CÉSIO 137, A CONTAMINAÇÃO RADIOATIVA DE GOIÂNIA - CHERNOBYL DA AMÉRICA LATINA - DETALHES DA TRAGÉDIA
Dois catadores de lixo descobrem um tesouro largado num prédio abandonado, em setembro de 1987, em Goiânia - GO. No desmonte de uma máquina, uma luz verde intensa chama atenção. O que para muito parecia ser a chama de Deus, era, na verdade o brilho da morte. Confira os detalhes da história do Césio 137, que aconteceu no Brasil e é, até hoje, uma das maiores tragédias radioativas do mundo. A história acab de virar série na Netflix. #crime #netflix #misterio #tragedia #chernobyl
- Acidente Cesio-137 GoianiaDescoberta da máquina abandonada · Emergência Radioativa · Vítimas e sintomas · Cadeia de contaminação e dispersão · Resposta das autoridades
- Impactos na SaudeSintomas imediatos · Amputações e necrose · Mortes relacionadas à radiação · Câncer de longa duração · Limitações reprodutivas
- Crise humanitária no SudãoFalta de medicação continuada · Abandono governamental · Luta por direitos até hoje · Sequelas físicas permanentes · Pesquisa e acompanhamento médico
- Gabinete Crise GovernamentalFalsa narrativa de vazamento de gás · Desinformação das autoridades · Falta de transparência · Proteção inadequada de funcionários · Negligência dos órgãos competentes
- Propagação e contaminação em cadeiaContato direto com o pó · Transmissão via dinheiro · Espalhamento em espaços públicos · Falta de proteção de terceiros · Contaminação de ônibus e espaços coletivos
- Desorganização InstitucionalDeixa de máquina abandonada · Falta de protocolos de segurança · Motoristas expostos sem informação · Casas destruídas e removidas · Toneladas de lixo nuclear gerado
- Preconceito e estigma sobre GoiâniaRejeição de pessoas contaminadas · Problema de turismo · Medo da população · Cortejo fúnebre com confronto · Tentativa de apagar o evento
- Energia NuclearViabilidade da energia nuclear · Alternativa limpa · Acidentes nucleares mundiais · Resíduos radioativos · Debate sobre segurança
- Fascinação por Risco e PerigoBrilho luminoso do pó · Atração pelo desconhecido · Levar para casa · Compartilhamento com família · Ignorância do perigo
- Série ChernobylAcidente de Chernobyl em 1986 · Ocultamento de informações soviético · Contexto da Guerra Fria · Nuvem radioativa · Contaminação em larga escala
- Emergência RadioativaMadame Curie · Intuição na descoberta · Primeiros estudos · Efeitos na saúde dos descobridores · Fascínio pela radiação
Setembro de 1987, Goiânia, Goiás. Dois catadores de lixo descobrem um tesouro largado num prédio abandonado. No desmonte da máquina, uma luz verde intensa chama a atenção. O que parecia para muitos ser a chama de Deus era, na verdade, o brilho da morte. Confira com o Dr. Carlos de Faria a história do Césio-137 que aconteceu no Brasil
Diretamente de um dos endereços mais famosos do Brasil, de um dos principais cartões postais da cidade de São Paulo e com as transmissões feitas dos nossos estúdios na Avenida Paulista, eu sou Beto Ribeiro e este é o Crime S.A.
que ajuda o canal a acontecer. Não sendo mesmo, está tudo legal, mas vem comigo até o final, que daí você realmente nos ajuda a fazer o Crime e Mistério S.A., Carlos. Um prazer nesse nosso especial que a gente resolveu testar aqui, além das lives. E eu achei ótimo esse tema. Esse tema do Césio foi a nossa guerra nuclear, né? Ela foi uma coisa meio depois de Chernobyl. Foi. Eu lembro dessa década de 80, que a gente tinha muito medo ainda das guerras atômicas. Eu lembro dos anos 70,
um pouco, eu era muito criança, mas eu lembro. E os anos 1980 parece que se realiza, veio aquele filme de The Day After. Isso. Foi uma segunda leva. A primeira leva foi a conquista da Lua. Aquela era espacial, nuclear e tudo mais. Aquela briga do espaço. Isso. E depois veio, inclusive, a construção da nossa usina de Angra. Então tinha um certo ufanismo em torno da...
energia nuclear. E tinha também uma alternativa limpa. A ideia da energia nuclear, Beto, foi uma alternativa limpa. E que, no decorrer de tudo isso que a gente vai ver, mundial dos acidentes, ela foi sendo esquecida. E começaram a desligar, num grande movimento mundial, de desligar essas usinas. É o nome, usina nuclear. Ela assusta. Radiação. Então,
houve um movimento muito grande. E, por incrível que pareça, hoje, decorrido 30, 40 anos disso, elas voltam à tona como um recurso para a substituição de combustíveis não renováveis, fósseis, para a queima do gás de metano, do próprio petróleo e outros combustíveis, como até o próprio álcool,
e o biodiesel, mas que envolvem queima, que, de alguma forma, tem uma emissão de carbono. Então, a usina radioativa, a usina atômica, ela tinha essa preocupação. E o Césio foi nessa esteira. O caso do Césio mostra algo que é importantíssimo sobre a usina nuclear da vida. Existe um lixo. E é um lixo que destrói tudo. Por mais que ela seja mais limpa
fazer energia, ela tem um resíduo que hoje vamos aguardar. Principalmente nessa época. Hoje em dia as coisas tendem a mudar nesse sentido, porque inclusive a nova tecnologia faz com que não se produza tanto lixo, mas nesse início, anos 70, anos 80... Mais ou menos, porque é black chain da vida, para você fazer os black chain, para você manter as nuvens, você tem uma alta necessidade de energia.
precisa de muita energia. Então, como é que você faz a energia acontecer sendo limpa? Mas, no caso do César, eu queria entrar no caso do que aconteceu ali. Eu lembro de um pavor. Nós todos ficamos apavorados. Eu lembro da capa da Veja. Eu lembro da gente não entender direito o que tinha acontecido. Imagina para quem não viveu, que tem muita gente que assistiu ao canal e não viveu aquela época. O que aconteceu lá em 1987, é isso?
Ali em Goiânia. Foi em Goiânia, exatamente. Foi o maior... O que aconteceu foi que foi o maior acidente atômico radioativo. Uma tragédia mesmo. Foi o maior acidente radioativo em perímetro urbano do mundo, para vocês terem uma ideia, para você ter uma ideia, o pessoal aí que está assistindo. E ele começa, além de ser isso,
anos antes, quando uma empresa que se chamava Instituto Goiano de Radiologia, que atendia pacientes com câncer e tudo mais, ele muda de sede e ele não é autorizado, segundo eles mesmos, a carregarem aquela máquina. É uma máquina de raio-x. E eles deixam essa máquina, não é de uma máquina de raio-x, é uma máquina que trabalha com o isótopo do Césio para tratamento radiológico
Eu tinha entendido que era... Não, não era uma máquina de raio-x. Era um aparelho radiológico. Radiológico para o tratamento de vários tipos de câncer. De radioterapia, é isso? Isso, de radioterapia com o isótopo de Césio-137, que era usado para isso. Então, a máquina fica lá. E fica lá por dois anos. E aquele prédio, ao longo de dois anos, vai se tornando abandonado.
tinha um guarda que cuidava dali, ele parou de receber o salário e foi embora. E aquilo ficou. E aquilo ficou um prato cheio para desabrigado, pedinte, mendigo e, inclusive, catadores de ferro velho que vasculhavam esse tipo de imóvel abandonado. E foi o que aconteceu. Dois anos depois, dois rapazes, o Wagner e o Roberto,
um deles descobriu que tinha essa máquina lá. E ele conseguiu, era um centro de radiologia, ele conseguiu perceber que essa máquina devia ter uma quantidade de chumbo imensa, com um valor muito legal para um ferro velho. Então, o Wagner chama o Roberto, vão até lá, pegam essa máquina, muito, muito pesada, achando que tinham ganho na loteria. E levam essa máquina, arrastam ela no carrinho.
desmontar e levam. Até aí, ok. Aqueles carrinhos de mão mesmo. É, até aí, ok. Acontece que eles chegaram no lugar que eles estavam e eles começaram a fuçar a máquina para desmontar, para ficar mais fácil vender para um ferro velho. Eles eram catadores, eles nem tinham ferro velho. E nessa história, eles desmontando a máquina, eles chegam até o coração da máquina, que era a cápsula, que continha o césio. E ali já eles começaram
começaram a martelar e ali teve o primeiro vazamento. Eles foram as primeiras vítimas. Eles romperam a cápsula e se contaminaram com o pó do Césio. É um pó bem brilhante. É um pó bem brilhante, mas, de dia, ele é um pó branco. É um pó, um talco. Então, a máquina ficou no quintal deles por cinco dias, do dia 13 de setembro, se não me engano.
do dia 13 de setembro de 87 até o dia 18. Quando eles levaram, encontraram o ferro velho do Devaí, que era por ali também de Goiânia, trataram com ele, eles levaram o pó, aliás, perdão, eles levaram a máquina, mas já tinham tido contato com o pó, e eles já estavam adoecidos, eles já estavam rapidamente, eles adoeceram, eles já estavam se queixando de náusea, dor de cabeça, visão turva, diarreia,
perda de sono, alteração de apetite, uma coisa bem intensa, rápida. A mão já estava começando a ficar queimada também. Eles também já estavam com marcas muito fortes na mão, exatamente, a queimadura. E eles levam para o Devair, o Devair paga o preço deles, e eles vão pegar, e aí já começa a contaminação espalhar, porque eles pegaram esse dinheiro. E um dos contaminantes começa nesse dinheiro.
em circulação. Você diz a nota. A nota, a cédula. Eles recebem dinheiro, já estavam ali e aquela... Vai no mercado, paga, compra... E ali já começou. Ali já começou a esparramar a radiação, porque a radiação tem essa característica. Ele é um pó muito fino, ele vai em tudo. E é muito intenso a força da radioatividade. E ela vai contaminando, e essa é uma das formas de contaminação dela, o contato.
primeiros eles chegam aí ao hospital, mas falam que eles estão só com uma infecção de comida estragada. Exatamente. Como é que você vai... Como é que não olha as mãos queimadas, gente? Então... Ninguém pensou também que ia ser uma coisa radioativa. Porque a mão também não fica queimada daquele jeito de uma hora pra outra. Não é uma queimadura de panela. Não é como você queimar no fogo. Ela começa com uma mancha, a mancha vai aumentando, vai alastrando. Então, pra quem nunca lidou, o Brasil
Nunca tinha lidado com isso. Nunca. De forma alguma. Se fazia muito protesto contra a usina de Angra dos Reis, com medo de vazamento, porque estamos em 87. Como você falou, em 85 tinha acontecido... Em 86, Chernobyl? Em 85. Em 85, chegaram em 86. Em 85, tinha rolado Chernobyl. E Chernobyl foi um escândalo, porque vai envolver, inclusive, um problema de informação, de aviso. Eles tentaram esconder,
que podiam, né? Ali, na época, Chernobyl, ali onde era ainda a União Soviética, eles tentaram esconder de tudo o tempo inteiro para o mundo. Inclusive das pessoas. Que era na Ucrânia, né? E parece que os acidentes nucleares sempre foram nesse caminho, tá? O que vai gerando também uma histeria coletiva. Ó, só uma coisa, o acidente de Chernobyl aconteceu em 26 de abril de 86. Ah, então foi em 86, perdão. Eu achava que tinha sido em abril de 85. Não, tudo bem, mas ali perto,
ali muito perto. E lembrando que ainda era uma guerra fria existida. E você não sabia exatamente o que tinha, nunca se soube na época o que exatamente tinha acontecido em Chernobyl. Hoje a gente sabe, através de filme, documentário e tudo mais, mas na época ninguém sabia. A União Soviética era fechada. Você não ouviu na época que eram os russos que estavam fazendo uma guerra nuclear no Brasil? Você não ouviu? Eu ouvi?
Você tinha a guerra nuclear, você tinha a guerra fria e você tinha o desejo da guerra nuclear. Então eu lembro de pessoas falando assim, com certeza foram esses russos que vieram para cá e querem comunizar. É uma coisa muito doida como tomava, porque foi, como você está contando muito bem e continua, foi um acidente doméstico. Foi, total, total. Uma tragédia doméstica. E ficou lá no Ferro Velho e o Ferro Velho era... Ferro Velho.
e o Devair, que era o dono, tinha os funcionários dele, tocou para desmontar aquela parafernália de chumbo. E aí a cápsula já rompida foi mais arrebentada e mais aberta. E aí, quando eles abriram a cápsula como um todo, não só um vazamento, os funcionários levaram para o Devair e falaram, olha, o que é isso? Não sei, deixou lá no depósito. Isso aqui o quê? Aquelas coisas...
Não eram aquelas bonitas, porque eles são meio brilhantes. Não, era um cilindro metálico de chumbo. Que atraía as pessoas. Que estava já rompido. Ele mostrou, olha isso aqui, não sei o que é, deixa aí, deixa aí. E todo mundo já ali no desmonte tendo contato com isso. E naquela noite vem a coisa mais mágica do mundo, que é o Devair fumando um cigarrinho numa pausa ali. Ele morava ali no Ferro Velho, era a casa dele.
o cigarro dele, contemplando a noite, ele começa a observar que, no meio das ferragens, tinha uma luz nunca vista antes maravilhosa. Você está em 1987, vale lembrar que você não tinha a luz fluorescente, como a gente tem hoje, não tinha LED, não tinha uma série de fontes luminosas que a gente tem hoje. Então, de qualquer forma,
De qualquer forma, se fosse hoje, também seria uma coisa estupenda. Chamar os olhos. Sim, porque ela irradia, fazia um lúmen. Tanto é, Beto, que ele fica apaixonado por aquilo. E aí entra a mística também, muito interessante, da radiação, da radioatividade, porque ela gera uma mística, porque ela é linda. Podia ser T, podia ser Deus, podia ser tudo.
Exatamente. E a gente volta lá para a história e vamos falar de uma personagem que eu sou completamente fascinado, que é a Madame Curie. Madame Curie, que foi a grande... A russa. Quem cria. Que descobre a radioatividade com o marido dela, o Pierre. Eles que descobrem e fazem os primeiros estudos exaustivos em Paris durante anos.
trabalharam com isso, tanto é que ela morre decorrente à exposição. E ele levava os prêmios, porque ela era mulher, não podia aparecer. Sim, mas ela foi reconhecida. E ele era um cara muito generoso como cientista e marido. Também muito inteligente. Muito inteligente, ele sempre foi muito generoso, incentivou. Eu sempre acho que aquilo lá saiu pelos dois, se não tivesse, não teria tido outro. Mas ela tinha aquela sacada, porque a gente tem que entender o seguinte, fantástica a história dela,
A descoberta da radioatividade levou muito em consideração a intuição. E, por isso, a figura feminina, ela intuiu aquela ideia. Não que o homem seja desprovido de intuição, mas você percebe que o caminhar da descoberta foi muito um processo feminino. Bom, voltando. Então, ele fica fascinado com aquela luz, e traz para casa, e chama todo mundo, e começa aquela...
E foi. Ele levou para dentro de casa, pôs na estante... Essa cápsula. Essa cápsula que vazava aquele pó, ele tirou o pó, ele brincou, ele fez... Crianças brincavam com o pó. E aí ele começou a ficar doente. Ele chegou a transar, não com aquilo, mas transar ao lado como se fosse uma... Ele enfeitou o corpo. O corpo com aquilo lá. É, foi uma coisa, teve um fascínio. Virou Deus. Virou Deus, uma fascinação.
logo ele começa a ficar doente, porque aquilo tem muita força. Ele foi com muita coisa. Ele começou a ficar doente, começou a ficar doente. Os funcionários dele também. Aqueles dois últimos. Os funcionários do Ferro Velho. Aqueles outros dois também. Porém, a radiação tem um componente muito interessante, que nesses casos ficou muito evidente. A pessoa fica doente, mas depois ela volta. Ela não fica cronicamente.
Ela cai, é como se fosse um resfriado, como que eu estou passando de novo por conta desse frio que chegou em São Paulo. Você fica e vai, mas ele cai de novo. Porque a radiação não tem cura, não tem tratamento, não tem nada. Tem, ela tem um tratamento, mas nesse momento agudo, não. E depende da quantidade que você tem. Sim, depende da quantidade. O corpo pega radiação. O cara que se passou o pó no corpo inteiro. É, a radiação, as radiações.
Vamos falar também um pouco disso para o pessoal entender. As radiações são fenômenos físicos advindos de alguns elementos, a gente está falando do Césio, de outros, inclusive do Sol, porque o Sol é uma estrela que sofre uma combustão nuclear, então ele emite radiação. A gente recebe radiação do Sol também. E radiação não é uma coisa que você... Ela é cumulativa, você não perde a radiação.
radiação que você tomou ao longo da sua vida fica no seu corpo. A radiação é cumulativa. Sol, aparelho de raio-x, quando vai fazer o dente... Por isso que o dentista sai da sala. Por isso que o técnico sai, por isso que a gente põe o avental para só receber radiação naquele ponto, entendeu? Você tem um controle disso. E o cara que trabalha, o técnico de radiação, ele tem que se expor, porque é um... Que é uma foto. Imagina o tempo inteiro.
Só que não dá. Então, eles têm toda uma proteção que foi sendo desenvolvida, esses equipamentos de segurança, até perceberem a necessidade disso. Começou lá com o casal Curri, que foi intoxicado na descoberta, nos experimentos dele. Mas, enfim. E aí ela vai e vem os sintomas. O irmão, logo no primeiro momento que ficou ruim, o Devair,
do Ferro Velho, o irmão dele, o Ivo, foi visitá-lo. Porque a esposa do Ivo, a Maria Gabriela, tinha falado, poxa, teu irmão, vai visitar ele, ele não está bem, ele foi visitar. E o Devair mostra para o Ivo, olha isso que eu, que coisa maravilhosa. E dá para ele uma caixinha de fósforo com pó. Se usava caixinha de fósforo, hoje não se usa mais. Fiat, Lux. Isso. Então ele pôs uma caixinha vazia e levou para casa.
E, quando ele chegou em casa com aquilo, ele também esparramou e mostrou para a filhinha. Ele tinha uma filhinha, a Leide. Então, ele amava a filha, aquela coisa toda, uma relação super linda. Ele mostrou o pó, mostrou para a mulher e também fez aquilo lá. E a mulher dele também começou a chamar outras pessoas para verem, tudo mais. Nesse dia que ele mostrou o pó, que eles brincaram, ele e a filha, a filha, inclusive, terminada ali, foi chamada para jantar, foi jantar,
E comeu um ovo. Era um jantar, eram ovos cozidos, e ela comeu com a mãozinha. Por mais que lave, não sai tão fácil. Não, não é assim. Ela deixa os átomos dela lá. Ela deixa o rastro, mesmo lavando. E ela come esse ovo? Veja, isso fica numa cápsula blindada, Beto. Não é para pôr a mão mesmo. Isso sai de um laboratório, de uma usina,
de uma cápsula blindada, dentro de uma máquina fechada, que não é para abrir mesmo. O povo com marreta e chave de frente abriu. Exatamente. E outros vizinhos foram vistos. Bom, isso tudo foi propagando. As pessoas foram pegando, cada um que ia punha a mão, esfregava a mão. Então, o acidente começou dois anos antes, nessa mudança da clínica, e se propagou até hoje.
É um acidente que vem até hoje sendo falado. Bom, foi ficando todo mundo doente e a Maria Gabriela começou a desconfiar que era alguma coisa relacionada a esse pó. Quem é a Maria Gabriela? Que é a esposa do Ivo, mãe da Leide. Dessa menininha que comeu o ovo com a mão. Dessa menininha que comeu o ovo. Então, ela não tem dúvida, ela passa a mão. Ela também está doente? Ela também começou a se sentir mal. Você pode ver, aqui todos nós vamos ser contaminados, não vamos? Sim, claro.
Porque ele é nada. A proximidade já te pega. Respiração. Aquela chuva. Porque é como o raio-x. É uma chuva de elétrons. É uma chuva. E ele está aqui chovendo. É radiação, radiação. Sim. Eles começam a desconfiar. A mulher e tudo mais. O Ivo também. Porque está todo mundo muito doente. A menina dele ficou muito doente. Muito, muito doente.
que ele não queria, que ele falava que era bobagem e tudo mais, ela passa a mão naquela cápsula. Está na casa do Devair. O irmão avisa, olha, deve ser isso daí, que você está apaixonado. Ele andava para cima e para baixo com a cápsula. Ele achou que era um... Vamos deixar isso claro. Ele levava a cápsula no bar, ele dormia do lado da cápsula. Ele ficou contaminando todo mundo. Sim. E depois, para terminar, ela passou a mão na cápsula, pôs num saco, entrou no ônibus.
E levou para a vigilância sanitária. Porque tudo isso acontece na grande Goiânia, numa cidade grande, com muita gente. Não é que acontece. Bom, mesmo se fosse, não seria menos terrível, mas é porque o nível de contaminar... Deixa eu te perguntar uma coisa. Se eu estiver com o negócio, te der a mão e eu estou te contaminando, aí você passa e contamina. É um vírus. É quase um vírus. Parece um vírus, exatamente. Ou seja, esse ônibus, se ela pôs a mão aqui, outra pessoa chegou e pôs aqui, você vai levando para frente. Você não sabe nem quantas pessoas contamina.
nem pôr a mão. Só da cápsula tá ali aberta, aquilo tá... Podia ter chegado em São Paulo, uma pessoa que lá cruzou na rua, no ônibus, pegou um ônibus, veio pra São Paulo, desceu na rodoviária. Você se lembra da nuvem de Nukushima? Não, não me entendi. Como é que é o nome? Fukushima. Onde teve o tsunami. Agora? É. Ah, sim, nesses últimos anos, sim, tá. A nuvem de Chernobyl, o medo da nuvem de Chernobyl chegar
É verdade, porque aquilo ia levar. Exatamente. A nuvem de Chernobyl, e ela vai chegando devagar, então ela foi contaminando. Tudo. Ela foi contaminando os campos, os animais, o gado, as plantações. Tudo começa a ficar contaminado. A radioatividade é uma coisa muito, muito, muito poderosa. A bomba atômica de Hiroshima, que fez aquela queima inicial, aquela...
Sim, aquela temperatura que se eleva inicialmente, que destrói tudo e depois fica a nuvem. Que naquele filme, The Day After, mostrava muito bem que aquelas nuvens iam tomando o mundo e iam matando todo mundo. Você não precisa nem mais de bomba. Porque aquela bomba, se ela consegue tomar a atmosfera, pegou. E, no caso, essa mulher pega, entra no ônibus e vai para onde? Leva isso para a vigilância sanitária. Chega lá na vigilância sanitária,
o relato dela, pega lá, põe o saco em cima de uma cadeira e ali fica, de uma cadeirinha de repartição pública. A vigilância sanitária, então, o cara olha, acha estranho, nunca tinha visto, e chama um físico e conta a história. Isso veio de um ferro velho. O físico, quando viu, pronto. Ele ficou e já avisou. E aí foi que foi avisada a Comissão Nacional de Energia Nuclear.
E eles já vieram com os medidores. E aquilo, quando chegou perto, estourou, né? No máximo. E aí eles falaram, é isso, é um vazamento, é radiação. E aí a turma foi para o bairro. Foi para os bairros onde tinha acontecido isso. Lá para aquele bairro, para o bairro do Ferro Velho, tudo mais. E com os medidores Geiger, começou a estourar.
máquina abandonada. E essa mulher entrar... Ah, deve ter sido... Eu não lembro exatamente direito. Uns 15 dias? Mas deve ter sido... Sim, foi uma coisa, não foi demorado, porque... Cinco dias ficou ali na casa deles, depois foi pro Ferro Velho, e aquilo foi mais uma semana, no máximo. Mas é 15 dias de contaminação que não para. Com a fonte irradiando. E fora que ficou lá, naquele primeiro lugar já ficou coisa lá.
Sim, eu vou chegar nesse ponto. Você vai ver o que vai acontecer. As pausas dramáticas de Carlos. Eu tenho que levar a turma comigo. Então, vamos lá, junto. O pessoal, os técnicos chegaram ali, começaram a ver aquilo, perceberam a dimensão daquilo e começaram a passar com todo mundo e começaram a levar as pessoas, isolar as pessoas dentro do estádio município.
de Goiânia. E aquela região foi sendo cercada. Eles chamaram bombeiros, PMs, para cercar a região, só que falaram que era um vazamento de gás. Ah, não contava a verdade. Alá Chernobyl. Alá Chernobyl e também causando um grande acidente de informação, porque voou todo mundo para lá para ver o acidente de gás. E aí, essas pessoas que ficaram isoladas no estádio,
montaram barracas para elas, e elas começaram a ser monitoradas. E elas começaram a sofrer um tipo de coisa que elas nunca imaginavam na vida delas, porque elas foram levadas para o vestiário do ginásio e começaram a tomar banho de elementos, de produtos à base de alumínio, que é um neutralizador. Então, elas tomavam jatos, e todo mundo que estava com elas, com um equipamento,
já da Comissão Nacional de Energia Nuclear, com equipamento de proteção. E elas sendo jateadas nuas. E passavam o contador e davam mais banho, mais banho, mais banho. Elas começaram a passar por esse processo. A polícia cercando a área, os bombeiros cercando a área, ali onde eles estavam. E, enquanto essas pessoas estavam lá, e foi desocupado mais toda uma região, caminhões e caminhões com tambores,
foram chegando. E essas pessoas tiveram suas casas invadidas e todos os seus bens recolhidos e acondicionados em tambores. Então, aquelas gramas de pó causaram toneladas de lixo. O que a gente chama hoje de lixo nuclear, lixo atômico, lixo radioativo de Goiânia, do Césio 137, são objetos pessoais das casas.
de todas aquelas pessoas. Sofá, geladeira, fogão, álbum de fotografia, tudo. Documentos, tudo. As casas foram mantidas? As casas, posteriormente, foram completamente destruídas. E o material das casas também está maligno. Faz parte desse lixo? Sim. As casas foram destruídas, os terrenos foram trabalhados, árvores cortadas, tudo cimentado, passado compostos de chumbo. O ferro velho.
O ferro velho foi todo... Todo comido também pelo lixo. Foi tudo levado, virou taneladas. O primeiro lugar onde tinha também foi tirado. Eles fizeram um rastreio. A cidade entrou numa histeria coletiva. A cidade entrou numa histeria coletiva nunca vista. Nunca vista. Porque foram, para você ter uma ideia, de contaminados diretos, foram mais de 600 pessoas. Que se chegaram.
Exatamente, contaminados direto. Já tinha gente morrendo? Já tinha gente morrendo nesse período? Nesse período ainda não. Nesse período ainda não. As pessoas que estão lá no estádio, as mais graves, então elas começam a ser encaminhadas para o hospital. Inclusive para o Rio de Janeiro veio. Para esses hospitais de mais conhecimento e que trabalhavam com pesquisadores da radiação.
E, principalmente, a grande vítima, a vítima mais rápida, foi a filhinha. A filhinha. Que comeu o ovo. A lady. A menina que comeu o ovo. Pela idade ou porque ela, inclusive, comeu? Porque pela idade, pela forma direta que ela teve de contaminação, ela morre. E aí, algumas outras pessoas vão morrendo. Dependendo da vulnerabilidade e do contato que teve com a radiação.
ali todos foram? Os irmãos? Foram. Ah, é. Os relatos eram que os cabelos caíam. Eles ficaram com uma cor queimada. Principalmente o Ivo. Aliás, perdão. Principalmente o Devair. Que andava com a cápsula para cima e para baixo. Ele ficou com... Todo mundo percebia que ele tinha uma tonalidade de um bronzeado. De uma cor queimada.
De radiação. Muitos ficaram, então, aquela queimação começou, outros perderam o dedo, começou até necrose, amputação, tudo mais. E tudo isso, e quando a Leide morreu, a Leide e, se não me engano, a tia dela, que morreu com ela também, que foram ao Rio, que eram internadas, e os corpos vieram em caixões lacrados para a Goiânia, para ser enterrado. Lá do Rio de Janeiro. Do Rio de Janeiro.
um féretro bem lacrado, e foi todo um cortejo muito vigiado, policiado, e foi enterrado num lugar próprio para essas vítimas. Não pode cremar? Não, não pode ter contato... Ah, porque senão aquilo vira fumaça também. Aquilo fica ali contagiando, não, não pode. Então eles foram enterrados, e no cortejo foi assim, bizarro.
Porque as pessoas não queriam que aquelas vítimas fossem enterradas ali. Como explicar também? No furor dessa histeria, desse medo. Não queriam isso. E foi uma cena bárbara. Foi uma cena grotesca dos populares arremessando o que podiam. Eu me lembro bem dessa cena. Eu estava já na faculdade, já sabia muito bem o que estava rolando disso. Cena dantesca.
O quê? Qual que era? Ou das pessoas arremessando pedaços de cruz do cemitério contra a família, contra o cortejo. Foi uma... As pessoas foram lá. Estava com ódio de você que contaminou tudo. Juntou uma multidão no cemitério. Eles não queriam que enterrassem lá. E eles pegavam paus, pedras... Ah, eu tinha entendido o contrário. Eu tinha entendido que eles queriam que enterrassem no local... Não, já estava destinado a...
enterrado lá, eles não queriam que fossem lá. A polícia teve que entrar, batalhando choque, para conter essas pessoas, a turba, tudo mais. Quantas pessoas morreram no total? Na verdade, as pessoas têm morrido. A história não acabou. Esse é o drama de tudo. As pessoas começaram a ficar queimadas, amputadas, com câncer, e foram morrendo a médio e longo prazo. Além dessas vítimas iniciais,
altamente contaminadas, as pessoas, essas mais de 60 pessoas, têm morrido ou desenvolveram câncer e vão morrer. E elas conseguem ter uma vida normal? Podem ter filhos e tudo mais ou não é indicado? Não é indicado. Lembrando também que, quando eles foram levar esse lixo, a desinformação foi tamanha que caminhoneiros foram contratados para carregar os tambores.
área isolada, com a notícia de gás, você teve bombeiros policiais e você teve contato com médicos, enfermeiros, esses motoristas e todo mundo que fez o transporte, todo mundo mexeu em tudo, sem informação nenhuma. Muitas pessoas foram expostas, a maior ou menor
de ação violenta, nociva. Um menor grau em você pode ser uma coisa gigantesca, eu tenho uma outra genética, pode ser matadora. Uma pergunta que eu queria voltar ao passado um pouco mais. Quem que pôs essa máquina nesse lugar? Porque tudo bem, os caras foram mexendo que não tinham que ter mexido, mas era um lugar para se deixar uma máquina de radioterapia dessa maneira? Então, foi uma grande negligência. De quem? Alguém pagou por isso? Da empresa, do centro que atualmente
ali, da clínica. E eles alegaram, quando foram atrás deles, na defesa deles, eles alegaram que eles não puderam remover a máquina. Porque eles não tinham a autorização de remoção da máquina dessa Comissão de Energia Estadual de Goiânia. É kafkiano total. É, totalmente. Como eu falei... Você não consegue tirar a máquina porque o grupo que depois vai analisar... E que depois foi
desmantelado numa época. Essa comissão de Goiânia, ela deixou de existir num determinado momento. Então, ela não podia... Segundo a defesa deles, eles não poderiam ter removido essa máquina de lá. As roupas das pessoas que estão entrando no local de contaminação, aquelas roupas de astronauta, tem que jogar fora depois? Os EPIs. Os equipamentos de proteção. Porque tem que tirar sem tocar, deixar em algum lugar para que eles sejam automaticamente...
um protocolo para isso. Nada que tocou pode estar... Não, tem todo um protocolo. Tudo isso também está virando rejeito. E esses motoristas que carregaram isso sem saber que eles estavam carregando, era tanto tambor, mas tanto tambor, tanto tambor, que eles começaram a subir em cima do tambor para fazer foto, para fazer selfie. Não. Tem fotos de motoristas em cima do... Porque era muito tambor. Era um selfie, porque na época não se fazia. Não tinha selfie.
Era um tipo de selfie. Tira uma foto minha aí. Bom, então, nesse momento, tudo isso acontecendo, a imprensa internacional correu para cá. E veio todo mundo. E foram jornalistas. E aí, então, foi revelado o que era. Então, a gente foi saber... É, a gente foi saber... Já lá na frente. Lá na frente, quando essas pessoas já estavam nos estádios, a imprensa internacional estava vindo, a notícia de vazamento de gás não se sustentou. Mas o governo federal sabia. O Sainé sabia.
Sim, sim. Claro, a Comissão Nacional já estava lá. Esse Arnei. Já me bastava ir pela inflação. Exatamente. E começou a rolar a chaga do preconceito. Que tipo? Porque todo mundo que vinha de Goiânia... Ah, você sabe que é verdade. Olha, eu lembro de uma coisa dessas. Não podia falar com ninguém. Você nasceu lá, já não podia conversar com você. Então, Goiânia, Goiás, começou a sofrer com o problema de turismo. Você não quer ir lá de Brasil?
Não do lado, só 400 quilômetros de Brasília, mas é capital federal. Começou a sofrer com os produtos de Goiânia, tanto produtos de Goiás, fabricados, produzidos, manufaturados e produtos agrícolas. E tudo que vinha de Goiânia, pessoas que vinham de Goiânia, os aviões do aeroporto, tudo começou a sofrer um nível de discriminação.
jamais visto. Goiânia, as pessoas, essas pessoas contaminadas... Mas elas passavam antes por uma verificação, eles podiam entrar no avião? Porque a partir do momento que até nota de dinheiro estava circulando com contaminação... Não, eles ficaram anos. Não é uma questão de preconceito, é uma questão de receio. Isso gerou muito preconceito deles. Naquele momento, passava para o detector de radioatividade para saber se a pessoa podia entrar no avião? Porque também é um risco.
pessoa pode contaminar um monte? Imagina se cai numa 25 de março em São Paulo. Isso existe, mas surgiu uma coisa muito além do medo real. Era a rejeição aquilo. Foi uma histeria coletiva. Ah, total. Então a coisa ficou muito, porque era uma coisa que nunca tinha se visto. É como eu estou te falando, foi o maior acidente radioativo em perímetro urbano do mundo. Porque Chernobyl era isolado,
Tinha a cidade de Chernobyl, mas era uma coisa... Essa se deu num contexto urbano. Uma cidade como outra qualquer. Chernobyl tinha a história dela, a cidade de Chernobyl, ali para os funcionários, mas ela tinha uma outra relação com a usina. Em Chernobyl, quando explode, as pessoas sabem o que é. Uma usina nuclear explodiu. O que estava acontecendo em Goiânia, você não sabia o que estava acontecendo.
Estão pessoas passando mal. Por causa de um pó radioativo, que era por conta de uma máquina de radioterapia, que estava lá jogada num lugar, porque a Comissão Nacional não deixava atirar, e no fim é ela que agora está verificando. Então você entende que o acidente em Chernobyl começa antes e termina muito depois. Muito depois. Aliás, não acabou. Não, Chernobyl até hoje é um lugar isolado.
Ela é isolada, na medida do possível. Na medida do possível, não é feito o que devia ter sido feito? Não. Na medida do que foi detectado, do que foi tirado, eles fizeram, eles desapropriaram. Os lugares onde havia casa dessas pessoas não existem mais nada hoje. Esse lixo todo, carregado pelos caminhoneiros,
Quem não quis ir voluntário... Foi obrigado. Foi obrigado, senão eles tiravam o caminhão. Eles foram completamente coagidos. Há relatos horríveis disso. Então, eles levaram esse rejeito para Abadiânia. Está lá em Abadiânia. Que é a cidade do João de Deus? É, numa região que não pode se dizer. Está lá escavado e feito todo um... E está lá naquela região de Abadiânia. Nossa, aquela cidade tem o lixo do Césio e o lixo do João de Deus.
de Deus. Tristicidade. Triste abadiana. Não as pessoas, mas triste abadiana ter que conviver com esses dois lixos. Alguém tem que conviver. E essas vítimas, até hoje, Beto, são vítimas abandonadas pelo governo. O que acontece é o seguinte, a partir de uma determinada, até 1990, havia ainda uma instituição, como é que se chama? Anotei até aqui. Deixa eu só achar onde... O Centro de Assistência
aos rádios acidentados. Esse centro de assistência aos rádios acidentados, eles construíram esse centro lá onde era a vigilância sanitária, no prédio da vigilância sanitária que chegou a bomba, que chegou a cápsula, o primeiro lugar oficial. E ali saiu a vigilância sanitária, obviamente de lá, depois de um tempo, o prédio foi aproveitado para ser um centro de assistência. Até 1999, ele tinha uma certa autonomia.
recebia uma verba do governo do Estado, do governo federal, e podia atuar sem burocracia. Para a manutenção das pessoas, um acompanhamento médico. São quantas pessoas hoje? Hoje eu não sei te precisar, porque a coisa é muito... Porque morreu muita gente, quase todos de câncer. Eu cheguei a ler que mais de 110 mil pessoas teriam sido checadas, e daí tem um número menor, e hoje devem ter menos,
Deve ter menos pessoas. Essas pessoas ainda contaminam? Não. Essas pessoas não contaminam mais, mas sofrem a... O medo. Elas sofrem a ação da contaminação dentro delas. Elas não contaminam mais, mas elas sofrem a ação delas no organismo delas, o que aquilo produziu, o que aquilo estartou, o que aquilo iniciou de mutação genética, que é o câncer, que a gente está falando disso, é uma mutação genética,
seu poderio faz, por isso, a periculosidade, altera completamente a multiplicação celular. Só uma coisa, foi enterrado em Abadia de Goiás, não Abadiana. Abadia de Goiás, perdão. Porque são duas cidades. Abadia de Goiás, retificando. Essa radiação estarta esses processos de alteração na multiplicação celular, no próprio DNA dos indivíduos vivos,
vivas e eles sofrem até hoje também o preconceito. Porque essas pessoas ficaram conhecidas. Sim, essas pessoas ficaram conhecidas. Elas ficaram publicamente notórias. Elas sofrem o preconceito até hoje. Não só a ação da radiação, mas a ação do preconceito. Depois dessa data, eles foram considerados, foi considerado, na verdade, que o acidente já tinha acabado.
E o período de radiação contaminante tinha extinto, diminuindo muito. Já não oferecia mais perigo. Então, eles ficaram, os remanescentes ficaram totalmente sem assistência. Eles ganham um salário mínimo hoje e ainda frequentam o centro. Olha, 1.253 pessoas são cadastradas para isso.
cadastradas. E a Marília Gabriela morreu também. Ela morreu. A Marília Gabriela Devair e a Leide. Morreram. Os três morreram. E a maior queixa aberto dessas pessoas vivas até hoje são duas. Até hoje não existe uma prevenção para esse tipo de ação. E até hoje eles não recebem a medicação adequada para o tratamento deles. Eles foram
abandonados à própria sorte. Eles recebem, alguns recebem 800 reais, outros recebem um salário mínimo que não paga, não consegue pagar a medicação. Eles têm médicos, eles têm pessoas excelentes que acompanham eles, mas eles não têm... O tratamento. Essas medicações de alto custo continuadas. Eles lutam até hoje por isso.
Em associações, na justiça, e eles estão sofrendo muito, tem que lembrar disso. Eles estão aí, eles são vítimas até hoje. Hoje, dia 16 de maio de 2023, essas pessoas estão desassistidas. Então, eu faço esse apelo aqui. Pelo amor de Deus, o governo de Goiás, limpe essa mancha que vocês têm.
medicação e medicação séria. E as pessoas hoje transitam pelas ruas normalmente. Sim, elas não contaminam. Não contaminam mais, mas elas têm aquela marca, porque alguns podem ter até no rosto. Sim, tem uns que têm na mão, são amputados, têm queimaduras. Eles trazem fisicamente também isso. Fora os que já morreram, muitos morreram de câncer. Um câncer muito rápido, muito feroz, porque é um câncer que é,
Ele não é um câncer produzido no próprio organismo, não é? Ele é um câncer estimulado pela radiação. Triste história. Não sabia que eles estavam tão desamparados, achei que depois estivesse, mas por todos os governos, desde então. Eles não tiveram mais nem lembrança, porque não se fala muito do Césio também, desse marco tão terrível. É, porque na tentativa de apagar esse preconceito que ficou sobre Goiânia, sobre os habitantes da cidade,
e tudo mais, também se tentou apagar o fato, o acidente. São quantos anos? 36 anos? 87 e faz a conta aí, 36, não é? Não, acho que 26 anos. Não, meu Deus do céu, espera aí, vamos comigo aqui. Não, 36 anos. Daqui a pouco faz 40, gente. Em 2000 e 27, faz 40 anos. Parece que é uma coisa que não quer muito mexer, não quer que lembre o que é
porque também é um acidente, é uma tragédia causada também pelo descaso dos órgãos competentes, que não deveriam permitir que esse tipo de máquina estivesse onde estava. Você sabe se hoje melhorou esse tipo de descarte de equipamento, de material? Porque isso está no Brasil inteiro. Você tem, claro, grandes centros como São Paulo, você tem grandes máquinas como essa, mas esse tipo de material é usado ainda. Sim. Eu acho que o SESI, o 137,
não posso afirmar com certeza, mas eu acho que ele foi... Esse tipo de máquina, com esse isótopo, ela foi meio superada. Mas e as outras? Trazem também esses componentes? Se até hoje o radiologista sai correndo? Não, raio-x, ela tem a cápsula. Toda máquina tem uma cápsula. Para, inclusive, criar a imagem. Essa radioatividade era muito interessante.
Ela precisa dessa cápsula porque essa chuva de raio gama é que cria a imagem que você vê. Então, as de raio-x têm. Mas essa de Césio, lembrando que ela tinha um outro componente, uma coisa mais forte, porque ela fazia o tratamento radiológico. A radioterapia, que é para você atingir o tumor. Fica aqui o convite. Se algum sobrevivente estiver vendo e quiser falar, só me mandar um e-mail. Eu acho que para eles é muito importante.
Porque eles gostam de ser lembrados e eles precisam ser lembrados. São pessoas vivas que precisam ser lembrados. E há pessoas que tinham 30 anos atrás, hoje tem 67. E as coisas vão mudando. Envelhecer te exige muito mais coisas. Com o Césio ainda em contato com você, exige muito mais. Crianças que nunca tiveram uma vida absolutamente normal uma vez, nem chegaram, se a criança conseguiu chegar à vida adulta.
mil pessoas. Então, a gente pode ter muitas histórias de sonhos parados e de vidas ceifadas, mesmo estando o olho aberto. Então, fico convido. Se alguém vir, é só me mandar um e-mail. Pode até mandar para o e-mail que aparece para visitar o estúdio, eles me passam. Ou então o e-mail que aparece no meu Instagram para a gente conversar, para você contar a sua história. Acho que é importante concordar. Eu acho que quando você humaniza uma história dessa, você conta com uma vida, você conta a história
de um todo, isso eu sempre fiz em séries de TV, como eu fiz o Holocausto e tudo mais, com uma história você conta um todo, uma guerra inteira, com uma história do César você conta o que aconteceu e o quanto que aquilo, às vezes é uma pessoa que pegou um dinheiro, sei lá, além de tudo não teve tanta responsabilidade direta no ato do César, mas ela vive até hoje no problema que ela, por conta dessa máquina, que não devia estar lá também.
Mais alguma coisa desse caso queiram me contar? Eu acho que... Espero que tenha deixado claro para as pessoas em casa... É uma tragédia muito forte para o Brasil. Que tenha trazido esse recorte de uma época, de um acidente, e que vocês tenham... Quem não conhece, tenha contato com esse caso e que vale a pena nós, porque isso é uma tragédia, e é um descaso, e é um crime também. Sim. E essa é uma tragédia que marca uma década muito forte no Brasil e no mundo,
também da Guerra Fria, e quantas fake news foram criadas. Eu fico imaginando se fosse hoje, com o poder das mídias sociais, o que não teriam se criado de histórias. E a verdadeira demoraria muito mais tempo para se entender. Nossa, o que iam fazer de fake? Iam falar que é, sei lá o quê. Carlos, é um prazer. Iam falar que eu estou radioativo. Você está todo brilhante. Eu estou de Césio. Qual a sua cor, Césio? Coitado da pessoa. É um prazer estarmos aqui. Se você chegou até aqui, vamos deixar aqui uma...
palavra de carinho para quem faz parte dessas vítimas do César, que se faça com eles o carinho e o cuidado que todo Estado deve ter pelo seu cidadão, ainda mais um cidadão que está passando por radioativa, que é uma coisa tão fora do comum. É. Que eles são únicos. Até para serem estudados, uma pessoa que... Tem gente que vive há 37 anos. É, não. E a média de vida é 33. Os profissionais que acompanham eles hoje, acho que eles devem
uma excelente pesquisa. São cientistas. Os médicos, sim. Volto a falar, o problema deles é a medicação continuada. Então, governo, por favor, faça a sua parte também. Olhe pelas pessoas. E você, por favor, não deixe de se inscrever, curtir, compartilhar, sininho. Marque nas suas mídias sociais, tanto a mim quanto ao Carlos. E, se puder, seja mesmo. Se não puder, tudo certo. Desde que você tenha chegado até aqui. A gente volta em breve com mais e mais conteúdo. Obrigado.