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SC #60: The Office – A série que quase foi demitida

21 de julho de 202629min
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Apesar de vivermos em um mundo onde as fronteiras culturais estão diminuindo, produções de alguns países quando adaptadas para a realidade de outras regiões, devido ao seu sucesso no país de origem, as chamadas "versões", muitas vezes não acontece aquela afinidade e a versão genérica acaba não correspondendo às expectativas.

Por pouco isso acontece com a série The Office norte-americana, adaptação de mesmo nome de uma série britânica, que foi necessário um esforço de todos os envolvidos para que a versão estadunidense vingasse, e isso eu incluo além dos produtores, os roteiristas, diretores e até os atores, para que se tornasse de um possível fracasso de apenas 6 episódios, para um fenômeno de 201 episódios e arroz de festa de praticamente todos os serviços de streaming do Brasil.

Neste episódio conto como a série foi adaptada para o gosto ianque e conseguiu fugir do cancelamento precoce. Uma trajetória que envolve a ajuda de um filme protagonizado pelo ator Steve Carrell, a transformação de caráter de personagens enquanto o bonde estava andando e o início do que hoje conhecemos como maratonar uma série.

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Salada Cultural é um podcast independente com pesquisa, roteiro, produção, edição e apresentação de Marcio Andrade.

Participantes neste episódio1
M

Márcio Andrade

HostPodcaster
Assuntos4
  • Crítica vs. CancelamentoBaixa audiência inicial · Renovação para segunda temporada · Steve Carell · O Virgem de 40 Anos
  • Adaptação de The OfficeThe Office (UK) vs The Office (US) · Humor britânico vs humor americano · Saída de Bolsonaro da UTI · Steve Merchant
  • Transformação de Michael ScottDe chefe desagradável a humano · Influência de 'O Virgem de 40 Anos' · Necessidade de ser amado
  • O fenômeno do 'maratonar séries'Lançamento de temporadas em DVD · Downloads digitais · Ascensão dos serviços de streaming
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MAMárcio Andrade

Apesar de vivermos em um mundo onde as fronteiras culturais estão diminuindo, produções de alguns países, quando adaptadas para a realidade de outras regiões devido ao seu sucesso no país de origem, as chamadas versões, muitas vezes não acontece aquela afinidade e a versão genérica acaba não correspondendo às expectativas. Temos como exemplo mal-sucedido a série brasileira Como Aproveitar o Fim do Mundo, de 2012, escrita pelo casal Alexandre Machado e Fernanda Young, com Danton Melo e Aline Moraes, que teve uma versão americana em 2016 que durou apenas uma temporada, sendo cancelada na sequência por conta da baixa audiência, apesar que a original brasileira também durou poucos episódios.

Temos também a série britânica Skins, que mostra a história de adolescentes e tudo o que envolve esse período da vida, sem censura e com muitas cenas que deixariam os personagens da extinta novela Malhação corados. Lançada originalmente em 2007 e tendo 7 temporadas, a adaptação americana exibida pela MTV de lá mal durou uma temporada em 2011, também cancelada pela baixa repercussão entre o público-alvo. Claro que sempre há exceções, que é o caso das produções britânica e estadunidense da série The Office, criada pelos comediantes Ricky Gervais e Steve Merchant originalmente no Reino Unido em 2001 e que durou 2 temporadas, enquanto a sua adaptação americana durou 9 temporadas e hoje é mais lembrada do que a série-mãe.

Mas isso quase não aconteceu. Foi necessário um esforço de todos os envolvidos para que a versão americana vingasse, e isso inclui, além dos produtores, os roteiristas, diretores e até os atores, para que ela se tornasse de um possível fracasso de apenas 6 episódios para um fenômeno de 201 episódios e arroz de festa de praticamente todos os serviços de streaming do Brasil. Hoje no Salada Cultural, eu conto como a série americana The Office foi adaptada para o gosto yankee e conseguiu fugir do cancelamento precoce.

Uma trajetória que envolve a ajuda de um filme protagonizado pelo ator Steve Carell, a transformação de caráter de personagens enquanto o bonde estava andando, e o início do que hoje conhecemos como maratonar uma série. Curte The Office? Então fica aí que a história é bem legal. Meu nome é Márcio Andrade e esse é o Salada Cultural. Salada Cultural. Em 2001 estreava na TV britânica a série The Office, uma comédia que se passa como um falso documentário em que acompanha o dia a dia de funcionários de uma empresa que vende papel.

Nesse ambiente temos o chefe incompetente, que ninguém sabe como conseguiu esse cargo, o funcionário puxa-saco que é odiado por todos e até pelo chefe, o rapaz descolado que odeia o trabalho que desempenha, mas não tem pretensões maiores de sucesso, a recepcionista que namora outro rapaz que também trabalha na empresa, mas sabe que esse relacionamento tem zero futuro, e por aí vai. Essa ideia de falso documentário surgiu da cabeça dos comediantes Rick Gervais, Steven Merchant, baseado nos programas ao estilo reality show que estavam fazendo sucesso no Reino Unido e que mostravam o dia comum de pessoas comuns, como o programa Drive School, em que acompanha ingleses fazendo aulas de direção e até suas provas práticas.

Pegaram esse exemplo e colocaram em um escritório que vende algo genérico. Rick Gervais assumiu o papel do chefe de horta, chamado David Brandt, um homem narcisista sem total tato e profissionalismo, que faz piadas nas horas erradas, é arrogante e que ninguém respeita, com exceção do puxa-saco Garrett Keenan, interpretado pelo ator Mackenzie Crook. O funcionário sem perspectiva chamado Tim Catonbury ficou nas mãos do ator Martin Freeman, que hoje você deve conhecer como Watson da série Sherlock, Bilbo Baggins da trilogia O Hobbit e o agente Everett K.

Ross dos filmes da Marvel. A recepcionista Dawn Tinsley ficou a cargo de Lucy Davis, entre outros personagens que faziam parte dessa fictícia empresa de vendas de papel. A série apostou no típico humor britânico, no estilo quanto mais embaraçosa a situação, melhor, usando e abusando daquele sentimento que todo mundo tem de vergonha alheia quando vemos algo que é nitidamente vergonhoso, que sempre queremos parar de ver, mas a vontade de testemunhar a desgraça é maior.

The Office foi sucesso desde sua estreia, que aconteceu em 9 de julho de 2001, no canal BBC Two. Durou 2 temporadas com 14 episódios no total, encerrando com um episódio especial de Natal em 27 de dezembro de 2003. Caso queira ver a série original, ela está completa na HBO Max. Vale destacar que no seu primeiro ano, um dos telespectadores que assistiu a série e ficou surpreendido com a forma como faziam uma comédia de situação parecendo um documentário real era um produtor norte-americano, que tinha acabado de chegar em Londres e estava hospedado na casa de uma amiga.

O produtor Ben Silverman, que havia fundado há pouco tempo a sua própria produtora chamada Reveille, após anos trabalhando para a agência William Morris, tinha acabado de chegar em Londres naquele julho de 2001 em busca de projetos que possam ser adaptados para o gosto americano. Foi em uma zapeada na TV da casa de sua amiga que se deparou com a série The Office. No início não sabia se era um reality show mesmo ou se estavam realmente atuando.

Silverman afirmou que estava achando graça, o que era bem difícil para ele como produtor de TV que há anos aprova e reprova projetos. Perguntou para a amiga que programa era aquele que ele não conhecia E ela respondeu dizendo que era The Office, série que tinha acabado de estrear. Silverman ficou tão surpreendido com a comédia que já queria entrar em contato com os criadores para verificar a possibilidade de adaptar o programa para os Estados Unidos.

Após contatar um produtor que sua amiga conhecia e era amigo em comum de Eric Gervais, Ben Silverman ligou no dia seguinte para Gervais afirmando que queria adaptar a série dele. Se encontraram junto com Stephen Merchant e todos gostaram do americano, que também gostava dos Simpsons e do filme Se Meu Apartamento Falasse, de 1960, com Jack Lemmon, ambas produções que Gervais e Merchant se inspiraram para criar o humor de The Office.

Mesmo assim, ele estava com um pouco de pé atrás para essa adaptação, visto alguns exemplos anteriores de séries que foram adaptadas para o público médio norte-americano e que deram com os burros na água. Eles também acreditavam que a série The Office era a antítese da fórmula da comédia televisiva vinda dos Estados Unidos, em que na época era dominada por produções com plateia ao vivo com a famosa claque de risadas, o que perderia todo o efeito de documentário da série original.

Além do fato de que todos os personagens ianques não fugiam dos estereótipos das pessoas bem-sucedidas, com episódios tendo sempre uma lição de moral. O que não tinha nada a ver com nenhum personagem da obra deles. Outro ponto seria a duração das séries produzidas nos Estados Unidos, que na época precisavam chegar ao menos em 100 episódios para que pudessem ter algum lucro futuro, algo totalmente fora do que foi pensado pelos criadores de The Office.

Para se ter uma ideia, o fato da série ter acabado com apenas 2 temporadas partiu de Rick Gervais, apesar do sucesso do programa, uma atitude que seria impensada para uma produção americana. Após meses de negociação entre Ricky, Stephen e a BBC, Ben Silverman, com sua insistência admirável, finalmente conseguiu convencê-los a adaptar The Office para o público que solta fogos no Dia da Independência. Mas ainda faltava muita coisa para que a versão americana visse a luz do dia.

Nas séries americanas, dado o tempo útil em que ficam no ar, Existe um profissional que é responsável por supervisionar a produção e mantê-la coerente a cada temporada. Ou pelo menos tentar. Ele ou ela é responsável por todo o projeto, estando à frente das decisões que envolvem o roteiro até a finalização. O dono desse cargo é chamado de showrunner, que não tem uma tradução ao pé da letra por aqui. Mas entenda que é esse profissional com nome intraduzível que faz a produção andar nos trilhos.

Ben Silverman, após o ok de todos os envolvidos pela série original The Office, precisava de alguém para essa função. Silverman conseguiu esse showrunner na pessoa de Greg Daniels, produtor que tinha acabado de sair da função de showrunner da animação O Rei do Pedaço, ao qual era cocriador ao lado de Mike Judge. Greg também tinha experiência como roteirista de Os Simpsons e do programa Saturday Night Live. Com esse currículo, foi fácil ter aprovação de Rick Gervais e Stephen Merchant.

Enquanto Greg cuidava da adaptação do conceito de falso documentário para a realidade americana, Ben Silverman buscava em sua lista de contatos executivos de TV que topassem bancar a produção. Foi uma tarefa difícil, visto que as comédias norte-americanas ainda estavam sendo produzidas como teatro ao vivo, com plateia e suas risadas imediatas que mediam o alcance da piada. Após uma sequência de nãos, Ben conseguiu que Kevin Reilly, então presidente de entretenimento do canal a cabo FX, tenha interesse na versão americana do programa.

Porém, Kevin estava de saída do FX e provavelmente ia para o canal NBC, famoso por ser a emissora de Friends, Seinfeld e outras tantas comédias. Segundo conta Ben Silverman no livro Bem-vindo a Dunder Mifflin: Os Bastidores da Série The Office, Kevin Reilly quis levar a série The Office para qualquer emissora que ele possa trabalhar, sendo o único interessado pelo produto. Com isso, e mesmo com a resistência de outros executivos, Kevin conseguiu que a série fosse feita na NBC.

Quer dizer, somente o episódio piloto. Aqui eu abro um parêntese para explicar o que é um episódio piloto, caso você não saiba. Nos Estados Unidos, muitos programas não passam do primeiro episódio, Esse piloto que eu mencionei, que é feito como um teste para verificar se a série pode render pelo menos uma temporada ou ser esquecida após essa produção feita como teste. Alguns episódios pilotos vão ao ar, muitos outros são esquecidos na sala de edição.

Uma série sobre a Mulher Maravilha e outra que seria uma continuação do filme Um Tira da Pesada são exemplos de séries que tiveram seus episódios pilotos produzidos, mas nem chegaram a ser exibidos. The Office Made in USA poderia estar nessa turma. Showrunner contratado, episódio piloto garantido, agora era juntar as forças para adaptar The Office. Primeiro, mantiveram o que mais chamou a atenção de Ben Silverman: a comédia ainda seria um falso documentário.

O dia a dia ainda seria em uma empresa que vende papel e a cidade que se passaria a série seria Scranton, no estado americano da Pensilvânia. Greg Daniels conta no mesmo livro sobre os bastidores de The Office que escolheu essa cidade primeiro porque o clima se assemelhava com a Inglaterra e segundo porque, de acordo com ele, Scranton é uma palavra de comédia, com o A arrastado. Decidindo esses pontos, foi feita a adaptação dos personagens para a realidade americana.

Os produtores e roteiristas também queriam manter a ideia de chef-mente capto, dupla de funcionários puxa-saco e sem perspectiva profissional, e recepcionista conformada. Então chegou a hora dos testes de elenco. Muitos atores e atrizes conhecidos por outros papéis quase fizeram parte da versão americana de The Office. Bob Odenkirk, mais conhecido pelo seu papel de Saul Goodman em Breaking Bad e Better Call Saul, poderia ser Michael Scott.

Kathryn Hahn, hoje conhecida como a bruxa Agatha Harkness da série da Marvel WandaVision, fez teste para ser a recepcionista Pam. Adam Scott, da série Ruptura, e Jon Schott, de Madrugada Muito Louca e Cowboy Bebop, quase foram Dean Halpern. Eric Stonestreet, o Cameron de Modern Family, fez teste para ser Kevin. E Seth Rogen, dos filmes Ligeiramente Grávidos e É o Fim, foi considerado a ser Dwight, o funcionário puxa-saco. No final, foi decidido que Steve Carell fosse Michael Scott, Chefe da Dundley Miffin, empresa de papel.

Os produtores viram ele no filme de 2003 Todo Poderoso, com Jim Carrey, mais exatamente na cena em que seu personagem começa a falar coisas sem sentido enquanto apresentava um jornal, e daí resolveram chamá-lo para o teste de elenco. Jim, a persona do Tim britânico, ficou com John Krasinski, que antes havia feito apenas pontas em outras produções e hoje é conhecido pela série Jack Ryan e pelo filme Um Lugar Silencioso. Pam, a recepcionista, ficou com Jenna Fischer, que também não fez nada de relevante antes e depois de The Office.

Dwight, o puxa-saco, ficou com Rainn Wilson, que depois fez os filmes O Roqueiro e Mega Tubarão. Além deles, a versão americana também trouxe outros atores que também estavam trabalhando do outro lado das câmeras, ajudando a escrever os roteiros, como Mindy Kaling, que interpretava Kelly Kapoor, que entrou na equipe de roteiro ainda na primeira temporada e foi subindo até se tornar produtora executiva. A mesma coisa com BJ Novak, o Ryan, o estagiário que depois vira executivo e volta a ser estagiário.

Ele escreveu alguns dos episódios mais lembrados da série, inclusive um que menciono daqui a pouco. E Paul Lieberstein, que interpretava o Toby, o representante do RH que Michael Scott odeia. Ele também era roteirista e produtor, e acabou se tornando o showrunner da série em temporadas posteriores. E tem mais, a Phyllis Smith, que fazia a vendedora Phyllis Lapin, nem era atriz de formação. Ela trabalhava no departamento de elenco da série e participou de uma leitura para ajudar os produtores nos testes do elenco.

O desempenho foi tão bom que Greg Daniels disse que ela já tinha conseguido um emprego como atriz. Tem também uma das histórias mais bem-humoradas dos bastidores. O ator Creed Bratton, que interpretava o vendedor Creed Bratton. Sim, colocaram o seu nome no personagem. Ele entrou na série praticamente como figurante, mas o jeito peculiar dele fez com que os roteiristas fossem ampliando o personagem aos poucos e virou um dos favoritos dos fãs da série.

Elenco formado, ideias alinhadas, foi hora de colocar o programa no ar. Então a primeira temporada foi feita fazendo uma ou outra adaptação do material original, E isso foi complicado. Após a gravação, o episódio piloto foi aprovado pelos executivos da NBC e The Office conseguiu fechar uma temporada curta, com apenas 6 episódios, para irem ao ar no período de fim de temporada da televisão americana. No primeiro semestre de 2005, quando os canais reservam suas apostas para uma possível continuidade de produções para o segundo semestre, caso dê audiência.

A ideia inicial dos criadores da versão estadunidense era seguir bem de perto a estrutura da versão britânica. O problema é que o humor britânico é mais seco, mais cruel e mais desconfortável. E o público americano não estava acostumado com aquilo. O episódio piloto, por exemplo, foi praticamente um cena a cena do piloto britânico. E a recepção de crítica e público foi fria. A audiência despencou. O primeiro episódio, que estreou em 25 de março de 2005, teve uma audiência de mais de 11 milhões de telespectadores.

No segundo episódio, já tinha perdido mais da metade do público. Os executivos da NBC já estavam de olho na tesoura. A série mal havia começado e já estava na corda bamba. Mas se tem um episódio dessa primeira temporada que ainda hoje é lembrado, é justamente o segundo, chamado Diversity Day, ou Dia da Diversidade. Escrito por BJ Novak, esse foi o primeiro episódio que realmente trouxe algo original para a versão americana. A trama mostra Michael Scott tentando dar uma lição de tolerância depois de fazer uma piada exame no escritório.

Claro, ele faz tudo errado, transforma o treinamento num show de horrores politicamente correto e termina levando um tapa de Kelly Kapoor. Esse episódio foi o primeiro sinal de que a série poderia ter personalidade própria. Os críticos começaram a reparar, mas a audiência continuou baixa na sequência de episódios. E a sensação no fim da primeira temporada era de que The Office não passaria daquilo. A NBC, que assim como fez com a série Seinfeld, como bem contei no episódio 3 da segunda temporada do Salada Cultural, deu um voto de confiança a The Office e, mesmo com audiência decrescente, renovou a série para uma segunda temporada de apenas 13 episódios, para saber se poderia recuperar a audiência.

E foi aí que entrou o elemento cinema. Ah, ah, ah, ah, staying alive, staying alive. Ah, ah, ah, ah, staying alive, staying alive. You can't tell by the way I use my walk, I'm a woman's man, no time to talk. Words ain't loud, women want, been kicked around since I was born. Well, it's all right, it's okay, you can look the other way. Entre a primeira e a segunda temporada, Steve Carell estrelou um filme chamado O Virgem de 40 Anos, uma comédia dirigida por Judd Apatow que estreou nos Estados Unidos em 19 de agosto de 2005.

O longa, que o título já conta a história da obra, fez um sucesso absurdo nas bilheterias, rendendo quase 200 milhões de dólares no mundo todo. De repente, Steve Carell, que até então era um ator conhecido por ser coadjuvante em filmes como Todo Poderoso, virou um nome considerável em Hollywood. A NBC olhou para a situação e pensou no ouro que tinha nas mãos, com um programa em sua grade estrelado por uma das caras mais famosas do momento.

Então entra o ponto de virada definitivo. Nessas férias entre temporadas, Greg Daniels e sua equipe perceberam que o problema não era só a audiência, era o personagem. Michael Scott não podia ser simplesmente uma cópia de David Brent, o chefe incompetente da versão britânica. O público americano não ia engolir um chefe cruel e desagradável por várias temporadas. Era preciso dar a Michael Scott uma camada de humanidade. A solução veio justamente do filme que fez Carell virar estrela.

Em Um Virgem de 40 Anos, o personagem de Carell é esquisito, atrapalhado, mas no fundo tem um coração enorme. As pessoas simpatizam com ele. Então os roteiristas pegaram uns 20% daquela energia e transferiram para o chefe da Dunder Mifflin. O resultado foi que na segunda temporada, Michael deixou de ser apenas um chefe idiota e passou a ser um chefe idiota, mas que no fundo quer ser amado. Ele ainda faz piadas sem noção, ainda constrange todo mundo, mas de vez em quando aparece uma cena em que a gente vê que ali tem um cara solitário, carente, que só quer ter amigos.

Essa mudança fez toda a diferença. O público começou a se importar com ele e com a gama de personagens igualmente carismáticos que faziam parte daquele escritório que vendia papéis. A segunda temporada, que estreia em 20 de setembro de 2005, exatos um mês depois da estreia de O Virgem de 40 Anos nos cinemas, já chega carregando um novo contexto de recepção. O público agora reconhecia Steve Carell não mais como um ator tentando sustentar um personagem desconfortável, mas como o protagonista carismático de O Virgem de 40 Anos.

E essa mudança de percepção é fundamental para entender a virada da série, porque ela permite que o espectador enxergue Michael Scott não apenas como uma figura constrangedora, mas como alguém potencialmente empático. E é exatamente essa brecha que os roteiristas passam a explorar com muito mais precisão. No episódio de abertura, chamado The Dundies, que mostra uma noite em que Michael Scott resolve fazer sua versão do Oscar, premiando seus funcionários em diversas categorias.

Esse episódio funciona quase como um manifesto dessa nova fase, porque ele reorganiza completamente a lógica do humor da série. Se na primeira temporada o constrangimento era utilizado como fim em si mesmo, aqui ele passa a ser um meio para revelar fragilidades emocionais, especialmente de Michael, que continua sendo socialmente inadequado, mas agora demonstra uma necessidade genuína de pertencimento. E quando Pan, a recepcionista, assume o microfone e valida aquele momento que poderia ser apenas mais uma sequência de humilhação, a série introduz algo que não existia antes: o afeto.

E com isso transforma a experiência do espectador, que deixa de rir de fora e passa a rir de dentro da situação. Esse reposicionamento do humor se aprofunda ao longo dos episódios seguintes, como em Sexual Harassment, segundo episódio da temporada, que mostra Michael Scott revoltado com uma nova política de assédio sexual da matriz e, com isso, tem medo de perder seu ambiente de trabalho, entre aspas, descontraído. Aqui é onde a estrutura cômica passa a incorporar uma camada de autoconsciência institucional, utilizando o treinamento corporativo como dispositivo narrativo para tensionar o comportamento de Michael.

A parte engraçada do episódio não surge apenas do absurdo, mas do contraste entre a formalidade do ambiente e a incapacidade do personagem de operar dentro dessas regras. Mas é no episódio chamado Office Olympics que The Office dá um salto qualitativo ainda mais evidente na construção de linguagem própria e fugindo da versão original britânica, porque o episódio desloca o eixo narrativo do chefe para os funcionários. Permitindo que o humor emerja da coletividade e não apenas da figura central, que sai do escritório para assinar a papelada de seu novo apartamento.

E os funcionários, liderados por Jim Halper, criam as Olimpíadas internas, com provas improvisadas e significados simbólicos atribuídos a objetos banais. O momento final, quando fazem a cerimônia de entrega das medalhas, conferindo uma medalha de ouro para Michael pela compra de seu apartamento, fazendo com que caia uma lágrima de seu olho, funciona como uma síntese perfeita da nova proposta da série: transformar o ordinário em algo emocionalmente significativo sem abandonar o humor.

Sem contar que as interações entre os outros personagens são bastante valorizadas nos episódios, como as peças que Dille prega constantemente em Dwight, as conversas na copa do escritório e os interesses amorosos que surgem entre os personagens, Como a paixão mútua de Jim e Pam, que é impossível naquelas primeiras temporadas por conta do noivado de Pam com o funcionário que trabalhava no armazém da Dunder Mifflin, além do romance secreto de Dwight e Angela, a funcionária da contabilidade do escritório, que nunca esboçava qualquer sentimento, recriminava a todos e tinha uma obsessão por gatos.

A audiência do programa começa a reagir e a NBC autoriza o seriado a expandir a quantidade de episódios daquela temporada, fechando em 22 episódios, além da renovação para a 3ª temporada da série. E é nesse processo de refinamento contínuo que a série chega ao episódio Casino Night, escrito por Steve Carell, em que é marcado pelo pedido de casamento destrambelhado de Michael para sua namorada, o torneio de pôquer e a primeira confissão de amor de Gene por Pam, que fecha a 2ª temporada e funciona como um ponto de convergência de todas as transformações ocorridas até então.

Aqui, o humor divide espaço com o desenvolvimento emocional dos personagens, especialmente no arco de Jim e Pam, cuja resolução parcial introduz uma dimensão romântica que amplia o alcance da narrativa. O episódio não encerra apenas uma temporada, mas consolida uma nova identidade para a série, em que comédia e emoção coexistem de maneira equilibrada. A partir desse momento, The Office deixa de ser uma adaptação em busca de validação e passa a ser uma referência em si mesma, estabelecendo um modelo de comédia que se apoia na observação do comportamento de seus personagens, na construção deles e na utilização do formato de falso documentário como ferramenta para gerar a identificação do público.

E veio também outro fator que ajudou The Office a sobreviver e se tornar um fenômeno: o jeito como as pessoas começaram a assistir Assistir séries. Um pouco antes da segunda metade dos anos 2000, os estúdios começaram a lançar temporadas completas de séries em DVD. As pessoas compravam os box ou alugavam em videolocadoras— pergunte aos seus pais o que era esse comércio— e maratonavam episódios inteiros de uma só vez. Não precisavam mais esperar a semana inteira para ver o próximo episódio.

Dava para ver 4, 5, 6 episódios de uma vez. The Office foi uma das primeiras séries a se beneficiar desse hábito. E não só em DVD, a série também foi uma das primeiras a ser vendida na iTunes Store da Apple e em outras plataformas. Enquanto a audiência tradicional da TV caía, os números de download subiam. O público jovem descobriu a série por esses meios e começou a espalhar a palavra. Foi o início do que hoje a gente chama de maratonar, Algo que depois viraria rotina com a Netflix, a Amazon Prime Video, a HBO Max e todos os serviços de streaming que a gente usa hoje.

E foi essa combinação que salvou The Office, o filme que transformou Steve Carell em estrela. A decisão de tornar Michael Scott mais humano o sucesso nas vendas de DVD e downloads digitais e a insistência de executivos da NBC, que apostaram na série contra a opinião de meio mundo. O resultado a gente conhece: a série que quase foi demitida depois de 6 episódios sobreviveu por 9 temporadas, sendo as duas últimas já sem Steve Carell, que se despediu do seu Michael Scott ao final da 7ª temporada.

Teve mais de 200 episódios e se tornou um fenômeno global. Hoje, The Office é a série que todo mundo reassiste sem cansar. É o arroz de festa dos streamings, disponível hoje na íntegra nas plataformas Netflix, Prime Video e HBO Max. Virou referência cultural, gerou memes, camisetas, canecas, chaveiros e mais um monte de produtos oficiais e não oficiais. Mostrou que dava para fazer humor sem risadas gravadas, sem plateia, com câmera na mão e silêncio constrangedor.

Abriu caminho para outras séries que abraçaram o estilo mockumentary, como Parks and Recreation, Abbott Elementary, sem contar as outras versões de The Office feitas em outros países como Austrália, Alemanha, França e Chile, que só foram feitas porque a versão americana deu muito certo. E culminando em The Paper, lançado em 2025, que é uma continuação de The Office, agora tendo um jornal local na mesma Scranton, Pensilvânia, onde existiu a Dunder Mifflin como centro caótico de histórias.

E tudo isso porque, no fim das contas, a versão americana de The Office aprendeu uma lição simples: não adianta tentar copiar, o negócio é não fazer igual. Este é o Salada Cultural, podcast 100% independente que tem pesquisa, roteiro, produção, edição e apresentação do dono desta voz, Márcio Andrade. Quer falar sobre este ou algum outro episódio? Só me chamar no Instagram, no @márcioand, ou no TikTok, no @márcio.andrade0. Prometo que te respondo o mais breve possível.

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