182. O caminho do coração
São vários os caminhos para cultivar a espiritualidade. Cada um vai seguir aquele, ou aqueles, que fazem mais sentido para si. Mas talvez a questão não seja tanto o caminho, e sim como se caminha, se é com a mente ou com o coração. É isso que eu vejo na história do livro Sidarta, de Herman Hesse, que eu conto aqui pra você.
== Um retiro para você desacelerar e se conectar com você mesmo: https://voceautoconsciente.com.br/retiro-vida-autoconsciente-2025
Por Regina Giannetti
Eu sou a voz e o coração que falam no Autoconsciente. Como mentora de vida interior, ajudo pessoas a viverem mais em paz consigo mesmas e conectadas com sua essência. Ofereço retiros presenciais e mentorias online. Encontre-me na Comunidade Autoconsciente, uma comunidade on line para autoconhecimento, meditações guiadas e espiritualidade.
Sobre meus trabalhos: https://voceautoconsciente.com.br/meus-trabalhos/
Livro citado neste episódio>
"Sidarta", de Herman Hesse
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- História de SiddharthaJovem brâmane · Caminho dos samanas · Iluminação espiritual · Buda
- Fé e EspiritualidadeRetiro Vida Autoconsciente · Livro Siddhartha · Busca espiritual · Autoconhecimento
- Caminho do coração
Chega um momento na vida em que certas coisas não estão fazendo sentido. Aquilo que sempre nos motivou perde o brilho e ficamos um tanto perdidos. Se você se sente assim, eu te convido a fazer um retiro comigo. Um retiro para você vivenciar a conexão com o seu eu interior e ver a sua vida por uma perspectiva diferente.
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É isso que eu vejo na história do livro Siddhartha, de Herman Hesse, que eu conto aqui para você. Eu lhe dou as boas-vindas ao Autoconsciente, um podcast que fala de vida interior, a vida que a gente tem aqui dentro com a gente mesma. Eu sou Regina Gianetti, mentora de vida interior, e a minha intenção é que ao terminar este episódio, você se sinta melhor do que quando começou.
O meu trabalho é ajudar pessoas a viverem mais autoconscientes, mais conectadas com a sua essência, mais em paz consigo mesmas. Eu dou mentorias online e retiros presenciais. Tem links para você conhecer meus trabalhos na descrição deste episódio, tá? O Autoconsciente é um podcast serial.
Isso significa que os episódios têm uma sequência em que os temas vão se aprofundando. Então, se você está chegando agora, escute desde o número zero, porque tem uma jornada de autoconhecimento aqui para você. Já deixa o seu like, siga o podcast e se você gostar do que vai ouvir aqui, compartilhe com seus grupos de mensagens. O que faz bem para você, pode fazer para muito mais gente, né? Episódio 182.
O caminho do coração.
Aixe!
Quais são os caminhos para cultivar a espiritualidade? Seguir uma religião? Realizar rituais? Estudar filosofias? Ler obras sobre espiritualidade? Se dedicar a práticas meditativas, de autoconhecimento, algum tipo de terapia? São vários os caminhos que nós podemos tomar. Cada um vai seguir aquele ou aqueles que fazem mais sentido para si.
Talvez a questão não seja tanto o caminho, mas como se caminha, se é com a mente ou com o coração. Eu vejo essa questão do como se caminha no livro Siddhartha, do escritor alemão Hermann Hesse, um clássico da literatura publicado há mais de 100 anos.
Eu li há alguns meses e a adorei. A sua história se passa na Índia Antiga, dos tempos de Buda. Mas não é a história de Buda, que também se chamava Siddhartha. É sobre um outro Siddhartha que sai mundo afora na sua busca espiritual.
E é uma busca que envereda por vários caminhos. O da religião, o do conhecimento, do ritual, da disciplina férrea, até pelo descaminho. Interessante essa história, viu? Eu pensei comigo, esse livro aqui dá episódio. Uma hora dessas surge um ensejo para falar dele.
E surgiu realmente com a mensagem de uma aluna, a Anitta. Ela fez um curso online meu, Detox Mental, que trata de descongestionar a mente.
E depois de terminar o curso, ela me escreveu um e-mail muito simpático, muito elogioso, dizendo que as lições do curso estavam ajudando a lidar com a mente acelerada, que era uma questão importante para ela. A Anitta regula comigo de idade. Ela tem quase 40 anos de profissão como engenheira e faz bastante tempo que se interessa por autoconhecimento e espiritualidade.
Experimentou práticas de yoga e meditação, fez estudos filosóficos, se aprofundou na doutrina de Allan Kardec, faz terapia atualmente. Adquiriu conhecimentos fantásticos, ela diz, mas ainda assim se sentia acelerada, ansiosa e sem tempo para nada. Não compreendia o que estava faltando para ela.
Ela conta que em 2024 precisou cair na rua, quebrar os dois braços e ficar afastada do trabalho por seis meses para se dar conta de que a busca espiritual que ela vinha fazendo era só aqui no campo mental. Anitta vivia tanto na mente que não vinha escutando o corpo e também não vinha cuidando dele. Ela que tinha sido diagnosticada com osteoporose havia alguns anos.
A partir das fraturas, ela começou então um intenso tratamento para recuperar a massa óssea. E hoje está cuidando do corpo, entendeu que não pode ficar só na mente e que pensar e estudar não é tudo na vida. É preciso cuidar-se. E cuidar-se é um ato de amor com a gente mesma.
Eu sei que nós trocamos mensagens e percepções sobre o caminho espiritual. Eu lembrei do livro Siddhartha, que a Anitta também havia lido, e ela resolveu reler. E eu resolvi, então, escrever esse episódio. Como eu costumo dizer, então, senta que lá vem a história.
Siddhartha é um jovem brâmane que vive na Índia de 2.500 anos atrás. No tradicional sistema de castas da Índia, que estabelece a função social das pessoas, a dos brâmanes é a mais elevada. Eles são os responsáveis por preservar e transmitir os textos sagrados, conduzir rituais e orientar a vida espiritual da sociedade.
O jovem Siddhartha cresce cercado de sábios, a começar pelo pai, que é um homem sereno e virtuoso. A sua família tem posses e mora num lugar que o imagina assim muito bonito, à beira de um rio cercado de figueiras e mangueiras, próximo de um bosque silencioso que Siddhartha sempre procura para meditar. Ele dedica boa parte do seu dia aos rituais da religião, banhos de purificação, orações e estudos.
O seu pai, orgulhoso, vê um futuro brilhante para o filho, o de um grande sábio e sacerdote. A mãe se derrete com o porte distinto do jovem, o seu modo de caminhar, os seus gestos. Ele também faz palpitar os corações das jovens filhas de Brâmanes quando caminha pelas ruas da cidade.
E mais do que por todos, é adorado por Govinda, um inseparável amigo, um profundo admirador da sua inteligência e o seu fervor espiritual. Abrindo aspas aqui para trechos do livro, vou ler para você.
Assim todos amavam Siddhartha, a todos causava a ele alegrias. Mas assim mesmo, Siddhartha não se dava alegria. Não sentia nenhuma satisfação em sua própria alma. O desassossego do coração invadia-o. Vindo da fumaça dos sacrifícios, do som assoprado dos versos do Rig Veda, dos ensinamentos dos brâmanes anciãos.
Siddhartha começava a brigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo e tranquilizá-lo, de nutri-lo, de bastar-lhe.
O espírito continuava insatisfeito. A alma andava inquieta. O coração não se sentia saciado. Fecha aspas.
Siddhartha anseia ardentemente pela união com o Atman, que é como na sua tradição se chama o divino que habita o humano. E ele questiona por que os brâmanes à sua volta, mesmo sabendo de tantas coisas, já não haviam consumado a sua união com o divino, já não teriam se iluminado.
Onde se achariam os sábios que não apenas recitam os sublimes versos sobre o sagrado, mas realmente viviam o que diziam os versos?
O jovem sente que ninguém à sua volta poderia lhe indicar o caminho para a iluminação espiritual. Isso lhe causa muita insatisfação. Até que um dia, um grupo de samanas está de passagem por sua cidade. Os samanas têm uma tradição baseada em renúncia e forte disciplina espiritual. E Siddhartha resolve se juntar a eles.
O seu pai, a princípio, não gosta nada disso, não aceita essa decisão. Se ofende, se enraivece, se magoa, mas por fim aceita, porque sabe que não pode impor um caminho ao filho. E essa é uma das verdades sobre o caminho espiritual. Cada um deve ser livre para escolher o seu.
O fato de nascermos numa família que segue determinada religião, tradição ou seja o que for, não nos obriga a ir por ali também. Mas enfim, Siddhartha então deixa pai e mãe, deixa sua casa e sua vida de brâmane para seguir o rigoroso caminho dos samanas. E vai acompanhado do amigo ouvida.
Entre os samanas, Siddhartha encontra algo completamente diferente do que tinha conhecido com os brámanes. Nada de textos sagrados, cerimônias e rituais. O caminho deles é um caminho aceta de uma rigorosa disciplina de meditação, de jejum, de práticas que visam a anulação total do ego.
Disseu, Siddhartha tem agora só um tecido que cobre da cintura para baixo, o seu único traje. Vive na floresta, dorme ao relento, faz uma única refeição por dia e, por vezes, jejum de dias e dias seguidos. Os cabelos, a barba, as unhas cresceram, tornou-se esquelético.
Ele faz exercícios em que se mantém horas e horas de pé ao sol, torturado pelo calor, consumido pela sede. Mantém-se de pé até já não sentir mais dor e nem sede. Mantém-se horas e horas de pé sob a chuva, com a água escorrer pelo corpo gelado, e assim fica até que o corpo deixe de sentir frio.
Sentado, em posição ereta, ele pratica diminuir a respiração até quase não precisar dela, a diminuir as batidas do coração até quase pararem.
Aprende a entrar num estado psíquico em que deixa de ser ele e se funde a qualquer coisa a seu redor. Uma garça voa por cima do bambuzal e Siddhartha se funde a ela. Voa sobre a selva, faz grasnidos de garça, vive a vida e morre a morte das garças.
O que ele busca é tornar-se vazio. Vazio de sede, vazio de desejos, vazio de sonhos, vazio de alegria e de pesar. Distanciar-se dele mesmo, cessar de ser um eu, um ego. Ele espera que quando o ego estiver totalmente dominado e morto, quando dentro do coração se calarem todos os anseios e instintos, então, inevitavelmente, ele encontraria a iluminação.
Mais um trecho do livro dele aqui, eu vou ler para você. Siddhartha aprendia numerosos métodos de separar-se do eu. Trilhava a senda da desindividualização através da dor, através do tormento voluntário e do triunfo sobre o sofrimento, sobre a fome, a sede, o cansaço.
desindividualizava-se mediante a meditação, tirando do seu espírito toda e qualquer representação, até deixá-lo vazio. Aprendi a percorrer esse e outros caminhos, saindo inúmeras vezes do próprio eu e conservando-se no não eu, horas, dias a fio. Fecha aspas.
Mas por mais que se afastasse do eu, no final, era para o eu que Siddhartha sempre retornava. E passado três anos com o grupo de acetas, ele começava a se aborrecer com isso, com o fato de que sempre voltava ao seu eu, ao seu ego e à vida na matéria. Ele um dia se queixa disso, a Govinda, e começa mesmo a desdenhar daquilo que havia aprendido com Samanas. Ele questiona.
O que é o abandono do corpo? E a suspensão do fôlego? São modos de fugirmos de nós mesmos, momentos de escaparmos da tortura do eu que nos fazem esquecer do sofrimento e da insensatez da vida. A mesma fuga, o mesmíssimo esquecimento, o boiadeiro encontra na estalagem, quando bebe algumas tigelas de vinho de arroz, então cessa de sentir o seu eu, se anestesia por algum tempo.
Ou seja, Siddhartha estava de novo insatisfeito, achando que experimentava só fugir de os momentos de esquecimento e se acreditando ainda muito distante da iluminação. Por esses tempos, circulavam pela Índia notícias sobre um outro Siddhartha.
Siddhartha Gautama, o Buda, o homem que havia alcançado a iluminação que o nosso Siddhartha aqui tanto buscava. E ele e Govinda resolvem deixar o Samanas para encontrar Buda. O que Siddhartha não esperava é que quando ele comunica a decisão de deixar o grupo, o líder do Samanas fica furioso, começa a ofender, xingar, faz um escândalo.
Eu, lendo isso lá no livro, pensei, não dá certo esse negócio de aniquilar o ego. O ego é o nosso senso de individualidade, a consciência de quem somos, dentro de um corpo, tendo uma mente pensante e vontade própria. O ego é a identidade que nós assumimos. Ele também pode se identificar como a seta que busca a iluminação.
Mas enfim, o ego do líder Samana se sentiu desafiado. Como assim esse meu discípulo vai me deixar? E aí se enfureceu. E isso provoca o ego de Siddhartha, que tem uma reação não menos surpreendente. Ele usa o que havia aprendido para subjulgar o próprio mestre. Ele enfeitiça o Samana, o faz se curvar e abençoar a sua partida.
Quem diria? A temporada de ascetismo de Siddhartha termina com uma batalha de egos?
Mas enfim, superado o incidente, ele e Govinda peregrinam em busca de Buda e acabam o encontrando. Não foi difícil reconhecer, mesmo no meio de uma multidão de monges que se vestiam e andavam como ele. Buda se destacava, obviamente. Era muito impressionante a luz, a serenidade, a santidade que emanavam daquele homem.
Siddhartha, enfim, havia encontrado um iluminado, como ele queria. Os dois, então, se juntam aos seguidores de Buda e escutam, num fim de tarde, os seus ensinamentos sobre a origem do sofrimento humano e o caminho para libertar-se do sofrimento. Govinda fica profundamente tocado, pede a Buda para segui-lo e ele é aceito. Mas Siddhartha, inexplicavelmente, resolve não ficar.
Guvinda não entende nada e não se conforma. Logo agora que o amigo tinha encontrado um iluminado, por que não segui-lo? Siddhartha não lhe deu explicações. Apenas se despediu na manhã seguinte para seguir o seu caminho sozinho.
Quando Siddhartha está saindo do bosque onde passara a noite, quem cruza o seu caminho? O Buda. E Siddhartha, que estava muito pensativo, se enche de coragem para conversar com o iluminado. Ele começa muito respeitosamente, reconhecendo a grandeza daqueles ensinamentos e tal, e o Buda só escutando. Aí o Siddhartha fala de uma lacuna que ele havia encontrado na doutrina do Buda.
E que lacuna seria essa? A de que Buda não havia se iluminado por seguir uma doutrina, mas sim em virtude do seu próprio empenho, do seu método, da sua meditação, do seu pensamento. Então ele diz a Buda, Eu hei de prosseguir na minha peregrinação.
não para ir à procura de uma outra doutrina melhor, já que eu sei muito bem que não há nenhuma, senão para separar-me de quaisquer doutrinas e mestres, a fim de que eu possa alcançar sozinho meu destino, ou então morrer. Bem, muito diferente do mestre dos Samanas, que se sentir ofendido, o Buda acolhe serena e bondosamente as palavras e os motivos de Siddhartha.
O que não é de se estranhar. O coração de Buda é um coração de compaixão, de verdadeira sabedoria. Ele abençoa o caminho do jovem e apenas lhe dá um conselho. És inteligente, sabes falar inteligentemente. Mas, meu amigo, acautela-te contra o excesso de inteligência.
Buda, na sua compreensão compassiva, iluminada, sabe que Siddhartha busca a iluminação de forma sincera, mas com a mente. É a mente que julga, que separa, que discrimina, que idealiza. E assim, Siddhartha segue o seu caminho para aprender com as suas experiências.
Caminhando sem um rumo definido, sentindo que havia deixado para trás uma fase da sua vida, Siddhartha questionava a si mesmo. Afinal, o que queria ele? Até então tinha desejado desprender-se do seu eu e superá-lo. Mas o que havia feito, ele agora reconhecia, tinha sido fugir do seu eu o tempo todo.
Aquela altura da vida, adulto, ele não se conhecia, não sabia nada a seu respeito. Era um estranho para si mesmo. Em seus pensamentos ele se dizia, eu tive medo de mim.
Eu fugi de mim mesmo. Eu procurei o Atman, procurei o Brahma, sempre disposto a fraturar e pelar o meu eu, a fim de encontrar no seu âmago o núcleo de todas as cascas, o Atman, a vida, o elemento divino, o último. Mas enquanto eu fazia isso, eu me perdi de mim mesmo. Essa constatação foi como acordar de um sonho prolongado.
Prometeu a si mesmo não mais fugir do seu eu, nem tentar matá-lo para encontrar algum mistério sob os destroços. Decidiu qual seria o seu caminho dali para frente. Conhecer a si mesmo, desvendar para si mesmo quem era Siddhartha, afinal. Por um momento ele se sentiu muito só.
Não poderia voltar à casa dos seus pais, retomar a vida de Brahmani. Também não era mais parte de um grupo, seja de ascetas, seja de monges, como era Govinda. Era como se Siddhartha tivesse recetado para uma nova vida. E nessa nova vida, ele havia despertado para os sentidos do corpo e começava a apreciar o mundo à sua volta.
O mundo que antes era um lugar impuro e fútil tinha agora cores e cheiros e belezas e sabores e sensações de que ele nunca havia desfrutado. Tinha bichos e plantas, astros no céu. Conforme os dias passavam, ele se dava conta de que não havia estado presente neste mundo. Presente na sua própria vida.
Siddhartha resolve então rumar para uma cidade grande. E logo ao entrar em uma, se depara com um grupo de aias carregando cestas e quatro servos que levavam nos ombros uma liteira. Dentro da liteira havia uma dama, belíssima. Siddhartha fica fascinado com a visão da mulher. Desde que havia despertado para o mundo dos sentidos, estava se permitindo desejar uma mulher.
Perguntando sobre ela, soube que se chamava Kamala e era cortesã. Na Índia Antiga, as cortesãs eram mulheres cultas, refinadas, versadas em 64 artes. Entre elas, dança, poesia, música, conversação, etiqueta e também sedução.
ensinavam aos homens a serem cultos, refinados e bons amantes. Ele se decidiu a reencontrar Kamala, mas não poderia ser com aquele aspecto de Samana mendicante que ele tinha, o corpo empoeirado, cabelos desgrenhados, a barba longa.
Fez amizade com um barbeiro que concordou em fazer-lhe a barba e o cabelo. Tomou banho. E mesmo descalço, vestido com a sua tanga meio esfarrapada, foi bater a porta de Kamala, se apresentando como um filho de Brahmani que viveram os tempos como a seta. Depois de fazer umas mesuras e elogios e coisas e tal, disse Nalata que queria ser amigo de Kamala, aprender com ela as artes do amor.
E ela riu, né? Como assim, um Samana saído do mato naqueles trajes queria ser aluno dela. Para isso, ele deveria usar roupas e sapatos finos, ter os bolsos cheios de dinheiro e dar presentes para ela de vez em quando. Sidertha diz que isso não seria problema. Na sua vida de aceta, ele já havia superado desafios bem maiores do que esse. E promete voltar com as roupas, os sapatos e os bolsos cheios de dinheiro.
Bom, eu agora vou encurtar bem essa história, tá? Que só está na metade. Porque eu não quero lhe tirar o gosto de ler um livro tão bonito, tão profundo.
Mas o fato é que, com a ajuda da Kamala, que se interessou por ele, o Siddhartha arruma um trabalho com o mais rico comerciante da cidade. Começa rapidamente a ganhar um bom dinheiro, porque, além de muito inteligente, educado como o Brahmani, ele havia aprendido coisas valiosas com o Samanas, a ter intenção clara, a ter foco, saber esperar. E isso facilitava muito o atingimento dos seus objetivos.
Siddhartha se torna não só aluno, mas amante de Kamala. Bem sucedido nos negócios, ele enriquece. Tem uma boa casa, é servido por criados. Usa roupas finas, come e bebe do melhor, carnes, vinhos, doces.
Se banha em águas perfumadas, anda de liteira, dorme em um leito macio. No começo, para ele, aquela vida de trabalho, objetivos e ganhos é um jogo que o diverte.
No fundo, no fundo, ele acha os homens todos tolos, se sente diferente deles, superior a eles. E participa do mundo dos tolos como quem está apenas brincando. Mas com o passar dos anos, se deixa envolver pelo mundo dos tolos, como ele dizia.
O mundo que o prende em suas malhas. O prazer, a cobiça, a inércia, a avareza. Aos 40 anos, se sente saturado e ao mesmo tempo vazio. Começa a entrar em um processo de autodestruição. Se empanturra de comida e de vinho. Vicia-se no jogo de dados, em que ele arrisca, ganha e perde muito dinheiro.
começa a se sentir repulsa de si mesmo e da vida que estava levando. Deprimido, ele abandona tudo que tinha e vai-se embora sem avisar ninguém. Dias depois, à beira de um rio, Siddhartha tem uma nova tomada de consciência que o recoloca no seu caminho espiritual, mas agora com humildade.
E em seguida ele reencontra um balseiro que havia conhecido vinte e tantos anos atrás quando atravessara aquele mesmo rio para alcançar a cidade grande.
Siddhartha passa o restante dos seus anos vivendo com o balseiro, Vasudeva, um homem simples, de coração piedoso, de nenhuma instrução, mas grande sabedoria. Ao lado de Vasudeva, Siddhartha não mais busca obsessivamente a iluminação, procurando separar-se de um mundo impuro, separar-se de um eu impuro, nem distinguir-se dos homens tolos com suas paixões e apegos,
e sofrimentos. Ele reconhece em si mesmo esse homem tolo, sente-se irmão de todos os homens tolos e, por fim, descobre que a iluminação que buscava não o separa de nada nem de ninguém, mas o leva à unidade com tudo isso e o leva a amar tudo isso.
Assim como Siddhartha, nós podemos iniciar o nosso caminho espiritual com a mente, por meio de uma doutrina, conhecimentos, filosofias, disciplinas. E tomara que esse caminho nos traga um entendimento profundo do que é ser humano. Porque é só até aí que o caminho da mente pode nos levar a esse entendimento.
E tomara que o entendimento nos traga a aceitação sincera do humano que somos e tudo o que isso significa, de luminoso e sombrio, de bom e de mal, das dores e deleites de ser humano, de suas fraquezas e contradições. Porque a aceitação sincera desperta a compaixão, que é o caminho do coração.
Caminhando com o coração, se manifesta o divino em nós. Eu deixo com você agora a fala de Siddhartha que, para mim, resume o que é o caminho do coração. Tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo.
Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. Mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, mas contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas, com amor, admiração e reverência.
Que você esteja bem. Um abraço.
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