Episódios de Salada Cultural

SC #54: Quando o Beatle Quieto falou no Concerto para Bangladesh

28 de abril de 202630min
0:00 / 30:15

Estamos em 1º de agosto de 1971, na suntuosa casa de shows Madison Square Garden, em Nova York. Um ex‑Beatle que nunca tinha sido o centro das atenções da banda sobe ao palco como líder de um megaevento. Ao seu lado, alguns dos maiores nomes da música. E o objetivo não é apenas fazer um grande show, mas chamar a atenção do mundo para uma tragédia humanitária do outro lado do planeta, em um lugar que, até então, quase ninguém sabia apontar no mapa: Bangladesh.

Neste episódio, falo sobre The Concert for Bangladesh, idealizado por George Harrison e Ravi Shankar, que além do show, virou disco e filme.

Abordo como estava a carreira de Harrison após o fim dos Beatles e um pouco antes do concerto, a amizade com Ravi Shankar e o pedido desesperado de ajuda que deu origem a esse evento que se tornou referência.

Gostou? Odiou? Curtiu, mas tem ressalvas sobre esse episódio? Me chama no⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠ Instagram ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠ou no ⁠⁠⁠⁠⁠⁠TikTok ⁠⁠⁠⁠⁠ para falar.

Quer participar do financiamento coletivo do podcast? Então ⁠⁠clique ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠aqui⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠, faça sua contribuição e ganhe mimos dependendo da faixa que resolver apoiar.

Salada Cultural é um podcast independente com pesquisa, roteiro, produção, edição e apresentação de Marcio Andrade.

Participantes neste episódio1
M

Márcio Andrade

HostPodcaster
Assuntos5
  • Concerto para BangladeshGeorge Harrison · Ravi Shankar · crise humanitária em Bangladesh
  • Carreira de George HarrisonAll Things Must Pass · sucesso após os Beatles
  • Relação com Ravi Shankarmúsica indiana · amizade
  • Impacto do concertoajuda humanitária · cobertura midiática
  • Desafios logísticosMadison Square Garden · participação de músicos
Transcrição72 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Estamos em 1º de agosto de 1971, na suntuosa casa de shows Madison Square Garden, em Nova York. Um ex-Beatle que nunca tinha sido o centro das atenções da banda, sobe ao palco como líder de um mega-evento. Ao seu lado, alguns dos maiores nomes da música.

E o objetivo não é apenas fazer um grande show, mas chamar a atenção do mundo para uma tragédia humanitária do outro lado do planeta, em um lugar que, até então, quase ninguém sabia apontar no mapa. Bangladesh. Neste episódio, vou falar do concerto para Bangladesh, idealizado por George Harrison e Ravi Shankar, que além do show, virou disco e filme.

Vão falar sobre como estava a carreira de Harrison após o fim dos Beatles e um pouco antes do concerto, a amizade com Ravi Shankar e o pedido desesperado de ajuda que deu origem a esse evento que se tornou referência. Meu nome é Márcio Andrade e este é o Salada Cultural.

Quando o concerto para Bangladesh aconteceu, em agosto de 1971, os Beatles estavam oficialmente desintegrados há pouco mais de um ano. O fim não foi repentino, mas o resultado de um desgaste progressivo. Desde o final dos anos 1960, a relação entre os quatro vinha se deteriorando por diferenças artísticas, egos em choque e problemas empresariais graves em torno da Apple Corps, a empresa criada pela banda.

A morte do empresário Brian Epstein em 1967 deixou um vácuo de liderança. Sem um adulto na sala, os Beatles assumiram o controle dos próprios negócios e a Apple se transformou em um caos administrativo com gastos descontrolados e projetos mal geridos. Foi nesse contexto que apareceu Alan Klein, um empresário agressivo de Nova York, que conquistou a confiança de John Lennon, George Harrison e Ringo Starr com a promessa de colocar as finanças em ordem.

O McCartney desconfiava profundamente de Klein desde o início e não fez dele seu empresário, apesar de ter sido o voto vencido para a decisão dele de cuidar dos negócios da banda. Criativamente, George Harrison se sentia cada vez mais sufocado pela dupla Lennon e McCartney, que dominava o repertório dos discos. Muitas de suas composições eram rejeitadas ou jogadas para encher os álbuns ou relegada a um lado B de single.

canções como All Things Must Pass, Isn't It Pity e outras, que mais tarde seriam reconhecidas como clássicos, tiveram pouco espaço na fase final dos Beatles.

Isso alimentou um ressentimento crescente por parte do guitarrista, que inclusive culminou em um breve período em que pediu o chapéu e saiu da banda, durante os ensaios para o projeto Get Back, que depois se tornou o disco Let It Be. No início de 1970, Paul McCartney anunciou o fim dos Beatles, mas juridicamente, a ruptura veio no final daquele ano.

Em 31 de dezembro, Paul McCartney entrou com um processo na Alta Corte de Londres pedindo a dissolução formal da sociedade dos Beatles, argumentando que o grupo já não funcionava como banda e que a nomeação de Klein contrariava o acordo original entre eles. O caso foi ouvido em janeiro de 1971 e, em março, o juiz Blanchard Stamp decidiu a favor de McCartney, nomeando um administrador judicial para cuidar dos ativos do grupo.

Ou seja, George Harrison está no olho desse furacão. Os Beatles acabaram de se desfazer em público, há um litígio em curso e a relação entre ele, John e Paul está cheia de mágoas e desconfiança. Neste mesmo período de turbulência, Harrison encontra, paradoxalmente, o maior momento de afirmação de sua carreira.

Em novembro de 1970, ele lança All Things Must Pass, um álbum triplo que reúne muitas das canções acumuladas durante os anos Beatles e nunca plenamente aproveitadas. O disco traz sucesso como My Sweet Lord e What Is Life, além de faixas carregadas de espiritualidade e introspecção, como a própria All Things Must Pass.

Coproduzido por Phil Spector, o disco passou sete semanas em primeiro lugar na parada de álbuns da Billboard nos Estados Unidos, enquanto My Sweet Lord ocupava o topo das paradas de singles. Em vários países, o disco chegou ao número um e, segundo análises posteriores, naquele início de 1971, Harrison era talvez a estrela de rock mais bem-sucedida do planeta, superando em vendas, naquele momento, os trabalhos solos simultâneos de Lennon e McCartney.

Neste momento de grande reconhecimento do então Beatle Kieto, com enorme prestígio criativo e comercial, e com capacidade real de mobilizar outros gigantes da música, seu amigo, o músico Ravi Shankar, bate a sua porta com um pedido de ajuda.

A ligação de George Harrison com Ravi Shankar e com a música indiana começa alguns anos antes, ainda em plena Beatomania. Durante as filmagens do filme Help, em 1965, há uma cena ambientada em um restaurante indiano em Londres, com músicos indianos tocando ao fundo. No set, George vê uma cítara pela primeira vez, pega o instrumento e se encanta com o som que sai dele.

Harrison começa a estudar cítara e chega a usar de forma bem rudimentar em Norindian Wood, gravada em 1965 para o disco Rubber Soul. Mas é a partir de recomendações de amigos, em especial David Crosby, que lhe mostra discos de Ravi Shankar, que Harrison se aprofunda na música clássica indiana. Em 1966, ele viaja à Índia e passa semanas estudando com Shankar e o discípulo Shambu Das, mergulhando não só no instrumento, mas na filosofia e espiritualidade hindu.

O próprio Harrison declarou mais tarde que Shankar foi a primeira pessoa que realmente o impressionou na vida e que a amizade com o músico indiano mudou tudo para ele. A relação era quase um vínculo de mestre e discípulo, praticamente de pai espiritual para filho. Shankar, por sua vez, via em Harrison alguém genuinamente interessado, não apenas um astro pop à procura de exotismo, que estava tão em voga na década de 1960.

Essa amizade é o ponto de partida para a ajuda que Shankar pediu para Harrison em meados de 1971. Enquanto trabalhavam juntos em Los Angeles, Shankar conta a Harrison a gravidade da situação do então Paquistão Oriental e pede sua ajuda como pessoa com grande alcance mundial. A ideia inicial de Shankar era algo modesto, um pequeno conceito para arrecadar algumas dezenas de milhares de dólares. George Harrison pensa imediatamente em algo muito maior.

Para entender a urgência do pedido de Ravi Shankar, é preciso recuar e olhar para a história de Bangladesh.

A região que hoje corresponde ao país foi, por séculos, parte de impérios maiores, primeiro sob domínio mongol, depois sob colonização britânica, integrada ao rádio britânico como Bengala. Em 1947, com a partição da Índia, o território de maioria muçulmana de Bengala Oriental se torna parte do recém-criado Paquistão, enquanto Bengala Ocidental fica com a Índia.

Surge um país dividido em dois blocos geograficamente separados por mais de 1.500 quilômetros de território indiano, o Paquistão Ocidental, sede do governo, e o Paquistão Oriental, a futura Bangladesh. Essa estrutura binacional, com centro político e militar no oeste, e maioria populacional no leste, já nasce desequilibrada.

Ao longo das décadas de 1950 e 1960, os bengaleses do Paquistão Oriental denunciam discriminação econômica, cultural e linguística. O Urdu é imposto como língua oficial, em detrimento do Bengali. Os recursos gerados no leste, incluindo divisas de exportações de juta e outros produtos, são, segundo críticos, desproporcionalmente apropriados pelo oeste.

Em 12 de novembro de 1970, um dos maiores desastres naturais da história registrada atinge o Paquistão Oriental, o ciclone Bola. Com ventos de até 185 km por hora e uma elevação brutal do nível do mar, a tempestade devasta as ilhas baixas do delta do Ganges. Estimativas apontam entre 300 mil e 500 mil mortos, tornando-o o ciclone tropical mais letal de que se tem notícia.

A resposta do governo central sediada no Paquistão Ocidental é amplamente criticada como lenta e insuficiente. Essa, entre aspas, indiferença diante da catástrofe intensifica o ressentimento e fortalece o nacionalismo bengale. O desastre e a má gestão do socorro abrem caminho para uma vitória esmagadora do partido Liga Awami, liderado por Sheikh Mujibur Rahman, nas eleições nacionais de dezembro de 1970.

A Liga UAMI conquista maioria parlamentar e, em tese, Mugib deveria se tornar primeiro-ministro de todo o Paquistão. Mas a elite política e militar do oeste se recusa a aceitar esse resultado. Após meses de impasse, em 25 de março de 1971, o exército paquistanês lança a Operação Searchlight em Dhaka e outras cidades do leste, com o objetivo de esmargar o movimento autonomista bengalho.

Relatos de diplomatas, jornalistas e organizações humanitárias falam de massacres sistemáticos contra civis, estudantes, intelectuais e minorias religiosas, além de estupros em massa. Pesquisas e estimativas apontam um intervalo muito amplo para o número de mortos ao longo da guerra, de 300 mil até cerca de 3 milhões de pessoas. Em qualquer cenário, trata-se de um episódio de violência em massa com características de genocídio.

Diante da repressão, milhões de bengaleses fogem para a vizinha Índia. Estimativas contemporâneas e estudos posteriores convergem para algo próximo de 9 a 10 milhões de refugiados que cruzam a fronteira ao longo de 1971, buscando abrigo em campos improvisados nos estados indianos de Bengala Ocidental, Tripura, Assam, entre outros. Esses campos sofrem com superlotação extrema, falta de saneamento, de alimentos e de assistência médica.

Estudo epidemiológico recente estima que, apenas entre os refugiados, houve uma mortalidade superior a 560 mil mortes, em grande parte por surtos de cólera e outras doenças infecciosas agravadas pelas condições precárias dos abrigos. O governo indiano, já pobre e com seus próprios desafios, calcula gastar somas enormes por dia para manter os campos, enquanto a ajuda internacional demora a corresponder à escala da tragédia.

Aos poucos, imagens de refugiados desnutridos, crianças doentes e filas intermináveis em acampamentos começam a circular na imprensa mundial, mas Bangladesh ainda é, para grande parte do público ocidental, um nome quase desconhecido. É nesse contexto de ciclone devastador, repressão militar, guerra de independência e crise humanitária massiva que Ravi Shankar procura George Harrison.

Para Shankar, não se trata apenas de um país distante. É a terra de sua família. Para Harrison, é um choque de realidade que coloca sua espiritualidade e sua fama à prova.

Voltando para meados de 1971 em Los Angeles, Ravi Shankar expõe a George Harrison a dimensão do sofrimento em Bangladesh e pede ajuda para organizar um evento beneficente, já que sua família de origem bramana em Bengali e alguns de seus parentes estavam entre as vítimas da tragédia. A ideia original de Shankar seria algo relativamente pequeno, com seu próprio conjunto indiano, talvez um concerto em teatro, levantando algo em torno de 25 mil dólares.

Harrison, porém, analisando seu status naquele período, pensa grande em retribuição ao homem que ele tanto considerava. Se é para fazer, que seja em grande escala, pensando em um grande concerto que intercala as atrações da música ocidental com a música oriental, ideia em que ninguém tinha tido antes. George tinha a seu favor sua agenda de contatos do showbiz.

Ele passa a segunda metade de junho e a primeira de julho de 1971, telefonando para amigos e contatos da indústria fonográfica, tentando montar um elenco capaz de chamar a atenção mundial para a causa Bengali. Em depoimento para o livro George Harrison, o Beatle Relutante, de Philip Norman, Neil Aspinon, colaborador de George desde os tempos dos Beatles e que ajudou o músico nessa missão do concerto, afirmou, abre aspas, era a primeira vez que ele ia fazer um show desse tipo.

Ao meu ver, ele mostrou muita humildade ao telefonar, correndo o risco óbvio de receber um não. Para ajudar na arrecadação, também teve a ideia de um filme e um disco ao vivo do evento, além de compor e produzir um singo de divulgação do concerto, com o intuito de aumentar a conscientização sobre o que estava acontecendo em Bangladesh.

O single chamado Bangladesh, que tinha uma pegada meio My Sweet Lord, conseguiu alcançar o décimo lugar nas paradas britânicas e o décimo terceiro nos Estados Unidos.

Com o suporte do empresário Alan Klein, o local escolhido foi o Madison Square Garden, em Nova York, um dos palcos mais emblemáticos do mundo. Inicialmente, o concerto era chamado na imprensa de George Harrison and Friends, ou George Harrison e Amigos, sem menção alguma à causa humanitária.

São marcados dois shows no mesmo dia, já que o primeiro show, que estava marcado para a noite, teve seus ingressos esgotados rapidamente, o que fez abrir um novo horário, na tarde do mesmo dia, 1º de agosto de 1971, que também se esgotou.

Do ponto de vista logístico, o projeto era muito arriscado. O tempo entre a decisão de fazer o show e a data efetiva do concerto foi muito curto. Vários músicos confirmaram presença apenas em cima da hora. E ainda foi preciso lidar com questões contratuais com gravadoras, direitos autorais e eventual gravação em disco e filme.

O resultado dos esforços de Harrison é um line-up impressionante, misturando estrelas do rock e da soul music com mestres da música clássica indiana.

Entre os participantes confirmados estavam George Herson, óbvio, Ravi Shankar, Ali Akbar Khan e Allah Haka, na parte indiana, Ringo Starr, Eric Clapton, Bob Dylan, Leon Russel, Billy Preston, Klaus Wurman, Jim Keltner, Don Preston, além de outros artistas que toparam participar como músicos de apoio, como Pete Han, da banda Badfinger.

A estrutura do concerto foi dividida em duas partes principais. Primeiro, um set de música clássica indiana com Shankar, Ali Akbar Khan e Allah Haka, iniciado após uma breve fala de Harrison apresentando a causa. Segundo o livro George Harrison, o Beatle Relutante, George estava em pânico antes de subir ao palco, com vômitos e diarreia e pensando seriamente em não se apresentar naquele dia.

Em seguida, entra a super banda de rock liderada por Harrison, alternando canções de All Things Must Pass, músicas dos Beatles e performances individuais dos convidados.

Entre os momentos marcantes, o álbum ao vivo registrou Wawa, My Sweet Lord e I'll Waiting On You All com Harrison. That's The Way God Planet com Billy Preston. E Don't Come Easy com Ring Star nos vocais. Well My Guitar Gently Weeps com Eric Clapton dividindo o solo com George Harrison. Um Mad Lady Jumpin' Jack Flash e Young Blood com Leon Russel.

um set acústico de Bob Dylan incluindo A Hard Rain's A Gonna Fall, Blowing In The Wind, Mr. Tambourine Man e Just Like A Woman e o encerramento com Bangladesh. Aqui reservo algumas curiosidades sobre as participações dos músicos nos dois shows.

Bob Dylan havia se tornado cada vez mais recluso desde o final dos anos 1960, evitando grandes aparições públicas. Sua participação era vista como incerta até os últimos momentos. Embora ele tivesse ensaiado com Harrison, não confirmava se realmente subiria ao palco. O clima nos bastidores era de expectativa e tensão. No fim, Dylan apareceu para o segundo bloco do show, de chapéu, óculos escuros e violão em punho.

Outro drama de bastidor envolve Eric Clapton. Em 1971, Clapton vivia um dos períodos mais sombrios de sua vida, profundamente mergulhado no vício em heroína e quase afastado da cena pública. Sem contar que nos bastidores ainda tinha a polêmica de que Eric Clapton estava assumidamente apaixonado por Pat Boyd, então esposa de George Harrison. E digo assumidamente porque ele confessou seus sentimentos tanto para Pat, quanto para George.

Mesmo assim, Harrison o quis no concerto para Bangladesh. Sua presença no concerto esteve em dúvida até muito perto da data, e que ele subiu ao palco debilitado, fazendo uso de metadona, uma substituta de heroína para conseguir se manter em pé. Mas ainda assim, entregou uma performance digna, especialmente em While My Guitar Gently Whips.

Logo após o evento, Clapton se retiraria ainda mais da vida pública, voltando a se apresentar de forma mais consistente só em 1973, no famoso Rainbow Concert, em Londres, organizado por Pete Taushin, outro show que, em parte, teve motivações de resgate pessoal. Uma peculiaridade do concerto para Bangladesh é a presença de dois bateristas no palco, Ringling Star e Jim Keltner.

Ringo, que não vinha tocando regularmente ao vivo desde o fim das turnês dos Beatles, teria pedido que Keltner estivesse junto para se sentir mais seguro na performance. A solução acaba funcionando bem musicalmente, pois Keltner ajusta seu estilo para não atropelar a batida de Ringo. E a curiosidade que muitos devem estar se perguntando, por que só Ringo, entre os Beatles, participou do concerto?

A ausência de John Lennon e Paul McCartney é um tema inevitável quando se fala do concerto para Bangladesh. George Harrison chegou a convidar os dois, imaginando não uma reunião dos Beatles, mas apresentações separadas, como artista solo, dentro do evento. A resposta para cada um, porém, foi moldada por fatores pessoais, conjugais, artísticos e, principalmente, jurídicos.

No caso de Paul, há dois elementos centrais, o conflito em torno de Alan Klein e o medo da imprensa transformar o concerto em uma reunião dos Beatles. Em entrevista à revista Melody Maker, em 1971, McCartney afirmou que foi convidado para participar, mas recusou, em grande parte porque Klein estava envolvido nas negociações e contratos do evento.

Segundo Poe, se subisse ao palco ao lado de Harrison e Ringo, a leitura imediata da mídia seria Os Beatles Voltaram, o que, em sua visão, daria munição a Klein e poderia complicar ainda mais o processo judicial que ele movia para dissolver a sociedade do grupo. Ele também declarou, em entrevistas posteriores, que se sentiu irritado com o convite naquele momento, ainda ressentido com a forma como os outros haviam se alinhado a Klein contra ele.

A situação de John Lennon era diferente, mas igualmente complexa. Há relatos, baseados em entrevistas e memórias de envolvidos, de que Lennon chegou a demonstrar interesse em participar, em parte como forma de retribuir a Harrison a ajuda dada no álbum Imagine. Contudo, Lennon impôs uma condição, que sua esposa Yoko Ono também tivesse espaço no palco.

George Harrison, que havia selecionado músicos para uma proposta musical mais convencional, com rock, soul e música indiana clássica, não queria performances de vanguarda ou happenings conceituais naquele contexto, que era típico do estilo artístico de Yoko. Isso teria gerado uma discussão acalorada entre os dois.

Segundo algumas fontes, Lennon inicialmente topou participar sem Yoko, mas após uma briga com ela sobre essa decisão, ele acabou desistindo e voando para Paris poucos dias antes do concerto, em um gesto que abalou sua relação com Harrison. Em entrevistas posteriores, Lennon também alegou um certo cansaço com a ideia de voltar ao show business, e disse que não tinha vontade de ficar ensaiando e viajando especificamente para esse evento.

Ringo foi o único ex-Beatle a aceitar sem grandes reservas. Ele interrompeu a filmagem do Western Blind Man para comparecer ao concerto, aceitando tanto tocar bateria quanto cantar sua própria faixa e Don't Come Missing. Historicamente, Ringo costuma ser descrito como o mais conciliador e diplomático dos quatro, mantendo boas relações com todos em diferentes fases.

Os dois shows do concerto para Bangladesh lotaram Madison Square Garden, com um público combinado superior a 40 mil pessoas. A crítica musical recebeu muito bem tantos concertos quanto o álbum ao vivo triplo, lançado em dezembro de 1971. O disco atingiu o topo das paradas no Reino Unido e chegou ao número 2 nos Estados Unidos.

Em 1973, o álbum The Concert for Bangladesh ganhou o Grammy de Álbum do Ano. Para muitos jornalistas da imprensa musical, esse foi o momento de coroação pública de Harrison. O guitarrista silencioso dos Beatles se mostrava capaz de liderar um projeto complexo, mobilizar colegas de peso e ainda entregar um produto artístico relevante. No plano midiático, o concerto teve o efeito de dar nome e rosto à crise bengale.

Veículos que até então cobriam o conflito de forma dispersa passaram a associar Bangladesh a uma causa específica, com crianças e refugiados concretos, em vez de um conflito distante em Paquistão Oriental. Do ponto de vista financeiro imediato, as duas apresentações arrecadaram mais de 240 mil dólares em bilheteria, valor administrado desde o começo pela Unicef para ações de socorro.

Porém, a maior parte do dinheiro viria depois, com as vendas do álbum triplo e do filme, lançados em 1971 e 1972, respectivamente. E é aqui que surgem os problemas com questões fiscais e contratuais. Alan Klein, envolvido nas negociações com as gravadoras, não registrou formalmente o evento como um conserto beneficente isento de impostos antes de sua realização.

O Internal Revenue Service, equivalente à Receita Federal norte-americana, entendeu inicialmente que as receitas do álbum e do filme eram renda de negócio da Apple Corps, logo sujeita à tributação regular. Como consequência, uma parte dos lucros ficou retida em contas de custódia durante anos, enquanto advogados, a Receita Federal e a Unicef discutiam a natureza jurídica da arrecadação.

Em entrevistas posteriores, George Harrison estimou que entre 8 e 10 milhões de dólares ficaram congelados por até uma década, atrasando a chegada dos recursos ao destino original.

Além disso, houve outros entraves. A gravadora CBS, que tinha Bob Dylan entre seus contratados, exigiu uma taxa por cada cópia do álbum vendida, que foi lançada pela gravadora EMI, em função das músicas de Dylan licenciadas, o que reduziu a fatia diretamente disponível para a Unicef. O próprio Klein foi, mais tarde, investigado por supostas irregularidades fiscais ligadas à venda de álbuns promocionais do concerto.

Com o tempo, o grosso dos valores foi, de fato, liberado e encaminhado ao Fundo das Nações Unidas para a Infância. Estimativas em publicações posteriores falam em dezenas de milhões de dólares revertidos ao longo de décadas para as ações da Unicef, embora os números exatos variem conforme a fonte. O episódio, porém, deixa uma importante lição para futuros organizadores de eventos beneficentes.

É preciso cuidar da arquitetura jurídica e tributária com tanto zelo quanto da parte artística.

O concerto para Bangladesh costuma ser citado, em retrospecto, como um dos primeiros, se não primeiro, grandes mega-shows de rock com propósito explicitamente beneficente em escala internacional. Não que antes não houvesse eventos de caridade com músicos, mas a dimensão, a cobertura global, o envolvimento de múltiplas estrelas e o foco em uma crise humanitária específica criam um modelo que seria replicado nos anos seguintes.

A ideia de reunir astros de diferentes estilos e carreiras em torno de uma causa torna-se referência direta para eventos como Live Aid de 1985, Live Aid de 2005 e tantos outros. Fontes afirmam que o músico Bob Geldof, ao planejar o Live Aid, chegou a consultar George Harrison sobre armadilhas burocráticas, justamente para evitar problemas semelhantes com impostos.

Décadas depois, a família de George Harrison e a UNICEF criam o George Harrison Fund for UNICEF, que continua direcionando recursos para crianças em situação de risco em diferentes países, indo além de Bangladesh e mantendo o espírito do concerto original. Ao olhar com certa distância histórica para o concerto para Bangladesh, é possível enxergá-lo em várias camadas.

É um marco pessoal de Judi Harrison. O guitarrista que passou anos à sombra da dupla Lennon e McCartney emerge como articulador, líder e figura pública capaz de colocar sua fama a serviço de algo maior. No plano histórico, o concerto contribui para colocar Bangladesh no mapa simbólico do Ocidente.

Em um momento em que a Guerra do Vietnã ocupava o centro do noticiário internacional, a crise de refugiados bengaleses poderia facilmente ter sido relegada ao rodapé da história. Ao associar o nome do local a um grande evento musical, George Harrison e Ravi Shankar ajudam a transformar um conflito geopolítico distante em uma questão humanitária tangível para o público.

Entre as luzes do palco e as sombras dos bastidores, entre a devoção espiritual de George Harrison e o cálculo frio do físico norte-americano, o concerto para Bangladesh permanece como um lembrete de que a música é capaz de, no mínimo, deslocar atenções e, em alguns casos, salvar vidas. Mesmo que não resolva todos os problemas, ela pode ser o megafone que faz o mundo escutar. E isso vindo do ex-Beatle, Kieto.

Este é o Salada Cultural, podcast 100% independente que tem pesquisa, roteiro, produção, edição e apresentação do dono desta voz, Márcio Andrade. Quer falar sobre este ou algum outro episódio? Só me chamar no Instagram, no arroba Márcio A-N-D, ou no TikTok, no arroba Márcio.Andrade0. Prometo que te respondo o mais breve possível.

Quer participar do financiamento coletivo do podcast? Então acesse catarse.me barra salada cultural. Lá você encontra faixas de contribuição que podem até te render alguns mimos. O valor é simbólico, mas isso mostra o quanto gosta do meu trabalho. Eu volto no próximo episódio. Fiquem bem e até lá!