Episódios de IA Sob Controle - Inteligência Artificial

288: A nova corrida da IA nas empresas e universidades brasileiras, com Anderson Soares (CEIA-UFG)

23 de setembro de 202648min
0:00 / 48:30

Nesta semana, recebemos Anderson Soares, fundador e presidente do CEIA-UFG, para conversar sobre a evolução da IA no Brasil, os desafios de transformar pesquisa em inovação, o impacto da IA nas empresas e universidades, além do futuro do software, dos agentes e da supercomputação no país.

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Edição e sonorização: ⁠⁠Rede Gigahertz de Podcasts

Participantes neste episódio3
M

Marcus Mendes

Host
F

Fabrício Carraro

Co-hostViajante poliglota
A

Anderson Soares

ConvidadoFundador e presidente do CEIA-UFG, coordenador científico do CEIA
Assuntos6
  • A evolução do CEIA-UFG e a busca por inovação em empresasintensificação da busca por IA·empresas não-tecnológicas buscando IA·diferenciais competitivos com IA
  • O impacto da IA no mercado de trabalho e a adaptação às mudançasestágios de negação, medo e entusiasmo·marketing à frente dos fatos·mudanças aceleradas pela tecnologia·necessidade de adaptação contínua
  • A transformação do ensino universitário e a avaliação de alunos com IAbacharelado em IA da UFG·desafios para professores·provas de 24 horas·preparação para o exercício profissional
  • O supercomputador brasileiro e o posicionamento do país na corrida da IAparticipação no Plano Brasileiro de IA·fragmentação da concentração do supercomputador·desafio de utilizar a infraestrutura·oportunidade de posicionamento estratégico
  • Desafios e riscos no desenvolvimento de produtos de tecnologiaalto custo de desenvolvimento·modelo SaaS e suas margens·analogia da construção de uma casa·complexidade e estouro de orçamento
  • O uso pessoal da IA para otimização e aquisição de conhecimentoassistente pessoal para briefing diário·busca de informação com agentes inteligentes·transformação do acesso ao conhecimento
Transcrição45 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
MMMarcus Mendes

Olá, bem-vindas e bem-vindos à edição de quarta-feira, edição de entrevista do IA Sob Controle, o seu podcast com overfit de informações sobre o mundo da inteligência artificial. Eu sou o Marcos Mendes e assim como toda semana tá por aqui o Fabrício Carraro, viajante poliglota, host do podcast Carreiras Sem Fronteiras e Program Manager da Alura. Fabrício, Tudo bem?

FCFabrício Carraro

E aí, Marcos? E aí, pessoal? Mais uma quarta, mais uma entrevista com mais uma pessoa que tá voltando aqui no programa, né? Depois de acho que uns 2 anos que a gente bateu esse papo inicial, a gente, como a gente falou, a gente tá trazendo amigos do podcast de volta aqui para bater um papo e saber o que aconteceu 1, 2 anos depois, né? Como é que tá esse mundo? Como é? Os anos a gente fala que são anos de cachorro, né? Vamos ver como é que tá agora em 2026.

MMMarcus Mendes

Exatamente. Então, bem-vindo de volta ao podcast, Anderson Soares. A lista é enorme dos créditos que eu daria a você. VP da AI Brasil, fundador também, presidente, né, do CEIA. Bem-vindo de volta.

ASAnderson Soares

Obrigado, gente, prazer estar aqui com vocês. E realmente, né, no mundo da IA, alguns meses ou poucos anos parece que passou uma eternidade, não é mesmo? Muitas novidades acontecendo. Vai ser um prazer aqui debater esse assunto com vocês.

MMMarcus Mendes

Bem-vindo de volta. E é curioso porque se a gente tivesse gravado na semana passada, não teria dado para dizer que agora você também tá liderando o ranking nacional de influencer em IA. Então, de fato, de uma semana para outra muda aqui a quantidade de crédito que a gente dá, a quantidade que apresenta a pessoa. Parabéns, inclusive.

ASAnderson Soares

Imagino. Muito obrigado e muito honrado também de ser apontado aí nesse movimento tão importante, né? Eu acho que Obviamente o Brasil tem pessoas muito competentes e brilhantes, né, atuando nessa área também.

MMMarcus Mendes

Boa. Então, na última vez que você participou por aqui faz o quê, uns bons 2 anos, que é uma eternidade em anos de IA. O que que tem acontecido no CEIA de 2 anos para cá?

ASAnderson Soares

Olha, de fato o mercado tem se movimentado bastante, né. O Centro de Excelência em IA, ele desenvolve projetos de inovação para empresas privadas, dentro da Universidade Federal de Goiás. E ao longo desses últimos anos a gente viu uma intensificação dessa busca. Eu diria que hoje tem um fenômeno muito interessante acontecendo no mercado, que 10 anos atrás eu tava tentando convencer algumas empresas que não são necessariamente tecnologia fazerem desenvolvimentos.

Hoje isso mudou completamente. Na verdade, eu tô tendo que desincentivar, né? Olha, talvez isso não seja para você, Você tem certeza que você quer se meter nisso, sabe? É uma novidade que aconteceu nos últimos anos. E o que que eu quero dizer com isso? Eventualmente uma empresa ela é de comunicação, ela é de fabricação de um tipo de material, são empresas cujo core do negócio é uma outra atividade, né? A tecnologia ela tá ali como orbital.

Esse tipo de empresa até pouco tempo atrás eles eram compradores de tecnologias que estão no mercado de prateleira, percebe. Então isso é uma mudança bem relevante, significativa, que a gente percebeu nos últimos anos, né, atendendo empresas dos mais variados segmentos. E isso sem dúvida é uma novidade, que é dessas empresas buscarem diferenciais competitivos com desenvolvimento ou customizações de tecnologias próprias.

MMMarcus Mendes

E também usando essa janela como referência do nosso último papo, Como é que tem sido esse outro lado, né, das pessoas que chegou assim, contexto, expectativa versus realidade de quando chegam até aí, que eu imagino que isso também esteja passando por uma transformação interessante.

ASAnderson Soares

Com certeza. Olha, isso é muito importante porque o que que acontece, a economia brasileira ela é predominantemente de serviços, né. Então às vezes mesmo uma empresa de tecnologia ela pode ser uma empresa de serviço. E o que acontece? Os produtos de tecnologia, eles têm uma característica muito própria, que é você ter um alto custo no desenvolvimento, né? A sua capacidade de investimento é alta e se der certo, a margem é muito melhor do que qualquer outro, de outros modelos de negócio, como os de serviço.

Agora veja na minha frase: se der certo, né? Então basta a gente lembrar do famoso modelo de negócio SaaS, né, que é o software como serviço. Que definitivamente é um dos modelos de negócio campeões aí no mundo das últimas décadas, né? Você consegue operar, tem exemplos clássicos de sites, sites, né, que vou dar um exemplo, uma rede social, ela é um site, gente, né? Você parou para pensar que aquilo é um site? Então a margem entre o que aquilo custa de operação e o que gera de receita é um buraco negro lá dentro, é uma margem muito grande.

Agora, entre você fazer um produto de tecnologia dar certo, né, e conseguir chegar nessa margem, é risco, obviamente, né. O capitalismo, ele vive de risco e retorno, não é mesmo? Então, eventualmente, uma empresa que cresceu ali, por exemplo, numa economia de serviço, né, com margens mais apertadas, você cresce mais linearmente, mas mesmo quando você fica grande, a margem ela é apertada. Você se propõe a fazer tecnologia é um outro, uma outra lógica.

Ah, mas o projeto não se paga. No começo não se paga mesmo, né? Porque eu faço uma analogia a construir uma casa, sabe? Eu acho que eu já construí a casa que eu moro, ela foi construída, né? E eu digo que eu nunca mais vou fazer isso na minha vida, certo? Então quem já construiu sabe do que eu tô falando, né? Então, e todo mundo sabe que é um problema, que é estressante, que os prazos não batem, que o orçamento estoura, mas todo mundo quer construir uma, né?

Por quê? Porque você tem ali um ano infernal, né, não há outro termo, né? E mas depois você usufrui por muitos longos anos e de uma forma muito maravilhosa. Então eu adoro morar na minha casa, uma casa confortável, do jeito que eu planejei. Mas a construção é para esquecer e tentar apagar da mente, né? Então quando a gente vai fazer um produto de tecnologia, eu faço essa analogia, tá? A construção é complexa, é chato, é estressante, estoura prazo, estoura orçamento.

Então eu sempre pergunto para empresa que tá entrando nisso pela primeira vez Olha, você tem noção do que é desenvolver uma tecnologia? Alguém já te contou sobre isso, né? Porque é complexo, né? Nem como tudo na vida, nada é perfeito. Você tem umas coisas boas, mas também as coisas ruins, né? Então eu fico sempre ali provocando para entender se o empresário, o empreendedor, ele tem ciência do que é um desenvolvimento tecnológico.

E para finalizar, eu costumo brincar com eles, tipo assim, olha, você já ouviu falar, por exemplo, da Microsoft? Então, assim, então, olha, eu vejo quanto que eles já faturaram, nunca terminaram o Windows, tá entendendo? Então, para quem, eu sei que para quem é de tecnologia é uma coisa óbvia, mas para quem tá entrando agora, né, como eu disse, tem um fenômeno de empresas buscando desenvolver pela primeira vez, tecnologias próprias, é uma coisa que precisa ser dita aí de uma forma clara e transparente para que o empreendedor ele possa ponderar essas questões.

MMMarcus Mendes

E fechando a trinca desse ciclo que eu tô te perguntando, eu perguntei do SEIA, perguntei das empresas, agora eu vou te fazer a pergunta que eu, o Fabrício também recebe certamente, eu recebo de vez em quando, que é o seguinte, que é quem trabalha na empresa, especialmente você falou de SaaS agora, não faz uma semana, a pergunta que é clássica é assim: eu trabalho em uma empresa de SaaS, Eu preciso procurar outro emprego, o SaaS vai morrer, o que que está acontecendo, o que que eu faço? Como é que você vê esse cenário em relação ao IA?

ASAnderson Soares

Olha, sem dúvida a gente tá vivendo anos singulares, né? Nós somos testemunhas oculares, gente, de uma transformação cultural e tecnológica muito relevante, né? E poder presenciar isso é algo muito interessante. Que haverá mudanças, eu acho que todos nós temos a inteligência mínima para entender que sim. Agora, o que que acontece na história da humanidade? A gente sempre pode extrair lições do passado para o presente, para o futuro.

E se a gente olhar qualquer momento de evolução tecnológica, seja recente, seja na Idade Média, ele tem algumas características em comum. Quais são? Primeiro, você tem, eu diria que, 3 estágios. O primeiro é o da negação. Não é Dizem por aí, mas talvez não. Eu acho que não é tudo isso, né? Depois vem o estágio do medo. Nossa, né? E foi assim com eletricidade, com máquina a vapor, com a prensa da imprensa, né? Qualquer momento tecnológico que você olhar para a história, você vai ver esses sintomas.

E depois da negação vem entusiasmo. Nossa, o negócio ajuda! É bom. Então eu acho que nesse momento da inteligência artificial a gente vive esse estágio do, depois da negação, um pouco de pânico, tá, por causa das mudanças. Gente, ninguém gosta de mudança. A gente precisa ser honestos consigo mesmo, né, de que mudar é ruim, é desconfortável, seja da menor a maior mudança. Então essa mudança ela tem acontecido na sociedade Ah, vai mudar o SaaS?

Vai. E acaba que a gente tem que lembrar que no mundo atual o marketing ele chega na frente dos fatos. Isso não é uma crítica, mas é uma constatação. Ah, mas a empresa tal disse que o troço saiu de controle. Falei, bom, ninguém apresentou provas até então, né? Então há uma desconfiança inclusive que se trata muito mais de uma ação marqueteira do de fatos, porque esses fatos não foram apresentados para ninguém, a não ser a gente tá tendo que acreditar no que dizem, né?

Então a gente tem que tomar um pouco de cuidado e entender que mudanças haverão sim, né? Sempre aconteceram e vão continuar acontecendo. Tem sido aceleradas por esse movimento tecnológico que é bastante transformador, e a gente tem que ficar atento. Agora, o mundo também não vai acabar, né, gente? Então Eu acho que nós estamos aqui hoje, por exemplo, fazendo um podcast, né, que 10, 15 anos atrás era muito difícil produzir esse tipo de material, e até mesmo você tá nos ouvindo era difícil receber.

E veja, nós estamos aqui vivos, né? Então certamente havia esses temores na época sobre diferentes perspectivas também.

MMMarcus Mendes

E há 15 anos eu já fazia podcast, então eu confirmo que era exatamente isso, dos dois lados.

FCFabrício Carraro

É, não, eu lembro, eu comecei a escutar podcast com o Jovem Nerd lá em 2007, 2006, talvez por aí. E você tinha que literalmente baixar um arquivo MP3 que demorava para vir, e para escutar era um pesadelo. Ou você escutava no Winamp no seu computador, ou transferia, sei lá, quem tivesse um iPod. Mas enfim, Anderson, voltando aqui para o nosso papo, outra área que também ficou muito em voga é a parte universitária mesmo, né, que por exemplo vestibular da UFG teve nota de corte de IA disputando com medicina, com direito.

Estatística na USP acho que também passou medicina no ano passado, que é uma coisa absurda, né. Então é uma coisa que a gente já viu também com a ciência da computação, engenharia da computação, administração de sistemas nos últimos 10, 15 anos também, né. Quando começou a dar grana nessa área, todo mundo começou a migrar para lá. Mas como que você tem visto esse aluno universitário hoje em dia? E também do outro lado, né, o professor, o que você tá ensinando para esse aluno acaba sendo a mesma coisa ou similar com o que era 5 anos atrás?

Ou você tem que atualizar essa ementa a cada 6 meses, a cada ano? Porque aí entra o quê? Transformers já tá aí desde 2017, mas ficou mais famosinho em 22, 23. Mas aí vem outra coisa, sei lá, energy-based, aí vem difusão, que também é antigo, mas que tá sendo usado para texto agora. Como é que vem esse tipo de mudança tão rápida, se isso muda a ementa ou não?

ASAnderson Soares

Bacana. Bom, para quem não sabe, né, lá da UFG nasceu o primeiro bacharelado de IA aqui no Brasil, né. Eu fui o presidente da comissão que criou o curso. Eu tomei muitos remédios naquele ano, perdi a cabeça e fiz isso. Né? Mas de fato é interessante porque o curso ele teve uma crescente demanda, né? Nos últimos 2 ou 3 anos é a nota de corte maior da universidade, tá superando todos os cursos. E no ano atual teve a segunda maior nota de corte do Brasil inteiro, considerando todas as universidades, todos os cursos, né?

Só ficou atrás de uma universidade que oferece uma única vaga no curso de medicina e aplica um bônus regional, tá? Então há esse asterisco a ser citado aí. E são alunos extremamente competentes, que é uma nota de corte muito alta. Eu fico até um pouco receoso, um pouco com pena, né, de que muitos alunos excelentes acabam ficando fora do processo seletivo, numa área que é muito dinâmica. Eu acho que o mundo da tecnologia, eu costumo dizer para os alunos, que é uma área que você compete contra si mesmo, tá?

O que que significa isso? Que na prática você vai construir coisas que competem com o ser humano fazendo sem a máquina. Você é o treinador da máquina para fazer uma determinada tarefa. Então é uma das poucas profissões que eu acho que nós somos capazes de gerar mercado, gerar o próprio emprego.

MMMarcus Mendes

Tá?

ASAnderson Soares

Então isso é uma característica muito interessante. E quando a gente criou o curso em 2019, a gente já fez algumas apostas que acabaram se confirmando. Por exemplo, tinha lá processamento de linguagem natural, tinha processamento de áudio e voz. Eu lembro de até mesmo colegas perguntar assim, ah, mas áudio, né? E o tempo mostrou ao longo desses anos que fizemos A gente conseguiu enxergar essa crescente ali na ciência e que acabou se confirmando.

A gente colocou aprendizado por reforço, que também pouca gente conhecia e é essencial hoje para você lidar com soluções agênticas, tá? Então vejam que o curso ele não precisou ser atualizado intensamente nessa janela por causa dessas apostas bem feitas, tá? Hoje eu já vejo que, poxa, tem que ter mais questões de— a gente não imaginava que ia ter toda essa onda de agentes, a gente apostava em processamento de linguagem natural, mas não conseguiu enxergar os desdobramentos disso, porque também já é um horizonte bastante longo, né?

Então é uma área muito dinâmica e uma universidade, ela, eu acho que ela tem também o dever de ser um pouco cuidadosa com isso. Eu sou crítico do excesso de conservadorismo da universidade, tá? Ressalto. Mas também não dá para ficar mudando grade a cada 1 ano, 2 anos. E para isso que a gente tem aí outros instrumentos educacionais. Universidade não é o único, né? E sendo bem franco, né, o único que vai pedir o seu diploma é o governo, certo?

Então há espaço para os autodidatas, mas principalmente para aqueles que conseguem buscar uma autoevolução por si mesmo, por conteúdos nesse mundo tão disponível de coisas tão boas, né, para você se atualizar.

FCFabrício Carraro

A gente tem tentado fazer isso aqui na Alura, né, curso. Eu cheguei a gravar alguns cursos das trilhas de inteligência artificial, e é isso, né, a gente tem que mudar muito frequentemente. Você cria para, sei lá, para o ChatGPT-4, aí sai o 5, aí mudou tudo, aí você tem que fazer de novo o curso, é, por exemplo, né.

ASAnderson Soares

E a única certeza que a gente tem na tecnologia é que até você aposentar É, o mundo vai mudar umas 30 vezes, né? Então, e você está conectado, né? Só das pessoas que estão nos ouvindo no podcast de hoje é um outro tipo de aprendizado. Então eu costumo ouvir bastante, inclusive aqui da Alura, né, quando eu tô em viagem de avião, quando eu tô viajando de carro, né? Essas são também talvez um tipo de microlearning, né? E eu acho que a grande capacidade que o indivíduo tem que desenvolver é essa, né, de não ter preguiça de absorver novos conhecimentos.

FCFabrício Carraro

Com certeza. E ainda nesse tema dos estudos, outra coisa que é bem polêmica até, essa questão de como que os alunos estão estudando e vão estudar, e também como é que os professores estão avaliando, né. Se vocês têm notado alguma diferença tanto na parte, né, dos alunos que talvez estão usando IA e estão se saindo melhor ou pior ou igual, se não mudou muito isso para estudar, né, para as provas e tudo mais. Mas também na avaliação, né, se antes era uma coisa que eu lembro quando eu tava fazendo Unicamp, eu entrei no primeiro semestre, tinha um sisteminha ali totalmente determinístico.

Eu tinha que escrever um código em C naquela época, mandar para o sistema, ele verificava ali contra umas respostas que ele tinha pré-programadas. Se passava tudo, eu tirava 10. Se passava metade, eu tirava, sei lá, 7, 5. E senão zero. E aí você ia fazendo esse tipo de coisa, e além das provas manuais que você ia escrevendo, né? Mas os trabalhos, se fosse hoje em dia esses mesmos trabalhos, era muito, seria muito mais fácil eu jogar no GPT e ele me dá resposta. Então como é que tá essa questão?

ASAnderson Soares

Olha, excelente questão, tá muito desafiadora, porque a nossa geração ela era muito dependente de conteúdo, né? A gente tinha que ir na biblioteca, ficar horas, às vezes a biblioteca não tinha o livro. Que você gostaria de consultar, né? Mas o mundo, ele tá muito diferente. A educação, ela é uma área muito conservadora, tanto por parte dos professores, mas por parte dos alunos também. Vá pra sala de aula e não dê uma aula pra você ver o que que acontece.

Chiadeira geral. Então, ao mesmo tempo que o aluno, ele quer uma novidade, ele é muito conservador porque ele espera aula, né? E eu digo pros alunos, a culpa é de vocês, caramba, né? Vocês tentam trazer uma coisa diferente, que aí o professor não gosta de dar aula, né? Então é bem desafiador, tá? E mas eu acho que eu mesmo já tem, sei lá, uns 10 anos pelo menos que eu me pergunto assim, por que que o cara vai na minha aula, sabe?

Na pós-graduação dava aula à noite assim, cara, e a UFG fica fora da cidade assim, um campus mais afastado. Aqui que o cara anda tanto para vir aqui para ver uma aula que ele pode achar em qualquer lugar, entendeu? Então eu acho que os professores eles também estão sendo desafiados a pensar plataformas que não é porque deu certo antes que vai dar certo agora, tá? Então já tem algum tempo, não é de agora. E por exemplo, na hora de elaborar provas, né, eu não, eu tive que me desafiar a como elaborar questões para que não seja o que é isso, que é aquilo, porque, cara, você vai lá na internet e puxa isso, entendeu?

Então eu até tenho algumas, alguns memes sobre mim com os alunos porque eu passei prova de 24 horas, né, de 12 horas. Eu lembro que, já que eles faziam piadinha, eu também posso, né. Eu peguei aquela logo da série do Jack Bauer, vocês lembram, 24 Horas, né, e coloquei na logo da prova assim: você tem 24 horas para entregar a prova. E eram provas que, assim, eu lembro que eu me desafiei a como é que eu digo para ele que ele pode usar qualquer coisa, mas que se ele pegar do colega, eu vou conseguir identificar, entendeu?

Eu me desafiei a produzir esse tipo de questão a ponto dele poder levar para casa, entende? Por quê? Porque era uma proposta de solução. Então não vai ter uma solução igual a outra. Ele até pode debater, ele até pode buscar, mas se aparecer duas iguais, óbvio que há uma violação ali, entende? Então eu, eu acho que esse é o grande desafio dos professores atuais, e nós professores não podemos e não devemos ficar na zona de conforto, porque é um mundo novo, é um mundo diferente, e nós temos que nos adaptar, tá?

E para finalizar nesse ponto, quando a gente criou o bacharelado de IA, né, a gente colocou a carga horária mínima, tomou pedrada tudo quanto é lado. Ah, como é que pode? Não tem a disciplina tal, não tem a outra. Assim, gente, se a gente trouxer os problemas, os projetos para dentro da sala de aula, você aprende sozinho. Preciso da matéria? O importante é ter quem perguntar. Isso eu acho importante, tá? Senão você fica aí, né, catando mosca, né, nesse excesso de conteúdo também.

Mas o tempo mostrou que foi um projeto pedagógico extremamente assertivo, baixíssimo baixíssima evasão, alta concorrência, a entrada do mercado tá excelente, né? Então mostra que a gente acertou um pouquinho também nessa pedagogia de um mundo diferente. Não é porque o Anderson estudou 30 cálculos que essa geração tem que aprender do mesmo jeito, senão a gente ainda estaria vivendo nas cavernas, não é mesmo, gente?

FCFabrício Carraro

Sim. Você chegou a pensar, ou vocês fazem alguma coisa pró-oral?

ASAnderson Soares

Que eu tô vendo esse tema cada vez mais suscetível É uma das formas que eu acho mais interessante, tá? Quando eu tenho alguma dúvida, eu sento aqui na minha frente, né? Por quê? Porque, gente, a educação é lá para preparar para o exercício profissional, né? E eu digo para os alunos, eu acho que eu faço uma prova oral por dia. Vocês estão reclamando, né? Quando eu tô ali debatendo com a empresa sobre um projeto, sobre uma prova oral, gente, Entendeu?

Então é uma preparação, é o básico do que você vai passar, entende? Então, e vocês, né, que já estão no mercado sabem disso, você vai ali, às vezes numa conversa despretensiosa, você tá sendo avaliado, né? Quer você goste ou não. Então a gente tem um pouquinho desse receio, termo prova afugenta um pouco, né? Mas eu também falo para os alunos assim, gente, eu era feliz e não sabia. E no nível educacional só piora. Você tá no fundamental, aí você tá reclamando, aí você vai para o fundamental 2, você vê que fundamental 1 era melhor.

Aí você vai para o ensino médio, ai, que saudade de fundamental, né? Aí você vai para a universidade, nossa, no ensino médio eu era feliz e não sabia, né? E aí você vai para o mercado de trabalho, né, você olha para estudar assim, é lá só avalia a nota, era muito mais tranquilo, né? Então é claro que a gente fala, mas, né, os alunos pagam para ver, né? Alguns entendem, outros não, mas eu acho que você planta sementes ali, né, de uma preparação que é para vida.

MMMarcus Mendes

E falando sobre esse incentivo de estudar para tirar uma nota e passar da matéria, e o incentivo de estudar para vida, para ficar mais inteligente, saber mais de coisas, Você tá nessa segunda categoria. Como é que você tem usado IA, ou se você tem usado IA de uma forma ou de outra, para otimizar, aprender? Como é que está entrando quando você adquire conhecimento?

ASAnderson Soares

Excelente. Ó, claro que eu sou um heavy user, né? Tenho, vou matar muita gente de inveja aqui, mas eu tenho uma VGX Spark que fica no meu quarto. Para quem não sabe, ela é pequenininha assim, cabe na palma da mão. E tem o poder computacional de um supercomputador de há de 10 anos atrás, né? E lá roda o meu, o meu agente chamado Aui, aquele do filme mesmo, né? E de vez em quando dá alguns probleminhas lá, sai do ar. E se eu tiver viajando, eu fico sem ele.

Eu fico, é que nem perder uma perna, bom, um braço, sabe? Porque de fato traz uma facilidade muito grande, tá? Vou dar um exemplo aqui do que eu uso, né? Todos os dias às 8 da tarde, o meu assistente, ele me manda um briefing dos meus compromissos do dia seguinte. Não só do que é o compromisso, mas varre aqui o meu WhatsApp, os meus emails, para mim dar o contexto de onde veio a conversa, qual que é o contexto, com quem que eu vou falar, tá entendendo?

Porque é uma agenda pauleira todos os dias. Então ele me prepara como se fosse uma, realmente, um assistente ali, né, extremamente pragmático. Então essa é uma das atividades, né, que ele faz para mim, tá, e que me entrega uma economia e uma otimização de tempo muito relevante, né, porque assim eu me preparo para as pautas, os compromissos que eu tenho, e sempre entro com um bom contexto. Então eu uso bastante, uso também para busca de informação.

Eu sou um indivíduo que nasceu em 83 e durante a graduação eu vi o surgimento do Google, né, e que foi muito transformador para as nossas vidas e para a sociedade. E agora a gente tem uma nova etapa desse acesso a conhecimento, que é o dos agentes inteligentes, que realmente, gente, é bem transformador, né. É claro que a gente vive aqui numa escolha, mas que vai transformar muito como a sociedade opera. Eu tenho uma grande convicção sobre isso.

FCFabrício Carraro

E falando sobre academia também, agora eu li um artigo do Sílvio Meira recentemente, que eu até comentei no programa de sexta-feira, o Dia Sob Controle, que é uma das grandes conferências. Não lembro se era a ACL, ou não, acho que era a AAI, recebeu 29 mil papers. Eles tinham falado 40 mil, só que no final cortaram vários que era, não passava ali, tipo, tinha mais páginas do que deveria e tudo mais. Mas 29 mil é impossível você revisar 29 mil papers, você precisa de muito mais gente do que você precisava antes, é mais do que o dobro do que tinha até recentemente.

Ao mesmo tempo, as pessoas, os autores, eles falaram depois que eles gostaram mais das revisões que foram feitas por sistemas de IA, porque era um teste que o pessoal da conferência tava fazendo. Tinha por humanos e tinha por IAs. Eles acharam mais relevantes os comentários de revisão feitos pelas IAs do que pelas pessoas, até porque às vezes você pega ali uma pessoa, um professor, algum revisor que não conhece daquele assunto, que não se interessa, que não gosta, seja lá o que for, né?

Eles gostaram mais. Eu vi que você também comentou que você voltou a publicar agora, né, depois de vários anos, publicar papers como primeiro autor. Então eu queria saber a sua opinião nessa questão, né? Daí, na ciência, aí, na academia, tanto na produção quanto para revisão de papers. E se ela consegue fazer sozinha já, ou se você acha que ela é só um assistente por enquanto?

ASAnderson Soares

Bacana. Olha, de fato é capaz não só de produzir, mas também de ser um assistente. Acho que essas duas possibilidades, elas são reais. O que que a gente tem que se atentar? A máquina, ela obviamente ela não tem uma capacidade criativa por enquanto muito acentuada, mas isso faz com que a gente tenha um desafio de— e é um mundo muito singular nesse sentido, para que nunca na história da humanidade a gente teve uma situação como essa, né, de conseguir sintetizar e reproduzir conteúdo em escala como agora.

E uma parte da comunicação acadêmica ali nos papers é reprodução de conhecimento. Então essa parte realmente ela tá muito, entre aspas, ameaçada, porque a máquina vai conseguir fazer isso de uma maneira muito mais brilhante do que qualquer outra situação. Agora tem uma parte ali na comunicação que é de fato uma parte crítica e propositiva das coisas, porque a própria ciência ela depende um pouquinho de uma certa crença, tá? Não, não é no aspecto religioso, mas Você tem, por exemplo, ah, qual que é o melhor caminho nos tratamentos de novas opções oncológicas?

Cara, você tem várias opções na mesa e você apostar em uma depende, em um certo nível, de uma certa crença, sim, tá? E daqui 5 anos a gente vai saber qual trouxe mais resultados e vai usufruir daquilo, percebe? Então, e a ciência ela funciona assim, porque que a gente publica um paper? Para defender uma ideia, entendeu? Então você defende perante seus pares, não há como provar por A mais B que você tá certo, e no debate ali vai se fazendo escolhas.

E foi essa metodologia que nos trouxe o avanço da IA que a gente tá usufruindo agora, né? Então você mesmo citou aí, é que, poxa, a gente usufrui hoje muito do que é o Transformers, certo? Mas você tem os modelos de difusão também, né? Tem os modelos dos Energy Models. Isso tudo são opções de se tentar fazer ou igual ou melhor, mas que nesse momento você tem que escolher um ou outro, né? Então esse evento da CL realmente foi um marco, porque os números são tanto quanto assustadores nesse sentido, né?

Pode causar um pouco de espanto, mas eu acho que nesse momento, né, Se a máquina é capaz de fazer algo com maestria em alguma parte, a gente tem que deixar ela fazer, né? Quer dizer que a gente não deveria estar fazendo aquilo, a gente deveria estar se ocupando com aspectos mais criativos, mais críticos. O único cuidado que a gente tem que ter é de não perder a capacidade analítica crítica. Eu acho que esse é o grande ponto que a gente tem que lidar com essa nova possibilidade.

MMMarcus Mendes

E Anderson, recentemente a gente viu essa notícia que repercutiu bastante, segue repercutindo na verdade, do supercomputador brasileiro. A gente já teve um episódio inteiro dedicado a isso, mas eu queria entender da sua percepção o que que você enxergou que esse projeto é, o que ele não é, né, que é importante também, que geralmente as informações espalham meio de um jeito meio difuso, né. Eu vou colocar esse eufemismo aqui. Então de onde você está vendo, de certa forma teve um envolvimento seu nesse processo, até onde eu sei, né?

ASAnderson Soares

É, sim, eu participei em diferentes estágios aí do Plano Brasileiro de IA, né? Aliás, participo desde quando era Estratégia Brasileira de IA. Então há de se elogiar que uma passou por diferentes governos e a gente precisa reconhecer esse mérito, né? A gente às vezes fala tanto das coisas erradas, mas eu acho que isso foi é uma maturidade da nossa sociedade. Eu acho que demorou um pouco mais do que deveria, tá, essas ações, embora a gente tivesse um bom plano, etc.

E eu acho que é uma boa notícia, uma excelente notícia. Como eu disse, embora um pouco atrasada, mas ainda assim importante e pertinente. Então eu acho que é uma excelente notícia, é uma notícia que tem aí uma certa fragmentação dessa concentração do supercomputador. Isso, como para variar, tem prós e contras, tá? Não há uma solução perfeita em relação a isso e faz com que a gente tenha uma felicidade, obviamente, receber essa notícia.

Agora, acho que o grande desafio é de fato utilizar essa estrutura, infraestrutura, né, em benefício do país. E a gente precisa entrar numa corrida que os principais competidores já deram algumas voltas no circuito. Então a gente vai ter que correr atrás desse tempo aí, né, e tentar trazer para a indústria brasileira o melhor que essa janela de transformação tá passando.

FCFabrício Carraro

E ele é um computador bem interessante, né, como você falou, tá dividido no Rio Grande do Norte, no Rio de Janeiro, mas tem uma capacidade interessante de fazer coisas, né. Mas com com as pessoas que a gente geralmente bate papo aqui, gente, professores inclusive universitários como você, a opinião do que a gente vê majoritária aqui é que pelo menos o nosso foco não deveria ser como o Brasil, como estado, sei lá, tentar competir com a OpenAI, com a Anthropic, lançar modelos LLMs de fronteira, mas sim coisas menores, né, SLMs talvez, especializados para tarefas de administração pública, de medicina, de direitos, de E queria saber se essa é a sua opinião também, ou se você acha que a gente deveria não competir na fronteira.

ASAnderson Soares

Excelente questão. Eu vou fazer uma analogia aqui, né, para quem tem aí pelo menos 40 anos vai lembrar da época dos genéricos dos remédios, né. E qual que é a lição que isso fica? Só de você criar opção faz com que as opções elas sejam mais acessíveis, tá. Então acho que se o Brasil desenvolver pelo menos a capacidade de fazer coisas parecidas, a gente não fica numa situação tão ruim de dependência. A gente pode até usar de uma determinada empresa externa, mas você criar alternativas é bom, sempre foi.

Capitalismo ele funciona por concorrência. Monopólio também não é coisa boa, né? Então eu acho que esse é um ponto. E o Brasil, assim como, né, eu acho que Brasil e China fazem uma disputa parte ali, inclusive em relação à Europa, né? E no mundo da IA eu diria que tem 3 camadas, né? A de produção de grandes modelos de IA, de adaptação e de uso. São 3 camadas de extração de valor. Eu acho que a gente consegue ir muito bem nos 2 últimos níveis, que é no uso e na adaptação, tá?

É, dá para extrair muito valor na adaptação. Ah, o maior construtor de empresa como a Antropic? Não. Mas ainda assim muito relevantes para nossa sociedade, coloca nossa indústria de uma maneira muito competitiva, percebe? Então, é, ir para o primeiro nível é algo complexo, arriscado. Eu acho que o Brasil ele não tem talvez características que sejam propícias para competir no primeiro nível, tá? Isso não é de agora, são desafios estruturais, como por exemplo capital de risco, né?

É caro e pequeno no Brasil. Então você não vai conseguir resolver isso agora, agora, né? Mas na adaptação, né, e no uso, no emprego, nós temos uma capacidade de geração de valor muito interessante, porque tem setores muito bons aqui no Brasil: agro, saúde, segurança. São problemas que só existem aqui, gente, sabe? Então é possível gerar muito valor nessas camadas por causa até mesmo tamanho do Brasil, né? Nós não somos tão pobres assim, nós somos um país, né, de em desenvolvimento, próximo a chegar ali aos indicadores de países de primeiro mundo, alguns deles, né, obviamente.

Então eu acho que dá para a gente aproveitar. Fica só aquele sentimento de que a gente poderia ter aproveitado a janela tecnológica para nos posicionarmos melhor, porque são nessas grandes mudanças que a gente tem uma chance melhor. E aí vai ficar esse de gostinho de que a gente poderia ter sido mais ousado.

FCFabrício Carraro

E você acha que os frutos que vão começar a sair desse supercomputador, ele vai ser instalado no ano que vem, né, vai estar funcional teoricamente em 2027, que esses frutos vão vir principalmente da academia ou do mercado criando empresas, startups, e usando esse computador?

ASAnderson Soares

Sem dúvida nenhuma tem que ser uma união dessas forças, tá. Para quem não sabe, o Brasil é um dos maiores produtores de conhecimento na área de IA. São indicadores públicos, sim. Brasil gira em, dependendo do ranking, a 12º, 15º de, em termos de posição, né, de produção intelectual no campo da IA. Agora, quando a gente vai para os indicadores de inovação, o cenário não é tão bom assim, tá? A gente ocupa ali 70, 70 e alguma coisa, até a última vez que eu vi, tá?

Claro que isso varia de ano para ano. Então esses dois indicadores, eles dizem o quê, né? Que a gente produz conhecimento, mas que a gente não transforma conhecimento em inovação, pelo menos não o que essa primeira camada é capaz de entregar. Então eu acho que esse é o grande desafio, você fazer com que academia só extraia valor desse investimento não me parece um bom cenário, definitivamente, tá? Afinal, você ir lá E aí eu produzi aqui um novo large language model.

Cara, se isso não chegar na indústria, convenhamos, só vai ser um, é como se fosse um autoelogio. Nossa, eu sou bom, né? Tá, mas eu resolvi o problema de quem? Tá entendendo, né? Então a gente tem que ter um pouco de cuidado nisso e precisamos de uma interligação com o setor industrial para extrair valor.

MMMarcus Mendes

Senão a gente vai repetir erros Isso eu tô com um pouco nisso, mas eu queria talvez entender um pouco melhor, pegar exemplos mais claros de talvez onde que poderia ter ido mais longe. O que que você vê que falou, acho que aqui, aqui podia ter apertado um pouquinho mais, um pouquinho mais assertivo, o que que faltou, você achou?

ASAnderson Soares

A onda tecnológica daí ela começa em 2012 e tem diferentes fases, né? Eu acho que o Brasil deu uma acordada assim em termos de estratégia mesmo de 2022, 2023 para cá. Então a gente poderia ter um posicionamento melhor, né? A China tem um plano de ser dominante em AI, já tem desde, se não me engano, desde 2016, tá entendendo? Então fica esse gostinho que a gente poderia ter intensificado isso de uma maneira mais assertiva, porque timing é tudo, né?

Para empreender, para desenvolver uma sociedade, né? Não dá para acertar tudo, mas quando você acerta, você entrar de uma forma atrasada ou no momento ideal sempre foi muito determinante. Então eu acho que esse é o desafio que a gente tem para não perder mais tempo, como eu acho que ficou esse gostinho aí ao longo desses últimos anos, que a gente poderia ter sido um pouco mais ousado.

FCFabrício Carraro

E tentando trazer o gostinho bom né, aquele gostinho doce na boca. Desses últimos 2 anos que a gente não se falou, quais foram os projetos que você viu sair ali da UFG, do CEIA, que você mais tem orgulho, que você mais gostou de ver?

ASAnderson Soares

Olha, excelente. Nós tivemos muitos projetos, né? Nós temos uma estimativa interna que a gente ajudou a fazer tecnologias que alcançam aproximadamente 70% da população no Brasil, tá? Por quê? Porque A gente ajudou a fazer sistema de recomendação para aplicativo de food delivery, a gente fez tecnologia de upscaling de imagem para streams de que você assiste aí na sua TV, né? A gente ajudou a fazer recuperação de crédito para grandes instituições bancárias aqui do Brasil.

Então isso tudo são coisas que entraram em produção, percebe? Que chegaram ali na ponta no dia a dia das pessoas, sobre ótica de produtos e serviços. Mas eu queria citar aqui talvez uns 2 ou 3 casos, né, começando pela empresa goiana aqui que se chama Cília, que é um caso muito bacana. Porque quando você bate o veículo, né, você ficava ali esperando 2 semanas alguém fazer uma orçamentação, uma auditoria no veículo. Hoje você pega o seu celular, bate umas fotos ali, e a IA já faz esse trabalho preliminar, entende?

E o que era 2 semanas virou instantâneo, ou poucas horas se o humano precisar intervir ali no orçamento. E é uma empresa que hoje essa tecnologia ela alcança todas as seguras auto no Brasil, exceto uma. De todas que vendem seguro auto no Brasil, só tem uma que não usa essa tecnologia, né? E a empresa hoje tá implantando isso fora do Brasil, tá importando, né? Então veja a importância de você inovar, certo? A gente fez a primeira versão com eles em 2020, né?

E desde então tem um aprimoramento contínuo. Então é uma coisa muito interessante, porque veja, da última vez que bateram em mim, né, a gente não bate carro, né, gente, bateram em mim, eu fiquei lá duas semanas esperando, né, sem fazer nada, entendeu? Então veja como uma tecnologia importante, né? Um outro exemplo que eu posso citar, né, é de uma empresa da área de saúde chamada Laudite, que é muito interessante também. Eu sou da época que aprendeu a digitar no Senac, tá, gente, máquina de datilografar.

Mas o que que a Laudite faz? Enquanto o médico tá ali fazendo os laudos, né, ele pega o microfone, ele fala, né? Então isso é muito mais eficiente do que você, por mais que você tenha ali habilidade com os dedos, você não é a mesma coisa, entende? Então são, poderia citar aqui vários outros, mas esses são dois exemplos que eu gosto, que ajudou a empresa a crescer, sabe? Principalmente a empresa que era pequena ali e teve um ganho substancial de crescimento.

São alguns exemplos de coisas que a gente ajudou a fazer e que se tornaram produtos.

MMMarcus Mendes

Tem alguma área olhando para frente? Quem tá talvez pensando em entrar numa área de pesquisa e desenvolver as próprias ferramentas de usar, mas afinal instrumento para pesquisar IA, quais são áreas que você olha e fala não tem ninguém olhando para isso aqui, isso aqui é tão promissor, seria legal mais gente prestar atenção nesse aspecto?

ASAnderson Soares

Ah, excelente! É, ó, vai ser, ó, Uma dica preciosa, hein? Você que tá nos ouvindo aí. Olha, eu acho que assim, tem muita gente buscando aprender IA, né? O que é válido, é legal, mas tem uma área que há muitos anos eu vejo uma deficiência e uma dificuldade muito grande de profissionais, que é o que a gente chama de Ops, Machine Learning Ops, DevOps. Por quê? Porque é uma área que as universidades elas tem muita dificuldade de fornecer, porque você não tá ali, você tem que desenvolver competência em ambiente operacional, e universidade não tá nesse ambiente operacional, né?

Então eu costumo dizer que não, você tem software, você tem IA, você tem times obviamente que se entrelaçam, mas o cara que interliga essas coisas já tem algum tempo que ele é o grande, o verdadeiro unicórnio do mercado de trabalho. Tá? Então eu acho que talvez não tenha tanto esse glamour, né, mas que há uma escassez já de algum tempo sobre esse tipo de perfil, né, que você tem que dominar um pouco de infra, um pouco de software, um pouco de IA e entrelaçar essas áreas.

Então obviamente essa escassez ela vem por uma situação sui generis também Tá? Mas eu, por exemplo, se tivesse hoje fazendo uma formação, eu tentaria ocupar muito esses espaços porque há uma deficiência já de longo tempo para esse tipo de competência.

FCFabrício Carraro

Isso é um profissional, né? Mas imagina que você tivesse todos os bilhões ou trilhão do Elon Musk e quisesse investir em uma startup específica, algum projeto muito bacana. Onde que você acha que é um lugar que o pessoal que tá escutando aqui poderia talvez tentar em fazer que não esteja saturado, né? Uma startup de IA que não esteja saturada numa parte.

ASAnderson Soares

Olha, eu acho que é uma pergunta complexa, né? Mas tentando responder aqui, nós estamos vivendo uma transformação econômica muito grande. Então eu acho que tem uma tendência aí no mercado que é uma possibilidade real, que são modelos de negócio de serviços trabalharem como tecnologia, tá? Vou dar um exemplo assim, ah, você tem lá os back offices das empresas, são serviços, mas será que a gente consegue estabelecer produtos para fazer esse serviço?

Então acaba se confundindo. Antes que uma coisa era muito separada ali, né? Me parece o grande desafio da vez e uma coisa que talvez poucos estejam olhando, tá? É claro que há outras situações, mas um outro, uma outra aposta, pelo menos que eu acredito também, é que a gente não vai ter software no futuro, tá? Porque se você consegue interagir com a gente, ele consegue tomar ação e responder tudo para você, por que que você precisaria de software de menu, tá entendendo?

Então isso eu acho que é uma rota muito interessante, muda muito a UX, user experience com usuário, tá? E se a gente vai por esse caminho, a gente tá falando de agentes como sistemas operacionais. Aí você vai ver um negócio muito transformador em todas as indústrias, na sociedade, entende? E algo muito transformador. Talvez seriam duas coisas que me veio aqui à mente que a gente deveria olhar para esse futuro aí.

MMMarcus Mendes

Professor, muito obrigado pelo seu tempo, por ter dedicado a sua horinha para conversar com a gente, compartilhar seu conhecimento, essas dicas muito valiosas inclusive. Para quem quiser talvez continuar esse papo contigo ou entender melhor como se envolver com o Ceia, talvez, para onde vai?

ASAnderson Soares

Claro, com certeza. É para quem quiser se conectar com a gente, né, tanto o Ceia quanto o Anderson são bem ativos aí na rede social. A gente usa isso como uma forma de comunicação, né. Então eu tenho lá o meu Instagram, Instagram, @andersonsoares.ia, LinkedIn também, Anderson Soares, ia, tá? E o CAC é UFG, você vai achar no Instagram, no LinkedIn, e acompanhar um pouquinho das nossas movimentações. Claro que a gente não é o mercado, não é tudo, né, mas faz um agito bastante interessante de ações, de programas.

A gente tá hoje, por exemplo, a gente tá com promove aí a Olimpíada Nacional de IA no Brasil, IA aplicada, que é uma ação pioneira de robótica, a gente apoiava também, né. Recentemente fizemos aí um hackathon com a Meta, né, no desenvolvimento de tecnologias embarcadas para o Glass. Então é uma forma de você ficar aí antenado nessas novidades que a gente tá realizando.

MMMarcus Mendes

Excelente, muito obrigado mais uma vez, parabéns mais uma vez pelo seu trabalho. E olha só, hoje que tá saindo esse episódio, dia 23 de setembro, amanhã, dia 24 de setembro, é o IA Conference Brasil 2026, e ainda dá para os 45 do segundo tempo você garantir o seu lugar. Passa aqui na descrição do episódio e aproveita os últimos ingressos para você passar amanhã o dia inteirinho fazendo contatos, fazendo, aumentando o seu networking, assistindo a 27 palestras de especialistas no mercado de inteligência artificial.

A lista completa você também confere em iaconferencebrasil.com.br. E eu e o Fabrício voltaremos felizes da vida pós-evento na sexta-feira com o nosso resumão das notícias do mundo da inteligência artificial. Até lá!

ASAnderson Soares

Este podcast foi produzido pela Alura. Mergulhe em tecnologia. E Faculdade FIAP, let's rock the future. Edição Rede Gigahertz de Podcasts.

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