OQFF | 29 | Próxima Revolução? Matriarcado Instaurado
Próxima Revolução: Matriarcado Instaurado | O Que Faz Falta52 anos depois do 25 de Abril, os arquivos históricos continuam cheios de homens. Esta conversa não. Conversei com Isabel Viana, Joana Machado e Susana Marques . Três mulheres que não se levantam do autocarro falam sobre o que a revolução prometeu, o que cumpriu, e o que ainda faz falta, enquanto professores continuam a chamar ao Tarrafal um campo de férias e manifestantes saem à rua contra o direito ao aborto em 2026.--------------------------------------------------------------------Destaques do Episódio:00:00 – 25 de Abril vistoO de onde sempre esteve09:00 – "Sempre soube que estavam cá" — crescer rodeada de quem romantiza o fascismo19:00 – A petição que chegou à Assembleia da República38:00 – Quando os homens não riem é porque está a funcionar47:00 – Dupla jornada, terapias de conversão e o que não estamos a discutir58:00 – A próxima revolução é das mulheres-------------------------------------------------------------------O QUE FAZ FALTA PRECISA DE TI. Para seguir em frente, são necessários 500 Mecenas, mas atualmente contamos apenas com 18. Sem a tua ajuda, o projeto não será viável e poderá chegar ao fim. Garante que irás continuar a ouvir vozes dissidentes que apenas encontras aqui.--------------------------------------------------------------------👉 Torna-te Mecenas: https://buymeacoffee.com/oquefazfalta👉 Paga-me um café (doação única): https://buymeacoffee.com/oquefazfalta👉 Subscreve o Substack: https://oquefazfalta.substack.com/SABE MAIS EM WWW.OQUEFAZFALTA.COM
Luís
Isabel Viana
Joana Machado
Susana Marques
- Direitos das MulheresDireito ao aborto · Violência doméstica · Desigualdade salarial
- Retrocessos sociaisDireitos LGBTQ+ · Terapias de conversão
- A Revolução dos CaranguejosPerspectiva feminina sobre a revolução · Figuras femininas do 25 de Abril
- Mulheres e EmpreendedorismoDupla jornada · Empoderamento feminino
- Movimento de MulheresPetição contra o Chega · Movimento feminista
Patriarcado instaurado, acabou-se, agora somos nós. Nossa, meu Deus, tivemos séculos do patriarcado que está na altura do modaço. 25 de abril de 1974. Os arquivos históricos desta data estão repletos de soldados, homens, heróis, anti-heróis, quase todos homens. Mas é do gesto de uma mulher, Celeste Caeiro, que nasce o nome de uma revolução. A Revolução dos Cravos.
Neste episódio que celebra o dia que nos libertou de uma ditadura, quis saber como é que se vê este dia de ponto de vista feminino. Estamos de volta com mais um episódio do Que Faz Falta. Eu sou o Luís e converso com quem tem coragem para mudar o mundo. Tenho comigo a Isabel Viana, humorista e poetisa, a Joana Machado, ativista pelo Plant Based Treaty, e a Susana Marques, o rosto da petição para fiscalizar a constitucionalidade do Chega no Parlamento.
Sejam muito bem-vindas as três. É um grande privilégio contar com a vossa perspectiva.
Como eu disse na apresentação, nós quando olhamos para o 25 de abril, vemos muitos homens a representar este dia de festa. Como é que é para vocês?
Eu quando penso no 25 de Abril, penso em mulheres também, com uma lógica identitária um bocadinho, da qual não dá para fugir muito bem. Eu gosto muito de me lembrar sempre das três Marias. São Marisa Baba Rena, Maria Teresa Horta e a Maria Velha da Costa. São assim as primeiras três que me lembro. Há mais, há muitas mais.
a Isabel do Carmo também penso em várias mulheres quando penso no 25 de Abril também É curioso porque no dia 25 de Abril elas teriam uma audiência no tribunal por causa do livro que escreveram e foi adiada por causa deste dia por isso, acho que são aquelas figuras que acho que todas as mulheres se lembram Porquê que elas são tão importantes? Porquê que vocês escolhem as três marias logo? E a Susana também se calhar tem essa equivalência Mastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastast
Sempre por acaso quando nós fomos ao Parlamento, à audição, os funcionários da Assembleia da República foram super simpáticos e queridos connosco. E então nós éramos três. E houve inclusive o senhor que nos estava a levar à sala que disse, epá, as outras três marias, eu não apanhei, mas vou dizer aos meus netos que estas três eu conheci e eu vou viajar ao sítio de vida. E foi...
Foi muito querida. Respondendo à tua pergunta inicial, eu, quando era mais nova, gostava muito do 25 de Abril, claro que nunca compreendíamos a plenitude, mas eu acho que dos maiores medos que eu sempre tive na vida era que nos iam faltar recursos naturais.
porque cresci naquela geração que eu via que a água ia acabar e eu vivo com pânico disso. E era a verdade, e era a mera ideia de que podia um dia viver sobre um regime opressivo. E depois, com o passar dos anos, este receio foi desvanecendo um bocadinho até...
Até há uns tempos, primeiro quando foi o Eito Trump, depois o Bolsonaro, ainda não imaginava sequer que estaria para chegar aqui a situação em que está agora. E à medida que se intensifica de dia para dia, comecei quase a ver o 25 de Abril, já quase de um ponto de vista, começa a parecer meio religioso.
Peço imensas desculpas de interromper aqui o episódio, mas tenho que dar as boas-vindas aos nossos mecenas. O Ricardo Romero, a Suzy Lorena e a Elsa Figueira, muito obrigado por contribuírem para este projeto. O que faz falta precisa de ti para chegar aos 500 mecenas e fazer deste um projeto financiado por quem o acompanha. Falhamos a meta da viabilidade para este 25 de Abril, que era alcançar 100 mecenas. E o futuro deste podcast é muito incerto.
Se achas que estas histórias não podem desaparecer, podes dar o teu contributo. Para fazê-lo, podes ver o link na bio. Eu questiono tudo mesmo 25 de Abril. Então, muitas vezes temos esta ideia de que é um dia sagrado e coloca-nos também, de certa forma, em alguns perigos. Porque passa a ser algo sagrado que não é questionável. Quer dizer que deixamos de olhar para o futuro. A minha experiência, por acaso, é um bocadinho diferente da da Suzana.
Eu nunca me preocupei, até ter que me preocupar. Então eu cresci super tranquila que, ok, houve uma altura, o 25 de Abril, em que as pessoas se revolucionaram e de repente o mundo começou a melhorar e tornou-se mais justo, etc. Aqui falando bem de Portugal, mas o mundo português.
E achei que nunca ia ter que me preocupar com essas coisas. E então nunca foi até...
nem uma preocupação, nem muito uma causa minha, porque eu dei-a muito como garantida. Eu nunca achei que nós fôssemos retroceder, porque pelo menos eu cresci, nós crescemos às vezes na escola, a estudar o passado, as coisas horríveis que nós fizemos no passado, nós e outros países, e eu lembro-me muitas vezes de pensar, quando era miúda, como é que nós antigamente fazíamos estas coisas, como é que antigamente nós acreditávamos nisto, achávamos isto,
e então eu pensava muitas vezes ainda bem que nós agora não somos assim e sabemos e etc e então dei muito como garantir isso até ter chegado à conclusão que também teria de juntar isso a uma das minhas causas e tentar falar sobre o assunto porque infelizmente não foi aquilo que eu achei que era quando era miúda, quando era mais nova irmão
mas nunca achei que fossemos chegar a este ponto. E às vezes, e eu acho que isto acontece com muita gente, às vezes quando vemos coisas na televisão eu acho tão ridículas e tão, sei lá, parece um mundo paralelo, nem parece de verdade o que está a acontecer, que às vezes parece que ainda nem acredito que temos que voltar a falar de coisas que deveriam ser tão básicas.
Lá está dadas como garantidas, mas nunca nada está dado como garantido. E isso foi algo que eu não aprendi quando era miúda. Aprendi que já estava garantido. A minha experiência foi um bocadinho diferente. Tem graças a Ana para falar da sua experiência. Pois, acho que a tua experiência de ensino te moldou tal como a minha, só que eu fui educada em sítios onde se romantizava aquilo que aconteceu.
E isso deu em mim um alerta gigante de estas pessoas ainda andam aqui. Estas pessoas andam aqui a tentar que isto seja normalizado. Estas pessoas andam aqui a fazer aquilo que hoje temos como contraponto que dizem que há doutrinação nas escolas e tudo mais. Eu andei numa escola onde havia doutrinação, era um colégio privado onde professores diziam que o Tarrafal foi um campo de férias.
eu sei o que é que é andar em escolas de doutrinação, isso é romantizado, então eu acho que ao contrário de ti, Joana, sempre tive uma perspectiva de pânico, de não, eles ainda cá estão todos, e portanto isto é possível que volte a acontecer, porque há quem tenha muita vontade que volte a acontecer, tanto na escola como posteriormente na faculdade, vi-me rodeada de gente que romantizava o fascismo, e então sempre tive bastante esse alerta, desde a minha infância até a adolescência e vida adulta.
Nós agora temos outras fontes de informação, não é só a escola e os pais, mas se calhar nessa altura, pelo menos na minha, a escola era uma parte muito importante da formação. Como é que conciliavas essas informações recebidas na escola? Depois tinhas outra parte em casa, provavelmente.
Sim, sabes que é aqui que é interessante ver que tu não precisas de ser uma pessoa de esquerda para recebes um alerta gigante quando ouves uma coisa destas. Eu já era, tendencialmente, mas os meus pais não tanto e mesmo assim lembro-me de haver um contraditório em casa.
Não, Isabel, essa tua professora é maluca. Tipo, isso não é assim. Porque eu lembro-me do que é que via. E tinha livros também. Alguns livros em casa. Algumas coisas do meu avô. O meu avô ia tendo algumas conversas comigo. Algumas um bocadinho mais tarde. Mas algumas conversas comigo sobre aquilo que foi a ditadura também. E depois não batia. Ou seja, não tendo isso assim tão coesa em casa.
foi suficiente para plantar ali um bichinho de discórdia e de perceber que certamente isto que esta professora está aqui a dizer não faz sentido algum e foi o caso. E depois fui pesquisar por mim e aprender por mim também. Voltando aqui ao início, porque estávamos a falar das figuras femininas que marcaram o 25 de abril e passando aqui a palavra à Susana e à Joana para poderem dar se vocês têm assim uma figura que vos marque.
as Tras Marias claro que têm ainda um simbolismo muito grande pode ser curioso, mas para mim a figura que ressalta mais ainda é a Sueste porque eu imagino a Sueste ela podia perfeitamente ser a minha avó
Então eu só imagino a minha avó, para mim a Silvestre é quase como se fosse uma avó, porque eu imagino perfeitamente a pegar nos cravos, calhou-te ser os cravos, mas as pôres que tivessem à mão e ir participar. E a forma como algo tão simples, e depois é também isto que é.
ser uma figura feminina, no meio de tantas masculinas, não era alguém clandestino, não era preso político, não tinha este peso, era simplesmente a ideia de uma mulher que saiu de casa e participou na revolução e que fez a sua história e eu acho a Celeste incrível nesse ponto. E acho que nos deu também esta ideia de uma...
Uma flor acabar por ser o símbolo da revolução, que muitas vezes também tem o seu lado negativo, porque romantiza muito a ideia toda de 25 de Abril e quase que tira o peso da ideia de revolução, mas ao mesmo tempo foi um marco importante e foi bastante falado lá fora, até os moldes em que ocorreu.
A Susana estava a dizer uma coisa que eu acho muito interessante e que me fez lembrar. Há um livro do Tabuki, que é o Afirma Pereira, que é basicamente um homem, um jornalista, aquilo é um bocadinho autobiográfico, e é um homem, um jornalista que vivia em Portugal na altura da ditadura. Não era uma figura revolucionária, não era uma pessoa que dava um murro na mesa e partia tudo e queria partir tudo, mas com uma pequena contribuição no livro.
teve uma contribuição gigantesca para a forma como a Revolução avançou porque usou a impressora da gráfica dele para imprimir panfletos. E uma pessoa que tinha tido sempre um trajeto super by the book e um bocadinho enfadonho até acabou por ter preços políticos em casa e depois por usar as impressoras para imprimir panfletos e dar um avanço muito importante, pelo menos local.
E eu acho muito engraçada essa figura de que somos todos nós, não é? Que podemos até, naquilo que achamos ser a neutralidade, fazer a diferença. E eu estava também a pensar na Celeste, precisamente um bocadinho por causa dessa questão de qualquer pessoa, qualquer pessoa pode fazer a diferença mesmo que essa pessoa...
não perceba muito de política não perceba não seja uma pessoa que com estudos ou com percebes com formação toda a CPTO eu acho que muitas das vezes e é uma coisa que pronto às vezes a vida nos vai ensinando é que
às vezes as pessoas educadas e as pessoas formadas isso não significa que essas pessoas tenham também os melhores valores, não é? Não tirando valor a ninguém, como é óbvio mas acaba por ser mais bonito às vezes e isto falando da Celeste naquela altura, mas mesmo falando hoje em dia nós vemos às vezes pessoas com poucos recursos, poucas as pessoas
poucas capacidades de fazer mais, mas o pouco que podem, fazem. E se calhar aqueles que podem fazer muito mais, acomodam-se, não estão muito para aí virados. Acho que marca um dia mesmo bonito da forma como foi feita e a flor acaba por simbolizar muito bem isso.
E é uma coisa que nós até hoje usamos bastante, não só no 25 de Abril, mas usamos o cravo como uma posição no nosso dia-a-dia. E quem diria que uma pessoa que começou a distribuir flores naquele dia hoje ia ter esse impacto, não é? E eu acho que é uma parte bonita mesmo, lá está se calhar a romantizar um bocado a coisa.
mas quanto mais beleza nós virmos se calhar em determinadas alturas e alturas difíceis se calhar mais facilmente também falamos delas eu acho que gostava de agora pegar um bocadinho também por aí porque estavam a falar de forma um pouco triste um bocado sobre os retrocessos e vocês claro tem muito mais a dizer que eu porque sou mulher sobre o assunto acham que já estamos em retrocesso
Eu acho que se desculpe. Desculpe, a partir do momento em que tem que haver manifestações contra a legalização do aborto em pleno 2026, eu acho que o retrocesso, estamos a possibilitar que pessoas que nunca deixaram de existir não tenham vergonha das coisas em que acreditam.
e da forma em que querem controlar a vida dos outros pois é isso fazemos o que conseguimos com o que temos eu faço testes de stand-up a gozar com essas pessoas mas o que é que posso fazer mais na realidade não sei bem
Não sei bem, é muito frustrante ver algo que, olha, exatamente nesses momentos em que eu falava da escola, eu lembro-me perfeitamente de em 2007, eu tinha 11 anos, e de chegar a casa e perguntar à minha mãe, mãe, eu não sei qual é que é a minha opinião em relação à legalização do aborto, e a minha mãe, tipo, não tens que saber, Isabel, calma, está tudo bem. E ao longo dos anos foi uma coisa que eu fui tendo como...
Acho que as pessoas podiam discutir o que queriam e debater isso e sempre soube que havia pessoas fanáticas. Lá está também pelos meios onde estudei a vida toda, mas ver essas pessoas a terem a lata de sair à rua para uma manifestação, sabendo que só quererem criminalizar a vida de mulheres pobres porque elas sempre tiveram dinheiro para ir a Badajoz, meter combustível e abortar, tira-me da séria.
Tira-me do... Não sei se essas pessoas têm noção do que é que uma mulher faz para ter um aborto quando não tem as condições necessárias. Eu me lembro da Maria Teresa Horta falar de um estudo que ela fez em que usavam, o que se chama? As agulhas de crochê. São coisas super violentas. Não sei se as pessoas estão a favor da vida. Sim, é horrível, não é?
terrível não tenho noção do que é que é do que é que foi acho que também nos falta falar algumas vezes dessas histórias porque nós próprias como mulheres somos assinadas a olhar para isso como uma coisa horrível da qual devemos ter vergonha e vem um demónio
e é um paciente médico e acho que podemos falar dele com mais leveza tendo um plano a consciência da dor que acarreta para algumas pessoas mas é como estava a dizer eu tenho feito algum texto e vejo a reação das pessoas algumas mulheres ouvem com uma lisa brutal que é tipo, ah, ok alguém está a falar disto de uma perspectiva jucosa outras pessoas ainda estão meio incomodadas numa sala, pergunto quem é que é a favor da legalização do aborto e há homens que têm a lata de não botar palmas a olhar para mim e asastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastast
e depois digo, olha, os que peteram, não sei se acham que eu quero saber da vossa opinião para alguma coisa, mas é isso, ainda divido algumas salas e é isso, é fácil ver esses retrocessos e como é que está a mente das pessoas, pronto, e depois tentarmos ver dentro das nossas áreas como é que...
cada uma de nós consegue lutar contra isso ou representar de alguma forma quem não tem tanta voz. Eu acho sempre que é interessante usarmos o nosso palco nesse sentido. Eu não consegui cometer o riso quando, desculpa, quando perguntaste se achamos que já estão a haver retrocessos. E eu só te queria perguntar se tens obrigada a tua visão.
Estava armada em Cristina Estava armada em Cristina Estava a provocar de propósito Porque às vezes eu realmente acho que A realidade está tão distópica Que eu penso, será que isto é Alguma má comédia Que está a passar Nas notícias, o que é que se está a passar
E esta legisvatura começou logo, logo, logo no começo a atacar-me na obstetrícia. E desde aí tem sido... Conceito de violência obstétrica.
Exatamente, e desde aí foi uma atrás da outra e rara é a semana que não há, quer dizer, eles para começar adoram legislar sobre o corpo dos outros, as escolhas das outras pessoas, gostam muito de legislar sobre o corpo das mulheres, nomeadamente também.
não só sobre obstetrícia, eles com certeza que vão trazer novamente a questão do aborto ao de cima, porque estão a preparar terreno para isso. Também acham-se no direito até de legislar sobre o que é que a mulher veste ou não veste, porque em nome da libertação feminina agora também não se pode ocultar o rosto.
Não são ninguém para o dizer, e eu estava recentemente a ver, como, por exemplo, no Estado Novo, que gostam tanto dessa altura, muitas pessoas agora, as mulheres não podiam entrar na igreja sem o véu e que tinham que tapar o cabelo todo. E o autor que eu estava a ver, inclusive, dizia que...
Era ser mais paulista que Paulo, que era a passagem na Bíblia que falava sobre isso, que deriva tudo da ideia da mulher ser da costela, de abatidão e sempre o estatuto inferior e por aí adiante. Mas sim, os retrocessos, o que nós vimos agora com os direitos trans. E todas as semanas surge uma nova prédio. E acho que estamos em retrocesso, é vantagem.
Eu acho que está mais do que factual que estamos. Não concordo, verdadeiramente. Eu gostava de ter uma resposta diferente, mas não tenho.
lá está, era o que eu estava a dizer no início, coisas que eu achava que eram mesmo básicas e que eu não, quando era mais nova, achei que não tinha que me preocupar. Um bocadinho, como a Suzana, o meu pânico, os meus medos, quando era mais miúda era mesmo a questão ambiental também, e a questão animal, que é o tipo...
É o ativismo com o qual eu estou mais ligada. E então achei que esses iam ser os problemas com os quais eu me ia depressar. E então, agora vendo estes retrocessos todos, é uma coisa engraçada a nível psicológico que aconteceu comigo. Foi que...
Não só sinto isso como mulher, mas agora também tenho cada vez mais, tenho sentido também como mulher, que faz parte da comunidade LGBT, e sinto que... Ou seja...
Numa altura em que as coisas, se calhar, como a Isabel estava a dizer, as pessoas existem, elas estavam lá, mas tinham vergonha de falar, não é? Estavam mais escondidas, não tinham, assim, aquela sensação de poder dizer aquilo que pensavam, mas como não sabia quem elas eram.
Eu fiquei muito tempo sem me assumir. Namorei muitos anos com a pessoa com quem estou agora, sem assumir o namoro. E depois, não sei, a nível psicológico, deve ter alguma explicação também, assim que o Partido Ocheira começou a crescer e começamos a ver cada vez mais conteúdos de ódio e aí eu comecei a ganhar força para assumir e foi aí que eu comecei a assumir mais abertamente.
que era uma mulher lésbica que vivia com outra mulher porque aí eu comecei a sentir que tinha uma responsabilidade que tinha mesmo obrigação de falar agora eu sinto cada vez mais isso sinto não só como mulher mas agora também com estas questões das terapias de conversão
Volta e meia parece que surge um tema novo, que se lembram de colocar em cima da mesa com tantas outras coisas que nós temos com que nos preocupar, que efetivamente causam problemas na sociedade e não estamos a falar sobre elas. Por isso sim, temos esses retrocessos. Começamos só com as casas de banho e agora já estamos com as terapias de compressão e agravando cada vez mais. Sim, também a questão das casas de banho, ficou muito tempo também a falar-se sobre esse assunto.
E agora são as terapias de conversão. Há uns bons anos, num dos dias mais relevantes sobre o Panama Papers, vieram com a conversa do cartão de cidadão ou cartão de cidadania. Tipo, parem de tentar...
distrair-nos porque depois acaba por funcionar nós estamos no nosso dia a dia completamente exaustos só queremos é ter dinheiro para chegar ao fim do mês e depois aparecem estas coisas na televisão e alguém está a fazer muito bem o seu trabalho que é, eu tenho um problema aqueles são os culpados ah, o meu problema não está resolvido, mas ao menos já tenho alguém para culpar que não o sistema e então fica mais fácil haver botes expiatórios do que
fazer outra vez uma revolução os votos expiatórios são todos, praticamente sim, a linha de corte está cada vez mais próximo dos nossos pés e é isso que nós começamos a ver e acho também importante aqui ressalvar estamos a falar com três mulheres que são por si só muito afetadas com isto mas
imaginem as mulheres, não precisam de imaginar, eu sei perfeitamente que vocês sabem, as mulheres racializadas, as mulheres que vivem em periferias, ou seja, a linha de corte está cada vez mais perto dos pés de toda a gente. E ignorarmos isso e acharmos que vamos conseguir fazer tudo diferente, aliás, vamos conseguir fazer tudo diferente, temos que querer conseguir fazer tudo diferente, mas achar que não vem, that's not coming for us, que é... ...
É que é um bocadinho inocente da nossa parte, mas acho que ninguém está aí. Acho que todas já vimos que é essa a resposta precisamente que estamos a dar ao Luís, que é they're coming for us. E nós estamos aí. Mas o que é que é preciso ser feito para não chegar? Mas é nós.
Tanto dentro da mesma conversa da Celeste e da personagem do Afirma Pereira, acho que todos nós temos a nossa parte, o nosso papel. Eu gosto de acreditar que de alguma forma consigo fazer a diferença no meu trabalho e naquilo que ponho cá fora. Acho que é importante usarmos esse, que não deixa de ser também um grande privilégio de termos o...
Qualquer alcance que seja, ou seja, eu não tenho um alcance enorme, mas aquele que tenho, os temas que falo e aquilo que gosto de falar, na minha área pelo menos, passa um bocado por aí. E mesmo antes de fazer stand-up e noutras áreas que trabalhasse, tentava sempre não fazer...
Não perpetuar esse estigma, não atacar, não ir para a ideia de punching down e tentar trazer alguma luz. Depois falho muito em tudo o que seja pedagogia fora do meu mercado laboral e pessoas com que falo diretamente falha-me muito essa. Não consigo ser muito pedagógica e passo-me da cabeça por tudo e por nada. Mas tenho que trabalhar isso, tenho que aprender com algumas pessoas que tenho à minha volta que são muito melhores do que eu nisso.
e que conseguem ser pedagógicas e fazer perguntas ou como o Zanda aturar desde que nasci já tem pouca pessoa a Susana decidiu ir para um caminho mais institucional e usar as ferramentas democráticas para pôr em xeque um partido como o Xeque por exemplo, é uma das outras formas e a Joana também tem o seu ativismo acerca da alimentação e do suprimento animal Susana, como é que foi enfrentar o Xeque? Diz lá, conta-nos tudo o que queremos saber como é que foi?
Eu acho que, sabe, partiu muito de nós acharmos sempre que vai ser um outro alguém, que nós não somos o suficiente. E eu não sei se vocês conhecem a história da petição, mas aquilo foi... Opá, eu não sou ninguém.
Mas eu parada não fico. E a petição esteve com menos de 20 assinaturas durante um mês. A primeira assinatária sou eu. A seguir pedi e cheio ao meu pai para assinar. Foi meio percoação, na verdade. Assim como as primeiras 15 assinaturas foram muito, muito pedidas. Eram as plantas no final, assinaturas.
Já está entre 32 mil, por aí. Só que o que aconteceu foi... Não precisa de 7 mil e 500, não é? Foi exatamente, nós deixamos tempo. Para depois poder fazer alguma coisa. 7 mil e 500 para ir diretamente ao Parlamento. Eu tive uma com 2 mil, já podes ir fazer uma audição parlamentar. Mas a partir dos 7 mil e 500 é automático. Foi precisamente o pensar que...
é a ideia de que nunca somos nós, ou que nós não podemos fazer nada. E assim, eu confesso que no início fui muito ingênua, porque eu pensei no Eu Parada Não Fica, não pensei nos passos todos a seguir. Ou seja, sendo completamente honesta.
E houve momentos de muito pânico por o meio, muito pânico por o meio mesmo. Quando a avalanche começou a rolar e as coisas começaram a avançar mais. Mas pânico, porquê?
Pânico porque todos sabemos o que é que eles representam e o tipo de pessoas e o que fanáticos conseguem ser. Na Assembleia tu tens que dar o teu nome e os teus dados pessoais todos e eventualmente vou a ver o que estava publicado e tinha lá exposto os meus dados todos.
como é que tu arranjas trabalho ou vais trabalhar depois disso quando a maior parte das pessoas que eu vejo à minha volta e dos meios que eu frequento cada vez mais estão a enverdar por esse caminho passa a ser um dia a dia muito difícil fora dos riscos que começas a correr eu apaguei as minhas redes sociais pessoais pior dia sem dúvida foi o da audição porque imagina eu estava na escadaria eu apaguei as minhas redes sociais
da Assembleia e recebi uma mensagem, eu não encontrei a narrativa como recebo ocasionalmente algumas mas imagina, eu estava na escadaria e recebi uma mensagem a dizer talvez não entres a essa porta isto podia ser abstrato mas o que é que tu pensas? e nesse dia o meu pânico era para começar, não foi agradável de todo enfrentar aquelas pessoas pessoalmente irmã Mastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastast
mas a minha maior preocupação assim que saí para fora foi ligar inclusive para os meus pais, para os meus familiares mais próximos e tudo e a dizer independentemente do que saia cá para fora porque eu sei que vai sair que vão fazer cortes, que vão virar tudo do avesso não vão para as redes sociais não leiam os comentários e acima de tudo não respondam a ninguém, não vá alguma irmã
ver apoídos, coincidentes e tudo e começar por isso, proteger a toda a gente que foi das coisas que eu tentei mais precisa ter a paragem, claro nesses actos, sempre é mesmo, e é horrível sentir isso só o fato de sentir de sentir isso
Ninguém deveria sentir isso, não é? Só por levar uma petição a parlamento ou por... Algo aí já significa que algo não está bem. Nós às vezes pensamos, há quem é que eu sou para fazer alguma coisa, quem é que eu sou para mudar o mundo ou assim. Existe muita gente...
E agora falo, sem estatísticas, falo daquilo que eu percepciono à minha volta, por isso é uma percepção minha. Acho que existe muita gente com muita capacidade e com muita vontade de fazer coisas, mas que não faz precisamente por isso, porque se sente assim. E aqui é que eu entro com a questão de, ok, é uma percepção minha, porque eu acho que a maior parte dessas pessoas são precisamente mulheres.
do que eu tenho visto grupos de ativismo amigos próximos seja em que grupo for eu noto muito que há estas questões mais em mulheres que dizem eu até gostava de fazer não sei o que mas eu não sei ou eu não faço ou eu não estudei para isso e às vezes lá está é como tu dizes só
começar a petição, às vezes assim um bocadinho por impulso, para fazer a diferença. E efetivamente eu acho que isso acontece muito. Um homem, lá está, falo da minha experiência, um homem às vezes entra numa sala e não tem que provar nada a ninguém, não é? Cheguei, aconteci, estou aqui, se calhar nem nunca pensam nisso.
Porque nunca teve que duvidar de si. Porque nunca ninguém o questionou. Agora, a mulher é sempre muito mais questionada quando tenta fazer alguma coisa. E eu acho que é isso que às vezes também nos impede de sermos mais ativas. Porque eu acho que existem muitas mulheres ativas e que querem fazer coisas e não fazem por causa disso. Infelizmente. Pelo honesto.
Eu honestamente acho que a próxima revolução é das mulheres e vai ser liderada por mulheres. Já na Grécia há pouquíssimos anos, a Aurora Dourada foi posta em cheque e foi dissolvida e tudo. Precisamente tudo liderado por mulheres.
A contra-narrativa mantém-se sempre na fasquia dos seguidores, de interações, de tudo. 60% a 70% de mulheres. As pessoas que se juntaram a mim e que são mais ativas e que ajudaram até a organizar o meu facho daí e tudo foram maioritariamente mulheres. E eu tenho visto mesmo...
mesmo muitas na linha da frente, ou a chegar-se à frente e dispostas a o que é preciso fazer. E a verdade é que muitas de nós, eu comecei sem saber nada, ou praticamente nada, eu não sabia sequer qual era a tramitação de uma petição. Eu descobri ao longo do caminho e a pensar, eu tenho que resolver isto agora que me meti.
mantendo esta embrulhada e resolvendo passo a passo e a Isabela é um excelente exemplo também porque nós podemos ver até no humor cada vez aparecem mais mulheres também e é tudo formas de ocupar espaço de ganhar voz e de ajudar também a trazer consciência
Ainda bem, porque não sei se concordas, Isabel, desculpa, te interromper, mas eu gosto muito de Tend-Up. E eu adorava ver cada vez mais, comecei a uma altura, comecei a procurar só mulheres. Só mulheres porque, por aí mesmo, era difícil encontrar uma que eu gostasse. Porque eu sentia que era muito cópia daquilo que os homens já faziam. E hoje em dia começas a se encontrar coisas diferentes.
há algumas que eu gosto muito mas precisava de ver mais honestamente, mais mulheres começar por dizer Susana que a imagem de tu teres feito mas sem pensar que podia correr bem é hilariante é tipo vou fazer logo se vê ai foda-se, correu bem agora é que é essa imagem é absolutamente hilariante e deliciosa em relação àquilo que a Joana estava a dizer as irmã as irmã as irmã as irmã as irmã as irmã
certíssima, nós não fomos ensinadas a ocupar espaço, nós vimos às vezes outras mulheres a ocupar espaço e alguém a diz assim, estás a ocupar espaço a mais então nós toca de retrair porque faz obviamente parte da encomenda e parte do plano que nós não ocupemos muito espaço, eu também acho que as mulheres vão ter um papel absolutamente essencial em tudo o que está para vir, acho que há, e agora ligando aqui ao comentário que o Luís fez, acho que há também muitas mulheres
patriarcais e acho que há também muitas mulheres que não sendo mandatoriamente patriarcais são fruto do seu contexto e sendo fruto do seu contexto toda a gente lhes disse que elas não tinham graça e se elas não têm graça elas têm que fazer um humor para os homens rirem para os homens rirem então
isso nota-se e nota-se em pessoas como o Luís que estão à procura de ver comediantes mulheres mas não é só por ser uma mulher a dizer a mesma coisa que os homens dizem, é por ver mulheres a dizerem coisas que só as mulheres podem dizer e é o que eu estou sempre, eu não falo de cotas, eu não falo de nada eu uma noite de stand-up que não tenha uma única mulher no line-up a mim não me interessa porque eu tenho a certeza que há tudo ali menos uma perspectiva feminina
e são até que perspetivas masculinas não me interessa qual é o tema não me interessa qual é o ângulo é uma perspetiva masculina que é muito interessante também mas fica uma noite fraca porque não há uma única perspetiva feminina de nada pode ser exatamente o mesmo tema mas se há uma perspetiva feminina já me interessa mais e é isso, acho que se vê cada vez mais e eu tenho tido algumas vezes esse feedback de...
tu estás a fazer stand-up para mulheres isso nota-se até há uma cena aí na net que é tipo quando um homem se ri de uma coisa que eu disse I feel like a loser também não estou aí mas é para aí
Se os homens estão todos a rir e nenhum ficou desconfortável ou nenhum ficou a questionar, é porque também estou a fazer uma coisa um bocadinho dissociada daquilo que queria fazer. Há muitos homens que se riem também de muitas coisas que eu digo e outras comediantes, porque já estão nesse lugar de, um, fazer autocrítica e, dois, de perceber que dá mesmo para rir de tudo, às vezes até do...
do ridículo, antes de começarmos a gravar estávamos a falar da questão de calviço ou de pôr cabelo homens que ficam absolutamente ofendidos com isso é tipo bro, ok, tudo bem força, mas lá está não pode ser para... e outra coisa no final do dia, tipo, nunca vão ser e acho que qualquer mulher tem esta experiência, nunca vão ser os homens a fazer a carreira de ninguém ou a fazer a fanbase de nenhuma mulher
a não ser que seja uma atriz porno ou uma coisa qualquer completamente que não parta em forma nenhuma da admiração que têm por essa mulher portanto fazermos o que quer que seja na nossa vida para agradar aos homens e à ordem vigente à partida não vai fazer muito por nós portanto também é um bocado aí que eu estou
Às vezes quando no humor sabemos que há vários tipos de humor e há certas coisas que ficam. Não teve piada e é bastante problemática e às vezes chamam-me um bocadinho chata. Eu estava aqui a pensar precisamente qual é a sensação que tu tens.
Porque depois toda a gente é chata a se apontar os problemas de determinados temas. Mas tu falas em Calvície e eles aí podem ficar muito ofendidos porque foi um assunto seríssimo. Eu já tive conversas muito engraçadas com alguns comediantes. Há um texto que tem que adir qualquer coisa como...
que um gajo uma vez me disse ah, o meu sonho é ser pai e que eu disse, eu quando era adolescente achava que isto era uau, e quando cresce percebo que isto é uma red flag, e digo qualquer coisa como os homens querem ser pais como as crianças querem ter cães querem ter a diversão, mas não querem ter a responsabilidade
e vem um comediante da bandeira da liberdade de expressão e do pode-se dizer tudo, dizer-me Isabel, isso é super problemático, o que tu acabaste de dizer isso é super irresponsável, não sei o que pronto, e eu caso precisasse de mais alguma confirmação de que era para continuar a fazer aquele texto e aprofundá-lo estava aí essa mesma
Porque lá está a liberdade de expressão e essa coisa sem limites, regra geral, serve para punchdown. Ou seja, nunca é o fight the power que está em questão. É sempre quando é para ou falar de alguma minoria ou atacar quem já está embaixo.
quando é ou para gozar com homens ou com calvície ou com irresponsabilidades parentais aí já é um bocado problemático e já não podemos e pronto, sempre grande questão de ser uma mulher que está a dizer então se as pessoas estiverem todas a rir é mais irritante ainda
é bastante comum porque o humor faz-se muito sobre um preconceito cria muita piada brincar com os preconceitos no fundo eu sou da opinião que não deve existir limite no humor com qualquer assunto porque às vezes até nos faz pensar de outras formas limite de assunto jamais acho que todos os assuntos limite de assunto jamais há alguns humoristas que chegam mesmo ali ao limite da ofensa mas mesmo assim eu na minha opinião sou a favor de que exista liberdade irmã
Eu acho que sempre toda a gente está no direito de dizer aquilo que lhe apetecer e depois arcar com as consequências disso. Quer as consequências disso sejam uma crítica, quer as consequências disso sejam um processo ridículo em tribunal que não levou a lado nenhum, quer as consequências disso sejam oito anos de prisão como aconteceu no Brasil. Acho só que as pessoas têm que ter consciência de que quando têm um microfone têm responsabilidade.
Foi muito engraçado ver alguns comediantes a descobrirem isso com a primeira condenação de um comediante.
se me perguntarem se eu sou a favor de 8 anos por uma piada em palco claro que não mas é sempre engraçado ver pessoas que nunca foram responsabilizadas por nada a perceberem que aquilo que fazem pode ter alguma responsabilidade não deixo de achar também isso um humor maravilhoso
Eu estava a pensar num humorista específico, só que não estou lembrado o nome, que é dos Estados Unidos, e tinha um programa de televisão, depois ficou desaparecido durante muito tempo, e ele tem muito humor contra pessoas de transgénero, e às vezes é um bocado chato e um bocado duro. Capel? Sim. Deixo chapéu. É um bocado em que se abaixo, é isso. O chapéu...
Tem uns takes bastante agressivos, mas depois também tem uns takes bastante interessantes que claro que se tu olhares numa perspetiva ficas tipo isto é homofóbico ou transfóbico ele está só a querer chegar a um ponto agora não vamos estar aqui a dissecar beats de stand-up, desculpem mas há ali alguns pontos onde ele toca que são
que são relevantes e são importantes. Claro que percebo que algumas coisas, depois algumas pessoas ficam desconfortáveis, mas era onde estávamos. Tipo, o limite é ter graça e lá está nenhum comediante que diz tudo e mais alguma coisa pode dizer, ai, hoje em dia já não se pode dizer nada, estás a dizer e não te aconteceu nada, estás só a ouvir, a levar hate durante um dia no Instagram, tipo, respira fundo, limpa-te aos dólares todos que tens na conta e amanhã é outro dia.
Eu criei aqui umas dinâmicas, vamos ver como é que isto funciona. Imaginem que estamos no dia 25 de Abril de 2026. Luís Montenegro foi levado num tanque que está a caminho da madeira. Posteriormente terá uma carreira de sucesso no negócio imobiliário na Argentina. Imaginem que vocês, as três, são a Junta de Salvação Nacional no Feminino. Tenho que escrever agora em direto um decreto de uma frase que mude a vida das mulheres em Portugal amanhã.
Que frase é essa? Matriarcado instaurado. Matriarcado instaurado, acabou-se, agora somos nós.
Nossa, meu Deus eu ia dizer será que é muito muito agressivo dizer opa, tivemos séculos de patriarcado que tal tentar o matriarcado e a Isabel roubou portanto, eu acho que já
Mas Joana, por favor Só falta tu concordar Sem pressão Eu concordo A experiência Já experimentamos Muitos anos do mesmo Está na altura de mudar Sim, acho que sim Demasiados séculos não funcionou Eu acho que o óbvio seria
Isto foi muito rápido, pá, vocês chegaram a conclusão de um consenso muito rápido, portanto foram muitos anos já. Já viste, as mulheres são muito emotivas e não se entendem a trabalhar umas com as outras, mas nós aqui em dois segundos conseguimos chegar ao decreto da juntação da sua família. Eu concordo com isso, apesar de ser homem, eu tenho a sorte de ter uma pessoa na minha vida há muitos anos em que não foi sempre assim, foi abrindo os horizontes para algumas coisas, eu acho.
Quando era mais novo, se calhar não acreditava em coisas que acreditou hoje. Mas foi importante ter alguém na minha vida que me mostrasse esse lado. Claro, claro. Acho que é difícil para um homem, às vezes, conseguir perceber...
O modo de pensar das mulheres acerca destas coisas de igualdade de género, oportunidades. Por exemplo, estar numa sala, uma mulher dizer algo e ninguém ouvir se for um homem, toda a gente ouve e tu quando começas a prestar atenção, começas a ver. E eu acho que não conseguia ver isso se não fosse essa pessoa na minha vida que me foi mostrando esse tipo de situações.
Mas acho que é difícil conseguir que um homem consiga ver essas coisas. Não sei que... Eu sou um bocadinho diferente. Não sou assim... Não estou a dizer que sou um homem exemplo, mas consigo realmente ver essas coisas. Mas eu acho que lá está. Isso é importante. Era um bocadinho aquilo que eu estava a dizer há bocado. Se calhar um homem nunca pensou nestas coisas porque nunca teve que pensar, não é? E entra numa sala e ninguém...
Pronto, ninguém questiona. Não se vai sentir desconfortável porque não sabe quem vai lá encontrar ou... Whatever.
E se calhar quando uma mulher está a ser interrompida ele também não se percebe porque também vai falar e se calhar a intenção nem é essa. Lá está, dependendo do homem. Nem todos os homens, mas sempre um homem, não é? E eu acho que...
Tu, se calhar, tens essa postura, tiveste alguém que te ajudou a perceber e tu, efetivamente, percebeste. Mas quando tu és aquela pessoa que está a tentar dizer a um homem e tentar...
explicar a um homem a sua visão como fizeram contigo e esse homem continua a não ver, a não ver ou a não querer ver ou a justificar a sua postura, a justificar a postura dos outros, dos seus amigos, porque eu já passei isto com grupos de amigos, já passei com grupos de familiares nós é que somos sempre as exageradas percebes? e é isso que eu acho que
É um trabalho, é mais um trabalho que nós temos que fazer, nós mulheres, que não devia, às vezes eu penso, não, olha, não estou aqui para educar ninguém, não faz parte de mim agora estar a educar homens crescidos. Mas outras vezes eu penso, ok, não, é o meu trabalho também educar ou mostrar a estes homens o meu lado, o meu ponto de vista e aquilo que eu sinto.
Mas quando tu sentes do outro lado, que mesmo assim não te querem ouvir, ou desvalorizam aquilo que tu estás a dizer, ou que tu estás a exagerar, agora o homem também não pode dizer nada.
Não sei como é que é a vossa experiência já agora para a Sazona e Isabel, porque às vezes lá está, com um bocadinho de mais Isabel, estou farta, tipo, lá está, não tinha que estar, não tenho idade para isto, não tenho filhos, nem vou estar a educar e por muito que às vezes nós tentamos, às vezes aquele pequeno ativismo que é ter uma conversa e dizer, olha, mas...
já pensaste que... Isso também são pequenas conversas, pequeno ativismo que se calhar fazemos no nosso dia-a-dia. Mas cansa. Até que ponto é que nós temos que nos cansar com mais isso? Não sei, estou aqui a pensar, porque por acaso é uma experiência que eu já tive bastante e que esgota mesmo. Eu já fui mais paciente relativamente a isso. Já fui...
muito mais aberta a discutir, a tentar educar, a trazer pontos de vista, desde que criei a Contra Narrativa e que tenho que lidar às vezes com, pronto, se calhar todos vocês percebem o que chega de comentários, de mensagens e assim.
que uma grande parte das vezes agora eu no início ficava nervosa ficava-me a tutar naquilo agora nem vos vou dizer o que é que me passa pela cabeça a maior parte das vezes, mas é só um eu quero saber
Não te pedi a opinião e vamos ficar por aqui. Quem te perguntou? Os homens passam muito por isso, não é? Faltaram pessoas na vida deles que lhes perguntou assim, quem te perguntou alguma coisa? Mas eu tenho exatamente a mesma experiência, sendo que eu nunca fui paciente. Ou seja, eu não estou pior, nem estou mais impaciente. Eu nunca fui paciente, infelizmente. Acho, e tenho um caso muito próximo na minha vida também, que faz uma diferença abismal quando os homens foram educados por mulheres.
porque de pequeninos que foram ensinados a admirar mulheres ou pelo menos não chegando ao nível de admirar ter a consciência de que essas mulheres devem ser protegidas e que essas mulheres sofrem portanto eu acho que aí às vezes esses homens já vão com alguns pontos de avanço, sendo que não é a cura para tudo mas é muito complicado andar há uns dias falávamos sobre isso, que é que
nós andámos a vida toda a educar as mulheres para não serem violadas mas andámos a educar os homens para não serem violadores e a vida toda andámos a deixar ou a capacitar demasiado os homens quer seja para chegarem a uma sala e acharem que alguém quer saber da opinião deles para alguma coisa
quer seja para achar que a voz deles valde alguma coisa em cima da voz de uma mulher e enquanto estávamos a fazer isso andámos a descredibilizar mulheres estes anos todos portanto eu acho que foi um trabalho bem feito que agora é necessário desmantelar mas depois é isso uma mulher que já está exausta ou porque
Tem o trabalho que tem, mesmo assim ganha menos do que um homem, chega à casa e, no caso, Joana, que te se afaste de boa, mas no caso de relações heterossexuais, muitas vezes o trabalho reprodutivo está maioritariamente em cima da mulher. Talvez o homem tenha que chatear, pronto, se por acaso for uma mulher que tem a sorte que, agora falo do meu caso, eu tenho em que o trabalho reprodutivo está absolutamente dividido pelos dois e até tenha um bocadinho mais sorte.
E é uma pessoa com a qual eu não tenho que ter nada dessas conversas, um homem absolutamente, não vou dizer extraordinário, é, mas há nestas coisas, o que devia ser o normal, mas infelizmente não é, portanto, um homem absolutamente extraordinário, basta depois ter os meus amigos, outros homens, outras pessoas do meu trabalho, outros comediantes, outras pessoas, que é isso, conversas.
básicas sobre o consentimento conversas básicas sobre o que é que é uma experiência feminina e os homens fazem o seu papel sempre que é descredibilizar, ai sim mas not all men, acabámos de saber que num mês 62 milhões de vezes foram vistas palestras pró-violação, tipo é
É completamente assustador. E acho que mais do que o nosso papel enquanto mulheres, os homens deviam... Os homens ouvem outros homens. Aliás, os homens são viciados em ser submissos a outros homens. Portanto, só que depois quais é que são os homens é que eles são submissos da Manosphere e que andam a tudo o que seja conteúdo inicial, Red Pill. Mas outros homens podem fazer esse seu papel de... Olha...
se não se diz, explicar porque é que não se diz, ou seja, serem a verdadeira noção de aliados e usarem esse poder que têm, a voz deles é mais ouvida do que a nossa e, portanto, se já aprenderam alguma coisa, puxarem um bocadinho, depois uma coisa que vamos a ver e esmiossar é só empatia. É doente o pensar que não se está a pedir nada de brutal, está só a pedir para uma pessoa conseguir tentar ver o que é que é viver uma vida que não é exatamente a sua e que é um bocado mais difícil.
Ontem vi um post no Instagram, não sei se tem a ver com isso, que dizia... Como é que dizia? Cuidado onde deixas o... Com a bebida no bar, não, tenham cuidados. Cuidado onde deixas um copo. Não tenha...
Eu tive que ler três vezes para perceber. Já não temos de ter cuidado. Olha, eu percebi à primeira. Era, não tens de ter cuidado. Andaram a dizer-nos a vida toda para termos de cuidado com as bebidas nos bares, afinal temos é que ter cuidado com o chá que temos dentro de casa. Porque essa é outra, é a ideia de que uma violação ou uma coisa nos vai acontecer na rua, num beco escuro, por algum desconhecido. E o que a estatística nos diz é que é por pessoas conhecidas em lugares onde nós deveríamos poder estar perfeitamente à vontade.
e pronto vai tocar com mulheres também e as pessoas conhecidas não, não, não com ex-maridos ex-maridos, maridos companheiros, ex-companheiros aquela história daquela francesa não é exemplo, não é? é Giselle Pelicô exatamente o que eu estava a dizer Giselle, sim, Giselle Pelicô
Esse é o caso recente, mais conhecido, mas imensas histórias de namorados ou pessoas com as quais estás a começar a conhecer, ex-namorados, maridos, ex-maridos. Acontece muito mais frequentemente dentro desses cheios familiares ou de relação do que num beco escuro por um desconhecido qualquer que nunca ninguém viu na vida.
Eu tive um episódio com a Inês Marinho, aconselho aqui quem tiver a ouvir este episódio depois pode ver o episódio com a Inês Marinho acerca de partilhar de imagens íntimas não consentidas. O consentimento também está sempre aqui na ordem do dia. E agora vou passar aqui a uma parte do podcast que tem a ver com os mecenas do podcast. O que faz falta? Eles têm o direito de mandar algumas perguntas. Quem quiser apoiar pode fazê-lo. Pode ver na descrição.
pode-se ir ao Pai Meia Coffee e ser mecenas deste projeto, é muito importante para que este projeto continue a existir, e eu tenho aqui três perguntas para as três, vamos tentar que seja uma conversa, por isso a Inês Santarinho pergunta, todos sabemos a nível prático o que mudou para as mulheres depois do 25 de abril. 50 anos depois, quais são as políticas que consideram que faltam aplicar para sermos mesmo livres?
É assim, é todo um caminho, todo um caminho em construção e às vezes saem alguns relatórios de quantos anos faltam até atingirmos a paridade. E a verdade é que todos, acho que todos passam de um século, mais de um século, a caminho de dois séculos. Isto provavelmente sem contar com os retrocessos que vamos apanhar por caminho.
Eu, se calhar, antes de dizer o que falta, se calhar era cumprir pelo menos o que já estava, que nem sequer isso costuma ser. Mas eu vou deixar a Isabel e a Joana darem a opinião também.
Sim, é cumprir o que existe, mas também existe muita questão salarial, que continua a ser um problema, mas quando as mulheres continuam a receber menos. É das questões que se vai falando, desculpem, minha gata também quer participar. É das questões que volta e meia se vai falando, mas mesmo assim continua a existir.
Eu acho que...
Eu acho que a questão da violência doméstica devia ser muito melhor trabalhada em Portugal. As penas deviam ser mais pesadas, devia haver mais proteção, porque muitas vezes uma mulher apresenta queixa, mas depois volta à casa, ou depois o marido está solto. Não existe nenhum tipo de proteção e só quando o pior acontece é que se faz notícia.
E aqui pegando um bocadinho naquilo que eu costumo ver mais, é que mesmo com as alterações climáticas, as mulheres também são um dos grupos que mais vai sofrer com as alterações climáticas. As mulheres que estão mal vão ficar pior. Ou seja, nós não estamos nem a cumprir o que temos neste momento, nem a melhorar as leis que temos.
nem a prevenir para o que aí vem, porque estamos muito concentrados a falar em coisas, lá está, como estávamos a dizer há bocado, terapias de conversão ou coisas assim que não lembra a ninguém, e não estamos a fazer essa prevenção.
Com não em garantida, é outra discussão recente, não é? Sim, exatamente. Agora estamos a falar se se percebe bem um não ou não se percebe bem um não. E devíamos estar a investir em coisas que efetivamente estão para vir e que vão desproteger ainda mais aqueles que são desprotegidos. E não estamos preparados para isso. Eu acho, por isso, sinceramente acho que falta muita coisa. Mas é como a Susana estava a dizer, é um caminho.
Eu queria ser positiva, juro, eu queria dar uma palavra de esperança, mas quanto mais falo do assunto, mais ansiosa fico, porque efetivamente estamos a perder muito tempo a falar de coisas que, quando temos tantas outras mais importantes para falar. Vou dar a minha opinião, que é...
Eu, no meu podcast e nas redes sociais, tente sempre não ir atrás do que é a ordem do dia, não é? Porque eu sinto que muitas influências de outros ativistas também vão atrás, sempre na reação daquilo que se coloca na ordem do dia. Por exemplo, o CHG faz isso muito bem, eles conseguem criar uma polémica e depois toda a gente está a reagir a essa polémica. Eu não sou a favor de que se reaja às polémicas ou que se faça.
a reação, porque no fundo estás a contribuir para falar daquele assunto e não falar do que interessa. É muito difícil, honestamente, porque para ter mais visualizações de certeza que isso funciona melhor. Mas é uma dor de cabeça para mim, às vezes, tomar essa decisão, porque eu sei que conseguiria ter mais visualizações se fizesse de outra forma.
e eu acho que estamos aqui um pouco neste ciclo todos de ir atrás do algoritmo, é um bocado difícil, sinceramente, de conseguir encontrar aqui uma solução. Mas mesmo a comunicação social? Claro também, sem contar com isso. É assim, eu percebo a questão de acabarmos todos presos numa bola de neve, só que até que ponto é deixar sem contraditório.
E sem expor, eu confesso que para mim é difícil a maior parte das vezes. Deixa eu pensar...
Eu nas redes sociais controlo-me um bocado, mas depois faço texto para me vingar. Eu tenho um anjinho, um diabo, tenho duas partes em mim em relação à legislação, às instituições, porque eu tirei direitos e é a minha área de formação. Só que eu sou muito descrente em relação às instituições também, porque muitas vezes são só uma forma de pôr em funcionamento um plano. E muitas vezes quando falamos de direitos, liberdades e garantias, falamos de direitos, liberdades e garantias para...
um grupo privilegiado dessa mesma população. Mas, posto isto e posto estes meus dois anjinhos ou diabinhos em conflito, por exemplo, quando falamos de diferenças salariais, a questão de, quando falamos de casais heterossexuais e quando falamos de ter filhos, a disparidade nas licenças de maternidade.
faz uma diferença abismal e está provado que em países onde as licenças de maternidade são obrigatoriamente divididas de forma igual, há uma discrepância um pouco menor. Portanto, acho que há coisas que se podem fazer. Lá está, eu tenho esta parte em mim que diz as instituições, blá blá blá, mas depois penso que se o direito ao aborto fosse um direito constitucionalmente...
assegurado e inabalável, se calhar alguma coisa poderia ser diferente, ou seja, eu tenho muito esta divisão em mim de se nos agarrássemos mais às instituições ou não, se faria a coisa diferente ou não.
Tenho aqui mais duas perguntas. Da Inês esteve já um pouco parecida com uma das primeiras que eu fiz, mas vou fazer nem a mesma. Ela pergunta que mulher foi uma inspiração e exemplo de liberdade na vossa vida? Vamos tentar não associar ao 25 de Abril para termos aqui uma resposta diferente. Ou seja, tipo, a nível mundial, geral, sem ter que ser...
que mulher é que foi uma inspiração e exemplo de liberdade na vossa vida eu acho que vou escolher uma das que eu mais admiro e que adoro e que faleceu há relativamente pouco tempo a Rita Lee que eu amo assim de paixão e que tem uma vertente obviamente política mas era uma cantora e assim algo mais leve que não era nada leve uma opção mais pop digamos assim irmã
Eu lembro-me quando eu era mais nova e estudei sobre a Rosa Parks, que gostei muito, se calhar, aquelas pequenas coisas que nós fazemos dia a dia, e o fato dela não se ter levantado do autocarro para dar o lugar a um branco. Aquilo inspirou-me muito na altura. Eu andava na escola, não é? E eu achei aquilo, como é que, alguém que já sofria...
tanto de preconceito, racismo e etc, teve força para fazer aquilo no autocarro. Sendo eu uma miúda que andava de autocarro muitas vezes e que era assediada muitas vezes no autocarro, infelizmente, que sabemos que é uma coisa também que o Volta e Meia se fala em Portugal.
E aquilo inspirou-me imenso. E agora assim de repente. Acho que é esse o exemplo que quero deixar. Eu acho que fui tomada por uma onda pessimista. Só consigo ver casos de... Não, porque eu não consigo... Quando colocas como uma mulher livre.
Ok, pode haver alguns exemplos, mas eu nunca acho sequer que dá para equiparar a um homem. Ah, claro. Sabes que seria...
que seria equiparado, e então eu não te consigo dar uma resposta, porque eu só tenho esta coisa, não foi nenhuma, por muito inspiradora que sejam imensas mulheres, elas não foram, não tiveram as mesmas, não te consigo. Se foi realmente livre, ou se foi mais livre que algum homem, era porque era mais rica do que ele só.
Geralmente, por exemplo, a Rita Lee há de ter sido mais livre que muitos homens porque era uma mulher extremamente privilegiada e conseguiu fazer aquelas palhaçadas todas no melhor dos sentidos que ela fez porque era uma mulher extremamente privilegiada
rodeada de pessoas muito bem conectadas e tudo e mais alguma coisa. Portanto, tudo aquilo que ela fez e tudo aquilo que nós achamos que é rocalhada e uma cena super disruptiva, fê-lo porque sabia que o podia fazer e foi mesmo, esticou a corda até onde pôde esticar e ainda bem porque depois nós temos as histórias para ouvir, mas porque podia, não é? Aqui neste caso acho que o exemplo da Joana é muito melhor porque estamos a falar de uma pessoa que voltando exatamente à conversa do início e as dúastas as dúastas as dúastas as dúastas as dúastas as dúastas
no seu lugar de bem, eu se calhar não sou nenhuma revolucionária não sou nada, eu só me quero sentar no autocarro e dizer eu amo essa imagem arrepiei-me toda assim que falaste da Rosa Parks porque eu amo essa imagem do tipo, não me vou avançar vou continuar aqui, desculpa é exatamente o ponto do início de lá está, uma pessoa que estava só a viver o seu dia e com uma pequena ação do seu dia gigante ação do seu dia irmã
é lembrada na história toda por causa disso é preciso uma coragem do caraças às vezes só para fazer uma coisa normalíssima como continuar sentada onde estamos sentada a Rita Li é um bom exemplo neste sentido que estávamos a dizer de privilégio porque muitas pessoas que têm esse privilégio nem sequer tocam em assuntos
problemáticos ou polémicos para não perder esse privilégio e esse é um excelente exemplo também de uma pessoa que nunca teve medo de dizer aquilo que tinha para dizer
Sem medo de perder esses... A Vera diz aqui, depois do 25 de Abril, houve ganhos, claro, de liberdade para as mulheres, mas hoje muitas são forçadas a acumular trabalho remunerado e a maior parte do trabalho doméstico. Já falamos aqui também. Uma dupla jornada que não é recompensada nem reconhecida. Consideram que este fenómeno é uma nova forma de exploração das mulheres e uma expressão do patriarcado disfarçado de liberdade. Também falamos um pouquinho sobre isso. Sim, sim, sim. Sim, Vera.
Sim, é assim, na verdade. Exato, é muitos sims. Não quero dizer que antes, porque às vezes diz-se um pouco mal que as mulheres saíram do trabalho doméstico para o mercado laboral. Não, as mulheres que eram pobres, efetivamente, sempre trabalharam, eram o campo e em casa e acumulavam funções.
maioritariamente e eu acho bom que já estamos no ponto em que reconhecemos esta dupla e tripla jornada e porque depois consegues combinar várias jornadas e é bom que já se reconheça que ela existe agora é preciso tratar dela, não é? Sim, quase muito.
Há quem acha que a nova forma de tratar dela é esta nova moda de Threadwives e coisas do género, que claro que não é. Por acaso agora soube há uns dias e rindo bastante, a Ann Atway vai fazer um filme em que ela é uma influencer de Threadwives e depois do nada acorda e está em 1855 e tem efetivamente que fazer a vida que defende. Eu acho isto.
absolutamente delicioso e quero muito ver quando sair mas é isso, enquanto nós tivermos o trabalho reprodutivo a ser feito da mesma forma mas depois as mulheres a terem um trabalho exatamente igual fora, é só uma forma de escravizarmos as pessoas, portanto enquanto nós não alterarmos tanto a forma como trabalhamos, como a forma como o trabalho reprodutivo é dividido vamos estar a escravizar mulheres, obviamente sim irmã Mastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastastast
Eu escravizo a minha esposa para poder fazer este podcast Não, mas isto é um acordo que nós temos Não conseguia ter o trabalho mais O podcast para trabalhar Fazer tudo em casa Claro, claro, claro Também tenho que escravizar o meu marido para estar aqui Está tudo bem Somos exploradores de hoje
Não, mas é isso, tem que haver essa... As pessoas fazem-se um bocado parvas às vezes neste tema, que quando, por exemplo, houve aquela questão do ministro que disse ai, a minha mulher só me fez a mala para três dias, vem logo uma tropa...
Isto são mimos, isto é cuidado na relação. Ok, então vamos ignorar toda a estatística de que o trabalho reprodutivo é todo maioritariamente feito por mulheres e quando um homem vem dizer isto com esta desplicência para a televisão vamos acreditar que ele também lhe faz o jantar imensas vezes e que ele lhe faz a mala. Para mim, fazer a mala é uma loucura, mas pronto, isso é outro tema. Alguém se quer fazer a mala a alguém é uma loucura, tipo o homem não sabe o que é que vai vestir.
Se a mulher lhe quisesse ter posto um triquine para ele levar para uma presidência, pois...
juro, eu só gostava que alguém reckeasse essas malas que as mulheres fazem aos maridos agora vou-te para uma tanga vais para o comício de tanga, bem feito à próxima fase da tua mala como homem adulto mas é, as pessoas fazem-se muito parvas uma gravata, sei lá, assim, meio estranha sim, sim, uma gravata com é uma coisa se calhar eu noto mais um bocadinho um palinho da Plagôia, sei lá, assim
Eu ia dizer pichas, mas obrigada por teres dito o polhinho. Em pessoas mais velhas, os homens dependem muito daquilo que as mulheres deixam para eles, seja roupa feita, mesmo até em consultas de hospital.
Tem que ser a mulher a dizer o que é que ele sente, de que é que ele se queixa. Isto vê-se muito. Realmente nós podemos falar de muita coisa, mas o tempo está a apertar. Mas efetivamente depois a gente entra por aqui por outras coisas e tem mesmo... No fundo o homem também não se sabe desenrascar sozinho. Não foi ensinado a desenrascar-se sozinho. Mas é mesmo verdade. Eu quando era pequeno tinha duas avós totalmente diferentes. E uma das minhas avós, os meus primos, somos 30 primos, somos muitos.
se os rapazes entrassem na cozinha ela dizia logo, a cozinha não é para os homens e nós íamos fazer, brincar as nossas coisas, mas as raparigas estavam lá a ajudar todas a cozinhar a pôr a mesa, tudo isso mas nós éramos literalmente proibidos de mexer uma palha
não era pela nossa cozinha, não era o nosso espaço isso não é culpa dos homens até uma certa idade não é porque nós somos sempre fruto do caldo em que somos cozinhados e isso não é culpa dos homens até uma certa idade mas depois quando os próprios homens se deixam estupidificar para proveito próprio porque assim se for qualquer outro tema um homem não se deixa estupidificar se eu chegar e disser ai não toques no agora vou dizer nomes de peças de cabos ou vais receber menos agora do que as mulheres irmã Mastin
Sim, agora vais receber menos antes de não souberes não sei o que do chassi ou peças de carros o homem não, o homem sabe agora não tem vergonha nenhuma de dizer epá, eu não sou muito bom a limpar a casa que é uma coisa absolutamente essencial para seguires com o teu dia e viveres a tua vida ai não sei fazer, ai não sei fazer nada estupidificam-se por proveito próprio
Qualquer pessoa já fez isso em alguma área da sua vida, claro, alguns de nós já fizeram isso em áreas da sua vida, mas agora quando são áreas tão basilares como literalmente tudo aquilo que tens para fazer, a roupa que vestes, a comida que comes, as consultas a que vais, a tua saúde, tudo, começa a ser problemático, mas sim, respondendo à tua pergunta, Luís, até tem que haver alterações nos dois lados.
Desculpa, Joana, é repetida a pergunta para ti, mas se calhar mudou, não sei. O que é que faz falta? Eu acho que o que faz falta é mesmo homens que falem destes temas. Ou seja, nós já temos muitas mulheres a falar sobre assuntos.
Também temos muitas mulheres a dizer asneiras, não é? Mas, efetivamente, nós precisamos de homens que falem sobre isto, que vejam o problema e que falem sobre o problema com outros homens. Eu acho que faz falta nós pararmos também de esperar que um outro, um outro alguém faça. E embora estejamos todos assegurados com o dia-a-dia e com o trabalho e com todos os problemas e mais alguns,
É pensar que nós também podemos fazer alguma coisa, que mais não seja ser chato no dia a dia e corrigir, tentar. Isto é problemático, eu sei, porque é uma outra sobrecarga, que é andar a chamar pessoas à atenção e a tentar de certo modo educar, mas que acaba por ser necessário para dar um morro na mesa e eu acho que é preciso também começarmos mesmo...
a traçar o limite do aceitável. Eu penso muitas vezes mesmo que só chegamos até que ponto, só chegamos até aqui porque quantas vezes é que alguém disse alguma coisa e nós calámos e até sorrimos para não criar mau ambiente para não criar uma discussão quantas vezes é que nós permitimos isto até chegar ao ponto
que chegou e então é começar realmente a dizer a confrontar, a sair da sala a fazer o que for necessário para deixar muito claro tudo que não, não é aceitável e acho que é um bocadinho para ir também Então faltas tu responder o que é que faz falta?
Eu gosto de animar, em todos os sentidos do animar, mas acho que é organizar não abandonar e animar e juntar as pessoas. Acho que estamos no caminho individualista e de... o plano está feito para isso, para nós nos separarmos uns dos outros e acho que é muito importante juntarmos e haver esses espaços onde nos podemos juntar e onde podemos animar organizar e tudo o resto.
E assim para terminar, eu fiz aqui outra dinâmica, que é a dinâmica do lápis vermelho. Disse com pronúncia de braga. Dinâmica do lápis vermelho.
Ou seja, vamos tentar, desesperai que eu agora confundi-me com as minhas próprias regras desta dinâmica. É melhor, lápis vermelho, a censura que o 25 de abril aboliu, mas todos temos coisas que preferíamos não ouvir. Qual é o argumento contra aquilo que vocês mais gostam de ouvir, que no fundo gostariam de censurar hoje em dia?
Olha, eu já te sei qual é. Tudo o que tem a ver com violações, que infelizmente é uma coisa... Tivemos uma polémica há pouco tempo, mas não é de agora. Volta e meia nós temos assim, o pensajeito, o estava a pedi-las, viram o que estava vestido, o que ela tinha vestido, ou seja o que for. Isso eu censurava logo, se pudesse.
lá tens vermelho, logo concordo, concordo a 300% também iria para aí mas nem todos os homens acho que é outro sensuário dessa frase sim, o not all men tudo o que seja legitimar violações no fundo são a mesma coisa não sei se tem outra mas eu acho que no fundo é tudo o que seja irmã
Ou então, agora já não se pode dizer nada. Tudo o que seja desresponsabilização e culpabilização de vítimas, que é basicamente o que estamos a falar aqui. Ou seja, é retirar o ONU do sítio onde ele deveria estar. Ou seja, retiramos a responsabilidade dos agressores para colocar a responsabilidade nas vítimas.
gostei muito de termos aqui comigo para celebrar o 25 de abril e eu gosto sempre de terminar os episódios do podcast a que faz falta com uma mensagem de esperança, sei que algumas pessoas talvez vão ter mais dificuldades de pensar no futuro com a esperança mas o que é que nos faz ter esperança para um futuro melhor? O que é que vocês acham que é uma mensagem importante para quem está a ouvir este episódio que saia daqui a pensar que há coisas boas no futuro e que pode haver essa esperança?
À medida que nós fomos falando aqui, acabou por crescer um bocadinho aqui a esperança também muito com o exemplo que a Suzana estava a dar. Qualquer um de nós pode fazer qualquer coisa e eu acho que isso já é o suficiente para termos esperança porque nós somos muitos.
Se todos nós fizermos algo e nos juntarmos, seja nestes podcasts, seja pelas redes sociais, nossas ações lá está têm consequências e podem ser consequências positivas. Por isso eu acho que a minha nota de esperança é que todos façamos algo mesmo quando acreditamos que não temos essa capacidade. Estou com a Joana também. É isso. Eu acho que é muito nessa lógica de que todos podemos...
fazer alguma coisa e mudar alguma coisa, mas eu vou voltar um bocadinho ao mesmo, mas eu acho que, diferente de outros períodos na história, em que as mulheres aceitavam papéis secundários ou não ter papel, eu tenho mesmo muita fé que vamos ser muitas ainda.
transformadas em padeiras de alvo de barrotas. Vamos correr com o que for necessário correr e que não vamos dobrar assim. Acho que muitas de nós crescemos e sabemos e lemos sobre tudo que esteve lá atrás e muitas estipulámos que...
nem para nós, nem para as nossas e nem para as que venham a seguir e isso eu acho que isso é uma força muito poderosa ainda vou continuar a nota da Suzana e também da Joana com uma coisa que li no outro dia da Jamila Jamil que ela disse se as mulheres fossem de facto submissas
depois de tantos anos de submissão, pelo menos já estariam quase perto de obedecer. Portanto, a prova de que não somos nada submissas é que tudo o que tentaram fazer ao longo destes anos não funcionou. E, portanto, acho que as mulheres sozinhas não podem, não conseguem, precisamos de aliados, mas também acho que vai passar muito pelas mulheres que querem fazer a diferença. E voltando aqui ao ponto de precisamos de nos unir, eu sei que é complicado porque...
Passamos o dia todo a trabalhar e é um projeto feito para nos levar à exaustão, mas acho que quando temos o privilégio de só ter um trabalho, por exemplo, que é um privilégio que muita gente não tem, acho importante pegarmos no tempo que temos, unirmos.
não nos deixarmos ir abaixo, criarmos redes de apoio, não esperarmos por profetas, não esperarmos por aquelas pessoas que vêm fazer e nós vamos seguir só. Acho que é importante não nos levantarmos do autocarro e fazermos aquilo que está ao nosso alcance, por mais pequeno que seja, acho que pode ser muito, muito relevante.
Foi uma ótima forma de terminarmos aqui o episódio com uma mensagem assim tão poderosa. Muito obrigado às três por terem-me cá vindo ao podcast que faz falta. Espero que seja aqui um episódio bom para celebrar o abuso de 25 de abril ou 51 anos de liberdade. Seguimos de três marinhos.
O que faz falta é um projeto totalmente independente Espreita a descrição Há formas muito simples de ajudar Como canta a Bozeca Venham mais cinco de uma assentada Conto contigo para espalharmos esta mensagem Porque o que faz falta é agir Muito obrigado por estares desse lado