Episódios de À Volta do Largo

Uma Biblioteca Móvel Incomoda Muita Gente

05 de maio de 20262min
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Em 1947, a organização de uma Biblioteca Móvel em Condeixa, despertou a vigilância da PIDE. Agora, a Biblioteca Móvel está de regresso a Condeixa e Mário Antunes fala-nos dela.

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Participantes neste episódio4
F

Fernando Geraldo

ConvidadoObreiro
F

Fernando Rebelo

ConvidadoObreiro
L

Luisa Pimentel

ConvidadoPresidenta da Câmara
M

Mário Antunes

ConvidadoObreiro
Assuntos3
  • Biblioteca Móvel em CondeixaOrganização em 1947 · Vigilância da PIDE · Projeto de jovens · Financiamento por particulares · Denúncia a Fernando Rebelo · Apreensão de 150 livros · Recuperação de 143 volumes
  • Roubo à Biblioteca Mário de AndradePatente na Biblioteca Municipal de Condéxanova · Até 16 de maio · Tributo à coragem · Memória de resistência · Luisa Pimentel
  • Controle Mental e PensamentosFahrenheit 451 · Ray Bradbury · François Truffaut · Regimes totalitários
Transcrição6 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Condesha a Nova Andaria pelos 14 mil habitantes em meados da década de 40 do século passado. Apesar dos poucos 15 quilómetros que a separam da mais antiga universidade portuguesa, onde o saber vem vestido a fato e capa negra, Condesha, como o resto do país, sobretudo o interior, vivia então conformado à iliteracia forçada e à mordaça.

É nesse caldo arcaico e na falta de uma biblioteca pública que um grupo de jovens da terra avança para a criação de uma biblioteca móvel. João Ribeiro, Fernando Geraldo, Mário Varela e Miguel de Araújo foram obreiros desse Assumo de Liberdade. Um projeto de partilha de livros pela vila e pelas aldeias, financiado por particulares, pelos leitores e pelas receitas angariadas num baile realizado no Clube Condensa.

O sonho do livro livre e acessível havia de ser quebrado a partir de uma denúncia para a PIDE do então vice-presidente da Câmara, Fernando Rebelo. O processo de averiguações da polícia do regime culminou em 1949, em interrogatórios e na apreensão total do espólio.

150 livros que a PIDE apreendeu e dos quais se perdeu o rasto durante décadas. Páginas e páginas voltadas à poeira do esquecimento. Desses 150 volumes originais, 143 foram recuperados recentemente e mostrados em público para que a memória não se apague.

Uma biblioteca móvel incomoda muita gente é o nome da exposição que está patente na Biblioteca Municipal de Condéxanova até 16 de maio. Esta exposição é um tributo à coragem de quem em tempos de silêncio acreditou que o acesso à cultura era um direito inalienável. As palavras são de Luisa Pimentel, a Presidenta da Câmara, para quem a exposição evocativa da Biblioteca Móvel serve de reencontro da comunidade com uma memória de resistência.

Lembro-me sempre da visão distópica de Fair Night 451, o livro de Ray Bradbury sobre essa sociedade onde livros são proibidos e queimados por bombeiros e que François Truffaut voou à tela num clássico de 1966. A censura e o controle do pensamento através dos livros têm sido prática ao longo da história em regimes totalitários. A mesma história que felizmente nos mostra que até a mordaça forçada tem um tempo.