Episódio 73 | Quanto Custa 'Realmente' Contratar Um Trabalhador?
No episódio desta sexta-feira, Rita Pacheco de Almeida, Técnica de Finanças e Contabilidade, explica de forma clara e prática quanto custa realmente contratar um trabalhador.
Muita gente pensa que o salário líquido é o custo real, mas na verdade existem vários encargos e benefícios que aumentam significativamente o investimento de uma empresa.
No exemplo que partilhamos, um salário bruto de 1.000€ pode chegar a custar à empresa cerca de 1.287,50€ ou mais!Entender estes números não é só importante para quem contrata, também ajuda os trabalhadores a ter uma visão mais completa sobre o seu valor e sobre o investimento da empresa.
Rita Pacheco de Almeida
- Modelos de remuneraçãoDiferença entre salário bruto, líquido e custo total · Taxa Social Única (TSU) · Seguro de acidente de trabalho · Medicina no trabalho · Formação obrigatória · Benefícios e custos indiretos (subsídio de alimentação, férias, Natal, seguro de saúde, bónus, viatura)
- Transparência PúblicaPerspectiva das empresas (planeamento financeiro, sustentabilidade) · Perspectiva dos trabalhadores (expectativas realistas, negociação)
Bem-vindos a mais um episódio do Labourcast, o espaço onde descomplicamos os temas do mundo do trabalho e das empresas. Hoje vamos falar de uma questão que muitos empregadores e até trabalhadores nem sempre compreendem totalmente. Afinal, quanto custa mesmo contratar alguém? Quando se fala de salário, muita gente pensa apenas num valor líquido que cai na conta.
Mas a verdade é que o custo real da empresa é bastante mais elevado. O salário não é só o salário. Antes de falarmos dos custos para a empresa, temos de esclarecer três conceitos fundamentais que muitas vezes são confundidos. O salário bruto, o salário líquido e o custo total. O que é o salário bruto? É o valor acordado entre o trabalhador e a empresa antes de qualquer desconto. É aquele número que normalmente aparece no contrato de trabalho.
Este inclui a remuneração base e possíveis complementos fixos, como prémios mensais ou subsídios. É sobre este valor que vão ser calculados os impostos e contribuições. E o que é o salário líquido?
não é mais do que o valor que o trabalhador efetivamente recebe na conta bancária ao final do mês. Isto é, ao salário bruto é subtraído o desconto para a Segurança Social e para a IRS, este conforme rendimento e dados fiscais do trabalhador. Resumindo, o salário líquido é o dinheiro real disponível para gastar, aquilo que a maioria das pessoas considera como o seu salário. Agora vem a parte que muitas vezes passa despercebida, o custo total para a empresa.
Para além do salário bruto, a empresa tem que pagar encargos adicionais obrigatórios, que incluem a taxa social única, 23,75%, o seguro de acidentes de trabalho e outros custos legais associados. Isto significa que o valor que a empresa gasta com um trabalhador é significativamente superior ao salário bruto.
Resumindo de forma clara, o salário bruto é o valor base acordado, o salário líquido é o que chega à conta e o custo total é aquilo que a empresa realmente paga e o que pode ser bastante mais alto. Perceber esta diferença é essencial para quem contrata como para quem trabalha, porque...
ajuda a ter expectativas mais realistas e decisões mais informadas. Vamos agora falar de um dos principais custos associados a um trabalhador, a TSU ou taxa social única. O que é? É a contribuição obrigatória para a Segurança Social, paga todos os meses tanto pela empresa como pelo trabalhador. É, no fundo, um mecanismo que financia grande parte do sistema de proteção social em Portugal.
Mas quem é que paga o quê? Há aqui uma divisão importante. A empresa paga 23,75% sobre o salário bruto e o trabalhador desconta 11% do seu salário. Ou seja, ambos contribuem, mas a maior fatia fica do lado da empresa. Utilizando um exemplo prático.
Temos um salário bruto de 1.000€. A TSEU da empresa será 23,75% do salário bruto, isto é, 237,50€. A TSEU descontada pelo trabalhador será de 110,11€ sobre 1.000€. Isto significa que a empresa paga mais de 237,50€, além do salário, e o trabalhador vê 110€ descontados no seu ordenado, ou seja,
aquele salário de 1.000€ já está, na prática, a custar à empresa 1.227,50€ e ainda nem estamos a contar outros custos. Mas, afinal, para onde vai todo este valor? A TSI não é apenas um imposto, é uma contribuição para o sistema de segurança social, que serve...
para financiar várias proteções importantes ao longo da vida. Pensões, subsídios de doença, licenças de parentalidade, subsídios de desemprego, apoios em caso de incapacidade. É no fundo um sistema de solidariedade. Quem está a trabalhar hoje está a financiar apoios para quem precisa, incluindo o seu próprio futuro. E isto ajuda a perceber uma coisa essencial. O custo do trabalho não é só um encargo, também é um investimento num sistema de proteção social.
Para além da TSU, existem outros custos obrigatórios, que muitas vezes passam despercebidos, mas que fazem parte da realidade de qualquer empresa, ou qualquer empresa que o contrata de trabalhador. Ou seja, mesmo antes de falarmos de benefícios ou extras, já existe um conjunto de encargos ilegais que têm de ser assegurados. Começamos por falar do seguro de acidente de trabalho. Este é um seguro obrigatório por lei. Todas as empresas têm de garantir um seguro de acidente de trabalho para os seus colaboradores.
mesmo que trabalhem no escritório. Este seguro cobre acidentes durante o trabalho e acidentes no trajeto de casa-trabalho. O valor varia consoante o risco da atividade. Não é o mesmo valor segurar um trabalhador de escritório ou alguém na construção civil, por exemplo. A taxa varia normalmente entre 0,5% e 5% do salário bruto, podendo até mais em atividade de risco elevado. O valor depende da atividade da empresa, da função do trabalhador e do histórico sinistralidade da empresa.
Ao contrário da TSU, que é fixa, o seguro de acidente de trabalho funciona mais como um seguro automóvel. Quanto maior é o risco, maior é o custo. Passemos para a medicina no trabalho. Esta também é uma obrigação legal. As empresas têm que garantir exames médicos periódicos e avaliação das condições de saúde dos trabalhadores. O objetivo é prevenir riscos e segurar que o trabalhador está apto para a função.
Em média, uma empresa paga entre 5€ a 15€ por trabalhador por mês, pelo serviço de medicina no trabalho. É um daqueles custos invisíveis, relativamente pequeno por trabalhador, mas obrigatório e constante, e que contribui para o custo real de contratar algo. Por fim, falemos da formação obrigatória. Por lei, as empresas têm de assegurar um número mínimo de horas de formação por trabalhador, todos os anos. Em regra geral, são 40 horas anuais.
Mesmo que não haja um custo direto e imediato, há sempre um investimento, seja em tempo, recurso ou contratação de formação externa. Isto para concluir, quando uma empresa contrata alguém, não está apenas a pagar um salário e até-se-o. Há todo um conjunto de responsabilidades legais que aumentam o custo do trabalhador.
o que prova que o custo do trabalho é muito mais complexo que o que parece à primeira vista. Depois dos custos obrigatórios, entramos agora numa zona mais flexível, mas que pode ter um impacto muito significativo. Os custos indiretos e os benefícios. Aqui já não falamos apenas do que a lei existe, mas também daquilo que as empresas oferecem para atrair, reter e motivar talento.
Começamos por um dos mais comuns, o subsídio de alimentação. Pode ser pago em dinheiro ou em cartão de refeição. Embora o pagamento deste valor nem sempre seja obrigatório por lei, mas é prática comum em Portugal. Os valores variam entre 6,15 euros e 10,46 euros por dia útil.
Ao fim do mês, pode facilmente representar mais 120€ a 200€ por trabalhador. Depois, temos dois clássicos, o subsídio de férias e o subsídio de Natal. Na prática, isto significa que o trabalhador recebe 14 salários por ano e não apenas 12. Para a empresa, isto é um ponto essencial. O custo anual do trabalhador é sempre superior ao salário mensal multiplicado por 12.
Outra rúbrica que é cada vez mais comum é o seguro de saúde. É um benefício muito valorizado e também um custo adicional para as empresas. Pode custar entre 20 euros ou 80 euros por mês, por trabalhador, ou mais dependendo do plano. Outro elemento são os bónus ou prémios de desempenho.
Podem ser mensais, trimestrais ou anuais, embora variáveis representam um custo relevante especialmente em empresas com sistemas de incentivos fortes. Em algumas funções, especialmente comerciais ou de gestão, pode existir a viatura da empresa. E aqui o custo. Já não é só o carro, inclui combustível, seguro, manutenção e impostos. É um dos benefícios mais caros, mas também dos mais valorizados.
Por fim, além da formação obrigatória, muitas empresas investem em formação adicional, como cursos técnicos, soft skills e certificações. Este investimento pode não ser mensal, mas tem impacto no custo por trabalhador. O mais importante aqui é perceber que estes custos variam muito de empresa para empresa, mas quando somados, podem aumentar significativamente.
custo real de um trabalhador, muitas vezes em várias centenas de euros por mês. E é aqui que percebemos uma coisa importante, o salário é apenas a base, o pacote total pode ser muito maior. Pegando no exemplo prático, vamos fazer umas contas rápidas. O salário bruto de 1000 até SU de 237,50€, o seguro e outros custos com uma estimativa de 50€, o custo total aproximado seria 1.287,50€ ou mais. Ou seja...
Contratar alguém pode custar cerca de mais 25% a 40% acima do salário base. Por que é que é importante perceber isto? Pois de tudo isto surge uma pergunta importante. Por que é que perceber o custo real de um trabalhador é assim tão relevante?
Do lado das empresas, esta questão é absolutamente central, quer pelo planeamento financeiro, que é, contratar alguém não é uma decisão isolada, é um compromisso mensal e de longo prazo. Se uma empresa olha apenas para o salário bruto, corre o risco de subestimar o verdadeiro custo. E isto pode criar problemas de tesouraria.
Perceber todos os encargos permite fazer orçamentos mais realistas, definir preços de produtos e serviços de forma sustentável e evitar surpresas financeiras. Outro ponto é a sustentabilidade do negócio. Mais do que contratar, o desafio é manter. Um erro comum em as empresas, especialmente pequenas, é contratar sem ter uma visão clara do custo total. E isso pode levar a decisões difíceis mais tarde, como a redução da equipe, o congelamento de contratações ou até dificuldades financeiras mais graves.
Mas este tema não é apenas importante para quem contrata, é também fundamental para quem trabalha. Muitas vezes, o trabalhador olha apenas para o salário líquido, aquilo que recebe, mas perceber quanto custa realmente à empresa ajuda a ter uma visão mais completa e equilibrada. Ajuda a responder a perguntas como quanto é que a empresa investe em mim, qual o preço do meu custo no negócio. Este conhecimento também é uma ferramenta poderosa na negociação.
Porquê? Porque permite ter expectativas mais realistas, compreender limitações da empresa ou negociar não só um salário, mas também benefícios. No fundo, perceber o custo real do trabalho aproxima as duas partes. Cria mais transparência, mais equilíbrio e decisões mais informadas. A conclusão será que, quando percebemos melhor os números, trabalhamos melhor dos dois lados. No final do dia, contratar um trabalhador é muito mais do que pagar um salário. É um compromisso financeiro e social.
Perceber estes números ajuda a criar relações de trabalho mais transparentes e sustentáveis. Se gostaste deste episódio, partilha com alguém que esteja a contratar ou à procura de emprego. E já sabes, seguimos juntos para descomplicar o mundo do trabalho.