Episódios de Contornos

Altina (Claredina Bernardes)

04 de setembro de 202618min
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No dia 4 de setembro de 1950, a dona de casa Claredina Bernardes, conhecida como Altina, saiu para buscar lenha na zona rural de Passos e nunca mais voltou para casa.

Participantes neste episódio3
J

Juan Madeira

HostJornalista
C

Claredina Bernardes

Co-hostJornalista
K

Kélivia Ney

ConvidadoJornalista
Assuntos6
  • A história de Altina, uma mulher que se tornou milagreira após um crime brutalClaredina Bernardes·Passos·Cemitério de Passos·Milagreira popular
  • O assassinato de Altina em 1950 e a falta de solução para o crimeClaredina Bernardes·Feminicídio·Impunidade·Crime real
  • A devoção popular e o misticismo em torno do túmulo de AltinaTúmulo mais visitado·Velário·Pedidos e agradecimentos·Dia de Finados
  • As diferentes versões sobre o crime de Altina e a busca pela verdadeKélivia Ney·Benedito Mustafá de Paula·Zé das Pronúncias·Orecílio Lima Bernardes·Lenda urbana
  • A santidade popular de Altina e o processo de beatificação na Igreja CatólicaMilagre·Igreja Católica·Beatificação·Vaticano
  • A conexão entre a história de Altina e outros casos de santidade popular em Minas GeraisJoão Relojoeiro·Uberlândia·Misticismo·Fé comunitária
Transcrição38 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

E uma vida muito triste, muito pobre, muito sofrida, mas eu não sei direitinho.

JMJuan Madeira

Você conhece alguém que vai lá, vovó, fazer as preces?

?Voz A

Bem do céu, é o povo da cidade. No dia de finados, se você tiver por aqui, você vai lá para você ver. Em novembro, as velas correm assim ao caldo, vai longe.

?Voz 1

É por isso que eles fizeram aquele Velário em volta, porque punha embaixo, aí aquele escorria parar lá na outra rua, né? Aí fizeram aquele velário para escorrer para dentro de um lugar.

JMJuan Madeira

Um aviso rápido antes da gente começar: esse episódio aborda um crime real e tem relatos de violência. Se for sensível a esse tipo de tema, fica o alerta. Hoje é dia 25 de agosto de 2026, eu tô no Cemitério de Passos com a minha mãe Adriana Dias e meu irmão Madeira. A gente tá diante de uma rua com árvores dos dois lados e na Rua 17 tá enterrada uma mulher que a gente vai conhecer nesse episódio. Eu sou Juan Madeira e esse é o Contornos, um retrato diferente a cada episódio.

?Voz 1

Estamos caminhando pela rua principal e na Rua 17, no lado direito, estamos a 25 passos Do túmulo da Claredina Bernardes, a Altina.

JMJuan Madeira

Não é o túmulo de um político importante, de um coronel ou de um dos padres da cidade, mas é disparado o jazigo mais visitado aqui.

?Voz 1

É uma capelinha que chama bastante atenção pelo tamanho. Todo ano, devotos fazem questão de pintar o túmulo com o mesmo tom de bege da Capela São Miguel Arcanjo, que é a capela principal do cemitério. Na frente do jazigo tem de tudo um pouco. Tem roupinha de bebê, brinquedos, fotografias, flores e cartas com pedidos e agradecimentos. Tem fotos no Insta do Juan, é @juanmadeira_. Nós estamos de frente para o túmulo da Altina. O nome de batismo dela era Claredina Bernardes.

Uma dona de casa que foi assassinada de forma brutal no dia 4 de setembro de 1950. O crime foi tão chocante que mais de 75 anos depois ela virou uma espécie de milagreira para Passos e região. Eu sou Ruan Madeira, eu sou Adriana Dias. No episódio de hoje de Contornos, a gente vai entender como um crime bárbaro e sem solução transformou uma mulher comum em uma milagreira.

JMJuan Madeira

Pra história de hoje, a gente conversou com a jornalista Kélivia Ney, que fez uma reportagem muito bem feita em 2023 sobre o caso. O texto tá disponível no site dela, que é noticiar.net. Vale muito a pena dar uma conferida lá.

?Voz A

O próprio cemitério vendo aquilo, eles construíram. Era um túmulo simples. E hoje eles, aí depois eles fizeram, como eles viram que ao longo dos anos ele era um dos túmulos mais visitados, o próprio cemitério construiu aquela capela, aquele tipo de capelinha. E eles abrem de 2 em 2 meses, né, que eu lembro que foi na apuração, para retirar ali, né, E como eu já tinha feito outras matérias sobre ela, ali tem livros, pode ser estudantes que pedem graça para passar de ano.

Velas, tem um velário em volta, né? Roupa de neném. Porque na época que ela foi assassinada, ela estava grávida.

JMJuan Madeira

Ela mergulhou nos arquivos e na memória da cidade para tentar entender o que de fato aconteceu com a Altina. Porque como o assassino nunca foi encontrado e o tempo foi passando, a história virou meio que uma lenda urbana. E lenda cada um conta de um jeito.

?Voz A

Eu sou jornalista há mais de 25 anos, tenho, me formei pela UNESP e depois eu tenho uma, fiz pós-graduação na USP em Mídia, Informação e Cultura. Então assim, essas áreas, né, as editorias de cultura, de curiosidades ou levantamento histórico, sempre me chamaram atenção. Quando acontece um crime desse, eu acredito que as próprias pessoas inventam as suas versões, né? Mas no jornalismo a gente tem que trabalhar com fatos. Primeiro, tive a sorte, a felicidade de falar com uma pessoa que ainda estava viva, né?

Que foi o senhor Benedito Mustafá de Paula. Ele era um radialista conhecido aqui, Zé das Pronúncias, né? Ele já tava idoso quando eu entrevistei, nos anos 2000. Ele era jovem quando aconteceu o assassinato dela. Ele era radialista e ele foi um dos que seguiu os passos ali da polícia para tentar desvendar o mistério na época, né? Então eu tive a sorte aí de entrevistá-lo quando completou 50 anos da morte dela. Então assim, os fatos que ele narrou, eu acredito que seja uma versão É realista.

?Voz 1

A primeira versão mais sólida que a reportagem resgatou veio de um antigo radialista de Passos, o Benedito Mostafé de Paula, conhecido como Zé das Pronúncias. Ele acompanhou o caso de perto na época e deu uma entrevista detalhada sobre o assunto no ano 2000. Segundo Zé, Altina era casada com um lavrador Tinha dois filhos e morava na Rua Brasil, no bairro Penha. Naquela época, a comida era feita no fogão a lenha. Então, numa manhã, ela e uma amiga conhecida como Sinhaninha saíram para buscar lenha numa estrada na direção da cidade de Cássia.

No meio do caminho, Elas perceberam que um homem pardo, vestindo um macacão azul, estava seguindo as duas. Ele andou atrás das mulheres por uns 8 km. Quando elas chegaram em uma encruzilhada e entraram no mato, o homem atacou.

JMJuan Madeira

Assim, a Aninha conseguiu escapar e correu para pedir ajuda, mas a Altina ficou para trás, lutando corpo a corpo com o agressor. A cidade inteira se mobilizou para procurar a dona de casa. Mas o corpo dela só foi encontrado 4 dias depois.

?Voz 1

Estava no alto de uma invernada, na fazenda do João Nico, escondido debaixo de galhos de aça-peixe. O próprio machado que Altina tinha levado para cortar a lenha foi usado pelo assassino para golpear a cabeça dela. A ferramenta foi deixada ali, suja de sangue, do lado do corpo.

JMJuan Madeira

Como o crime aconteceu bem na época da tradicional festa da Penha, o corpo ficou depositado na capelinha de São Miguel aguardando a perícia, o que gerou uma comoção gigante. A polícia chegou a prender um andarilho e a população tentou invadir a delegacia para linchar o homem. Mas logo ficou provado que ele era inocente e o verdadeiro culpado sumiu.

?Voz A

O desfecho é que não encontrou quem matou a Altina, né? Então assim, fica esse mistério, né? Então são, eu acho que são os dois fatos assim mais marcantes, é essa devoção mesmo que ficou, que o próprio cemitério, né, viu a importância dela e fez até uma homenagem, né, criando aquela capela. Então assim, o que eu acho assim, além do mistério da morte dela, de nunca ter encontrado quem matou, que eu acho que a versão da família que fala que parece que um cara foi encontrado em Cássia e que ele tinha falado que uma pessoa falou, declarou que tinha assassinado ela, mas também não fala quem é.

JMJuan Madeira

Quem contou essa história foi o filho dela, o Orecílio Lima Bernardes, numa entrevista dada em 2002. Para ele, a mãe saiu para buscar lenha com duas amigas e não uma. E o final da história foi ainda mais violento.

?Voz 1

O filho contou que o assassino conseguiu arrancar o machado da mão da Altina, matou a dona de casa com vários golpes e depois esquartejou o corpo. Os pedaços teriam sido jogados em uma moita e achados dias depois. Já em estado de decomposição.

JMJuan Madeira

O Orecílio também revelou um detalhe angustiante. Anos depois do crime, um policial da cidade de Cássia teria procurado a família e disse que um homem tinha ido até a delegacia confessar vários assassinatos, entre eles o da Altina. Mas o nome desse homem nunca foi revelado para os parentes. A família ficou para sempre sem um nome, sem justiça. De volta para o cemitério, tá olhando esse túmulo cheio de velas e presentes? Faz a gente pensar em como as pessoas lidam com a impunidade. Talvez esse misticismo seja a única forma de justiça que sobrou pra Altina.

?Voz 1

Com certeza. A administração do cemitério conta que, durante o ano todo, eles precisam abrir a capela do jazigo a cada 2 meses de tanta coisa que as pessoas deixam ali. Tem doação em dinheiro, roupa, vela e promessa de todo tipo. No dia de finados, chega a dar fila. Muita gente que passa pelo cemitério em novembro vem especialmente para ver a Altina.

JMJuan Madeira

É uma devoção que já atravessou gerações. A reportagem da Kelly ouviu a Elza Maria, uma professora aposentada que desde a adolescência ia rezar no túmulo da Altina pedindo para passar de ano na escola, e ela garante que nunca foi reprovada. O próprio filho da Altina, o Orecílio, acreditava a mãe o fato de ter saído vivo de um acidente de trânsito muito grave. A Altina teve a vida interrompida aos 37 anos de um jeito brutal. O assassino levou o futuro dela e saiu impune.

Mas de um jeito quase inexplicável, a cidade não deixou que ela fosse esquecida. A dona de casa que saiu pra buscar lenha e nunca mais voltou pros filhos virou a mãe que intercede por centenas de pessoas que ela nem chegou a conhecer. Esse é mais um caso arquivado pela justiça, mas eternizado pela memória de uma cidade. Lá era demais, o túmulo dela lá é sempre muito visitado, muito visitado, ainda é até hoje, vai muita gente visitar lá, tá ótimo.

?Voz 1

Ela tinha buscado, hein, era uma mulher pobre, grata, sofreu muito, judiaram muito com ela.

JMJuan Madeira

E aí hoje muita gente aqui em Passos pede muita coisa, agradece também ela, é isso?

?Voz A

É a alma dela é quem pede, alcança.

JMJuan Madeira

Entendi.

?Voz 1

Aí é por isso que eles colocam vela.

?Voz A

Até vou te pedir.

?Voz 1

É, por isso coloca vela.

?Voz A

Assim, a aura dessa questão da Altina ser milagreira, ela vem dessa crença popular, né? A pessoa alcança uma graça, depois volta lá para agradecer no túmulo, alguma coisa, faz alguma promessa. Mas se ela fosse, se ela realmente fizesse uma graça, e para se tornar santa na Igreja Católica ela tem que passar por todo um processo ali, né? Então, se no caso ela teria que entrar com um processo de beatificação primeiro, ouvir todas as testemunhas, né, da pessoa que teve o milagre, né, a comprovação, haveria testemunhas, a família, todas elas.

Aí, se o Vaticano, a Santa Sé comprovar, aí ela se torna beata. Aí depois, num outro momento, se houver uma segunda, um segundo milagre, né, aí sim a pessoa se tornaria santa. Aí seria um outro processo e teria que ter um outro, um segundo caso de milagre comprovado também. Que é um processo longo aí, né, da Igreja Católica para fazer essa comprovação.

JMJuan Madeira

O fenômeno da santidade popular em torno da Altina não é um caso isolado em Minas Gerais. Essa devoção que nasce da comoção por uma tragédia e ganha força na fé comunitária lembra muito a história do João Relojoeiro, um caso de Uberlândia que eu contei aqui no Contornos em agosto de 2024. No caso da Altina, tudo começou em 1950 com aquele crime brutal na área rural de Passos. Uma dona de casa de 37 anos que saiu para buscar lenha foi atacada com o próprio machado e teve a vida interrompida sem que a justiça jamais encontrasse o culpado.

Esse vazio deixado pela impunidade abriu espaço para o misticismo, transformando a dor da perda em um ponto de apoio para quem busca milagres. Quando a Kelly publicou essa reportagem resgatando as versões do crime em 2023, A repercussão foi enorme na cidade. O texto trouxe debates sobre a memória da cidade e mostrou como a figura da Altina continua viva no imaginário de Passos.

?Voz A

Então, além, a gente divulgou nas redes sociais, né, Facebook, Instagram do meu site, e lá teve muitos comentários das pessoas falando da Altina, foram muito curtidas, teve bastante engajamento, né? No Reels, assim, ele alcançou um número de visualizações bastante expressiva, que você vê que tem um apelo bem popular, né? O caso dela, como desenvolveu aí o caso, e que se mantém até hoje, né? Depois de 1950, 76 anos.

JMJuan Madeira

Ainda se mantém o interesse, né?

?Voz A

Sim, eu acredito que ela seja a pessoa que as pessoas mais têm essa ligação de solicitar alguma graça, mesmo com a atuação dos religiosos que a gente teve aqui em Passos, que foi forte, né, na Igreja Matriz, né, Penha, nessas outras paróquias. Conforme o cemitério, né?

JMJuan Madeira

Cobrindo a rotina da cidade há décadas como jornalista em Passos, minha mãe, Adriana Dias, acompanhou de perto a evolução dessa história na imprensa local e tem algumas considerações sobre o peso que esse caso carrega até hoje.

?Voz 1

Eu sou jornalista em Passos há mais de 20 anos e essa história sempre me intrigou por algumas questões. Uma delas é o fato de nunca ter sido encontrado o assassino de Altina. Isso sempre rondou, né, a minha, minha, meu veio jornalístico. Então eu sempre quis saber, mas se nem a polícia conseguiu descobrir, né, na época, e na época nós estamos falando de 1950, era bastante difícil de descobrir as coisas, né, não é tão fácil como é hoje.

Então essa questão me intriga muito. Eu confesso que quando ainda criança eu sempre tive muito medo de cemitério, em especial o túmulo da Altina, porque eu não entendia muito bem como que uma pessoa que morreu podia ser venerada, ser admirada, o povo ir lá colocar vela, né? Para ela. Então essa questão era sombria para mim quando criança. Depois eu cresci, né, e aí obviamente entendi, e entendi que as pessoas que iam lá tanto para pedir quanto para agradecer tinham sim uma conexão com ela, né, pelo fato dela ter sido assassinada, ter sido assassinada grávida, jovem.

Então assim, hoje olhando para trás, foi um dos casos de feminicídio mais terríveis, né, que Paços já teve. E com relação à manutenção das visitas, das pessoas que vão lá agradecer, colocar suas, né, seus pagamentos de promessas, isso tá no imaginário popular. As pessoas entendem nela como milagreira e eu respeito.

JMJuan Madeira

No fim das contas, entre a busca rigorosa pela verdade dos fatos e essa devoção enorme que o tempo foi construindo, a história da Altina diz muito sobre a nossa gente. Ela mostra como a fé popular quase sempre encontra um jeito de ocupar o vazio onde a justiça dos homens falhou. O crime ficou sem resposta, mas a memória não se apagou. Se você se interessa por essa linha entre a tragédia e o misticismo, por esses personagens reais da nossa terra que acabam virando símbolos de fé, eu deixo um convite.

Vale muito a pena voltar um pouquinho no feed e ouvir o episódio que eu publiquei em agosto de 2024 sobre a história do João Relojoeiro. É uma história impressionante onde, de novo, a dor de um crime bárbaro também acabou se transformando em devoção. O podcast Contornos vai ser sempre gratuito, mas se você gostou de conhecer essa história, não esquece de avaliar a gente no seu aplicativo de áudio, compartilhar o link com os amigos e me seguir lá no Instagram, @ruanmadeira_.

Se o projeto faz sentido pra você, considere apoiar a nossa produção no apoia.se/ruanmadeira. Roteiro e edição são meus, hoje a Adriana Dias fez a apresentação comigo. Arte de capa é do amigo Eric Topos, que insiste em continuar criando. Muito obrigado por ouvir até aqui e até o próximo episódio.

?Voz A

Um beijo!