vai morrer? Como que esse culto morre?

Eu tenho outro episódio aqui no podcast sobre por que as religiões morrem. Bom, o contexto é o seguinte. Quando Alexandre de Grande morre em 323 a.C., ele deixa para trás um império bem vasto, como conhecemos. Ele não vai deixar um herdeiro único.

Então, os generais vão herdar isso. E esses generais eram chamados de diádocos. Então, eles vão dividir o mundo de Alexandre o Grande entre si. Então, o Egito vai ficar com o Ptolomeu I, Soter. Ele é macedônio. É por isso que Serapis é um deus macedônio no Egito.

Uma curiosidade, algumas pessoas acham que Cleóptor, por exemplo, era negra. Não, ela tinha origem macedônia, então ela não poderia ser negra. A origem dela está ali entre a Macedônia, a Grécia e tal. Bom, vamos voltar então para a Serapis.

Então, Ptolomeu I é um estrangeiro que vai governar uma civilização de 5 mil anos de história. Então, ele tem um problema. Como ele vai se firmar, se legitimar no poder de um faraó? De um faraó, porque ele não era egípcio.

Então, ele vai ter ali dois povos completamente diferentes. Ele tem os gregos recém-chegados ali na região do Egito e ele tem os egípcios nativos. Então, como ele vai se legitimar dentro do poder? Então, a resposta de Ptolomeu para isso é genial e também muito audaciosa. Ele vai criar uma divindade que pertence aos dois mundos ao mesmo tempo. Ou seja, ele vai fundir dois deuses.

vai fazer a fusão de Osíris e Apis e vai criar Serapis. Então, os egípcios já veneravam Apis há séculos, que era um touro sagrado criado nos templos de Mênfis, e é considerado a manifestação viva do deus Pitar. Então, quando o touro Apis morria, ele era mumificado.

em rituais dignos de um faraó e enterrado ali nas catacumbas de Saqqara, num local chamado Serapion. Então, a palavra vem exatamente do nome que seria dado ao novo Deus.

E Osíris, o deus dos mortos, da ressurreição e do além. Então, Osíris, provavelmente, a divindade egípcia mais conhecida. Narra ali a história do marido assassinado, ressuscitado pela esposa Isis, e vai ressoar profundamente no coração desse povo. Então, a fusão dos dois Osíris e Osoraps é o ponto de partida.

Então, o resultado não vai ser apenas um deus egípcio, porque Ptolomeu vai precisar que os gregos também pudessem reconhecer esse deus. A questão religiosa está muito ligada à cultura e à sociedade de um povo, então ela vai ter que carregar essas características. E como há o encontro dessas duas sociedades,

Ele vai criar esse deus calcado exatamente de uma maneira, vai fazer essa fusão de uma maneira que os seus súditos, tanto os nativos quanto os gregos pudessem adorar. Então, Serapis vai ser desenhado visualmente como deus grego. Ele vai ter a barba longa, cacheada, no estilo de Zeus. Vai ter aquele rosto majestoso que vai se inspirar em Hades.

E ele tem uma cesta de grãos, chamados de módios, sobre a cabeça, como a deusa Deméter. Então, muitas vezes, a imagem de Serapis vem acompanhada de Cébro, que é um cão de três cabeças que vive no submundo.

Então, era Osírio para os egípcios, era Zeus, era Hades, era Dionísio para os gregos, era tudo ao mesmo tempo. E conta-se a tradição que Ptolomeu vai chamar um homem chamado Briaxis, ele que vai esculpir a estátua oficial. E ele vai criar uma imagem colossal que vai ser instalada num grande templo ali em Alexandria.

Então, essa estátua é que vai se tornar o modelo que vai ser reproduzido em todo o mundo mediterrâneo. Então, o grande templo de Serapis, em Alexandria, é o Serapion. Então, ele é uma das maravilhas do mundo antigo. Ele ficava sobre uma colina ali e era acessível através de uma escada com degraus, como os templos gregos, enfim.

Bom, e o que torna Serapis tão poderoso? Não é apenas a questão política. Ele tem uma abrangência sobrenatural. Ele era o senhor dos mortos. E essa é de umas razões porque os egípcios aceitavam ele como herdeiro de Osíris. Mas ele também curava doenças como Asclepio.

Esses templos vão funcionar, no caso, como uma espécie de hospital, porque os doentes vão dormir no chão à espera de cura, de sonhos, de visões. Então, um outro poder dado a serápis é controlar a cheia do nilo e a fertilidade da terra. Por isso que ele traz ali na cabeça aquela coroa em forma de um balde.

que vai ser o senhor da fertilidade. Ele vai ser também o senhor do sol e do cosmos. Ele é um deus que move astros. É uma época antiga, não tem ciência como no mundo moderno. Então, o deus vai sempre abarcar a vida, a morte, a cura, a fertilidade. Então, esse aí vai se tornar um deus muito abrangente. E esse culto vai se expandir.

por todo o Mediterrâneo. E essa expansão pelo Mediterrâneo vai chegar em Roma. E não é através de conquista militar. As rotas comerciais que existem na região, os mercadores egípcios que vão comerciar os produtos do Egito e levar para Roma, esse culto vai acabar sendo levado para as cidades romanas, ali na região do Mar Egeu.

Então, onde havia comércio, onde havia a questão do Egito, havia Cerápis nessa época. Então, em Roma, o culto vai sim ter uma resistência. O Senado Romano vai proibir a construção de templos a Cerápis várias vezes durante o século I a.C. Então, é uma resistência que faz parte de uma tensão que existe entre a velha aristocracia romana e a fluência oriental crescente dentro do Império.

E eles vão enfrentar a questão popular, porque o povo romano vai adotar a Serápice e ele vai se tornar um deus popular. Então, para evitar conflitos nessa questão, os imperadores, aos poucos, vão cedendo, eles vão, inclusive, adotar. É exemplo de Calígula e de Vespasiano. O Calígula, ali no século I d.C., é um dos primeiros a levar.

oficialmente o culto Serápis a Roma, inclusive ele constrói um templo. Vespasiano também conta a lenda, quando ele estava como general ainda, e para controlar uma guerra civil, dois homens cegos chegam perto dele.

e pedem cura, e ele consulta os médicos e falam a questão do culto Serapis, então diz a lenda que Vespasiano toca nos dois cegos e eles são curados, então pouco tempo depois ele vem se tornar imperador de Roma. E Serapis vai chegar também em Éfeso, que é ali o centro da Anatólia, essa cidade fica na região da Turquia.

e esse culto vai florescer de forma mais abrangente. Então, no século II d.C., vão construir em Éfeso um templo dedicado a Serapis, que vai ser uma estrutura imponente com colunas de mármore e que ainda impressiona quem visita o sítio arqueológico até os dias atuais. Bom, mas como que Serapis, esse culto, começa a...

ao seu fim, como toda religião. Como eu digo, a religião também tem a questão de declínio, porque novas religiões vão surgindo. E é durante os séculos II e III depois de Cristo, o Império Romano vai assistir a uma competição religiosa sem precedentes. Serapis vai disputar ali o seu culto com os fiéis de Mitra, com Isis e com o culto imperial.

e, lógico, com o cristianismo que começa a crescer. Então, havia até quem tentasse conciliar os dois mundos. Arqueologicamente foi descoberta uma carta da época do imperador Adriano, ela está preservada em fragmentos, e essa carta descreve que habitantes do Egito adoravam tanto Cristo quanto Serapis, e isso ao mesmo tempo é um tipo de sincretismo religioso.

O edito de Tessalônica, em 380 d.C., declara o cristianismo como única religião oficial do império. Então, o que vem a seguir é a destruição do templo e a perseguição religiosa pelos cristãos radicais dessa época. Então, o momento mais dramático vai ocorrer em 391.

o bispo Teófilo de Alexandria, com autorização do imperador Teodócio I, vai liderar uma multidão de cristãos e vai destruir o templo. Então, o que acontece são atos de violência religiosa sem precedentes. O templo é saqueado, as estradas são destruídas, e aquelas imagens criadas por Briax vão ser derrubadas e destruídas. Então...

A questão da nova religião vai ser um dos motivos, uma das razões para o declínio do culto a Serapis. Em dezembro de 2025, arqueólogos trabalhando em escavações em Éfeso, na Turquia,

eles vão descobrir, ali no interior de algumas termas, um objeto que havia um rosto inconfundível de serapita, os cabelos fluidos, a barba majestosa e a coroa, módios, que é característica. Então, até os dias atuais, os arqueólogos estão descobrindo e esses objetos, lógico, são muito importantes, tanto para a arqueologia como para a história.

porque é assim que se trabalha a ciência e a história das religiões. O desenvolvimento desse quebra-cabeças vem dessa forma. No Egito também, as escavações e algumas catacumbas subterrâneas, onde estão enterrados os touros de ápices, continuam a produzir esses achados e do culto pré-elenisco que antecedeu a ser ápices. Então, entender a venerização...

A veneração de Apis é fundamental para entender a raiz egípcia do Deus que foi criado por Ptolomeu. Bom, Serapis é uma história que diz algo bem profundo sobre como os seres humanos constroem um significado. Serapis é criado por uma decisão política. Mas observem o seguinte, por seis séculos, pessoas como nós acreditaram nele.

rogaram por ele, construíram templos, queimaram incenso diante da estátua de Serapis. Então, colocavam pequenas imagens de suas casas, como as casas ali das terraças de Éfaso, os banhos públicos e os navios mercantes, enfim.

O fato é o seguinte, ele pode ter sido inventado, mas não torna ele menos real para quem o adorava. E é exatamente assim que acontece nos nossos dias. Isso, então, é bastante revelador.

Isso é o que a história nos oferece. Então, se você gostou desse episódio, compartilhe com alguém que ama a história antiga, que ama a história das religiões. E se tiver curiosidade sobre outros episódios da mitologia mediterrânea, comenta aí. Obrigado mais uma vez e até o próximo episódio.

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