AS 7 MORTES DE TIETÊ-Contos de Lucci EP1
seis crianças…
e um homem que já vivia dentro da casa.Sem invasão.
Sem aviso.
Sem chance de defesa.Neste episódio do Arquivo Duck: Casos Reais, Lucci conduz você por uma investigação profunda sobre o caso das 7 mortes de Tietê, explorando não apenas os fatos… mas o que se passava na mente do assassino.Porque o verdadeiro horror…
não veio de fora.Veio de alguém que já estava lá.📍 Caso real ocorrido em Tietê (SP) – 1923
🧠 Análise psicológica + reconstrução narrativa
🎙️ Narração: Lucci📩 Contato: arquivoduck@gmail.com
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- Chacina de TietêAnálise psicológica do assassino · História da família Falsin · Motivações de Augusto Arruda · Impacto na comunidade
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Olá, me chamo Luchi e este é o novo quadro do Arquivo DAC. Aqui eu não venho contar-vos lendas inventadas, não venho falar de monstros que vivem debaixo da cama, nem de demónios com chifres, olhos vermelhos e voz cavernosa.
Hoje, o monstro tem nome, tem rosto, tem endereço. E o pior de tudo, ele foi convidado a entrar. Hoje, nós vamos até ao interior de São Paulo. Vamos voltar mais de 100 anos no tempo, para uma cidade chamada Tietê, para um bairro rural conhecido como Água da Pedra.
Para uma casa de lavoura, uma casa de família e para uma noite em que sete pessoas foram mortas, uma mãe e seis filhos. Este é o caso conhecido como as sete mortes de Tietê. E antes que pense que esta é apenas mais uma história antiga, daquelas que o tempo comeu pelas bordas, saiba de uma coisa.
Em Tietê, este crime nunca morreu completamente. Ele ficou no cemitério. Ficou nas conversas de família. Ficou no medo de uma casa abandonada. Ficou no túmulo com sete anjos. E ficou sobretudo numa pergunta. Como é que alguém que dormia dentro daquela casa foi capaz de transformar aquele lar num cenário de carnificina?
Era abril de 1923. Naquele tempo, Tietê não era uma cidade depressa. Era uma cidade de terra, de lavoura, de café, de famílias que vinham de longe tentando recomeçar a vida no Brasil.
Entre essas famílias estava a família Falsin. O chefe da casa era Ricardo Falsin. A esposa era Maria Tonon Falsin, uma mulher de 35 anos. Com ela viviam seus seis filhos.
Alva, de 13 anos, Joana, de 11, Orlando, de 9, Anésia, de 7, Esther, de 4 e o pequeno Vitório, ainda bebê, com cerca de 11 meses a um ano, dependendo do relato preservado. Uma família comum, uma mãe, seis crianças, uma rotina rural. Mas havia mais uma pessoa dentro daquela história. Um homem chamado Augusto Arruda.
conhecido como Mineiro. Augusto não era um estranho que apareceu no meio da noite, não era um ladrão invadindo a casa, não era um inimigo declarado. Ele era empregado. Era próximo da família. Segundo os registros, era afilhado de Ricardo Falcine. E por causa de problemas de visão,
Ricardo havia confiado a ele parte dos cuidados da lavoura e da casa. Pensa nisso. O pai sai para São Paulo para tratar da vista. Antes de ir, recomenda ao homem que cuide da casa, da família, da esposa, dos filhos. E esse homem é justamente aquele que, horas depois, destruiria tudo.
O que torna este caso tão perturbador não é apenas a quantidade de vítimas. É a proximidade. Augusto vivia ali. Comia ali. Dormia ali. Era visto pelas crianças.
Era reconhecido pela mãe. Não precisava forçar porta. Não precisava esconder o rosto. Não precisava ganhar confiança. Ele já tinha. E talvez esse seja um dos detalhes mais sombrios de todos os crimes domésticos. Às vezes, o perigo...
Não chega gritando. Ele chega calado. Ajuda na roça. Senta à mesa. Responde sim senhor. Dorme no quarto ao lado. E espera. Segundo os relatos do inquérito e das reconstruções históricas, Augusto nutria uma paixão por Maria. Mas aqui precisamos chamar as coisas pelo nome certo.
Não era amor. Amor não mata uma mãe diante dos filhos. Amor não levanta um machado contra crianças. Amor não transforma rejeição em sentença de morte. O que havia ali era posse, obsessão, ressentimento. Aquela forma doentia de desejo em que o outro deixa de ser pessoa e passa a ser objeto.
Maria era casada, mãe de seis filhos, e, segundo os relatos, teria repelido as investidas de Augusto com firmeza. Há versões que dizem que ela ameaçou colocá-lo para fora da casa. E talvez esse tenha sido o ponto de ruptura. Não porque Maria fez algo errado.
Mas porque, para uma mente obcecada, um não pode ser interpretado como humilhação, como afronta, como uma ferida narcísica insuportável. E quando esse tipo de homem não aceita perder, ele tenta destruir aquilo que não pode possuir. Na noite de 20 para 21 de abril de 1923, Ricardo Falcino estava fora. Maria e os filhos estavam em casa.
Após o jantar, a família recolheu-se. A casa mergulhou no silêncio. Um silêncio rural. Escuro. Sem luz elétrica, como conhecemos hoje. Sem vizinhos próximos o suficiente. Sem telefone à mão.
Sem socorro imediato, Augusto estava ali, dentro. Segundo os relatos, ele dividia espaço de dormir com um dos meninos, Orlando. Mas em algum momento da madrugada, ele levantou e pegou um machado.
Não uma arma qualquer. Uma chada é ferramenta de trabalho. Objeto de lavoura. Objeto de corte. Objeto pesado. Ele provavelmente já estava ali, à disposição, com tantas coisas numa casa rural. Mas naquela noite, deixou de ser ferramenta e virou instrumento de execução. A primeira vítima teria sido Maria. Augusto entrou no quarto dela.
Ali estava uma mulher de 35 anos, provavelmente adormecida, com o filho pequeno por perto. Maria foi atingida no pescoço. O bebê Vitório acordou e então também foi morto. Nos braços da mãe.
É aqui que o caso deixa de ser apenas crime passional. Porque se fosse apenas contra Maria, já seria brutal. Mas ele não parou. Ele continuou. Alva, Joana, Anésia, Esther, Orlando.
Um por um. Crianças. Não testemunhas adultas. Não inimigos. Não rivais. Crianças. E isto nos obriga a encarar uma coisa. Augusto não matou apenas quem rejeitou o seu desejo. Ele apagou tudo o que cercava Maria. Tudo o que lembrava que ela tinha uma vida própria. Uma família. Laços. História. Maternidade. Pertencimento.
Na lógica torcida dele, talvez aquelas crianças fossem extensão daquilo que ele não podia controlar. E por isso, também precisavam desaparecer.
Quando o massacre terminou, a casa estava tomada por corpos. O relatório local fala em crânios partidos, pescoços rasgados, corpos espalhados pela casa. A imagem é tão forte que, mais de cem anos depois, ainda parece impossível imaginar que alguém tenha caminhado por aqueles cômodos depois disso.
E então vem um detalhe que assombra. Augusto não saiu correndo imediatamente como um homem em pânico. Ele sentou-se e escreveu uma carta. Uma carta de confissão, assinada por ele. Nela assumia o crime e dizia que também colocaria fim à própria vida. Mas ele não se matou. Pegou uma navalha, não teve coragem e fugiu pelo cafezal.
Esse detalhe é importante, porque mostra algo cruel. Ele teve força para atacar uma mãe e seis filhos, mas não teve coragem de voltar a violência contra si. Amanhã chegou, e com ela o estranhamento, numa casa rural o silêncio também denuncia. Não havia movimento, não havia crianças.
Não havia rotina. Vizinhos perceberam que algo estava errado. E quando entraram ou se aproximaram da casa, encontraram aquilo que Tia T jamais esqueceria. Sete corpos. Maria tonou um falsino. E os seis filhos. A notícia começou a circular pela cidade. No começo, muitos não acreditaram.
E isso faz sentido. Há crimes que são tão extremos que a mente rejeita. Não pode ser. É boato. Estão exagerando? Ninguém faria uma coisa dessas. Mas alguém fez. O delegado Venâncio Aires foi acionado. A polícia chegou ao sítio de Ricardo Falsim. E o que encontraram ali confirmou o impossível. Não era boato. Era uma chacina.
A partir daí, começou a caçada. Augusto Arruda, o mineiro, havia desaparecido. Mas não foi longe. No mesmo dia, por volta das 23h30, ele foi localizado e preso, escondido na mata.
Segundo os registros divulgados, ele não resistiu e ainda portava uma navalha suja de sangue. Levado pela polícia, foi recebido pela população com revolta, gritos, ameaças de linchamento. E aqui, mais uma camada psicológica aparece. Na delegacia, ele confessou novamente, calmamente, sem demonstrar arrependimento.
sem aquela imagem do criminoso desesperado, chorando, enlouquecido, sem lembrar do que fez. Não, ele contou, com detalhes, como alguém que tinha atravessado a própria fronteira moral e já não conseguia voltar.
E então precisamos perguntar. Augusto era louco? Essa pergunta perseguiu o caso. O crime gerou o estudo psiquiátrico volumoso, divulgado nacionalmente na época. E posteriormente, o assassino passou por instituições penais e psiquiátricas.
Ele cumpriu 18 anos e 6 meses de prisão, um período na cadeia de Tietê, anos na penitenciária do Estado de São Paulo e depois no manicólio judiciário do Jucri, em Franco da Rocha, onde morreu em 1941. Mas cuidado!
Chamar de loucura pode ser confortável demais. Porque quando dizemos ele era louco, colocamos uma parede entre ele e nós. Como se o mal fosse sempre uma anomalia distante. Como se todo o criminoso monstruoso...
fosse facilmente reconhecível. Como se bastasse olhar nos olhos de alguém para saber do que essa pessoa é capaz. Mas este caso incomoda justamente porque Augusto circulava normalmente. Ele trabalhava, convivia, era conhecido, dormia na casa.
O monstro não apareceu com aparência de monstro. Ele apareceu como o homem comum. E talvez seja por isso que o caso permaneceu. Porque ele destrói a ilusão de segurança. Depois do crime, a família foi sepultada. No cemitério municipal de Tietê, o túmulo da família tornou-se um ponto de memória. Sete esculturas representando anjos chamam a atenção de quem passa.
Velas, imagens e dedicatórias fizeram da sepultura uma das mais lembradas da cidade. Há relatos de pessoas que visitam o local, prestam homenagens, fazem orações e atribuem graças às vítimas, embora isso pertença ao campo da devoção popular, não da investigação criminal. E esse é um ponto forte para entender o caso. A cidade não transformou Augusto em lenda, transformou as vítimas em memória.
A brutalidade foi tão grande que para muitos moradores aquelas sete vidas passaram a representar inocência interrompida. Sete anjos. Sete mortes. Sete presenças que, de alguma forma, ainda ocupam espaço na cidade. A casa do bairro Água da Pedra. O local onde tudo aconteceu.
Segundo o relato atribuído ao secretário de Cultura Márcio Sacon, o casarão ganhou fama de mau assombrado. Consta nos relatos locais que ninguém mais teria conseguido morar ali e que o imóvel virou ruínas até desabar entre as décadas de 1970 e 1980. Agora, vamos separar as coisas. Isso não prova assombração.
Mas prova impacto. Porque casas também carregam história. Não no sentido mágico necessariamente, mas no sentido humano. Uma casa onde sete pessoas foram assassinadas não volta a ser apenas uma casa. Cada parede vira testemunha. Cada cômodo vira lembrança. Cada silêncio vira suspeita.
E mesmo que não houvesse nada sobrenatural ali, quem teria coragem de dormir no quarto onde aquilo aconteceu? Quem conseguiria ouvir o vento bater numa janela e não imaginar passos? Quem conseguiria ver uma sombra atravessar o porredor e não lembrar dos nomes? Maria, Alva, Joana, Orlando, Anésia, Éster, Vitório.
É por isso que histórias assim crescem. Não porque as pessoas inventam do nada, mas porque o horror real abre espaço para o imaginário. Quando um crime ultrapassa o limite do aceitável, a comunidade tenta explicar com palavras maiores.
Maldição. Casa carregada. Lugar ruim. Alma presa. Coisa do demónio. Mas talvez a verdade seja ainda pior. Talvez não tenha sido demónio nenhum. Talvez tenha sido apenas um homem. E essa hipótese é muito mais difícil de aceitar. Existe uma frase que poderia resumir este caso.
O perigo entrou pela porta da confiança. Ricardo confiou. Maria conviveu. As crianças aceitaram a presença daquele homem como parte da casa. E Augusto usou exatamente isso. Acesso. Proximidade. Intimidade. Rotina.
Ele não precisou vencer resistência externa. Ele já estava dentro. E em crimes assim, a pergunta mais dolorosa nunca é apenas porquê. É em que momento os sinais estavam ali e ninguém conseguiu ver.
Transforma a dívida em punição. Na cabeça dele, Maria não era livre para dizer não. E quando ela disse, ele decidiu que se não pudesse tê-la viva, ninguém mais teria paz. Isso não é amor. É domínio. É ego ferido. É a velha lógica do agressor. Se eu não posso controlar, eu destruo.
E naquele abril de 1923, essa lógica matou sete pessoas.
O que me perturba neste caso não é só um machado, é a carta. Porque a carta mostra que, depois da chacina, ainda havia organização suficiente para escrever. Ele quis deixar uma narrativa, quis explicar-se, quis marcar a própria versão, como se ainda tivesse controle sobre a história.
Como se dissesse, fui eu, fiz isto e agora também me mato. Mas nem isso cumpriu. No fim, restou a covardia. A mesma mão que levantou o machado contra crianças, não conseguiu terminar a própria frase com o próprio sangue.
E Ricardo, o pai, imagina voltar de uma viagem médica e descobrir que a tua casa acabou. Não que tua casa foi roubada. Não que tua família aduceu. Não que houve acidente. Mas que tua esposa e todos os teus filhos foram mortos. Todos.
Não sobrou ninguém naquela casa para chamar de filho. Ricardo Falcino continuou vivendo depois disso. Mas há tragédias em que sobreviver também é uma espécie de condenação. Ele morreu em julho de 1951. Mas a pergunta é, quanto de Ricardo morreu naquela madrugada de abril?
Mais de cem anos depois, o caso ainda é contado. Foi registado em blogs históricos da cidade. Virou matéria em sites sombrios. Foi retomado por pesquisadores. E ganhou o livro Dos Sonhos ao Pesadelo.
O Crime das Sete Mortas, de José Luís Meucci, obra que reconstrói a história das famílias Falsini e Tonon, dos imigrantes italianos, do assassino e dos desdobramentos do crime. E o título é perfeito. Dos sonhos ao pesadelo.
Porque muitas famílias vieram ao Brasil assim, com esperança, com trabalho, com medo, mas também com futuro. A família Tonon, a família Falsim, imigrantes tentando reconstruir vida em terras paulistas. E então, numa noite, tudo foi reduzido a sangue. Trilha. Suspenso final.
Mas há algo que precisa ser dito. Este caso não é mistério policial. O assassino foi identificado, confessou, foi preso, cumpriu pena, morreu no Juqueri. O mistério é outro. O mistério está na condição humana. Está no abismo entre parecer normal e ser capaz do impensável. Está na distância entre um homem que trabalha numa lavoura durante o dia.
e o mesmo homem que, à noite, atravessa um corredor com um machado na mão. Está no facto de que nenhuma cidade está preparada para descobrir que o mal não veio de fora. Ele dormia no quarto ao lado.
Sete mortes. Maria. Alva. Joana. Orlando. Anésia. Esther. Vitório. Não são números, são nomes. E talvez seja por isso que o túmulo continua recebendo visitas. Porque repetir os nomes é uma forma de impedir que Augusto vença duas vezes.
A primeira vitória dele foi tirar vidas. A segunda seria transformar aquelas pessoas apenas em as vítimas do mimero. Mas não. Elas tinham nomes. Tinham edades. Tinham uma casa. Tinham uma manhã seguinte que nunca chegou. Porque existem histórias que não sobrevivem pela dúvida. Sobrevivem pela ferida.
E esta é uma delas. As sete mortes de Tiatê não precisam de fantasma para assombrar. Basta saber o que aconteceu. Basta imaginar aquela casa. A mãe dormindo. As crianças recolhidas. O pai distante. O empregado acordado. E o machado. À espera de uma mão.
Eu sou Luchi. E este foi o Arquivo DAK, Casos Reais. Hoje nós não encontramos um demónio no escuro. Encontramos algo pior. Um homem comum, com uma obsessão escondida. E uma casa inteira, sem perceber que já estava condenada. Arquivo DAK, onde nem toda sombra vem do além.
Algumas nascem dentro da mente humana.
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