A Hora #102 - Mel taxado, cigarro roubado, samba politizado e PL rachado
Nesta edição do A Hora, José Roberto de Toledo e Thais Bilenky falam sobre Flávio Bolsonaro e a declaração de Paulo Figueiredo sobre o voto feminino, as tarifas dos EUA, a prisão do pastor Marcio Poncio e mais.
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- Participação política das mulheresVoto Feminino · Ataques a Michelle Bolsonaro e aliadas · Damares Alves e ameaças de morte · Flávio Bolsonaro e Vorcaro · Priscila Costa e o PL Mulher · Valdemar Costa Neto · Instituto Isabel · Convocação Hugo Souza
- Prisões e perseguição do Pastor TupiraniComplexo empresarial em torno do cigarro · Sonegação fiscal no setor de cigarros · João Barradas · Igreja da Nuvem · Crime organizado · Adilson 'Bacelar'
- Tarifas dos Estados UnidosLavagem de dinheiro do PCC nos EUA · Tarifas comerciais americanas (Seção 301) · Continuidade da pressão do PCC · Associação com Comando Vermelho · Dario Durigan · Flávio Bolsonaro e Vorcaro · Mel natural brasileiro · Madeira de coníferas
- Carnaval e Escolas de SambaInstrumentalização do carnaval pelo poder · Sambas-enredo sobre negritude e oposição · Carnaval e comportamento eleitoral sob a ditadura militar brasileira · Escola de Samba · Escola de Samba · Posicionamento do MDB · Cultura e política
- Copa do Mundo e eleiçõesHistórico de Copas do Mundo e eleições presidenciais no Brasil · Copa das Confederações de 2013
- Precedentes políticos e o SenadoRodrigo Pacheco
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Opa, Thaís!
Salve, salve, Toledo!
Eu sou José Roberto de Toledo e esta é A Hora, podcast sobre notícias aqui no UOL.
Eu sou Thaís Bilencki e toda semana a gente bate um papo sobre os principais assuntos do noticiário. Hoje em A Hora: o polêmico fastudo de Flávio Bolsonaro, o voto das mulheres e as aliadas de Michele Bolsonaro, Prisão do pastor do cigarro. Mel para adoçar a boca de Trump.
E a hora e a vez do samba de oposição.
Na hora extra desse sábado, um raio-x da letalidade policial.
Quer entender o que aconteceu essa semana?
Chegou a hora.
E aí, Thaís Blanck, tá tudo bem?
Tudo bem, Toledo. Queria primeiramente agradecer você que segurou as pontas aqui. Eu estive ausente no último episódio, tive uma questão, uma emergência. Saúde que foi contornada. Agradecer todo mundo que mandou mensagens muito carinhosas, eu recebi todas, obrigada. E dizer que o bom de fazer programa com José Roberto de Toledo é que ele resolve a bucha até sozinho, e com o nosso Charlot, que também contribuiu, segurou a onda aqui para nós.
Exatamente, mas você sabe que se fosse o oposto teria sido melhor, mas tudo bem, a gente espera que isso não aconteça.
Não, não vai acontecer, não teria sido.
Ô Thaís, Queria te fazer uma pergunta: mulher sabe votar? Não, porque, né, eu obviamente contei ironia, porque é tão absurda essa declaração a essa altura do campeonato, né? Nós vamos fazer um bloco inteiro sobre o assunto, mas eu queria, não queria deixar de dar o lugar de fala a quem merece.
Toledo, eu te diria o seguinte: ainda bem que mulher vota.
Não precisa dizer mais nada.
Vamos ao que interessa.
Vamos lá. Thaís Bilencki, você não estava aqui na semana passada e eu fiquei falando sobre a Michele Bolsonaro e todo o efeito do vídeo, etc., etc., criando hipóteses basicamente sobre a— porque ninguém sabe com certeza o motivo dela, né? Tem as desculpas oficiais, mas o que está por trás, por enquanto, não vi nada que me convenceu 100%. Você tem alguma apuração sobre essa história que saia do meu achismo e entre no jornalismo.
Ó, Toledo, o que que eu apurei em relação a isso? O que se seguiu aos vídeos da Michelle que você comentou na edição passada do programa foi muito pior do ponto de vista de imagem do Flávio Bolsonaro do que o vídeo em si, inicialmente pelo menos, né? A que que eu me refiro? Em particular, a declaração do Paulo Figueiredo, aquele comentarista que mora nos Estados Unidos e articula junto com Eduardo Bolsonaro as ações em relação ao governo Trump, a fala dele sobre mulher Mulher votar muito mal nas palavras dele, né?
Eu sempre gosto de qualificar quando a gente fala desse personagem que ele é um, ele não é um filhote da ditadura como eu disse, ele é um neto da ditadura, né? Neto do João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura militar.
Ele faz um programa na internet toda, toda hora, e nesse, nesse dia depois dos vídeos da Michelle, ele ridicularizou ela, falou muito duramente em relação a ela e disse que mulher vota muito mal, deu exemplos resultados de eleições nos Estados Unidos se baseando em votos femininos, sendo que a justiça eleitoral do Brasil e a dos Estados Unidos não revela gênero do voto, né? Então você não tem esse dado, você tem baseado em pesquisa de intenção de voto.
Então é uma demonstração de idiotice tão arrematada que para ela ser minimamente verdadeira ele teria que acreditar em pesquisa de intenção de voto, coisa que nenhum bolsonarista diz que acredita. Então me explica, como é que você faz uma afirmação dessa se você não tem elementos? E se os únicos elementos disponíveis é alguma coisa que você faz campanha permanentemente contra para desacreditar?
Pega em flagrante na sua contradição essencial.
Imbecilidade não tem limite quando se trata em filhotes da ditadura. Mas vamos ao que interessa, que é a consequência dessa fala. Que afinal, me explica uma coisa, qual que é o papel desse sujeito na campanha do Flávio Bolsonaro.
O comando que foi dado a partir da fala dele revela um dos papéis que ele exerce, né? Que a partir da fala dele, o enxame de ataques à Michelle e aliadas dela foi instantâneo, imediato e muito grande.
Foi apito de cachorro.
Que a ponto de a senadora Damares Alves, do PL também, do Distrito Federal, uma das grandes, talvez a principal aliada da Michele Bolsonaro, foi para a tribuna de uma comissão no Senado relatar que a filha— ela estava recebendo ameaças de morte violenta contra a filha dela, né, e contra ela também, enfim, a partir de todo esse movimento. E ela faz um discurso de encorajar as mulheres a continuarem na política em um ano que tem crescimento de candidaturas femininas esse ano de eleição, e que os homens que silenciam diante de ataques como esses são coniventes.
E não é uma coincidência que o Flávio Bolsonaro demorou 6 dias e só se pronunciou no mesmo dia em que a Damares Alves fez esse discurso, repudiando, segundo ele, veementemente a declaração do Paulo Figueiredo.
Veementemente, só se veemência for omissão, né? For sinônimo, porque não teve veemência nenhuma.
6 dias depois ele foi falar. E falou em que contexto, né? Ele falou num evento para mulheres, em que em tese a Michele Bolsonaro seria a estrela principal e a Damares Alves seria a segunda estrela principal do evento. Nenhuma das duas foi. Isso ele falou. E disse também, Flávio Bolsonaro, que o Paulo Figueiredo não faz parte da campanha, aspas literais dele.
O Paulo Figueiredo, só para lembrar, aparece na foto junto com o Flávio e o Eduardo e o Trump, não?
Sim, o Flávio admite, né, porque também não daria para negar, que sim, é uma pessoa que ajuda muito lá nos Estados Unidos, atua com o irmão dele, o Eduardo Bolsonaro, tanto que em diversos momentos importantes está ao nosso lado lá. Mas ele tentou circunscrever a atuação do Paulo Figueiredo a esses momentos importantes lá, né, na reunião com Trump, por exemplo. Mas o papel do Paulo Figueiredo vai muito além disso, né. Segundo a própria campanha do Flávio Bolsonaro no Brasil, uma pessoa, um aliado dele, me relatou, o O Paulo Figueiredo primeiro joga em todas as posições, então ele atua como um assessor de imprensa, como um porta-voz, como um articulador político, como um estrategista, ele faz um pouco de tudo.
Inclusive, o que ele faz também é escrever discursos para o Flávio Bolsonaro, como aquele que ele leu na CEPAC, aquela cúpula conservadora de extrema-direita que aconteceu em março, a última edição, que o Flávio foi lá no Texas, em que ele falou sobre a oportunidade para para o governo Trump ter no Brasil, ao eleger um aliado, no caso, ele próprio, em relação aos minerais críticos que os Estados Unidos poderiam explorar muito mais, terras raras no Brasil, com uma aliança estreita com o governo brasileiro.
Então ele fez todo aquele discurso do qual a gente falou e tudo mais. Esse discurso foi escrito pelo Paulo Figueiredo, por exemplo, para dizer um só.
Quer dizer, o Paulo Figueiredo é o cara que põe palavras literalmente na boca do Flávio Bolsonaro que mente e diz que ele não faz parte da campanha.
É, eu questionei o próprio Paulo Figueiredo, ele fala que faz apenas sugestões, mas quem decide o que vai falar é o Flávio Bolsonaro, né. O fato foi que na avaliação desses interlocutores, né, do Flávio Bolsonaro no Brasil, esse enrosco com o Paulo Figueiredo tem um potencial de estrago maior do que o rompimento público, porque o rompimento entre íntimos já estava estabelecido, mas o rompimento público da Michele Bolsonaro com ele.
É, a ver, né, porque a Michele dá mais, ela não recuou em nenhum momento, ela continua na ofensiva, né, mais vídeos apareceram e ela, mais do que isso, deu a entender que tem um escândalo para sair por aí envolvendo, digamos, nada, coisas nada políticas e protocolárias, envolvendo as festas, as orgias do Daniel Borcaro, ligados ao Flávio.
Depois que a Michele Bolsonaro anuncia faz uma reunião com Valdemar da Costa Neto, anuncia que tá deixando Pele Mulher, do qual ela era presidente, com o movimento com o qual, estrutura partidária com a qual ela filiou e lançou a pré-candidatura de milhares de, mais de mil mulheres pelo país. Ela postou, repostou uma publicação do Antony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro, falando, falando que homens que defendem a família participaram de festas.
E ele viu os vídeos desses homens participando de festas do Daniel Borcaro, a que é essa do astronauta, que mulheres aparecem tal e qual forma lá, etc. e tal, obviamente instrumentalizando o corpo e tal. Ele fez uma insinuação e ela repostou. E aí o Flávio Bolsonaro, ato contínuo, veste a carapuça e fala: ela tá desinformada, eu não participei. Mas ela não disse que ele participou. Assim, ele não teve tanta habilidade assim, para dizer o mínimo, né, ao reagir a essa história.
Paulo Figueiredo escrever essa resposta para ele.
Eu perguntei para o Paulo Figueiredo se o Flávio Bolsonaro tinha reagido bem, que eu tava curiosa entender a opinião do Paulo Figueiredo lá dos Estados Unidos. Ele falou que extremamente bem, porque ele foi muito doce e gentil com a Michele Bolsonaro, que era isso mesmo que ele tinha que ter feito.
Foi tão doce e gentil quanto ele, Paulo Figueiredo, foi com as eleitoras brasileiras.
Só que as eleitoras brasileiras, muito obrigada pela sua deixa, elas têm alguns trabalhos e articulações feitas de maneira eu diria que no mínimo mais profissional que a de alguns eleitores brasileiros. E a que que eu me refiro? Eu me refiro a alguns grupos ligados a Michele Bolsonaro e a Damares Alves, que trabalham para angariar aliadas por todo o país. Então o Flávio fez esse evento na quarta-feira com as mulheres. A Damares nem a Michele foram, como eu falei, mas então quem que foi?
Em nenhum momento você tem um vídeo mostrando a cara de cada uma e tal, mas a gente sabe de algumas pessoas. A primeira delas que Vou destacar 3 presenças, tá? A primeira delas é a Priscila Costa, que é, ou era, a vice-presidente do PL Mulher, braço direito da Michele Bolsonaro no PL Mulher, e pivô de todo esse problema, de toda essa crise, porque ela era vereadora de Fortaleza, acabou de assumir um mandato de deputada federal pelo Ceará por uma suplência, porque a titular perdeu o mandato e tal.
Então ela acabou de assumir, mas ela era a candidata da Michele a senadora no Ceará, em o evento da qual o PL fez uma aliança com o Ciro Gomes do PSDB, que deu origem a todo esse escândalo. Ela, Priscila Costa, assim que a Michele fez o vídeo e a reação, né, do bolsonarismo veio à tona, fez publicações em apoio à Michele, mas foi ao evento do Flávio Bolsonaro, o que pode ser lido de mais de uma forma, mas na interpretação de aliados do Flávio Bolsonaro, o objetivo era fazer com que o Valdemar da Costa Neto mantivesse ela na presidência Pele Mulher.
Uma vez que sai a presidente, a vice assume. E eles tinham clareza de que ela, nessa posição, poderia atuar até com mais liberdade do que a Michele pelas chapas, pela costura de chapas, e talvez até fazer confronto dentro do partido. Ato contínuo: Valdemar da Costa Neto extinguiu o Pele Mulher horas depois.
É um ato que diz muito. Quer dizer, os caras criaram o Pele Mulher, no momento que as mulheres começaram a exercer poder dentro do partido, eles extinguem o Pele Mulher.
Assim mesmo.
Isso diz tudo sobre quem é o Valdemar e quem é o Flávio.
A segunda e a terceira presenças que eu quero mencionar aqui desse encontro do Flávio Bolsonaro são Andréia Hoffmann Formiga e Andressa Bravin. Você nunca ouviu falar? Pois é, elas são as fundadoras do Instituto Isabel. O Instituto Isabel foi fundado em 2023, mas já cresceu bastante de 23 para 26, e ele tem como trabalho fundamental fazer lobby um lobby católico que se define como lobby católico conservador pró-vida no Congresso e na sociedade civil.
Pró-vida em português é contra o aborto, inclusive nos casos previstos em lei. Como é a atuação delas, desse Instituto Isabel, da Andressa e da Andrea? O trabalho delas é fazer um trabalho de capacitação de assessores legislativos pela pauta pró-vida desde a concepção, entre aspas, e fazer movimentos na sociedade civil, fazerem lobby nas agências quando tem aquelas portarias em relação a que o Ministério da Saúde teve que recuar em relação a acolhimento de mulheres e previsão de fazer aborto e tal.
Então elas têm todo um trabalho de lobby assim, mas elas têm esse trabalho de capacitação de assessores parlamentares. Tanto a Michele Bolsonaro quanto a Damares Alves foram assessoras parlamentares no passado.
É uma medida muito inteligente essa, porque como a gente sabe, e Só para citar um exemplo, teve aquela famosa reportagem do Tiago Malle no UOL mostrando como as justificativas que acompanham os projetos de lei apresentados pelos deputados são escritas por todo mundo menos pelos deputados, porque ele pegou o identificador dos arquivos de Word, que fica o autor original, quem era o dono do computador, e em geral são empresas de lobby ou são pessoas, por isso que treinar o assessor parlamentar é garantir que o texto que vai ser, porque do mesmo jeito que o Flávio não escreve o que diz, parlamentares como ele tampouco escrevem os projetos que apresentam.
Isso, exatamente. É um trabalho muito, às vezes, mais silencioso, mas muito efetivo, porque o volume de trabalho de um deputado e de um senador é grande o suficiente para ele delegar aos seus assessores o grosso da atividade parlamentar mais substancial, que é a relatoria de projetos, a autoria de projetos, o debate sobre filigramas, vírgulas e coisas mais fundamentais desses projetos. Não é uma estratégia inócua, eu diria, no mínimo.
E coincidências não existem, pero que las hay, las hay. Quem são os grandes apoiadores do Instituto Isabel no Congresso Nacional hoje? Tem dois nomes que estão muito próximos delas. O primeiro é a Damares Alves e o segundo é o Eduardo Girão, o senador pelo Novo, que assim como a Priscila Costa foi o pivô. A Michele Bolsonaro quer apoiá-lo para governador do Ceará. O Flávio fez uma aliança para apoiar o Ciro Gomes. E aí tudo desandou na relação entre eles a partir daí.
O que que a gente pode tirar dessa cena que está colocada, né, Toledo? Você tem esses agentes do radicalismo do bolsonarismo que trabalham como se fossem ainda uma extensão, uma continuidade, um pós-governo do Gabinete do Ódio, a partir sobretudo dos Estados Unidos, com Eduardo Bolsonaro, o Paulo Figueiredo e outros que estão lá, o André Portiúnculo, que tentou ser deputado federal, não conseguiu, enfim, são nomes que estão lá, que fazem um trabalho de radicalização permanente.
Então eles tentam evitar a moderação do bolsonarismo. Toda vez que tenta se construir uma imagem mais vacinada do Flávio Bolsonaro, eles atuam para impedir, atuam para atrapalhar e tirar da frente quem quer que esteja, seja um marqueteiro querendo moderá-lo, seja a Michele Bolsonaro querendo colocar outro tipo de pauta. E no caso não é nem menos radical que a deles, Mas eles entram e entram para atrapalhar. Então você tem de um lado esse funcionamento que, diga-se, tá no DNA do bolsonarismo, sempre esteve, inclusive quando era governo, inclusive antes de chegar ao governo, eles sempre operaram assim, expurgam aqueles que estão obstacularizando de alguma forma essas iniciativas, esses objetivos desse bolsonarismo.
E de outro lado você tem um grupo que se estruturou de mulheres com a Michele, com outras que entraram em rota de colisão com esse grupo sectário do bolsonarismo, mas que estão estruturadas a ponto de não poderem ser comparadas com uma Joyce Hasselman, que foi expurgada e esquecida. Elas têm um trabalho de base, de articulação com candidaturas, estruturas partidárias locais. Então você vai ver nas próximas semanas e ano não só a expulsão de células, mas eventualmente a formação de dois grupos.
É isso que você tá colocando, eu acho Muito importante, porque pode parecer uma estupidez sem tamanho o Flávio Bolsonaro e seus porta-vozes oficiais e oficiosos abrirem guerra contra Michele Bolsonaro, porque fala: bom, o que que ele tem a ganhar com isso? Só vai perder, vai perder voto feminino, vai ganhar antipatia do eleitorado mais religioso, identificar mais com a Michele. Mas eles já fizeram isso no passado com sucesso. Ninguém lembra da segunda esposa do Bolsonaro, a mãe do Jair Renan, que não é a mesma mãe do Eduardo e do Flávio.
Ela tentou uma carreira política e foi aniquilada justamente por essa turma. Então eles acham que, provavelmente devem achar que poderiam repetir a mesma estratégia com o mesmo sucesso. Só que tem uma grande diferença, né? Michele permanece esposa do Jair, é quem cuida dele, que aparentemente não tá na melhor pior situação de saúde. Ele, no caso, ele teve até a sua prisão domiciliar confirmada pela justiça, pela Procuradoria-Geral da República.
Exato. Provavelmente o Supremo vai seguir essa orientação, porque já tinha seguido em situações similares no passado, o que me diz que a situação de saúde dele não é grande coisa, porque se fosse boa, eu acho que a chance dele voltar para o presídio seria grande. Como não é, ninguém quer se arriscar ver o pior acontecer na cadeia, sob tutela do Estado. Exatamente. Então eu acho que tem um erro de cálculo grave, grave para o Flávio, né, mas bom para os adversários, de achar que pode aniquilar uma adversária radicalizando o discurso no momento em que justamente o Flávio precisava fazer o oposto, né, tentar angariar o voto feminino, onde ele é deficitário.
Eles não acreditam nas pesquisas de opinião, mas elas mostram que ele vai muito pior entre o eleitorado feminino do que no Julinho, e também na eleitorada evangélica, onde ele andou oscilando negativamente também nas últimas pesquisas. Então eu sinceramente não consigo entender como eles acham que pode sair um saldo positivo dessa radicalização.
E de terem trabalhado com a Michelle como só uma futura ex-mulher do pai, que foi como trataram ela, em vez de reconhecer o papel que o próprio Valdemar sempre reconheceu, querendo que ela tivesse liderando ou presente na chapa presidencial, o O próprio Valdemar deu pele e mulher, a sala para ela, assessoria, estrutura partidária. Eles, pelo relato dela, não só não legitimaram tudo isso como tentaram de alguma forma driblá-la e diminuí-la.
Eu acho que é um cisma mesmo, eu acho que não tem reconciliação possível e que é uma disputa que vai continuar, não vai passar essa eleição e vai continuar nos próximos 4 anos até 2030.
Sim, o próprio Valdemar disse que a Michelle não vai participar da campanha, ela não quer participar da campanha, e não tem certeza se ela vai sair candidata ao Senado pelo Distrito Federal, como eram os planos.
Continuaremos falando disso no futuro, ou até mesmo nesse próprio episódio.
Vamos só mudar de bloco que a gente continua. Preso nessa quinta-feira o pastor Márcio Pôncio, também conhecido como o pastor do cigarro. Ele fuma? Provavelmente não, né, Toledo?
Ele faz propaganda do cigarro e ficou com esse apelido porque ele tem, ele e a família dele, tem um grande complexo empresarial em torno do cigarro. Ele ficou rico, ficou milionário graças ao cigarro. E por quê? Ele tem fábrica, ele tem distribuidora, importadora, e muitos processos na justiça por sonegação fiscal relacionados a esse setor da economia brasileira. Foi engraçado porque as primeiras, ele foi, foram 3 mandados de prisão, né?
Teve um mandado de prisão contra o Bacelar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, mas que já tá preso, foi só para reforçar, não tira ele daí não. E teve um contra um bicheiro que também já tá preso, que foi preso numa operação policial anterior. E ninguém a princípio destacou a prisão do pastor Márcio do Cigarro porque parecia uma figura menor em comparação aos outros dois presos, né, um grande bicheiro e o ex-presidente da Assembleia Legislativa.
Só que o Márcio Pôncio Ele é uma figura importante do ponto de vista empresarial. Há uma tentativa de enquadrá-lo como um devedor com Tomás, que tem como maior exemplo o Ricardo Magro, né, do grupo do Refit. A filha dele é deputada estadual eleita pelo Rio de Janeiro. Ele foi candidato a deputado federal na última eleição, não conseguiu se eleger, ficou como suplente. Já tinha tentado na eleição anterior também sem sucesso, ou seja, Ele é uma figura ligada ao mundo político.
É um político, mas sem mandato.
É, mas conseguiu eleger a filha. A família é toda de influencers. Há quem chame eles de Kardashians brasileiros, porque eles ficam expondo a vida pessoal, traições e exames de DNA, o diabo a quatro. E tem essa posição, aspas, liberal, quando se trata da religião. Que a igreja dele chama Igreja da Nuvem, é uma dissidência de uma outra igreja pentecostal, e eles têm posições que não são comuns para as igrejas pentecostais, como por exemplo dizer que oficiaria um casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Mas isso é mais um, digamos, um diversionismo do que o que realmente interessa, porque ele fala assim: "Não tem nada ilegal que eu faço aqui." Perguntam: "Mas vem cá, você incentiva o consumo de cigarro?" fumar, né? Muitas igrejas pentecostais são contra porque é um vício. E ele diz: "Não, se isso é ilegal, se eu não fabricar, outra pessoa vai fabricar." Só que a prisão dele, em conjunto com a do bicheiro, que eu me recuso a chamar como parte da imprensa carioca chama de o contraventor Adilcinho.
Contraventor é uma ova, né? Isso é uma coisa que só existe no Rio de Janeiro, contraventor. O cara é criminoso. Crime organizado e o bicho tão intrinsecamente ligados, né? E ele é acusado pela polícia de ser o chefe da máfia do cigarro. Que que é a máfia do cigarro? A máfia do cigarro é praticamente responsável, segundo o levantamento de associações do setor que combatem isso, como por exemplo o Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade, praticamente 1 em cada 3 cigarros fumados no Brasil são ilegais.
Ou eles são contrabandeados ou eles são falsificados, ou é um contrabandeado falsificado, é tudo que você possa imaginar, todas as combinações possíveis de fazer sacanagem com cigarro são feitas por essa, e é uma indústria, realmente uma indústria que tem uma rede de distribuição, o Pastor do Cigarro ele tem uma distribuição nacional, não é só no Rio de Janeiro, ele é baseado no Rio, mas tem uma distribuição nacional, tem Eles têm dezenas de empresas, ou deles ou próprio dos filhos, dos genros, da família, que é um esquema também conhecido, né, muito parecido nesse sentido com o do Ricardo Magri da Refit, e atua num ramo em que você sonegar é absolutamente definitivo para o seu sucesso empresarial.
Por quê? Porque o ramo de cigarro é altamente tributado. Tem tributações de, sei lá, 70%. Então se você sonega, você tem uma vantagem enorme sobre a sua concorrência, entendeu? Por isso que o crime organizado prefere, dá preferência a esse tipo de setor, que você, se você comete um crime, ele é mais lucrativo. É, você tem uma vantagem enorme sobre os demais, né? Então o que que a gente olha, pega esses dados aqui, claro, ressalvas, né?
O cara só é acusado, foi preso, mas não tem condenação, tem todo direito de defesa, pode se safar, embora já tenha vários outros processos aí por sonegação. A estrutura empresarial da família é muito parecida com a estrutura da família Amaro. Tem lá uma holding para cuidar de todos os negócios, tem vários tipos de empresa dividindo as ações, tanto na fabricação quanto na distribuição, no caso específico do cigarro. Tem uma holding só para imóveis, também uma característica.
E tem uma empresa para ter um avião. No caso, é um avião de uma marca suíça e que é um monomotor turbo-hélice, mas é um monomotor turbo-hélice muito especial porque ele é capaz de levar uma carga de uma tonelada e meia, tem uma autonomia de 2.800 km, ou seja, você praticamente cobre quase todas as principais distâncias entre capitais ou cidades fronteiriças do Brasil com outras regiões, e foi comprado em 2021. E os últimos voos que eu vi, aparentemente alguém tava de férias porque ficou entre Porto Seguro e Búzios.
Mas tem muitos voos que partem de São José do Rio Preto, vão para o Rio de Janeiro. Enfim, interessante investigar essas rotas aí. O que chama atenção é a conexão política. Ele se aproximou do Bacelar e do grupo político do Bacelar que foi preso na primeira vez por vazar informações para o TH Joias, né, história que você contou aqui, que era alvo de uma operação da Polícia Federal, e agora está sendo preso com outras acusações envolvendo esse mundo da máfia do cigarro.
Mostra o quê? Um padrão de estrutura de como você entra na economia formal usando essa estrutura empresarial. No caso aqui tem um fator que sofistica e dá molho para a história, Que toda teologia dessa Igreja da Nuvem é a prosperidade individual baseada no empreendedorismo. Então, você tem uma metáfora em vários níveis, do material ao espiritual nesse caso, né? E essa imbricação dos negócios, da sonegação fiscal com o ramo empresarial, com religião e com a política é a síntese do que nós estamos vivendo hoje no Brasil.
É a síntese, exatamente, é o suco de Brasil e é explosivo, né? Que quando você começa a juntar, ligar os pontos, você se depara com escândalos da dimensão do Master.
Nós estamos gravando isso às 2:47 da tarde da quinta-feira e, incrivelmente, até agora não vazou o relatório da Polícia Federal que deu base para os mandados de prisão. Isso é muito incomum, o que me leva a crer que deve ter muita gente ainda não citada nada que aparece nesse relatório.
Certamente tem. Agora a gente tem outro gole desse suco de Brasil para o próximo bloco, que tá lá nos Estados Unidos também. A gente podia voltar para lá.
Antes de ir para os Estados Unidos, Thaís, você me mandou uma coisa por WhatsApp hoje que eu acho que vale a pena mencionar, né? A senadora, mãe do JHC, que é prefeito de Maceió, capital de Alagoas, senadora ela por Alagoas, apresentou uma notícia crime contra a família, contra o ex-governador Renan Calheiros, atualmente senador e ministro, foi ministro até pouco tempo, e acusando ele de ter feito um esquema para beneficiar a Refit, esse grupo do Ricardo Magro, que a gente contou aquela famosa operação dos navios que traziam nafta dizendo que era diesel, etc., usando o porto de Alagoas como porto de entrada.
A gente relatou isso, mas ficou só nisso, e curiosamente você me mandou a notícia crime que ela apresentou, que não quer dizer nada, porque o Ministério Público pode arquivar sumariamente ou não, pode pedir investigação, mas enfim, porque ela cita o Ahora, né? Porque a gente fez o relato do Madeleine Grace, que foi um dos navios usados pelo grupo Refit para fazer a operacionalização do esquema, que acabou arrestado. E de fato ele tinha feito a entrada formal pelo porto porto de Maceió.
Mas nada disso tem a ver com a notícia crime que ela apresentou, que é uma ilação da cabeça dela. Não temos nada a ver com isso.
Apresentou ao Supremo, já foi recebido, e aí o processo seguirá como todos os processos.
É isso aí, let's go to Washington!
Vamos embora!
Thaís Bilenk, enquanto estamos gravando aqui. A manchete do UOL é uma reportagem da nossa correspondente lá nos Estados Unidos, a Mariana Sanchez, dizendo que o PCC lavou dinheiro em 8 cidades dos Estados Unidos, o que gerou a sanção do Tesouro americano sobre 2 cidadãos brasileiros em cujo nome aparecem várias empresas que operam tanto lá quanto cá. Isso daí já gerou uma polêmica porque o ministro da Fazenda, Dario Durigan, saiu criticando essa medida e E aparentemente esse vai ser um tema recorrente nas próximas semanas e na campanha eleitoral.
A sanção que o governo americano aplicou a essas pessoas já é a primeira decorrência da classificação do PCC e do Comando Vermelho como facções terroristas, Organizações Terroristas Estrangeiras, né? Foi isso que permitiu aos Estados Unidos entrarem com essas sanções. E aí o que elas geram é restricções de transações econômicas financeiras dessas pessoas. A acusação que se faz é que esse esquema organizado por essas pessoas sancionadas nos Estados Unidos, em 8 cidades nos Estados Unidos, servia para lavar dinheiro do PCC com criptomoedas.
E o governo brasileiro já reagiu prontamente, como você se manifestou, porque uma vez que começam a se aplicar essas sanções, você vai atingindo mais e mais mais outros setores da economia formal brasileira que não necessariamente poderiam ser vinculadas ao crime organizado pelos critérios da legislação brasileira. Esse é o nó da questão. Mas o que que indicou essa iniciativa do governo americano? Indicou que essas ações para cima do Brasil estão já deflagradas.
E a grande preocupação do momento, além da questão das facções terroristas, que Era uma enorme preocupação, são as novas tarifas baseadas na tal Seção 301 da Lei de Comércio Americana, que prevê, em casos de competição, concorrência desleal e outros mecanismos que atrapalhem o comércio americano, prevê sanções e sobretaxas a produtos importados pelos Estados Unidos. O prazo do governo Trump para aplicar essas novas tarifas termina daqui a duas semanas, no dia 15 de julho, e tá todo mundo articulado e preocupado, tanto os setores que podem vir a ser taxados quanto O governo americano, o governo brasileiro, desculpa, e a oposição brasileira preocupados com o que pode vir por aí, ao ponto de o próprio Flávio Bolsonaro ter suplicado em nova documentação, em nova comunicação com o governo Trump, que o governo americano não dê essas novas tarifas porque isso daria vitória política para Lula em ano de eleição.
Ou seja, seria um tiro no próprio pé. Do que que a gente está falando? De que setores que poderiam vir a ser prejudicados com novas tarifas, que causariam um efeito rebote para oposição no Brasil se essas medidas forem aplicadas. A gente falou aqui no programa algumas semanas atrás, poucas semanas atrás, sobre a diversificação das exportações do Brasil, que é uma iniciativa que foi acelerada depois do primeiro— diversificação geográfica, né, não depende— diversificação de mercados.
E aí, né, um investimento maior e atenções concentradas na União Europeia, com um acordo entre União Europeia e Mercosul. A gente ele falou um pouco desse cenário e de fato, segundo dados que a gente obteve exclusivamente da Apex Brasil, que é a Agência Brasileira de Exportação, alguns setores foram muito rápidos na diversificação e alguns dos quais estão inclusive com uma dependência muito residual do mercado americano.
Ou seja, o efeito da sobretarifa de 25% sobre setores vai ser pequeno porque o que vai para os Estados Unidos é quase irrelevante.
É, então sei lá, o setor de açúcar e etanol de petróleo, 2,5%, vai para os Estados Unidos. Setor de máquina e equipamento, que tem valor agregado, 9,5% vai para os Estados Unidos. É alguma coisa, mas não dá para dizer que depende do mercado americano. Setor de couros tem uma dependência até que moderada, 14%, mas ele tá diversificando muito para China e para Itália. Então também é um setor que tá mais revigorado. E lembrando o grande número do qual a gente tá falando aqui, a dependência das exportações brasileiras para os Estados Unidos caiu de 19% 2% em 2005 para 10% em 2025. E o objetivo é diminuir o máximo possível para não ficar à mercê do Trump.
Bom, continua, mas é que eu fico ouvindo esses números e falo: o que que o cara tá ganhando com isso a não ser encher o saco do Lula na eleição? Porque os Estados Unidos estão perdendo o poder de barganha junto ao Brasil, não ganhando. Mas tudo bem, continua.
Não, mas é perfeita essa sua colocação, porque esse é o argumento dos setores de alto riscos da economia brasileira. Esse exatamente, porque os produtos que têm a maior dependência do mercado americano muitas vezes respondem por um terço quase da importação americana. E a gente já viu o que aconteceu com celulose, suco de laranja, que a imposição de sobretaxa encareceu esses produtos também do café para o consumidor americano, e o Trump recuou na hora ao perceber que a conta ia sobrar para ele.
Então, da mesma forma que isso já aconteceu, outras coisas podem acontecer com, por exemplo, os setores apontados pela Apex Brasil nessa contabilidade aí, que tem uma dependência quase absoluta do mercado americano, são madeira de coníferas, que é a madeira do pinheiro, da araucária, que é muito usada, é chamada madeira macia, muito usada para construção civil, móveis, ou seja, fundamental. É um setor que tem 97,6%, 98% do que é exportado vai para os Estados Unidos.
E isso significa 30% de tudo que os Estados Unidos importam dessa madeira de coníferas.
Quer dizer, apesar de estar ali do lado do Canadá, que é um grande produtor de coníferas, não é fácil substituir 30% da sua importação do dia para a noite.
Não é fácil. Da mesma forma, o sebo bovino. Sebo bovino é bovino, ovino e caprino. É usado na indústria de cosméticos. Sabão, sabonete, detergente, cosméticos em geral. Animal. 96% do que o Brasil exporta vai para os Estados Unidos, mas isso representa quase 35% do que os Estados Unidos importam. Eles não podem brincar de uma hora para outra com isso, porque senão vai encarecer o detergente, o sabonete.
É, se eu faltar shampoo lá para os americanos graças à falta de gordura animal brasileira.
Aí você tem outros setores que tem uma alta dependência, tipo filé de tilápia. Filé de tilápia, 95% do que o Brasil exporta para os Estados Unidos, isso corresponde a 28% do que eles importam. Então também pode ter um problema, é menos central, mas é muito importante também.
Essa eu achei engraçada: praticamente 1 a cada 3, aspas, "St. Peter" americanos vem do Brasil. Quer dizer, é a nossa tilápia.
Fresco, refrigerado ou congelado, tá?
É engraçado porque a tilápia tem um nome que é "St. Pierre" em algum lugar, "St. Peter" nos Estados Unidos, "St. Peter", né? Quer dizer que o "St. Peter" é brasileiro, fala português.
Fala português. Só que o que acontece? Se os Estados Unidos têm uma dependência importante desses produtos brasileiros para o seu próprio mercado interno, você tem argumentos para demover o governo americano de sobretaxá-los. E são indústrias muito estruturadas, com entidades de classe, representantes nos Estados Unidos, tem uma negociação para acontecer com um argumento na mesa quase indiscutível.
Ou seja, tem bons lobistas.
Agora, o problema mesmo, para quem, né, talvez eleitorado nordestino, né, talvez para quem se preocupa com essa cadeia de produção, mas talvez não seja para o Trump, é o caso, por exemplo, do mel, o mel natural. 84% do mel exportado do Brasil vai para Estados Unidos.
84% do mel brasileiro que é exportado vai para os Estados Unidos.
Wow! E 15% do que os Estados Unidos importam vem do Brasil. É menos do que sebo bovino, por exemplo, mas é relevante.
E não é uma cadeia industrial, não é um insumo, ele vai para o consumidor final, imagino, né?
É, o mel brasileiro exportado é basicamente todo ele orgânico. Ele tem uma qualidade superior à qualidade do mel indiano e do chinês, por exemplo. Então é um tipo de produto que que ele pode não ser majoritário no mercado americano, mas ele tem um nicho de consumo específico. E a preocupação, e inclusive por isso ele já tem medida anti-dumping nos Estados Unidos, ele já está sobretaxado. Então uma nova taxa sobre isso pode encarecer esse produto a ponto de ele virar uma iguaria no supermercado americano.
A preocupação do Brasil, de sua parte, é que o mel que é exportado é feito em agricultura familiar, de pequeno produtor, localizado sobretudo no no Piauí, no Nordeste. Então é um nicho, é um setor que causa mais preocupação para o governo brasileiro, porque vai afetar uma cadeia de agricultores familiares que não tem lobby nos Estados Unidos para representá-los, que não tem argumento para dar em inglês com o Trump lá na Casa Branca, enfim.
E deve ter mais dificuldade para fazer uma diversificação das suas exportações também.
E tem mais dificuldades, diretamente. É uma cadeia mais artesanal, vamos dizer. Então isso é um pouco importante. Então o Lula falou que ia levar lá para o Trump jabuticaba para acalmá-lo. Ele leva também um pouquinho de mel dos produtores do Piauí para ver se remove ele dessa intenção.
Ou seja, o Trump vai conseguir atrapalhar a vida dos agricultores familiares do interior do Piauí, mas não vai afetar afetar em nada as grandes empresas que têm um lobby bem montado lá.
É assim, por exemplo, metade quase dos pneus novos de borracha usados em ônibus e caminhão que são exportados do Brasil vão para os Estados Unidos. Isso representa menos de 5% do que os Estados Unidos importam. Então ele poderia dar um chapéu nos pneus brasileiros, mas os pneus brasileiros têm, são fabricados por multinacionais tipo Pirelli, que tem mercado no mundo inteiro. Então para menos importante, né? A preocupação é qual é o efeito em cada uma dessas cadeias, sejam elas cadeias mais estruturais da economia, sejam menos, como você vai lidar um a um com esses fabricantes e produtores.
Mas o ponto é que o próprio Flávio Bolsonaro tá muito preocupado. Esse prazo tá expirando, o cara fez um documento formal para o governo americano pedindo de novo para o Trump não fazer isso.
Quem sabe ele ganha uns votos lá no Piauí, né?
Ciro Nogueira agradece.
É isso Aí, muito bom, muito interessante. Viva as abelhas brasileiras!
Viva as abelhas! Abelha, que é a espécie animal mais, se não a mais, certamente uma das mais resistentes, que tá aí desde os dinossauros segurando firme e forte, mas correndo sério risco aí graças às mudanças globais.
Nos Estados Unidos tá faltando abelha.
Parem as máquinas!
Muito bem, vamos falar de samba agora. Vamos Vamos sambar um pouquinho.
Vamos. Toledo, não vou te pedir para cantar olá, fica tranquilo. Eu quero mesmo é que você explique que história é essa do samba da oposição.
É isso aí, para felicidade dos ouvintes eu vou poupá-los de uma tentativa de reproduzir sambas-enredo aqui. A gente tá dando aqui em primeira mão mão um artigo escrito por 3 pesquisadores brasileiros que ainda está sob revisão dos seus pares, está lá como uma publicação científica, deve ir ao ar em breve, mas ainda está inédito. E é um artigo muito interessante porque ele liga política e eleição à escola de samba e samba. Sambas em Redo.
O título tá em inglês porque o artigo foi escrito em inglês por uma publicação estrangeira, chama— eu vou fazer uma tradução assim livre, né, que é Carnaval e comportamento eleitoral sob a ditadura militar brasileira. Título é Carnaval and Electoral Behavior Under Brazil's Military Dictatorship. Os autores são Caio Andrade de Souza Gonçalves, César Zucco, que já foi entrevistado aqui no A Hora, e Fábio Caldeira.
O que eles fizeram?
Muito bem, eles pegaram todos os sambas-enredo que eles conseguiram localizar e supostamente tem a maior base de letras de samba-enredo já reunida, 1.874 sambas-enredo, e analisaram o conteúdo dessas letras para entender, até com um pouco de ajuda de inteligência artificial, muito supervisionada do que se tratava, separando em grupos, fizeram uma análise por escola de samba, tudo no Rio de Janeiro, né? E a grande novidade: associaram isso ao comportamento eleitoral nas áreas vizinhas às sedes, às quadras das escolas de samba, ou seja, a comunidade em torno daquela escola para analisar o comportamento eleitoral deles.
Por que que eles fizeram isso? Porque há aquele mito de que o samba e o carnaval são ópio do povo, né, já dizia o velho Carlos. Mas será verdade isso, né? Será que exaltação ao regime— porque a escola de samba no Brasil tem uma tradição desde a época do Getúlio de ser instrumentalizada, né, seja com censura, seja com domínio financeiro ou até político, como uma arma político-eleitoral de quem tá no poder. Mas o que eles descobriram é muito bacana.
Eles descobriram, não é uma relação de causa e efeito, não tem, dá para falar em causalidade, mas tem uma forte associação entre escolas de samba que tinham ou que tiveram tiveram uma preferência por enredos, né, portanto letras de samba enredo ligadas, por exemplo, à negritude, ao movimento antiescravagista ou qualquer questões relacionadas à raça, cor e raça, tiveram muito mais votos de oposição no colégio eleitoral mais próximo, na zona eleitoral mais próxima daquela escola do que as que fizeram letras preponderantemente exaltando a ditadura ou a democracia racial brasileira ou a falta de conflito racial no Brasil ou coisa que o valha, entendeu?
A conclusão final aqui do artigo é de que você, mesmo sob ditadura, mesmo sob censura, você não precisa fazer propaganda de um partido de oposição, pregar voto ou defender uma bandeira muito explícita recita com mensagem eleitoral, para que aquela comunidade que tá influenciada por essa cultura de exaltar temas relativos, por exemplo, a inserção do negro na população brasileira, isso vai influenciar que ela tem uma visão mais oposicionista.
E o melhor exemplo, segundo os autores, eu pedi para eles destacarem uma escola de samba que tenha feito isso com sucesso, foi o do Negreiro, que é uma escola da Zona Norte do Rio de Janeiro, muito tradicional, e que já em 1957 apresentou um samba-enredo chamado Navio Negreiro. 3 anos depois levou à avenida um chamado Quilombo dos Palmares. E durante a ditadura, quer dizer, isso foi em 57, 60, antes, portanto, da ditadura que começa em 64, mas continuou na ditadura.
Então, em 71, "Festa para um Rei Negro", e em 78, "Do Yorubá à Luz, à Aurora dos Deuses", ou seja, sambas-enredo exaltando a cultura negra, cultura vinda da África, a resistência, no caso dos quilombos, etc., uma crítica ao escravagismo. E isso levou com que o voto em candidatos do MDB, que era o partido consentido da oposição na época da ditadura militar, Ditadura militar fosse até 10 pontos percentuais maior do que em outras áreas, ou que não tinham escolas de samba, ou que tinham escolas de samba que exaltavam a ditadura, de exaltação à ditadura.
Hoje a Mangueira tem claramente um viés de esquerda, né, a comunidade. Mas na época a Mangueira tinha, teve muito mais votos mais, digamos, devem ter deixado os generais felizes do que o Salgueiro.
Ah, é mesmo?
Exato. Então, e você não vê essa diferença eleitoral a favor perto da comunidade da Mangueira na época da ditadura como você via perto da comunidade do Salgueiro. Então, o que eu acho interessante aqui, que é uma das conclusões dos autores, é que mesmo sob ditadura, mesmo sob censura, é possível fazer política sem ser lícito, sem ficar sujeito aos rigores do censor e influenciar uma comunidade contra os interesses de quem está no poder.
E aí dá para extrapolar: será que isso vale, por exemplo, para igrejas? Será que isso vale para outros tipos de associação cultural ou de associação civil? Aí eu acho que vão ser os temas das próximas pesquisas e dos próximos artigos dos autores.
Não, e mais do Acho que isso vale a reflexão, a partir desses dados, sobre o papel da cultura na política. Ou seja, a política influencia a cultura consumida e produzida em determinado grupo, ou o contrário, a política é reflexo da cultura produzida e consumida de determinado grupo? Eu tendo a achar isso, eu tendo a achar que um caldo cultural dele origem caminhos políticos que desembocam eventualmente até em política eleitoral, mas tradicionalmente falando, mas que o poder da cultura de fazer transitar ideias, sim, ele é mais eficiente para ser aproveitado pela política do que o oposto.
É, dá uma certa esperança, né, porque significa que mesmo num ambiente em que você tem poderosos tentando impor a sua mensagem política, você pode ter resistência com sucesso, né? Como está demonstrado aqui no caso do Salgueiro, e não só, várias outras escolas de samba cariocas tiveram uma tradição parecida, é que Salgueiro talvez seja a mais conhecida das que tiveram esse tipo de comportamento e esse tipo de resultado na urna.
Em tempo de Copa do Mundo, A campanha da seleção brasileira vai ter interferência na eleição ou não?
Historicamente, o efeito é nulo. A gente tem essa coincidência de eleição presidencial com Copa do Mundo no Brasil desde a eleição de 1994 para presidente, e não tem nenhuma relação, porque você tanto tem presidentes que se elegeram, se reelegeram quando o Brasil foi campeão, campeão quanto o contrário. E, por exemplo, 2002, Brasil foi campeão do mundo, candidato da situação Zé Serra tomou uma surra do Lula na eleição presidencial. 94, Brasil foi campeão mundial e elegeu o candidato da situação.
Daí, a partir daí, se criou uma teoria. Só que em 98 o Brasil chegou à final, perdeu do jeito que perdeu, o governo perdeu. Eles são daí, fala, tá vendo? 98, sim, o governo ganhou, exatamente, o governo ganhou. Ganhou, daí a teoria acabou em uma Copa. Daí veio 2002 para confirmar que não tinha nada a ver, oposição ganhou com o Brasil campeão. 2006, o governo ganha eleição e a seleção perde. Então não tem nada a ver uma coisa com a outra, apesar das teorias encontrarem.
Agora, para mim, o melhor exemplo de que nada tem a ver com nada é 2013, as Copas, a Copa das Confederações no Brasil. Dilma Rousseff vaiada no estádio, se reelege no ano seguinte e Depois sofre o impeachment.
E 2014 não vai ter Copa, lembra? Era movimento e tal. É, exatamente. Então, sem Copa ainda vai dar mais trabalho para os autores aqui tentarem ver se futebol tem... Até porque, né, que depois das bets aí o problema passa a ser criminal, né?
Fica a dica para os sambistas brasileiros, compositores e poetas. Bom, Toledo, agradeço você ter respeitado minha ausência e pulado o torneio.
Era o mínimo, né, Thaís? Eu perder para mim mesmo ia ficar feio também.
É, você quis evitar um vexame maior. Então agora sim, retomamos as falas supostamente ditas por ex-presidentes do Senado. Quem vem lá, Horácia?
Opa, Toledo! Salve, Thaís! Vamos finalizar o torneio com frases supostamente ditas por ex-presidentes do Senado. Cuidado, o personagem da semana é Rodrigo Pacheco. Frase 1: O equilíbrio entre os poderes é uma conquista permanente. Frase 2: A política não pode ser movida pelo ressentimento. Frase 3: Quem pretender retrocessos na democracia será apontado como inimigo da nação.
Vamos lá, espera aí que eu vou refazer uma resposta aqui que eu mudei de ideia, que eu sou muito volúvel, tá?
Tá.
Vamos lá, só para dizer que está 3 para mim, 2 para Thaís e 2 para Horácia. A primeira frase que eu mudei para ficar igual a da Thaís é verdadeira para mim e para mim também.
Na segunda eu acho que é falsa e eu acho que é verdadeira. A terceira eu acho que é verdadeira e eu acho que é falsa.
Que torna o torneio muito emocionante, porque você pode virar, inclusive, né?
Fala aí, Horácia.
Resposta: as frases 1 e 2 são falsas, a frase 3 é verdadeira e foi dita durante discurso no Senado em 2021.
Nossa, que pegadinha da Horácia!
Thaís Bilencki foi para 3.
Não, fui para 4.
Você foi para 4? É verdade, você Virou.
Você foi para quanto?
Para zero. Fiquei com os três.
Errei tudo. Empatou com você.
Então eu ia empatar com você porque eu ia acertar a primeira frase, resolvi mudar na última hora e dancei.
Tá parecendo o jogo do Congo com a Inglaterra, uma virada histórica no campeonato. E eu ganhei porque ela falou que foi o último.
Parabéns, faz bilhete.
Eu sou a campeã. Eu tô na Copa do Mundo, aqui é penta, aqui é hexa, aqui é sei lá o quê, bicampeonato, sei lá.
Isso é bi ou tri, sei lá.
Não, gente, a torcida vai ao delírio.
Que derrota, eu tô me sentindo, tô tão prestigiado quanto o técnico da Serra Leoa, da Congo, não lembro mais agora. Melhor, tô que nem aquele técnico argentino da seleção uruguaia que precisou pagar a própria passagem para conseguir sair dos Estados Unidos.
Tá difícil para você também, né?
Tá difícil, tá difícil, tá duro aqui. Bom, Thaís, vou fazer... Você sabe que elogio em boca própria é vituperium, então vamos a um vituperium aqui. A Rebeca Raposo escreveu no YouTube: "Parabéns, Toledo! Apesar da falta da querida Thaís, você mandou bem." É isso mesmo, mandou bem mesmo. Obrigado.
Cíntia, no Zap, só para marcar: "Adorei a participação do Charlot e deixo um beijo de sororidade para Thaís." Beijos, Cíntia, muito obrigado.
A Cristiana escreveu no Spotify: Toledo, excelente no episódio de hoje, ainda mais com a luxuosa participação de Charlot, mas que falta faz a nossa querida Thaís. O oposto também seria verdadeiro, ou seja, vocês dois formam uma combinação tão perfeita quanto arroz e feijão. Abraços. Arroz e feijão, Thaís Belen!
Eu gosto de arroz e feijão.
Você gosta mais de arroz ou de feijão?
Antes era feijão, agora eu mudei para o arroz, mas eu tô Voltando para o feijão de novo.
Se decida, porque se você vai ser um, eu vou ser outro. Tá bom, eu sou feijão então.
Cláudia no Spotify: Nessa semana ouvi muito sobre esse episódio da Michelle, mas foi a primeira vez que fiquei sabendo que foi uma reação atrasada de 6 meses. Obrigada pela contextualização.
É verdade, né? Continua sendo uma reação de 6 meses, porque faz 6 meses que essa história aconteceu, pelo menos a desculpa oficial lá, que a crise no Ceará, né? Mas Vamos lá, o Renato escreveu no YouTube: quero nomes, quais os nomes das pessoas que desaprovam o Pix? Elas existem? Preciso verificar, acho que estão mentindo. Olha, você sabe que eu conheço, eu tenho uma história para contar. Eu tava na Bahia durante as férias no começo desse ano, final do ano passado, e o dono de uma sorveteria na beira da praia assim me contou que chegou lá um senhor com os netos e quando ele disse que só aceitava Pix, o cara virou para ele e falou: você é esquerdinha, né? Uau! Então você vê que existem pessoas contra o Pix.
Nossa, você é esquerdinha demais!
É demais! Eu falei para ele que devia ter deixado o cara de graça, apesar dele ter muito, muitos meios para pagar o sorvete.
A Patrícia no Zap: será que o Toledo tem um gráfico de desempenho dos jogadores da seleção para saber qual vai ser o próximo a se lesionar? Seria interessante.
Olha, a gente não acerta nada nem para o futuro, nem para o passado, com muita dificuldade. Quanto mais prever quem vai se lesionar.
Ó, domingo tem jogo, qual é tua aposta?
Eu não quero me posicionar sobre esse assunto, Thaís Belen.
Você tá mal no bolão?
Eu desisti do bolão. Você desistiu? Eu confesso que eu comi bola, e comi bola no bom sentido, tá?
Deixei para Tá, eu não, eu sigo firme e forte, eu vou seguir meu critério decolonial aqui, que é o meu critério supremo para decidir resultados de jogos.
Então, contra Noruega, os Vikings, 2 a 1 para o Brasil, fique claro, para o Brasil, tá? Eu acho que vai ser 2 a 2 e vamos para pênaltis.
E aí, aí é loteria, né?
Para usar uma frase Muito bem, até a próxima semana!
Até lá!
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