OQFF | 31 | "Cantámos Bella Ciao Enquanto Nos Torturavam" - Joana Rocha🍉
A Flotilha para Gaza: Tortura e Impunidade. 181 civis tentavam levar ajuda humanitária a Gaza. Israel interceptou-os com violência extrema. A Grécia colaborou. Dois activistas continuam sequestrados (Update: estão prestes a serem libertados).
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Joana Rocha é portuguesa e fez parte da Freedom Flotilla Coalition, uma iniciativa que tenta levar ajuda humanitária a Gaza e quebrar o bloqueio ilegal a que a Palestina está sujeita. É uma das 181 pessoas que foram intercetadas e detidas pelas forças israelitas durante a Flotilha, um episódio que não é excepção, mas parte de um padrão que se repete há anos sempre que estas missões tentam chegar ao seu destino. Quando voltou a Portugal, Joana trouxe apenas a roupa que vestia e um passaporte. Tudo o resto lhe foi roubado.
Privação de sono. Privação de comida. Privação de higiene. Hipotermia induzida. Queimaduras solares deliberadas. Pessoas que perderam a consciência. Pessoas arrastadas pelo chão: “Se fizeram isto connosco, com todas as câmaras, com todos os passaportes europeus, com toda a atenção mediática. o que é que estão a fazer aos palestinianos?”
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- Flotilha para GazaInterceptação e detenção de civis · Ajuda humanitária · Bloqueio ilegal de Gaza · Participação da Grécia · Violência e tortura · Privação de sono, comida e higiene · Queimaduras solares deliberadas · Perda de consciência e arrastamento · Roubo de pertences · Tiago e Saif · Joana Rocha
- Trajetórias de ativismoMotivações para o ativismo · Desespero e necessidade de agir · Sistema imperialista e sionismo · Crise mediática e inação · Sacrifícios pessoais · Solidariedade e apoio mútuo · Canto de Bella Ciao · Resistência não violenta · Revolução e ação coletiva · Boicotes e greves · Esperança e perseverança
- Crítica à Inação Governamental e InternacionalComplicidade da União Europeia · Silêncio e normalização · Desresponsabilização do Estado Português · Falha da lei internacional · Impunidade de Israel · Duplo padrão internacional · Falta de ação governamental
- Tragédia de migrantes no MediterrâneoMilhares de pessoas desaparecidas · Papel da União Europeia · Pressões de refugiados e pedidos de asilo · Comparações com a Palestina
- Apoio e solidariedade na jornadaEnvio de ajuda material · Material escolar e cartas de crianças · Equipamento médico · Profissionais de saúde e construção
- Comparação com Conflitos AnterioresGuerra na Bósnia e Museu da Paz · Fim do Império Português · Reação internacional a outros países
Esta interceção, este sequestro de civis numa missão não violenta de entrega de ajuda humanitária para quebrar o bloqueio ilegal de Gaza, foi interceptada por Israel, mas com a participação ativa da Grécia. Então, tivemos três embarcações da guarda costeira grega ativamente participantes no sequestro. E também quando depois fomos transferidos da embarcação israelita.
para a embarcação grega, isso também foi não só com a cooperação, mas com a organização da Grécia.
A Joana Rocha é ativista portuguesa e participam na missão da Flutilha Coalition, integrada na iniciativa Global Sumud, que tenta levar ajuda humanitária até Gaza e romper, na prática, o bloqueio imposto ao território ocupado da Palestina. Foi uma das pessoas detidas pelas forças israelitas durante a intercessão da Flutilha, um episódio que não é exceção, é parte de um padrão que se repete há anos sempre que estas missões tentam chegar ao destino.
Bem-vindos a mais um episódio do Podcast O Que Faz Falta. Eu sou o Luís e converso com quem tem coragem de mudar o mundo. Olá Joana, bem-vinda e obrigado por teres aceitado o meu convite.
Olá Luís, muito obrigada pelo convite, é um prazer estar aqui. Imagino que tenhas muitas coisas a dizer porque esta situação foi bem recente. A partir do momento em que nos puseram de joelhos no barco, houve uma mudança qualquer de mentalidade, portanto suponho que vai estar muito forte durante muito tempo. Tenho muita coisa para dizer, não só do que nos aconteceu, mas em particular do porquê. Acho que a dificuldade vai ser por aqui tudo nesta entrevista, mas também estou muito agradecida por ter espaço para falar, porque uma das coisas que...
que estão a acontecer, que são mais frustrantes para nós que o movimento, mas para qualquer ativista da Palestina é o silêncio e é a normalização. Portanto, agradeço esta oportunidade para falar. O podcast do que faz falta tem as portas abertas para toda a gente que é ativista pela causa da Palestina. Por isso és bem-vindo aqui. Disseste que mudou alguma coisa quando te puseram nos olhos o que é que aconteceu?
sentia em mim a raiva e a indignação para agir, mas no momento depois da intersecção em que fomos levados para a embarcação militar houve um clique qualquer que me...
deixou extremamente focada, calma e com muito mais força do que tive antes. Acho que também me tirou medo muita coisa porque o nível de violência, de agressividade e da situação toda que estava a acontecer para com as minhas camaradas e para comigo mesma, à medida que tenho falado disto apercebi-me que o que me fizeram, mais do que tudo, foi dar-me determinação, força, radicalizar-me ainda mais. E houve um momento chave nesse primeiro joelhos no chão, passamos horas e horas e horas no chão, mas é esse primeiro momento que...
qualquer determinação que eu já tinha foi aumentada só me dá vontade para continuar tias perguntado se eu estava cansada estou cansada mas estou mais zangada que cansada e essa zanga parte do que? qual é a origem?
Por incrível que pareça, ou se calhar não, quase igual ou mais do que com as forças israelitas, é com a publicidade europeia, com o Estado da Grécia e tudo o que aconteceu, porque já foi confirmado, tanto por Israel como pela Grécia, que esta interseção, este sequestro...
de, mais uma vez, já falamos muitas vezes, sequestros de civis numa missão não violenta de entrega de ajuda humanitária para quebrar o bloqueio ilegal de Gaza, foi interceptada por Israel, mas com a participação ativa da Grécia. Então, durante todo este processo, tivemos três embarcações da guarda costeira grega ativamente participantes no sequestro. E também quando depois fomos transferidos do embarcação israelita.
para a embarcação grega, isto também foi não só com a cooperação, mas com a organização da Grécia. Então, desta sensação de impunidade, não só de Israel, mas desta complicidade e o silêncio também da União Europeia por permitir isto, porque nós não saímos das águas europeias, quer dizer, águas internacionais, mas muito deste tempo... Estavam a 70 milhas de águas gregas. Mas quando nós fomos transferidos para a embarcação grega
Aí estávamos na costa, estávamos de facto em águas gregas e o Tiago e o Saís foram levados dentro de águas gregas. Portanto, o rapto que ainda está destes dois prisioneiros que ainda lá estão neste momento a ser torturados, aconteceu em águas gregas. Portanto, isto me deixou muito zangada, também me deixou muito zangada quando voltei a perceber-me.
que ainda há muita normalização, como é que as pessoas não estavam atrasadas, como é que não estão mais zangadas, como é que não há mais berros na rua. E claro, com a violência que eu assisti, se eles fizeram aquilo que nos fizeram a nós, com todos os privilégios dos nossos passaportes, enfim. Tudo o que é que aconteceu.
Estivemos acompanhando os drones durante quase o dia 2 de navegação. Começaram a aumentar os drones por volta das 8h30 a 9h da noite. E recebemos um alerta, eu nessa altura não estava em turno, recebemos um alerta de alguém para estar atento, houve alguma interseção, um barco sem luzes, alguma coisa. Fomos todos para a parte cima do barco, para o deck, aí começamos a perceber.
Alguma coisa está muito errada, barcos, zodiac a aproximar-se rapidamente de algumas das embarcações com luzes, às vezes desligavam as luzes, enfim. Mas nesse momento nós pensávamos que era uma táctica para nos assustar. Sterilização, basicamente. Exatamente. Também estávamos à espera disso, porque eles fazem isso, fazem privação de sono, achávamos que fosse isso.
Nem considerava, nem tínhamos a certeza se eram de facto as forças israelitas, porque estávamos tão longe, não é? Pelos vistos, essa primeira ronda foi para observar, para confirmar o número de pessoas, desapareceram, e então depois veio muito rapidamente a intersecção em si. Enquanto estávamos a ver isto tudo, também conseguíamos ver relativamente perto de nós um barco, um navio gigante militar. Na altura não sabíamos o que era.
das forças israelitas para o qual depois fomos levados. Os barcos aproximaram-se. Na primeira vez que se aproximaram de nós, o que estavam a dizer nos megafones é tenham calma, estamos a responder a uma chamada de meideis, estamos aqui para vos ajudar. Portanto, isso são coisas que têm acontecido. Jogo psicológico. Completamente. Isso aconteceu durante a prisão há muito tempo. E acontece, enfim, como nós vemos na propaganda também.
Portanto, começaram por aí a dizer que estavam a ver se estava tudo bem, porque estavam a responder a uma chamada de meideis.
Portanto, quando eles decidiram de facto interceptar foi tudo muito, muito rápido. Isto tudo aconteceu sem nós termos acesso à internet nem ao VHF porque os barcos estavam a fazer jamming, estavam a bloquear as comunicações de rádio e a comunicação de internet. Portanto, não tínhamos acesso a nada e quando decidiram de facto interceptar foi uma questão de segundos e estavam dentro do nosso barco completamente equipados com as armas, lasers apontados às nossas caras, aos nossos peitos.
e daí iniciaram a intersecção. Um de cada vez para dentro do barco para sermos revistados e destruíram tudo. Eu fui a segunda pessoa a ser revistada, ou seja, foi quase no início e já estava o barco todo completamente destruído por dentro, a ajuda humanitária destruída, as nossas coisas também destruídas, enfim, acabaram por nos retirar um a um para o seu barco.
Destruíram as velas, destruíram as cordas do barco e levaram-nos para a embarcação maior. Entretanto... Mas há violência nessa tensão?
Não houve espancamentos ainda, mas houve violência sim. Para além da parte psicológica, gritavam constantemente e nos davam horas constantemente. Também forçavam-nos a crença para baixo, manipulação dos corpos e tudo mais. Portanto, foi algo violento. Mas, a partir do momento em que entramos para o barco, para a embarcação maior, aí sim a coisa mudou de figura. Nesse caso, o barco israelita. Exatamente, o barco militar israelita deles.
uma coisa gigante, aí a violência escalou bastante e foi que já começamos em posições de stress durante muitas horas joelhos no chão, mãos atrás da cabeça e qualquer movimento qualquer coisa de ajuste, eles vinham empurravam para o chão, gritavam aos ouvidos enfim, tínhamos pessoas com alguma idade, tínhamos pessoas com incapacidades físicas que não se conseguiam pôr nessas posições Tens noção de quanto tempo é que ficaram assim?
muito difícil de saber tempo, porque eles também faziam questão de nos tirar essa percepção. Não sei, mas sei que foram horas plural e isto aconteceu várias vezes. Essa primeira vez, talvez uma hora e meia, duas horas, não tenho a certeza, mas aconteceu várias vezes, sendo que a pior delas todas, mais longa, foi sob o sol do meio-dia. As pessoas acabaram por ficar com queimaduras solares também.
É difícil de entender o tempo quando se está naquela situação. Enfim, causou danos suficientes a toda a gente. Nenhum de nós escapou sem mazelas físicas, nem que fosse por essas posições. Todos nós temos danos físicos da intercessão. É algo que ainda te passa na cabeça nesses momentos todos, neste momento.
Sim, claro, aliás, eu ainda estou na missão, não é? É porque o Tiago e o Saif ainda não voltaram, portanto nós ainda estamos na missão. Nada mudou, mudou que voltei para Portugal fisicamente, voltei para Portugal, mas ainda não terminou a missão. O Tiago e o Saif estão detidos ainda e, como sabemos, tanto o Tiago por ser a terceira vez lá já recebeu imensas ameaças do Estado realista, mas em particular o Saif por ter identidade palestina.
o risco é muito grande e, mais uma vez, se fizeram aquilo que nos fizeram a nós com todas as câmaras, com todas as gravações, podemos imaginar talvez o que estão a fazer a eles e como é que isto pode acontecer. Portanto, sim, está tudo muito vivo e para mim ainda estou em missão também. Essas coisas vêm, sim, à mente, mas mais do que a parte física, vem a parte da violência psicológica, privação de sono, as manobras de manipulação, privação de comida, privação de higiene, privação de tudo.
Algo que os palestinianos sofrem há 3 anos. Que sofrem desde 1948. É um nível muito maior. Isso também foi... Quando falo destas coisas, as pessoas reagem emotivamente ou não estás bem.
Faz muita confusão também. Sentimos-nos tão ultrajados por isto que nos fizeram a nós. Também têm que sentir ultrajados pelo que estão a fazer agora, neste momento. Todos os dias, constantemente, aos palestinos. Muito mais. Não tem cooperação. Não tem cooperação nenhuma com aquilo que nos fizeram com aquilo que estão a fazer todos os dias. Pelas informações que eu tenho, o Consul Português na Grécia disse que vocês eram livres de viajar para onde quisessem. Por isso não houve apoio do Estado. O que é que tu tens a dizer sobre isso?
completa desresponsabilização do que fosse. Sei agora também pela equipa de apoio que estava aqui em Portugal que sequer para conseguir a comunicação com a embaixada levou muito tempo. Mas não me surpreendeu, infelizmente. Não me surpreendeu essa atitude.
outros países estavam lá representados e enfim, tiveram outros tipos de atitudes, voos foram arranjados cuidados foram arranjados tínhamos uma pessoa lá, uma pessoa da embaixada mas sim, tudo foi feito às nossas custas houve uma desresponsabilização muito grande que é o que costuma acontecer em particular no caso de questões da Palestina para Portugal pagaste o teu bilhete de volta claro
O dinheiro, porque roubaram-nos tudo, roubaram-nos, eu vim com as roupas que tinha vestidas e o meu passaporte, este confiar é meu, é emprestado, porque a primeira coisa que eles me tiram é tudo ligado com a Palestina, mas tudo, cartões, dinheiro, enfim, portanto, sim, tudo o que comida. Como é que fizeste para voltar então? Porque não tinhas dinheiro, cartão? Sim. Como é que fizeste?
Houve uma intera ajuda gigante entre nós, entre todos, desde o primeiro dia, inclusive na prisão, com condições muito mais, havia sempre alguém que te ajudava, então nunca passei fome graças à organização e às pessoas. O que fiz foi ligar para alguém, para pagar alguém, para dar os meus dados, para comprar aquilo, mas foi uma experiência interessante também.
todo este processo sem telemóvel, sem dinheiro, só com passaporte, até chegar a casa. Foi também uma visão pequenina daquilo que, mais uma vez, uma visão minúscula, uma porcentagem muito pequena daquilo que as pessoas passam.
Todos os dias. Em particular no Mediterrâneo. Estou agora a voltar para trás. Estou a fazer aqui desde o início. Agora vou para trás para o início. Porque quero saber as tuas motivações e o que é que te fez ir nesta missão. Como não? Como não? Essa é a questão. Eu já tentei ir nas outras missões anteriores. Uma vez que eu tentei muito tarde, a outra... Enfim.
Em particular, desde 2023, tem sido o desespero de tentar fazer alguma coisa, de tentar agir, e esta é uma opção de agir. Protestos, demonstrações, todos eles, mas tudo parece muito pequeno. Isto também parece muito pequeno, e é muito pequeno. Tem que ser a junção de todos estes movimentos, todas estas ações, todos os indivíduos.
dos governos, quando agem, que vão fazer alguma coisa. Mas como não? Esta foi uma forma em que eu tive acesso para agir para alguma coisa e porque a motivação é, quer dizer, muitos ramos de motivação, a Palestina em particular, ou o Junocídio de Israel, ou bem, o sistema zionista.
acaba por ser um reflexo, a causa e o reflexo ambos, do sistema imperialista e de toda a forma como usam a Palestina para aquilo que se está a fazer por todo o resto do mundo. Portanto, acho que é tanto o epicente como o reflexo do sistema imperialista. E também a outra parte, que é se calhar das crises mais mediáticas que temos tido nos últimos anos.
e nada acontece, nada muda, continua, apesar de ICJ a ter declarado, todas as partes legais terem sido confirmadas mesmo assim, continua a ser alimentado, continua a ser financiado, nós continuamos com ligações com Israel, Portugal, continua também envolvido, a União Europeia cúmplice, portanto, como não, como não ir?
As pessoas pensam que os ativistas que vão na flutilha ou em qualquer outra missão militar como esta são privilegiadas e...
o que é que tu abdicaste para poder ir? Tudo, tudo, mas abdicaria outra vez, não é? Aliás, neste momento estou a pensar em como arranjar fundos e formas de gerir a minha vida para ir novamente ou para fazer outra coisa ou para agir. Abdiquei de tudo, de tudo, sendo que para mim a coisa mais difícil foi de...
o abdicar do sossego e paz das pessoas que me amam, é que me querem, enfim, que sofreram também muito com isto, mas todas as coisas mundanas, parte financeira, parte de tempo, parte de trabalho, parte da universidade, parou. Dito isto, eu sou uma pessoa privilegiada, porque a maioria das pessoas que participaram na flutilha são do sul global e não têm um mínimo dos privilégios, uma porcentagem dos privilégios que eu tenho.
já assim, fui uma pessoa privilegiada sim, no sentido em que tenho passaporte europeu, Schengen pronto, claro, foram umas semanas muito intensas, fizemos amizades enfim, aonde ser para a vida, imagino eu e ouvimos muitas histórias e é impressionante
O tipo de pessoas que lá estão, na sua esmagadora maioria, são pessoas que têm preocupações e que têm dificuldades e de todas as idades. Temos uma senhora de 85 anos lá também, tínhamos... Enfim, todo o tipo de situações. Quando dizem isso, sinceramente esse comentário é daqueles que nem me chega porque é tão... nem sequer mexe comigo por ser tão fora e por eu saber aquilo que eu...
Dei também, dito isto, dava mil vezes porque não tem cooperação com aquilo que se perde lá. Falaste no início sobre a inação, não é? Não só dos governos e também das pessoas, que eu se calhar compreendo que estejam cansadas e claro que os palestinianos estão mais cansados. Creio que Israel está a conseguir vencer a mobilização pelo cansaço.
porque também deixa de ser novidade, por exemplo, sentiste desiludida quando chegaste, com a falta de atenção? A normalização disto e com tudo o que está a acontecer, acho que há um limite humano para recebermos toda esta informação, toda esta injustiça e agirmos sobre isso. Eu também estava a sentir o mesmo. Não sei se desiludida é a palavra, mas frustrada, talvez. Zangada, mais uma vez, a palavra zangada, de volta outra vez. Mas eu entendo, porque... Com raiva.
muita raiva, mas raiva dirigida raiva mais focada que nunca eu entendo das pessoas, dos indivíduos claro, temos um limite, mas eu acho que isto também foi
criado para ser desta forma, ou seja, Israel foi fazendo um passinho mais cada vez, uma coisinha a mais e manteve-se impune, foi puxando os limites cada vez mais e mantendo-se impune, neste momento, nestes dias, três dias, perdi a noção de tempo, veio até à Grécia para raptar 181 pessoas, 181 civis, estava a levar ajuda humanitária e nada aconteceu, nada aconteceu, portanto eles sabem que podem fazer isto, puxam um bocadinho mais e empurram, são mais violentos, são mais etc. Obrigado.
essa parte é muito frustrada, a impunidade, o que é que isso diz de nós? O que é que isso diz de nós, da ordem global, da lei internacional, já nem falo, mas o que é que isto significa se isto também ficar impune? Portanto, sim, estamos todos cansados, estamos todos com imensa injustiça à nossa volta, e no entanto...
aparecemos. E, no entanto, passamos duas semanas em barco com pessoas a vomitar por todo lado, pessoas doentes, com todos os esforços, com, enfim, condições muito difíceis e continuamos. E sempre continuamos. E agora aconteceu isto e há coisas a continuar. A benção não acabou. Há duas pessoas que ainda não voltaram. E, portanto, até voltarem não acabou. Até o bloqueio ser acabado também não acabará. Se calhar ficaste com pena, se calhar não chegar não sei se bem a palavra certa, mas pronto. De não chegar mais perto, de ver a terra da Palestina.
Não é uma coisa que me está a deixar triste, porque está muito claro na minha cabeça que é só uma questão de tempo. Portanto, sim, não foi desta vez, mas será. Será de uma forma ou outra, tenho bastante confiança que será. Inclusive, no meu barco também estava uma pessoa de descendência palestina, e ela estava a pensar, quando achávamos que íamos ser levados para a prisão israelita, disse, bem, pelo menos vou pisar a Palestina pela primeira vez, vou voltar à minha terra pela primeira vez.
Portanto, sim, não foi desta, mas será na próxima. Durante a viagem houve alguma situação que te fez pensar que era possível uma outra solução? Uma das que mais me impactou foi, no final, nas últimas horas que estávamos sequestrados, ou seja, após o caos da maior violência, quando nós fizemos exigências de medicação, cobertores, enfim, e dos nossos camaradas que tinham desaparecido.
quando fizemos essas exigências e nos recusamos a sair até que os nossos caminharados voltassem, houve muita violência e após essa violência, após o caos, que foi ao mesmo tempo que eles nos queriam tirar para a embarcação grega, ou seja, vimos toda aquela violência, sem saber o que estava a acontecer, o barulho, os tiros, tudo mais, voltaram-nos a pôr no chão já com os coletes salva-vidas postos.
E estávamos exaustos há dois dias em greve de fome, 61 de nós estávamos a fazer greve de fome. Portanto, estávamos exaustos, sobrenutridos, doridos em pessoas brutalizadas. Mas ao passarmos os corredores, víamos poças de sangue. Nesse estado estávamos mais uma vez os olhos...
no frio, enfim, à espera de saber, sem saber o que é que ia acontecer, e começava-se a ouvir alguém a cantar, e depois alguém a cantar, e depois alguém a juntar-se. A primeira vez que foi cantar de facto, enfim, perceberam quem era, brutalizaram essa pessoa, ameaçaram-nos a todos, depois...
Passaram os momentos de silêncio, alguém começou a assobiar, outra pessoa a assobiar, juntaram-se mais uma vez e, por último, simplesmente estávamos de boca pesada a cantar o Bella Ciao. Foi uma sensação incrível porque nenhum de nós conseguia ver, nenhum de nós, foi a certeza de que estamos juntos, de não estar sozinho, eu estou ao teu lado também.
eles não sabiam onde é que vinha a canção não podiam saber então aquilo foi um momento muito bom havia sempre coisas dessas nos piores momentos havia alguém que iniciava um movimento ou uma ação um ato da resistência completamente e espalhava-se era como fogo, espalhava-se e ajudou-nos muito e agora para a frente
Eu ainda estou nesta missão. Acho que até o Tiago e o Saif voltarem ainda estamos a reorganizar. O que aconteceu é quando nos encontramos todos, quando de facto chegamos todos à Terra, antes de chegarmos todos à Terra também recusamos a sair, mas quando chegamos todos à Terra e nos encontramos todos...
Conseguia-se ver, conseguia-se sentir, conseguia-se gerar a terminação e a raiva dirigida que estava e a força que estava. Cada vez mais clareza, mais ideias, portanto não faltam coisas. Neste momento o nosso foco é o Tiago e o Saif. Essa é a prioridade e isso é a nossa prioridade e é aquilo que estamos mais preocupados.
Quando tu chegaste, a primeira intervenção que fizeste foi que não queres ser uma figura pública, mas as pessoas querem saber quem és. Sim, exato. Pois, isso nunca foi a minha intenção e não é nada, posição de nada que eu esteja, nada confortável. Claro, no entanto, aproveito, aproveito por ter o mínimo de plataforma para falar das coisas que têm de ser faladas.
Mas relembrar que a experiência não é nossa. Também recebemos muitas mensagens lindíssimas e com muito amor e com muita força a falar de nós, mas não é de nós. Claro que nós vamos, mas não é por nós. E a história não deveria ser nós, indivíduos. Temos que pensar porquê que estamos a fazer isso. Acima de tudo, porquê que civis estão a se meter numa flutilha, num barco durante semanas para fazer uma coisa que...
Sabemos que é arriscada, que corremos perigo, vários perigos. Porquê que têm que ser civis? E, a seguir, porquê que esta flutilha de civis, mais uma vez, não armados, não violentos, com ajuda humanitária, foi parada? Porquê que criaram uma prisão do zero, dentro de uma embarcação, para parir?
181 zeninguens que estavam ali a levar ajuda humanitária é preciso lembrar-nos do porquê e o impacto que isto tem e porquê que tem impacto e porquê que continuam a gastar todo este esforço, todo este dinheiro em parar meios e de barcos para ajuda humanitária
Agora eu quero saber porquê que são necessários civis a irem em barquinhos até a faixa de casa. E também já agora, o que é que levavam nos barcos? Porquê? Porque os governos... Quem devia estar a fazer, desde há décadas atrás, não só não está a fazer, como está a alimentar estes no sítio também. Seja por formas diretas ou indiretas, está a alimentar isto também. Portanto, a desilusão com a lei internacional foi precisamente quando houve...
o Tribunal Internacional de Justiça que fez a condenação, fez a designação do genocídio e nada aconteceu. Netanyahu continuou a pisar territórios que fazem parte da União Europeia impune, voltou a se continuar a sair, portanto...
Já não confiava muito, mas aí foi a desilusão final. Portanto, são civis a fazer isto porque os governos, quem devia estar a fazer, não faz. Não, só não faz, como ajuda àquilo que está a acontecer. O que é que levávamos? Portanto, havia alguns grupos de ajuda que nós levávamos em bens materiais, mas em pessoas também. E as pessoas ainda não partiram de Barcelona, portanto ainda estão em terra.
Bens materiais, comida, muito equipamento médico e uma grande parte também veio de material escolar que as crianças de Barcelona juntaram para dar. Nós tivemos a oportunidade de revistar as mochilas para ver se estava tudo em ordem e acabamos por ver cartas de crianças para crianças. Enfim, eu como educadora essa parte mexeu-me muito comigo. Portanto, levávamos material escolar, comida, medicação e equipamentos médicos.
E levávamos também, ou levaremos, ainda vamos ver, médicos, educadores e pessoas especialistas em construção para ajudar na recuperação e na restauração de Gaza, para eventualmente desembarcarem e ajudarem lá. Eles já estão, eles têm, não precisam de caridade, não é?
o povo que tem resistido este tempo todo. Era alguma coisa para podermos ajudar em solidariedade com o recurso do Estado de Casa. Quando vês centenas de pessoas à tua volta que fizeram os mesmos sacrifícios ou muito maiores sacrifícios e estão lá na mesma e com todas as condições mais difíceis que possas imaginar e estão lá e continuam apesar disso tudo.
choram, cantam, abraçam-se seguem em frente, a canção na verdade bem, nós conhecemos pela nossa relação com a música e foi emocionante que isso foi uma das coisas, tínhamos muitas línguas muitas pessoas não partilhavam a mesma, não sabiam a mesma língua, não sabiam problemas de tradução a música aparecia sempre de uma maneira ou de outra as canções
e foi uma coisa que nos ligou muito uns aos outros aproveitei também no 25 de Abril para cantar a Grândola com as companhias da Galícia também foi um momento de respirar agora eu disse o Clemara aqui eu e a Joana conhecemos há muito tempo estudamos na mesma escola e depois até colaboramos noutras situações profissionais em que eu era diretor de uma revista e a Joana também colaborou comigo e os dois tocamos Vila ao Céu só
a uma altura da nossa vida eu pedi a Joana para me dar aulas de balançal porque queria voltar a recuperar esse talento outras vidas já passamos por muitas coisas diferentes mas sim, isso ficou isso foi uma das coisas que se manteve
E por acaso lembrei-me de ti, no 25 de abril lembrei-me de ti, porque normalmente sou sempre em Portugal, foi o primeiro 25 de abril que não passei em Portugal e estava a querer fazer alguma coisa, mas estávamos com muito trabalho, estávamos a tentar arranjar os barcos, eu estava frustrada por não poder fazer poço nenhum, nem nada, e de repente estava a soldar uma... eu nunca fiz eletricidade na minha vida, nunca mexi com nada, não sei nada, mas estava a soldar cabos de eletricidade, enfim.
e estava triste por não poder fazer nada para o 25 de Abril e começa a ouvir os passos da grândula ao longe como? o que é que se passa? e de repente começa a ouvir grândula salto de um marco para o outro a correr e são os colegas galegos porque na altura o Nuno estava noutra zona ou seja, eu achava que era a única portuguesa e eram os nossos camaradas galegos que estavam a cantar grândula juntamos eles a correr e cantamos grândula até ao fim enfim, foi um respirar sim
Então me lembrar que não só, ultimamente também colaboramos noutras situações acerca de ativismo acerca de imigração
Esse é um assunto que se calhar vale a pena falar por si só, não é? Enfim, também tem toda a implicação, mais uma vez, da complicidade da União Europeia. Mas uma coisa que é parecida, que também era impossível não falarmos, seja na Flutilha ou aqui, é que toda esta missão até agora foi passada no Mediterrâneo, que é, enfim, campo aberto de milhares de milhões de pessoas que por lá ficam.
E isto também é difícil, estarmos a passar em águas internacionais nas nossas seguranças, nos nossos passaportes, nos nossos barcos, sabendo que temos pessoas à espera, sabendo que temos ligações e sabendo que estamos a passar por cima de milhares de corpos que não...
que não foram vistos como pessoas, como humanos. Mais uma vez traz à questão do papel da União Europeia nas pressões de refugiados, de pedidos de asilo e tudo mais. Que leva ao nosso colega Álvaro Rahman, mas se calhar acho que isso é uma coisa por si própria que podemos falar. Quer dizer, mas que acaba por estar tudo ligado. Mais uma vez estamos a falar da complicidade, da impunidade, o facto do Abel estar em prisão administrativa há quatro anos, se não me engano.
Caminho do quinto, sim. É tal coisa. Agora como o Tiago e o Saif estão em prisão, porquê? Quais são as queixas? De onde é que vêm?
acaba por estar tudo ligado. E é isso que estamos a lutar, não é só a Palestina. É claro, nós voltamos sempre a falar da Palestina, porque, enfim, é uma das coisas mais mediáticas, mas é o epicente de todas estas coisas, porque se há impunidade para uma coisa, permite-se a impunidade para as outras coisas também. Nós percebemos que temos equipas inteiras dentro das forças israelitas dedicadas à flotilha, por exemplo. Quer dizer, porquê tanta pressão para nos parar?
E o que é que estão a parar? Tal como o Abdul, o que é que estão a tentar parar?
Nós vimos este sequestro de cidadãos por Israel à frente entre Grécia e Itália. Se isto tivesse sido qualquer outro país, como é que estava a ser falado? Se nós estivéssemos a falar de uma embarcação russa que tinha vindo até a Grécia, captado de 181 pessoas e pronto, e torturado... Se fosse o Irã, por exemplo, não é? Se fosse o Irã, nem...
nem estou deixando aí é a situação mais drástica de todas eu penso que qualquer outro país eu não imagino outro país que tivesse a mesma reação que esta qualquer outro país, se tivesse feito a mesma coisa isto seria um escândalo que seria impensável e seria impensável sequer qualquer outro país fazer isto porque sabiam que seria impossível passar impunes na ordem global e no entanto cá estamos nós, ainda estão lá duas pessoas só um só só um só
E nada mudou. As pessoas estão a pedir mudança, as pessoas estão a mudar, mas governos mantêm silêncio. Portanto, se imaginássemos isso, se isto fosse outro país. Da mesma maneira, aquilo que estão a fazer aos palestinos.
Tentem só imaginar a mesma coisa, se for difícil às vezes nas conversas para explicar a outras pessoas porquê é que são tão ativistas, tentem fazer a comparação se isto fossem pessoas portuguesas. Seria impossível de aceitar isto. Porquê é que aceitamos com pessoas palestinas? Claro, voltamos ao fascismo, voltamos ao double standard, tudo isto antes de terem feito...
todos os esforços nas flutilhas anteriores, seja primeiro por chamarem turistas, ou por selfie boat, ou party boat, ou agora informação, ou o que seja, continuamos a andar, as pessoas, não só nós, mais uma vez, eu acho que a flutilha é importante, mas acho que é uma parte de mil partes. As pessoas continuam a fazer e o facto de terem feito isto, de nos terem deceitado tão cedo, também demonstra que alguma coisa estávamos a conseguir.
Eu tenho uma teoria porque é que foi tão cedo, porque quanto mais perto, mais esperança, mais mobilizador é para o resto do mundo, e quanto mais longe, mais distante é o objetivo, ainda não tem a força necessária para mobilizar. Sim, verdade, verdade. Além de terem raptado um líder importante. Nos mídias, de facto, o diabo parece que...
quase como um líder, mas a organização não funcionava. Eu às vezes via, enquanto estava a trabalhar nos barcos, via os posts e as mensagens e achava estranho esta figura do Tiago porque não é isso que acontece no terreno. Mais do que o Tiago, eu acho que foi uma forma também de conseguir raptar o SAIF, porque o SAIF não iria até ao fim, em princípio, portanto, não era suposto continuar.
Houve a tentativa de desmobilizar, houve a tentativa de dividir a missão e perceberam que se calhar que não resultou, não resultou suficiente. Também iremos juntar outras embarcações mais tarde no caminho.
Portanto, iríamos ter mais, cada vez mais. E mesmo assim, eles conseguiram interceptar 21, mais um, 21 dos barcos, foi menos notado. Dizer que 21, porque 22, eles não foi só interceptar, não fizeram o sequestro da mesma forma, incapacitaram o motor e deixaram as pessoas à deriva numa tempestade.
Supomos nós, ou imaginamos nós, o Open Arms estava connosco, era uma forma de pôr o Open Arms ocupado com eles. Esta é a completa suposição, não há factos aqui nenhum, mas de facto que incapacitaram o motor e deixaram pessoas à deriva no Mediterrâneo, no meio da tempestade, isso aconteceu. Portanto, a questão da Grécia, da complicidade da Grécia, que nós ficamos chocados. Nós tivemos que lidar com três equipes diferentes da polícia, não sei se faz sentido falar disso ou até quanto.
porque tiveram a atrasar-nos a nossa chegada ao aeroporto durante 9 horas, recusaram-nos comida ou informação, ou os nossos passaportes, que eles já tinham em sua posse, durante cerca de 9 horas, e enfrentamos a polícia de intervenção também, quando já estávamos a pé, a caminho do aeroporto, mas enfim, depois de enfrentarmos, de termos passado 2 dias com as forças de intervenção, as forças israelitas, as forças de intervenção gredas não eram assim tão assustadoras.
O que fizemos foi entrelaçar braços e seguir caminho e elas afastaram-se. Foi surpreendente o nível de participação e de agressividade que a polícia grega teve connosco. Trataram-nos como prisioneiros desde o início, receberam-nos com armas.
e enfim, tinham os nossos passaportes em sua posse, recusaram-nos a dar, nos usaram os nossos passaportes como forma de nos atrasar a chegada do aeroporto, depois percebemos que no aeroporto havia uma manifestação para nos apoiar, eu acho que estavam a tentar atrasar isso, enfim, mesmo as pessoas que foram ao Médicas de 31, pessoas que receberam cuidados médicos, o hospital recusou-se a dar os relatórios médicos aos indivíduos, que nós sabemos que também não deveria ser permitido, portanto, uma série de coisas que aconteceram.
pelas autoridades gregas, que mostram a colaboração direta com as forças israelitas. Tiraram-nos os passaportes logo no início, destruíram toda a ajuda humanitária que nós tínhamos, roubaram os nossos pertences e quando começou a violência, ou enfim, a violência durou todo este processo,
resultou em lesões graves. Tivemos contusões, tivemos fraturas cranofaciais, tivemos ombros deslocados, tivemos sangue por todo o lado. Eles fizeram questão de tirar algumas pessoas aleatoriamente, parece, os sapatos e os casacos. Ou seja, estávamos no meio do Mediterrâneo à noite. Muitas destas pessoas estavam descalças e sem casacos. A primeira noite eu dormi de t-shirt.
E no dia seguinte, quando pedimos cobertores, porque estávamos dormindo no chão, o que eles fizeram, não nos deram cobertores, o que eles fizeram foi durante a noite alagar o chão. Ou seja, as proteções de espuma onde nós estávamos deitados ficaram completamente encercados porque de propósito alagaram o chão todo. Ou seja, ou não te podias deitar ou ficavas molhado no frio e ficamos enregelados. Houve uma das pessoas...
Uma das participantes que inclusive deixou de conseguir andar, de tal forma estava em hipotermia, nós acabamos por fazer sapatos de plásticos das garrafas, enfim, foi propositado para criar.
dor para criar o stress psicológico também e da mesma forma, do outro lado a hipotermia a forma que nos obrigavam a ficar para as contagens que não eram contagens ao sol, também tivemos queimaduras solares pessoas perderam consciência um dos camaradas acabou por ser atingido por um tiro também de uma bala não letal
Para além de todo o abuso psicológico, a privação de sono, os constantes de hora em hora, bater nos contentores, berrar, ameaçar, arrastar as pessoas de um lado para o outro, arrastar as pessoas com a cara no chão, pegar nas pessoas pelo pescoço e bater com a cabeça nos contentores, enfim, tivemos de...
de tudo, e privação de comida. Ou seja, nós éramos 181, 61 de nós, eu incluindo, estávamos a fazer greve de fome, e mesmo assim a comida não foi suficiente. A comida que foi dada foram 3 pães por dia, e mesmo assim, apesar de um terço de nós quase estar a fazer greve de fome, não foi suficiente.
Sem condições de higiene, sem condições de nada e a partir do segundo dia começaram a recusar medicação também. Era isso que estávamos a exigir quando a parte mais violenta começou. E quantos dias é que tiveram detidos ou capturados?
se não me engano porque me foi dito disseram-me 40 horas portanto foram duas noites e um dia e meio mas para nós a passagem do tempo era muito estranha fazia uma questão também de nos confundir em relação a isso, nós conseguimos perceber os dias a passar e o tempo a passar pelo sol, mas também pelas orações das pessoas muçulmanas que lá estavam a primeira vez quando o sol apareceu
Algumas das pessoas que eram muçulmanas lá começaram a orar e o que aconteceu foi que mal iniciaram as orações. Teram três ou quatro militares com armas. O que aconteceu foi que todas as pessoas fizeram uma parede mais à frente das pessoas que estavam a orar, impedindo dessa forma que os militares chegassem a tempo. Portanto, puderam terminar o seu momento e depois os militares chegaram até lá. Tudo o que pudessem ver de vulnerabilidade usavam isso. Uma coisa que me perguntaram...
foi se eu achava que alguma daquelas pessoas que lá estava, dos militares que lá estavam, se eu achava que estavam lá porque estavam só a cumprir ordens. Essa foi uma pergunta importante, porque não, pelo contrário, ninguém lá estava neutro, parecia que tinham um prazer, na sua zona de conforto, ativamente divertidos, a fazer tudo o que estavam a fazer, e quando apareciam vulnerabilidades nas pessoas, ou viam que alguém estava a se correr por alguma coisa, aproveitavam isso para piorar a situação.
Tu tens formação em primeiros corpos por isso ou sabes bem do que é que estás a falar quando estás a falar de hipotermia e todas as situações e danos físicos e a tortura que sofreram.
Sim, e contusões também. Eles faziam questão também de criar dano que não fosse muito visível também. E apesar disso, como viram nas fotos, enfim, tivemos coisas muito gráficas, mas sim, o maior medo das pessoas que estavam, dos médicos estavam lá e das pessoas que estavam lá, eram as pessoas que agora mostram contusões e perderam a consciência, perderam a memória, temporariamente, felizmente.
Enfim, vemos agora também que estão a fazer o mesmo atiado, que aparentemente relataram que nem ficou cego de um olho durante uns tempos. É prática. Esta maldade é prática comum, tanto física como psicológica. E que, sinceramente, teve o mesmo peso. Se calhar mais forte a violência psicológica que fizeram do que a física. Se estas coisas estão a soar gráficas ou se estão a soar difíceis de ouvir.
Não foi nada comparado com o que fazem todos os dias aos palestinos. Nos relatos que eu ouvi foi que os militares israelitas exerceram força violenta porque os ativistas estavam a tentar impedir o rapto desses dois ativistas que foram detidos. Não sei se tu assististe a essa situação.
Sim, assistimos todos. A violência começou um pouco antes disso. A violência gratuita começou quando eles disseram-nos que nós tínhamos que sair da embarcação de grupos de 10 e nós recusamos sair até 4 companheiros.
que tinham sido levados violentamente horas antes, ou um deles dias antes, regressassem para a nossa beira. E foi aí que começaram a levar-nos forçadamente para fora, ou tentaram levar-nos forçadamente para fora desse sistema prisional de contentores. E continuamos sempre a não obedecer um protesto não violento, simplesmente não obedecendo...
para não sair do barco até vermos os nossos colegas. E todos nós mantivemos sempre, tentamos o máximo possível, mantermos calmos sem obedecer e arrastaram-nos um a um. E o Tiago e o Saif foram, entretanto, também levados. Mas inicialmente, as exigências que nós fizemos inicialmente, a razão porque nos recusamos sair do barco, era porque ainda havia quatro camaradas que nós não sabíamos onde é que estavam, não sabíamos.
em condições em que estavam, foram vistos, nós vimos-los a serem retirados violentamente após uma agressão e não sabíamos em condições em que estávamos. Portanto, nós dissemos, saímos quando os nossos camaradas estiverem de volta ou quando os vimos. No final já estávamos a tentar negociar só para os vermos, para termos prova de vida. Isso foi recusado, então começaram a retirar-nos forçosamente e o Tiago e o Saif foram dois deles.
assististe à atenção do Tiago e do Saif e agora o que é que achas que vai acontecer com eles? Bem, tendo em conta o percurso de ativista de ambos, sabemos que o risco que eles correm é muito grande. O Tiago já sabia disso antes de ingressar nesta futilha também.
Aliás, pelos vistos, soubemos que algumas embaixadas foram contactadas por Israel com a informação de que quem fosse detido pela terceira vez iria passar por um sistema judicial diferente. Não sabemos muito bem o que é que significa, mas este é o caso do Tiago, que já é a terceira vez detido. Portanto, sabemos que...
Está a haver um processo diferente para ele e para o SAIF, por causa da identidade palestina, com certeza está a haver também outro processo também. Há detenção e julgamento e tudo isso, mas sabemos que estão a ser testurados, ambos, com níveis que ainda não tínhamos visto na refletida.
Portanto, o que é que lhes pode acontecer? Tudo. Não sabemos até onde é que podem ir. Por isso é que ainda estamos em missão, por eles. Porque eles ainda lá estão. E precisamos de exigir aos Estados que não permitam esta situação. Muita gente que me pergunta o que é que posso fazer. O que é que posso fazer e, como falámos no início, menos mobilização porque as pessoas estão cansadas e há muitos outros temas.
O que é que as pessoas podem fazer realmente que funciona neste momento? Houve uma mobilização muito grande para a flutilha anterior, mas agora parece que não há força civil para poder lutar contra isto. O que é que é preciso fazer? Como é que conseguimos fazer isso?
Eu gostava de ter uma resposta, eu também estou à procura de resposta. Eu, por mim, estou a tentar fazer tudo aquilo que é possível, sinceramente, não sei o quê. Não podemos ir todos numa flotilha gigante, não sei. Podemos, essa é a intenção também nesta, ser a maior de sempre. Porque nós temos que nos lembrar que estamos a falar de civis, o que é que os civis podem fazer quando estão...
a tentar compensar a falha de governos mundiais e de forças gigantes. Portanto, o que é preciso fazer e o que falta é a revolução. É a revolução. As pessoas irem para a rua, para a Itália, fazer greves, boicotes e basicamente o que você já estava a fazer antes.
Todas as mobilizações, toda a disrupção, incomodar, boicotes, os boicotes estão a funcionar, mas é preciso toda a gente também, não é? É preciso toda a gente. Quando achamos, eu acho que é isso que é difícil entender, é difícil manter a crença nisto de que as pequenas ações também têm impacto, tenham, se forem em conjunto, mas sim, é preciso...
Agir quando os governos não agem, é preciso incomodar, é preciso não aceitar, é preciso ficar ultrajado e dar um passo, seja o que for. Seja o que for, é preciso não parar de agir. Mas sim, estamos cansados, não devíamos ser nós, não devia ser nenhum de nós, mas cá estamos, acho que estamos num ponto de viragem, acho que estamos quase...
num ponto de viragem que ainda vamos sofrer bastante. Tenho esperança. Depois de ver estas pessoas a trabalhar ao meu lado, tenho mais esperança do que tinha antes, mas acho que sim, precisamos de um futuro novo, precisamos de uma ordem nova, precisamos de evolução. Acreditas que a Palestina será livre?
Sim, acredito. Acredito. A Palestina, os palestinos são em si próprios já. Eu tenho estudado bastante também na parte da ação humanitária a realidade palestina, mais na parte da educação por causa das novas palavras que foram criadas só para a questão palestina.
eduicide e scholasticide, foram criadas de propósito para a forma como Israel sistematicamente destrói os sistemas educativos, a forma como estrategicamente atacam escolas e hospitais também. Na minha área de estudo, a parte de educação.
tem demonstrado o poder da educação. Apesar de tudo isto, como sabemos, a Palestina tem dos índices de literacia maiores do mundo e dos índices de... Não, deixa-me refletir. E da igualdade de género de literacia também maiores do mundo, apesar destas décadas de genocídio. Portanto, eles sabem que a educação é uma arma muito forte. Portanto, quando vemos muitas vezes os ataques que acontecem a uma escola ou a um hospital ou a uma escola, então...
Isto é propositado. Ou tentar apagar, fazer o apagamento da memória, o apagamento da cultura da Palestina. Isto para dizer à tua pergunta se acho que a Palestina é livre. De certa forma já o é, porque nós vemos isso nas histórias e nos testemunhos das pessoas no terreno. Como continuam a escrever, como continuam a contar, como continuam a manter viva a Palestina. Portanto, eu acho que de certa maneira já é. E na prática, geograficamente, sim.
O sistema zionista é insustentável, está a comer-se a si próprio, portanto sim, acho que sim, espero que seja no meu tempo de vida, mas sim, sei que será, livros. É semelhante ao fim do Império Português, com a colonização dos países africanos, em que no final do Império uma violência muito maior começou a acontecer para manter esse sistema. Eu acho que ainda vai haver muito mais violência antes de chegar à liberdade e autodeterminação dos povos.
nenhuma das ações, nenhuma das nossas lutas vai ser suficiente todas serão suficientes portanto o que interessa mais é agir da forma que nos é possível agir, esta é uma, haverá outras todas juntas poderão fazer esse cair da tela poderá ser feito todos juntos
Já falaste antes que recebeste muitas mensagens de pessoas a dar força e que não importava muito vocês. Sentes que és uma heroína por teres ido na flutilha? Não, isso faz muita confusão e tem sido muita dissonância cognitiva também ouvir essas palavras e ouvir essas coisas. Não de maneira nenhuma, eu acho que é...
o mínimo, com os meus privilégios, sou nova, tenho saúde, tenho passaporte português, tenho aproveitado todos os confortos da segurança da situação em que estou, geográfica, política, apesar de, mas ainda assim toda a segurança que tenho em comparação com a Palestina.
Como não? Portanto, não. Nenhum de nós é herói ou heroína e faz-me muita confusão ouvir essas palavras. Eu sei que as intenções são boas, mas faz-me confusão ouvir essas palavras. Estamos a responder a uma chamada e a coordenar constantemente com aquilo que é necessário ou não na Palestina por pessoas que estão lá.
E o que estamos a fazer é o mínimo, é aquilo que nos é possível dentro do nosso estatuto civil, e não violento também. Aquilo que estamos a fazer é o mínimo dos mínimos para responder, mais uma vez, à falha daquilo que os governos deviam estar a fazer. Portanto, não, rejeito isso. Sei que as intenções são boas, mas é importante pôr-nos o foco onde é necessário, que é para o Estado. Eu às vezes lembro-me de uma viagem que fiz na Bosnia. Fui a Sarajevo e fui ao Museu da Guerra.
e é incrível ver o Museu da Paz e o Museu da Guerra. Não tenho agora a certeza de nomes, há dois museus, um fotógrafo que fotografou o Junocido em Sobrinica e depois há outro museu que é o Museu da Paz, onde tem muitos bilhetes de pessoas a pôr o agulhante de mensagem e dizer nunca mais, nunca mais. Sim, nunca mais para quem, não é? Nunca mais...
depois disso depois de acabar de voltar ouvir essas palavras ou dizer essas palavras nunca mais quando está sempre a acontecer é difícil de desmanter é difícil de é difícil de continuar a dizê-las quando está a acontecer sempre o que é que faz falta?
Revolução. É o que faz falta. Quando falamos, convidei-te aqui para falar aqui no podcast o que faz falta, pedi-te trazer alguns livros. Que livros é que trouxeste?
Sim, então, quando me desiste essa pergunta, pensei que há imensos livros muito bons sobre a Palestina, sobre a história, sobre tudo isso. Um deles que trago-se mais para mostrar, porque é um dos últimos tentados comigo, se calhar é o Palestine Laboratory, que explica um bocado todas as ramificações que tem o que Israel faz para além da Palestina. Mais para a minha zona de conforto, eu trouxe um livro infantil, espero que seja.
adequado porque, enfim, é da minha área também de um escritor que é o Oliver Jeffers ele é bastante ativo também na causa palestina e noutras causas também, ele é escritor e ilustrador e quando me fizeste essa pergunta eu estava a olhar para a minha biblioteca e o destino de Fausto apareceu e eu queria só comentar queria só contar um bocadinho do que é o destino de Fausto porque acho que este livro é relevante não só pela mensagem que passa mas também porque estamos a falar de só
da flutilha, ou após a chegada da flutilha. Este livro conta a história de um homem, o Fausto, que acha que é dono de tudo, acha que tem direito a tudo e que nunca fica satisfeito e quer sempre mais, quer ser dono de tudo e reclamar que tudo é seu. Ele encontrou uma flor e diz, tu és minha. Encontrou uma montanha e diz, tu és minha. Encontrou um animal, diz, tu és meu. Encontrou o mar e diz ao mar, tu és meu. E o mar diz, não, não sou teu.
E o Fausto fica muito zangado e diz, não, és meu, eu vou bater o pé no chão, porque és meu. E o mar diz, ok, então mostra-me que faz isso, mostra-me que sou teu. E o Fausto, muito zangado, bateu o pé no chão. Mas o Fausto não compreendia o mar. Para além de não compreender o mar, também não sabia nadar.
Quando bateu no pé no chão, passou a compreender. O mar ficou triste por ele, mas continuou a ser o mar. A montanha também voltou à sua vida normal. Todos continuaram a ser como eram, pois o destino de Fausto não era importante para ninguém. E acho que é uma boa forma de pensar no futuro. Como é que será depois? Depois que continuará, a vida continuará, a montanha estará lá, o mar estará lá, porque, enfim, ele não compreende. Ele não compreende o que é o mar.
É isso, realmente é... foi profundo, fiquei a pensar no que... nessa história, realmente foi mesmo profunda. Eu gosto muito desta história. Fica sem palavras, não é habitual. Olhando para a Swannock, anda na escola comigo, o que é que lhe dirias hoje e... O que é que dirias? Gostei dizer que davas.
que não está sozinha que parece que está sozinha mas não está e que há muita gente há muita gente que também está muito zangada pode ser uma pessoa que está ao teu lado pode ser uma pessoa que está do outro lado do mundo como vimos agora nesta missão mas não está sozinha fazem-nos pensar que estamos sozinhos mas não estamos e diria também que as coisas vão ficar pior mas depois vão ficar melhor e que vale a pena, acho que diria que vale a pena
Que esperanças é que tens para o futuro? Depois de ter passado dois dias em prisão, esperanças. Vivemos em um momento de muita tensão no mundo e às vezes falta assim um pecado de esperança para poder acreditar que outras coisas podem existir e que isto não é uma única solução para o mundo, que existem outras possibilidades. Se pensares em alguma coisa que nos dá esperança, o que é que será?
Eu acho que é o facto de ainda estarmos a tentar. Acho que o facto de ainda estarmos a tentar ir contra um dos grupos mais poderosos do mundo, não só esse grupo, mas tudo o que está a acontecer agora no mundo, apesar de estarmos exaustos e continuarmos a tentar, e continuarmos a falar, e continuarmos a pormos em barcos minúsculos para tentar chegar aos palestinos, acho que é o facto de continuarmos a tentar. Apesar de tudo, continuamos a tentar.
Deixamos só dizer que foi um prazer receber-te aqui. Nós somos amigos e desde o primeiro momento que vi aqui, quando ia ser, já sabia, não sei porquê, tive uma sensação que ia na Flotida. De alguma forma, não sei se foram sinais que foste partilhando, mas foi realmente um prazer voltar a falar contigo aqui à distância. E estamos juntos para o futuro, para este movimento pela libertação da Palestina, contra o colonialismo, o neocolonialismo, e precisamos todos de nos mobilizar de alguma forma.
Obrigada, foi um enorme gosto de estar por falar contigo e Free Palestine O que faz falta é um projeto totalmente independente respeita a descrição, há formas muito simples de ajudar como cantava o Zeca venham mais cinco de uma assentada conto contigo para espalharmos esta mensagem porque o que faz falta é agir Muito obrigado por estares desse lado