Episódios de Salada Cultural

SC #63: Ted Lasso – A série do abraço quentinho

01 de setembro de 202629min
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Como explicar que uma série norte americana de comédia deste início de década fez tanto sucesso nos Estados Unidos, além do resto do mundo, tendo como pano de fundo um esporte que o americano médio nunca deu a mínima?

Em 2020, enquanto o mundo enfrentava hospitais lotados, confinamento e manchetes diárias sobre mortes por COVID‑19, uma comédia sobre um técnico de futebol americano perdido na Inglaterra começou discretamente na Apple TV e acabou virando um dos maiores fenômenos de conforto emocional da pandemia.

Ted Lasso nasceu de um comercial para promover transmissões do futebol inglês em um canal a cabo estadunidense, mas cresceu até se tornar uma narrativa sobre gentileza, empatia e liderança em um cenário competitivo, conquistando fãs, prêmios e espaço na cultura pop em vários países.

Neste episódio eu vou contar em detalhes como nasceu essa história: da propaganda à série da Apple TV.

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Salada Cultural é um podcast independente com pesquisa, roteiro, produção, edição e apresentação de Marcio Andrade.

Participantes neste episódio1
M

Márcio Andrade

HostPodcaster
Assuntos6
  • A origem de Ted Lasso como comercial para a Premier LeagueApple TV+·COVID-19·NBC Sports·Premier League·Jason Sudeikis
  • O impacto cultural de Ted Lasso durante a pandemia de COVID-19Apple TV+·COVID-19·Série conforto·Otimismo·Saúde mental
  • A dificuldade do futebol em conquistar o público americanoCopa do Mundo de futebol masculino·Estados Unidos·Futebol americano·Basquete·Beisebol
  • A evolução do personagem Ted Lasso de comercial para série de TVJason Sudeikis·Brendan Hunt·Joe Kelly·Amsterdã·Saturday Night Live
  • A chegada de Bill Lawrence e Brett Goldstein à equipe de Ted LassoBill Lawrence·Brett Goldstein·Scrubs·Roy Kent·Emmy
  • O desenvolvimento da série Ted Lasso e a contribuição de Olivia WildeJason Sudeikis·Brendan Hunt·Joe Kelly·Olivia Wilde·Kansas
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MAMárcio Andrade

Como foi visto na última Copa do Mundo de futebol masculino, o mundo parou para acompanhar os jogos, os gols, as polêmicas dentro e fora do campo e todo o universo que envolve este que é o esporte mais adorado de todo o globo. Quer dizer, menos nos Estados Unidos, que apesar do trabalho hercúleo que times, organizações esportivas e canais de televisão fazem nos últimos anos para que o norte-americano médio crie gosto pelo esporte surgido no século 19 na Inglaterra, o futebol ou soccer, como é chamado por lá para diferenciar do futebol americano, que sim é um gosto nacional e yankee, ainda encontra barreiras para que vire algo que cria uma identidade com o público.

Muitos consideram uma dificuldade do norte-americano gostar do futebol porque é um jogo que em suas partidas que não envolvem eliminatórias terminem em empate e sem ao menos nenhum gol em muitos casos para gerar a emoção que eles têm com o próprio futebol americano, o basquete ou o beisebol, já que esses esportes, além de marcar vários pontos, cestas ou gols durante sua partida normal, ainda têm em suas regras a obrigatoriedade de ter um vencedor, não importa se é um jogo eliminatório ou uma partida do meio da rodada do campeonato.

E todo mundo que já assistiu ao menos um filme sobre esporte sabe o quanto o norte-americano precisa ganhar, desde um campeonato concorrido de basquete até um jogo simples de queimada na escola. E como explicar que uma série norte-americana de comédia deste início de década fez tanto sucesso por lá, além do resto do mundo, tendo como pano de fundo um time de futebol inglês comandado por um técnico mais norte-americano que um sanduíche de pasta de amendoim?

Em 2020, Enquanto o mundo enfrentava hospitais lotados, confinamento e manchetes diárias sobre mortes por COVID-19, uma comédia sobre um técnico de futebol americano perdido na Inglaterra começou discretamente na Apple TV+ e acabou virando um dos maiores fenômenos de conforto emocional da pandemia. Ted Lasso nasceu de um comercial para promover transmissões do futebol inglês em um canal estadunidense, mas cresceu até se tornar uma narrativa sobre gentileza, empatia e liderança num cenário competitivo, conquistando fãs, prêmios e espaço na cultura pop em vários países.

Neste episódio do Salada Cultural, eu vou contar em detalhes como nasceu essa história. Da propaganda à série da Apple, da improvisação em Amsterdã à sala de roteiristas em Hollywood, das negativas dos canais ao sucesso mundial, passando pela participação decisiva de Jason Sudeikis o Ted Lasso da série, além de Brendan Hunt, Bill Lawrence e Brad Goldstein. Vamos entender também porque Ted Lasso foi abraçada como uma série conforto num período terrível da história mundial e como essa trajetória de bom mocismo ganhou prêmios, fãs e cortes nas redes sociais que qualquer coach motivacional daria um rim para ter em suas palestras.

Meu nome é Márcio Andrade e este é o Salada Cultural. Salada cultural. Em 2012, o canal a cabo NBC Sports compra os direitos de transmissão da Premier League inglesa para o mercado norte-americano e percebe que precisa vender o futebol europeu para um público acostumado ao futebol americano ao beisebol e ao basquete. O soccer, como é chamado nosso futebol lá na terra do bacon com ovos de manhã, continuava sendo um esporte incompreendido pela maioria da população dos Estados Unidos, e havia um receio real de que os jogos da Premier League fossem vistos como algo mais distante que os quilômetros que separam os dois continentes.

Para contornar isso, a NBC decidiu criar uma campanha bem-humorada que servisse como ponte entre o espectador americano e o universo do futebol inglês. O canal chamou Jason Sudeikis, comediante e roteirista recém-saído de uma longa passagem pelo programa Saturday Night Live, para protagonizar uma série de comerciais sobre um técnico totalmente ignorante de soccer que iria promover a transmissão da Premier League. Nasce assim o conceito dos comerciais An American Coach in London, ou Um Treinador Americano em Londres.

Em tradução livre, que conta com pequenos esquetes sobre um treinador de futebol americano da fictícia Wichita State chamado Ted Lasso, contratado para treinar o Tottenham Hotspur sem saber praticamente nada sobre o esporte que está prestes a comandar. O objetivo da propaganda era gerar situações engraçadas com o choque cultural e, ao mesmo tempo, apresentar clubes, jogadores e termos do futebol inglês para o público dos Estados Unidos.

Mas Ted Lasso não nasceu apenas na sala de reuniões da NBC. O embrião do personagem vem de muito antes, de experiências de comédia de Jason Sudeikis e do seu amigo e roteirista Brendan Hunt em Amsterdã. No início dos anos 2000, os dois trabalhavam juntos em um grupo de improviso chamado Boom Chicago, na Holanda, período em que conviveram de perto com a cultura futebolística europeia. Brendan Hunt se apaixonou pelo futebol. Jason Sudeikis chegou a comprar um PlayStation para que os dois jogassem FIFA juntos, usando o videogame como laboratório de observação das dinâmicas entre um técnico americano e clubes europeus.

A partir dessas brincadeiras nasceu a pergunta: e se um treinador de futebol americano fosse, de verdade, contratado para comandar um time grande europeu? Como seria esse choque de culturas? Essa ideia básica, tendo um técnico americano deslocado tentando entender o soccer do resto do mundo, já existia como premissa cômica antes da NBC e foi refinada por Sudeikis e Hunt em esquetes e cenas improvisadas para a série de comerciais.

Os vídeos produzidos pela NBC com Jason Sudeikis como Ted Lasso estreiam em 2013 e rapidamente se tornam um sucesso viral. O primeiro comercial, filmado em parceria com o Tottenham, apresenta Ted dando entrevistas, confundindo regras, usando clichês americanos e mostrando com muita segurança que não faz a menor ideia do que está fazendo. Em pouco tempo, o vídeo acumula milhões de visualizações no YouTube, sendo citado em matérias que listam os melhores anúncios da Premier League e colocando a campanha da Airbnb no topo, com mais de 8 milhões de visualizações em uma das propagandas e milhões em outros segmentos.

Esse desempenho faz com que o personagem funcione como uma espécie de mascote da tentativa americana de se aproximar da Premier League, ajudando a trazer curiosidade e simpatia para as transmissões. O sucesso não se limitou a números. Críticos de mídia e fãs de esportes comentam a campanha como uma das estratégias mais inteligentes de tradução cultural, usando humor e e autocrítica para apresentar o futebol inglês a um público que, muitas vezes, não sabe nem o que faz um centroavante.

Passada a onda de sucesso dos comerciais, Ted Lasso poderia ter sido arquivado como tantos personagens criados só para campanhas. Mas Jason Sudeikis continuou apaixonado pela figura do técnico e passou a imaginar se não havia ali espaço para algo mais profundo do que uma série de piadas sobre alguém que não sabe as regras do jogo. A virada começa quando amigos e parceiros criativos, como Joe Kelly e Brendan Hunt, se juntam para discutir a possibilidade de transformar Ted Lasso em protagonista de uma série de TV.

Eles perceberam que se Ted deixasse de ser apenas um bufão agressivo, como nos comerciais, em que lembrava mais um treinador explosivo à moda antiga, e ganhasse camadas de empatia, vulnerabilidade e bondade, poderia sustentar uma narrativa de longo fôlego. Em vez de um técnico que apenas grita e erra, nasceria um personagem que erra, mas escuta, cuida, aprende e lidera com gentileza um cenário competitivo e muitas vezes tóxico, como é de fato o futebol profissional.

Essa mudança de foco, do puro humor para o coração da história, é o que vai permitir que Ted Lasso deixe de ser só propaganda e se torne uma série de comédia.

?Voz B

Uma notícia surpreendente vinda do outro lado do Atlântico. A FC Richmond anunciou a contratação do novo técnico, Theodore Ted Lasso.

MAMárcio Andrade

Você é um americano e agora é o responsável pela liderança de um clube de futebol, apesar de possuir pouquíssimo conhecimento sobre o jogo.

?Voz B

Eu sei que o AFC Richmond vai dar tudo de si. É perder ou ganhar.

MAMárcio Andrade

Ou empatar.

?Voz B

Ah, claro, empatar também.

MAMárcio Andrade

Entre 2014 e 2015, Jason Sudeikis passou a trabalhar seriamente na concepção de uma série baseada em Ted Lasso. Convocando Brandon Hunt e Joe Kelly para escrever roteiros e estruturar um arco de episódios. Os três se reúnem para desenvolver uma temporada inicial, pensando em como traduzir o humor dos comerciais em uma narrativa com começo, meio e fim, e em como dar profundidade ao protagonista. Nesse processo, eles definem elementos centrais: Ted seria um técnico de futebol americano universitário, vindo do Kansas, enquanto que o clube inglês que ele passaria a trabalhar seria fictício, para permitir maior liberdade criativa.

E o foco recairia não sobre a técnica esportiva, mas sobre relações humanas e cultura de vestiário. Ao mesmo tempo, Sudeikas trabalha na transformação do tom do personagem, diminuindo o lado agressivo e ampliando o olhar empático, mas sem perder o humor. Em entrevistas para a revista GQ e E para o programa Entertainment Tonight, Sudeikis conta que a ideia começou a tomar forma em sua mente por volta de 2014 ou 2015, graças à sua então companheira, a atriz e diretora Olivia Wilde, que sugeriu que Ted Lasso se tornasse uma série.

Sudeikis diz que inicialmente não sabia se a ideia funcionaria, mas começou a marinar o conceito e pensar nos motivos que levariam um técnico da idade dele, com pouco mais de 40 anos, a aceitar um trabalho tão radicalmente diferente e em outro país. Ele passa a enxergar que Ted poderia deixar os Estados Unidos por causa de uma crise pessoal, como problemas no casamento, necessidade de espaço e vontade de se reinventar, e que isso poderia ser o coração dramático da série.

Em outras entrevistas depois do sucesso da série, Sudeikis acredita diretamente a Olivia Wilde a coragem de dar esse passo. Dizendo que ela sabia do que estava falando e que ouvir seu conselho foi essencial para ele levar a ideia adiante. Mas mesmo com uma ideia sólida e um personagem conhecido de milhões de visualizações no YouTube, transformar Ted Lasso em série não foi fácil. Brendan Hunt contou que ele, Sudeikis e Joe Kelly chegaram a ouvir diversas negativas de canais e produtoras quando tentaram vender um projeto centrado em soccer para o público norte-americano.

Em uma entrevista, Hunt brinca que ao apresentar o conceito da série, nenhum canal disputava o projeto, ouvindo vários nãos a uma história sobre um esporte que nunca foi tradicionalmente forte nos Estados Unidos. A percepção de muitos executivos era de que uma série sobre futebol que não seja aquele do Super Bowl, ainda por cima liderada por um treinador americano em ambiente europeu, poderia ser nichada demais, difícil de vender para o público doméstico.

Mesmo assim, eles continuam insistindo, ajustando o conceito, refinando o argumento e buscando parceiros interessados. E eis que entra a figura de Bill Lawrence, um dos nomes mais importantes da comédia televisiva norte-americana das últimas décadas.

?Voz B

Para ser sincero, sempre achei que chá tivesse gosto de água suja quente. E quer saber? Eu tava certo, é horrível. Não, obrigado.

MAMárcio Andrade

Bem-vindo à Inglaterra. Bill Lawrence é um produtor, roteirista e diretor de televisão norte-americano. Ele começou a carreira escrevendo para sitcoms populares como O Mundo é dos Jovens, Nanny e Friends, e logo se destacou como criador de novas séries. Em 1996, Lawrence cocria com Michael J. Fox a série Spin City, uma comédia política sobre um assessor de imprensa da Prefeitura de Nova York e que se torna um grande sucesso, rendendo vários prêmios Emmy e Globos de Ouro.

Em seguida, ele desenvolve Scrubs, comédia ambientada em hospital que estreia em 2001 e se torna um fenômeno, com 9 temporadas e forte impacto cultural. Depois de Scrubs, Lawrence cocria Cougar Town, estrelado por Courteney Cox, após o término de Friends, que também consegue se manter por várias temporadas. O que tem em comum nessas séries é a relação da comédia com situações dramáticas empregadas nos episódios, que traziam humanidade aos seus personagens.

Isso fez com que os criadores de Ted Lasso se aproximassem de Lawrence para que ele ajudasse a estruturar o projeto para esse conceito de drama em meio à comédia e a vender a série para um grande parceiro, trazendo o peso de sua experiência como produtor. Bill Lawrence passa a ser creditado como cocriador de Ted Lasso, ao lado de Jason Sudeikis, Brendan Hunt e Joe Kelly, e se torna uma figura central na montagem da sala de roteiristas, na definição do tom e nas negociações para vender a série para os canais de TV norte-americanos.

Em entrevistas, ele comenta que se viu atraído justamente pela combinação de humor esportivo coração e personagens falhos, elementos que também estiveram em Scrubs. Quando Bill Lawrence aceitou se envolver com Ted Lasso, sua carreira vivia uma fase de transição, longe do auge, mas ainda marcada por experiência e tentativas de novos formatos. Ele havia deixado o comando de Cougar Town após 3 temporadas e, sob contrato com a Warner Bros.

Television, vinha desenvolvendo séries que, em alguns casos, não passava da primeira temporada e com pouca audiência. Lawrence sentia o peso de um mercado em que nem todo projeto engrenava, mesmo com nomes fortes envolvidos. Em perfil recente publicado no jornal Folha de São Paulo, Lawrence conta que nos últimos anos houve mudanças na maneira de vender ideias para a televisão em relação ao seu início de carreira, quando precisava explicar como a série alcançaria o centésimo episódio, com o objetivo de criar personagens que durassem quase que infinitamente, sendo que na era do streaming, os executivos buscam histórias com um começo, meio e fim.

O contrato de exclusividade de Lawrence com a Warner Bros. Television também facilitou o caminho industrial. Outro nome que ganhou destaque na história de Ted Lasso é Brett Goldstein, ator, comediante, roteirista e produtor britânico. Goldstein foi inicialmente contratado como roteirista para a série, convidado por Bill Lawrence, com quem já havia trabalhado em projetos de pilotos e mantinha relação profissional. Enquanto escrevia na sala de roteiristas, Brett começou a se identificar profundamente com o personagem Roy Kent, o jogador veterano durão do time, e decidiu gravar por conta própria um vídeo de teste com cenas do personagem.

Ele enviou esse vídeo-teste para a equipe, avisando que se fosse estranho ou ruim, poderiam ignorar o email, mas o teste foi tão convincente que ele acabou escalado para interpretar Roy. Com isso, Goldstein passa a acumular as funções de roteirista, produtor executivo e um dos atores principais, tornando-se peça importante na construção do tom da série e na profundidade do arco de Roy Kent. Mais tarde, seu trabalho rendeu 2 Emmys consecutivos de melhor ator coadjuvante em série de comédia.

No final, ficou definido que Ted Lasso, a série, acompanha um técnico de futebol americano universitário do Kansas de mesmo nome, que é contratado para treinar o clube fictício inglês AFC Richmond, da Premier League, time que está prestes a ser rebaixado. Ted aceita a missão, apesar de não ter experiência alguma com esse futebol, ou com o soccer. O convite vem de Rebecca Welton, nova proprietária do clube, que secretamente deseja sabotar o time como forma de vingança contra o ex-marido infiel, antigo dono do Richmond.

Rebecca Welton é vivida por Hannah Waddingham, que entrega uma dona de clube complexa, dividida entre vingança, dor e reconstrução de si. Ted chega à Inglaterra com um sorriso constante, um bigode bem aparado, uma mala cheia de frases motivacionais e praticamente nenhuma noção das regras do jogo, confundindo termos, formatos de competição e tradições do futebol inglês. Essa ignorância gera situações cômicas, Mas a série rapidamente mostra que o foco não está nisso, e sim na maneira como Ted trata as pessoas à sua volta.

Ted leva consigo seu amigo de longa data e real especialista em vários esportes, o treinador Willis Byrd, que se torna um assistente silencioso e enigmático de Ted e vivido por Brandon Hunt, o cocriador da série, que funciona como contraponto mais racional e introspectivo ao entusiasmo de de laço. Roy Kent, o capitão e veterano durão do Richmond, como dito antes, é interpretado por Brad Goldstein, que faz do personagem uma espécie de retrato da masculinidade em crise, aprendendo a falar de sentimentos sem perder sua intensidade.

Keeley Jones, parceira romântica de Roy em boa parte da série, ex-modelo e profissional de marketing, é interpretada por Juno Temple, transbordando carisma, vulnerabilidade e força. Leslie Higgins, diretor de futebol e figura de apoio administrativo, é interpretado por Jeremy Swift, representando o funcionário que sustenta o clube na base de planilhas e lealdade. Entre os jogadores, Jamie Tartt é o atacante estrela inicialmente narcisista, interpretado por Phil Dunster, que passa por um arco forte de humildade e confronto com o pai abusivo.

Samp Obisanya, lateral nigeriano com consciência política, é vivido por Tohir Jimoh, trazendo temas de ativismo, identidade e responsabilidade social. Nate Shelley, o funcionário tímido do vestiário que, após ajuda de Ted, que vê potencial nele, se torna auxiliar técnico e depois treinador de um time rival, é interpretado por Nick Mohammed. Outros nomes reforçam o elenco: Cristo Fernandes como Danny Rojas, Sarah Niles como a terapeuta Doutora Sharon, James Lance como repórter esportivo Trent Crain e muitos outros atores e atrizes em papéis recorrentes que compõem a comunidade ao redor do clube.

Ao longo das 3 primeiras temporadas, acompanhamos o clube oscilando entre rebaixamento e ascensão, disputando títulos e enfrentando crises internas enquanto Ted lida com seu próprio divórcio, ataques de pânico e a saudade que sente de seu filho Henry. A narrativa equilibra a trama esportiva com aquela dinâmica de jogos e treinos, junto com dilemas pessoais: amizade, autoestima, masculinidade tóxica, racismo, saúde mental, relações de trabalho e reconstrução de confiança.

No centro da história está Ted Lasso, de Jason Sudeikis, que traz ao personagem a mistura de ingenuidade, humor, vulnerabilidade e empatia que se tornou marca da série. Depois de inúmeras negativas de redes de televisão tradicionais e de um longo processo de desenvolvimento, Ted Lasso finalmente encontra como casa a Apple. Em 2018, a Apple TV+ adquire os direitos da série ainda em fase de construção de seu catálogo original. Quando Ted Lasso estreou em 14 de agosto de 2020, a Apple TV+ era uma plataforma nova e a série se tornou rapidamente um de seus carros-chefes de estreia no mercado do streaming.

A parceria envolveu também a produção conjunta dos estúdios Warner Bros. Television e Universal Television. Mas quando Ted Lasso chegou ao público, o mundo vivia um momento de colapso emocional coletivo. Em agosto de 2020, muitos países ainda estão em regimes de lockdown, com escolas fechadas, famílias confinadas, sistemas de saúde pressionados e um noticiário saturado de estatísticas de mortes e internações por COVID-19, além de um número grande de fake news espalhando desinformação sobre a pandemia.

Que assolava todo o mundo. Ao mesmo tempo, vivíamos em uma fase da cultura audiovisual em que anti-heróis cínicos e narrativas sombrias dominavam grande parte do catálogo de séries de prestígio, como Breaking Bad, só para citar a mais conhecida. Nesse cenário, um técnico absurdamente gentil que se recusa a tratar pessoas com crueldade e insiste em ver o melhor em cada um surge como uma espécie de contracorrente, ainda mais em uma vida real em que custava acreditar em um futuro melhor para você e para quem você queria bem.

Não por acaso, Ted Lasso é rapidamente identificado como daquelas séries que funciona como um abraço televisivo num momento em que o toque físico estava limitado. A série ofereceu um mundo em que, apesar das brigas, derrotas e traumas, há espaço para conversa, terapia, pedidos de desculpas e reconstrução. Durante a pandemia, Ted Lasso se tornou para muitos que acompanharam os episódios lançados semanalmente o que se costuma chamar de série conforto, aquela produção que todo mundo revisita para aliviar ansiedade, cansaço e tristeza.

Críticos destacaram que a série oferece uma combinação rara de humor leve, personagens falhos, arco de crescimento emocional e uma recusa firme ao cinismo. O otimismo de Ted, sua maneira de lidar com conflitos com humor e empatia, e os símbolos apresentados pela produção, como a placa amarela com a palavra Believe, acreditar em inglês, passaram a ser usados como referência em textos sobre psicologia, liderança e até cultura organizacional, que o pessoal do LinkedIn gosta mais que lasanha.

Ao mesmo tempo, a série não foge da dor. Mostra ataques de pânico, crises de identidade, traumas familiares e a necessidade de terapia, evitando aquela positividade tóxica que a gente encontra em vários lugares. Essa combinação de esperança e reconhecimento da dor é poderosa em um período de pandemia em que o noticiário mostra números de mortos e doentes, enquanto as pessoas buscam narrativas que não neguem a realidade, mas ofereçam possibilidades de enfrentamento mais humanas.

Logo após a estreia, Ted Lasso conquistou rapidamente um público fiel, em grande parte por recomendação boca a boca e pela curiosidade em torno de um projeto baseado em uma antiga campanha de TV. Ela se torna um dos primeiros grandes sucessos da Apple TV, crescendo em audiência semanal e ocupando espaços relevantes em discussões. O primeiro ano da série chega a 92% de aprovação no Rotten Tomatoes. Ao longo das temporadas, Ted Lasso chega a se tornar a série mais assistida da plataforma de streaming.

Com o tempo, a marca Apple TV+ passa a ser referida apenas como Apple TV, e Ted Lasso permanece como uma das produções emblemáticas da fase inicial do streaming da empresa que criou o iPhone. Pé de Laço aparece com frequência em listas de melhores séries do ano de sua estreia, sendo destacada tanto pelo público quanto por críticos como uma surpresa agradável num catálogo ainda em formação da Apple. Críticos elogiavam a atuação de Jason Sudeikis, a força de Hannah Waddingham, Brett Goldstein e Juno Temple, e a capacidade da série de equilibrar humor, emoção e comentários sociais.

Ao mesmo tempo, há críticas mais divididas às 2ª e 3ª temporadas, já lançadas após o pico de casos da COVID-19 e com o mundo voltando à sua rotina próxima da pré-pandemia. Nessas temporadas, a crítica discutiu os limites do otimismo da série e aponta problemas de ritmo e excesso de subtramas. Ainda assim, o balanço geral é amplamente positivo, especialmente em relação ao impacto cultural e à qualidade das atuações. O reconhecimento se materializa em uma quantidade impressionante de prêmios e indicações.

Logo na primeira temporada, Ted Lasso recebeu 20 indicações ao Emmy, tornando-se a série de comédia novata mais indicada na história da premiação até então. Dessas indicações, a série ganha 7 Emmys, incluindo Melhor Série de Comédia e prêmios de atuação para Jason Sudeikis, Brad Goldstein e Hannah Waddingham. Nos anos seguintes, a série volta a vencer o Emmy de Melhor Série de Comédia, consolidando sua posição como uma das principais comédias da década.

Jason Sudeikis também ganhou 2 Globos de Ouro de Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical, em 2021 e 2022, enquanto Ted Lasso acumulou múltiplas indicações como Melhor Série. O elenco como um todo é indicado ao Screen Actors Guild Awards por Melhor Conjunto em Série de Comédia. Ao longo do tempo, Ted Lasso acumula mais de 60 indicações ao Emmy e dezenas de prêmios de associações de roteiristas, críticos e grupos especializados.

A série também aparece em listas da American Film Institute e recebe prêmios como o Critics' Choice Television Awards, Hollywood Critics Association TV Awards e reconhecimentos diversos.

?Voz B

Tá legal, pessoal, atenção. Acreditar não é uma coisa que acontece só porque prendeu uma placa, entenderam? Tem que vir daqui de dentro, sabem? E daqui de cima, e daqui de baixo. O problema é que a gente tem tanto lixo flutuando dentro da gente que isso acaba atrapalhando. Coisas tipo inveja, medo, vergonha. E eu não quero me meter com essas coisas ruins, entendem? Querem isso?

MAMárcio Andrade

Não, não. Após ter encerrado sua trajetória em 2023 com o final da terceira temporada, com Ted voltando para sua Kansas natal para ficar mais tempo com seu filho, a Apple TV passou os últimos anos tentando convencer Jason Sudeikis a voltar a viver o personagem em mais uma temporada. A vontade da plataforma de streaming em aproveitar o sucesso do universo de Ted Lasso era tão grande que chegaram a pensar na possibilidade de criar um spin-off da série caso Sudeikis continuasse irredutível na decisão de não voltar mais ao personagem.

Até que em 2024, a Apple TV conseguiu convencer Jason a fazer pelo menos mais uma temporada de seu personagem, provavelmente com alguns milhões de dólares envolvidos nessa negociação. E em agosto de 2026, estreou a 4ª temporada de Ted Lasso, desta vez com o treinador voltando para Richmond para treinar uma nova equipe de futebol feminino do time. Para além de números, o legado de Ted Lasso está na ideia de que um personagem nascido para vender um campeonato de futebol pode crescer e se tornar símbolo global de um modo diferente de liderar: ouvindo, acolhendo, errando, pedindo desculpa e acreditando junto, e com bastante humor envolvido.

A placa amarela com Believe, ou acreditar, escrito à mão, torta e colada acima de uma porta de vestiário continua como lembrete visual de que, mesmo em tempos sombrios, ainda é possível construir histórias baseadas na confiança e na esperança, mas sem perder a graça. Porque se a gente não rir, por que estamos aqui, afinal de contas? Este é o Salada Cultural, podcast 100% independente que tem pesquisa, roteiro, produção, edição e apresentação do dono desta voz, Márcio Andrade.

Quer falar sobre este ou algum outro episódio? Só me chamar no Instagram, no @márcioand, ou no TikTok, no @márcio.andrade0. Prometo que te respondo o mais breve possível. Quer participar do financiamento coletivo do podcast? Então acesse catarse.me/saladacultural. Lá você encontra faixas de contribuição que podem até te render alguns mimos. O valor é simbólico, mas isso mostra o quanto gosta do meu trabalho. Eu volto no próximo episódio. Fiquem bem e até lá!