Episódios de Pensar com o Coração, com Lília Andrade

Ep. 75. Perguntas que ecoam: "Como conquistar a pessoa de quem gosto?"

04 de maio de 202612min
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Há um momento em que o coração acelera, a cabeça entra em loop e .... ficamos parados ao pensar em abordar pessoa por quem temos interesse. Este mês, na nossa rubrica "Perguntas que Ecoam", a pergunta foi: "Como conquistar a pessoa de quem gosto?" Não respondi com técnicas, mas com dados e com honestidade.O que vai ouvir neste episódio:- A diferença entre medo de rejeição e medo de exposição: o que realmente nos paralisa- O que é a "realidade partilhada" e porque prevê o interesse romântico - O paradoxo da insegurança: porque é que expressar demasiada necessidade de aprovação bloqueia a própria aprovação- Uma abordagem recente sobre a compatibilidade
Participantes neste episódio1
L

Lili Andrade

HostPsicóloga clínica
Assuntos4
  • Padrões Românticos DesejadosPercepções da relação · Atração física percebida · Autenticidade percebida · Autoexpressão e desvio social espontâneo
  • Insegurança e Falta de Capacidade PessoalNecessidade excessiva de aprovação · Dúvida da autenticidade das respostas · Vulnerabilidade autêntica vs. insegurança como postura
  • Rejeição social e pessoalAnsiedade de aproximação · Vulnerabilidade e revelação pessoal · Regulação emocional antecipatória
  • Cocriação de compatibilidade românticaHistória partilhada e momentos únicos · Microcultura relacional · A pessoa certa é cocriada
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Como conquistar a pessoa de quem gosto? Esta foi a pergunta que nos deixaram na rubrica Perguntas que Econ. E neste episódio de Pensar com o Coração, é sobre isto que iremos falar.

Bem-vindo e bem-vinda ao podcast Pensar com o Coração. O meu nome é Lili Andrade, eu sou psicóloga clínica e estarei consigo neste podcast para descomplicar a psicologia, explorarmos as profundezas da mente, descobrirmos novas perspetivas e cultivar o bem-estar. Vamos a isso?

No episódio de hoje temos a nossa rubrica favorita, Perguntas que é com. E as perguntas que chegam até nós são perguntas feitas por uma pessoa, mas que não dizem respeito só a uma pessoa, dizem respeito a muitas pessoas. E a pergunta que chegou foi uma pergunta simples e uma pergunta também bastante honesta. Como é que eu posso conquistar a pessoa dos meus sonhos?

Então, vou ser direta em primeiro lugar, não existe uma fórmula, não tenho uma fórmula, nem vou apresentar uma fórmula. Não existe uma técnica secreta, nenhuma frase certa, nenhum algoritmo que transforme esse interesse em amor. Mas a ciência das relações tem algumas coisas interessantes para dizer sobre o que realmente acontece no começo. E é sobre isso que eu quero falar hoje. Porque há uma diferença grande entre aquilo que nós imaginamos que funciona e aquilo que realmente funciona. E conhecer essa diferença é muito libertador.

Vamos então começar pelo sítio mais honesto possível, que é o medo. E se já sentiu o coração acelerar quando aquela pessoa entrou na sala, se já enceiou mentalmente o que ia dizer e depois disse outra coisa completamente diferente, se já ficou em silêncio quando o que queria na realidade era falar, então já conheceu a ansiedade de aproximação. E existe investigação específica sobre isto e o que os estudos nos dizem é que esta ansiedade de aproximação é extraordinariamente comum.

mais do que aquilo que nós imaginamos. A maior parte das pessoas que nos parecem confiantes nas aproximações românticas, também sentem esse nó no estômago. A diferença não está na ausência do medo, está na relação que estabelecem com ele. Então,

O que mais interessa nesta investigação é uma distinção que raramente nós fazemos, que é a diferença entre o medo da rejeição e o medo da exposição. Não são a mesma coisa. O medo da rejeição é o que nós imaginamos que vai acontecer lá fora. A outra pessoa diz não, afasta-se, ri, ignora. O medo da exposição é outro. É o medo de que ao aproximarmos-nos, ao mostrarmos interesse, estamos a revelar algo sobre nós próprios. Estamos a dizer, tu importas para mim.

E isso é uma vulnerabilidade real. E o que é mais interessante nisto é que a maior parte das pessoas que não age não está a proteger-se da rejeição. Está a proteger-se da exposição. Está a evitar o momento em que deixa de ser possível fingir indiferença.

E há aqui um nome para isto na psicologia, que é uma regulação emocional antecipatória. Nós protegemos-nos de algo que ainda não aconteceu. E ao fazê-lo, garantimos um resultado que achamos que estamos a evitar, que é a não-relação. Então, vamos falar agora aqui sobre o que realmente prevê o interesse romântico nas fases iniciais.

Existe um estudo que acompanhou mais de 200 jovens solteiros durante 7 meses, registrando as suas interações com potenciais parceiros ao longo do tempo, que pretendia perceber o que é que prevê o interesse romântico.

E o que melhor previu o interesse romântico não foram os traços de personalidade da pessoa que estava a ser observada, não foi ser extrovertida, ambiciosa ou ter um determinado tipo de humor. O que mais importou foram as percepções específicas da relação, ou seja, sentir que a outra pessoa estava interessada em nós, sentir proximidade, sentir que a conversa revelava algo real.

Outro dado muito importante, a atratividade física previu o interesse romântico no momento inicial, mas, mas é um mas que importa muito, a atratividade avaliada por outras pessoas, por pessoas externas à interação, tinha um impacto muito menor do que a atratividade percebida pela própria pessoa interessada. Ou seja...

O que a pessoa acha atraente na pessoa de quem gosta é mais importante do que qualquer outro critério. E outra coisa que se percebeu é que não existe um perfil certo, não existe um conjunto de características que garanta o resultado. O que existe é um processo e nesse processo o que fazemos, como aparecemos, o que dizemos, o que ouvimos importa muito mais do que aquilo que somos em abstrato.

Então o que é que realmente funciona? O que nos diz a investigação sobre as primeiras conversas, os primeiros encontros, os primeiros sinais? Há uma linha de investigação, que me parece relevante aqui, e que se centra num conceito que em português podemos chamar de realidade partilhada. É a percepção de que estamos a ver o mundo da mesma forma que a outra pessoa. Não concordância total, não é isso. É a sensação de que quando eu digo algo e a outra pessoa responde, há um encontro genuíno, há reconhecimento.

O que a investigação mostra é que a autenticidade percebida do nosso interlocutor é um dos produtores mais fortes da vontade de iniciar a relação. Não o charme, não a fluência verbal, não as histórias impressionantes. A autenticidade. E a autenticidade, neste contexto, tem dois componentes muito concretos.

O primeiro chama-se de autoexpressão, ou seja, a disposição para partilhar aquilo que nós realmente pensamos e sentimos, mesmo quando isso nos expõe um pouco. Não é partilhar em demasia, não é confissão imediata dos traumas de vida, é simplesmente a disposição para ter uma opinião, para dizer isso importa-me, para não ficar apenas na superfície do que é socialmente seguro.

A segundo componente desta autenticidade é o que chamam de desvio social espontâneo, ou seja, a disponibilidade para sair do roteiro, para dizer algo inesperado, para reagir de forma genuína em vez de ensaiada, para ser imprevisível, não por estratégia, mas por presença.

Quando estas duas coisas acontecem, a pessoa com quem falamos tende a sentir que está a encontrar alguém real e esse encontro com algo real é o que cria a vontade de voltar. Quero agora falar aqui de um paradoxo que eu acho importante e que tem a ver com esta pergunta. Há aqui um estudo que examinou o que acontece quando as pessoas expressam as suas inseguranças relacionais, quando mostram o quanto precisam de aprovação e que tem a ver com essa pergunta.

quando buscam reassurance excessiva, quando a sua vulnerabilidade é demasiado visível e demasiado cedo. E aquilo que os investigadores encontraram foi um ciclo. Quando alguém se sente inseguro em relação ao interesse de outra pessoa, tendo a expressar essa insegurança de formas que faz com que acredite que está a ser vista como uma pessoa emocionalmente vulnerável.

E o que os investigadores encontraram foi um ciclo. Então, quando alguém se sente inseguro face ao potencial interesse da outra pessoa, tende a expressar essa insegurança de formas que faz com que acredite que está a ser vista como uma pessoa emocionalmente vulnerável. E essa crença que a própria pessoa vai ganhando sobre si própria, leva a duvidar da autenticidade das respostas positivas que recebe.

Está a ser simpática porque me vê frágil, não porque realmente gosta de mim ou tem interesse em mim. E esta é uma armadilha cognitiva e que pode perpetuar-se. O que isto nos diz é que a insegurança, quando se torna o centro da nossa presença numa aproximação romântica, não aumenta as hipóteses de conexão, diminui. Não porque a vulnerabilidade...

É algo errado, mas a vulnerabilidade, como vimos, é central para a autenticidade. Só que há uma diferença entre a vulnerabilidade autêntica, uma partilha real sobre quem eu sou, e a insegurança como postura, comunicar constantemente que eu preciso de ser tranquilizado. Uma diz, isto importa-me. A outra diz, por favor confirma-me que não me vais rejeitar. São coisas muito diferentes.

Então voltemos à pergunta original, como conquistar a pessoa dos meus sonhos, a pessoa de quem eu gosto? Pois tudo aquilo que acabamos de ver, a resposta é provavelmente não da forma que imagina. Não através de uma estratégia, não através de um script perfeito, não através de ser alguém que não é, ou de suprimir o que se sente, ou de fingir indiferença para parecer mais interessante. O que a investigação aponta, consistentemente,

É que o que cria conexão real nas fases iniciais é algo muito simples e também muito assustador ao mesmo tempo. Aparecer de forma genuína. Isto significa estar presente na conversa, não apenas a monitorizar como se está a sair. Significa ter curiosidade real sobre a outra pessoa, não como ferramenta de solução, mas porque genuinamente quer conhecer a outra pessoa, quer saber quem ela é. Partilhar algo seu que vá além do que é conveniente partilhar.

reagir ao que acontece em vez de ir a um plano. E significa, e aqui é a parte mais difícil, que passa por aceitar a incerteza. Porque a ciência mostra-nos que não é possível prover o resultado, o interesse sobe e desce, muda e surpreende, não há garantias, mas há uma coisa que garante que a relação nunca começa, é não aparecer. Então, antes de terminar, quero deixar uma última ideia.

que é das mais bonitas que a investigação sobre relacionamentos nos oferece. Há aqui uma teoria recente, ainda em desenvolvimento, que sugere que a compatibilidade romântica não é tanto uma questão de encontrar alguém que corresponde ao seu perfil ideal, não é sobre um conjunto de características que se encaixam nas suas preferências, a compatibilidade, segundo esta perspectiva, é algo que se cria.

É feita de história partilhada, de momentos únicos, de formas de falar que só existem entre duas pessoas. É feita de uma microcultura que só existe naquela relação específica. O que isso significa é que a pessoa certa não existe num vácuo à sua espera. A pessoa certa é cocriada no processo de construir uma relação com alguém. E o processo começa com uma coisa muito pequena, uma conversa, uma primeira conversa real.

E espero que se esta pergunta lhe tocou, quero que leve consigo algo também. O seu interesse para alguém não é uma fraqueza, é uma informação. Diz que aquela pessoa tem algo que o move, que faz querer saber mais, que faz querer aparecer. E esse impulso merece ser honrado, não necessariamente como uma declaração dramática.

Não com uma estratégia calculada, mas com a disposição para dar um passo na direção de algo que importa. E se a resposta não for o que esperava, o que pode acontecer. E não há forma de garantir que não aconteça. Isso também é informação, não sobre o seu valor, mas sobre a compatibilidade, o timing, a situação. Coisas que existem fora de si. E espero que tenha feito sentido e vemos-nos no próximo episódio. E até lá, pense com o coração.

Pensar com o coração

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