Episódios de Autoconsciente Podcast | Vida interior

184. Fomos feitos para transcender

14 de junho de 202632min
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Eu já disse em um episódio anterior que fomos feitos para voar, pegando carona nas asas de Fernão Capelo Gaivota, uma fábula sobre a autorrealização do ser humano. Agora, vamos ainda mais alto: vamos falar sobretranscendência, a mais elevada motivação humana segundo o psicólogo Abraham Maslow, um dos fundadores da psicologia transpessoal. Nós fomos feitos para transcender. Assumir isso como válido para nós é algo que dá um sentido para a vida, uma motivação para a vida nesses tempos em que tantos sentem um abissal vazio existencial.

== Um retiro para você desacelerar e se conectar com você mesmo: https://voceautoconsciente.com.br/retiro-vida-autoconsciente-2025

Por Regina Giannetti

Eu sou a voz e o coração que falam no Autoconsciente. Como mentora de vida interior, ajudo pessoas a viverem mais em paz consigo mesmas e conectadas com sua essência. Ofereço retiros presenciais e mentorias online. Encontre-me na Comunidade Autoconsciente, uma comunidade on line para autoconhecimento, meditações guiadas e espiritualidade.

== Sobre meus trabalhos: https://voceautoconsciente.com.br/meus-trabalhos/

Citados neste episódio:Episódio 173 - Fomos feitos pra voar

Livro "Introdução à psicologia do ser" - Abraham Maslow

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Participantes neste episódio1
R

Regina Giannetti

HostMentora de vida interior
Assuntos4
  • Transcendência e a busca humanaExperiências culminantes · Valores do ser · Psicologia do ser
  • Hierarquia das Necessidades de MaslowMotivação por carência · Motivação de crescimento · Necessidades fisiológicas · Necessidades de segurança · Necessidades de pertencimento · Necessidades de estima
  • Psicologia e PsicanáliseDimensões da consciência · Espiritualidade · Níveis supraconscientes
  • Concessão GaleãoAutorrealização · Richard Bach
Transcrição4 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
RGRegina Giannetti

Você está sentindo um grande cansaço da rotina? A sensação de viver correndo e não sair do lugar? Vem comigo fazer o retiro Vida Autoconsciente. Num local tranquilo, encravado na natureza, você vai vivenciar momentos de calma, clareza mental e conexão com o seu eu interior para alinhar-se com a sua verdade e o que realmente deseja para sua vida. Você leva desse retiro as ferramentas para cultivar a conexão com o seu eu interior no dia a dia.

E nisso vai ter o meu acompanhamento, em encontros online e na participação de um curso que você vai ganhar de mim. O retiro é de 14 a 16 de agosto de 2026, um final de semana. As inscrições estão abertas e as vagas são limitadas. Os meus retiros são para grupos pequenos. Para mais informações, é só clicar no link Retiro Vida Autoconsciente na descrição deste episódio. Que você esteja bem. Eu já disse em um episódio anterior que nós somos feitos para voar, pegando carona nas asas de Fernão Capelo Gaivota, uma fábula sobre a autorrealização do ser humano.

Agora vamos ainda mais alto, vamos falar sobre transcendência, a mais elevada motivação humana segundo o psicólogo Abraham Maslow, um dos fundadores da psicologia transpessoal. Nós fomos feitos para transcender. Assumir isso como válido para nós é algo que dá um sentido para a vida, uma motivação para a vida nesses tempos em que tantos sentem um abissal vazio existencial. Eu lhe dou as boas-vindas ao Autoconsciente, um podcast que fala de vida interior, a vida que a gente tem aqui dentro com a gente mesma.

Eu sou Regina Giannetti, mentora de vida interior, e a minha intenção é que ao terminar este episódio você se sinta melhor do que quando ele começou. O meu trabalho é ajudar pessoas a viverem mais autoconscientes, mais conectadas com a sua essência, mais em paz consigo mesmas. Eu dou mentorias online e retiros presenciais. Tem links para você conhecer os meus trabalhos na descrição deste episódio, tá? Olha, o Autoconsciente é um podcast serial.

Os episódios têm uma sequência em que os temas vão se aprofundando. Então, se você está chegando agora, escute desde o número zero porque tem uma jornada de autoconhecimento aqui para você. Já deixe o seu like, Siga o podcast e se você gostar do que vai ouvir aqui, compartilhe com seus grupos de mensagens, com seus amigos. O que faz bem para você pode fazer para muito mais gente, né? Episódio 184: Fomos feitos para transcender.

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RGRegina Giannetti

Era uma vez uma gaivota que não se contentava em voar para ir em busca de comida, não se contentava em viver como as outras gaivotas presas a seus papéis no bando, padrões de comportamento e modos de pensar. Ela queria alçar voos mais altos, ter a liberdade de fazer as manobras que quisesse nos céus, queria se sentir plena e realizada. Essa história é familiar para você que acompanha o Autoconsciente, não é? É a fábula de Fernão Capelo Gaivota, do livro de Richard Bach, que eu contei em episódios anteriores do podcast.

E por ser fábula, não é sobre aves falantes, é sobre seres humanos, é sobre algo que nos move num nível muito profundo, uma motivação para a autorrealização. Impulsionados por essa motivação, nós enfrentamos os nossos medos, queremos nos libertar dos limites autoimpostos, das expectativas alheias, das máscaras sociais. Ela nos move a expandir como seres humanos e ser quem nós realmente somos. Lá naqueles episódios, eu fiz um paralelo entre a fábula de Fernão Capilo Gaivota e a teoria das motivações humanas de Abraham Maslow, um dos fundadores da psicologia transpessoal.

E neste episódio eu vou revisitar essa teoria com um pouco mais de profundidade agora e acrescentar a mais elevada motivação que Maslow identificou: a motivação para transcendência. Em um dos seus livros, Maslow escreveu o seguinte: sem o transcendente e o transpessoal, Ficamos doentes, violentos e niilistas, ou então vazios de esperança e apáticos. Necessitamos de algo maior do que somos, algo que seja respeitado por nós e a que nos entreguemos em um novo sentido.

A palavra transcender, que vem do latim, significa ir além, ultrapassar uma barreira. No caso aqui, se trata de ir além dos limites, medos e ilusões da nossa mente, do ego, para um estado de plenitude existencial e espiritual. Nós fomos feitos para transcender. Assumir isso como válido para nós é algo que dá um sentido para a vida, uma motivação para a vida, nesses tempos em que tantos se sentem num abissal vazio existencial. Estão deprimidos, desesperançosos e perdidos.

Nós fomos feitos para muito mais do que trabalhar pela sobrevivência, atingir objetivos e ter alguns momentos de prazer. Assim como Fernão Capelo Gaivota, nós somos feitos para alçar voos muito mais altos. Eu reconheço em mim essa motivação para transcendência. É algo que fala alto aqui dentro, sabe, que me dá uma sede de entender a mim mesma e a vida, que me motiva a fazer o que eu faço profissionalmente e também o que eu compartilho com você aqui no podcast.

E me levou ainda a iniciar uma formação em psicologia transpessoal, como eu disse em algum episódio aqui podcast. A psicologia transpessoal, ela abrange essa dimensão da transcendência do ser humano e, portanto, ela se interessa pela espiritualidade, que é a nossa busca por respostas sobre a vida, por conexão com esse algo que transcende o humano, Deus, o sagrado, o universo. A espiritualidade, ela influencia enormemente o modo como a gente entende a vida, e o sentido da nossa existência, como a gente lida com as situações difíceis, com nós mesmos, com os outros.

Mas Lo lembram que a espiritualidade também nos conecta com os valores mais elevados do ser humano, que trazem bem-estar psicológico e social, como bondade, verdade, justiça, autodeterminação, simplicidade, unicidade, Então, ao abranger a espiritualidade, a psicologia transpessoal entende que a psique humana tem vários níveis de consciência, não só os níveis inconscientes dos quais a psicologia em geral fala, mas também níveis supraconscientes, níveis de consciência que nós acessamos quando temos experiências espirituais de unidade com o todo, de êxtase místico, de uma revelação profunda, uma premonição, experiências em outras dimensões da existência, experiências, enfim, que as pessoas têm, sempre tiveram, é parte da vida.

Essas experiências são estudadas, são compreendidas na psicologia transpessoal, diferentemente de outras correntes da psicologia que não consideram, não se interessam por esses fenômenos, e tá tudo bem. O foco delas é outro. Eu sei que na minha turma de transpessoal, de umas 35 pessoas mais ou menos, não tem só aqueles que querem um dia atuar como terapeuta, que é o meu caso. Tem também muita gente que está ali pra se entender melhor, pra encontrar um sentido maior pra vida.

Na linha do que desabafou uma colega de turma, que faz carreira no mundo corporativo, E disse, olha, eu não me conformo que a vida seja só isso, trabalhar para ter as coisas, não faz sentido. Mas enfim, é muito entusiasmante para mim a ideia de uma abordagem da psicologia que vê o ser humano na sua integralidade, corpo, mente e alma. Uma psicologia que entende que a vida humana é uma experiência espiritual. Essa é a psicologia que, na minha visão, pode trazer cura, sentido e autorrealização para o homem moderno que está em crise consigo mesmo.

Vamos falar da teoria de Maslow, que é muito interessante e que serviu de base para o surgimento dessa psicologia que abraça o transcendente. Na primeira metade do século 20, uma época de grande desenvolvimento da psicologia, o foco estava em compreender o que faz uma pessoa adoecer psiquicamente. Mas o Maslow, psicólogo e pesquisador na área, ele estava mais interessado em saber o que faz uma pessoa ser psiquicamente saudável e se desenvolver.

Ele também questionava as teorias predominantes na sua época, que entendiam que toda motivação humana decorria da necessidade de suprir uma falta. Por exemplo, quando uma pessoa sentisse fome, seria motivada a buscar alimento. Quando sentisse insegurança, buscaria proteção. Para não se sentir isolada, buscaria afeto, pertencimento, reconhecimento dos outros. Quer dizer, nessa visão, um desejo ou estado de privação gera uma tensão psíquica que motiva a pessoa para uma ação.

Se ela obtém a satisfação daquela necessidade, ótimo, a tensão desaparece e a motivação também. A pessoa não precisa mais agir, ela já atingiu o seu objetivo, o seu equilíbrio. Então se trata de uma motivação governada pela falta. O indivíduo nessa visão seria impulsionado por aquilo que ele não possui. Maslow não negava a importância da satisfação de necessidades para a saúde psicológica e o seu papel no desenvolvimento humano.

Não, mas ele discordava que isso fosse tudo na vida. A motivação pela falta não explicava aspectos da vida humana como criatividade, Amor maduro, busca da verdade, crescimento intelectual ou desenvolvimento moral. E aí ele vai estudar pessoas que ele considerava psicologicamente maduras, motivadas, criativas, e percebeu que a sua motivação não era para suprir carências e desejos. Muitas dessas pessoas tinham as suas necessidades fundamentais até que razoavelmente satisfeitas, E mesmo assim continuavam motivadas para a vida.

O que havia nelas não eram necessidades por carência, mas uma necessidade de expansão. Mas Lo também observou que a motivação dessas pessoas não diminuía depois que elas faziam as coisas que as motivavam. O artista não perdia motivação para sua arte depois de criar uma obra magnífica. Mas ele queria continuar criando. O cientista não perdia o interesse pela ciência depois de descobrir algo importante, mas continuava motivado a descobrir mais.

Uma pessoa psicologicamente madura não chegava a um ponto da vida em que dizia: ok, já me desenvolvi o bastante, tá bom para mim, já deu. Na verdade, ela continuava buscando o seu desenvolvimento. Maslow então propõe que existem dois tipos de motivação humana: a motivação por carência ou deficiência, como ele chamou, e a motivação de crescimento. A motivação por deficiência está ligada à satisfação de 4 tipos de necessidades que o Maslow classificou numa hierarquia das necessidades humanas.

Que aliás foi popularizada como Pirâmide das Necessidades Humanas. Essa pirâmide é uma simplificação que foi feita das ideias dele, viu? Mas ele mesmo nunca usou a analogia de uma pirâmide. Mas enfim, que necessidades são essas? Eu vou resumir aqui para você. As mais básicas, que precisam ser supridas antes de qualquer outra coisa, são as fisiológicas, ligadas à manutenção da vida, Alimentação, hidratação, sono, bem-estar físico, reprodução.

Quando essas necessidades são gravemente frustradas, elas monopolizam a consciência da pessoa. Ela não tem cabeça para pensar em mais nada, porque o que está em jogo é a sua sobrevivência. A satisfação das necessidades mais básicas cria as condições para que a pessoa possa se preocupar com outras mais elevadas. O segundo nível de necessidades é o de segurança. Segurança física, ter um abrigo, se sentir protegido, sentir que a vida tem alguma ordem, alguma previsibilidade.

O sentimento de que o mundo é minimamente confiável constitui um dos alicerces da personalidade. O terceiro nível é o da necessidade de pertencimento. Fazer parte de uma família, um grupo social, ter vínculos afetivos, amar e ser amado, não se sentir só. A necessidade de se relacionar e o aprendizado que a gente pode obter disso é um fator muito importante para a constituição emocional da pessoa. E o quarto nível é a necessidade de estima.

Aqui a pessoa é motivada a se sentir competente, capaz de realizar coisas, autônoma, e ela também deseja ter o reconhecimento, a consideração e a valorização que vem dos outros. Nesse nível se fundam as bases da autoconfiança e do valor pessoal. Até aqui, então, nós vimos as necessidades que motivam o ser humano por carência, por deficiência, para suprir algo que falta e desenvolver algo importante para a vida. Quando essas necessidades são frustradas, trazem sofrimento, e quando são satisfeitas, tendem a desaparecer da consciência.

A necessidade cumpriu a sua função e perde força motivacional. Bom, como eu disse antes, o Maslow observava que a motivação humana não se limita à satisfação de necessidades movidas por carência ou deficiência. Ele constatou que há algo mais, uma motivação da pessoa pelo seu crescimento. Assim, o quinto nível da sua hierarquia é o das necessidades cognitivas, que motivam a pessoa a buscar conhecimento, a expandir a sua compreensão das coisas, da vida.

E o sexto nível é o da necessidade de autorrealização, que motiva a pessoa a desenvolver as suas capacidades, usar os seus talentos, ser tudo que a sua natureza lhe permite ser, como Fernão Capelo Gaivota, que se realiza na arte de voar. Já já eu descrevo as características de uma pessoa autorrealizada. Eu só quero abrir parênteses aqui para um ponto importante sobre a hierarquia de Maslow. Não é que ela seja uma escada que você sobe degrau a degrau.

Não é que um nível de necessidades precisa ser completamente satisfeito para se passar para o próximo nível. O Maslow afirmava que as necessidades coexistem e podem se manifestar simultaneamente, algumas predominantes sobre outras. Na prática, isso significa que uma pessoa pode buscar vínculos afetivos mesmo tendo inseguranças, ou ela pode buscar conhecimento mesmo vivendo dificuldades econômicas, que ela pode buscar o seu senso de valor pessoal mesmo com uma certa falta de pertencimento.

E mesmo sendo autorrealizada, ela continua tendo necessidades básicas, se bem que isso não vai ser o foco da sua vida. Como seria uma pessoa autorrealizada na visão do Maslow? Seria alguém que se tornou fiel à própria natureza, que conhece e usa os seus talentos e desenvolveu as suas potencialidades. Ela tem aceitação de si mesma, de suas limitações e imperfeições, porque sim, ela as tem, e também tem melhor aceitação das pessoas como elas são.

A sua percepção da realidade é madura, sem as distorções provocadas por medos, desejos, preconceitos e expectativas. É mais aberta para as experiências, mais autônoma, mais independente das opiniões alheias, das pressões sociais, porque afinal ela vive de uma forma mais autêntica, mais espontânea e criativa. A autorrealização era considerada por Maslow como o ponto mais alto do desenvolvimento humano quando ele formulou a sua teoria das motivações.

Isso foi nos anos 1940, mas ele continuou com seus estudos ao longo dos anos seguintes e duas coisas começaram a lhe chamar atenção. Uma delas é que as pessoas autorrealizadas não estavam só preocupadas em desenvolver os seus próprios talentos, ou realizar os seus projetos pessoais. Havia algo mais. Elas se mostravam sensíveis a valores elevados como verdade, beleza, justiça, simplicidade, unidade com tudo o que existe. Elas se importavam com causas que ultrapassavam seus interesses individuais, que não lhe traziam um benefício pessoal.

A sua forma de amar parecia desinteressada. Era um amor genuíno pelo ser do outro, e não um sentimento baseado em carência. Outra coisa que chamou a atenção de Maslow foram experiências fora do comum que muitas dessas pessoas lhe contavam e que ele denominou de experiências culminantes. Se trata de momentos em que a consciência parece se expandir. Existe uma mudança de percepção da realidade. A pessoa deixa temporariamente de perceber o mundo pela lente do seu interesse pessoal ou das suas preocupações cotidianas.

Humanas. É uma forma de consciência mais ampla e contemplativa. A percepção do tempo é diferente. Desaparece aquela separação entre o eu e o mundo. Por instantes, o seu ego ou identidade deixa de ocupar o centro do palco e a pessoa experimenta perceber algo maior e verdadeiro. Maslow coletou relatos de variadas experiências nessa linha. Experiências de uma indescritível sensação de plenitude, de amor intenso, de fusão com o que se está fazendo, uma revelação existencial, um súbito e profundo entendimento de alguma coisa, um momento de brilhante criatividade, uma sensação de estar fora do corpo, em outra dimensão de existência, um arrebatamento espiritual.

Essas experiências não foram provocadas, não foram sequer buscadas. Elas simplesmente aconteceram em situações cotidianas e totalmente inesperadas. Diante de uma paisagem grandiosa, num momento de profunda concentração, numa conexão amorosa com outro ser, em uma atividade artística, por exemplo. Algo assim aconteceu comigo. Eu até contei no episódio 140, O Curador Interno. Foi numa madrugada quando eu acordei com um avassalador sentimento de angústia comprimindo o meu peito.

Então eu me abracei e comecei a dizer coisas para me confortar. Isso é uma prática da autocompaixão. E depois de algum tempo fazendo isso, eu senti um amor tão intenso tão arrebatador. Olha, foi uma experiência, uma sensação inexplicável. Ao mesmo tempo em que eu sentia toda aquela angústia, sentia também todo aquele amor. E sentir tudo aquilo era comovente, era sublime. Sei lá, eu sei que eu chorava. Eu não sei quanto tempo durou essa profusão de sentimentos, eu perdi a noção do tempo.

E só sei que devagarinho todos os sentimentos foram abrandando e o que sobrou foi uma baita euforia com aquela experiência. Eu até demorei para dormir. O fato é que experiências desse tipo, que Maslow denominou de culminantes, elas não são raras. No seu livro Introdução à Psicologia do Ser, que ele publicou em 1962, Ele lembra que desde sempre vivências semelhantes foram relatadas por pessoas comuns, recebendo apenas interpretações diferentes conforme a cultura, a religião e a visão de mundo da pessoa.

O que um místico medieval chamaria de união com Deus, um poeta poderia chamar de êxtase estético, um cientista de insight profundo, e um psicólogo de experiência culminante. Em comum, o que essas experiências fazem é dar um vislumbre, um gostinho da dimensão transcendente do ser humano. E assim, depois de anos e anos de estudos, o Maslow constatou que a motivação humana vai além da realização pessoal, vai na direção de se sentir parte de algo maior, impulsionada pelo que ele chamou de valores do ser: a verdade, a beleza, a justiça, perfeição, unidade e significado.

Ele batizou essa motivação como motivação de transcendência. E transcendência, para ele, não significa deixar este mundo, mas sim um estado de ser em que a pessoa vive plenamente a condição humana, sem ficar aprisionado a ela. Concilia a vida cotidiana com os valores mais elevados da existência. É quando o ser humano deixa de buscar apenas a sua própria realização e passa a participar conscientemente de algo que percebe como maior do que ele mesmo, algo universal e profundamente verdadeiro.

Foi assim que a teoria das motivações do Maslow evoluiu para uma psicologia do ser, e ele propõe que o desenvolvimento humano é um processo que vai da sobrevivência à transcendência. No primeiro momento, nós somos motivados pela satisfação das nossas necessidades básicas, seja alimento, segurança, pertencimento ou senso de valor pessoal. Aqui o que motiva é: do que eu preciso para sobreviver? A nossa energia psíquica é investida naquilo que supre essas necessidades.

Buscamos aquilo que nos falta. Conforme essas necessidades são razoavelmente satisfeitas, A energia psíquica pode ser direcionada para a autorrealização. Aqui o que motiva é quem eu posso ser, mas isso não significa ter sucesso, fama nem riqueza. Autorrealização é nos tornar quem nós podemos ser, desenvolver os nossos dons, amadurecendo psicologicamente para ser a gente mesma e não quem a gente acha que deveria ser. Fiéis à nossa natureza, autênticos nas nossas escolhas.

Isso resume um ego bem estruturado, o que não significa também ser perfeito. Um dos aspectos mais originais da teoria de Maslow é a ideia de que a transcendência não implica na dissolução do ego, mas no seu amadurecimento. E aqui tem um curioso paradoxo: quando estamos satisfeitos com quem somos, Não nos contentamos em ficar vivendo apenas para nós mesmos. Existe uma motivação para ir além. Aqui surge o interesse por um sentido maior para a vida e a motivação para a transcendência.

Para Maslow, transcender não é exclusivamente uma motivação de caráter religioso ou espiritual. É uma necessidade fundamental da saúde humana. Sem uma dimensão transcendente, como eu contei lá no início, o ser humano tende ao vazio, ao niilismo, à desesperança e à perda de sentido. Por fim, com sua teoria, já nos anos finais de sua vida, Maslow foi um dos fundadores da psicologia transpessoal. Ela foi oficializada em 1968 como um ramo da psicologia que se dedica ao estudo das diversas dimensões de consciência da psique humana.

A psicologia transpessoal entende que a psique, além das dimensões conscientes do ego e as dimensões do inconsciente, tem dimensões supraconscientes ou transcendentes, que transcendem a noção do eu. Na psicologia transpessoal se usa analogia com um edifício para explicar o que ela é. O nível térreo do edifício corresponde ao consciente, O subsolo é o inconsciente e o nível superior corresponde ao supraconsciente ou transcendente, que se volta para as estrelas.

Eu sei que eu tô muito entusiasmada em aprender sobre isso e vou ter muitas coisas interessantes para compartilhar aqui com você. Eu comecei este episódio lembrando o livro de Fernão Capelo Gaivota, e é também com ele que eu vou terminar. Quando eu contei a sua história no episódio 173, eu relacionei com a teoria de Maslow até onde ela era popularmente conhecida, até o nível da autorrealização. A gaivota, que não se contentava em voar para ir em busca de comida, que queria alçar os voos mais altos e ousados que uma gaivota já deu, isso é a perfeita metáfora da pessoa motivada pela autorrealização.

Mas havia outros simbolismos no livro que eu não percebi naquele momento e agora ficam muito claros para mim. Fernão, a gaivota que havia se realizado na arte de voar da sua natureza, Ele tinha experiências culminantes nos seus voos solitários, quando se extasiava com a liberdade e a beleza, quando se sentia um com seu amado céu. E depois, quando ele começa a pensar cada vez mais no seu bando, na vida sofrida e repetitiva das outras gaivotas, quando ele sente que precisa retornar para junto delas, para compartilhar o que havia aprendido sobre voar, e realmente retorna, ele está sendo motivado por algo maior do que a sua realização pessoal.

Porque quanto mais alguém se torna si mesmo, mais capaz se torna de esquecer-se de si mesmo. E assim também é com o ser humano, que tem uma necessidade imperativa de ser quem em essência é. E quando realiza ser Quem em essência é, quer ir além disso. Porque, na realidade, nós somos feitos para algo mais do que voar. Nós somos feitos para transcender. Que você esteja bem. Um abraço.

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