Raquel Freire
Pinta os lábios de vermelho, a mesma cor dos cadernos onde escreve desde miúda.
A luta continua, agora com " Mulheres de Abril", o seu último filme.
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Teresa Dias Mendes
Raquel Freire
- Mulheres de Abrilluta antifascista · histórias de mulheres · representatividade no cinema · memória histórica
- Limitações do sistema democrático25 de Abril · direitos das mulheres · luta contra o colonialismo
- Arte e Politicacinema como ferramenta de mudança · representação feminina · Mutim - Associação das Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento
- Histórias Pessoais e de Viajanteslegado familiar · memórias da Revolução
- Desafios da Vida Modernaviolência contra mulheres · direitos LGBTQI+
Sou pessoa para isso. Com Teresa Dias Mendes. O cinema é o seu lugar de sonho e ela sonha muito. Sonha alto. Não sei se fala enquanto dorme. Mas sei que acorda à miúde para escrever os sonhos em cadernos vermelhos. E se pudesse, o que faria mesmo ao acordar era filmar.
Também não sei dizer se o vermelho é uma cor predileta, mas é uma cor que lhe assenta, nos lábios, como hoje e quase como sempre. Nos filmes, como Rio Vermelho, a primeira curta, como realizadora. Nos tantos caminhos com que nos desafia a olhar o outro e sempre as mulheres deste país.
Mulheres de Abril é a sua longa mais recente, acaba de estrear no Indy Lisboa e mesmo só chegando às salas de cinema, lá mais para o final do ano, é por elas que marcamos encontro, desta vez, com a cineasta, realizadora, escritora, argumentista, criadora, ativista também, a mulher que é filha da revolução e que através do cinema encontrou não o seu posto de comando, mas o seu posto de escuta. Raquel Freire, bem-vinda.
Já foi o começo de conversa. O vermelho é uma cor predileta? É. E há muitas outras histórias à volta do vermelho que vêm lá de trás, desde miúda. Mulheres de Abril. Vamos mesmo começar por aí. Nós estamos a gravar antes do filme de estrear no Indy Lisboa, mas estamos no ar logo na manhã seguinte. Portanto, será uma noite de emoções. Porquê? As Mulheres de Abril.
Eu faço parte de uma geração que usufruiu já da democracia e da liberdade. E do que de melhor trouxe o 25 de Abril? A escola pública, o Serviço Nacional de Saúde, apoios sociais, uma série de garantias de uma vida digna, pelo menos para uma grande maioria da população. Infelizmente ainda há pessoas que não conseguem. E isso é uma das questões, o 25 de Abril continua a pôr-nos estes desafios.
As portas que a Brila ainda não abriu e temos que as abrir. E, portanto, eu sabia que tinha, inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo na minha vida, que voltar às origens. E voltar às origens era voltar às histórias que eu tinha ouvido da minha avó, das minhas cias-avós, da minha mãe, das mulheres da minha família, que tinham lutado contra o fascismo. E tinha sido uma luta bastante dura. Há pessoas na minha família que foram presas pela PIDE, que morreram, que foram assassinadas pela PIDE. Não morreram.
E eu sabia que no momento da minha vida tinha que lá voltar. Mas tinha imenso pudor, exatamente porque partia de uma inquietação profunda, desta inquietação de que a democracia cabe-nos a nós todos os dias fazermos Abril e cumprirmos as conquistas democráticas de Abril, e ao mesmo tempo por ser uma coisa tão íntima.
Eu tenho histórias de... Eu nasci poucos meses antes da Revolução e tenho histórias de os meus pais me usarem quando vão fazer uma distribuição de propaganda clandestina, são parados pela PIB e só não são pretos porque tinham posto a propaganda nas minhas fraldas, por exemplo. Portanto, há uma série de histórias ligadas quase ao meu nascimento, ligadas com tudo que foi a luta contra o regime. Portanto, isto ao mesmo tempo, para mim, era uma coisa muito íntima.
Sim, mas essa história, obviamente só te lembras dela de te a contarem. Exatamente. Mas por aí fora, depois, à medida que vais crescendo, vais ganhando consciência e estando perto das outras tantas histórias, mesmo já em democracia.
Que foste vivendo também. Fui vivendo, sim, e que foram muito, muito importantes. Eu tive não só o privilégio, como te disse, de vir desta família, tanto do lado do meu pai como do lado da minha mãe. Eram ambos professores. Ambos professores e os avós também. De ser uma família que pertencia, ou que se chamava na altura, oposição democrática.
que fazia oposição ao regime. A minha avó, a minha mãe, são fundadoras do primeiro sindicato de professores, por exemplo, que se organizava clandestinamento em casa da minha avó desde 69. E, portanto, estas histórias todas, à medida que eu vou crescendo e que me vão sendo contadas, e não é só vão-me sendo contadas, vão-me sendo... são um exemplo. Eu cresci com este exemplo das minhas ancestrais. O meu legado é este. Eu não herdei dinheiro, não herdei propriedades, herdei...
este património de vidas e de valores eu sentia que tinha uma coisa absolutamente rara e preciosa e que poucas pessoas cresceram com isso ou seja, eu acho que há um grande silenciamento em relação ao que foi a luta pela democracia a luta contra o fascismo, a luta contra o colonialismo
E no momento em que eu senti, e senti pela minha mãe, comecei a sentir pela minha mãe, que ela estava a começar a ter dificuldades de memória, a envelhecer, a passar os 80 anos, e ao mesmo tempo no nosso país temos tentativas de reescrita da história.
no sentido de apagar o que foi a luta antifascista e a luta anticolonialista, de tentarem transformar aquilo numa coisa que não foi, ou de, no fundo, branquearem o fascismo, o horror que foi o fascismo e as perseguições que se fizeram, e a censura, e a falta de liberdade, e a falta de tudo.
E a miséria em que se vivia, não é? Eu senti que este era o momento que eu não podia esperar mais. Como te disse, foi uma coisa muito íntima também, porque veio desta proximidade com a minha mãe e, de repente, a minha mãe começou-me a contar histórias que nunca tinha contado, como uma história que ela conta no filme. Um mês depois de eu ter nascido, ela era professora na telescola. Na telescola, sim. Portanto, na RTP no Porto, que era em Vila Nova de Gaia, no Montavirgem.
E ela vai a subir e empurrar o carrinho e ela tinha um pido à porta, que a viajava constantemente. E o pido vai atrás dela e vai o tempo todo a insultá-la e a dizer coisas ordinárias e horríveis. E, portanto, ela como mulher, eu apercebi-me também que as mulheres como mulheres sofriam uma dupla opressão pelo fascismo e por serem mulheres. E a minha mãe só me conta isto na pandemia.
Até lá nunca me tinha revelado esta história Não sei se até ela por pudor Ou por querer sempre dar a imagem Que era muito forte Mas só durante a pandemia Aquele isolamento todo E o tempo que houve para as pessoas contarem histórias umas às outras É que ela me conta isto E ela me conta o horror que era E a raiva que ela sentia
Todas as manhãs quando ia trabalhar De ter um piv Que a agredia com insultos sexuais Com coisas horríveis E do qual ela se vingava Na única forma que podia ter Era quando o portão da RTP fechava Ela largava um palavrão Sim Mandava-o para aquela parte Sim, sim
E pronto, era a sua única forma de libertar toda aquela raiva, como dizias. E tão importante que é, por razões diversas dessa, falar sobre isso hoje, porque a violência doméstica também está, que é outra coisa, não tem nada a ver com a tua experiência. Mas tem a ver com uma coisa, que é, no tempo do fascismo, a violência doméstica era legal.
Ou seja, era primitivo, dentro de um casamento, um homem agredir fisicamente e sexualmente a mulher. Era primitivo. E, felizmente, isto é outra das conquistas do 25 de Abril. As mulheres conseguiram deixar de ser sub-humanas ou sub-cidadãs. Sub-espécie da espécie humana. Passaram a ser cidadãs de pleno direito.
São 10 mulheres, aquelas que tu escolhes, eleges, para... Como é que foi? Eu vou dizer os nomes delas antes de mais, porque é justo e merecido que se diga. Três delas, entretanto, já faleceram. Margarida Tengarrinha, Julieta Rocha, Ana Maria Cabral, Isabel do Carmo, Maria Emília Bredoró de Santos, Luísa Sárcio Filipe Cabral, Tereza Lof Fernandes, Zezinha Chantra, Helena Neves e Ruto Rodrigues, que é a tua mãe, de quem estávamos a falar.
10 é o número certo. Mulheres que lutaram em Portugal e que lutaram nas antigas colónias, que essa é uma dimensão também importante deste filme, essas vozes que vão mais além.
10. Porquê 10? Era a conta certa? Olha, há duas razões. Duas horas das razões. Uma é a económica. O filme foi feito com extremas dificuldades e, portanto, não conseguíamos. Eu tinha uma lista inicial. Fiz uma pesquisa inicial com a historiadora Mariana Carneiro.
E portanto tínhamos uma lista enorme de mulheres Muitas mais mulheres poderiam estar aqui Conceição Matos, por exemplo Felizmente, a Conceição já tinha um filme feito sobre ela Portanto, eu fiquei mais tranquila Já havia um documentário feito sobre ela Mas há tantas outras mulheres que poderiam estar aqui
E, portanto, escolher 10 foi uma grande dificuldade. Eu cruzei critérios interseccionais e que têm a ver também com as suas orientações políticas e partidárias, com a sua origem, a classe, a profissão, até a religião. Ou seja, tentei que fosse o mais representativo possível da pluralidade.
de vozes que lutaram contra o fascismo e o colonialismo. E, sendo honesta, e ainda há raiz dessa luta, eu tinha que ter uma perspectiva da luta também anticolonialista. Não só porque eu, quando tive acesso ao... Ela era uma grande amiga da minha mãe e foi uma pessoa com quem...
Eu estive muito próxima, estava aos fins de semana. Vais falar da Margarida Tenguerrinho? Não, vou falar da Virgínia Moura. Pronto, que é do Porto. Sim, que eu sou do Porto. E a Virgínia teve presa 17 anos e nunca cedeu.
Nunca conseguiram que ela dissesse nada Mas destruíram, por exemplo, o sistema reprodutivo Portanto, ela foi sujeita a torturas horríveis E a Virgínia era negra Era a única militante antifascista negra E ela é, desde o início, uma lutadora também anticolonialista E, portanto, ela falou-me sempre também dessa dimensão da luta E quantas duas estavam ligadas
Também pelas amigas e amigos que eu tenho hoje em dia e que estão a investigar a história contemporânea hoje em dia, já temos investigadores e investigadoras, historiadores e historiadoras negros que se estão a debruçar sobre esta história. Para mim era fundamental ter a perspectiva anticolonialista. Grande parte desta luta começou.
Na Guiné, em Angola Mas na Guiné Começou muito na Guiné Portanto eu precisava de ir à origem Às diferentes origens E portanto precisava desta diversidade O máximo representativo possível de mulheres
Nós temos mulheres que eram mais do Partido Comunista, temos outras que são dos católicos progressistas, outras mais ligadas à área do PS, outras meras operárias que nunca tiveram nenhuma ligação política, outras do PEGC, outras que entraram por outros lados. Portanto, a minha ideia era ter dentro do possível, não é? Porque é um filme. Sim. Ter o máximo de representatividade possível. E há outra coisa também que para mim era muito importante, é que isto não é um filme sobre, é um filme com.
É um filme com estas mulheres Tentei Estar numa atitude De escuta ativa O máximo De atenção, de carinho, de cuidado De partilhar com elas O seu dia-a-dia também De partilhar com elas os seus sonhos As suas angústias, as suas dores E nasce Neste filme esta roda Este círculo
De olhares Esta roda de conversa De mulheres Daí eu falar de escuta Quando começámos a conversar Porque a escuta é determinante A escuta e o tempo
para conseguirmos vontade, conforto, e sintam que estão a entregar o seu legado em boas mãos. Sim, que queiram partilhar. E que sintam que estão a ser respeitadas, ou seja, que estão a ser escutadas com o máximo de respeito e de amor. Eu acho que o amor é fundamental quando está a trabalhar.
É uma dimensão, ou a dimensão do afeto e do respeito. Quando estamos a falar da memória, quando estamos a falar de mulheres que foram presas, torturadas, ou seja, que foram agredidas no seu íntimo, elas só, estas mulheres, eu propulho, elas dispuseram-se a ir comigo às prisões onde foram presas e torturadas. É lá que eu as filmo, eu levei-as aos sítios.
E elas quiseram ir lá. E isso só acontece quando se cria esta espécie de roda de conversa entre minhelas, este círculo de olhares redondo em que tudo funciona, e funciona porque nos ouvimos umas às outras e porque é uma conversa entre nós. Eu não quero despreitar pelo buraco, eu já vi o filme, obviamente, mas não há...
Vou deixar ficar aqui só a temperatura. Acho que isso posso dizer. Não há raiva. E eu acho que isso tem a ver com esse tempo e com essa roda de que falas. Há a história crua, tal como foi. Mas há uma leveza, não confundir com ligeireza, que são coisas distintas. Ou seja, é possível contar a história...
sem que isso aconteça de uma forma agressiva, de uma forma violenta, porque a história por si só já conta tudo. Era muito importante para mim que estas mulheres não se oferecem de novo ao falarem do que lhes aconteceu.
Era fundamental. Portanto, o que foi criado foi esse espaço e esse momento de conforto e de carinho. Era uma equipa só de mulheres. Era uma equipa muito cuidadosa e muito atenta a estas mulheres. Nós estávamos completamente disponíveis para elas e para que elas estivessem a sentir-se o melhor possível. Por exemplo, eu tanto filmei estas mulheres na prisão, onde elas foram presas e torturadas, como as acompanhei ao cabeleireiro.
Que não é um ato fútil, é um ato de cuidado. De cuidarem-se. Estas mulheres têm 80 e muitos anos, 90 e muitos anos, e cuidam-se. É autocuidado. É uma coisa muito, muito importante. Independentemente da classe social. Eu tenho mulheres de diferentes classes sociais que o fazem. E para nós estarmos neste nível de intimidade, elas têm que sentir que o filme é delas também.
Que fazem parte da história E portanto A minha grande missão O meu grande objetivo era isso Era criar-lhes este espaço Este tempo mágico Que são as filmagens Em que elas se sentissem o máximo escutadas O máximo acarinhadas E tivessem direito a todo o amor, carinho e atenção Que elas merecem Há pouco eu falei da Margarida Tengarrinha Uma das três mulheres que Entretanto partiu Sжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжж
tal como a Teresa Love Fernandes e, recentemente, a Maria Emília Bredoró de Santos. Mas, em relação à Margarida Tengarrinha, já me contaste uma história relacionada, que eu penso que pode ser partilhada, com esta inevitabilidade da ausência dela no momento em que o filme estreasse. E essa história é uma história muito bonita e, se a quiseres partilhar com quem nos escuta...
As filmagens com a Margarida decorreram em duas fases E a segunda fase era suposto ser mais tarde Mas eu ligava-lhe todos os dias, falávamos ao telefone E há um dia em que eu ligo e ela diz-me Raquel, caí da cama, magoei-me, vou para o hospital
E eu fiquei numa aflição tremenda, ela vai e depois eu vou falando com ela, conseguindo falar com ela e apercebo-me que a Margarida já não vai para casa, já vai para um centro de dia, que é uma história também maravilhosa, é uma coisa que ela doou à cidade.
Nós na altura ainda não tínhamos grande financiamento, mas mesmo assim arriscamos. E eu pergunto à Margarida se ela quer. E ela diz-me que quer. Quer que venhas filmar agora. E então nós aceleramos tudo, arranjamos tudo e vamos a correr a filmar a Margarida. E...
E sempre que eu estava com a Margarida, eu sentia-me de novo uma jovem de 20 anos. Com força para tudo, com energia para tudo, para cometer tudo, viesse o que viesse. Quem conheceu a Margarida sabe do que é que eu estou a falar. Ela era uma mulher absolutamente extraordinária, de uma força e de uma inteligência.
Brutais Então o que é que aconteceu? Estivemos com a Margarida Filmamos a Margarida Levamos a Margarida aos sítios onde ela queria ir Inclusive Voltamos a reconstituir Uma exposição que a Margarida tinha tido Com pinturas dela Porque ela era uma artista maravilhosa No museu de Portimão Voltaram a pôr a exposição Para a gente a poder filmar na exposição Ou seja, nos sítios em que ela sentia ela mesmaжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжж
E no final dessa semana, quando terminamos as filmagens, estávamos em frente à casa de infância dela, nós terminamos aí, mesmo em frente à casa de infância dela, eu disse-lhe, Margarida, terminamos, há alguma coisa que eu não tenha perguntado e que tu queiras falar? E ela disse-me, não.
Agora já estou pronta E nós ficamos assim, tipo pronta E ela disse sim, já posso partir E nós ficamos todas arrepiadas Como eu estou neste momento, ficam os pelos todos arrepiados quando penso nisto E a Margarida disse Nunca ninguém quis saber tanto de mim Com tanto amor e tanto respeito A minha missão está cumprida Já posso partir em paz E aí
E eu comecei a chorar e disse, Margarida, não digas isso, nós queremos que tu estejas na estreia, tu vais ser a nossa estrela na estreia. E ela disse, não, não, quando for a estreia eu já vou estar ali no mar. Eu já disse que quero ser cremada, com as cinzas, já sei onde é que me vão atirar, eu já pedi, quando for a estreia eu já não estou cá. Mas eu confiei-te a minha vida, portanto, parto em paz.
Ela estará, esteve seguramente Nesta Antestreia, estará agora aqui O tempo verbal é complicado Até porque estamos a gravar antes E estamos no ar depois Mas estou certa que Haverá um cheiro a maresia
Nessa noite mágica Do indie com este filme Que chega às saldas de cinema só no final do ano Isto é tudo muito lento Estamos a falar de mulheres Como dizias Já com esta idade maior Esta idade mais avançada É um filme que fala sobre o que foi Mas é um filme Para o tempo que estamos a viver E para o que há de ser Também neste filme Este é um filme feito E para o filme
Muito para o nosso presente neste momento e para o futuro e para as jovens e os jovens. Muito do que elas partilharam tem a ver... Elas são museus vivos de sabedoria democrática e são museus vivos...
de ferramentas de como lutar contra o autoritarismo, como lutar contra os novos fascismos, como lutar contra o racismo, como lutar contra formas opressivas de patriarcado contra as mulheres, porque elas passaram por isto tudo em condições muito piores do que nós. E mesmo assim continuaram a lutar. E não desistiram.
E venceram, o que aconteceu no 25 de Abril, e os países pelos quais elas lutavam pela independência conseguiram essa independência. Portanto, elas trazem com elas não só essa força de dezenas de anos de luta, como uma sabedoria de como enfrentar a luta. Não só as ferramentas, mas de como estar.
Neste dia-a-dia que às vezes nos parece tão difícil, tão duro Não estou só a falar do custo de vida, das coisas aumentarem tremendamente Não sei o que é, como acontecia antes também, por causa da guerra colonial Agora as guerras são outras Mas, por exemplo, das guerras também Como enfrentar estes desafios de hoje em dia Como lutar pela paz Que é uma luta tão importante para estas mulheres Que foi uma luta política tão importante para todas elas Para todas estas mulheres Há mesmo uma mulher Sжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжж
A Luísa Sásfio Cabral, que diz que a razão que a mantém hoje em dia ativa é falar com os jovens e contar-lhes a sua experiência. A Luísa foi das mulheres que teve mais tempo, que eu saiba até mais tempo, tortura de sono. Ela teve cinco dias e cinco noites em tortura de sono. E ela diz que a grande motivação para continuar hoje em dia é partilhar com os jovens, coisa que ela faz muito bem, o que foi a ditadura.
o que foi o fascismo para que nunca mais volte. Por mais disfarçado que esteja agora, em certas formas, do populismo que nós temos assistido, eu, quando estava na fase final de montagem, fiz umas projeções e chamei...
pessoas diferentes para irem ver, para assistir e quem gostou mais do filme foram os jovens assim, até aos 25 anos portanto, mesmo os jovens, jovens porque eu acho que eles sentem isso também hoje em dia ou seja, estamos em 2026 a realidade mudou mas os problemas sobre novas roupagens aparecem na mesma é muito difícil hoje aos jovens conseguirem ter uma vida ter uma vida é um emprego com condições e aí
É uma casa onde morar, é não estarem constantemente preocupados com a guerra, com tudo que se está a passar tão atroz à nossa volta. E estas mulheres, como eu digo, têm essa sabedoria. E ter a capacidade de sonhar e de acreditar, não é? Além disso, têm uma capacidade de sonhar e de acreditar que é possível.
Que seja qual for a realidade que nós estejamos a atravessar, por mais terrível que seja, é possível mudá-la. E eu estou a dizer isto, não é uma coisa utópica, embora a utopia seja fundamental. Mas não é possível mudá-la porque a experiência delas prova-o. Quando as pessoas se juntam, por mais horrível que seja a realidade, é possível mudá-la para uma coisa melhor.
E a história delas é essa, prova exatamente isso mesmo. Não por acaso, sem exceção, todas dizem que voltariam a fazer tudo de novo, não é? Exatamente. Já nos diz muito e pronto. Mulheres de Abril, só no final do ano, nas salas de cinema, mas entretanto alguns de nós...
já puderam acompanhar o percurso destas mulheres nas suas várias frentes de luta contra o fascismo e no seu incansável trabalho pela democracia e pela liberdade. Aliás, neste contexto, sublinho, falávamos agora dos jovens e sublinho até o discurso do Presidente da República neste seu primeiro 25 de abril.
enquanto titular do cargo, em que teve esse cuidado de falar precisamente para os jovens, da importância de respeitar a democracia e a palavra liberdade, honrar a palavra liberdade, que é talvez uma das palavras mais bonitas que o mundo, que a humanidade pode ter. Sabes que isso é uma frase do meu filme anterior, das mulheres do meu país, a Clara Queiroz, também é uma lutadora antifascista.
Eu vi, mas já foi há algum tempo. Não tenho nenhuma frase de memória e se calhar ficou. Ela disse que a coisa mais importante para ela é a liberdade, que é a palavra mais bonita. Normalmente os portugueses assistiam sempre saudade, saudade, que é a palavra mais bonita, mas liberdade é uma palavra cheia, uma palavra colorida, cheia, que nos faz sonhar. É isso mesmo. E tu, Raquel Freire, como é que sonhas? Como é que mantens a tua capacidade de...
de acreditar que através desta arte, não só esta, porque tens outras ferramentas também, mas falando do cinema, em particular, com as dificuldades de que todos falam, as mulheres também são mais penalizadas. São sim.
Os meus filmes e a minha parte criativa Vem sempre dos meus sonhos E eu sonho muito Nos sonhos somos sempre mais livres A liberdade é muito importante E nos sonhos podemos fazer o que quisermos Até o que não quisermos E eu sinto que tanto na minha vida Como na arte No cinema, depois na escrita Também nos romances que escrevi O que eu tento são formas de fabricar a liberdade Para mim e para os outros Isso é sempre o mais importante E de imaginar futuros E de imaginar futuros
Futuros melhores, futuros sem medo. E acho que essa é a função das artistas e dos artistas também. É não cederem ao medo, não cederem à opressão, não cederem às pressões terríveis e violentas de quem governa neste momento o mundo. Não cedermos à tristeza quando vimos o que está a acontecer na Palestina ou na Líbia ou em sítios terríveis.
onde crianças estão a ser massacradas. E, portanto, no meio disto tudo, como é que nós temos forças? Temos forças, e eu tive este privilégio, como disse no início, de ter estas ancestrais que lutam há décadas e décadas em condições bem piores que as minhas.
com esperança e que lutam pela liberdade. Portanto, eu sei, pela minha família, pela minha experiência pessoal, que nós podemos estar em momentos terríveis e que quando as pessoas se juntam e lutam juntas, conseguem melhorar e conseguem avançar.
Isto é a importância da comunidade, é a importância do coletivo, de conseguirmos sair do sofá e encontrarmos outras pessoas e lutarmos juntas com elas. E às vezes lutar pode ser só fazer a festa, pode ser a alegria. A Tengarrinha fala disso no filme. A importância da alegria, que é uma coisa muito séria. Como ela diz, a alegria é uma coisa muito séria. E luta é alegria, eu acredito muito nisso.
Depois, a realidade do cinema em Portugal é terrível. Temos pouquíssimo investimento na cultura, pouquíssimo investimento no cinema e quando falamos da situação das mulheres é ainda pior. E por ser ainda pior, ou seja, por haver uma discriminação efetiva...
nos apoios que as mulheres recebem em relação aos homens. Agora, se me permites um parênteses, houve uma época, não sei se isso se mantém ou não, mas houve uma época em que os teus pedidos de financiamento eram recusados, alegando que tu filmavas mulherzinhas. Sim, sim.
Por acaso é até um romance bastante conceituado e bem importante. Isso é uma consequência de teres júris só de homens, não é? Davam sempre dinheiro aos amigos deles. E isto foi um sistema que se manteve durante muito tempo. E a certa altura eu percebi-me que este meu desespero e dificuldade em conseguir apoio para filmar...
Eu não estava sozinha. Isto acontecia com a maioria das mulheres à minha volta. E quando comecei a trabalhar com mulheres mais jovens, vi que ainda era pior para elas. Pensei, isto não pode ser, como é que nós podemos estar a regredir? Depois, quando fizemos estudos independentes, verificamos que realmente era verdade. Em 2001 até foi um período melhor do que o que estamos a viver neste momento.
Então eu pensei, pronto, para problemas coletivos, soluções coletivas. E juntamos-nos a um grupo de mulheres trabalhadoras das imagens em movimento, portanto, do cinema, da televisão e da audiovisual, e fundamos a Mutim, a Associação das Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento, e neste momento já somos a maior associação de setor.
E já fizemos dois fóruns com muita escuta de diferentes sítios, que era muito importante nós apercebermos como é que estava o setor em todos os seus aspectos. Já encomendamos a uma universidade, a Universidade Católica, um estudo independente, que mostra exatamente o que eu acabei de falar, não é? Não só um grau elevadíssimo de assédio sexual e moral das mulheres quando estão a trabalhar, como uma discriminação salarial.
como uma discrepância entre o número imenso de candidaturas, que às vezes são 50%, tanto homens como mulheres, há anos em que só os homens foram apoiados. As mulheres tiveram zero apoio no Instituto de Cinema. E, portanto, esta é uma realidade que nós estamos a lutar, na Mutim, para mudar, e que vamos conseguir, tenho a certeza, porque nós estamos só atrasados em relação ao resto da Europa.
O resto da Europa já tem uma palavra que aqui em Portugal faz mesmo impressão, mas lá fora não faz, que se chama cotas. Portanto, Espanha tem cotas, França tem cotas, Suécia tem, Dinamarca tem, todos os países, a Noruega tem, a Inglaterra tem, o Brasil tem, o Canadá tem.
Portanto, nós só temos que nos adaptar à realidade ao que está acontecendo nos outros países. E isto está na Constituição, é o nosso artigo 13. Ninguém pode ser discriminado em função do seu género, etc. Sim, sim, por aí fora, sim. Portanto, se nós queremos... Por enquanto, por enquanto está lá. Por enquanto. Se nós queremos uma cultura que seja rica, que seja diversa, que espelhe a riqueza do que é este país, nós não podemos ter sempre as mesmas pessoas a ter acesso a filmar. Porque senão o 25 de Abrilman chegou ao cinema.
Ainda estamos no tempo antigo, não é? Em que apenas uma elite tinha acesso a meios para se poder expressar. Naquele tempo era fazer propaganda, um pouco mais. Cada filme, cada projeto, vou dizer antes assim, curta, média, longa, mais documental, mais ficção, é um pequeno mutim.
É, é Sempre que eu começo um projeto novo Um filme novo E os livros surgiram em alturas em que eu não consegui filmar ficção Nascem de inquietações muito grandes Portanto, essas inquietações muito grandes São sempre pequenos motins E ao mesmo tempo de sonhos De como eu gostava que o mundo fosse
De um futuro melhor. E, portanto, são sempre pequenos motins. Depois, ao mesmo tempo, eu acho que o próprio processo, e isto é a vantagem de eu já ir... Agora estou a montar outro filme e já vai ser um vigésimo filme. É a vantagem de crescer. De crescer, não é? Para mim é fundamental a qualidade técnica das pessoas, de uma equipa, mas é fundamental a qualidade humana.
Ou seja, eu não cedo e eu escolho cada pessoa que trabalha comigo. E, portanto, eu acredito que o cinema não tem que ser um sítio de opressão, como era quando nos filmes onde eu comecei a trabalhar como assistente, em que assistia a coisas horríveis de machismo, de homofobia, de maltratanço, de berros, de coisas inacreditadas. Que eu passei, que eu passei com muita gente.
a trabalhar e que o cinema não tem que ser assim. Que nós podemos realmente fazer do processo, do próprio processo de filmar, aquilo que nós queremos que o filme seja. E, portanto, é possível filmar com tempo para escuta, com tempo para diálogo. É possível filmar escutando não só as pessoas que estamos a filmar, mas a própria equipa. É possível ser um processo coletivo. É possível ser um processo sério.
mas com momentos de alegria. É possível, por exemplo, e nisto tenho que falar da produtora da Cláudia Rita Oliveira, que foi maravilhoso trabalhar com ela, e da Madame Filmes, que é uma produtora que tem estes princípios de filmar filmes sobre mulheres, pessoas não binárias, zonas que não são normalmente tocadas, temas tabus. Ou seja, ir buscar estes temas. E nós concordamos desde o início que, por exemplo, toda a gente na equipa ganhava a mesma coisa.
Isto destrói logo as hierarquias Claro que eu sou a responsável As coisas correrem bem ou mal Eu sou a responsável Mas o facto de eu ganhar o mesmo Que todas as outras pessoas da equipa Impõe imediatamente Outra forma de estar
E portanto as nossas práticas Serem práticas feministas Serem práticas o máximo possível ecologistas Antirracistas também Na forma como tratamos as pessoas Tudo isso faz Com que cada filme Seja um pequeno mutim
Aliás, esse próximo projeto Que falavas agora Eu sei que são dois Tem a ver com mulheres também As mulheres pioneiras do cinema português Portanto, continuamos a fazer mutins Continuamos a fazer mutins Sabes que eu a certa altura Mas isto não pode ter acontecido só a mim Esta coisa de Porque eu fiz filmes sobre temas complicados Chocavam as pessoas E eu comecei a ouvir coisas Nunca mais vais filmar Mas isto não pode ter acontecido só a mim Sжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжжж
Então comecei juntamente com a Hilary Owen, que é uma grande académica de Oxford, que fez uma investigação maravilhosa, gigantesca, sobre as pioneiras do cinema português. E ela está a escrever um livro que vai sair agora. Eu fui consultora nesse projeto europeu. Descobrimos muitas, muitas mulheres...
que foram completamente apagadas da história. Algumas até dos genéricos dos filmes, dos créditos dos filmes. E só agora, pelo testemunho delas e de outras pessoas, está a perceber que elas foram a diretora de arte do filme, a figurinista do filme, foram a montadora do filme, portanto, que tiveram assim papéis fundamentais. Esta perspectiva deste filme é exatamente ir ter com essas mulheres do cinema, que foram apagadas da história.
Eu estudei história estética do cinema português em Coimbra, e só vi filmes de homens.
Só via filmes de homens Como se as mulheres não tivessem existido Eu só há poucos anos Quando o filme da Manuela Serra O Movimento das Coisas foi restaurado E saiu a cópia nova da Cinemateca Que eu vi E quando eu ouvi falar E ouvi falar o que lhe aconteceu E porque é que ela foi tão ostracizada pelos homens E só havia homens na altura E não conseguiu voltar a filmar Pensei, olha A diferença que era se eu tivesse visto este filme Quando eu queria fazer cinema no início Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar Eu quero falar
Se eu tivesse sabido que já havia uma mulher que tentou, porque o filme O Movimento das Coisas inicialmente ia se chamar As Mulheres. E ela filma As Mulheres. E ela vai ser uma das protagonistas do meu próximo filme. Sobre as mulheres do cinema português, as mulheres que fizeram o cinema português. E também com uma perspectiva no presente. A ideia é criar uma nova história do cinema português, mais completa. Sem estes buracos, sem estes apagamentos destas mulheres.
Mas ter um pé no presente, ou seja, vou pô-las em diálogo com realizadoras, montadoras, argumentistas, jovens que estão agora a trabalhar no cinema, que estão agora a começar a trabalhar no cinema, para poderem juntas sonhar com o que é que será o cinema português do futuro. Uma espécie de as novas cartas do cinema português, não é isso? Sim.
Pode ser. Pode, pode, pode. Excelente título. Pode ser. Por outro lado, tens uma curta média que celebra os 20 anos da marcha LGBTQI+, no Porto, que aconteceu o ano passado, portanto, 2025. Porquê que era importante para ti fixar a Câmara, o olhar nessa data?
O cinema é um olhar sobre o mundo. O cinema é sempre um ponto de vista. É um olhar sobre o mundo. E eu acredito que quando nós vemos um bom filme, é como se nos pusessem um bom par de óculos à frente e a partir dali vemos um mundo melhor. Mais nítida que ali, conseguindo-nos ver coisas que estavam escondidas, apagadas, que nunca tínhamos conseguido ver. E de repente o cinema põe um foco ali e nós passamos a ver uma realidade nova.
que se calhar sempre esteve ali, mas que nunca ninguém tinha visto. Como se andássemos todos já de cataratas. Sim, sim. E tem a ver com a nossa lufa-lufa, a nossa sobrevivência, o nosso dia-a-dia. E eu tive a imensa sorte de estar na marcha LGBT há 20 anos. E estive lá com um grupo, com o qual eu fazia parte na altura, às Panteras.
E foi dos momentos mais felizes da minha vida Porque eu sou do Porto Tinhas 30 anos E eu sou do Porto E de repente vês a minha cidade A sair à rua, a sair do armário E havia uma euforia tão grande E lembro-me das empregadas do Bolhão
Que conheciam a Gisberta Sim, sim, sim É um dos filmes que está no Indy também Também sobre a Gisberta já agora E vê-las vir E bater-nos palmas e estarem ali connosco E partilharem aquela alegria Ver a minha cidade a sair do armário E sair à rua Foi um dos dias mais felizes da minha vida Estamos a fazer história
A partir daqui, nada será como dante Estamos a fazer a história E portanto, 20 anos depois O Batalha Centro de Cinema O Guilherme Blanco ligou-me A perguntar se eu queria fazer este filme E eu disse, claro É um sonho que eu tenho há muito tempo De fazer este filme Eu só quero é que tenha um pé no presente também Portanto, não é só um filme de lembrança É um filme sobre como é que é ser hoje
Uma pessoa LGBT Como é que é ser hoje uma pessoa não binária Como é que é ser hoje um homem gay Como é que é ser hoje uma mulher transmigrante A viver no Porto E portanto o filme tem este pé no presente E no sonho também O que é que eles sonham para o futuro
O que é que escreves nos teus cadernos quando acordas dos sonhos? São sempre os sonhos? Olha, há dois tipos de escrita. Uma tem a ver quando eu estou já emprenhada num filme. E, portanto, já estou a sonhar com as mulheres do filme, por exemplo, deste filme agora.
Ou se é uma ficção, estou a sonhar com os personagens e normalmente já tenho uma atriz, um ator, portanto já sonho com aquilo. E quando acordo de manhã, na minha cabeça, e eu consegui encontrar uma solução para uma cena, para um diálogo, para um movimento, para uma coisa que tinha que acontecer, um beijo, acordo e vou logo escrever.
Há outra escrita, que é uma escrita mais íntima. Confissional? Sim, que tem a ver com o diário. E esse diário é uma coisa que eu escrevo sempre desde os meus cinco anos. Tenho sempre esse diário. E, por exemplo, eu tive um sonho recentemente, quando estava na fase final de montagem das Mulheres de Abril. O filme estava com quatro horas, depois com três horas, depois com duas horas. E nós queríamos baixar as duas horas. O filme tem menos de duas horas.
Mas cada frase que eu cortava de cada mulher Era um golpe Cada plano que eu cortava de cada mulher Eu ficava num estado de... Ficava mal Ficava profundamente mal Então o que é que eu sonhei durante a semana toda Em que nós fizemos os últimos cortes Portanto os últimos Eu todas as noites ia para a cama e sonhava com isto Sonhava
Que estava no meio de uma grande confusão, no meio de gente que eu não conhecia, no meio da rua à noite. E que vinha um homem careca, barbudo, ter comigo. E só quando ele estava ao meu lado é que eu via que ele tinha uma tesoura de pudar enorme. E vinha direita às minhas mãos e queria-me cortar as mãos. E no momento em que ele me ia cortar os dedos, eu cerrava as mãos em punho e ele não conseguia. E só conseguia fazer uns golpes aqui em cima nos meus pulsos.
E eu olhava e gritava-lhe, não consegues, não consegues. E acordava-me desterminhada. Pronto, portanto, este sonho não fará parte de nenhum filme, eu acho. Nunca se sabe. Mas é muito revelador do próprio processo do filme em que eu estava. Sim, claro. É essa a ideia de se te cortar as mãos já não podes cortar mais, não é? É.
E portanto era quase uma... Não, e também era aquela ideia de já me estão a cortar as mãos, eu não quero cortar mais o filme. Sabes, para mim cortar um filme é valoroso. Sou muito feliz a filmar, adoro filmar. Na montagem, confesso que às vezes sofro um bocado.
Ou muito, um bocado muito Sendo que parte Dessas imagens Que não estão no filme Não vão ficar guardadas num arquivo Não, não, eu já filmei A pensar numa série de televisão Que já está preparada E que será Com dez episódios Que será cada um a história de cada uma destas mulheres E se chamar-se-á também Mulheres de Abril Certo É exemplo daquilo que aconteceu com as mulheres do meu país Exatamente Começam num filme Oh sim
E depois saltam para o ecrã mais pequeno Embora a dimensão da tela No cinema nos dê outra E o filme tem a dimensão coral Como eu disse São dez olhares em círculo Enquanto que na série Nós vamos ter cada uma delas Separada a contar a sua história São objetos muito diferentes Como tem que ser São pensados de forma completamente diferente E para plataformas diferentes Entrepasar aí Entrepasar aí
Em sítios diferentes Embora hoje em dia Os ecrãs Bom, esses são os próximos projetos Quantos cadernos vermelhos? Eu digo vermelhos Porque São cadernos vermelhos E é mesmo uma cor preferida Então, os da minha infância Estão guardados no sótão da minha mãe
Em sacos, aqueles sacos do lixo grande Nessa altura ainda não eram vermelhos? Ou já eram? O meu primeiro era logo um caderninho Com uma capa Era um caderninho infantil E foi minha avó que me deu E tinha uma capa plastificada vermelha E portanto a partir daí foram sempre
Os da minha juventude Estão no sótão da minha mãe A partir do momento em que eu saio de casa Eu passo a andar com eles Houve uma altura Em que era uma coisa assim um bocado obsessiva Depois soube que Uma das minhas escritoras preferidas também tinha isso Que nunca viajava sem os seus cadernos todos atrás Fiquei um bocadinho mais descansada Senti-me menos sozinha Na minha loucura
E, por exemplo, neste momento agora tenho os dos últimos anos, porque às vezes preciso consultar, tenho os dos últimos anos no meu estúdio, onde eu trabalho, onde tenho o meu computador, em casa, e os outros estão guardados em caixotes, mas estão guardados num sítio que eu tenho.
Agora há aquelas camas que se levantem e têm coisas por baixo. Sim, sim, sim. Os somiês, sim. Estão guardados aí, juntamente com as cassetes em mini-DV dos anos todos que eu tenho filmado. Portanto, eu durmo em cima, literalmente, dos meus cadernos e das minhas cassetes. Não, admira que sonhos muito. Qual foi a última coisa que escreveste no teu caderno vermelho mais recente?
A última coisa que eu escrevi foi recente e foi um desejo. Foi que todas as mulheres pudessem ir à anteestreia, pudessem estar presentes na anteestreia. Todas as mulheres que participaram no filme, aquelas que há três que já não podem, não é? Sim, foi isso que nós tentamos. Há duas que vêm de Cabo Verde para estar no filme. Eu tento acreditar que...
A morte não tem que ser o fim de tudo, mas continuo a lidar muito mal com a morte e com a perda. E tive várias recentes, ultimamente. E, portanto, as últimas coisas que eu escrevi foram sobre isso. Foram sobre como eu estou grata por estas mulheres terem aberto, literalmente, as portas da sua vida e as terem partilhado comigo e a este desejo de que elas continuem aqui.
Para serem reconhecidas como elas merecem. E depois há um sonho que tem a ver com aquelas coisas mais... Miss Universo, não é? A paz. Que consigamos viver em paz, finalmente.
Raquel Freira, obrigada por seres pessoa para isso. O programa fica disponível em RTP Play, tem o cuidado técnico do Filipe Pinto, a produção da Cristina Condinho e fica também aí pelas plataformas de podcast em abril, no outro mês qualquer, a qualquer hora. Obrigada. Obrigada, Ião.