Episódios de Contornos

Helder Almeida no centro do caos

25 de agosto de 202617min
0:00 / 17:29

Como é estar no meio da cena de um assalto a banco? O fotógrafo Helder Almeida relatou a madrugada em que registrou o ataque que parou uma cidade.

Participantes neste episódio2
J

Juan Madeira

HostJornalista
H

Helder Almeida

EntrevistadoFotógrafo
Assuntos7
  • A experiência de um fotógrafo no ataque a banco em PassosPassos·assalto a banco·fotografia jornalística
  • A cobertura do fotógrafo Helder Almeida no local do crimeHelder Almeida·plantão policial·Avenida Arouca
  • O confronto entre a quadrilha e os policiais em PassosPolícia Militar·armamento pesado·troca de tiros
  • O resgate dos vigias do banco e a destruição após o assaltovigias do banco·dinamite·destruição
  • O relato do irmão do host sobre a madrugada do assaltoAndoni Madeira·explosões e tiros·Passos
  • A estratégia dos bandidos para bloquear a cidade e dificultar a ação policialônibus incendiados·MG-050·transformadores de energia
  • A prisão da quadrilha e o arsenal apreendido pela políciaHortolândia·fuzis·explosivos
Transcrição36 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
JMJuan Madeira

Esse não é um episódio de true crime, mas na madrugada do dia 11 de abril de 2018, um crime real espantou Passos, cidade onde fui criado, e um fotógrafo acabou ficando no meio de toda a ação, registrando cada momento. O meu irmão, Andoni Madeira, lembra bem da sensação de ouvir tudo acontecendo, já que o crime foi a poucos metros de casa.

?Voz B

Ué, foi um dia normal assim. Eu acho que era uma quinta-feira, quarta ou quinta-feira, porque eu sabia que no outro dia tinha aula, tinha cursinho. Então era um dia de semana. Aí fui dormir, eu acordei com as prateleiras tremendo. Eu falei, uai, isso aqui não é fogos não, prateleira tá tremendo. Aí eu fui, acordei minha mãe e falei Escuta esses fogos aqui, tá muito esquisito. Aí ela acordou, a gente saiu aqui de fora. Bicho, só tiro pro alto. Não era fogos não, eles estavam jogando bomba, tava explodindo as coisas ali.

JMJuan Madeira

Tudo isso aconteceu numa quarta-feira em Passos. Eu tava no primeiro ano da faculdade de jornalismo na Federal de Uberlândia e acordei com a notícia da loucura que a cidade tinha virado. Com ônibus incendiado bloqueando as saídas e troca de tiros intensa. Apesar do susto e da gravidade da situação, minha família ficou em segurança. Enquanto o assalto rolava, meu irmão e minha mãe se protegeram no apartamento que fica a duas quadras das agências invadidas.

?Voz B

A gente pegou o Bob, o gato, e trouxe aqui para dentro, né, porque tava ali fora. Mas ele não tava comigo não, ele tava de boa, tava dando para ver os projéteis da era fuzil, né, rasgando o céu assim. Eles estavam atirando para cima para ninguém sair na rua, né, e também para polícia não chegar perto, tipo demonstrando a força deles. Uai, aí como a gente mora muito perto aqui, a gente achou melhor ficar na sala, que na sala ali não dá ângulo, né, para avenida ali.

Aqui de fora até Até que dá um pouquinho de ângulo. Tinha, sei lá, 2 policiais ali na descidinha ali, mas não dá para fazer nada, estava só parado ali. Até trocaram tiro, viu? Daí depois virou assunto, né? No outro dia, semana inteira, né? Até que foi, até que foi rápido assim, umas 2 horas eu acho. Se for pensar que eles roubaram o banco e fugiram rápido. Foi isso aí.

JMJuan Madeira

Daí a mamãe acionou o contato dela, o cara tava na rua junto com a polícia acompanhando. Esse colega que minha mãe acionou no meio da madrugada é o Hélder Almeida, fotógrafo profissional da cidade. Ele trabalhou durante anos com minha mãe, a também jornalista Adriana Dias, na redação do jornal Folha da Manhã de Passos. Acostumado com plantão policial, o Hélder já tinha visto de tudo na profissão. Mas nada parecido com o que encontrou nas ruas naquela noite.

HAHelder Almeida

E eu te falar, já cobri várias matérias, algumas tensas, mas igual essa foi que vai ficar marcado, como dizem, toda minha vida.

JMJuan Madeira

Eu sou Juan Madeira e esse é o Contornos, um retrato diferente a cada episódio. Antes da gente entrar nos detalhes dessa história, eu quero te fazer um pedido rápido. O podcast vai ser sempre gratuito, Mas se você achar que esse trabalho vale a pena, pode apoiar a produção no apoia.se/ruanmadeira ou simplesmente seguindo, avaliando e compartilhando esse episódio com quem você acha que vai curtir. Agora sim, vamos voltar para aquela madrugada e entender do começo como toda essa ação aconteceu.

?Voz D

Bandidos fortemente armados atacaram os bancos no centro de Passos. De acordo com a Polícia Militar, o ataque contou com cerca de 15 homens Por volta de 1:30 da madrugada, houve explosões nas agências do Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal. Os bandidos atiraram nos transformadores de energia elétrica e parte da cidade ficou sem energia. Houve troca de tiros com a Polícia Militar e ainda, de acordo com a PM, os bandidos colocaram fogo em ônibus na MG-050. Mais informações sobre o ataque aos bancos.

JMJuan Madeira

O ponto de partida da quadrilha foi colocar fogo em um ônibus bem numa das principais saídas da cidade. Para dificultar o acesso da polícia. O fotógrafo Hélder Almeida lembra do exato momento em que percebeu que não ia ser uma noite comum.

HAHelder Almeida

Eu estava em casa assistindo televisão quando meu celular tocou. Era um conhecido meu dizendo que tinha um ônibus totalmente em chamas ali próximo ao antigo Dom Fernandes.

JMJuan Madeira

Dom Fernandes era um estabelecimento que ficava nas margens da MG-050, em uma das entradas de Passos.

HAHelder Almeida

Desloquei para o local Cheguei lá juntamente com o caminhão do bombeiro. Pessoal do bombeiro já fez preparativos, já começou a apagar as chamas do ônibus. E a preocupação maior era que tem ou não tem pessoas dentro do ônibus. Passou alguns segundos, os bombeiros viram que não tinha ninguém ali. De repente começou vários estrondos, barulhos, né, de bombas vindo de dentro da cidade. De lá da rodovia a gente ouvindo tudo.

JMJuan Madeira

O Hélder, que tá sempre nas ruas quando algo foge do normal na cidade, começou a receber uma ligação atrás da outra. Eram moradores da região da Avenida Arouca, a principal via do centro onde ficam as agências bancárias em Passos, avisando sobre o cenário de guerra. Só que enquanto os bombeiros e o Hélder ainda estavam ali na saída da cidade, onde o primeiro ônibus pegava fogo, veio o aviso de um segundo bloqueio. Outro coletivo tinha sido incendiado na saída para Furnas.

HAHelder Almeida

Tem outro ônibus pegando fogo ali sentido Furnas. Os bombeiros debelaram as chamas desse incêndio aqui próximo ao antigo Dom Fernandes e deslocaram para o outro ônibus. Chegando lá no local, o ônibus estava todo incendiado, não tinha como passar na rodovia nem sentido Itaú de Minas a passos, nem Furnas a passos. Então quer dizer, os bandidos cercaram a rodovia. Eu fiz as imagens que eu tinha que fazer, né, porque eu trabalho para uma televisão há muito tempo. Então eu fazendo as imagens, fiz umas fotos para o jornal daqui de Paços.

JMJuan Madeira

As fotos que o Hélder tirou você vê no meu Insta, @ruanmadeira_.

HAHelder Almeida

Pensei, falei, agora eu vou deslocar para dentro da cidade. Peguei meu veículo, desloquei para dentro da cidade. E muito tiro, as pessoas me ligando, cuidado, cuidado, não chega perto aqui da Avenida Arouca não, que a coisa aqui tá tensa.

JMJuan Madeira

Mesmo sabendo do perigo, o Hélder foi para o local do crime, que segundo a PM começou por volta de 1:30 da manhã. Poucos minutos depois, ao se aproximar da Avenida Arouca, ele viu o que talvez tenha sido a primeira cena do confronto. Na rua de cima do banco, um carro abandonado com as portas abertas vasando óleo e crivado de balas. Era o rastro da troca de tiros entre policiais e a quadrilha, que contava com pelo menos 15 criminosos armados.

HAHelder Almeida

Então, quer dizer, 3 heróis nesse dia tinha vestindo farda da Polícia Militar. Esses 3 trocaram tiros intensos com os bandidos, bandidos fortemente armados, até inclusive com a famosa 7,50, né? É um armamento que derruba até helicóptero, avião. É uma arma de grosso calibre. E esses 3 militares não arregaram não, combatendo ali o tempo inteiro e pedindo apoio para os outros militares que com o tempo foram chegando. Mas assim que um dos militares de passos acertou um dos bandidos Eu acredito que aí acabou a ação deles. Eles, opa, peraí, vamos vazar, né?

JMJuan Madeira

Quando a quadrilha decidiu fugir, o estrago já estava feito. No Banco do Brasil, o grupo conseguiu acessar os cofres e levar uma grande quantia em dinheiro. Na Caixa Econômica, eles roubaram mais dinheiro e várias joias penhoradas, mas o valor exato não foi divulgado pela polícia. Na fuga dessa ação, que durou pouco mais de uma hora, os criminosos ainda atiraram contra transformadores de energia, deixando boa parte de Passos no escuro.

Um dos carros usados no crime foi abandonado na cidade com munições no interior. Como algumas dinamites deixadas nas agências não chegaram a explodir, uma unidade de operações especiais foi acionada para desarmar os artefatos. A região central ficou toda interditada durante a manhã e as aulas da rede pública foram canceladas. E foi no meio desse cenário de destruição e penumbra que o Éder viveu um dos momentos mais marcantes daquela noite.

HAHelder Almeida

Então os bandidos se evadindo, eu peguei, fui lá para o banco totalmente apagado. Eu tenho meu equipamento com iluminador, a iluminação não tinha na avenida. Eu cedi essa iluminação para o perito criminal da Polícia Civil de Passos juntamente com o delegado. Então nós entramos para dentro do banco e a destruição foi, como diz, foi total ali dentro do banco, muita poeira ainda. Algumas bananas dinamite no chão, porém sem o cordel são inofensivas, né?

Bastante dinheiro espalhado pelo chão do banco. E assim que a gente adentrou no banco, uma voz falou, ajuda a gente, ajuda a gente!

JMJuan Madeira

A voz de socorro vinha dos vigias do banco. No meio das explosões, uma parede caiu e eles tiveram que se abrigar dentro de um armário. Vendo o estado deles, o Hélder chamou o resgate na hora.

HAHelder Almeida

Os bombeiros foram para lá com os equipamentos. Conseguiram tirar ele de lá. Foi muita emoção, um abraçando o outro, né, devido à tensão ali, a bomba o tempo inteiro, muito tiro e tal. E graças a Deus nenhum ferimento nesses vigias. E a gente percorrendo ali o banco ali, vixe, a destruição era bastante. Buracos na parede que chegou a voar como diz peças lá na rua do SIC, atingindo até casas, né, da região, muito vidro quebrado.

JMJuan Madeira

O SIC que o Hélder menciona é o Colégio Imaculada Conceição, uma escola tradicional que fica logo na rua de cima de onde tudo aconteceu.

HAHelder Almeida

Então a gente andou ali dentro do banco, depois eu peguei, dei mais uma volta na rodovia Porque algumas ligações falavam que os bandidos tinham deslocado para tal lugar, outros já para tal lugar. Mas Polícia Militar chegou a dar tiro nos veículos blindados que os bandidos usavam. E foi falar um dia tenso, tava muito tranquilo, a cidade ficou totalmente— alguns curiosos depois que dos bandidos, lógico, né, evadiram. O pessoal desceu para Avenida Arouca, muitos curiosos, muitas cápsulas de munição de grosso calibre espalhadas pela avenida, transformadores de energia quebrados e iluminação naquela imediação ali da Avenida Arouca ali tudo apagado.

JMJuan Madeira

O Hélder disse que o que mais impressionou naquele momento foi o rastro de destruição. Mas apesar de toda a violência e das bombas, além de um assaltante que levou um tiro de raspão, ninguém mais ficou ferido.

HAHelder Almeida

Militares foram ali heróis mesmo, 3 militares trocando tiro com mais de 10 bandidos fortemente armados. Tem um delegado também que estava na residência dele, assim que a munição dos militares foi acabando, eles foi ficando encurralado. Esse delegado também fez muito, ele foi muito herói, porque os bandidos chegando, os polícias subindo numa rua sem saída, estavam encurralados. O delegado simplesmente abriu fogo com a pistola contra esses bandidos, os bandidos recuaram, e ele falou para os militares: entra, vem para minha casa.

Os militares foram, bem dizer assim, por que não falar, foram salvos por esse delegado. Então fala assim, nesse dia tinha muitos polícia, mas eu não esqueço dos 4 heróis não, o delegado e mais 3 militares.

JMJuan Madeira

Na visão do fotógrafo, a atuação daquele delegado e dos 3 policiais foi um ato de heroísmo e que eles mereciam uma homenagem pública pela bravura naquela noite. Uma homenagem que, por questões de segurança, acabou não sendo feita. No dia seguinte, eu acordei por volta das 8 da manhã pra ir pra faculdade, provavelmente uma aula de introdução ao jornalismo. Quando peguei o celular, vi que minha mãe tinha deixado alguns áudios. Ela contou tudo que já sabia até aquele momento e me tranquilizou, garantindo que apesar do susto, a poucas ruas de casa, todo mundo tava bem.

E a resposta da polícia veio rápido. Apenas 3 dias depois do ataque, a quadrilha foi localizada e presa na cidade de Hortolândia, perto de Campinas, no interior de São Paulo. 6 criminosos foram detidos. Com eles, os policiais apreenderam cerca de R$170 mil em dinheiro, e um verdadeiro arsenal: 4 fuzis, entre eles um .50 com poder de fogo capaz de derrubar até aviões, além de 3 pistolas, capacetes e máscaras contra gases. O grupo também guardava 300 kg de explosivos em bisnagas de emulsão, prontos para serem usados em novas ações.

HAHelder Almeida

Bandidos que estavam lá em Hortolândia teriam participado dessa ação aqui em Passos, nessa explosão dos 2 bancos. Eu até acredito que se a polícia não tivesse acertado um desses bandidos que tomou um tiro de raspão na barriga, eles teriam explodido mais um banco, porque ficou uma bomba armada, muita dinamite, ficou tipo um quadro, né, com bastante dinamite nela. Então a gente não sabe se ia explodir mais um banco ou se deixar ali, tipo, se aquele artefato não conseguisse derrubar a porta do banco Eles usariam um mais forte, aí eu já não sei.

JMJuan Madeira

A história desse assalto ficou marcada na memória da cidade e de quem trabalhou cobrindo o caso. O Helder guarda essa cobertura como um dos momentos mais impressionantes de toda a sua trajetória.

HAHelder Almeida

É uma lembrança que essa vai ficar nesse meu tempo de mais de 23 anos cobrindo acidentes com vítimas fatais, homicídios, assaltos, latrocínios. Eu lembro até o barulho que a gente começa a ouvir, relembrar eles, aqueles estrondos. Passava um pouco, de novo. E assim foi, e durou um tempo bom.

JMJuan Madeira

Enquanto o ataque acontecia, muitos moradores registraram o barulho assustador das explosões pela janela de casa, e os áudios e vídeos rapidamente circularam pelas redes sociais.

?Voz D

Ah, explodiu o caixa!

JMJuan Madeira

Antes de encerrar o relato, o Hélder trouxe mais um fato que chamou atenção na época. A quadrilha tinha tecnologia para interceptar e interferir na comunicação dos rádios da polícia.

HAHelder Almeida

E os bandidos nesse dia copiaram também a frequência da polícia, inclusive chegando até a dizer pros militares, nós viemos pra buscar dinheiro, não viemos pra buscar a vida não, mas se for no caso, a gente busca também, leva também.

JMJuan Madeira

A gente se acostumou a ver crimes cinematográficos na ficção, tipo lá Casa de Papel, mas quando você liga a TV e o cenário é o bairro onde você cresceu, dá um susto grande. A vida em passos seguiu, o comércio reabriu, os bancos se reconstruíram e o dia 11 de abril de 2018 voltou a ser só uma data no calendário. Mas a história só não se perdeu no tempo porque existia um fotógrafo na rua, no escuro, registrando cada pedaço desse momento de caos.

Eu acho bonita essa vontade que alguns profissionais têm de estar lá quando ninguém mais quer e documentar tudo da melhor forma. Esse episódio usou áudio da Ypê TV, Sul de Minas. Roteiro, apresentação e edição são meus. Se você quiser indicar alguma história pra contar, é só chamar no Insta @ruanmadeira_. A arte de capa é do amigo Eric Topos, que continua criando. Muito obrigado por ouvir até aqui e até o próximo episódio.

?Voz B

Tchau!