Episódios de Conexão Geek

Leviticus (2026)

27 de agosto de 202649min
0:00 / 49:07

LEVÍTICOS: O TERROR QUE TRANSFORMA UMA PASSAGEM BÍBLICA EM MONSTRO

E se aquilo que você mais ama fosse justamente aquilo que você deveria temer?

No episódio de hoje do Conexão Geek, George Ricardo e Matheus discutem Levíticos, terror de Adrian Chiarella que mistura horror religioso, adolescência, homofobia e uma criatura que assume a aparência da pessoa que cada personagem mais deseja.

O filme acompanha Naim e Ryan, dois adolescentes que vivem um relacionamento escondido em uma comunidade extremamente conservadora. Quando a relação é descoberta, os dois são submetidos a um ritual religioso que deveria "curá-los". A partir daí, uma entidade começa a persegui-los — e o verdadeiro problema é que ela pode assumir o rosto de quem eles amam.

A partir dessa premissa, a conversa vai muito além da criatura.

Falamos sobre as referências ao livro de Levítico, o uso da religião como instrumento de controle, o medo do próprio desejo, a representação de um casal LGBT no terror, a questão do consentimento, o papel da comunidade e a possibilidade de a criatura ser algo bem diferente de um simples demônio.

Também comparamos o filme com Corrente do Mal e Follows, discutimos o final, a fotografia, os personagens e se Levíticos consegue transformar uma discussão social em um terror realmente eficiente.

Participantes neste episódio2
G

George Ricardo Guariento

HostJornalista/Criador de conteudo
M

Matheus Marques

Co-host
Assuntos6
  • A premissa de Levíticos e a criatura que assume a forma do desejoLevíticos·Naim·Ryan·horror religioso·homofobia
  • O ritual de conversão e a natureza da criatura demoníacaritual religioso·demônio·anjo·celibato·Velho Testamento
  • A representação de um relacionamento LGBT no terror australianocinema australiano·relacionamento LGBT·Corrente do Mal·It Follows
  • A crítica à comunidade conservadora e o papel da mãe de Naimcomunidade conservadora·alienação social·religião como controle·maternidade
  • O final ambíguo do filme e a esperança de um futuro para os protagonistasfinal aberto·otimismo·fuga·Corrente do Mal
  • A responsabilidade de Naim e a falta de apoio dos adultosNaim·Ryan·traição·consentimento·terapia de conversão
Transcrição83 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
GRGeorge Ricardo Guariento

Alô, alô, nerd! Eu sou Jorge Ricardo e esse é o Conexão Geek, o seu nerd service semanal. Aqui no CG você vai ter a tradicional análise com toques de discórdia e muita cultura pop. Mas antes de começar, eu queria pedir um favor pra vocês, que avaliem esse podcast na sua tocadora de podcast predileta. Se possível, deixa aquelas 5 estrelinhas marotas. Vocês podem também seguir o CG, assim você recebe uma notificação toda vez que a gente lançar um episódio novo.

MMMatheus Marques

Você viu alguma coisa que se pareça comigo? Não chegue perto. Isso acontece quando não tem mais ninguém por perto. Nada pode fazer isso parar.

GRGeorge Ricardo Guariento

Por causa disso, eles vão matar mesmo.

MMMatheus Marques

Eles queriam Eles queriam que a gente tivesse medo.

GRGeorge Ricardo Guariento

E a gente vai falar hoje aqui no CG de Levíticos. O filme acompanha Naim e Ryan, dois adolescentes que vivem em uma pequena comunidade australiana extremamente conservadora. Os dois começam a desenvolver uma relação escondida, só que quando esse relacionamento é descoberto, a comunidade decide que eles precisam ser curados. Eles são submetidos a um ritual religioso que deveria eliminar aquilo que os adultos consideram errado. Só que alguma coisa dá muito errado ou muito certo.

Uma entidade passa a perseguir os garotos e existe uma regra especialmente cruel: ela assume a forma da pessoa que cada um deles mais deseja. Então, Naim olha para o monstro e pode enxergar Ryan. Ryan olha para o monstro e pode enxergar Naim. E a partir daí amar alguém significa também correr o risco de não saber se está diante da pessoa que ama ou da criatura que quer matá-lo. Vamos lá partir para as nossas primeiras impressões, Teteu, sem spoiler, meu caro.

Que que você achou desse filme aí, cara? Aliás, uma indicação aqui, né, o filme foi uma indicação do nosso amigo Léo, a nossa Poké predileta aqui do CG.

MMMatheus Marques

Léo, acho que esse filme conversa demais com o Léo, cara, porque a gente vai falar aqui, né, com mais detalhes, né? Mas acho que esse é o filme dele, né? O filme dele do ano aí. E, cara, mais um, mais um, mais um filme aí do cinema australiano, né, cara? Quem aí conhece o Fale Comigo, né, que a gente falou aqui uns anos atrás, já vai ter continuação também, né? O Viagem ao Inferno também, né, que é o Wolf's Creek, né, que é um filme clássico aí de terror australiano também, né, cara?

O cinema australiano, ele tem essa cara, né, cara? Ele é bem, ele é bem cru, né? Na verdade, se você parar pra pensar, ele até parece muito com o cinema brasileiro, né, cara? Ele Ele traz muito, muita característica mesmo de ter esse roteiro mais claro, sabe? Mais visceral, mais cruel.

GRGeorge Ricardo Guariento

É o Que Horas Ele Volta de terror, Matheus?

MMMatheus Marques

Basicamente, Jorge, é o central do Brasil de terror. Eu ia falar Tropa de Elite, mas Tropa de Elite meio que é um filme de terror de certa maneira também, né? Mas, cara, ele é bem cru, ele é bem visceral, né? Ele é totalmente o filme Corrente do Mal, né? O It Follows de 2014, né? Né? Só que aqui com uma outra, uma outra repaginada, né? Com outro estilo, né? E traz aqui o Joe Bird, né, que tava no Fale Comigo também, né? Ele era um molequinho bem mais jovem.

Aqui no Levíticos ele já tá um pouco mais velho, né? Moleque que não é, que nem é australiano, né, cara? Mas ele, mas ele manda bem, né? Ele manda bem. E, cara, é um filme honesto, sabe? É um filme honesto. Não é tipo uma obra-prima, eu não achei ele maravilhoso assim, incrível. Até porque não é uma ideia tão fresca, né? Esse criatura, o contexto religioso a gente vê muito em livros de Stephen King e muitas histórias também, né?

E o, e a criatura em si, né, cara, é um, é um tipo de poção demoníaca que já é manjado, mas funciona, cara. Aqui, aqui eu acho um filme bem, bem legal, sabia? E uma hora e meia, cara, esse diretor ele fez um milagre, viu? Eu acho, cara, porque aparentemente é uma, é a primeira É a primeira, tipo, eita, agora eu que embananei tudo, Jorge. É o primeiro trabalho do diretor, né, do Greg McLean, né? E cara, ele mandou muito bem, né, cara? Ele mandou muito bem.

GRGeorge Ricardo Guariento

Cara, pra dar início aqui minhas primeiras impressões, Teteu, eu acho que eu gostei um pouco mais do que você, assim, pelas nossas conversas em off. E tem uma coisa que ficou na minha cabeça, né? Eu assisti um filme um dia antes que era mais ou menos assim a mesma proposta, digamos, de de ser nichado, né? Era um filme de terror com protagonistas que era um casal gay, era dois homens também, eram adultos já, tudo bem. Mas é o filme, acho que se eu não me engano chama Engolidos, alguma coisa assim.

E é basicamente uma história de terror onde uma mulher lá que é traficante manda esses caras engolirem drogas para eles terem que cagar a droga depois. Só que são parasitas meio mutantes que estão dentro deles, na verdade não são drogas. E aí, cara, o filme Cai num clichê. Eu tô falando um pouquinho dele só para vocês entenderem o que eu quero dizer com Levíticos. E eles passam o filme inteiro fazendo os caras enfiarem a mão no cu um do outro para tirar essa merda, entendeu?

Você entende como isso é desrespeitoso? E como, por exemplo, se fosse um homem e uma mulher, eles não fariam isso. Eles dariam o jeito de procurar laxantes, sei lá, tem um milhão de jeitos de tirar isso do rabo um do outro, mas eles decidiram porque é um casal gay, desrespeitar com essa coisa de sexo exagerado. E aí que eu acho que Levíticos, eu acho que encontra um respeito a esse casal LGBT, apesar de ser uma coisa meio grotesca no sentido de demonização religiosa, né?

O filme trata esse casal como alguma coisa que a cidade abomina, mas não tem nada, é um relacionamento normal, é um relacionamento que você já viu entre menino e menina, entre menina e menina, entre menino, é um relacionamento jovem, adolescente ali, descobrimento né, Matheus? Então eu acho assim, nesse sentido, eu acho que o ambiente é muito natural. Eu nem sei se eu consigo chamar isso aqui de um filme LGBT, entendeu? É só um filme sobre um casal que por acaso é gay, né?

MMMatheus Marques

Não, não, na verdade o approach, né, a perspectiva nesse começo é bem Heartstopper, né, muito, muito. Ele só quer mostrar o relacionamento e assim, isso é muito legal, né? Ele trata como um relacionamento normal, igual você falou, né, cara? Você não tá acompanhando tipo um romance gay, você tá acompanhando o romance do Nine e do Ryan, sabe? Não tem, não tem porquê, tipo, ele não pega muito nesse aspecto, né, cara? São moleques normais que têm problemas normais de escola, cara.

Só que assim, o grande ponto de terror, né, que eu acho que é a grande sacada do filme, que é o ponto mais interessante, cara, é realmente o quanto que as pessoas que estão sozinhas, né, cara, elas são alienadas, né, cara, com seja com uma sociedade, com religião, né, cara. Eu morei numa cidadezinha pequena, cara, muito tempo da minha vida, assim, muito tempo, metade da minha vida eu morei numa cidadezinha com 10 mil pessoas. E, cara, é o mesmo sentimento, sabe, no sentido de que você meio que é obrigado a ir à igreja, você é obrigado a ter esse tipo de relacionamento católico bonito, sabe, você tem que mostrar muito.

E a mãe deles, né, a mãe deles, a Dona Eileen, né, cara, Ela tipo, ela encarna muito isso, né? Ele, ela comenta, né, que eles viajaram já mais de uma vez. Daí, e aí o Nine não é nem que ele é tipo esquisito por ser um menino gay numa cidade pequena, né, cara? É porque ele tá sempre mudando, né? Então ele não, ele meio que é a criança nova, né, cara?

GRGeorge Ricardo Guariento

Então ele não cria raízes, né?

MMMatheus Marques

Pô, cara, você adolescente, você se muda, você muda de cidade, cara, você não conhece ninguém, você perdeu seus amigos, cara, é uma porcaria, sabe? E aí já tem essa carga, né? E o Nine mesmo, ele é um moleque muito esquisito assim no No sentido de que ele não faz muitos amigos, né? Tipo, ele não conversa direito com as pessoas. Eu gosto muito dessa representação exatamente porque ele não é 100% moleque legal também, né, cara? Ele caguetou, ele caguetou os moleques porque tava magoado, sabe?

GRGeorge Ricardo Guariento

É, vamos falar disso depois.

MMMatheus Marques

Isso eu acho muito legal, cara, porque faz ele ser crível, faz ele ser só um moleque, tipo um moleque adolescente que tem suas falhas, né? Então isso pra mim é sensacional pra um filme de terror, cara. Fazer a gente se importar com, com, com as crianças, sabe, com as pessoas que a gente tá vendo.

GRGeorge Ricardo Guariento

Teteu, acho que a, a primeira coisa que a gente tem aqui pra discutir mais amplamente, pra mim, é essa ideia do filme de justamente na criatura, né, de, de como ele retrata essa criatura. Porque o monstro não tem uma aparência própria, como a gente já disse aqui na, na, na introdução. Ele precisa assumir a aparência de alguém desejado. E isso aí muda um pouco a lógica do terror, né? Normalmente o monstro representa alguma coisa que o personagem teme.

Aqui é o meio que contrário, ele representa alguém que você quer é muito perto. Então tipo, ele inclusive em vários momentos no filme, esse monstro ele induz as crianças a ficarem mais perto. Elas nem querem. Ah não, é melhor a gente ficar separado. E ele vai lá e seduz e fala aqui no ouvido, né? Ele às vezes a gente até se coloca no lugar e fala, cara, como você é burro, tá na cara que não é o cara, tá ligado? E ele vai lá e consegue convencer o cara, né? Como que você viu essa criatura, cara? Que é meio Fallout também, né?

MMMatheus Marques

Um pouco diferente, mas Ela é um pouco mais—

GRGeorge Ricardo Guariento

tô aqui, mano, pode falar.

MMMatheus Marques

Ah, tá, beleza, que é que você travou. Porque não, então voltando, né, a criatura do It Follows, né, ela é meio que uma possessão demoníaca sexual, né, cara? Ela tá totalmente ligada ao sexo, né? Aqui o Leviticus, ela tá ligada ao sentimento, né, cara? No começo do filme, né, você descobre que uma menina que é uma menina lésbica até, né? Ela tava com uma relação com uma outra menina, né? E aí ela tava vendo a pessoa que ela gostava, né?

E aqui no Levíticos, né, ele traz muito disso, né, cara? Só que tem um que é mais, né? Porque no It Follows, né, no Corrente do Mal, não parece ter um problema assim mental envolvido, né, cara? Aqui realmente parece que a criatura ela tem maneira de controlar as pessoas, sabe? Talvez porque são pessoas mais novas, né, tipo, que são adolescentes mesmo ali com seus 16 anos, né. Mas, cara, toda vez no começo eu tava bem incomodado, eu falei, cara, é óbvio que não é, não é a porra do Ryan, é óbvio que não é a porra do Hunter, né, e não é a porra do Ney.

Mas depois, né, cara, você vê que é quase como um transe, sabe, é quase como realmente um artifício de harpia assim, né, de sirene, né. O Jorge me corrigiu no programa lá de da Odisseia, né? Porque eu tava falando sirene, mas a palavra correta é sirene, né? É meio que o encanto mesmo, né, cara? E é bem legal, né? Porque a criatura, ela tenta, ela tenta tipo agir sexualmente, só que ela também tenta te matar, né? E se o sexo ele for, ele for tipo recíproco, né, cara?

Ela, ela dá uma parada nela, ela baixa a guarda, cara. E ela tem uns comportamentos diferentes da criatura do do It Follows, Ando Com a Gente do Mal. E eu acho legal, cara, isso eu achei muito legal, sabe? Especialmente apesar de ser meio óbvio, né? Meio que justifica a incapacidade dos personagens de algumas maneiras, né?

GRGeorge Ricardo Guariento

Mateus, uma outra coisa que eu queria muito discutir é sobre esse padre aqui calvo, cara. Primeiramente, como alguém confia num padre calvo que tem tatuagem no dedo? É muito difícil para mim ser crível isso. Mas tem algumas coisas aqui que eu acho interessantes. É, primeiro, esse cara, quando ele faz esse ritual e tal, eu sinto a impressão de que a sociedade inteira, os adultos, parece que eles também ficam um pouco enfeitiçados, sei lá, porque parece que ninguém tá percebendo o que tá acontecendo.

Tem um outro garoto que morre, que arrancam a cabeça dele, e cara, eles agem como se não tivesse tido nada.

MMMatheus Marques

Ninguém liga isso ao ritual, com uma exceção do pai, né, que eu acho que é um dos únicos momentos aonde as figuras paternas e maternas do filme são lúcidas, né, cara, que é quando Quando o pai tá chorando porque o filho morreu, sabe? E aí tem o questionamento, né, cara, que ele queria só o filho dele, independente dele ser gay ou não, sabe? E isso pra mim é um momento onde o filme pra mim ele dá uma brilhada, cara, porque assim, a gente já viu muitos romances acontecendo em tela, né, cara?

Mas você abordar tipo essa perspectiva paterna de um jeito realista, sabe? É muito mais desconfortável, cara. Puta merda, cara. Eu, que assim, para mim a grande vilã do filme é a Arlene totalmente, né, cara? É a mãe do, a mãe do Ney, né, cara? Mas é muito louco, vagabunda. Nossa, porra, mas é muito louco, né, cara? Você ir acompanhando, é, você vê esse ritual, né, cara? Porque ele é um ritual que ele não é muito gráfico, né, Jorge?

Os moleques só parece que estão tendo espasmo e vomita, né? Mas, mas do mesmo jeito você entender que todo mundo ali em volta convive com isso, né?

GRGeorge Ricardo Guariento

E sabe o que eu fiquei em que pensou, Matheus? É, sei lá, é conhecendo o pouco que eu conheço, claro, mas eu olhei depois um filme que tinha um ritual xamã, tá ligado? E parece o mesmo ritual, só que eles colocaram uma roupagem meio evangélica gospel, tá ligado? Parece que ele— porque é um bagulho muito aleatório, não tem, não, eles não bebem nada, não tem um símbolo específico que ele utiliza, né? Tipo uma cruz, alguma coisa que ele utilize.

Ele simplesmente, ele simplesmente recita palavras proibidas. É basicamente um Evil Dead, tá ligado? Ele falou as palavras, ele tem o conhecimento das palavras, e isso torna esse cara um cara quase intocável, porque ele é o único que detém esse conhecimento. E ele inclusive diz, né, é para mãe do Naim: ah, ele me disse que não tem como reverter. E todo mundo acredita e acabou. Isso me irrita também, cara. Porra, não é porque o filho da puta que fez a macumba disse que a macumba não tem como reverter que não tem. Tem que encontrar alguém que tem conhecimento, né, mano? Você não concorda?

MMMatheus Marques

Mas sabe qual que é o ponto? O ponto não é sobre poder reverter ou não, cara, é sobre ela saber que não pode.

GRGeorge Ricardo Guariento

Sim, não, isso é cruel.

MMMatheus Marques

E aceitar, cara.

GRGeorge Ricardo Guariento

Ela sabia o que tinha, o que ia acontecer, né, cara?

MMMatheus Marques

E assim, e aí ela ainda fala, né, que é um discurso muito pesado, que eu acho, cara. Ela vira e fala que a gente tem que viver com medo mesmo, né? A gente vive com medo porque medo faz a gente sobreviver. E, cara, é isso que você fala para o seu filho, 16 anos, cara? A gente não sabe o que aconteceu com o pai do Nine, né? Não sabe se ele abandonou ela ou se ela nunca quis ter mãe, ou se ela chamou xamã para ele, né? Não foi ela que chamou xamã, né, cara?

GRGeorge Ricardo Guariento

Não, para o pai.

MMMatheus Marques

Ah, para o pai, é verdade, né? Tem aí, ó. Mas isso é uma história que o filme não quer contar, né? O filme não aborda muito nenhum pai do Nine, né? A gente não sabe se eles terminaram bem ou se ele mesmo parece muito com o pai, sabe? Porque tem esses pontos, esses aspectos, né, cara? Aspectos psicológicos, né, de maternidade também, né, gravidez psicológica mesmo. A gravidez psicológica não, né, tipo, é depressão pós-parto, né, cara.

Tem muitas situações aonde os pais, né, é mais comum com homens acontecer, né, tipo, eles terem uma certa ojeriza se o filho é menino, sabe, e ou se a criança que ele tem é rei também. É, tem muito aspecto psicológico para falar disso, né, cara. Mas aqui a mãe do Nai, cara, é uma pessoa extremamente cruel, cara. Extremamente tipo quer viver de aparência, sabe? E aí o filho dela não se dá bem com ninguém, cara. E tem uma cena que para mim parte muito do meu coração, que é quando depois que ela fez o processo de convergência, né, Jorge, que chama ritual de convergência, que é conversão, eles falam, né?

No inglês ele fala convergência, mas de qualquer maneira ela faz ritual e o moleque tá tipo, sabe, quebrado, cara. E ela vem oferecer comida para ele, tipo E volta um pouco aquele cuidado de mãe. Ah, eu tirei a azeitona porque você não gosta. Mas, cara, o moleque tá totalmente irresponsivo, sabe? Eu lembrei muito de casa de lobotomia, né, que a gente tinha muito ali nos anos 40, 50, né, cara, que as pessoas tratavam pessoas com problemas mentais desse jeito, né, cara.

Era muito, muito cruel, é muito cruel, extremamente cruel. E essa comunidade toda, né, cara, o que leva também a uma outra cena, né, com com uma outra, com outra personagem, né, que a menina lá, que é a Izzy, né, que é irmã do Hunter, né, que depois que o filho morreu, ela começa a conversar, né, falar com eles. Ah, ah, tem, tem, eu encontrei o xamã, né, eu encontrei o, eu encontrei o pastor, né, eu vou levar eles até vocês, até eles.

E aí ela leva para os moleques serem linchados, sabe, por outros moleques, cara. Eu, caralho, mano, tipo, foi uma cena que me pegou muito desprevenido. Só que aí Aí, aí, para mim chega o momento onde o filme ele fica um pouquinho mais fraco para mim, né, cara? Porque não acontece nada com essa situação, cara. Pô, cara, é uma cena extremamente perigosa, cara, extremamente difícil, sabe? É tipo uns 8 moleques, todos com pedaço de pau, eles começam a bater, a bater com pedaço de pau no Ryan, e ele só tipo cortou um pouquinho a boca, sabe?

GRGeorge Ricardo Guariento

E aí, e a menina grita, bate na cabeça, cara.

MMMatheus Marques

Não, então, então, mas aí é que tá, né, cara? Aí Aí eu acho que foi um pouco— se o escalonamento da situação fosse— se era para ser tão grave assim, tão extremo, mostra alguma coisa, né? Ou não tem essa cena, cara, porque essa cena, beleza, tipo, dá para falar que é para mostrar que a menina ficou chateada, né, ficou brava porque era o irmão dela. Cara, não teve payoff, sabe, essa cena? Ela só falar para parecer que vai te chocar, mas no fim das contas não te entrega nada.

GRGeorge Ricardo Guariento

Eu entendi de outra forma, sabia, Matheus? Eu interpretei de uma outra forma. Eu interpretei porque assim, essa cena ela vem decorrente de uma outra cena que vem antes, que é a cena do ônibus. Ele primeiro, o Naim primeiro tenta pedir socorro pra mãe, a mãe meio que caga pra ele, fala que vai sair, deixa ele sozinho. Ele pede pra não deixar ele sozinho porque vai acontecer alguma coisa e ela não ouve. Aí ele tem aquele incidente com o moleque tentando entrar na casa e ele sai de novo.

E aí a gente entra nessa cena que Ela, eles finalmente acham que vão conseguir alguma ajuda, mas essa menina leva eles pra uma armadilha. E eu acho que é uma crescente deles vendo que não tem mais pra onde fugir. É, literalmente não tem nada, não tem pra onde ir, não tem como fugir. E isso converge um pouco com o final pra mim assim, sabe? Porque no final a gente até conversou, mano, mas eles decidiram ficar juntos. Não, eles decidiram, eles desistiram de fugir, tá ligado?

Não tem pra onde fugir. Eu acho que, eu acho que essa cena ajuda a construir essa ideia, sabe? De que a cidade inteira virou as costas pra eles, que se eles aparecerem sem cabeça no outro dia, uma, alguém vai chorar, mas o resto vai seguir em frente e fingir que nada aconteceu, sabe?

MMMatheus Marques

Olhando dessa maneira, eu acho que até melhor um pouco sim, cara, porque é realmente, eles são realmente ostracizados, né, cara? É igual, é igual tipo supostamente o Ryan, né? Ele tinha desaparecido na cena final do filme, né? Só que aí você, a gente vê que não, né? Tipo, a gente vê que ele tá fugindo mesmo e E era isso, sabe? E realmente você vê que quando as pessoas estão buscando, né, o corpo, né, cara, você vê que elas procuram por uns minutinhos e fala: não tá aqui não, tá bom, gente, deixa para lá, vamos embora, sabe? É muito bom, é muito, é realmente, eles são muito deixados de lado, né, cara?

GRGeorge Ricardo Guariento

E a cidade tá doente. É que você citou em off, Matheus, Silent Hill. Para mim é bem isso, a cidade também tá doente ainda.

MMMatheus Marques

Não, totalmente, cara, totalmente, cara, porque poxa Realmente é uma crítica fácil, né, para falar que as pessoas que estão com a Marvel, né, porque são queer, elas vão sofrer muito, né, cara. Mas acontece, cara, com muita gente, né, mano. Muita, pô, Jorge, aquele, uma pessoa de escola que você via que sofria bullying. E assim, bullying na nossa época era um pouco mais pesado, na sua época mais do que na minha ainda, né. Mas sabe, cara, eu acho que muito pior do que ter esse bullying é ter esse isolamento, né.

O Ney não tem amigos, cara. O único amigo dele, tipo, é esse romance que ele tem com Ryan, né, cara? E ainda assim, né, tipo, é uma coisa meio hostil, sabe? Eles não se falam na escola, eles não conversam, sabe? Eles não são amigos, na verdade, né? Eles vêm a ser amigos um pouco depois, né? E eu acho muito, muito, de novo, cara, falando cruel demais, porque, mano, tudo é muito ruim, sabe? O único ponto de apoio que ele deveria ter com a mãe dele, cara, ele não tem.

Porque o que a mãe dele é aquela, é o tipo de pessoa que tem todas as respostas, né, cara? Ah, você tá assim porque você não faz amigos. Ah, você tá assim por conta disso, por conta daquilo. E nunca dá uma solução para ele, sabe, cara? Faz o teu. Eu ri muito com a cena. Faz, você vai fazer o seu jantar. Pô, moleque tá coberto de sangue, sabe? O moleque tá todo machucado, cara, e ela tá falando de janta, mano. Porra, você olha para o teu filho, sabe?

Olha, olha como é que ele tá. E esse que é o Esse que é o ponto do filme, cara, que mais me pega, sabe? É o quanto que, quanto que você consegue ignorar é o seu filho sofrendo, sabe? O quanto que você consegue é ignorar que essas situações não fazem muito bem, né?

GRGeorge Ricardo Guariento

Você tem o meu chatbot aqui, me alertou de uma coisa que eu, uma bola que eu comi aqui sobre o filme. Eu falei sobre o ritual e na verdade eles dão uma dica assim de algum, de algum elemento que tem sobre esse ritual, que é o fogo, cara. Inclusive é uma dica que Então assim, mas inclusive é uma dica que eles dão para depois. Eu não sei, ele acha que ele até não usou isso direito, né? Mas o Naim consegue ferir a criatura com fogo.

Eu não sei o quanto isso é útil, mas teoricamente ele fala, né, um fogo para acender e um fogo para apagar, alguma coisa ele fala assim durante o coiso, né?

MMMatheus Marques

Todo o processo, né, o processo de invocar esse demônio, né, talvez, né? Porque assim, o que o filme deixa claro, né, gente, que esse demônio em questão na verdade não é exatamente um demônio, né, cara? Ele, dado as circunstâncias religiosas, dá até entender que possa ser uma coisa tipo um anjo, tá ligado? Porque assim, é um padre, tem toda a estética católica, eles fazem isso numa igreja, sabe? É tudo dentro de uma igreja. E seguindo a Bíblia, né, é uma abominação religiosa voltada para sexualidade, sabe?

O crime em Levíticos é o não é nem o sexo, cara, é o amor, sabe? É o amor proibido, né? E aí você tem essa dicotomia assim, né, de duas coisas, né, cara? De acender o fogo, apagar o fogo, abrir uma porta, fechar uma porta. E o filme brinca um pouco, né, com céu e inferno. E falando nisso agora, me leva a crer que a criatura em questão ela possa ser um anjo mesmo, sabe? Alguma coisa que a gente julga como positivo, mas não é, né, no fim das contas.

GRGeorge Ricardo Guariento

Eu até acho, Matheus, que é porque essa ideia é meio assim, ah, quem está fazendo o bagulho, se fosse um macumbeiro é do mal, se é um padre a gente intui em dizer que é do bem, sabe? Mas eu acho que a intencionalidade e o desconhecimento das pessoas é que leva a gente a essa racionalidade, bem e mal. E aí, cara, eu até digo, será que essa macumbinha, se eu colocasse aqui entre um homem e uma mulher para ir, porque fica meio subentendido pra mim que na verdade ele quer inibir o desejo, aquele desejo específico do momento.

Se eu colocar um homem e uma mulher ali e fizer a mesma macumbinha, será que não vai dar na mesma merda? Ou será que o demônio— ou será que é um demônio que consegue cheirar sexualidade, tá ligado?

MMMatheus Marques

Não faz muito sentido. É engraçado você falar isso, mas o filme dá a entender que é exclusivamente homossexualidade mesmo.

GRGeorge Ricardo Guariento

É, ele dá a entender porque o cara só faz com isso, né?

MMMatheus Marques

Não, é porque no começo do filme, né, tipo, a outra menina que ela trabalha lá na piscina, né, Ela é salva-vidas, né? Ela tinha uma namorada. E aí acontece a mesma coisa com ela, né? Ou esse ritual, ele não cheira a sexualidade, mas ele é feito só com pessoas gays, tá ligado? Exatamente.

GRGeorge Ricardo Guariento

O cara que faz é homofóbico, né? Tipo, o padre é homofóbico.

MMMatheus Marques

Não só o padre, mas a cidade inteira, né, cara? E é foda, cara, porque o processo todo parece doloroso, né? As crianças ficam muito mal depois. Mas, cara, é legal, é legal ter essa, ter essa, esse questionamento, né? Porque no It Follows, né, no Corrente do Mal, aquilo dali é uma, é uma, uma doença sexualmente transmissível, né? A doença sexualmente transmissível é um demônio, mas ela é uma doença sexualmente transmissível. Aqui, cara, é um pouco diferente porque assim, você busca, não é você que busca, sabe? É forçado em você, né, cara?

GRGeorge Ricardo Guariento

Verdade, isso é imposta, né?

MMMatheus Marques

É uma coisa sexual, mas é tudo consentido, né, cara? Aqui não, né? Aqui obrigaram, colocaram isso obrigatoriamente nele, sabe, cara? É bizarro.

GRGeorge Ricardo Guariento

E é muito interessante de falar disso, né? O filme até eu acho que ele erra um pouquinho em não falar muito sobre consentimento, né? Ele não toca muito nesse ponto de pensar que essas crianças foram violentadas, né? Eles foram obrigados a passar por esse processo de conversão que eles não queriam. E aí a gente tem que entrar um pouco aqui, Matheus, eu acho que para falar sobre essa questão mais religiosa, né? O título não é por acaso.

Levíticos remete diretamente ao livro bíblico associada às passagens que historicamente foram utilizadas para condenar relações entre pessoas do mesmo sexo. E o filme coloca essa referência no centro da própria história. A comunidade usa uma interpretação religiosa para justificar o controle sobre os garotos. Existe um ritual, existe uma autoridade espiritual, existe um discurso de cura, e existe uma comunidade inteira participando e permitindo aquilo.

Então eles encobrem, eles passam pano mesmo. Só que eu acho importante separar, acho que duas coisas. Uma coisa é a fé é, e outra coisa é usar uma interpretação religiosa como instrumento de controle. E eu acho que o filme tenta, é, tenta colocar essas duas coisas dentro de uma mesma caixa, porque essa comunidade, como o Matheus falou, ela é uma comunidade que é muito estranha. Porque assim, não tem ninguém que diga, não, isso tá errado, cara.

Não, o pai chega mais perto ali, como o Matheus falou, porque ele chora e tal, mas ele chora a morte. Ele não pensou, será que tá se sentindo culpado? Será que ele só, ele acha que é melhor o filho morto? Como muita gente diz, prefiro meu filho morto ao meu filho namorando um cara, sabe?

MMMatheus Marques

Não, o Jorge, ele fala, não, não, ele assim, tá te cortando, mas ele fala, ele fala que só queria o filho dele de volta. Ele se arrependeu, cara, mesmo sabe do que ele fez. Não foi, não foi uma coisa tipo assim, ah, eu estou chorando porque, porque ele morreu, ou é realmente um arrependimento pelo, pelo processo mesmo, né, cara. E é que você tá falando de igreja, né, cara. E de novo, né, eu dando a carteirada aqui porque eu morei numa cidadezinha pequena, sabe, cara.

O pessoal é assim mesmo. O pessoal é assim mesmo, você não tem espaço para questionamento, cara, na comunidade. Ou você fica quieto ou você faz parte. Não tem, não tem essa, sabe, tipo, de você não concordar, né, cara. Se você quer ser ostracizado, cara, você quer ser tipo a pessoa estranha que não tem amigos na cidade, você tem que escolher, sabe. E é meio que a escolha que a mãe dele faz, né, cara. Ela só, ela só aceita, tipo, que é o preço que ela vai pagar para o filho dela, é para o filho dela, tipo, ser aceito na sociedade.

Para ela talvez também ser aceita na sociedade, né? Até porque ela reitera muito o ponto que eles já estão indo embora várias vezes de vários lugares, sabe? Tanto é que é muito surreal isso, né, cara? Tipo, chega uma hora no filme que o Ryan fala, vai embora daqui, né? Vai embora dessa cidade. E ele fala, eu vou embora mesmo. Só, cara, ele não vai embora, cara. É um moleque de 16 anos sem trabalho, sabe? Não vai, não vai dar certo, cara. Não é assim que funciona.

GRGeorge Ricardo Guariento

A vida real não é assim.

MMMatheus Marques

É, cara, a vida real não é assim. Eu até gosto muito de como eles tratam, né? Porque o máximo que eles vão é na cidade do lado, né, cara? O máximo que eles conseguem fugir é na cidade do lado, sabe? Não tem, não tem muito, muito para onde ir, né, cara?

GRGeorge Ricardo Guariento

Tem uma outra coisa, Matheus, que eu queria trocar ideia, que é assim, é uma parte que eu acho que é importante do filme, que é como desenrola o no começo disso tudo, é para os nossos protagonistas, né? O Ryan, ele é um cara um pouco, vamos dizer assim, ele não, ele é meio livre demais, né? O Naim, ele tá vivendo o seu primeiro amor ali. Já o Ryan é aquele cara mais experiente, um pouco assim, um adolescente que já tem a sua sexualidade mais descoberta e tal.

E ele, depois do Naim, ele se envolve com outro garoto. E é isso que desencadeia a merda, porque o Naim, para tentar acabar com esse relacionamento, né, esse trio, ele resolve contar para os pais do garoto que isso tá acontecendo. E aí é onde surge o pastor lá que começa a fazer a feitiçaria toda. Então quem foi o mais filho da puta, Matheus? Quem traiu? O Ryan? O Nain, que cagou em todo mundo? O outro que traiu, cara? Quem que você acha que foi o mais cuzão?

MMMatheus Marques

O maior filho da puta é o Nain, cara. Porque assim, ele não sabia, né? Não, ele não sabia. Mas cara, o Ryan deixou bem claro que eles não— ele só era só uma ficada, sabe? É só um lance, cara. O Ryan não tem— o Ryan, ele gosta do Nain, né? Tanto é que é o que ele vê, né, quando o bicho vem. Mas ele fala pro Nain, cara, isso daqui não dá certo, sabe?

GRGeorge Ricardo Guariento

Uma coisa, Matheus, só te cortando só pra mim não esquecer. Quem você acha que o Ryan vê? Porque não mostra.

MMMatheus Marques

Não, mas o Ryan fala que ele vê o Nain, cara.

GRGeorge Ricardo Guariento

Ele fala, mas será que aquela parte do que eles estão mexendo com, que ele tá mexendo com umas roupas lá e eles estão tacando pedra um no outro, isso era uma coisa do Nain?

MMMatheus Marques

Olha aí, ó, o detalhe da hora aí, né, cara? Essa parada de tacar pedra um no outro é do Hunter, né?

GRGeorge Ricardo Guariento

Então isso, né?

MMMatheus Marques

Talvez o Ryan não tivesse sido muito honesto com ele, né, cara?

GRGeorge Ricardo Guariento

Porque não mostra, né? Será que não é de propósito que não mostra, né?

MMMatheus Marques

É, cara, não mostra. E assim, eu acho muito acertado não mostrar, né, cara? Mas, cara, o Nain é o barulho da puta, cara, porque assim, o Ryan deixa claro que eles não têm nada. E o Ryan, cara, ele é aquele moleque que tipo ele também escondeu, sabe? Ele tenta, ele é um menino gay, mas cara, ele não quer ser exposto, sabe? Ele não quer ser exposto tipo pela comunidade, por isso que ele fala para manter as coisas no sigilo, né, cara, em segredo, né?

E aí o Nain, ele é um moleque invejoso mesmo, né, cara? Ele é invejoso. Se ele não entende como que o cara não gosta dele ou que ele não quer isso, cara, por que que ele foi se meter, né? Porque no fim das contas ele agiu exatamente igual a mãe dele, sabe? Ele foi, ele foi, ele foi, ele quis impor o desejo dele em cima do outro, de outra pessoa, né, cara? Aí a gente tava falando do filme não falar de consentimento, tá aí, ó, ele falou de consentimento de certa maneira, né?

E como quebrou o consentimento do Ryan e do Hunter, né, cara? Só porque ele tava tipo com inveja de uma coisa que já foi tecnicamente conversada entre os dois.

GRGeorge Ricardo Guariento

É, exatamente. E aí vem, vem a parte que eu acho que conversa muito com esse distanciamento dos adultos e tal, que é depois que ele faz essa merda. E eu concordo, eu fiz um suspense, mas eu concordo com o Matheus, eu acho que o Nain é o grande cuzão do filme. E quando o Nain tenta, depois disso tudo, é procurar um adulto responsável e tal e falar o que tá acontecendo, obviamente ninguém ia acreditar. Primeiramente, né? Mas depois tem uma coisa que é mais assustadora, né, Matheus?

Porque você pensa, caralho, ninguém acredita nos jovens. Só que depois você percebe que eles acreditam, eles só não ligam, cara. A fala da mãe que o Matheus trouxe aqui, cara, é porque a gente não consegue nem descrever exatamente como é, mas é um bagulho tipo, mãe, isso tá acontecendo, eu te juro. Eu sei, mas é melhor pra você assim.

MMMatheus Marques

Que é melhor pra você? É, a gente, a gente tem, a gente tem que viver com medo, a gente tem que viver com medo porque medo deixa a gente seguro. Cara, nossa, cara, pô, Jorge, na moral, eu assim, esse pra mim é o ponto alto do filme assim, cara, é o ápice do filme pra mim, sabe? Mas esse diálogo me pegou muito, cara, porque é a mãe dele, sabe? É pra ser o porto seguro dele. Geralmente a gente lida com familiares que apoiam a gente, né, cara?

Isso acontecer, cara, do jeito que aconteceu, é muito, foi um golpe muito baixo no filme, cara. Eu fiquei muito mal com a cena toda, eu Muito, cara.

GRGeorge Ricardo Guariento

É essa coisa da terapia de conversão e outras práticas que são destinadas aí a tentar mudar essa orientação sexual das pessoas. É um discurso que sai do ficcional, mas que ele existe aqui no mundo real também. E aí eu digo que isso diferencia um líder religioso, espiritual, como você quiser chamar, de um picareta, cara. Porque quando você quer utilizar a palavra medo para ter um controle direcional da vida de outra pessoa, de um outro elemento.

Vamos deixar bem claro, você pode pegar qualquer religião, eu não estou definindo uma aqui, mas qualquer religião que você pegar um dogma, tá ligado, por mais que ele seja abstrato ali contra relações homossexuais, cara, existem 200 mil pecados, todos eles são entendíveis de que eles são passíveis de perdão até a hora da sua morte. Mas literalmente os caras querem pegar um desejo sexual para falar que não, isso aqui tem que ser curado agora em vida, tá ligado? Tem que ser hoje, não pode ser amanhã não, Matheus.

MMMatheus Marques

Tem que ser agora, tem que ser agora. E cara, e no fim das contas é muito, é muito os pais tirando a personalidade das crianças, é dos filhos dele, para eles serem que eles querem que eles sejam, né? É, não é, não é, não é uma opção de escolha do Nain, sabe? O moleque é assim, cara, ele é um, ele é uma pessoa gay, sabe? Ele Não é questão de escolha, sabe? Ele é desse jeito, cara. E a mãe dele, tipo, ela quer mudar ele, cara. E assim, é o, é o, esse é o problema.

Eu acho que é uma coisa muito Stephen King mesmo, né, cara? O quanto que a igreja, né, ele usa especificamente igreja porque é a vivência dele, né, cara? Foi, ele viveu numa comunidade muito religiosa que tipo não gostava de nada do que ele fazia também, né? E é muito, é muito isso, né, o que que a sociedade naquele ponto quer impor, né, cara? Ela quer impor, ela quer impor que você seja desse jeito, que você se case, que você tenha filhos, que você tenha o mesmo trabalho.

É muito legal, né, você parar para analisar desse jeito, né, cara? Porque no fim das contas ela quer só que você não pense, né? A mãe do Nain, cara, ela só quer que ele viva normalmente, né? E cara, é foda, mano. Como é que fica? É porque assim, o bicho em questão, né, aparentemente ele vem por conta de tesão, né, cara? Ele vem por conta de desejo sexual, né? Se você for uma pessoa purista, se você for uma pessoa puritana, se você for uma pessoa assexuada, talvez o bicho não venha, sabe?

Ele vem em momentos específicos, né, cara? E o filme Ele traz esses detalhes e cada vez mais a gente falando aqui, cara, eu fico pensando o quão mais bizarro é, né? Porque ele vai ficando mais desconfortável.

GRGeorge Ricardo Guariento

Sim, cara, você traz um ponto aí interessante e eu também diria mais assim, tem uma reflexão sobre quem que é o verdadeiro vilão dessa história, sabe? Porque a gente tem aí um demônio que não aparece sozinho, né? Ele não vem atrás de pessoas e tal. E o próprio desejo é um bagulho que eu fiquei um pouco em dúvida de como funciona, porque tem horas que eu entendo. Por exemplo, a hora que o Nine tá em casa lá sozinho com medo e ele quer distância do Ryan mesmo, porque o Ryan até falou, se eu aparecer, não serei eu, não acredite.

Porque ele, né, ele descobre a verdade lá do que aconteceu e ele resolve ficar longe. E esse cara, essa coisa, essa criatura vai atrás dele querendo fazer ele mudar de ideia, ou seja, O ritual não é exatamente para ele se afastar, é para ele viver o resto da vida com medo de cada, de cada pessoa que se aproxima dele, cara. Porque não é só Ryan, porque eles mesmos falam, né, se você for embora você vai se apaixonar por outra pessoa e você vai começar a ver essa pessoa. Então tipo assim, é um metamorfo, bicho.

MMMatheus Marques

É, cara, eu acho que assim, pelo que dá a entender, é meio que uma conversão para celibato, sabe? Não só para, não só para, tipo assim, por homossexualidade, mas uma conversão para celibato mesmo, né? Para você nunca, nunca na sua vida ter mais uma relação com ninguém nesse tipo, né? O amor que você vai sentir vai ser apenas um amor, amor materno, amor paterno, né? Um amor entre o seu, entre as pessoas próximas de você, né? Nunca o amor romântico, né?

E é muito, cara, é cruel demais, cara, porque Porque, cara, o que eu imagino, né, até pessoas que fazem esse voto de celibato, elas têm algum tipo de desejo, né. A questão, porque o celibato assim, ele tá na escolha, né, cara, de não fazer. Ele tá na escolha de não fazer e não necessariamente no pensamento, né. O problema aqui do bicho do Levíticos, né, cara, é que ele entra na sua cabeça, né, cara. Então assim, ele tá julgando, ele não tá julgando a ação, ele tá julgando o pensamento, sabe.

Isso É muito difícil de lidar, cara. E aqui, cara, eu vou te falar que eu acho que o filme, ele teria um ponto maior, Jorge. Eu acho que ele seria um filme para mim, tipo, muito foda se nesse final, né, nessa provocação do bicho, né, que inclusive é uma outra regra, né, gente, eles falam que o bicho, quanto mais você fica perto da pessoa que você gosta, mais o bicho fica mais articulado, a criatura fica, né, ele fica melhor em te enganar, ele fica melhor em te seduzir.

E, cara, se fosse Ryan, cara, dentro ali do do lugar, cara, abandonado, tacando fogo, cara, eu acho que ia ser um final do caralho, viu? Se realmente fosse Ryan, sabe? Se realmente, tipo assim, ele tivesse botado na cabeça dele que matar o Nain, ou tivesse confundido o Nain com o próprio bicho, né, com a própria criatura, né? E aí ele tivesse tentado matar o Nain e o Nain acaba matando ele de volta, e o filme terminasse assim, cara, para mim ia ser um final que seria muito, muito incrível, sabe?

Ia ser um final extremamente pesado, né? Mas o filme, ele vai por outro caminho, né, Jorge?

GRGeorge Ricardo Guariento

É, ele vai por outro caminho. Inclusive é uma coisa que a gente falou também em off aqui, eu vou falar, dividir com vocês, que o final é depois de muito tentar se afastar e as coisas continuarem acontecendo, eles resolvem, eles se encontram num ponto onde o filme fala muito que vai acontecer, né, que é o ponto de ônibus, eles saindo da cidade. E aí os dois vão para esse lugar, pegam um ônibus junto e vão embora juntos. O Naim olha pela janela do ônibus e vê o Ryan lá olhando para ele.

Ou seja, a gente entende que isso não vai acabar, que essa coisa vai seguir eles para onde eles forem e que não tem jeito.

MMMatheus Marques

É, ou o bicho ficou na cidade, sabe? Todo julgamento, toda crueldade.

GRGeorge Ricardo Guariento

Puta que pariu, Matheus, que sacada boa, moleque! Eu não tinha pensado nisso, mas é uma boa sacada porque ele fica olhando assim como uma cara de raiva, né? Deixou para trás, né?

MMMatheus Marques

Ele ficou para trás. É, eles deixaram isso para trás, foram viver a vida deles, né, cara?

GRGeorge Ricardo Guariento

Muito otimista você, Matheus, muito otimista.

MMMatheus Marques

Mas o filme foi otimista comigo, então eu tô só devolvendo o favor, tá ligado?

GRGeorge Ricardo Guariento

Cara, eu gosto dessa ideia, não tinha parado pra pensar nela de verdade assim, não tinha feito essa reflexão, mas eu acho que talvez falte mais Matheus aí no meu coração, sabe? Uma esperança maior sobre o futuro desses protagonistas, porque talvez essa passagem seja até mais bonita, cara. Até me emocionei agora, Matheus. Pensando assim agora sobre essa coisa de...

MMMatheus Marques

É...

GRGeorge Ricardo Guariento

O que a gente precisava é ter coragem de deixar tudo pra trás, sabe? Tipo, a gente... A gente viu que a... As famílias não ligam pra gente, que a cidade tá podre, apodrecida, todo mundo aqui odeia a gente. Então, vamo deixar tudo pra trás e seguir em frente, sabe? Tipo... E essa raiva, esse ódio, essa repressão ficou lá. Olhando pra gente ir embora com raiva, mas ficou. Gosto dessa ideia, Matheus, de verdade, porra.

MMMatheus Marques

Conserta o final pra você, Jorge, ou não?

GRGeorge Ricardo Guariento

Conserta muito o final. Ah, maravilha.

MMMatheus Marques

Porque a crítica que a gente fez no off aqui da gente foi porque o final ele é muito aberto, muito ambíguo, e ele meio que não tem final, né? O filme ele só termina, né? Ele só termina com essa ida embora dos meninos, né? É o Corrente do Mal que a gente tá sempre falando, porque, gente, é o mesmo filme, sabe? É o mesmo criatura oculta sexual que vem atrás das pessoas, sabe? Ele tem uma pegada muito diferente, né? O final é meio que parecido, né?

São também eles indo embora. Só que o filme, ele faz toda uma analogia, né, com Nietzsche, né. Ele fala sobre viver, ele fala sobre a cidade, né. Porque uma outra coisa que tem, né, tem tanto no Levíticos quanto no Corrente do Mal, é falar sobre a cidade, né, cara. No Corrente do Mal, a cidade decadente, ela é velha, acabada, fodida, que é Detroit no caso, né. E aqui, cara, é meio que a mesma coisa, né, cara. Tem muitos lugares abandonados, tem pouca gente na cidade, né, cara?

É como se realmente ela fosse uma peça do passado. E assim, o filme, ele no fechamento do Corrente do Mal, né, ele aborda esse tempo, né, cara? Que dá a entender mesmo que a criatura do Corrente do Mal, ele é um bicho do passado, né? Um bicho que existiu muito tempo ali, ele tá lá e ele sempre vai estar lá. E aqui o filme, ele foca totalmente no Nine e no Ryan, né, cara? Na relação dos dois. É, eu também, na verdade, antes do nosso papo aqui, eu tava meio desgostoso com o final também, cara, mas eu consigo aceitar como esse final honesto, sabe, de que estamos aqui, não estamos mais e vamos embora.

GRGeorge Ricardo Guariento

Cara, muito bom, Matheus, de verdade, cara. Você ressignificou aí o que era o filme para mim. Parabéns, mano, você fez o filme ganhar um cafezinho para mim. Mas vamos lá, Teteu, falando em cafezinho, acho que tá na hora, mano, tá na hora da gente liberar aí a nossa força LGBT, irmão. Vamos lá, afinal, quantos cafezinhos vale Levíticos para você, Matheus? Oxe, tem café?

MMMatheus Marques

Tem, tem. Você quer uva?

GRGeorge Ricardo Guariento

Não, quero café.

MMMatheus Marques

Vale quantos cafezinhos? Pô, cara, cinema australiano, né, cara? Nova Gemas aqui para mim, né, gente? Eu, eu gosto, cara, eu gosto muito da cinematografia desse filme, cara. Ele é muito bonito, ele tem horizontes, ele tem planos abertos que são, cara, maravilhosos, sabe? E tem um shot, né, que chama magical hour, né, que é quando tá ficando de noite e você tem aquele crepúsculo bem vermelho, sabe? O filme ele trabalha muito bem com isso e trabalha muito bem com cinza, né, cara?

O filme é bem cinza. E nos poucos momentos, né, que são quentes, né, que são os momentos assim de amor e carinho dos dois meninos, né, cara, ele é muito acertado, cara. É o melhor filme desse ano? Não, gente, não é. Ele, mas ele tem charme, ele tem identidade, Cara, os meninos mandam muito bem, né, cara? O Joe Bird, né, do Talk to Me, e o Stace Clawson, né, que é o Ryan, né? Ele, eu não conheço não, não conheço a vibe do moleque, né?

Primeiro filme que eu vi dele, mas eu acho que eles mandam muito bem, cara. Eu acho que eles são excelentes, né? Eu ia dar um 3 cafés, né, porque muita coisa eu não tinha gostado, né, antes do nosso papo aqui. Mas, cara, agora eu, dado, dado tipo toda essa, esse significado novo que a gente viu, né, E pontos que a princípio para mim pareciam rasos ficaram muito mais profundos, né, cara? Eu fecho Levíticos aí com 4 cafezinhos, gente, 4 cafés para o Levíticos. Eu recomendo muito vocês assistirem porque é um filme muito legal.

GRGeorge Ricardo Guariento

TT, eu acho que você tem toda razão. Eu também tava na cabeça 3 aqui. Eu acho que você ressignificou o final aqui muito. Eu recomendo que vocês, quem viu essa ressignificação do Matheus, faça um corte aí começa a espalhar porque o Matheus vai gerar tendência aí. Muita gente deve, não deve ter pego essa sensação. Mas, Teteu, eu entendo, cara, que filme de terror geralmente, eu até falei daqui do filme do começo, eu peguei o nome, chama Engolidos, o filme que eu citei aqui no começo, que é ruim.

E eu acho que esse filme aqui ele tem uma outra, uma outra maneira de enxergar, porque nós temos um romance LGBT colocado dentro de um filme de terror, sabe? Não é o contrário, não é o contrário. Isso, a gente tem um filme de terror construído a partir experiência que ela decide discutir. E isso, cara, é muito legal porque tipo é natural, é uma forma de você discutir problemas morais de hoje, só que com uma pegada meio que assustadora assim e fazer você refletir.

Eu repito, para muita gente isso é uma realidade, cara. A gente pega dogmas e crenças religiosas e faz isso transparecer medo, sabe? É inclusive pegar, né, um versículo do Velho Testamento Testamento, é o segundo livro lá do Primeiro Testamento, cara, que é um bagulho onde, né, falava muito de ira, de vingança, de Deus como uma figura.

MMMatheus Marques

Gente, o Deus do Velho Testamento, ele é um Deus maligno e cruel, gente. Ele é um Deus que a piedade— não, gente, assim, eu tô— é engraçado falar, mas é um fato, cara. É a piedade do Deus do Velho Testamento, ela tinha que ser implorada, cara. Ela não é— o Deus do Velho Testamento totalmente diferente do Deus do Novo Testamento, que é um Deus de amor, Tanto é que tem teólogos, né, que estudam, né, que a figura que é o Deus do Velho Testamento não é a figura de Deus, no caso, né, porque os teólogos defendem como Deus do Novo Testamento como a verdadeira figura.

E enquanto do Velho Testamento ele parece muito deuses gregos mesmo, né, cara, que são deuses cruéis, deuses malignos, deuses que trazem muita, muita insatisfação na sua vida, sabe, e muita maldade.

GRGeorge Ricardo Guariento

E eu acho que o filme tem um pouco dessa discussão de gente que esquece, por exemplo, eu acho engraçado eles não falarem numa cidade tão religiosa, né, Matheus? Eles não, eles colocam Levíticos como a coisa mais importante da Bíblia e eles esquecem de todo o Novo Testamento, onde Jesus praticamente rasga boa parte do Velho Testamento, né? Ele fala, pô, isso aqui não vale mais, o que vale agora é isso aqui, ó, as novas regras aqui.

Amai uns aos outros, tá ligado? Basicamente resume o Novo Testamento. Não matarás, não roubarás, e amai uns aos outros, como a mim mesmo. Basicamente seria isso. Mas essa nova significação que o Matheus traz, que eu acho que talvez seja a coisa mais honesta e mais otimista que a gente pode ter, é que essas pessoas seguiram em frente, sabe? Independente se é certo ou se é errado, se você acha certo ou se acha errado, eles fizeram uma escolha, eles vão caminhar com isso, sabe?

Eles querem só viver em paz. É o que vai vir depois, as consequências disso, se você acha certo, você acha errado, cara, não é com a gente. Você não é o juiz do mundo. Então assim, parem de tentar ser o juiz do mundo e colocar a sua vontade sobre a vontade dos outros. Eu acho que é meio que isso que o filme traz pra gente. E por isso, eu não sei se eu falei a nota, mas eu acho que eu falei, né? 4 cafezinhos, com certeza, gente.

Mas é isso, a gente teve uma discussão aqui bem legal. Pena que o Gabi não pôde participar, né? O Gabi, que é, que é o, o padre católico aí da turma, ele não pôde participar. Talvez ele tivesse contribuições relevantes. Mas eu quero saber aí de vocês, gente, o que que vocês acharam de Levíticos? É uma discussão pertinente? É uma discussão extremamente religiosa para vocês? Vocês acham que tem uma distorção religiosa aí? Deixa nos comentários aí.

Aproveita para deixar aquele like no vídeo vídeo para dar aquela força para o CG. E a gente se vê no próximo vídeo. Um abraço e até lá!