Episódios de Parece Terapia

Contrastes com Maanuh Scotá - Parece Terapia | Sessão #85

06 de maio de 202658min
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Influenciadora digital, Maanuh construiu sua presença nas redes compartilhando conteúdos de moda, beleza e lifestyle, sempre com um olhar próximo da sua rotina e da vida real.Ao longo do tempo, também passou a abordar temas como maternidade e cotidiano, criando uma conexão forte com o público ao dividir experiências de forma leve, autêntica e acessível.Com um conteúdo que mistura estética e realidade, Maanuh se destaca por mostrar diferentes camadas da vida, indo além do superficial e se conectando com quem acompanha seu dia a dia.@psipamela @maanuhscota____Toda quarta-feira 20h30 um novo episódio para você!Siga-nos nas redes sociais: https://www.instagram.com/pareceterapia/____Chega de se doar demais e receber de menos.Se você sente que está sempre se anulando por amor, está na hora de se reconectar com quem você é.Toque no link abaixo e descubra como eu posso te guiar nesse processo de reconstrução e autoestima.👉 https://go.hotmart.com/L72592255P____🎙️ Podcast Parece TerapiaToda quarta-feira, às 20h30, aqui no meu canal.👉 Se ainda não é inscrito, inscreva-se para não perder.____Toda hora é hora de cuidar de você 🌻Precisa de atendimento psicológico?Conheça o PsiApp 👇https://psiapp.com.br____E-mail para contato 👇eventos@pamelamagalhaes.com.br

Participantes neste episódio2
P

Pamela Magalhães

HostPsicóloga
M

Maanuh Scotá

ConvidadoInfluenciadora digital
Assuntos7
  • Paternidade e MaternidadeDiagnóstico de autismo em filhos · Desafios da pré-eclâmpsia e parto prematuro · Aprender a amar incondicionalmente · Alice · Arthur
  • Desafios da MaternidadeA solidão e o silêncio da maternidade atípica · O medo da rejeição e do preconceito · A importância da informação e da disseminação do conhecimento
  • Diagnóstico e detecção de doençasDiagnóstico não é sentença, é direção · A importância de olhar além do diagnóstico · Superando a culpa da pré-eclâmpsia
  • O Valor da Verdade e AutenticidadeA imperfeição como parte da vida · O amor incondicional e a aceitação · A importância de ser autêntico
  • Origem Familiar e Vulnerabilidade de SuzanneFamília desestruturada do pai vs. família ligada da mãe · O papel da filha 'boazinha' e a busca por amor · Teixeira de Freitas, Bahia
  • Diferença entre Maanuh e EmanueleA persona pública vs. a pessoa real · A busca por validação externa
  • Comparação entre vida mundana e cristãA dualidade entre luz e sombra · A aceitação das imperfeições · O amor próprio como base para o amor externo
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Quem que está sentada aqui comigo? A Manu escutar ou a Emanuele escutar? A Emanuele. Qual a diferença das duas para você?

A Manu, ela cresceu na internet preocupada em agradar as pessoas, digamos assim, de certa forma, em passar sempre um... Não sei se é um bem-estar, mas fazer com que as pessoas se sentissem bem, passar informação, fazer com que as pessoas se sintam confortáveis, que elas sintam uma amiga.

Então, para isso, eu fui fazendo, eu sempre fui muito, nunca gostei de me abrir muito, de me expor muito, sabe? Então, assim, demorou muito tempo, depois que eu entrei na internet, para as pessoas verem minha casa, por exemplo, assim. Elas realmente conheciam esse ângulo, que é o que a câmera pode mostrar.

E a Emanuele não, a Emanuele, tanto que as pessoas acham que eu sou uma pessoa muito forte. Eu tenho dois filhos no espectro, eu tenho um... Casei muito cedo, enfim. Então as pessoas, qualquer pessoa que você for me perguntar, que me segue, ela vai falar, não, a Emanuele é uma pessoa extremamente forte, autoastral, eu me inspiro muito nela por conta disso. Mas a Emanuele é extremamente frágil.

A Emanuele chora escondido, a Emanuele faz isso porque quer ver as pessoas bem. Então, assim, eu consigo ver essa diferença. O que é ser frágil?

Ah, pra mim ser frágil é ser humano. É sentir mesmo as coisas, chorar. Ah, eu acho que é isso, assim. Se deixar quebrar, se reconstruir. Te preocupa muitas vezes transparecer isso pras pessoas? Ai, me preocupa. O que você imagina? Você sabe que eu trato isso em terapia de verdade? Porque eu sempre acho que as pessoas não vão mais gostar de mim.

Eu sempre acho que se eu mostrar esse lado vulnerável, a minha psicóloga às vezes fala comigo assim, que parece que eu faço as coisas para que as pessoas gostem, para que se eu disser um não, por exemplo, elas vão deixar de gostar de mim, entendeu? Então, acho que o que me preocupa é isso. Essa preocupação da validação dos outros, eu acho, sabia?

E da onde vem isso na tua história de vida? Aliás, da onde você veio? Ah, eu sou baiana. Eu sou baiana, tenho dois irmãos. Minha irmã e meu irmão que não moram mais na minha cidade. É de Salvador mesmo, Bahia? Não, sou de Teixeira de Freitas, interior, extremo sul da Bahia. Bem perto de Porto.

eu sempre uso o porto como referência porque todo mundo conhece o Porto Seguro qual era a pergunta mesmo? eu perdi não tem problema quando a gente perde a pergunta é porque a pergunta abriu algumas portas que foram mais atraentes e conhecidas pra você abrir eu queria saber de onde você vem você me disse o lugar mas eu quero saber e o lugar do lugar? eu venho de uma família eu venho de uma família

que são dois extremos. A família do meu pai era extremamente desestruturada e a família da minha mãe já era uma família super ligada, sabe? E aí esses dois mundos, eles meio que se chocaram com o relacionamento dos meus pais. E aí na minha casa eu tinha esses dois exemplos.

Eu tinha os meus tios, que eles sempre tinham. Eu falo, eu tinha porque sempre teve esse relacionamento dentro da minha casa. A minha casa era meio que o porto seguro de todo mundo, assim. Então eu via esse relacionamento conturbado, por exemplo, dos irmãos dos meus pais e tal. Mas eu via uma união muito grande dos irmãos da minha mãe, por exemplo. Então no meu lar eu tinha esses dois exemplos. E eu acatei totalmente o lado da minha mãe.

Tanto que você percebe como eu sou totalmente ligada aos meus irmãos. É minha irmã, trabalha comigo e tal. Então assim, eu venho de uma casa assim. E... Como o amor foi apresentado pra você? Como o amor? É, como o amor foi apresentado pra você quando você era pequenininha? O que você lembra?

cara, não sei te fazer uma definição assim, sabe? Mas eu acho que o amor foi me apresentado exatamente assim. É. De quando eu fazia uma coisa muito legal e, olha, que legal que você fez isso. Eu acho que foi exatamente isso, assim, sabe? Eu acho que foi sempre quando eu recebi essa validação.

A minha irmã, ela sempre foi muito expressiva, dona de si. Foi embora de casa cedo. E o meu irmão também, ele foi pra fora e tal. São três? São três. E o meu irmão sempre tinha, como a maioria dos...

dos meninos de 13, 14 anos do Brasil, tinham o sonho de jogar bola. Então meu pai sempre enfatizou muito isso nele, de ir atrás dele, ajudava ele. E a minha irmã, como ela sempre foi muito expressiva e as pessoas tinham um pouco de dificuldade de lidar com ela, a minha mãe ficava muito com ela para tentar ajudar ela, intermediar ela com esse mundo, digamos assim.

E eu era aquela filha que eu não dava trabalho nenhum. Eu sempre fui a que cuidava deles dois, a que não dava trabalho, a que ajudava da casa. Então eu tô falando justamente porque eu já me dei conta disso. Qual filha você é? Do meio? A mais velha. A mais velha. Então eu era aquela filha que eu precisava fazer pra ser vista. Mas você foi a primeira filha? Qual a diferença de idade?

Eu acho que são, de mim para o meu irmão tem uns quatro anos, mas do meu irmão para a minha irmã é um ano, assim. Tá. E aí eu acho que foi isso, assim, sabe? Eu acho que o amor foi apresentado para mim exatamente assim. Eu precisava fazer alguma coisa para ser vista. Por ser muito quietinha, por não falar muito, por não dar muito trabalho, eu precisava de alguma coisa para validar se é onde eu estou aqui, sabe?

E será que esse eu tô aqui não aparecia sendo justamente essa filha correta? A filha que faz as coisas certas, a filha que não dá alteração, a filha que entrega antes que se peça, a filha que arruma antes do pai ter que chamar atenção, a filha que, nossa, como ela é bonitinha, como ela é arrumadinha, como ela é correta, olha como ela é organizada, ela é muito boazinha. É, exatamente. Ser boazinha tem o seu preço?

Ah, tem. Por isso você não tem espaço de ser humano, de errar, de se permitir viver, testar. Porque você sempre tem medo de que esse erro...

Tire o amor das pessoas, que você acha que é, né? Porque quem gosta de você, quem te ama, não vai te amar. Deixar de te amar por um erro. Mas acaba que internamente a gente internaliza isso. A gente acha que precisa disso, sabe? E tem um lado que a gente não pode desconsiderar. Porque quando sou boazinha para o mundo, eu condiciono o mundo a me entender assim.

E as pessoas comentam, as amigas comentam. Ai, como ela é boazinha. Nossa, como ela é legal. Como ela é querida. Ela topa tudo. Qualquer coisa que eu peço. Eu não preciso nem pedir que ela já está lá. E se num dado momento você resolve se posicionar, dizer não quero, não posso, não dá.

quando você começa a entender os seus contornos e você começa a se priorizar, começa a se colocar um pouco em primeiro lugar para a própria vida, que é algo necessário, até por sobrevivência, há um choque, né? Há um impacto importante.

nesse momento podem falar o que quiserem. As pessoas se afastam. As pessoas estranham. As pessoas comentam. As pessoas criticam. As pessoas indagam. E muitas vezes pedem para que volte a boazinha. E dizem que está acontecendo alguma coisa muito séria com você. Porque o que aconteceu? O que eu te fiz? Onde foi parar aquela pessoa? E nessa hora, para bancar que...

Eu sou boa, mas em muitos momentos eu precisarei ser melhor comigo do que para você.

Eu preciso me escolher para eu me preservar, para eu me poupar. E nesse momento eu irei descontentar. O descontentar das pessoas é desafiador? É, sim. E acontece justamente isso, quando você busca muito a validação dos outros, esse não desagradar os outros, você está desagradando a pessoa mais importante, que é você mesmo. Então, eu acho que sim, nossa... É...

É bem complicado, assim, você viver nessa dualidade de querer sempre agradar os outros, mas ficar se desagradando, assim. Você falou agora há pouco, quando você estava apresentando a sua estrutura, que você tem dois filhos com espectro do autismo. Sim. Isso aí também entra no nosso assunto, né? Porque é quando eu quebro um pouco esse protocolo de que a família...

Margarina, né? Família perfeita. Não, não, eu tenho os obstáculos, isso não é fácil. Até entender-se o espectro, até adaptar e até alinhar e trabalhar com as idealizações e com aquilo que é factível, não é fácil, né? É todo um processo de bastante maturação e maturidade. Você poderia me contar como que foi isso?

Foi um processo muito difícil, assim. Eu sou estudante de psicologia, vocês sabem, né? Eu vou me formar no final do ano e espero ser tão maravilhosa quanto você. Muito melhor. Aliás, se fosse mais pertinho, eu ia na colação. Nossa, depois eu preciso contar a minha história com a apontem, mas não.

Então, assim, eu já tinha um conhecimento um pouco sobre tudo, assim, sabe? Assim, depois eu descobri que era um conhecimento muito raso, que o que a faculdade passava era bem... bem diferente da realidade. Mas, tá, o processo foi o seguinte, eu tive uma gestação muito complicada, porque com 27 semanas eu descobri ir para a eclápsia.

Então... O primeiro filho, você fala? Sim, a Alice. Aí eu tenho a Alice e o Arthur. A Alice tem seis anos e o Arthur tem três. E aí eu tive uma gestação bastante complicada. E com 27 semanas descobri a pré-eclápsia. Fiquei quase quatro semanas sendo medicada, fazendo acompanhamento. Acompanhando pra ver o quanto ela tava conseguindo se desenvolver.

E aí com 32 semanas eu acordei um dia sentindo muito... Eu tô contando a história desde o início porque existe uma predisposição dessa pré-eclampsia do nascimento prematuro com relacionamento ao autismo. Mas depois você vai entender que a situação não foi bem assim. Então tem todo um contexto.

E aí, com 32 semanas, a gente percebeu que ela não estava se desenvolvendo. E engraçado que eu sou tão da história anterior que eu sempre estava tentando passar para as pessoas que não. Eu estou tendo pré-clubs, eu estou tomando remédio, minha filha não está tendo… Para as pessoas. Sim. E para você?

Eu acho que eu meio que tentava me enganar, assim, de estar tendo um turbilhão de pensamentos e de coisas acontecendo dentro, mas eu não. E você vai ver no decorrer da história que eu vou te contar que isso acontece muito. E aí eu...

No dia que eu ganhei ela prematuramente, eu estava fazendo uma ultrassom, porque eu estava fazendo isso, acho que de quatro em quatro dias, o acompanhamento estava bem, porque ela estava tendo bastante dificuldade de desenvolvimento. E aí... E aí...

médica que estava fazendo ultrassom, virou para mim e falou assim, ela está tendo muita dificuldade de desenvolver. O seu caso é muito grave, a sua pressão está muito alta. E eu assim, com essa cara plena. Aí ela parou uma hora, me olhou assim e falou assim, você tem noção do que está acontecendo?

Aí, naquela hora, eu fiquei assim, dentro de mim eu tinha noção, mas eu tava tanto tentando transpassar pras pessoas, que não vai dar certo, vai tá tudo bem, que as pessoas achavam que eu não tinha noção da gravidade, sabe, assim, do que tava ocorrendo. E aí, enfim, nesse dia a minha pressão ficou bastante alta, eu entrei em contato com a minha médica, a minha médica falou que precisava fazer o parto prematuro, ela nasceu de 32 semanas, ficou 42 dias numa UTI.

E aí esse foi um período... Pesado. Sim, foi um período muito difícil. E aí esse foi um período que, por exemplo, eu sumi da internet. Porque eu... Você entende como era um...

Uma coisa que eu não... A perfeição que eu queria passar não condizia. Eu quase não filmava, não mostrava ela, não falava o que eu tava achando. Foi 42 dias que eu realmente sumi, assim. Porque eu achava que aquilo não ia agregar em nada as pessoas. É tipo isso, assim, sabe? É que eu acho que você...

tava tão condicionada, talvez, a sua vida e o seu trabalho com a internet, que a vida tava te obrigando a se desconectar dos outros e se conectar com você. E foi exatamente isso que aconteceu. E que bom, né, Manu? Que bom. Que bom que você pôde se conectar com você. E nossa, meu Deus, como foi um período de aprendizagem. Como foi um período de aprendizagem. Você passar 42 dias no TI, o Natal. Eu não sei te falar as coisas que eu vi ali, sabe?

de bebês, por exemplo, que chegaram depois de Alice e estavam na... Primeiro que o ambiente de UTI neonatal é um ambiente tão difícil. Você vê todos aqueles bebês naquelas incubadoras. Eu lembro que a primeira vez que eu entrei, eu fiquei assim, meu Deus, parece que os pais estão velando os filhos, sabe? Porque eles ficam dentro daquelas caixinhas e você não pode tocar, você fica em pé lá assim do lado. Então, eu achei aquilo muito triste.

E aí eu fiquei assim, meu Deus, não vou ter força pra ficar 42 dias aqui. Não, pra ficar 42 dias não, né? Porque quando a gente chegou… Você nem imaginava. A gente não fazia ideia. E eu achava assim, eu não vou ter força pra ficar aqui uma semana.

Mas aí, você vai encontrando essa força dentro de você. Deus vai te dando essa força. E você também consegue esse amparo com a família. Nossa, eu sou muito privilegiada por conta da minha família. Nossa, meu marido é maravilhoso. Super presente. Os meus pais, minha irmã. E as pessoas que estão lá também, pelo menos naquele período, e os outros pais que se tornam família, né?

E até hoje a gente tem grupo, a gente se encontra, eu acompanho o crescimento das outras crianças. Mas assim, eu vi amigas perderem os filhos, sabe? Então, nossa, é realmente um período de empatia, que você cresce, que não tem nada na minha vida que me faria crescer em alguns âmbitos, como foi esse período de outing. E aí a Alice foi pra casa, ela já tinha. E de dor profunda.

Sim, com certeza. E aí a Alice foi pra casa e ela já tinha uns dois meses, eu acho, né? E aí quando ela tinha, sei lá, uns quatro meses, foi a primeira vez que eu saí com ela de casa. Porque esse período também de quando o bebê vai pra casa é bem difícil. Porque como é prematuro, você não pode deixar ninguém chegar perto. E aí, nossa, você não pode sair. Então, Música

Aí quando ela já tinha uns quatro meses, eu fui com ela a primeira vez na igreja. E aí, nossa, eu queria muito levar ela pra igreja, muito. E aí, quando eu cheguei com ela na igreja, quando começou a tocar os hinos, começou a cantar as músicas, ela começou a chorar desesperadamente. Ela tinha quatro meses, ela começou a chorar muito, muito, muito, muito. E aí, o que eu imaginei? Nossa, ela…

aquele lugar sempre silencioso e tal. Ou então eu até pensei, ela pode ter remetido aos barulhos que ela já ouvia na Altim. Enfim, passou mil coisas na minha cabeça, mas eu já achei estranho. E aí quando ela tinha, sei lá, uns seis meses, meu irmão foi embora.

Ele tava indo embora pra outro país e aí ele fez uma festa de despedida. Ela tinha uns seis, sete meses. E aí nessa festa de despedida, quando a gente entrou, era um ambiente também bastante barulhinho e tal, quando a gente entrou no lugar da festa, ela começou a chorar desesperadamente, de uma maneira que eu acho que eu nunca vi uma criança chorando. Ela começou a chorar que não tinha nada que fazia ela parar de chorar.

E aí a gente colocou ela no carro, deu volta, deu mamadeira e conversava e tal. E ela não parava de chorar. E ela já tinha uns sete meses. E aí aquilo foi a primeira vez que eu fiquei assim, não, tem alguma coisa errada. Esse choro não é normal, assim, porque geralmente antes ela chorava, você dava um brinquedo, dava mamadeira e tal, parava. Mas ali eu já fiquei um pouco assim, sabe? Não relacionada ao autismo, mas por ser uma criança prematura, podia ser N coisas. Ali se teve um desenvolvimento típico.

sentou, por mais que o bebê prematuro, a gente espera que ele não faça isso no tempo médio, sabe? Mas sentou no tempo certo, começou a andar no tempo certo. E aí quando ela tava perto de completar um ano, eu comecei a perceber algumas coisas. A gente tinha um portãozinho assim, que era pra separar o cachorro da sala, sabe? E aí ela ficava naquele portão, abrindo, fechando, ela ficava lá no portão abrindo, fechando.

Ela pegava os brinquedos e ficava fazendo torre assim, saia nesse ponto do outro. Aí um dia eu tava gravando um vídeo.

E aí ela foi pra casa da minha mãe, ela já tava perto de completar um ano. Minha mãe tava vigiando ela pra eu fazer as coisas. E aí minha mãe foi mandar uma foto no grupo da família. Falou bem assim, olha que lindinho que a Alice fez. O meu pai coleciona carrinhos, sabe, pequenininhos. E aí ela foi e mandou a foto dos carrinhos todos. Isso é tão típico do espectro. Os carrinhos todos enfileirados. E aí eu olhei aquilo, aí você meio que junta mais um, mas assim… Você fica, não, não é. Até porque eu sempre tive isso.

Ela fez isso, mas ela tá andando no tempo certo. Mas ela sentou, mas ela olha. Mas ela, sabe, eu sempre ficava ponderando. E aí, com um ano, ela falou a primeira palavrinha. Ela falou Alice, Aice. Ela falou assim, sabe, falou bom dia. Só que ela falou isso e depois ela não falou mais. Ela falou uma vez e não repetiu mais.

E aí eu comecei a juntar as coisas. Nossa, isso aqui, com isso, não sei, tem alguma coisa. Aí eu fui falar com meu marido. Aí com um ano que eu fui, foi a primeira vez que eu já tinha observado todas essas coisas. Mas depois, quando ela já tinha um ano e pouco, eu fui falar com meu marido. Olha, eu acho que tem alguma coisa aqui que a gente podia investigar. E aí ele...

como qualquer um, senso como ele, ah, não, eu acho que não, porque ela faz isso, faz aquilo. Eu falei, não, vamos fazer o seguinte, vamos levar ela na fono, porque ela já tem um ano e pouco, ela já tinha um ano e três meses, quatro meses, e ela não desenvolve fala, não fala absolutamente nada. Aí a gente foi e levou na fono, e aí a primeira vez que eu levei na fono, que eu sentei com ela, que ela foi fazer uma anamnese, foi perguntar as coisas, e que eu fui contando tudo isso pra ela.

eu desmontei, assim, porque... Sabe quando você fala em voz alta? Até então eram coisas que eu tava observando, mas tava guardado na minha cabeça. Mas aí quando eu falei com ela, que eu fui juntando todas as coisas, eu falei assim, não, ela está no espectro, eu tenho certeza. E aí a Fono, não, a gente vai... O que você sentiu? Eu senti o desespero. Do quê?

do incerto, eu senti o meu chão abrir, de ter estereotipia na minha cabeça, de como é o autismo. O que isso representava ali pra você? Eu acho que é justamente isso, o não saber, o incerto, assim, sabe? O não saber o que fazer, o como eu vou lidar com isso, acho que tudo isso, assim.

E aí... Você dividia isso com alguém? Com meu marido. Só? Isso, só. E aí, nesse dia, eu entrei no carro, chorei, chorei, chorei, chorei, chorei, chorei, e fui e falei com meu marido. Eu tenho certeza, e ele... Nossa, meu marido é uma calma. Deus faz as coisas tão certo, porque assim, o quanto que eu sou desesperada, que eu sou... Ele é a paciência, assim, muito calma. E aí ele, não, não sofre por antecedência.

E aí, enfim, tentando resumir um pouco, eu fui, ela ficou um tempo fazendo acompanhamento com a Fono, aí a Fono percebeu todas essas coisas, que ela tinha muita dificuldade em olhar, ela tinha muita dificuldade em seguir comandos, e aí ela foi encaminhar a gente pra uma neuro.

Aí quando a gente foi na Neuro, a Neuro falou que se ela tivesse alguma coisa, ia ser um autismo muito leve e tal, mas eu sentia, eu sempre falo isso com as meninas, ninguém conhece o seu filho mais do que você. Se você é mãe, você percebe que tem alguma coisa?

Corre atrás de verdade, faz o que você pode, o que você não pode. Porque é igual isso, na primeira neuro que eu fui, ela, não, não precisa se preocupar se for alguma coisa, é uma coisa muito leve. E aí com o tempo, com a escola, ela vai melhorando. E eu, não, não é só isso. Aí eu fui atrás de uma professora que me deu aula sobre o autismo infantil e tal. E aí eu falei com ela, falei assim, você pode olhar a Alice pra mim e tal? Aí ela, não posso. Aí antes a gente conversou.

E aí ela foi e marcou para depois eu levar a Alice. Nessa semana, que era de uma semana para outra, eu estava sentada assim comendo e eu vi a Alice tendo uma regressão.

do nada, ela tava assim, e aí ela começou a correr, de um lado pro outro. Correr de um lado pro outro, eu tava sentada comendo, e eu olhei, eu achei aquilo muito estranho. Aí eu falei, Alice, e ela não conseguia parar, e olhando pro outro, e rindo, e correndo de lado pro outro. E aí, naquela hora, eu mandei uma mensagem pra ela, eu falei, Yara, Alice, do nada começou a correr de um lado pro outro, e tá rindo, e tal, não sei o quê. E eu vi que ela tava online.

E ela saiu, ela não me respondeu. E aí eu entendi que ela não... Eu acho que ela não quis me falar, não quis conversar, porque ia ser um assunto que ela ia precisar entrar comigo assim a fundo. E aí eu fui, levei a Alice. Era tipo dois dias depois que estava marcada a consulta com ela. Eu levei a Alice e ela falou, eu falei, olha, Alice, realmente teve uma regressão. Aí depois disso ela parou de olhar de vez assim pra gente. Ela pedia uma madeira assim. Ela apontava às vezes querendo uma madeira, ela não falava.

mas ela apontava querendo uma madeira, e depois disso ela parou de apontar, ela começou a ter muita estereotipia, de ficar fazendo assim, de ficar correndo, e aí, nossa, aí começou o período mais difícil da minha vida, de longe assim, sabe? Aí foram muitos dias chorando sozinha, de verdade. Aí nesse período, por mais que eu dividia muito com meu marido,

É uma dor que é sua, sabe? Eu me culpava muito. O que você pensava? Eu me culpava muito porque eu tive pré-eclâpsia. Então eu achava, como eu sabia que isso era um pré-requisito, eu achava que eu devia ter me cuidado melhor, eu devia ter me alimentado melhor, eu devia ter feito alguma coisa e tal. Então eu fiquei muito tempo me culpando. Muito, muito, muito, muito, muito.

E aí eu comecei a fazer acompanhamento psicológico e tal. E aí eu entendi, comecei a estudar muito sobre autismo com meu marido, muito, muito, muito. E aí a gente viu que as coisas não são meio assim, né? E o autismo é genético, por mais que tenha essas características ambientais.

O autismo é genético. E aí foi isso, assim. Foi um período muito difícil, porque eu não quis dividir isso na internet. Justamente porque eu não conseguia falar do assunto sem chorar. E eu não queria ficar aparecendo chorando. E eu não queria mostrar para as pessoas como se fosse uma coisa que...

ai meu mundo acabou, sabe, assim, eu queria passar a esperança para as pessoas de que por mais que isso daqui seja muito difícil, vai dar certo. Eu sabia que ia dar certo, eu tinha muita confiança que ia dar certo, assim, sabe. Então eu esperei, e eu também tinha muito medo das pessoas em relação à exposição da minha filha.

de como as pessoas iam tratar ela e das pessoas... Porque hoje na internet tem muita essa coisa de que você tá falando sobre esse assunto por engajamento, por, sabe? E aí eu de longe queria que isso passasse isso assim, sabe? Eu tenho uma pergunta. Uma pergunta baseada no que você me conta. Acho que eu vou gastar sua caixinha de lenço hoje. Tá aí pra isso.

A vida é curiosa. Sim. Sobre as suas entregas e as suas retiradas. Eu tenho pra mim que tudo que acontece é pra despertar algo em nós.

no sentido de nos acordar para alguma coisa que precisamos no convite de elaborações de elementos do nosso mecanismo que talvez precise de resgates de ajustes, reajustes e flexibilidade você me conta que você vem de uma estrutura

que você compreendeu que para ser amada precisaria ser perfeita. Que para ter um lugar no mundo, você precisava corresponder ao máximo. Não fazer alterações, não dar dor de cabeça, não causar problema. Então, que bonitinha, que gracinha, que ótima, ela é incrível. E então se sentia suficiente e amada.

Isso foi muito pesado no decorrer da vida. Porque parece que não pode transpirar, não pode suar camisa, não pode falhar. Tem que corresponder, tem que estar ali sempre nos trinques. Daí você tem uma filha que está totalmente fora da... Você tem uma filha que, opa, não, eu estou vendo, né? Nossa, como assim? Eu estou vendo. E uma preocupação muito grande em enxergar...

o que talvez as pessoas não vissem, de ver a tempo para salvá-la, ou mesmo para protegê-la, porque a tua crença até então é preciso ser perfeita para ser amada. E a gente vê ali uma imperfeição dentro dos padrões de normalidade da sociedade. E aí a minha pergunta é, você ama Alice?

Com o espectro? Nossa, profundamente, assim. E olha que interessante.

A vida te mostra que mesmo com as nossas imperfeições, mesmo com as nossas características que possam quebrar expectativas, que possam quebrar padrões de normalidade, a gente pode ser amado. E quando você se pega amando a sua filha do jeito que ela é, porque você a ama independente,

do que ela tenha, do que ela seja, do que ela apresenta. E não há maior prova de amor na nossa vida que quando alguém nos ama pelo que somos e não pelo que precisamos ser. Quando você tem alguém do seu lado.

que você pode relaxar e ser a sua verdade que você não precisa estar montada na melhor make, na melhor roupa no melhor look que você pode mostrar as suas imperfeições as suas dores, as suas rusgas e as suas rugas quando você percebe que alguém te ama do jeitinho que você é do avesso

Alguém que abraça suas sombras, beija suas cicatrizes, alguém que te enxerga. Quando você mesma não se vê, é quando você relaxa e que você se sente à vontade. Então você consegue se apropriar desse amor legítimo. Alice vem para te mostrar que o amor é isso. O amor é incondicional.

Você não a ama porque ela é perfeita, porque ela é certinha, porque ela faz tudo como tem que fazer no figurino. Não. Você a ama justamente pela conexão que vocês têm por aquilo que ela é. E isso é uma grande quebra de paradigma.

da sua própria crença de vida. É, e é um medo que eu acho que toda mãe de autistas tem, que é que as pessoas amem os nossos filhos, independente de qualquer coisa, assim, sabe?

A Alice, nossa, eu, meu Deus, quanta coisa, quanto eu cresci, quanta coisa eu aprendi, eu amadureci com a Alice, é surreal, assim. A Alice, além de estar no espectro, ela tem a praxia de fala, então é uma questão neurológica que ela sabe as coisas, ela tem a intenção de falar, mas ela não consegue por um problema motor.

Então eu vi muito tempo a Alice tentando falar as coisas e ela me via cantar, ela pedia pra eu cantar e ela ficava parada olhando pra minha boca, assim, e às vezes ela botava a mão na minha boca porque ela queria, mas ela não conseguia. E, meu Deus do céu, como eu queria tirar de mim e colocar nela, assim, sabe? E eu ouvi a Alice falar à mamãe a primeira vez quando ela tinha quatro anos.

eu fiquei muito tempo num silêncio absoluto, assim, sabe? E eu sei o quanto que as mães, também que têm filhos no espectro, elas passam por isso de uma maneira muito silenciosa. Porque é o que eu falei, por mais que eu tenha uma rede de apoio muito maravilhosa, o meu marido também, nossa, ele é tão presente, ele é tão participativo, ele faz o papel dele, se eu não me comprei.

A maternidade atípica, ela é muito silenciosa, assim, sabe? De você sentir muito as coisas de maneira solitária.

É aquela mãe que, nossa, eu admiro muito você, você é muito guerreira, mas ninguém quer ser essa mãe guerreira, ninguém quer ser essa mãe que tem que ficar correndo atrás das coisas, que abandona a vida às vezes, muitas vezes, pra poder ficar correndo de terapia em terapia. Enfim, e aí a gente sempre fica com esse medo de e como vai ser quando eu não estiver perto?

Será que as pessoas vão dar essa chance de dar essa abertura pra ver quem é a Alice de verdade? De não só olhar a maneira externa, de não estar dentro dos padrões, de não seguir a normalidade, digamos assim. Será que as pessoas vão dar essa chance de conhecer a Alice, igual eu conheço? Então, esse é um medo muito grande que eu tenho e eu tenho certeza que todas as outras mães... O que você se responde quanto a isso?

Cara, eu torço muito, eu espero muito que sim. E eu faço de tudo para que ela consiga se defender de certa forma, que ela consiga se posicionar. E isso é uma coisa que me preocupa muito. Então, eu nem sei te dizer ao certo o que eu me respondo. Eu acho que você pode ser honesta com você.

Ai, eu tenho muito medo. Talvez você tenha medo porque você sustenta um desejo e você fica abraçada nesse desejo e não querendo olhar as partes sombrias que permeiam. A verdade é que terá muita gente que não.

porque tem muita gente que não tem a menor informação existem muitas pessoas que não querem existem pessoas egoístas existem pessoas que só olham pro próprio umbigo, existem essas pessoas e você vai criar a sua filha inclusive mostrando pra ela a importância dela lidar com isso dentro dos recursos que ela tem e você também lidando sem ser cego e sem ignorar que isso exista Música

mas mas também há pessoas do bem há pessoas como você e sabe que foi isso que me fez foi esse pensamento que me fez querer abrir e falar sobre isso na internet porque eu pensei, como eu posso exigir que as pessoas entendam sobre se elas não sabem sobre

a ignorância a ignorância sobre algo eu parei pra pensar que se eu fosse esperar tá tudo muito certo se tá realmente bem pra eu ir falar sobre isso as pessoas iam perder até certas coisas, certas evoluções do desenvolvimento dela e que elas iam entender como funciona sabe, e usar isso a perfeição

ela não ensina. Sim, exatamente. Ela não conecta. O que conecta é a verdade. É a realidade. Muitas... É a identificação. Existe gente ruim mesmo, isso é verdade. As pessoas não gostam de falar, mas tem gente ruim. Mas existem pessoas do bem e existem pessoas desinformadas. Existem pessoas que não sabem lidar.

que se afastam ou não sabem se portar diante da situação por desconhecimento de causa. Exatamente, e eu percebi isso quando comecei a falar sobre. E aí as meninas, nossa, eu não fazia ideia que era assim. Nossa, que legal que você veio falar, porque, nossa, muita, muita, muita mãe.

começou a perceber comportamentos nos filhos e foi atrás. Ou então muitas mães vieram me agradecer por ter falado, porque elas tinham vergonha ou tinham receio de como seria se elas falassem com os familiares, com as pessoas próximas. Então essa coragem deu coragem para elas, de certa forma. E hoje realmente eu vejo isso, o quanto foi importante, porque como eu posso querer que as pessoas entendam se eu sou uma pessoa que não explicava?

Então hoje eu falo muito sobre, explico muito sobre, justamente porque eu quero que a minha filha encontre essas pessoas com informação. Quando ela estiver maior, daqui pra frente, enfim. E como foi pra você ter o segundo filho? No meio de tudo isso acontecendo. Aí foi, foi. Eu acho que foi um pouco mais.

mais fácil, digamos assim, porque eu já sabia um pouco o que esperar. Mas teve um momento que foi muito difícil, que foi o seguinte, eu sempre quis ter mais de um filho. Eu fui criada com casa cheia, então a gente sempre quis ter dois, três filhos. E aí quando veio a Alice, menina no espectro,

Eu sabia que a chance do meu segundo filho também estar no espectro era muito alta. Ah, tem isso? Tem. Quando é menina que está… Que a menina é a primeira filha, é porque o autismo é mais prevalente em meninos. Então, tipo assim, se é uma menina autista, significa que a carga genética é muito alta. Eu sabia disso. Tem. Então, o segundo filho ser menino… Se fosse uma menina, a chance era um pouco menor, justamente porque é mais difícil de ser aparente em meninas.

E se fosse menino, a chance era muito grande. Então quando eu… Nessa hora, quando você sabe dessa informação, você percebe que a pré-eclâmpsia também não foi determinada. Exatamente. Depois que eu comecei… Também foi libertador pro sentimento que ficou ali derruinando, né? Sim, porque… Não, aí depois eu tirei isso totalmente assim de mim, mas foi…

muito estudo, muita informação, e isso é até legal falar, justamente por isso, porque tem muita mãe que eu sei que carrega essa culpa, acha que foi culpa dela por alguma coisa na gestação e etc, e não, sabe, assim. Aí quando a gente resolveu que ia tentar ter o segundo filho, a gente foi com essa, a gente tinha essa convicção, sabe, não convicção, mas a gente tinha essa ideia.

Mas eu não vou mentir pra você de que eu me iludi até o último momento de que… Ou então, sabe, lá no fundo é aquele… Tomara que seja uma menina, porque daí eu sei que a chance vai ser um pouco menor e aí eu vou experimentar outra maternidade. Porque não é que você… Ah, eu não quero ter outro filho autista. Você não quer é ter que passar por todo aquele processo novamente, assim. Mas, Manu, tudo bem não querer.

Isso é uma coisa importante que a gente precisa colocar na cabeça. Tudo bem não querer ter outro filho autista. É difícil mesmo. Sim. Ninguém deseja que o filho seja autista. É difícil. É difícil para os pais, para a família, para a própria criança, para a pessoa. É difícil mesmo. E isso diminui muito a tua culpa. Isso não tem nada a ver com o amor que você sente por eles.

Isso tem a ver com ser honesta. Eu acho que o que mais fortalece o vínculo afetivo nosso com o filho é a nossa verdade no que sentimos. Tudo bem. O fato de não desejar não quer dizer que você não ame. Exato. Né? Verdade. E aí... E aí...

Quando a gente foi, descobriu que era o Arthur, que era um menino. Aí eu já fiquei assim, nossa, a chance já é muito maior e tal. Então eu fui meio que me preparando assim, sabe? E aí eu fiquei muito tempo me policiando pra não ficar…

Não curtir ele como bebê, por exemplo, e ficar só observando. Então, nossa, eu comemorava… Fica fiscal ali, né? Exatamente, eu tentei esquecer e comecei a comemorar de verdade cada coisa que ele fazia. O autismo do Arthur, o Arthur também foi diagnosticado com o autismo.

é totalmente diferente da Alice, totalmente, no sentido de assim… E é até bom falar isso, e eu sempre enfatizo e mostro isso pras meninas justamente por isso, porque é um espectro. Eu até dou exemplo sempre pras meninas, pra pessoa visualizar, que eu acho que quando a pessoa visualiza, sempre é mais fácil. Sempre dou o exemplo de ser uma régua. A régua tem os pontinhos maiores, os menores, diferentes, assim. Tipo as batidas do coração. Ah, sim. E tem…

Níveis maiores, tem menores, tem comportamentos que são diferentes. Então é muito difícil você querer enquadrar, porque tudo que tá nessa régua… É variável, né? Exato, é variável. E tudo que tá nessa régua é autismo. Então está no espectro. E aí o Arthur já não teve uma regressão. O Arthur teve um desenvolvimento típico, mas o Arthur tem… Por exemplo, a Alice, quando ela tá tendo uma crise…

Ou quando ela tá muito agitada. Ou quando você fala alguma coisa com ela que ela não gosta. Sabe como ela se regula? Com um abraço. Que bonitinho. A Alice é a pessoa mais sensível. Ela é muito sensível. Ela é de um coração, sinceramente. E aí, tudo que ela tá fora, assim, ela pede pra você abraçar ela. Ela precisa sentir pressão, sabe, que você tá abraçada? Proteção, né? Exato. Já o Arthur, ele é a vez, é o abraço.

Ele já não é tão do toque, por exemplo. Mas o Arthur, ele já… Enfim, são autistas completamente diferentes. São personalidades diferentes. Eu sempre levei pra essa questão de que a personalidade deles eram diferentes e tal. Mas existe essa questão de que realmente também se apresenta de maneiras diferentes em meninas e meninos.

Mas eu não lembro mais por que eu comecei a explicar. O que você está sentindo? Ah, eu estou sentindo um... Eu estou de verdade feliz por estar falando do assunto. Quando você fala deles, quando você fala sobre isso, eu sinto que você entra também numa linearidade de fala. Te sinto segura falando. Exato. Te sinto realizada falando. Por que é importante para você contar isso?

Por isso, porque eu quero que os meus filhos cresçam num mundo que respeite eles. Então, para isso, eu quero falar, quero disseminar informação. Porque eu estudei muito sobre o assunto. Eu sabia que o quanto antes eles começassem a intervenção, melhor seria para eles se desenvolverem, etc. Então, assim, realmente é um assunto que eu gosto de falar, que eu domino.

E que eu tenho muito orgulho, meu Deus, como eu tenho orgulho dos meus filhos. Eu vejo o quanto que é difícil. A minha filha estuda de sete a meio-dia, chega em casa, duas horas ela sai de novo, vai pra fono, vai pra terapia, volta seis horas da noite. Então, assim...

Nossa, eu tenho um orgulho gigantesco deles, sabe? Você sabe, eu não sei como o mundo vai recebê-los, como o mundo recebe. O mundo muitas vezes é cruel. Sim. Em alguns momentos ele surpreende e nos abraça através das pessoas que encontramos nele. Mas de uma coisa, você pode ter certeza. O mundo mais importante para eles é esse mundo dentro de casa.

Quando a mãe abraça, o pai abraça. Quando a mãe valida, o pai valida. Quando a mãe enxerga além de qualquer espectro. Quando eu vejo que a minha mãe me admira, quando eu vejo que meu pai me ama, me aceita, me percebe, me dá um lugar.

Esse é o mundo fundamental que quando a gente entende que pode transitar, sendo aquilo que somos, nos dá paz e nos dá a segurança que nós precisamos para existir.

O mundo lá fora não vai sempre dizer sim, não vai sempre compreender. E a gente nem precisa ter espectro para isso. Basta o mundo entender que nós não devemos ser aceitos, basta o mundo nos rejeitar por alguma razão. E obviamente com espectro ou com qualquer outra questão, isso tende a se agravar.

Mas quando a gente tem amor em casa, quando a gente é percebido, visto, amado, quando a gente é validado, respeitado, preservado, poupado, as coisas se tornam muito melhores. É como se a gente se sentisse mais forte e mais confiante para travar a batalha de estar na vida, de encontrar um caminho, de ser alguém. Verdade.

Concordo. E a gente procura sempre passar muito isso pra eles, assim. Tanto pra Alice quanto pro Arthur. De ter realmente esse colo em casa e de lutar por eles. E de fazê-los se sentirem amados e únicos e especiais, assim, sabe? De verdade, assim.

É muito importante a gente sempre lembrar que não tem espectro nenhum que nos defina. Sim. Não tem síndrome nenhuma que nos defina. Tinha uma paciente, tenho, né? Tenho dela até hoje, que ela tem três filhas.

E num dado momento ela estava desesperada, que ela via alguns sintomas nessa filha, e ela ia fazer os exames para saber o que acontecia. Mas antes mesmo ela já dizia para mim, Pamela, eu sei que tem alguma coisa. Eu sei que tem. Bom, enfim, fez os exames e a médica veio com o diagnóstico de uma síndrome específica.

não uma síndrome conhecida mas uma síndrome específica e obviamente que dentro do diagnóstico e dependendo do profissional que dá esse diagnóstico, muitas vezes tende a ser mais fatalista trazer um cenário sem tato

E ela chegou na sessão desesperada. Chegou na sessão dizendo pra mim, Pamela, o que vai ser da vida da minha filha? Eu não sou eterna. E agora eu preciso preparar as minhas outras filhas pra cuidar dela. Meu Deus, como vai ser? Será que ela vai ser alguém? Será que ela vai ser dependente? Será que ela vai poder estudar? O que será que vai acontecer? Desesperada. A médica disse que eu tenho que fazer isso e aquilo. Eu olhei pra ela e falei assim, olha aqui pra mim. Calma.

O diagnóstico não define a sua filha. O diagnóstico, ele dá um norte para que nós consigamos entender um pouco o conjunto dos sintomas que ela se enquadra. Eu uso muito essa frase de que diagnóstico não é sentença, é direção. Isso. Sem ele a gente não sabe o que fazer, como ajudar, para onde ir. Mas nós sabemos também, isso por qualquer avaliação qualitativa clínica,

que o diagnóstico não rotula e nem limita ninguém. Exato. Que existe uma pessoa além do diagnóstico. Sim. Eu não sou o que o conjunto dos sintomas que eu tenho diz que tenho. Eu sou a Maria, a Pamela, a Alice, a Manu.

E quando eu dou espaço pra enxergar o ser humano, eu deixo que ele desenvolva as suas asas. Eu não corto as asas antes de saber o tamanho que elas têm. Exatamente. Eu dizia a ela, fulana, você já entendeu o diagnóstico que o médico deu, mas agora você vai olhar a sua filha e deixar que ela te mostre até onde ela pode ir.

Não se feche no diagnóstico. Deixe ela te mostrar o que ela pode. Deixe ela te apresentar do que ela é capaz.

Não há limite. Não fique repetindo pra ela isso. Ela é a fulana. Ela não é o diagnóstico. E o tempo passou e um dia ela me mandou no meu celular um vídeo da menininha lendo. E de acordo com o que o médico dizia, ela nunca leria. E eu falei, viu? E você sabe por que que ela tá lendo?

Porque essa é a capacidade dela. O diagnóstico não é ela. Exatamente. A gente precisa deixar as pessoas serem quem elas são. Entender que o diagnóstico pode ser parte delas, sim. Mas não é uma sentença. Exatamente. E permitir que os nossos filhos mostrem as suas asas. É permitir que eles existam.

E que eles enxerguem e que eles nos mostrem quem eles são. Com seus acertos e com as suas falhas. Isso. E não só deixar com que eles voem com as suas próprias asas, mas também impulsioná-los a isso. Isso. Porque eu ouvi de profissionais que a Alice não falaria por causa do...

do espectro e por causa da apraxia e eu não desisti eu fui atrás eu fui atrás de estifono de especialista e hoje ela fala hoje ela canta e as meninas acompanham isso e ficam tão feliz nossa, ela ama cantar

E eu vejo que é muito por isso, porque se a gente se limitar a isso, de, ah não, mas toda criança autista vai fazer tal coisa, mas o espectro, não, você tem que deixar, dar essa liberdade, e obviamente porque a gente fala…

de um mundo perfeito, digamos assim, né? Não são todas as mães que conseguem fazer isso, não são todas as mães que conseguem ter esse acesso, mas dentro da sua condição, dar esse impulso, procurar essa ajuda para que a criança consiga mostrar realmente do que ela é capaz e não só se limitar ao que as pessoas...

Manu, quantas coisas na sua vida você já escutou de alguém que não era pra você? Ou que você não conseguiria? Ou que você não era o perfil? Ou que aquela porta não se abriria pra você? Ou que você tinha que fazer isso ou aquilo para tal? Quantas vezes a vida te apresentou limitações? E que você acreditou nisso? Ou que você resolveu questionar?

O meu trabalho na internet foi assim. Eu morava no interior do interior, que não tinha uma praça para fazer foto. E eu amava fazer foto de look, aparecer, falar. E aí, quando eu comecei a fazer isso, muita gente, nossa, mas isso não vai dar certo. Nossa, mas aqui, não sei o que e tal. Então, eu fui muito desestimulada com o meu trabalho na internet.

E foi indo e foi dando muito certo. E aí depois essas mesmas pessoas vieram me falar o quanto estavam orgulhosas por eu não ter desistido. Mas, nossa, foram muitas coisas. Vou deixar um recado pra você. Tá. A vida tem te mostrado Música

que você pode muito além do que imagina. Observe a sua preocupação em enxergar antes que...

Alguém, veja, contentar quem lá esteja. Corresponder alguém que talvez não tenha grande importância para você.

Seu caminho tem tentado te mostrar que você já é suficiente. Justamente por ser quem é.

Não se prenda tanto em relação às reações externas. O que há dentro de ti é todo seu. E sempre será o que mais...

A imperfeição, as sombras, falhas, erros, atrasos, também sustentam a verdade da vida.

Sem luz não haveria sombra e sem sombra não haveria luz. Sem tristeza não haveria alegria e os contrastes.

são necessários para o balanço do que realmente importa. Desde cedo, você viu isso. De um lado...

o seu pai e do outro a sua mãe. Você cresceu nesse contraste e precisa suportar, reconhecer e validar

sua essência mesclada e jamais esconder, fugir, esquivar ou se preocupar dela aparecer. Aceite.

o desamor de quem não tem amor. Assim, o amor virá ainda mais brilhante. Será mais notado, abraçado e validado.

Por você. Ai, muito lindo. Vamos aí. Gretinho. Pra você, minha querida. Ai, muito obrigada, eu andei. Com muito amor. Até a próxima sessão.

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