Episódios de Espelho de Circe

EP 169 - EUDAIMONIA

08 de maio de 202615min
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Você já se perguntou por que, com tanto acesso a ferramentas de bem-estar, a infelicidade só cresce?

Neste episódio eu falo sobre felicidade — mas não sobre como alcançá-la. Sobre o que ela realmente é, de onde vem, e por que a busca constante por ela pode ser exatamente o que a afasta.

Da psicologia positiva a Aristóteles. De The Good Place aos pretos-velhos. E de uma metáfora simples que me ficou na cabeça: o espírito do mundo carrega um fardo de pedras. Você tira ou coloca?

#EspelhoDeCirce #Podcast #Eudaimonia #PensamentosMágicos #Felicidade #Espiritualidade #StellaIndomita

Participantes neste episódio1
C

Cate Friesvold

Host
Assuntos4
  • A armadilha da busca individualViés de negatividade · Esteira hedônica · Felicidade como projeto individual · Serviço e cuidado com o outro
  • Felicidade e propósitoConceito de felicidade · Psicologia positiva · Aristóteles · Eudaimonia · The Good Place
  • Dificuldades econômicas na juventudeRelatório Mundial da Felicidade · Redes sociais · Saúde mental de jovens
  • Tradições espirituais e felicidadeIfá · Ori · Umbanda · Pretos-velhos · Estela Indômita
Transcrição38 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Sejam muito bem-vindos e bem-vindas a mais um episódio do podcast Espelho de Circe, a nossa dose semanal de pensamentos mágicos para enriquecer e transformar nossas jornadas. Meu nome é Cate Friesvold e hoje eu começo com uma citação de Tostoi que ficou comigo essa semana inteira e dizia mais ou menos assim.

As pessoas tentam fazer coisas muito complicadas e inteligentes para melhorar a vida, em vez de fazer a coisa mais simples e fácil de todas, recusar-se a participar das atividades que tornam a vida ruim. Simples assim, e ao mesmo tempo absolutamente impossível de executar.

Ele está descrevendo uma lógica inteira, uma orientação, a ideia de que a maior parte do nosso esforço em direção ao que é bom está apontada na direção errada, partindo de um pressuposto equivocado sobre o que a felicidade é e de onde ela vem. E esse pressuposto equivocado hoje tem nome, tem algoritmo, tem coach certificado e provavelmente tem um aplicativo com uma assinatura mensal.

Hoje eu quero falar sobre felicidade, quero falar sobre o que ela realmente é e de onde a ciência diz que ela vem, o que a filosofia descobriu sobre ela há 2.500 anos e continua sendo ignorado, o que uma série de comédia americana entendeu melhor do que a maioria dos livros de autoajuda e o que as tradições espirituais sabem sobre isso há muito mais tempo do que qualquer relatório da ONU.

Mas vou começar pelos dados porque eles são desconcertantes de um jeito que eu acho importante nomear. O Relatório Mundial da Felicidade é publicado anualmente pelas Nações Unidas. Em 2024, ele trouxe algumas informações perturbadoras e reveladoras ao mesmo tempo.

Os países nórdicos continuam no topo. Finlândia, Dinamarca, Islândia. Isso é consistente há anos. O Brasil subiu cinco posições e chegou ao quadragésimo quarto lugar. Uma melhora real, mas ainda bem abaixo do que era em 2017 e 2018, quando a gente estava ali entre os 30 primeiros. O dado que me interessa mais é o que está acontecendo com os jovens.

Pela primeira vez desde que o relatório existe, 12 anos de dados, os Estados Unidos saíram dos top 20 dos países mais felizes.

O relatório descreve algo que chama de crise de meia-idade precoce entre jovens de 15 a 24 anos no Reino Unido, na Europa Ocidental, no Brasil e na Austrália. A felicidade dos jovens está caindo de forma consistente e acelerada enquanto a das gerações mais velhas permanece estável ou sobe. O porta-voz de saúde pública dos Estados Unidos apontou as redes sociais como um dos principais fatores.

Jovens passam em média 5 horas por dia nas plataformas. Um terço dos adolescentes fica acordado até meia-noite durante a semana por causa do celular. Esse dado é um exemplo perfeito do que Tostói estava descrevendo. As redes sociais preenchem uma necessidade real.

Conexão, pertencimento, reconhecimento, entretenimento, são respostas a necessidades legítimas e, ao mesmo tempo, estão documentadamente corroendo o bem-estar de quem as usa com mais intensidade. A armadilha é perfeita, a solução que cria o problema que ela promete resolver. Só que esse episódio não é sobre redes sociais, é sobre o que esses dados revelam sobre a nossa concepção de felicidade.

Nós vivemos na era em que mais se fala sobre bem-estar na história humana. Nunca houve tantos recursos, tanta informação, tantas ferramentas disponíveis de meditação guiada, a terapia online, journaling estruturado, rituais de autocuidado, coaching de vida, aplicativos que monitoram seu humor diariamente e a infelicidade cresce. Isso é um sintoma. A questão é de que?

A psicologia positiva, o campo científico que estuda o florescimento humano, tem uma resposta elegante e perturbadora. Pesquisas mostram que as pessoas classificadas como muito felizes sentem emoções desagradáveis com frequência. O que as distingue é uma certa moderação. Emoções agradáveis consistentes na maior parte do tempo.

E a capacidade de oscilar bem. Sentir alegria quando há razão para alegria. Tristeza quando há razão para tristeza. Sem que nenhum dos dois estados as destrua ou as defina permanentemente. A ciência não encontrou pessoas felizes o tempo todo. Encontrou pessoas que oscilam bem. Existe um fenômeno chamado viés de negatividade.

A tendência é que o cérebro humano tem de dar mais peso psicológico às experiências negativas do que as positivas. As emoções ruins requerem mais atenção, ficam mais tempo na memória, têm mais impacto nas decisões. Isso é biologia. O cérebro foi construído assim provavelmente porque, para sobreviver na floresta, era mais útil lembrar onde estava o predador do que onde estava a figueira mais bonita.

A busca por felicidade constante está lutando contra a própria arquitetura do cérebro humano. E quando essa busca falha, como inevitavelmente vai falhar, a pessoa conclui que está falhando em ser feliz.

o que gera mais sofrimento, que vai exigir mais um esforço em direção à felicidade e que vai falhar de novo. Os psicólogos chamam esse fenômeno de esteira hedônica. Você corre, corre, corre e o ponto de partida continua no mesmo lugar. Agora eu quero falar de uma série de televisão.

porque às vezes a cultura popular entende coisas que o discurso sério demora a nomear. Em The Good Place, uma série um pouco antiga já, de comédia americana que durou quatro temporadas, e que por baixo de toda a leveza e das piadas, se transformou num exercício filosófico genuíno sobre o que significa ser uma pessoa boa e o que significa ser feliz.

A premissa era simples. Uma mulher moralmente medíocre chega por engano ao paraíso e precisa se tornar uma boa pessoa para merecer estar ali. E a série passa quatro temporadas desconstruindo sistematicamente cada resposta fácil para essa pergunta.

Tem um personagem que é um professor de ética chamado Shidi. O arco do Shidi é, para mim, o mais honesto da série. Ele passou a vida toda estudando o que é certo, analisando cada decisão sobre todos os ângulos filosóficos possíveis. E exatamente por isso, era completamente incapaz de agir. A paralisia vinha da obsessão com a correção. Ele queria tanto fazer a coisa certa que nunca conseguia simplesmente fazer.

A virada, e eu vou ser cuidadosa aqui para não estragar demais para quem não assistiu, é que a bondade e junto com ela uma certa forma de paz só emerge quando ele para de perguntar o que eu devo fazer para ser bom e começa simplesmente a se perguntar como ele poderia ajudar as pessoas à sua volta. A ética deixa de ser um projeto pessoal e vira uma orientação relacional.

Isso é puro Aristóteles. Os roteiristas são explícitos sobre isso. Aristóteles distinguia dois tipos de bem-estar. O hedônico, ligado ao prazer e ausência de dor, e o eudaimônico, que ele chamava de florescimento, viver de acordo com a sua natureza mais profunda, exercendo suas capacidades em direção a algo maior do que você mesmo.

Para Aristóteles, a eudamônia era uma atividade, era o que acontecia quando você vivia bem em relação com os outros, exercendo virtude, contribuindo para a comunidade. A felicidade nessa concepção é o que sobra quando você está genuinamente voltado para fora de si mesmo. The Good Place leva isso a sério de um jeito que a maioria dos livros de autoajuda se recusa.

Porque os livros de autoajuda estão comprometidos com a ideia de que a felicidade é um projeto individual. É você quem precisa mudar, é você quem precisa se curar, você é quem precisa se desenvolver. O outro, a comunidade, o serviço entram como bônus, como uma consequência.

Na lógica aristotélica e na lógica de The Good Place, o outro é a estrutura inteira. O que Aristóteles descreveu, o que Good Place dramatizou, o que a psicologia positiva está medindo com seus instrumentos científicos, as tradições espirituais sabem há muito tempo. E dizem isso de um jeito mais vivo, mais encarnado. Em Ifá, existe um conceito central para entender a estrutura do destino, o Ori.

O Ori é sua essência individual, o seu destino escolhido antes de encarnar, aquilo que você veio ser e fazer. Ele se realiza no mundo através das relações, do que você dá, do que você oferece, de como você se posiciona em relação à comunidade e aos seus orixás. A relação do Ori é uma dança entre o que você é e o que você faz no mundo.

As oferendas, que para quem está de fora pode aparecer de uma lógica instrumental de dar e receber, são na verdade a materialização de um entendimento cosmológico, de que o ser humano existe em rede, que essa rede precisa ser alimentada, que alimentar a rede é alimentar a si mesmo, como realidade concreta mesmo, sabe? Na Umbanda isso aparece no próprio ato do trabalho mediúnico.

A médium que incorpora está servindo. O transe é um veículo para o cuidado. As entidades que trabalham nessa corrente, os pretos velhos, as pombas giras, os caboclos, eles carregam uma sabedoria que vem de ter vivido muito, sofrido muito, e de ter escolhido, mesmo diante de tudo isso, continuar servindo. Os pretos velhos são figuras de profunda serenidade, uma estabilidade que permite sentir tudo sem ser destruída por nada.

É exatamente o que a pesquisa descreve nas pessoas que oscilam bem. Na Estela Indômita, a gente tem como um pilar central a ideia de que a bruxa não existe para si mesma. A potência que se cultiva nos rituais, no estudo, nas práticas, é capacidade de presença, de cuidado, de intervenção no mundo. O conhecimento que não serve é um conhecimento incompleto.

Então, pultemos a citação de Tolstói, porque agora ela tem outra textura, certo? As pessoas tentam fazer coisas muito complicadas e inteligentes para melhorar a vida, em vez de fazer a coisa mais simples e fácil de todas, recusar-se a participar das atividades que tornam a vida ruim.

Ele está descrevendo uma recusa de lógica, a recusa de participar da concepção de felicidade como projeto individual, como conquista, como estado permanente a ser atingido e mantido. Essa concepção é fundamentalmente solitária. Ela coloca você no centro, como sujeito que precisa se otimizar. E ao fazer isso, te isola.

Transforma cada momento de infelicidade em fracasso pessoal. Faz do sofrimento um problema técnico a ser resolvido, quando ele é uma parte inevitável e às vezes necessária da experiência humana. As tradições sabem que a capacidade de estar com o que é difícil, sem fugir para a substância, para uma tela, para uma compulsão, é o fundamento do amadurecimento espiritual.

A fuga do sofrimento tem um custo. Ela te mantém dentro de um perímetro de segurança que vai encolhendo, encolhendo, até que sobra pouco espaço para viver de verdade. O serviço, o cuidado genuíno com o outro, o comprometimento com algo maior que você mesma, tira você do círculo fechado da autoavaliação constante. Você para de se perguntar, estou sendo feliz agora?

E nesse espaço, nesse esquecimento temporário de si mesma, algo que se parece muito com paz tem espaço para existir. The Good Place termina com uma das reflexões mais honestas sobre a finitude que já vi em ficção. O que a série conclui é que a possibilidade de perder algo, de que as coisas acabem, de que haja limite, é o que dá sentido e peso ao que existe. A felicidade permanente descobrem os personagens.

é o vazio. O que nos mantém vivos no sentido mais pleno da palavra é que as coisas importam porque podem acabar e que as pessoas importam porque precisam de nós e que nós precisamos delas. Tolstói sabia disso, Aristóteles sabia disso, os pretos velhos sabem disso e uma série de comédia da NBC surpreendentemente também sabia.

Alguém me disse uma vez que o Espírito do Mundo carrega um fardo de pedras e que cada pessoa que passa por aqui é uma das duas coisas. Alguém que coloca mais uma pedra dentro ou alguém que tira uma pedra de lá. A pergunta que fica é, de quem você está cuidando? A que você pertence? O que você está servindo que é maior do que seu próprio bem-estar? A resposta para essas perguntas é onde a coisa que se parece com felicidade costuma morar.

Obrigada por ter ficado até aqui. E eu vou te contar que esse episódio não resolve nada. Era justamente isso que ele queria fazer. A felicidade que se busca como projeto pessoal é uma pergunta que não tem resposta satisfatória, porque a pergunta em si está mal formulada. Quando você para de fazê-la, algo muda.

Agora, se alguma coisa ficou pulsando, uma pessoa que você se lembrou, algo que você tem feito que pesa mais do que deveria, algo que você tem deixado de fazer que poderia ser mais leve, deixa ficar. De quem você está cuidando? A que você pertence? O que você está servindo que é maior que você mesma? Essas são as perguntas que importam.

A gente segue então aqui nos canais da Estela Indômita até o próximo episódio e que o fardo do mundo fique um pouco mais leve por você ter passado por aqui. Um grande abraço e até semana que vem. Eu deixo um agradecimento à equipe que sustenta esse trabalho e que com ele também sustenta o desconforto necessário que ele levanta. Cátia de Matos Friisvolt na direção criativa, Andy Santos no design e no desenho de som Natan Toledo.