EP 168 - ENTRE A BUSCA E A EXIGÊNCIA
Tem uma lógica que a gente aprende cedo: basta querer, basta se organizar, basta dar conta.
E a gente dá, de tudo, do trabalho, do corpo, das relações, do desenvolvimento pessoal, até da espiritualidade que vira lista, meta, mais uma coisa para cumprir.
Nesse episódio, Jéssica Puga fala sobre o momento em que a busca deixa de ser escuta e vira exigência.
Ouça agora no seu tocador favorito.
#espelhodecirce #stellaindomita #podcast #bruxaria #femininomistico #espiritualidade #autoconhecimento #bruxaria #magia #sagradofeminino
Jéssica Puga
- Mercado espiritual feminino e autocobrançaIdeal da mulher desperta · Venda de autocobrança com estética de empoderamento · Linguagem de cura disfarçando exigência
- Busca espiritual vs. exigênciaPerformance na busca espiritual · Ritual como tarefa · Espiritualidade como agenda · Cobrança interna e cultural · Sociedade do cansaço para mulheres
- A bruxa original e a relação com o tempoConhecimento ancestral vs. planner · Tempo sem rendimento e justificativa · Presença sustentada no ritual
- O caos do feminino sagradoPotência que precede a forma · Caos organizado vs. caos sem função · Negar o caos como negação do feminino
- Ver o mecanismo da exigênciaReconhecer a exigência na busca · Colonizar o descanso com performance · Perceber o cansaço cristalizado
- Sujeito de desempenho e autoexploraçãoImperativo da produtividade internalizado · Voz do opressor como voz própria · Camadas de exigência para mulheres
- Distinção entre busca e gestão de siPressa em rituais e práticas · Avaliação de rendimento da espiritualidade · Interrupção do silêncio por desconforto
- Anitta e a busca pelo 'eu'Trajetória de sucesso e a sensação de falta · Desacelerar e o processo interno · O que é meu vs. performance
Sejam muito bem-vindas e bem-vindos ao podcast Espelho de Circe, a nossa dose semanal de pensamentos mágicos para enriquecer e transformar as nossas jornadas. Eu sou a Jéssica Puga e hoje a gente vai atravessar o espelho com uma pergunta que recentemente andou populando mais e mais os meus pensamentos. Em que momento a busca espiritual deixa de ser natural e vira só mais uma forma de exigência?
Porque existe algo muito específico que acontece quando uma pessoa, especialmente uma mulher, que é formada para performar, começa a buscar descanso. E ela leva a performance junto com ela. Daí é quando o ritual vira tarefa, a meditação entra na lista de to do, e a espiritualidade começa a se parecer estranhamente com mais uma agenda para cumprir.
Hoje eu quero conversar com vocês sobre isso, sobre essa cobrança chata que muda de roupa, mas não muda de estrutura. E sobre o caos que o feminino sagrado sempre soube habitar e que a gente foi treinada a eliminar. Sobre a bruxa original, que tinha mais dinheiro mágico do que planner e bem mais tempo, escuta e paciência com o que ainda está tomando forma.
Quero que vocês pensem em uma cena aqui comigo. A gente tá em um lugar qualquer. Pode ser uma reunião, pode ser um evento, pode ser uma dessas situações sociais onde todo mundo tá apresentando a melhor versão que conhece de si mesmo. E eu olho pra uma mulher um pouco mais velha do que eu e ela fez tudo o que nos disseram pra fazer. Construiu carreira, sustentou família, manteve o corpo, apareceu quando precisava aparecer, não deixou nenhum momento a peteca cair.
E ainda assim, tem alguma coisa no jeito dela que não parece bem. E não é tristeza exatamente. É um tipo de exaustão que foi longe demais pra ser só física. Como se ela tivesse vivido em alta performance por tanto tempo que o corpo já nem mais registra o cansaço como sinal. É mais um estado permanente mesmo.
O famigerado novo normal. Eu olho pra isso e eu sinto uma coisa difícil de nomear. Porque não é pena, não é julgamento, é algo mais próximo de reconhecimento. Como se eu estivesse vendo de longe uma versão possível do meu próprio caminho. E isso me incomoda de um jeito muito específico.
Porque eu fui formada dentro do mesmo discurso que formou essa mulher. A ideia de que a gente pode tudo, que basta querer com força suficiente, que dá para sustentar todas as versões de si mesma ao mesmo tempo. A profissional, a afetiva, a criativa, a espiritual, a que cuida dos outros e ainda por cima cuida muito bem de si mesma. Que o limite é falta de organização, de foco, de comprometimento.
Só que aos poucos eu começo a perceber outra coisa, que existe uma diferença entre possibilidade e sustentabilidade, e esse discurso nunca fez questão de falar muito sobre essa diferença. Byung-Chul Han, um filósofo coreano que passou boa parte da vida estudando o que o mundo contemporâneo fez com as pessoas, tem um conceito que ele chama de sujeito de desempenho.
E a ideia de que a gente deixou de ser explorada por um sistema externo, um patrão, uma estrutura, uma classe, e passou a se explorar voluntariamente. Porque a gente internalizou o imperativo da produtividade a ponto de não precisar mais de nenhuma força de fora. A cobrança virou interna, porque ela também virou cultural.
A voz do opressor virou a sua própria voz. E a mulher chegou nesse lugar com bagagem extra. Porque a gente nunca foi cobrada só pela produtividade. A exigência sempre teve mais camadas.
Ser produtiva e cuidadora, realizada e disponível, forte e gentil, sensual e discreta, ambiciosa, mas não ameaçadora. A sociedade do cansaço, para a maioria das mulheres, não é uma novidade do século XXI. É só a versão contemporânea de uma cobrança que tem séculos de história. O que mudou foi o vocabulário. Antes era seja boa esposa, boa mãe, boa filha.
E depois foi seja independente, realizada, bem-sucedida. Agora é seja consciente, desperta, alinhada, curada e evoluída. A forma muda, mas a estrutura nem tanto. Sempre existe uma versão de você que ainda não chegou. Você está sempre incompleta. Sempre há mais trabalho interior para fazer, mais desenvolvimento, mais entrega. O feminino perfeito é um horizonte que recua toda vez que você dá um passo para frente.
E o detalhe cruel é que a versão atual desse horizonte usa essa linguagem espiritual e de cura. Eu comecei a me aproximar das práticas espirituais como um caminho de retorno, mais como um jeito de sair dessa lógica do que como mais uma coisa para se fazer, para ser boa em se fazer.
A espiritualidade tem potencial de proporcionar um espaço sem métrica, onde o tempo não precisa necessariamente render, onde na teoria se pode estar sem ter que provar nada. Mas na prática tem uma dualidade incômoda, porque parece que mesmo essa leveza e essa soltura precisam de atenção plena, porque se a gente descuida, quando vê, tudo já virou lista.
Eu preciso meditar, eu preciso fazer ritual, eu preciso estudar os ciclos, eu preciso desenvolver minha intuição, eu preciso processar minha sombra, eu preciso integrar o arquétipo da semana. E quando eu percebo, estou organizando a minha espiritualidade do mesmo jeito que eu organizaria minha agenda de trabalho, com tarefas, prazos implícitos e um senso vago e presente de atraso.
E não acho que sou só eu, porque de fato existe um arquétipo específico que o mercado espiritual construiu para a mulher que se mostra na imagem dessa mulher desperta, que ela conhece o seu ciclo, celebra a lua, processa suas sombras com regularidade, tem fronteiras claras, não se perde em relacionamentos que não a honram, está sempre crescendo e é um ideal de completude meio disfarçado de libertação.
E o detalhe perverso é que esse ideal usa a linguagem do cuidado para criar mais uma régua, mais uma forma de você se olhar e constatar que ainda falta. O mercado espiritual feminino aprendeu a vender autocobrança com estética de empoderamento. E como o vocabulário é de cura, como o cenário é de velas, de ervas, de lua cheia, fica mais difícil de reconhecer. A exigência não soa como exigência, soa como caminho.
Esse tema me faz pensar em uma pauta que está bem presente agora, que é sobre a espiritualidade da cantora Anitta. Larissa, né? Ariana, filha do subúrbio carioca, que decidiu muito cedo o que ela queria e foi buscar isso com uma determinação que intimida qualquer um. Ela mapeou o sistema, entendeu como ele funciona, usou cada escada disponível, inclusive aos que o patriarcado oferece para mulheres dispostas a entregar exatamente o que ele espera. E ela chegou.
De verdade chegou lá. Fama global, reconhecimento internacional, o nome dela na boca de todo mundo. E qual a surpresa que quando ela chegou no topo e que ela olhou, o que ela encontrou lá em cima? Falta.
Não um fracasso, não um arrependimento, falta. Aquela sensação específica de ter cumprido tudo que prometeu cumprir e ainda assim sentir que alguma coisa essencial ficou de fora do pacote. Isso me interessa muito mais do que a trajetória de sucesso, porque a trajetória de sucesso a gente já conhece, já aplaudiu, já usou como exemplo. O que raramente aparece é o depois, o momento em que a mulher que conquistou tudo que nos ensinaram a querer precisa ter coragem de perguntar.
Mas, e eu? O que de fato eu queria disso? O que disso tudo é meu? O que da performance eu aprendi tão bem que eu confundi com desejo?
E ela parou, desacelerou, palavra que ela mesma repetiu bastante nesse álbum novo dela, e se afastou do ritmo que tinha definido por anos. Foi buscar alguma coisa diferente. E lançou um álbum que, independente se a sonoridade agrada ou não, carrega uma marca inconfundível. Dá pra ver que foi feito pra ela. Não pro mercado, não pro hit, não pra estratégia. Tem ali o peso específico de um processo interno levado a sério, do jeito dela.
O Mariana que escolheu desacelerar é quase um paradoxo. E talvez seja justamente por isso que vale prestar atenção. Porque se até quem tem toda a energia de conquista do mundo chegou num ponto em que a conquista não foi o suficiente, o que isso quer dizer sobre essa promessa que eles continuam a tentar nos vender? Eu fico aqui pensando na bruxa que existia antes disso tudo.
Claro, deixando de lado essa idealização de um passado que provavelmente nunca foi tão simples quanto a gente imaginava, mas se perguntando sobre o que se perdeu, o que se mudou no caminho. A bruxa antiga, a mulher que guardava o conhecimento das plantas, dos ciclos, dos corpos, dos mortos, não tinha plener.
Em algum ponto da história, ela pode até ter tido seu diário mágico, que está mais perto de anotações caóticas, ilustrações e símbolos do que calendário e traqueamento de hábitos.
Ela tinha tempo. Escuta a paciência com o que não tem forma ainda. Uma tolerância para o não saber que a gente foi treinada a entender como fraqueza, como sinal de que alguma coisa está muito errada. E quando eu digo que ela tinha tempo, eu não estou falando de ócio. Eu estou falando de uma relação diferente com o tempo. Um tempo que não precisa provar nada, que não está sempre se justificando.
O tempo do ritual antigo não era o tempo de uma tarefa concluída, era o tempo de uma presença sustentada. E isso me faz pensar numa coisa que raramente aparece nas conversas sobre espiritualidade feminina, não tanto quanto deveria, que é o caos.
O feminino sagrado, em praticamente todas as tradições que formaram, ele é caótico na origem. Não é desordem por descuido, é potência que precede a forma. O útero antes da criança, a terra antes da semente, a escuridão antes de qualquer coisa. Mas a mulher evoluída de hoje não pode ser caótica. Ela pode ser intensa, sim, mas de uma forma organizada. Pode ser emocional, desde que processe tudo e chegue um aprendizado embalado no final.
O caos real, o caos que não leva a lugar nenhum, que não vira em site, que não tem lição, é tratado como regressão, como falta de trabalho interior, como algo a ser resolvido.
Só que negar o caos é negar uma parte real do que é ser feminino. Quando a espiritualidade vira mais um espaço para você organizar o que não tem forma, ela deixa de ser espiritualidade e vira gestão de si mesma com outro nome. A distinção que eu estou tentando fazer é muito sutil, porque ela não aparece em grandes decisões. Ela aparece na pressa que eu levo para terminar um ritual, na expectativa que eu coloco numa prática que em tese não deveria exigir nada.
Na forma como eu me avalio depois, se rendeu, se abriu algo, se foi suficiente. Ela aparece quando eu paro uma meditação no meio porque não sinto que estou meditando certo. Quando eu interrompo um momento de silêncio, porque o silêncio sem função me desconforta. Eu sei ter tempo. Não no sentido de ter horas disponíveis. Mas no sentido de conseguir estar em um tempo que não rende. Não da forma como você foi ensinado que é rendimento.
Eu sei escutar sem querer transformar esse resultado? Eu sei sustentar a paciência com o que ainda não tem forma? Com o que ainda não se resolveu? Com o que simplesmente se expressa? Com o que é? Sem precisar fazer alguma coisa com isso? Porque talvez o ponto não seja abandonar as práticas. Claro, talvez o ponto seja só observar de onde que eu estou partindo? De onde eu estou fazendo? Se é um movimento de retorno? Um gesto de escuta? De presença?
de contato com algo maior do que a minha agenda, ou se é só mais uma forma de tentar dar conta de tudo.
E essa diferença não muda o que você faz. Ela muda a qualidade da presença que você traz para o que você faz. E tem uma outra coisa que fica comigo e eu quero nomear ela antes da gente fechar. Alguma coisa acontece quando a gente começa a ver o mecanismo. Quando você começa a perceber que carregou a exigência para dentro da busca, que colonizou o espaço de descanso com mais performance.
Ver o mecanismo enquanto ele está ali se desenvolvendo não é falhar, é justamente o oposto. A maioria das pessoas só percebe depois, quando o cansaço já cristalizou, quando o corpo já apresentou a conta, quando a versão exausta delas está olhando de volta do espelho.
E às vezes até renegando a própria magia, porque no fim ela acabou sendo parte do pacote ali da sociedade do cansaço. Reconhecer, mesmo sem saber exatamente o que fazer com isso, é uma forma de presença que a gente tende a ignorar. Você pensar, eu ainda não estou do outro lado, eu ainda levo pressa para lugares que pediram calma, ainda ouço a voz que diz que deveria estar sendo mais resolvida, mais evoluída, mais estruturada, indo além.
Mas eu já consigo ver. E talvez isso já seja alguma coisa.
Uma abertura, um jeito diferente para você ver a própria caminhada, com um pouquinho mais de carinho. Uma abertura de um espaço pequeno, mas real, onde nem tudo precisa ser resolvido imediatamente. Onde a busca pode ser, por um momento, só uma busca, sem ter que se justificar, sem ter que render muito mais do que aquilo mesmo. E a pergunta que fica é simples, irritantemente simples.
Em que momento que a busca deixa de ser escuta e vira uma forma de exigência? E eu não tenho a resposta. Mas pelo menos eu percebo que escrevendo esse podcast, é a primeira vez em bastante tempo que eu faço uma pergunta sem sentir urgência em respondê-la imediatamente. E talvez isso, por enquanto, seja o suficiente.
Eu deixo um agradecimento à equipe que sustenta esse trabalho e que com ele também sustenta o desconforto necessário que ele levanta. Cátia de Matos Frizzvolt na direção criativa, Andy Santos no design e no desenho de som Natan Toledo.
E um agradecimento especial a você que nos escuta. As bruxas e os bruxos que escolhem semana depois de semana fazer essas perguntas difíceis, que navegam esse mar sem garantia de margem à vista, sem saber exatamente onde vão chegar, mas mesmo assim continuando a nadar. Obrigada por estarem aqui e nos vemos no próximo episódio do Espelho de Circe.