186. Seu valor está em quem você é (e não no que você faz)
Nós aprendemos a acreditar que nosso valor reside naquilo que fazemos, em resultados que alcançamos, na nossa utilidade social, na produtividade. Mas de onde vem essa ideia? E como fica o nosso senso de valor quando atecnologia, cada vez mais, se ocupa do que fazemos? Neste episódio, você está convidado a uma mudança de perspectiva sobre o seu valor.
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Por Regina Giannetti
Eu sou a voz e o coração que falam no Autoconsciente. Como mentora de vida interior, ajudo pessoas a viverem mais em paz consigo mesmas econectadas com sua essência. Ofereço retiros presenciais e mentorias online. Encontre-me na Comunidade Autoconsciente, uma comunidade on line para autoconhecimento, meditações guiadas e espiritualidade.
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- O Rei Midas e o toque de ouroValor interior inestimável · Camadas de defesas e papéis sociais · Descoberta do verdadeiro valor
- Valores PessoaisCultura do desempenho · Autocobrança e cansaço · Condições de valor · Identidade baseada no fazer
- O valor do trabalho e da açãoInfância e dependência emocional · Apreciação positiva dos pais · Carl Rogers
- Futuro do trabalho e tecnologiaSubstituição do trabalho humano · Inteligência Artificial · Impacto existencial · Jeremy Rifkin
- Filosofia e tecnologiaObjetividade e técnica · Gabriel Galípolo · Josef Pieper · Cultura do trabalho total
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Nós aprendemos a acreditar que o nosso valor reside naquilo que fazemos, em resultados que alcançamos, na nossa utilidade social, na produtividade. Mas de onde vem essa ideia? E como fica o nosso senso de valor quando a tecnologia cada vez mais se ocupa do que fazemos? Neste episódio, você está convidado a uma mudança de perspectiva sobre o seu valor. Eu lhe dou as boas-vindas ao Autoconsciente, um podcast que fala de vida interior, a vida que a gente tem aqui dentro com a gente mesma.
Eu sou Regina Gianetti, mentora de vida interior, e a minha intenção é que ao terminar este episódio você se sinta melhor do que quando começou. O meu trabalho é ajudar pessoas a viverem mais autoconscientes, mais conectadas com a sua essência, mais em paz consigo mesmas. Eu dou mentorias online e retiros presenciais. Tem links para você conhecer os meus trabalhos na descrição deste episódio, tá? Olha, o Autoconsciente é um podcast serial.
Os episódios têm uma sequência em que os temas vão se aprofundando. Então, se você está chegando agora, escute desde o número zero porque tem uma jornada de autoconhecimento aqui para você. Já deixe o seu like, siga o podcast, e se você gostar do que vai ouvir aqui, compartilhe com seus amigos e grupos de mensagens. O que faz bem para você pode fazer para muita mais gente. Episódio 186: O seu valor está em quem você é e não no que faz.
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Já reparou que quando estamos conhecendo alguém, em algum momento, bem no começo da conversa, surge a clássica pergunta: o que você faz? Ou somos nós que perguntamos, ou é a pessoa que estamos conhecendo que nos pergunta. Nós poderíamos perguntar muitas coisas para conhecer alguém, De onde você é? Você tem algum hobby? Que tipo de música você gosta? Qual é o seu signo? Ah, sei lá, poderíamos perguntar tantas coisas para alguém que nós estamos conhecendo, né?
Mas essas perguntas nem soam muito naturalmente, na verdade. O que é que soa natural? Perguntar o que você faz. Você trabalha com o quê? E a naturalidade com que essa pergunta surge quando estamos conhecendo alguém diz muito sobre como a nossa identidade se apoia naquilo que fazemos, na ocupação, no trabalho, na profissão que temos. A gente acredita que o que faz é tão importante que chega a depositar nisso o nosso senso de valor pessoal, sobretudo nessa cultura do desempenho e do sucesso, da imagem e da marca pessoal em que nós vivemos.
Eu tô exagerando? Não estou, não. Nós vamos refletir sobre isso aqui, tá? Agora, medir o nosso valor pelo que fazemos não sai barato para nós. Isso facilmente nos leva a acreditar que precisamos fazer muito, fazer cada vez mais, o que causa no mínimo muita autocobrança e um grande cansaço. E esse cansaço crônico É queixa de tantos de nós, não é? Eu nunca ouvi tanto essa queixa como nos tempos atuais. E se eu me descuidar, eu também entro para o time que se queixa.
Por outro lado, se por algum motivo nós não estamos fazendo aquilo em que depositamos o nosso valor pessoal, nos sentimos mal com isso. Podemos ter uma sensação de irrelevância, de desvalor. Bem, como nós vamos ver neste episódio, há todo um contexto que nos leva a acreditar que temos que provar o nosso valor. E uma das formas de provar o nosso valor reside naquilo que fazemos e nos resultados que temos, na nossa produtividade.
Isso é um equívoco e gera grandes distorções. O nosso valor está em quem somos, e não no que fazemos. Essa mudança de perspectiva é importante desde sempre, e ainda mais hoje, quando o mundo do trabalho se transforma, quando a tecnologia cada vez mais se encarrega do que fazemos. Não que seja responsabilidade individual se virar com a inteligência artificial ou qualquer outra tecnologia que ameaça fazer o nosso trabalho. É papel dos governos, instituições, empresas, a sociedade em geral discutir isso e se mobilizar para preservar a dignidade humana diante do avanço da tecnologia.
Mas de qualquer forma, a reflexão sobre em que se baseia o nosso valor, mais do que nunca, é oportuna, é necessária, é fundamental para que a gente possa viver bem com a gente mesma. Neste episódio, nós vamos entender como construímos o nosso senso de valor enquanto pessoas, enquanto sociedade também. E no final, quem sabe você tenha um vislumbre do valor de ser quem você é. Na visão da psicologia, é na infância que a gente começa a construir um entendimento de que o nosso valor está no que a gente faz, num sentido amplo de comportamentos e de atitudes.
Ao nascer, nós não temos nenhum conceito a respeito de nós mesmos e nenhuma necessidade de provar o nosso valor. Nós simplesmente existimos. Choramos quando temos um desconforto, sorrimos quando sentimos prazer, buscamos contato quando precisamos de aconchego. A vida é espontânea, nós somos o que somos, simples assim. Mas conforme a gente se desenvolve, começa a perceber a nossa dependência das outras pessoas. E não é uma dependência apenas fisiológica, É também emocional, é de vínculo.
Sentimos necessidade de atenção, de cuidado, de uma apreciação positiva dos nossos pais e outros que cuidam de nós. Nós percebemos que algumas coisas que fazemos são bem recebidas pelos outros, eles respondem com atenção, com carinho, com aprovação, tudo ótimo. Já outras coisas que a gente faz não são bem recebidas e as reações deles nos fazem sentir rejeitados, desaprovados, inseguros. Pode até ser uma reação sutil do outro, uma ligeira expressão facial, mas para nós é o suficiente para acender um alarme: isso que eu fiz é errado.
E conforme nós vamos crescendo, vamos distinguindo cada vez mais claramente que que ter apreciação positiva dos outros depende de certas condições. Condições de valor, como chamou o psicólogo humanista Carl Rogers. Ao longo de décadas de exercício da psicoterapia, ele constatou que uma das principais causas do sofrimento humano está ligada ao modo como avaliamos o nosso próprio valor. O Rogers percebeu que as pessoas viviam como se precisassem justificar a sua existência o tempo todo.
Não bastava existir, era preciso que elas atendessem a certas condições para se sentirem dignas de amor ou de respeito, para sentirem que tinham valor perante os outros. Vem daí o termo que ele criou: condições de valor. Cada um de nós tem a sua própria lista dessas condições. Condições do tipo: eu terei valor se eu for forte, Se eu nunca decepcionar os outros, se eu fizer tudo certo, se eu for competente, se eu for prestativo, responsável, simpático, forte, corajoso, firme, e por aí vai.
Quantas condições acreditamos que é preciso cumprir para termos o nosso valor reconhecido? Você tem ideia? É provável que não. Muitas dessas condições são inconscientes. Na perspectiva da psicologia, então, é assim que surge em cada um de nós o entendimento de que o nosso valor depende dos nossos comportamentos e atitudes. E daí para depositar o nosso valor no que a gente faz profissionalmente é um pequeno salto, e é na filosofia que nós vamos buscar uma explicação.
De um século para cá, a valorização do ser humano pelo que ele faz e não pelo que ele é chamou a atenção da psicologia. Na década de 1930, o filósofo existencialista francês Gabriel Marcel já questionava isso. Ele dizia que a partir da Era Moderna houve uma mudança de mentalidade que se refletiu no modo como a gente se relaciona com o mundo e com a gente mesma. O que a Era Moderna trouxe? A objetividade, o modo científico de observar e entender as coisas.
Adotamos a ideia de que conhecer qualquer coisa significa colocá-la diante de nós para observá-la. A modernidade trouxe também a mentalidade da técnica. Tudo aquilo que existe passa a ser percebido como algo que pode ser analisado, controlado, planejado, utilizado. Bom, não se pode negar que esse modo de ver as coisas, baseado na objetividade e na técnica, trouxe um enorme desenvolvimento da ciência. E do conhecimento, mas acabou extrapolando as fronteiras da ciência e se converteu em mentalidade para tudo, até para o modo como nós vemos a nós mesmos e a nossa existência.
Nós começamos a nos olhar do mesmo modo como olhamos um objeto, um isso, e passamos a querer controlar e melhorar esse isso. O corpo, passa a ser visto como um objeto que pode ser otimizado. As emoções tornam-se objetos de gestão, podem ser administradas. A carreira vira um projeto. A personalidade se torna algo a ser desenvolvido. Nós passamos a nos relacionar com nós mesmos como possuidores de coisas que precisam ser administradas.
A própria identidade se torna algo que precisamos gerenciar, descobrindo talentos, desenvolvendo competências, estabelecendo metas para nossa vida. Outra coisa que acontece na modernidade, segundo Marcel, é que a nossa identidade passa a ser muito influenciada pela ideia de função. Cada vez mais nós nos identificamos pela função que desempenhamos. Dizemos: eu sou advogado, eu sou engenheiro, eu sou profissional de vendas, eu sou professor.
E não por acaso queremos saber o que a outra pessoa também faz. É como se a gente existisse no mundo por meio do que faz. Com as suas ideias, Gabriel Marcel inaugurou toda uma linha de reflexão que seria continuada e aprofundada por outros filósofos, deixando muito bem fundamentado e claro como, na modernidade, o trabalho e o desempenho se tornaram uma base da identidade pessoal e do próprio senso de valor pessoal. O filósofo alemão Josef Pieper, por exemplo, afirmava que a civilização moderna passou a acreditar que o valor do ser humano depende da sua utilidade.
E com isso, aos poucos, nós fomos perdendo a capacidade de existir sem ter que produzir. Historicamente, o trabalho sempre foi entendido como uma dimensão importante da vida, mas não a dimensão central dela. Ele tinha uma função instrumental, era o meio pelo qual o ser humano provê as condições materiais para a vida. Um agricultor na antiguidade, na Idade Média, ele trabalhava para sustentar a sua família e produzir alimento para comunidade, mas o sentido último da sua existência não estava no cultivo da terra.
O trabalho era apenas o que lhe permitia criar os filhos, participar da vida política da cidade, das festas religiosas, da convivência com os amigos. O ser humano Não vivia para trabalhar, mas para florescer. Assim ensinava a filosofia clássica. O ser humano vive para desenvolver as capacidades e virtudes humanas, para entender a vida, cultivar amizades, apreciar a arte, a beleza, para refinar o espírito. Mas a partir da modernidade, o ser humano passou cada vez mais a viver para trabalhar.
E isso produziu uma cultura em que o trabalho se torna a medida de todas as coisas e o valor de uma atividade passa a depender da sua utilidade. É como se tudo que a gente faz tivesse que servir para algo, para produzir algo. Essa mentalidade nos fez perder o contato com coisas simples, mas fundamentais, que sempre foram cultivadas pelo ser humano. A contemplação da natureza, da beleza, da vida, a conversa desinteressada, o silêncio reflexivo, o ócio.
Essas atividades parecem inúteis em uma cultura orientada para produtividade, mas é delas que nascem dimensões importantes da vida, como a filosofia, a arte ou a busca de sentido para a existência. Na cultura do trabalho, tudo está a serviço da produtividade. Descansa-se para voltar ao trabalho mais eficiente. O lazer deixa de ser um fim em si mesmo e se torna uma atividade para revigorar as energias. A amizade dá lugar ao networking.
Joseph Pieper resumiu a lógica dos tempos modernos com uma conhecida frase dele: O mundo do trabalho tornou-se o mundo total. Foi assim que, na década de 1940, ele alertou para o empobrecimento da identidade que isso estava provocando. Uma civilização que valoriza a utilidade e a produtividade acaba esquecendo aquilo que torna a vida verdadeiramente humana. Eu não quero parecer radical quanto ao lugar do trabalho na nossa vida, tá?
O trabalho é um campo de expressão para os nossos talentos, é um campo de realização pessoal e de contribuição para a sociedade. Até aí tudo certo. O que eu questiono aqui é o desproporcional peso que o trabalho tem no nosso senso de identidade? E além disso, se a nossa identidade está tão baseada naquilo que fazemos, como é que fica essa identidade quando, por algum motivo, o que fazemos não é mais necessário? Um dos pensadores que procurou responder essa pergunta foi Jeremy Rifkin, que é da área de economia. 30 anos atrás, ele escreveu um livro em que previa o fim dos empregos com a substituição do trabalho humano pela tecnologia em muitas atividades e de forma permanente.
Milhões e milhões de postos de trabalho seriam extintos. Olha, os seus críticos consideraram essa visão exagerada na época, mas hoje nós estamos vendo que é um cenário possível com a inteligência artificial e a robótica fazendo as proezas que elas estão fazendo. O Rifkin considerou que esse cenário não teria só um impacto econômico, mas principalmente existencial. E concordando com os filósofos existenciais, ele argumentou que o trabalho é também um fator de identidade, de pertencimento e de reconhecimento social.
O trabalho organiza os nossos dias, estrutura as nossas relações, nos dá um lugar na sociedade e oferece uma narrativa para nossa própria vida. Tanto assim que perder um emprego costuma ser uma experiência muito mais profunda do que perder um salário. Há pessoas que sentem que perderam uma parte delas. Aposentar-se para outras tantas provoca uma crise de significado. Elas sentem que perderam a sua importância. O seu valor. O Jeremy Rifkin, apesar da gravidade das suas previsões, ele não é pessimista e propôs que a sociedade passe a valorizar outras formas de contribuição humana por meio de organizações comunitárias, associações, fundações, cooperativas, projetos culturais, trabalho voluntário ou outras atividades que ainda venham a ser inventadas.
O Rifkin imaginou uma alternativa de sociedade em que as pessoas pudessem encontrar sentido e reconhecimento na participação da vida comunitária. Mas tem uma pegadinha aí, porque mesmo que alguém passe a atuar em uma ONG, num projeto cultural ou numa comunidade disso ou daquilo, continua havendo a identificação com alguma forma de atividade. A pessoa pode continuar acreditando que o seu valor está na função que desempenha, está em fazer algo útil.
De qualquer forma, a pessoa continuaria acreditando que o seu valor não está em ser quem ela é, mas naquilo que ela faz. Porque, vamos lembrar, a necessidade de sermos valorizados pelo que fazemos começou muito antes de termos um trabalho. Começou lá na infância. Faz parte da estruturação da nossa identidade. É inegável que nós estamos atravessando um período da história de profundas transformações no nosso modo de viver, nos organizar socialmente, economicamente, politicamente.
Estamos em transição de uma era para outra. Não temos clareza de para onde estamos indo e naturalmente isso causa insegurança. Nós gostamos é de certezas, de previsibilidade. Preferimos viver com o que é conhecido, concreto, controlável. E a realidade que nós estamos vivendo se mostra tão abstrata, tão fluida. Tudo muda tão rapidamente. Escapando ao nosso controle. Bom, eu tenho pra mim que essa transição nos obriga, enquanto humanidade, a uma correção de rota.
O modo como estamos vivendo atualmente produz muitas distorções, desequilíbrios, conflitos, desigualdade. Eu sei tanto quanto você sobre como vai ser isso, mas eu confio que há desígnios maiores que escapam à nossa compreensão, e que se cumprem. A vida é cosmos, não é caos, como diziam os antigos estoicos, e eu tenho plena confiança nisso. Agora, trazendo a conversa para aquilo que está sob o nosso controle, como também diziam os estoicos, o que cabe a cada um de nós para atravessar essa transição?
Bom, eu acho que o tema desse episódio nos dá um bom gancho para refletir sobre isso. Nosso valor não está no que fazemos, nem no que temos, aliás, mas em quem somos. Será que somos essa identidade construída sobre o que fazemos e o que temos? Isso nos faz sentir vulneráveis, não é? Porque o que se faz e o que se tem pode ser perdido. O trabalho pode se extinguir. O status pode mudar. O relacionamento pode terminar. O corpo adoece, envelhece, perece.
Tudo isso é transitório e a nossa identificação com isso nos traz sofrimento. Será que nós somos uma identidade construída como um projeto em que descobrimos talentos, desenvolvemos competências, definimos metas e criamos uma narrativa coerente a nosso respeito? Será que somos a identidade constituída de comportamentos pelos quais buscamos ser valorizados pelos outros? Ser competentes, eficientes, fazer tudo certo, nunca desapontar, ser destemidos, prestativos, assertivos, firmes, seja o que for.
Isso tudo que constitui a nossa identidade É necessário para que a gente funcione neste mundo, até mesmo sobreviva neste mundo. A identidade é o modo como nós nos reconhecemos e somos reconhecidos, mas essa identidade está baseada no que fazemos e no que temos, e não é nela que reside o nosso verdadeiro valor. O nosso valor está em quem somos antes de qualquer construção. Está em uma dimensão da nossa interioridade que não pode ser reduzida à função que desempenhamos, à nossa utilidade social, nem mesmo às qualidades que temos.
Isso me faz lembrar de uma história verídica que é profundamente simbólica. Eu vou contá-la aqui para você. Em um templo na Tailândia havia uma estátua de Buda de mais de 3 metros de altura, não muito diferente das muitas estátuas de Buda que existem mundo afora. Era feita de estuque, uma mistura de reboco e gesso, ricamente pintada e enfeitada com pedacinhos de vidro. No ano de 1955, se resolveu mudar a estátua para um prédio novo do templo.
Aí foi trazido um guindaste para erguê-la. Amarraram cabos de aço em torno da estátua e ela começou a ser erguida, mas o guindaste não aguentou o peso e o Buda gigante caiu no chão. O impacto abriu uma rachadura, deixando à mostra algo brilhante no seu interior. Um monge forçou a rachadura e tirou um pedaço da estátua, e então se descobriu que no interior dela havia ouro. O estuque era apenas uma camada que cobria um magnífico Buda de ouro maciço.
Se acredita que o Buda de ouro tenha sido coberto de estuque para não chamar a atenção de invasores durante uma guerra no século 18. E funcionou, os invasores não mexeram com a estátua. Os anos se passaram e a verdadeira constituição dela caiu no esquecimento. Até que, graças ao colapso de um guindaste, o que havia no interior da estátua se revelou. O Buda de Ouro, como é conhecida, está no templo de Wat Traimit. Em Bangkok. É incrível essa história, né?
Hoje ela é contada por mestres budistas como metáfora sobre a verdadeira natureza do ser humano, aquilo que trazemos no nosso interior. Nós somos um ser espiritual de inestimável valor, como o Buda de Ouro. Chegamos ao mundo físico nesse estado puro de ser. E conforme crescemos, ignorantes do nosso imenso valor, vamos cobrindo quem realmente somos sob camadas de defesas, comportamentos e papéis sociais, para sermos aceitos e validados pelos outros.
Podemos passar uma vida inteira identificados com essa camada externa, cuidadosamente esculpida e adornada. Achando que é nela que reside o nosso valor. Geralmente é preciso que algo impactante aconteça, algo que provoque rachaduras nessa camada, para descobrirmos que o nosso verdadeiro valor está em quem somos, no nosso interior. Algo assim impactante está acontecendo no mundo agora. É uma grande ironia que o avanço de algo artificial, uma inteligência artificial, possa provocar toda uma reflexão sobre o que há de mais verdadeiro em nós. Que você esteja bem. Um abraço.