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#7 Direito à alimentação e veganismo popular

11 de maio de 202656min
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🎙️A pecuária tem sido um grande vetor de destruição de biomas e modos de vida tradicionais no Brasil, desde a colonização até a atualidade. As transformações territoriais que ela provoca ameaçam o direito à alimentação não apenas das comunidades locais, mas da sociedade como um todo, devido aos graves impactos socioambientais. O veganismo popular lança luz sobre essa problemática, fortalecendo o debate sobre formas de combatê-la.
🗣️Para essa conversa, a apresentadora Bárbara Bastos recebe Sandra Guimarães, linguista, escritora e cozinheira vegana, autora do Blog papacapim.org e militante da @uniao.vegana.

Participantes neste episódio1
B

Bárbara Bastos

HostProfessora de administração
Assuntos6
  • Pecuária como vetor de colonização e destruiçãoHistória da introdução do gado no Brasil · Modificação de biomas para pastagem · Expansão territorial e desmatamento na Amazônia · Ciclo de desmatamento, capim e soja · Impacto na cultura alimentar local · Concentração de renda e latifúndio · São Félix do Xingu · Búfalos e seu impacto
  • Impacto da pecuária em comunidades tradicionaisArquipélago do Bailique e a erosão acelerada · Salinização da água e seus efeitos · Colapso da pesca artesanal e da produção de açaí · Quebradeiras de coco babassu no Maranhão · Violência e ameaças contra as quebradeiras · Lei do Babassu Livre · Conflito entre pecuaristas e populações tradicionais · Perda da cultura alimentar e ritos
  • Pecuária e colonização pastoral na PalestinaUso de rebanhos como ferramenta de expansão territorial por colonos israelenses · Confisco de terras palestinas através do pastoreio · Substituição da cultura alimentar palestina · Israel como grande consumidor de carne
  • Veganismo e AlimentaçãoVeganismo focado no consumo individualista · Obstáculos materiais para alimentação saudável · Reforma agrária popular · União Vegana Anti-Especista (UVA) · Sara Ortines
  • Alternativas ao modelo pecuaristaVeganismo popular como projeto de vida · Reforma agrária popular e agroecologia · Descolonização das práticas alimentares · Oficinas de receitas vegetais e cozinhas solidárias · Resgate de receitas tradicionais · Fortalecimento da agricultura familiar
  • Culinária BrasileiraAumento do consumo de ultraprocessados · Importação de feijão e queda na produção · Soja para alimentação animal e exportação · Substituição da cultura alimentar por produtos industrializados · Direito a uma alimentação adequada e saudável
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Conversando sobre filosofia, política e artes, tecemos o cotidiano. Transmitimos Realidades. Olá, este é o programa Realidades. Eu sou Bárbara Bastos, professora de administração da UFPE. E hoje vamos conversar sobre direito à alimentação e veganismo popular.

O direito à alimentação foi incluído na Constituição Federal Brasileira em 2010, por meio da Emenda Constitucional nº 64, passando a integrar o conjunto dos direitos sociais previstos no artigo 6º. Com isso, o acesso à alimentação adequada passa a ser reconhecido como um dever do Estado, que deve garantir condições para que todas as pessoas possam se alimentar de forma digna, regular e saudável.

Esse reconhecimento reforça a importância de políticas públicas voltadas à segurança alimentar e nutricional. Essas políticas devem considerar não apenas a quantidade de alimentos disponíveis, mas também sua qualidade, diversidade e adequação cultural, além das condições sociais, econômicas e ambientais que tornam esse direito possível.

E para falar sobre o tema, convidamos Sandra Guimarães, que se apresenta como linguista de formação, mas cozinheira e escritora por vocação. Sandra nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, onde voltou a viver depois de um período de 23 anos no exterior, com passagens por Paris, Belém da Palestina, Bruxelas, Londres, Beirute e Berlim.

Sandra escreve o blog Papa Capim desde 2010, quando morava na Palestina, onde compartilha receitas vegetais e reflexões sobre veganismo popular e anti-especismo, além de dialogar com outras lutas que atravessam sua trajetória, como lésbica, feminista e anarquista. Atualmente, ela integra a União Vegana Anti-Especista, a Uva. Seja bem-vinda, Sandra.

Obrigada, estou muito feliz de estar aqui hoje. Sandra já esteve no programa Realidades há mais de 10 anos atrás. A gente estava lembrando aqui que na época que Marcelo Pelizzoli comandava aqui as entrevistas e deu uma aula sobre a Palestina, eu tive a oportunidade de acompanhar a gravação e aprendi bastante. Sandra, eu apresentei o conceito de direito à alimentação, mas gostaria que você explicasse para o nosso ouvinte o que significa veganismo popular.

Esse termo foi criado aqui no Brasil por nós, dentro da UVA, da União Vegana Despecista. Primeiro porque a gente queria demarcar a corrente de veganismo que a gente defende, que a gente constrói aqui.

e que é bem diferente do que, principalmente na época que a gente pensou isso, né, que foi há sete anos, sete, oito anos, bem diferente do veganismo que dominava na época, que era um veganismo mais focado no consumo, bem individualista.

E a gente entendia que você só pode fazer escolhas de consumo se você tiver a oportunidade de escolher, se você tiver condições materiais para escolher o que você come. Então, essa abordagem de pedir as pessoas para elas escolherem diferente, escolherem uma comida...

que não tenha exploração animal, por exemplo, só se torna uma possibilidade se realmente a pessoa puder concretizar isso, se ela puder escolher. E aí a gente começou a pensar que no Brasil não fazia muito sentido essa abordagem.

e que primeiro a gente precisa destruir os obstáculos materiais que impedem justamente as pessoas de se alimentarem de maneira saudável, de maneira adequada. Muitas pessoas não conseguem ter uma alimentação saudável e que somente quando a gente conseguir derrubar esses obstáculos materiais e que todo mundo tiver acesso a uma comida variada.

nutritiva, culturamente adequada, é que a gente vai poder realmente trazer a questão da ética e pedir para as pessoas integrarem mais esse elemento, que é, além de escolher uma comida saudável para você, seria, se possível, a gente gostaria de escolher uma comida que respeitasse a vida dos outros seres.

E aí a gente pensou em que nome dá isso, a esse veganismo que entende que tem dificuldades materiais na nossa frente, que a gente precisa mudar a estrutura da sociedade, da base material da sociedade, para poder fazer escolhas compassivas, para poder que a compaixão entre nessa equação. E o termo popular entrou, foi uma companheira de Fortaleza, Sara Ortines, que trabalha muito com o MST.

e que lembrou de como o MST define a luta por reforma agrária, reforma agrária popular, não é qualquer reforma agrária, é uma reforma agrária popular, ou seja, pautada pelo povo, porque o Brasil já teve vários esboços de reforma agrária, se eu penso assim, nos anos 70, na época da ditadura militar, como os militares assentavam agricultores e agricultoras sem terra aqui do Nordeste, na Amazônia.

para serem usados para colonizar a Amazônia. Então, você pode ver que foi uma reforma agrária, mas com os interesses totalmente distorcidos e que não mexeu na estrutura do latifúndio. Ao invés de fazer uma reforma agrária que destruísse o latifúndio e dividir esses grandes pedaços de terra que pertencem a poucas pessoas e colocar agricultores e agricultoras ali...

A ditadura fez o quê? Pegou essas pessoas, deixou a estrutura fundiária igual e foi colonizar a Amazônia, né? Em cima de território indígena, desmatando. Então, esse seria um modelo de reforma agrária que a gente não quer. E aí o MST sempre fala de reforma agrária popular, pautada pelo povo. E aí ela sugeriu, né? Por que a gente não fala veganismo popular?

Então o veganismo popular é isso, é um veganismo que é levado pelo povo, não pelas organizações de direitos animais, muitas estrangeiras que chegam aqui no Brasil com a visão totalmente colonial do que seria essa luta por libertação animal. É um veganismo que leva em consideração as dificuldades materiais que estão entre o nosso povo e as escolhas alimentares e a comida, e que impede as pessoas de...

levar em consideração realmente o direito à vida dos outros animais, porque elas estão em uma situação de sobrevivência. Então é um veganismo que entende que, enquanto a gente não mexer na base, nessa base da sociedade que causa injustiça, enquanto a gente não destruir o capitalismo, resumindo, a gente não vai conseguir um cenário favorável para que a libertação animal aconteça. Então isso é o que a gente chama hoje de veganismo popular.

Então, tira muito o foco das escolhas de consumo do indivíduo e vai olhar para a estrutura social mais ampla, não é isso? Isso. E é um convite também para que as pessoas, ok, se o seu objetivo é a libertação animal. Isso não vai acontecer num mundo onde as pessoas humanas ainda estão em situação de dominação.

Então leva também a um convite para que você abraça outras causas, que você entenda que não vai existir libertação animal no mundo com racismo, com capitalismo, com sexismo, com desigualdade social, com essa elite econômica esmagando a gente. Essas condições que estão dadas hoje não permitem.

que a libertação animal floresça. Então a gente vai precisar mudar isso na base para poder criar as condições materiais e políticas para que a libertação animal aconteça. Enquanto isso não acontecer, a gente pode morrer de dizer para as pessoas Go Vegan, seja vegano, torne vegano, não vai ser possível.

Me parece uma oportunidade interessante de ampliar o diálogo com outros segmentos da sociedade que não necessariamente têm em vista a libertação animal, porque me parece que o veganismo popular vai olhar para problemas estruturais que afetam todo mundo, independente de enxergar a questão dos animais não humanos.

E aí, trazendo um pouco o gancho do que você estava falando, da reforma agrária que não é popular, da atuação do INCRA. O INCRA tem colonização no nome, né? Pois é, isso é o mais interessante. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Antes mesmo da palavra reforma agrária, vem a colonização.

E aí queria que você falasse um pouco para a gente sobre como você vê o papel da pecuária nessa questão da colonização e da criação dessa estrutura fundiária que a gente tem no Brasil, né? Porque a gente sabe que o boi foi um vetor de colonização importante.

Foi e ainda é. Sim. Então, a gente tem que olhar bem para trás e lembrar que o boi foi trazido para cá, para esse território, pelos colonizadores, que não existia nem vaca, aliás, nem vaca, nem ovelha, nem cabra, nem galinha. Nem porco também.

Nem porco, acho que tinha uns bichinhos selvagens que lembravam porco, que poderia ter se domesticado, não sei, ter virado algo assim, mas nem porco. E que o maior mamífero que vivia por aqui, na América, no que a gente chama de América do Sul, América Central, era a lhama.

E a gente não tem, aqui no território que hoje a gente conhece como Brasil, não tem nenhum bioma que sustentasse herbívoros tão grandes quanto vacas. Então, para poder criar as condições para alimentar esses herbívoros, a nossa paisagem, os nossos biomas foram modificados.

Então, desde o início, a primeira vaca chegou por aqui, acho que foi em 1535, 1536, logo no comecinho da colonização, vindo de Cabo Verde, já tinha sido levada para lá e veio para cá, e já veio com essa intenção de ocupar a terra.

E depois do ciclo da cana-de-açúcar, que foi o primeiro aqui, a gente expandiu, principalmente no Nordeste. O Nordeste foi colonizado, principalmente o interior do Nordeste, pela pecuária. Sem pecuária não teria como ter colonizado uma área tão vasta. E a gente não pode falar no passado de o boi serviu para colonizar, porque isso é muito atual. O boi ainda é a maneira como se coloniza a Amazônia.

A colonização continua, nunca acabou. E o animal, a pecuária, continua sendo essa atividade que serve principalmente à expansão colonial, à expansão territorial. Hoje em dia, o agro de hoje é o herdeiro direto dos colonos de ontem. Continua a mesma estrutura de grandes latifúndios, monocultura e pecuária.

Então, está extremamente ligado, né? A estrutura fundiária, a estrutura social do Brasil foi muito determinada, muito moldada também pela questão da pecuária. E é uma máquina de destruição total, de destruição de bioma, de floresta. Quando você pensa que hoje a maior parte do mundo é a Amazônia, a Amazônia tem árvores que chegam a 80 metros. Vaca não come árvore, vaca come capim.

Então essas sementes de capim são importadas, a maioria também. Então para você poder transformar a maior floresta tropical do mundo no maior pasto do mundo, você precisou desmatar. Você precisou desmatar muito. E depois dali, plantar o capim. E aí nesse ciclo, depois do gado e do capim, vem a soja, né? Depois de terem criado algumas vezes ali.

aquela terra vai ser usada para a monocultura de soja e o gado vai entrar mais para o interior, ainda mais da Amazônia, expandindo a fronteira da pecuária cada vez mais para cima. Então o ciclo é esse. Primeiro vem, a gente corta, as pessoas cortam as árvores preciosas, a madeira de lei que a gente chama, depois que tira toca-fogo para limpar, entre aspas, todo o resto.

A partir dali planta o capim, então vem o gado que fica ali dois anos, talvez dois anos ele é levado ao abatedouro, talvez consigam criar mais outra leva de gado, mas dois anos aquela terra ficou arrasada, porque o gado compacta. Se eu falei que a gente não tem bioma, não tem comida para herbívoro tão grande...

a gente não tem solo para aguentar a vaca também não. A vaca compacta o solo de uma maneira que depois é muito difícil plantar alguma coisa. Qualquer pessoa que foi assentada numa fazenda que era usada para pecuária sabe que quando o boi vai embora, aquela terra ali fica quase estéreo, né? Está muito compactada para você poder...

reconstruir aquele solo e plantar novamente, vai levar uns anos. E aí depois desses dois ciclos ali de pecuária, mais ou menos, aquela zona vai ser usada para a monocultura de soja e as próximas vacas vão ser...

criadas numa nova zona desmatada. E assim a gente vai desmatando, desmatando, desmatando e subindo. Então a pecuária sempre foi usada como ferramenta de expansão territorial. E eu vou dizer de novo, é uma máquina de destruição. É um projeto de morte. É um projeto de morte tanto dos nossos biomas...

dos povos indígenas, dos povos tradicionais, que estão sendo totalmente esmagados pelo avanço da pecuária. É um projeto de morte da nossa cultura alimentar, porque onde a pecuária avança só sobra churrascaria, acabou-se a nossa cultura alimentar. Tem lugares, hoje em dia, o maior...

O maior rebanho do mundo, do Brasil, é em São Félix do Xingu, que fica no Pará. Acho que tem 2,5 milhões de vacas de cabeça de gado lá para, sei lá, 60 mil habitantes, não sei, mas é uma coisa assim absurda.

Tem nesse município que até bem pouco tempo atrás era só floresta, né? Estamos na Amazônia. Hoje tem 2 milhões e 500 mil vacas sendo criadas ali. Se você for em São Félix do Xingu hoje, só tem churrascaria. Só tem churrascaria. Então é um projeto que destrói também a nossa cultura alimentar. Você não pode mais plantar, não tem mais aquela diversidade, que a diversidade no campo significa diversidade no prato.

e você substitui a nossa cultura alimentar por essa cultura colonizada, que é só carne, carne de vaca, leite, queijo, e destrói a saúde também da gente. Então, para mim, é um projeto de morte em todos os lugares que você olhe, é um projeto de morte, que chega e espalha a morte e a destruição, e vai enriquecer.

Uma pequena, pequena, pequena parcela da população, né? Que são os grandes ecoaristas, que são também os grandes latifundiários, né? A mesma classe, essa mesma elite colonial. Sim, não é um modelo econômico que vai distribuir renda, pelo contrário, vai concentrar em meia dúzia de proprietários ali, né? De grandes latifúndios.

E eu fiquei imaginando essa cidade. Essa cidade não existia, então, até há pouco tempo também, né? São Feliz do Xingu? Sim. Existia, mas não parecia com o que ela parece hoje, né? Era outra coisa. Ela era junto da floresta e não de uma produção de gado, né?

Tinha outras atividades, eu não conheço muito bem a história de São Félix do Xingu antes, eu confesso que eu só descobri São Félix do Xingu porque é o lugar do Brasil onde tem o maior rebanho, então ficou famosa por isso, então eu já descobri ela nesse estado atual que é o lugar do gado, a cidade do gado. Eu tenho uma amiga paraense, Michele, que já trabalhou lá e que me contou, foi graças a ela que eu comecei a pesquisar sobre São Félix do Xingu e ela morou lá trabalhando.

E ela disse que até as pessoas foram substituídas. Ela disse que os proprietários são do sul do Brasil, do centro-oeste, do sudeste, muito gaúcho. E ela disse, olha, é um lugar surreal, porque assim, no meio da Amazônia só se come picanha, todo mundo é branco, loiro. Ela disse, eu vi umas bolsas assim, Gucci, não sei o que, que eu só tinha visto em filme.

Porque a classe é pecuarista ali. E dentro dessas churrascarias, desses lugares de luxo, tem toda a população local, nativa, indígena, tradicional, trabalhando como faxineira, cozinheira, camareira, que é servindo essas pessoas. Sandra, a gente está chegando ao fim do primeiro bloco. Já, já a gente volta com essa conversa. Até já.

Em breve seguiremos tecendo realidades.

Olá, estamos de volta ao programa Realidades. Eu sou Bárbara Bastos. Hoje eu estou conversando com Sandra Guimarães sobre direito à alimentação e veganismo popular. No segundo bloco, a gente estava conversando sobre como a pecuária tem sido um vetor de colonização no Brasil e como tem mudado a estrutura social de diversas regiões. Mas aí eu queria voltar, Sandra, para isso, porque eu sei que você esteve na Amazônia no ano passado.

e conheceu algumas outras regiões e viu outros exemplos disso. Não só na Amazônia, né? Queria que você trouxesse um pouco dessa experiência.

O ano passado eu fui fazer uma série de reportagens na Amazônia e o ano retrasado também, então 2025 e 2024. Faz dois anos que eu trabalho nessa série de reportagens sobre o avanço da pecuária na Amazônia e o impacto que isso tem na vida do povo.

na floresta também. E o ano passado, mais especificamente, eu tive a oportunidade de visitar o Bailique, que é um arquipélago que fica na Foz do Amazonas, lá onde vão buscar petróleo daqui a pouco. Eu tinha ido justamente por isso, para fazer uma investigação sobre isso.

sobre o impacto do petróleo ali que ia ter e acabei descobrindo outras coisas. Esse arquipélago Bailique fica mais ou menos um dia de barco de Macapá subindo, né? Então você chega em Macapá, é no Amapá, né? Chega em Macapá e pega mais um barco e vai lá e são várias ilhas que...

Nossa, acho que um dos lugares mais bonitos que eu já vi na vida, tem fama de ter o melhor açaí do Brasil, melhor até que o de Belém, realmente é maravilhoso. É uma comunidade tradicional, são ribeirinhos que moram lá e que vivem do açaí, um cultivo de açaí há muito tempo, eles levam açaí para Macapá para vender e de outros lugares, e também da pesca artesanal. Então é açaí e a pesca artesanal. E o que aconteceu lá nos últimos anos é que...

A erosão, que sempre existiu, é uma coisa natural, porque eles estão ali na foz do Amazonas, então ainda é rio, mas estão pertinho do mar. Tem a influência da maré também. Mas a erosão sempre foi um fenômeno natural, só que nos últimos anos se acelerou demais. E eles chamam até de o fenômeno das terras caídas, que cai às vezes três metros de terra de uma vez.

E muito de repente, às vezes as pessoas estão dormindo em casa, escutam um barulho, quando acorda a cozinha já está no rio, a cozinha da casa. As pessoas estão dormindo dentro da casa e a casa é levada. Então são as bordas das ilhas que caem. Isso, exatamente. As bordas das ilhas que caem, só que são ribeirinhos. Ribeirinho é que moram na beira do rio, as casas são nas bordas. Sim.

todas as casas ali, porque o rio é a estrada deles, né? Se você mora ali, não tem... É incrível, Tom, você está no arquipélago, não tem um carro. Não existe carro. Coisa boa. É muito bom. É uma sensação assim, nossa, podia ser o melhor lugar do mundo. E era, né? Até recentemente. Então, você... Qualquer lugar você vai de barco, tem um barco grande, que leva para os lugares maiores, e tem uns barquinhos pequenos para ir de uma ilha a outra.

inclusive tem uma UBS lá e eles não têm ambulância, tem ambulancha, que é para levar você para Macapá. Então tudo ali é na água, você precisa estar perto da água. Algumas pessoas perguntam, se as bordas estão caindo, por que não constroem suas casas no centro das ilhas?

Porque isso teria se isolar. Não tem como você se locomover, não tem como você levar o seu açaí pra ser vendido, não tem como você ir pescar, não tem como você ir pra escola. As crianças pegam um barquinho pra ir pra escola todo dia, de uma ilha pra outra, né? Porque dentro da ilha se anda a pé, né? Se anda a pé. Dentro da ilha tem várias...

como se fossem pontezinhas de madeira, porque tem muita água dentro, muito córrego também, quando chove fica uma parte ali molhada e você fica andando nessas passarelas de madeira de um lugar para outro. Incrível, muito bacana. Dentro, dentro, dentro da terra aí é terra firme, né? Você pode andar assim. E aí o que aconteceu no baile, o que está acontecendo é que a terra é um mundo, mas tem outro fenômeno também que é a salinização da água.

Por causa das secas, aí entra a questão das mudanças climáticas, por causa das secas históricas que tiveram nos últimos anos, o nível da água dos rios está cada vez mais baixo e a água do mar está entrando cada vez mais. Então tem um período do ano, alguns meses no ano, que a água fica salgada ali.

E fica salgada, só que os peixes dali são peixes de água doce. Então afeta muito a fauna, muitos peixes morrendo. E assim, já tem tubarão nos rios, gente. Tem cação dentro do rio que vem do mar. Então a comunidade de pescadores não consegue mais pescar, não tem mais os seus peixes que foram afetados pela salinização da água.

Mas, mais dramático ainda, as pessoas bebem a água dos rios, só que a água está salgada agora. Então, elas têm que beber essa água salobra e está tendo uma epidemia de hipertensão na população do bailique. E você fica naquele dilema, você bebe a água e sabe que vai adoecer.

Ou você não bebe e morre de sede. Então o governo do Amapá começou a levar algumas máquinas para dessalinizar. Só que essas máquinas precisam de que? De eletricidade. Para dessalinizar a água. Aí o que acontece? O bailique tem queda de energia o tempo inteiro. E às vezes fica duas semanas sem eletricidade. As pessoas têm gerador com combustível que funciona a diesel.

E aí eu tentando entender o que estava acontecendo com isso tudo. Claro que tem a parte do colapso climático, né? Que seca, pouca chuva, a água está baixando. Mas a questão da eletricidade, principalmente, tem muita queda. Os postes também ficam ali na Terra. E quando a Terra cai...

cai o posto de eletricidade. E aí corta a eletricidade da ilha e até vinha alguém de Macapá para consertar e depois cai de novo. E aí quando eu fui para lá para investigar, o pessoal me falou que também um dos maiores culpados desse caos inteiro é a pecuária, porque estão criando búfalos ali. Então se a terra já não aguenta o peso de uma vaca, um búfalo é ainda mais pesado.

Então tem pecuaristas que soltaram vários búfalos, estão criando búfalo ali. O búfalo, muito pesado, começa a fazer caminhos que vão abrindo, vão cortando a terra. E aí entra água pelo caminho que o búfalo fez com as patas. E aquela água entrando ali vai acelerar a erosão e aquela parte inteira de terra, que foi arrudeada pela água ali, pelo novo canal que foi aberto pela pata do búfalo, vai cair.

E aí cai com eletricidade, com tudo. Por causa da eletricidade também as pessoas, os pescadores não conseguem mais pescar, mesmo na época que a água está doce, que eles ainda conseguem algum peixe porque tem que manter no gelo até levar para lá. Só que não tem eletricidade, não tem como fazer o gelo, não tem como manter aquele pescado frio.

O que aconteceu é que toda a estrutura social, econômica daquela ilha e de saúde também está em colapso. É um arquipélago que está em colapso por causa das mudanças climáticas, mas também muito pela influência da pecuária. Esses búfalos são dos ribeirinhos ou não? Não. Claro que não.

eles nem sabem de quem são são de pecuaristas que soltam os bichos lá que vêm de helicóptero às vezes você vê eles passando soltam no interior das ilhas e muitas vezes privado da possibilidade de pescar de praticar pesca artesanal com a por causa da salinização eu esqueci de falar o açaí está sendo afetado porque as palmeiras de açaí estão agora tendo acesso à água salobra também está afetando a produção que está caindo

Aí os ribeirinhos estão sem outra alternativa a não ser fazer o quê, trabalhar para os pecuaristas cuidando desses búfalos. Mas os donos desses rebanhos são grandes proprietários lá do Amapá, do Pará, as pessoas nem sabem dizer quem são os donos, só sabem que soltaram ali. Aí eu tentei perguntar, essas terras são de quem? São terras comuns. São terras que eram de todo mundo ali, não é terra privada. São os comuns, que estão sendo privatizados mais uma vez.

Caramba, que situação absurda. Sandra, você teve também a experiência com as quebradeiras de Icoco, Barbassu. Queria que você falasse também delas. É muito parecida com a história que eu acabei de contar no Bailique, lá no Macapá, na Foz, em Amapá, na Foz do Amazonas.

Isso foi em 2024, ainda nesse projeto de investigação do impacto da pecuária nos modos de vida das populações tradicionais. Eu fui para a pontinha, para o final da Amazônia, quando a Amazônia vira Nordeste, que é o Maranhão.

e lá no Maranhão, mais especificamente na Baixada Maranhense, que é um local atravessado por vários rios, e uma parte do ano fica... vários pedaços de terra ficam embaixo d'água. Então é um local muito fértil. E lá tem os babassuais, que são as florestas de Babassu. Babassu é uma palmeira nativa daqui. Eu sempre lembro as pessoas que o nome Tupi para o Brasil, antes do colonizador dar o nome Brasil, era...

você lembra qual era o nome? Pindorama. Pindorama. Mas sabe o que quer dizer Pindorama? Não, terra das palmeiras. A gente tem o Dendê, o Babassu, o Licuri, o que eu chamo Catolé, mas a gente chama Licuri, é, Carnaúba também. A gente tem muita palmeira, né? Típica daqui.

E o babassu é uma das palmeiras típicas nativas dessa zona, né, de transição entre a Amazônia e aqui, e o sertão, entre a Amazônia e o sertão. E mais um exemplo de terras comuns. As florestas de babassu eram terras comuns, né, onde há as quebradeiras de coco.

Iam lá, catavam, colhiam, porque você não tira da palmeira, o babassu tem que cair, ele só está pronto para fazer o óleo quando ele cai, quando ele está maduro, se você tirar do pé ele ainda está verde. Então é uma atividade muito sustentável, muito ecológica, se a gente pode usar essa palavra.

E elas fazem o azeite de babassu, fazem a farinha, fazem o leite. E todas as quebradeiras de coco são uma população tradicional, porque o modo de vida delas depende do babassual, tudo ali. E eu fui mais especificamente dentro da Baixada Maranhense, num quilombo. Fui em três, mas contar a história de um quilombo...

O Quilombo do Bom Jesus, onde a pecuária chegou no final dos anos 80. Gente, é muito recente. A gente acha que o Brasil sempre foi isso, mas eu sempre lembro de Paulo Freire, que dizia que o mundo não é, o mundo está sendo. A gente sempre esquece que o mundo está sendo. A pecuária está sendo. Nunca, não era assim sempre, não foi sempre assim. Lá no Maranhão chegou no final dos anos 80.

E aí chegou com búfalo também, que agora a moda é criar búfalo, né? Porque queijo de búfala e não sei o quê, e carne de búfalo. E lá no Maranhão, nessa parte, vendem no açougue carne de gado, eles chamam o gado bovino e o gado bubalino. O gado é os dois. Se você comprar carne de gado, pode ser de vaca ou de búfala. Não tem diferença. Não vão te dizer que é búfalo, é carne de gado.

Então estão criando lá, só que gado se cria, precisa cercar, porque você precisa dizer qual é o seu rebanho e qual é o rebanho do seu vizinho, tem que separar. Então aquelas florestas que eram uma propriedade compartilhada, eram os comuns, todo mundo tinha acesso, agora está cercada. Então eles vêm com os búfalos e cercam e as mulheres não conseguem entrar ali.

botam capangas para vigiar o gado e para vigiar as mulheres. Então tem muita violência contra as quebradeiras de coco, muitos casos de estupro, de assassinato de quebradeiras de coco, a mando dos pecuaristas, inclusive a quebradeira de coco, dona Rosário, que me recebeu, que me hospedou até, ela estava no serviço de proteção à defesa do direito humano.

porque ela foi ameaçada de morte várias vezes pelos pecuaristas. E aí eles chegam, cercam a floresta, jogam o gado ali, cortam os babaçus para poder... Mais uma vez, a vaca, o búfalo não vai comer palmeira de babaçus. Vai comer o quê?

o capim, então cortam a floresta, desmatam, plantam o capim. Eles são tão cruéis que o capim que estão plantando agora, a dona Rosário explicou, que primeiro que botam muito agrotóxico também, né? E quando elas entram, acabam tendo um problema de pele, porque...

entram em contato com os agrotóxicos, mas estão plantando um capim que ela disse que é quase uma lâmina, é muito cortante, ele corta, é muito afiado. E ela disse que quando as mulheres andam naquele capim, acabam se cortando. E como ele está cheio de pesticida, de agrotóxico, além dos cortes, vem o agrotóxico por cima. Então tem muito problema de pele. E é para impedir mesmo elas de atravessarem esse espaço para ir até as palmeiras que não foram cortadas.

E aí impedem elas de exercer seu modo de vida tradicional e também não acessam o ganha-pão delas. Agora elas não podem mais colher o coco babassu, fazer o azeite. E esses bois, esses búfalos também, de vez em quando são soltos e aí vão nas hortas.

dos quilombos, estava no Quilombo Bom Jesus, destruíram as hortas. Então hoje em dia elas não têm mais possibilidade de plantar. Antigamente todo mundo tinha uma hortinha, mas hoje em dia os bois, que muitos são criados soltos também justamente para isso, para expulsar a população, destruíram as hortas, elas não conseguem plantar. E esse lugar alagado que eu expliquei no começo, que são vários rios, essas comunidades pescavam ali, viviam também da pesca e para comer era também um alimento. Só que o búfalo fica muito dentro da água.

E aí, por causa da urina, do cocô do búfalo, está tudo poluído, matou os peixes dali. Então, elas não podem ter horta, elas não podem mais pescar para comer e elas não podem catar o babassu para fazer o seu óleo e vender e ter o seu ganha-pão. Então, elas me diziam sempre assim, olha, antes da pecuária chegar, a gente era rico. A gente era rico porque a gente não precisava comprar nada. Eu achei ótima essa definição de riqueza.

A gente aqui era rica porque a gente não precisava comprar nada. Hoje em dia, tudo que a gente precisar comer, um saco de farinha, a gente precisa ir na cidade comprar. E aí destruiu a cultura alimentar, mais uma vez, delas, né? Porque agora elas estão comprando ultraprocessados nas cidades, que elas não podem mais plantar. E destruíram até o rito, sabe?

O tecido social, mas cultural também, a dona Rosário me contou uma história de partir o coração. Ela disse, olha, aqui no Quilombo, a gente fazia festas no mês de maio dentro do Rio. Tinha competição de canoa, a gente fazia comida ali, passava um dia inteiro, tinha um dia em maio que a gente ia para lá fazer essa festa. Aí eu disse, que dia de maio, dona Rosário? Ela disse, 13.

13 de maio, dia da abolição da escravidão. Então era uma tradição delas comemorar aquele dia ali. Só que ela disse que hoje em dia a gente não pode mais porque o búfalo tomou conta de tudo. Então até as festas, os ritos, tudo foi mudado. E aí ela terminou, concluiu, dizendo que a pecuária levou tudo da gente.

inclusive a nossa juventude, porque hoje privada da possibilidade de viver no quilombo da nossa maneira tradicional, os jovens não querem aprender a nossa história, não querem levar, não querem continuar o nosso modo de vida, e os jovens hoje sonham em virar pecuarista, eles querem todos ser pecuaristas. Então, ela falou com essas palavras, a pecuária, o gado levou tudo da gente, até os nossos jovens. Então, vou voltar para o que eu falei no primeiro bloco, é um projeto de morte e de destruição.

Ah, e tem um detalhe que eu não contei, porque aí você entra também na questão do como o especismo, que é a supremacia humana, o especismo é isso, é a ideologia que acredita que o humano, e aí alguns humanos, a gente pode entrar no detalhe depois, tem o...

o direito de dispor dos corpos e da vida e da força de trabalho dos outros animais. A gente pode dominar e ditar quem vai viver, quem vai morrer, o que a gente vai fazer com os outros animais. E o especismo sempre anda muito junto do sexismo, porque no final das contas é uma ideologia que diz quais corpos contam.

E quais corpos não contam? Que corpos têm valor e que corpos estão ali para me servir? E a gente pode descartar também. E aí ela me contou esse detalhe, dona Rosário lá. Ela sempre olhava as palmeiras, sabe, de babassu que estavam dentro da cerca. E ela falava, olha...

Tudo preso. Olha ali, babassu preso. Eu nunca tinha visto alguém falar de uma árvore e usar preso. Para ela, as palmeiras estavam presas dentro da cerca. E aí, quando a gente chegou perto da cerca, ela falou, você está vendo essa cerca aqui, Sandra? Tem cinco linhas de arame farpado, né? Bastava três para o gado não sair. O gado é grande.

Bastava três, que com esse tanto de distância entre uma linha de aranfarpado e outra, o gado não ia sair. Mas eles botam cinco, às vezes sete. Sabe por quê? Para a mulher não entrar. A cerca serve para o gado não sair e para a mulher não entrar.

Então, o mesmo instrumento ali que foi colocado pelo pecuarista para tanto dominar a população de outros animais, nesse caso as vacas, como também oprimir e dominar e ditar o que aqueles outros corpos, nesse caso corpos de mulheres, podem fazer onde podem ir ou não.

Eu estou imaginando aqui, eu já imagino a resposta, mas assim, essa população tentou buscar justiça, polícia, alguma representação do Estado para protegê-los? Continua, o movimento das quebradeiras de coco babassu é muito grande, muito organizado, são centenas de milhares de mulheres, é interestadual, acho que são quatro estados, é Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará.

O Babassual fica nesses quatro estados, a floresta de Babassu cobre uma parte desses quatro estados. Então, é um movimento, o nome completo é Movimento Interestadual das Cabradeiras de Coco Babassu. E elas lutam pela lei do Babassu Livre, que é dizer que onde tem Babassual, aquele espaço deveria ser um comum. Eu acho a luta mais incrível que a gente tem, uma das lutas mais incríveis no Brasil. E que mostra, a gente fala muito da questão dos...

como é que chama, do cercamento das terras na Idade Média, para criar as condições para criar o capitalismo, começar a acumular capital ali, os encircments. Eles chamam de cercamento? Cercamento. Cercamento, os cercamentos. E aí, quando eu fui lá, eu disse, gente, é a Idade Média na Europa. A gente está vendo esse mesmo processo hoje, em 2026, acontecendo aqui no Brasil, que é cercar. E a luta delas...

que elas querem a lei do babassu livre, que já passou em vários municípios, já existe, é uma lei municipal em alguns lugares, não é uma lei federal ainda, onde naquele lugar, pouco importa se o proprietário cercou, botou cerca, botou gado, tem babassu, as quebradeiras têm o direito de entrar e apanhar o babassu. Aí a lei do babassu livre. E me dá um negócio assim, porque me lembra muito a lei do ventre livre, né?

até o nome assim, e essas populações, né, que são descendentes de pessoas em situação de escravidão, que fugiram e construíram ali sua liberdade, foram para um lugar onde podiam exercer liberdade, e aí hoje, né, 100 anos depois, você vê os descendentes e as descendentes dessas pessoas escravizadas lutando contra quem? Os pecuaristas, que são quem? Os descendentes dos senhores de escravos.

Então é a mesma elite, a mesma classe, são só seus descendentes, que continua várias gerações depois, oprimindo e usando de violência, muita violência contra a população negra aqui no Brasil. E dessa vez pelo intermediário da exploração animal, usando o gado para fazer isso.

É interessante que quem defende a propriedade privada defende só para um lado, né? Porque se você tem uma população vivendo ali há tanto tempo, se fosse para ser propriedade de alguém, aquelas terras seriam deles. Só que quem tem esses modos de vida tradicionais não acredita em propriedade privada, acredita nessa relação com o território de comum comum, onde todos podem tirar a sua subsistência.

sem precisar excluir os outros desse acesso. A gente pensa muito nisso, até pensando na questão da Palestina, da colonização da Palestina, o povo palestino que diz sempre que a diferença é da mentalidade do colono para a mentalidade do povo nativo, que seja o povo palestino ou, nesse caso.

O povo quilombola é que o colono pensa, essa terra me pertence. O povo tradicional pensa, eu pertenço a essa terra. Então é uma relação totalmente diferente. Só para concluir a questão da lei do Babassu Livre, mesmo nos municípios onde a lei foi aprovada, a gente sabe que não é porque algo é lei que vai ser realmente respeitado. Elas continuam lutando.

Até onde foi aprovado, porque mesmo nesses lugares, muitas vezes os pecuaristas não deixam elas entrarem. Mas a luta das quebradeiras de coco babassu é por isso, é para que seja uma lei realmente que cubra toda a floresta, a lei do babassu livre. E falando de propriedade também, os próprios quilombos, o quilombo Bom Jesus foi reconhecido, mas os dois outros quilombos, mesmo sendo reconhecido, ou seja, em tese, agora a lei está do lado deles e delas. Os pecuaristas não poderiam invadir suas terras.

com o gado, mas não tem fiscalização, eles continuam e sem falar nos outros quilombos que ainda não foram reconhecidos como quilombos, que ainda tem todo um processo, você precisa provar que estavam ali há muitas gerações para poder ganhar o reconhecimento federal de que é um quilombo, é uma área protegida e mesmo quando esse reconhecimento chega não é garantia que o pecuarista não vai invadir. Muito bem, Sandra, vamos parar para mais um intervalo e voltamos para o terceiro bloco. Até já!

Em breve seguiremos tecendo realidades. Olá, estamos de volta no programa Realidades. Eu sou Bárbara Bastos e hoje converso com Sandra Guimarães sobre direito à alimentação e veganismo popular.

A gente estava conversando no segundo bloco sobre como a pecuária tem sido um instrumento de modificação de territórios e de destruição de modos de vida tradicionais. Mas eu queria que você falasse um pouco, Sandra, de como esse fenômeno não acontece só no Brasil. Você já testemunhou também isso muito na Palestina, um lugar onde se usa muito rebanhos como também esse vetor. Você podia falar um pouco para a gente sobre isso?

Eu morei cinco anos na Palestina e depois fiquei mais cinco anos morando metade do ano lá e metade fora. E o que eu vi nesse tempo foram muitas práticas que se assemelham ao que eu acabei de falar aqui, que eu constatei no Brasil, que é o poder colonial, nesse caso Israel, usar a pecuária como...

ferramenta de expansão territorial, porque os animais precisam pastar, então precisa de terra. E aí a gente vê lá na Palestina que os colônicos israelenses sempre vieram com seus rebanhos, principalmente dentro da Cisjordânia, que é onde eu morava, em Belém, e vinham com seus rebanhos e botavam os rebanhos para pastar em cima dos cultivos palestinos, das hortas, lá onde o pessoal produzia mesmo os alimentos vegetais.

Só que desde o 7 de outubro de 2023, essa colonização através do rebanho...

do pastoreio, aumentou muito, de maneira que hoje, a principal maneira que colonos israelenses confiscam terra de palestinos na Cisjordânia é através do pastoreio, tanto que a gente criou um termo que é o colonialismo pastoral, que é você chegar com seu rebanho de ovelha, de cabra, poucas vacas lá na Palestina é mais ovelha e cabra, chegam, botam para comer tudo ali que o povo palestino estava plantando.

muitas vezes roubam o próprio rebanho do palestino e da palestina, e depois expulsam o pessoal de lá, e nisso vão criando novas colônias de pastoreio. E vão sempre com a desculpa que precisa de mais terra para os animais pastarem, cada vez mais, cada vez mais. E Israel também como um dos maiores consumidores, acho que ainda é o maior consumidor de carne e de frango no mundo, a última vez que eu chequei ainda era, mas pode ter mudado.

eles usam muito essa expansão territorial para também colocar suas fazendas de criação de galinha, né, de confinado. E aí a gente vê, também como aqui no Brasil, né, que a gente, eu falei de São Félix do Xingu, na Amazônia, onde hoje em dia só tem churrascaria, você vê o povo palestino que tem uma tradição, uma cultura alimentar riquíssima e muito saudável, né.

a dieta mediterrânea que todo mundo acha incrível, a base de vegetais com muito azeite de oliva, com muita amêndoa, com pouca carne, pouquíssima carne, com poucos lácteos também, muito vegetal, muita lentilha, muito grão de bico. A Palestina a gente esquece, mas é um berço do trigo também, ali o crescente fértil, foi ali que o trigo foi domesticado. Então essa cultura alimentar riquíssima, extremamente saudável.

É impossível praticá-la porque você não tem a terra para usar, você não tem a água para plantar. E aí você, o povo palestino é obrigado a comprar esses frangos criados de maneira industrial e ultraprocessado de Israel. Então a cultura alimentar está sendo substituída. Assim como a população, você substitui a população ali na terra e você substitui a comida ali no prato de quem sobrou do povo palestino que ainda não foi expulso.

que é o que a gente vê aqui também no Brasil, né? A gente está em plena fase de mudança do padrão alimentar no Brasil. As pessoas estão comendo cada vez menos verdura, fruta, feijão fresco. A gente já importa feijão, gente. Nossa. A gente importa feijão no Brasil. A gente já não produz mais feijão suficiente, que é a base da nossa alimentação, porque a soja tomou lugar de tudo. Sendo que o consumo de feijão tem caído no Brasil.

Então, mesmo com o consumo menor, a gente não está produzindo suficiente. Não está produzindo suficiente.

Porque agora é só soja, só soja, sója. O Brasil é o maior exportador, produtor de soja no mundo. Essa soja é quase toda utilizada para alimentar os animais de abate, exportada para alimentar os animais de abate fora do Brasil, na China e na União Europeia, principalmente. E aí a gente que fica aqui vai comer carne ultraprocessada, carne de lata, quitutti, salsicha, mortadela, e também está sendo ultraprocessada. A nossa cultura alimentar está sendo substituída.

Ou seja, o nosso direito a uma alimentação realmente adequada e saudável, como a gente vê no nosso guia alimentar, que seria baseado em uma diversidade, respeitando nossas tradições alimentares, está sendo substituído por algo totalmente imposto por interesses econômicos, de um pequeno grupo que produz, tanto o grupo da produção pecuária, quanto as indústrias alimentícias também, e os produtores de grãos também, que alimentam esses animais.

Em detrimento de toda a nossa cultura. Depois desse trabalho na Amazônia, desses dois anos que eu fui lá fazer essa reportagem, que eu fui do Acre até o Maranhão, né? Eu fui da Reserva Chico Mendes, a Reserva Chico Mendes, no Acre, até esses quilombos no Maranhão, e pensando também na Palestina, hoje eu cheguei à conclusão...

de que a pecuária é incompatível com o nosso direito à alimentação adequada e saudável. Porque onde a pecuária se instala, você pode ter certeza que aquilo ali vai corroer completamente a cultura alimentar local, vai substituir, a substituição vai ser para pior, vai ser coisas muito menos saudáveis que vão ser consumidas no lugar.

e também destrói as possibilidades materiais da gente criar alternativas, porque tudo vira pasto, então você vai plantar onde? Então, para mim, a pecuária é incompatível com a soberania alimentar, é incompatível com o nosso direito à alimentação saudável. E é só você ver, aonde entra assentamento do MST, aonde uma antiga fazenda...

de pecuária, de criação de gado, se transforma em assentamento e as pessoas começam a plantar, o número de alimentos ali, a quantidade, a variedade aumenta muito. E inversamente, nos municípios onde a pecuária domina, as pessoas têm uma alimentação muito pobre. É o que a gente chama de monotonia alimentar, né? Que é só a carne, o frango, o ovo e ultraprocessado à base de trigo, farinha, farinha de trigo, milho e soja, óleo de soja e açúcar.

Sandra, e aí vamos falar um pouco de como sair dessa situação, né? Onde é que entra o veganismo nessa discussão? O que é que o veganismo pensa como caminhos para a gente construir uma realidade diferente?

Se eu acho que a pecuária é incompatível, o projeto da pecuária é um projeto de morte incompatível com a soberania alimentar e o direito à alimentação, eu vejo no veganismo popular uma alternativa. Eu acho que é um projeto de vida.

todo tipo de vida, de respeito a todo tipo de vida. E é um projeto também que busca construir uma sociedade mais justa, onde o direito à alimentação saudável vai poder existir. Porque você tira a pecuária da equação, você abre muitas possibilidades. Então, nós que somos veganas e que construímos o veganismo popular aqui no Brasil, a gente acredita que...

Primeiro, reforma agrária, sabe? É uma coisa muito ligada, está muito no coração da nossa luta também. Reforma agrária, porque sem reforma agrária a gente não vai conseguir mudar o modo de produção e a gente não vai nunca ter esses alimentos vegetais, frescos, saudáveis, porque enquanto não tiver reforma agrária, o que vai dominar é o latifúndio e a pecuária, que vão juntos, vai ser a produção de milho e soja para os animais e a pecuária.

Então, a gente não pode pensar uma mudança no sistema de produção alimentar sem sair desse modelo colonial. Então, reforma agrária, em seguida a gente pensa num modelo de produção que seja realmente de vida, e aí entra a agroecologia, é um segundo pilar muito importante para a gente, né? Reforma agrária popular e agroecologia. E quando você pensa em agroecologia, você pensa numa diversidade de alimentos. Mas aí entra a terceira questão, que é...

as práticas alimentares precisam ser descolonizadas. Porque a gente fala muito, até na questão da transição energética e transição ecológica, e medidas para mitigar a crise climática, vamos ter que mudar o nosso modo de produção. Vamos, gente, mas se a gente não mudar o nosso modo de consumo...

Não faz sentido, são os dois lados da mesma coisa, né? E eu vejo até assim, é muito triste, porque você vê até nos movimentos populares, nos movimentos sociais, na esquerda, todo mundo vai dizer que precisa sair, mudar o modo de produção, sair da monocultura, sair dessa pecuária industrial, sair dessa criação industrial de animais. Mas todo mundo quer continuar comendo carne todo dia. Só que você não entende que para você poder comer carne todo dia e comer ovo todo dia, você precisa do modelo industrial de criação de animal.

É um consumo muito alto para poder mudar o modelo, né? Exatamente. E esse modelo existe, assim, você só come hoje em dia desse jeito porque existe esse modelo. Mudando o modelo de produção, seu modelo de consumo vai ter que mudar. Só que as pessoas não querem ver isso, né? Como se fosse assim...

Sabe? Eu não sei, é um ponto cego mesmo da reflexão das pessoas de que tem que mudar a maneira de produzir. E aí eu acho que o veganismo popular traz essa questão muito importante que a gente vê, que a gente não vê, na verdade, que está ausente da discussão até da esquerda organizada, até da esquerda radical, que é se a gente não mudar o modo de consumo, as nossas práticas alimentares, a equação não vai fechar.

Não vai fechar, a gente precisa ir em todos os lugares. Então a gente que defende o veganismo popular, além da reforma agrária popular e da agroecologia, a gente defende descolonizar as práticas alimentares, que é reconhecer que comer carne todo dia, comer queijo todo dia, comer ovo e comer não sei quantos ovos todo dia são práticas coloniais. Por que eu digo coloniais? Não só porque foram trazidas pelos colonizadores, mas como...

Porque é preciso continuar colonizando a Amazônia para poder você ter esse modo de alimentação. É preciso continuar colonizando os territórios tradicionais. Não tem como a gente comer essa quantidade de carne, ovo e queijo que a gente come hoje só com uma produção familiar.

Só com uma produção pequena, como as pessoas tentam fazer a gente acreditar. Não tem, gente. É uma equação que não fecha. É uma conta que não fecha. Então, eu acho que o movimento do veganismo popular traz esse elemento que é ignorado pelos outros movimentos sociais, sabe? E que, sem isso, não tem como a gente fechar a equação.

Sandra, eu sei que você está fazendo um trabalho agora com algumas cozinhas solidárias para mostrar outras preparações que sejam sem ingredientes de origem animal. Como é que você vê o potencial disso de fomentar outras práticas?

Faz parte desse esforço, como militante do veganismo popular, para descolonizar as práticas alimentares. É uma tristeza imensa constatar, como eu estou constatando agora faz dois meses, que eu estou nesse projeto aqui em Recife e em Fortaleza, que é oferecer oficinas de receitas vegetais para as cozinhas solidárias.

aqui em Recife e lá em Fortaleza, Cozinhas do Ceará Sem Fome, o projeto Ceará Sem Fome. E é muito triste ver que a população mais empobrecida hoje está extremamente doente, extremamente adoecida, diabetes, hipertensão, colesterol alto, todo mundo já teve um AVC ou tem alguém em casa que teve um AVC ou um infarto.

A população mais empobrecida está, assim, extremamente adoecida. E aí, quando você vai perguntar, quando você pergunta o que essas pessoas comem, você vê a que ponto as práticas alimentares delas, né?

foram totalmente colonizadas pela indústria e pela pecuária também. São pessoas que só comem carne, muitas vezes carne de péssima qualidade, porque elas não têm o acesso a carnes nobres, então elas vão comer quitute, elas vão comer salsicha, elas vão comer mortadela.

vão comer muito ultraprocessado, muito. O Brasil também está em plena transição. Hoje em dia, 20% das calorias das pessoas no Brasil vende alimentos ultraprocessados, o que é imenso, é enorme. A gente está longe dos 60% nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, 60% das calorias das pessoas vende ultraprocessados, no Reino Unido também, 60%.

Mas, enquanto nos Estados Unidos e na Inglaterra já estabilizou, o Brasil está crescendo, então está aumentando muito. A indústria do ultraprocessado vê a gente como o mercado. A América Latina e a África, assim, é o mercado em expansão do ultraprocessado. E eu vejo isso na vida das pessoas. São pessoas que só comem miojo.

bolacha recheada, refrigerante, incluindo crianças. Então, assim, tem crianças que nunca provaram uma fruta na vida, tem crianças que nunca comeram uma verdura. Tem adultas no projeto que eu encontrei que não comem feijão, nem feijão, nem verdura, nem fruta, nenhuma. Nunca? Nunca, nunca.

Algumas dizem, eu como feijão se tiver toicinho, calabresa, bacon, então assim, é mais pela carne do que pelo feijão. E a gente sabe a importância desses alimentos na proteção da saúde. Tem um estudo de alguns anos atrás, poucos anos atrás, do Lancet Institute, que é o The Lancet, que é a revista...

a revista científica, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo. E nesse estudo, eu me lembro, foi antes de eu voltar para o Brasil, dizia que todo ano, não sei quantos milhões de pessoas no mundo morrem por não consumir fruta e verdura suficiente, e ao mesmo tempo um número muito maior morre por consumir excesso de carne e laticínios.

Então são causas de morte, assim, direto. A gente sabe que são as maiores causas de morte, né, hoje em dia no Brasil e no mundo. E aí eu vejo essas pessoas achando que tudo bem só comer carne porque tem essa obsessão da proteína, né, agora é proteína, proteína, proteína.

E esse projeto tenta levar essa informação às pessoas, porque elas não sabem. Elas não sabem que miojo é ruim, elas não sabem que Sazun causa hipertensão, principalmente se você tiver hipertensão, você não pode comer porque tem muito sódio. E eu vejo a que ponto a gente acha que coisas que são óbvias pra gente, muita gente não tem acesso a essa informação. E quando tem, aí não vai ter acesso à alimentação, né? Então a gente tem, além de dar a informação, tem que...

Tem que trazer feiras também para esses lugares, elas têm que ter acesso. Mas o projeto tenta ver isso, ensinar as pessoas a importância de comer vegetais, ensinar as pessoas como dar gosto a vegetais, como preparar de maneira que seja saboroso, que elas comam por prazer, não por obrigação, não é um medicamento.

É uma coisa boa e a gente tenta muito resgatar receitas tradicionais, antigas. Então, mais uma vez, se eu falei que a pecuária destrói até a cultura alimentar, eu acho que o veganismo também pode ser uma ponte com a nossa cultura alimentar esquecida. A gente fala muito de moqueca de fruta pão, a gente fala muito de banana comprida, as coisas que as pessoas, carimã, maçapuba, as coisas que as pessoas comiam antigamente e não comem mais hoje.

Então, tudo isso pode ser juntado nesse projeto e a gente pode melhorar a saúde do povo em geral.

Fortalecer a agricultura familiar, porque esses ingredientes vêm da agricultura familiar, né? E combater o agro.

Muito bem, Sandra. Chegamos ao fim do nosso programa, não temos mais tempo. Queria agradecer a você pela presença aqui no nosso programa. Quem quiser saber mais sobre o veganismo popular, você indica alguma fonte? Tem o Instagram da Uva, da União Vegano Antiespecista, que tem muito material lá. Eu tenho um blog chamado papacapim.org, tudo junto, minúsculo, que tem alguns artigos, tem muitas receitas. Se vocês quiserem começar a...

Não só testar novas receitas veganas, mas talvez descobrir receitas antigas que suas vós faziam e que já eram veganas. Este programa foi apresentado por mim, Bárbara Bastos, que também assina o roteiro. Gravamos no estúdio do Departamento de Música, no CAC e na UFPE, com trabalhos técnicos de José Guilherme. Siga nossa página no Instagram, arroba Realidades UFPE. Para você que nos ouviu até aqui, muito obrigada e até o próximo programa.

Acabamos de ouvir Realidades. Oferecimento Proeste, o FPE.

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